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Como atiçar a brasa

 


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maio 28, 2010

Pinacoteca reúne ouro que inspirou Eldorado por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 28 de maio de 2010.

Exposição exibe coleção de 291 artefatos feitos antes de colonização

Peças, com caráter religioso, foram trazidas em apenas quatro malas de Museu do Ouro de Bogotá

A partir de amanhã, algumas das peças que levaram os colonizadores espanhóis, no século 16, a idealizarem o mito de Eldorado, a cidade toda construída em ouro, serão exibidas na Pinacoteca do Estado, na região da Luz.

"Ouros de Eldorado - Arte Pré-Hispânica da Colômbia" apresenta 291 artefatos do Museu do Ouro de Bogotá, trazidos em apenas quatro malas. Dispostos em seis grandes salas, são 251 peças em ouro e 40 objetos arqueológicos em cerâmica.

"Buscamos apresentar um olhar estético para a metalurgia pré-hispânica", conta Clara Isabel Botero, diretora do Museu do Ouro.

Um Pororo, de 600 d.C., e uma pequena folha de palmeira em ouro, criada entre 100 a.C. e 500 d.C, são apontados por ela como os grandes destaques da mostra. Ambos deixaram a exposição permanente do museu, reinaugurado há cerca de dois anos, após uma completa reforma e ampliação. Sua coleção, com 52 mil peças, 34 mil em metal, é a maior coleção do tipo no mundo.

O pororo, que pela forma afilada e elegante foi apelidado Brancusi, em referência ao escultor romeno, era um recipiente usado pelos índios para misturar cal na coca.

Já a palmeira, com seu formato achatado e longo, foi forjada para possibilitar a reflexão de luz. "Existem duas particularidades entre os objetos: foram feitos para emitir som e luz", explica Botero. Eles possuíam caráter religioso ou "simbólico", como define a diretora e, por isso, muitos têm pingentes ou uma área que deixa refletir a luz do sol ou do fogo.

Posted by Marília Sales at 4:44 PM

Mostra da Capital discute nomes que expandiram limites da arte, Jornal do Comércio

Matéria originalmente publicada no Jornal do Comércio em 26de maio de 2010.

O Santander Cultural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, reuniu videoinstalações, vídeos, objetos, fotos, filmes e livros que remetem ao "fazer" de 16 artistas que modificaram concepções e influenciam a cena cultural contemporânea desde os anos 60 e 70 do século passado na mostra "Horizonte Expandido", que começa nesta quarta-feira (26) e segue até 15 de agosto.

A mostra conta com obras dos norte-americanos Allan Kaprow, Bruce Nauman, Chris Burden, Dan Graham, Dennis Oppenheim, Gordon Matta-Clark, Nancy Holt, Robert Smithson e Vito Acconci, do brasileiro Hélio Oiticica, da cubana Ana Mendieta, do holandês Bas Jan Ader, do alemão Joseph Beuys, da sérvia Marina Abramovic do austríaco Valie Export e do argentino Victor Grippo. Assim como era intenção dos autores, suas obras e registro delas seguem convidando o público a participar e se manifestar.

Após apreciar a exposição, o visitante poder discuti-la com mediadores e até com os curadores André Severo e Maria Helena Bernardes, no hall de entrada e saída do edifício. Ambos são do Projeto Areal, que há dez anos investiga a experiência direta entre artista e público a partir de incursões pelos campos, praias e lagoas, e do contato direto com moradores do litoral sul gaúcho, ambiente considerado por eles "símbolo dos limites cada vez mais imprecisos na arte como disciplina na atualidade". Essa busca já foi registrada em filmes e livros.

"A ideia é convidar todos a pensarem com a gente a criação desses artistas que colocaram questões com que a arte trabalha até hoje", explica Severo. "Eles viveram uma espécie de crise feliz em busca da interlocução direta com seu contemporâneo, o vizinho, o transeunte", acrescenta Maria Helena.

Assim, "Horizonte Expandido" não se presta apenas à contemplação, mas promove uma espécie de encontro dos artistas com o público. Embora sem a presença física deles, de todos se vê o rosto e se ouve a voz.

Posted by Marília Sales at 4:40 PM

Sem limites por Michele Rolim, Jornal do Comércio

Matéria de Michele Rolim originalmente publicada Panorama no Jornal do Comércio, em 26 de maio de 2010

O que é arte? Para que serve a arte? Ela é feita para ficar isolada dentro de um museu? Essas e outras questões serão discutidas na exposição Horizonte expandido, que abre hoje e segue até o dia 15 de agosto, no Santander Cultural (Sete de Setembro, 1.028 - de terça a sexta, das 10h às 19h; sábados, domingos e feriados, das 11h às 19h). A mostra reúne 72 obras de alguns dos nomes mais importantes nas artes visuais nas décadas de 1960 e 1970.

A iniciativa parte da comemoração dos 10 anos do projeto Areal. Concebido em 2000 pelos pesquisadores e artistas Maria Helena Bernardes e André Severo, propõe a realização de trabalhos artísticos normalmente não financiados por instituições convencionais do circuito de arte contemporânea. “Os trabalhos financiados ou feitos a convite devem ter um caráter expositivo, e a nossa proposta é que não tenha uma finalidade predeterminada, ou seja, que a gente comece uma experiência artística sem saber como ela vai terminar”, explica Maria. A dupla optou por viajar pelo Interior e Litoral do Rio Grande do Sul documentando através de livro e filmes as impressões dos lugares e das pessoas. “Vamos para os lugares e nos deixamos impressionar. Traduzimos isso, seja na literatura, cinema e artes plásticas. O projeto é isso: o não saber”, enfatiza Severo.

E é essa mesma dupla que assina a curadoria. Segundo eles, a proposta é mostrar as referências pelas quais o projeto se guia. “Quando fomos convidados, pensamos por que escolheram logo nós, que desistimos de trabalhar com exposições há algum tempo. Mas tínhamos uma dívida com o movimento que nos influenciou”, argumenta Severo.

Eles contam que receberam carta branca para montarem no espaço do Santander as obras - instalações, vídeos, imagens, fotografias e documentos - como os artistas queriam que elas fossem vistas. Para isso, não há mediação convencional, e sim uma biblioteca e documentos referentes a esses artistas, além de pesquisadores para falar sobre o assunto. “Queremos que as pessoas vivam suas próprias experiências”, defende Maria Helena. Também haverá 10 percursos (nas quartas pela manhã), nos quais os curadores caminharão pelo espaço expositivo conversando sobre a vida e obra dos artistas presentes. “Vamos falar sobre o sentido que esta exposição tem para a cidade e para nós”, acrescenta Severo.
Voz, face e escrita

Ao total, são 16 artistas reunidos na exposição Horizonte expandido. A mostra reúne obras de nove coleções internacionais, como Fundación Cisneros, Eletronic Arts Intermix e James Cohan Gallery. Estão presentes obras significativas para a história da arte, como o filme Spiral Jetty, de Robert Smithson, com sua célebre intervenção paisagística. “Esse autor deixou uma carreira promissora como escultor para realizar outro tipo de experiência, que não se limitasse à necessidade de expor”, explica Maria Helena Bernardes, responsável pela curadoria ao lado de André Severo.

Também estão expostas as atividades de Allan Kaprow, o criador do happening, e séries fotográficas e filmes de Ana Mendieta, Marina Abramovic e Chris Burden, em que se apresentam experiências dramáticas, seja pelo caráter político ou pela provocação dos próprios limites físicos, emocionais e existenciais.

O público gaúcho terá acesso, pela primeira vez, a obras de Gordon Matta-Clark, Nancy Holt, Vito Acconci, Dennis Openheim e os precursores da performance filmada, VALIE EXPORT (em letras maiúsculas mesmo) e o holandês Bas Jan Ader, além de performances caracterizadas por movimentos repetitivos protagonizados por Bruce Naumam. “Um dos destaques é a produção de Jan Ader que levou em conta tão radicalmente o conceito de arte e vida que acabou desaparecendo no mar quando estava realizando o seu último trabalho”, conta Maria.

A iniciativa também dá destaque para Victor Grippo, principal artista conceitual argentino. Além de Dan Graham e Vito Aconcci, que assinam filmes que marcaram a história da performance conceitual. Joseph Beuys e Hélio Oiticica ganham ênfase nos depoimentos e testemunhos de suas trajetórias marcadas por profundo entendimento da arte como forma de vida. “Tivemos o cuidado de escolher obras em que os artistas são uma presença viva na sala de exposição, o público pode ouvir a voz, ver a face e ler o manuscrito. A intenção é promover um encontro de fato com o público”, diz Severo. A entrada é franca.

Posted by Marília Sales at 4:16 PM

maio 27, 2010

A arte do encontro por Fábio Prikladnicki, Zero Hora

Matéria de Fábio Prikladnicki originalmente publicada no Segundo Caderno Zero Hora em 26 de maio de 2010.

Mostra “Horizonte Expandido”, no Santander Cultural, traz nomes que renovaram a arte nos anos 1960 e 70

Sentados ao redor da mesa de uma pequena biblioteca instalada no meio do museu, os curadores afirmam que o público não vai apenas assistir a obras de arte. Irá viver um encontro com os artistas. Em vídeo, foto ou áudio. Um dos grandes eventos de artes visuais do ano, a mostra Horizonte Expandido, que será aberta hoje ao público no Santander Cultural, apresenta obras – a maioria delas inéditas na Capital – de nomes fundamentais das décadas de 1960 e 70 como Robert Smithson, Allan Kaprow, Joseph Beuys e Hélio Oiticica. São 72 trabalhos de 16 artistas que redefiniram as fronteiras da arte.

É o caso de Kaprow, que criou o manifesto Como Fazer um Happening (os visitantes podem inclusive levar para casa um exemplar do livreto traduzido para o português), em que explica o conceito que ele mesmo criou para se referir a uma performance com a participação do público. Por meio de fones de ouvido, é possível ouvir a voz do artista lendo o texto, em inglês, em uma gravação de 1966.

A exposição reúne nomes que inspiraram o projeto Areal, que celebra 10 anos, com coordenação de André Severo e Maria Helena Bernardes – artistas gaúchos que assinam a curadoria de Horizonte Expandido.

Com perfil internacional e produção local, a mostra pretende aproximar público e artistas. A avaliação é que o mundo das artes tem afastado as pessoas de um contato direto com as obras. Daí a proposta de enxugar a atuação de mediadores e o uso de textos explicativos.

– As obras da exposição têm sua densidade, mas não acreditamos que densidade seja sinônimo de hermetismo – afirma André Severo.

Muitos destes artistas escolheram trabalhar fora do espaço tradicional dos museus, realizando intervenções no espaço natural – caso de Robert Smithson, um dos destaques – ou performances na rua, como a artista VALIE EXPORT (assim mesmo, em maiúsculas). O quanto o material exposto é uma obra em si ou o registro de um processo faz parte das reflexões.

– Estas obras pedem que nos desprendamos dessa interrogação e recebamos o que está sendo proposto. São artistas que procuram uma ampliação do conceito de arte – diz Maria Helena Bernardes.

Posted by Marília Sales at 6:54 PM

Paredes derrubadas, Zero Hora

Matéria originalmente publicada no Segundo Caderno do Zero Hora em 22 de maio de 2010.

Peças de Joseph Beuys, Robert Smithson, Allan Kaprow, Hélio Oiticica e outros antipapas da arte contemporânea podem ser conferidas pela primeira vez em Porto Alegre a partir de quarta-feira no Santander Cultural

Há momentos que representam mudanças de rumo tão significativas na história da arte que acabam expandindo a própria ideia do que seja uma obra. Foi assim nas décadas de 1960 e 1970. Quem imaginaria, pouco tempo antes, contemplar uma enorme intervenção em forma de caracol, com 457 metros de comprimento, feita de barro, sal e rochas, no Grande Lago Salgado em Utah, Estados Unidos?

O filme de 1970 em que aparece essa intervenção do americano Robert Smithson (1938 – 1973), intitulado Spiral Jetty (e que é, em si mesmo, uma outra obra), está entre as principais atrações da exposição Horizonte Expandido, em cartaz no Santander Cultural, na Capital, a partir de quarta-feira. Com curadoria de André Severo e Maria Helena Bernardes, a mostra traz 72 trabalhos de 16 artistas, entre eles o alemão Joseph Beuys e o brasileiro Hélio Oiticica, que marcaram a transição entre a arte moderna e a contemporânea, renovando até mesmo a terminologia estética. É o caso do americano Allan Kaprow (1927 – 2006), que criou o termo happening para se referir a atividades envolvendo artista e público que borram as fronteiras entre arte e vida cotidiana. Contando com obras (em sua maioria) inéditas na Capital, Horizonte Expandido tem origem no projeto Areal, idealizado por Maria Helena e por Severo, que completa 10 anos de atividade, com diversos livros e filmes produzidos. A seguir, três motivos para conferir a mostra no Santander Cultural:

Para entender o vocabulário da arte contemporânea

Desde o início do século 20, diversos movimentos, como o futurismo, o surrealismo e outros “ismos” exploraram novas dimensões para a arte além dos suportes tradicionais, como pintura, escultura e outros. As performances, por exemplo, incorporaram o tempo como um elemento indissociável das obras – presente na música e no teatro, mas até então ausente das artes visuais. A partir da década de 1960, essa e outras experiências foram retomadas e desenvolvidas. Muito do que hoje se vê com certa naturalidade sob o rótulo genérico de arte contemporânea representou, na época, um choque.

– O contexto da arte era completamente diferente. Estamos falando de uma sociedade pós-industrializada, que descobria novas mídias, como o vídeo – afirma Maria Helena Bernardes.

Para descobrir o que os artistas (e não apenas as obras) têm a dizer

Uma das surpresas reservadas pela mostra Horizonte Expandido é que, no momento em que deparar com as obras, o público vai encontrar também os próprios artistas – em vídeos e gravações de som. Muitos dos trabalhos são registros de suas reflexões sobre arte. Hélio Oiticica (1937 – 1980), único brasileiro na exposição, não está representado pelos objetos que o tornaram célebre, como os parangolés, mas por documentos (fotos e textos de sua autoria) e pela projeção do filme Heliophonia, de Marcos Bonisson. O alemão Joseph Beuys (1921 – 1986), um dos nomes mais importantes do século 20, está em um filme de duas horas de duração em que fala diretamente à câmera, ou melhor, ao público.

Como esses artistas buscaram fugir de espaços de exposição sacralizados, como os museus, um dos desafios dos curadores foi encontrar um ponto de contato.

– Os trabalhos que não poderiam estar em um museu deixamos para comentar diretamente com o público – diz André Severo.

Pensando nisso, os curadores farão 10 passeios guiados por partes da exposição (confira datas no quadro). Também haverá um espaço de leitura com uma biblioteca de cerca de cem volumes à disposição dos visitantes.

Para contemplar a arte sem se preocupar se é arte

Uma das ideias que norteiam a exposição é que o conceito de arte às vezes se impõe como uma dificuldade entre o público e a obra. Nesse caso, a resposta para a manjada pergunta “Isso é arte?” seria: não importa. A proposta está em sintonia com os artistas, que procuraram escapar de gêneros e rótulos. Ao perceber que o termo happening estava institucionalizado no mundo das artes, o mesmo Allan Kaprow que o havia cunhado o deixou de lado, passando a usar uma palavra sem carga histórica – “atividade” – para se referir a suas ações. Os curadores da mostra procuraram seguir a ideia: diferentemente de exposições que procuram relacionar os artistas por meio de um conceito, Horizonte Expandido propositadamente não oferece uma proposta de leitura.

– Hoje temos uma mediação institucional muito densa entre o público e as obras. Há muita explicação, muito texto, muito folder. Queremos tentar mostrar essas obras como foram pensadas no primeiro momento pelos artistas – afirma Maria Helena.

Posted by Marília Sales at 6:43 PM | Comentários (1)

Eles colocaram a arte em xeque por André Dib, Diario de Pernambuco

Matéria de André Dib originalmente publicada no Caderno Viver do Diário de Pernambuco em 26 de maio de 2010.

Com nove coleções internacionais, algumas inéditas no país, exposição Horizonte expandido propõe um contato com o pensamento de artistas que ampliaram o conceito da arte

Porto Alegre (RS) - O ímpeto libertário dos anos 1960 teve tanto impacto no mundo da arte a ponto de alguns artistas se dedicarem a questionar sua essência, seu modo de produção, sua finalidade. A mostra Horizonte expandido, instalada desde ontem na capital gaúcha, reúne 16 criadores que ampliaram conceitos sobre o que é arte, para que ela serve e o significado do artista. A iniciativa, patrocinada pelo Santander Cultural, trouxe nove coleções internacionais, algumas inéditas no país. Longe de qualquer intenção sacralizante, a proposta é fazer contato não com as obras, mas com o pensamento de Robert Smithson, Bruce Naumann, Gordon Matta-Clark, Dan Graham, Ana Mendieta, Victor Grippo, Nancy Holt, Joseph Beuys, Bas Jan Ader, Valie Export, Dennis Oppenheim, Allan Kaprow, Marina Abramovic, Vito Aconcci, Chris Burden e Hélio Oiticica.

VIVER11_1.jpg Foto: Espolio do Bas Jan Ader e Patric

A exposição está montada em um palácio dos anos 1930 há 10 anos ocupado pelo Santander Cultural. Mesmo para quem está longe para fazer uma visita,vale a pena conhecer seu conceito, reaplicável em qualquer realidade. Ao contrário da maioria das exposições de arte, Horizonte expandido não conta com visita guiada, roteiro, catálogo, material pedagógico ou qualquer outra "bengala" da estrutura expositiva convencional. A não ser pelo amparo teórico de uma pequena biblioteca com obras de referência, o visitante é convidado a decifrar a mostra por conta própria. "É uma museografia voltada para o pensamento. Por isso, eliminamos o máximo de interpostos", diz o artista gaúcho André Severo, curador da mostra ao lado de Maria Helena Bernardes.

"Reunimos artistas referenciais para a nossa formação, por terem questionado a função social de sua arte. Eles colocaram a arte em xeque de tal maneira que ficou difícil seguir em frente. Então passaram por cima deles", diz Severo. "Não pensamos em obras, mas em atitudes, pessoas movidas por interrogações existenciais", diz Helena.

A primeira reação dos curadores, no entanto, foi negar o convite. Como trazer para o engessante espaço do museu artistas que trabalharam processos fluidos, efêmeros? A solução foi reunir registros desses momentos, em filmes, fotografias e textos. Em alguns casos, é possível ouvir depoimentos gravados dos próprios artistas. "Eles romperam com a ideia de que o artista produz para expor. E 99% dos artistas ainda pensam assim. Há uma pressão para que todo o mundo da arte contemporânea caiba nesse sapatinho", diz Maria Helena.

Nesse sentido, Robert Smithson é um dos principais nomes e ganhou espaço central na mostra. Em 1970, sua busca pelo confinamento geológico em paisagens inóspitas gerou obras intrigrantes como uma gigantesca espiral de água e areia intitulada Spiral Jetty. "Ele procurou sua identidade longe da moldura social, que conforta a persona do artista", diz Maria Helena. Uma sala inteira é dedicada a Joseph Beuys, que desenvolveu o conceito de escultura social, da vida enquanto arte. Se tudo está em mutação, é preciso moldar o pensamento, o mundo.

Horizonte expandido não traz objetos consagrados, como os parangolés de Hélio Oiticica. Prefere privilegiar imagens e textos dele, que falam diretamente ao espectador. Como no filme Héliophonia (2002), de Marcos Bonisson, colagem de imagens raras feitas ou protagonizadas pelo artista carioca. "Queremos desmitificar Oiticica. Ele está se tornando o grande produto da arte brasileira, mas tudo que ele não queria era ser objeto de fetiche.".

De Alan Kaprow, criador do happening e pioneiro da performance, a mostra traz áudio, uma série de fotos e curiosos folhetos intitulados Como fazer um happening. Da artista ioguslava Marina Abramovic foi trazido um vídeo de 1980, em que explora os limites de uma relação a dois. Em outros vídeos, é possível assistir Gordon Matta-Clark, o fatiador de edifícios, em ação; Oppenheim experimentando o transfer drawing; o touch-cinema de Valie Export e o bed place de Chris Burden.

- O repórter viajou a convite do Santander Cultural.


Posted by Cecília Bedê at 4:57 PM

Yuri desnuda a alma e o moletom por Natércia Pontes, Revista Aldeota

Íntegra da entrevista feita por Natércia Pontes originalmente publicada na Revista Aldeota em 27 de maio de 2010

O artista plástico Yuri Firmeza fala sobre políticas culturais, transitoriedade e zumbis.

Vestido de camisa branca e moletom puído, Yuri Firmeza recebe a gente no pequeno apartamento que divide com a tia, em um condomínio do Jardim Bonfiglioli — sua base na capital paulista.

yuri_4.jpgFoto: Patrícia Araújo

Andarilho, Yuri tem medo de avião, mas vive viajando entre Fortaleza, São Paulo, Belo Horizonte, Lima, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Curitiba etc. Suas andanças pelos céus de brigadeiro da América Latina têm uma justificativa: dar conta de um mestrado em Poéticas Visuais na USP, participar de projetos de residência, ministrar workshops mundo afora e figurar em exposições em museus da estirpe do MAM do Rio de Janeiro, do Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, do Nano Stockholm, na Suécia, do Centro Cultural de Belas Artes, no Peru e, mais uma vez, etc.

O artista cearense que criou em 2006 a persona nipônica de Souzousareta Geijutsuka, — e revelou que alguns jornalistas pagam pau pra gringo e mal acessam o Google, que dirá as fontes —, dorme em um quarto minúsculo apinhado de livros, dvd’s e móveis das Casas Bahia. Devido às dimensões enxutas do espaço, optamos por fazer a entrevista no playground.

O sol se punha quando sentamos no gira-gira colorido, ladeado por um escorregador e uma gangorra, sobre um chão de grama artificial. Um menininho com fuça de Peter Pan interrompia vez ou outra a entrevista com seus gritos. Além do rio Pinheiros, o clima onírico nos deixou à vontade para versar sobre clichês tão necessários, como a Morte e a Arte. De quebra, com a naturalidade de um performer setentista e sem medo de transgredir o que já foi transgredido, Yuri infringiu as normas de atentado ao pudor do condomínio e ficou nu.

Que sorte a sua chamar-se Yuri Firmeza. É um nome elegante, de artista. Se você se chamasse Wesley Pereira, por exemplo, usaria um pseudônimo?

(Risos) Ai, Natércia! Tem que pensar, né, cara... Wesley Pereira? Cara, que pergunta troncha! (Silêncio) É difícil responder porque...

Você não quer ofender os Wesleys?

(Mais risos) Não é isso, é porque já que não tenho esse nome, eu não tenho como me transportar ou me pensar no lugar desse nome, ou no lugar de Yuri Firmeza, mesmo. Ainda que muita gente ache que “Yuri Firmeza” seja um pseudônimo, mas é o meu sobrenome real, que eu uso como nome de artista. Mas, Wesley Pereira? Eu até gosto de Pereira e... ah, acho que, na verdade, eu não sei responder essa tua pergunta...

Você já respondeu! Como você descobriu que é artista?

Eu não sei bem o que é ser artista. Eu não sei em que momento começou, porque é algo tão imbricado com a própria vida, que não tem como descolar do momento que sou ou que não sou. Do ponto de vista da criação, é algo que vem sendo semeado há muito tempo. Quando eu era criança, já tinha uma afinidade com a criação, desde as brincadeiras até os cursos que fiz, de desenho, escultura, música... sempre gostei de fazer barulho. No ponto de vista da legitimação por um circuito de arte, isso vem ocorrendo há pouco tempo. Mas o artista legitimado não é necessariamente um artista legítimo. Tem um texto do Enrico (Rocha), um texto curto e bem bacana, que fala sobre isso.

Yuri, você acha que todos somos artistas ou só alguns são artistas?

Eu acho que ser artista é uma forma de se posicionar no mundo. É muito mais uma questão ética do que estética. Ser artista é mais do que criar. Existem artistas que são rotulados como artistas e a meu ver não são artistas. O artista que quer ser "artista", stricto sensu, tem que estar de alguma forma inserido no mercado de arte — no sentido de um status social. E quando quer ser artista muitas vezes é justamente o momento que deixa de ser artista. Eu não acredito que todos são artistas... O Andy Warhol disse que todo mundo terá seus quinze minutos de fama, eu acho que aí ele está falando de espetáculo, de mídia. E eu não entendo que ser artista é estar em evidência, dentro do métier. A meu ver o artista tem que romper com os paradigmas do que é ser artista.

Yuri, é mais difícil mentir ou dizer a verdade? O artista precisa mentir?

Pode soar muito clichê, mas penso que a estética, e a ética, estão para além do moralismo impregnados nessas — e por essas — duas palavras: mentira e verdade. Se estamos de acordo que o instinto moral é um hábito, e se concordarmos com a máxima de Mário Pedrosa, a arte como exercício experimental da liberdade, parece-me ficar claro que a arte e o artista se aproximam mais de operações contra as forças do hábito do que de debater-se contra esses termos gerais e caducos... o potencial da arte não é a mentira ou a verdade, é a invenção.

Você viaja muito, certo? Isso te atrapalha ou te ajuda a criar? As cidades são coadjuvantes ou simples cenários da tua narrativa?

Isso me ajuda e me atrapalha ao mesmo tempo. Me ajuda porque eu adoro estar em trânsito, porque eu acho que é uma oportunidade de me colocar como estrangeiro — no sentido da ingenuidade de um olhar investigatório que tateia, que busca essa imersão no estranhamento do lugar. É um espaço que não foi “cartografado”ainda e onde construo minhas referências nessa relação direta entre corpo e lugar. De outro modo, me sinto um pouco atrapalhado por essas viagens, porque às vezes elas são tão de passagem que é impossível estabelecer uma “conversa” com a cidade. E quando eu falo de lugar eu falo também de pessoas. Mas esse processo de “inventar uma cidade” não é propriamente vinculado com o tempo que passo nela. Às vezes eu fico um mês numa cidade e não estabeleço nenhum vínculo com o lugar e noutros casos em fração de segundos já “borrei” e fui “borrado” pelo lugar.

Você tem medo de parar de ser interessante ou de se interessar?

(Silêncio) Tenho mais medo de parar de me interessar. Até porque nem acho que sou interessante! Parar de se interessar é como viver morto. Tem tanta gente zumbi por aí, né?

Tem, mas você é bastante interessante. Você acha que a arte está para todos?

Bom, como falar isso sem soar arrogante? A arte é elitista, sempre foi. É feita por uma elite e infelizmente para uma elite. Não acredito que seja uma imagem caricata: é fato. Eu acho que a arte não tem interesse nenhum nesse discurso de arte para as massas, ela não pretende e nem deve ser demagógica. Mas eu acho que o acesso deva ser para todos, só que a partir de uma invenção do público. Não essa formação hipócrita de público que transforma o trabalho ‘mastigado’ dos artistas nesse discurso diluído para as massas, mas a invenção de um público que se dá principalmente pela educação. A demanda de um público não pode ser ponto de partida para a criação. Também acho que outras políticas culturais devem correr além das políticas de editais — para evitar que caiamos em um clientelismo. Ter acesso à arte não é só ter museu gratuito, mas inventar um público que alcance essa discussão e que esteja de fato envolvido. Tem um trabalho do Antoni Muntadas que resume bem o que quero dizer: “Atenção: percepção requer envolvimento”.

Você esvazia a cabeça entre um projeto e outro ou está sempre tendo idéias — e por isso fala tão rápida e articuladamente?

Lembrei uma história de que o Macalé havia surtado na época da Ditadura e ficou muito aflito porque não conseguia mais produzir. Aí ele fez umas sessões com a Lygia Clark, que disse pra ele: “Não lute contra seu silêncio. É o momento que você vai estar consigo, o momento de uma lacuna necessária para a criação, não lute contra nada”. Eu acho isso super lindo. Tenho silêncios enormes, brancos, que eu adoro. São momentos saudáveis de decantação do que já foi feito... Há épocas na vida que eu estou com quinze projetos e sou obrigado a pensar constantemente, numa espécie de tagarelice mental. Sou forçado a pensar por uma questão vital, por uma questão de vida ou morte. E assim sou reinventado constantemente.

Eu sei que você é amante do cinema. Conta o último filme bom que você viu.

Eu revi Alphaville do Godard, mas não vou falar dele porque dez mil pessoas já falaram...

Ah, tá. Você quer soar o mais entendido o possível, né?

(Risos) Não. Mas o último filme que eu vi mesmo, e revi pela sexta vez, foi “Acidente”, de Cao Guimarães e Pablo Lobato. O documentário feito no interior de Minas que, como um jogo de dados, constrói um poema através dos nomes dessas cidades que eles visitam. É um documentário, que é cinema, é vídeo-arte, é poesia, é tudo isso, mas não é nada disso porque implode essas categorias.

Você tem muito segredos? Diz pra mim o que você acha que acontece depois que a gente morre.

Eu tenho uns segredos que até eu desconheço. Mas trabalhos e amigos sempre acabam me revelando alguns deles ou fazem com que eu acabe inventando coisas que vão se tornar segredos. Ultimamente tenho feito umas experiências com sal grosso — dormindo com as mãos enfiadas em sacos de sal grosso — o que tem me colocado numas relações enigmáticas minhas com outros Yuris. Mas eu sou um cara transparente, eu não tenho muitos segredos, não. Agora sobre a morte... Eu acredito muito em energia, que quando se morre a gente passa a ser só energia, a gente entra em outra frequência, em outra dimensão.

Tomara que façam vernissage nessa outra dimensão, né?(Risos)


Posted by Marília Sales at 4:32 PM | Comentários (4)

Traço barroco por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo, em 27 de maio de 2010

Em entrevista à Folha, artista carioca Adriana Varejão lembra vozes e saunas da infância e reclama
da "armadilha" do mercado



No celular, aparece a mensagem. "Aqui ventou muito esta noite", escreveu Adriana Varejão. "Te espero."


Foram sete palavras carregadas de drama antes do encontro em seu ateliê no Rio.


Num dia de céu de chumbo, ela ouve Cartola enquanto tenta fazer as luzes saírem pelas bordas na pintura de um prato gigantesco para a sua próxima mostra.


"Sou meio samba", diz. "Muito samba e choro."


Também é teatro. Ela é a artista que canibalizou o barroco, reencenando o gênero em suas paredes de azulejos e carne cenográfica. Rasga suas telas para revelar convulsões vermelho-sangue.


Um livro recém-lançado analisa as ruínas que usa para construir seu trabalho, o que ela resume como "construção da desconstrução".


São textos de Silviano Santiago, Lilia Moritz Schwarcz e outros intelectuais que tentam mensurar as dimensões de Varejão. Falam do azul da artista, de como ela conseguiu fugir à tradição concreta e arquitetar uma via estética com paredes de charque.


Na superfície, estão quadrados assépticos. Pelas bordas, vazam entranhas de poliuretano. A sangria congelada começou com "Ruínas de Charque", há dez anos, e é hoje sua obra mais cara.


Uma dessas paredes foi arrematada em abril por R$ 551 mil num leilão em São Paulo.


No balanço geral, sua obra se valorizou 5.000% na última década, mais do que qualquer outra artista brasileira.


"Estou longe de ser uma unanimidade", dispara.


"Tem dias que acho tudo uma maravilha, outros em que acho tudo um horror."

São polos opostos também na sua obra. "Lido com esquartejamento, carne e sangue", diz. "Preciso desse teatro, claro e escuro, a assepsia em contraponto à volúpia, é uma estratégia barroca."


Na vida real, Varejão aprendeu outra estratégia.


Não está nos vernissages, estampada em jornais, badalando em festas. Passa os dias no Jardim Botânico, escondida no ateliê em forma de caixa, aberto à mata.


"Quando senti que ia cair nessa armadilha, eu resisti", diz. "É uma sinuca de bico."


Armadilha, no caso, é o jogo nada teatral do mercado.


São valores reais inflados num ritmo tão acelerado que parecem de mentira, cifrões que ofuscam qualquer obra.
Beatriz Milhazes, sua colega de geração com ateliê perto dali, foi a primeira brasileira alvo do furacão especulativo, batendo US$ 1 milhão num leilão nova-iorquino.


"Ficou chato ter uma etiqueta de valor no trabalho dela", diz Varejão. "Você para de ver a pintura e passa a ver outra coisa no lugar."


Talvez por isso, Varejão quer distância do dinheiro.


Mesmo casada com o megacolecionador Bernardo Paz, o homem por trás do Inhotim, onde investiu R$ 400 milhões em arte contemporânea, ela vive no Rio e vai a Brumadinho, no interior mineiro, uma vez a cada 15 dias para ver o marido.
"Distância não atrapalha, ajuda", diz Varejão. "Nosso casamento está ótimo."



CONSTRUÇÃO


Tanto no Rio quanto em Minas, suas obras ficam num cubo suspenso, espaços de linhas retas projetados pelo arquiteto Rodrigo Cerviño.


É uma casca neutra e impenetrável para a latência sanguínea de seus trabalhos, do mesmo jeito que brigam as entranhas das obras com a pele plástica do lado de fora.


"É como se tivesse dentro de uma igreja barroca e ouvisse uma buzina lá fora", descreve. "Tento fazer essas associações inesperadas."

Mas, voltando ao próprio passado, não vê traumas por trás das chacinas emparedadas de agora. "É afetuosa minha relação com arquitetura.


Quando era pequena, tinha a sensação de estar dentro de um corpo, a casa era um ser e havia pessoas nas paredes."


Depois dos quartos cheios de vozes, ela grudou os olhos nos azulejos das saunas que visitava com a mãe.


"Foi a primeira vez que vi mulheres peladas naquele contexto de intimidade", lembra. "Ali estava aquele chão azulejado, isso ficou preso na minha cabeça."


ADRIANA VAREJÃO - ENTRE CARNES E MARES
AUTORES Silviano Santiago, Lilia Moritz Schwarcz, Karl Erik Schollhammer, Luiz Camillo Osório, Zalinda Cartaxo
EDITORA Cobogó

Posted by Cecília Bedê at 2:12 PM

maio 25, 2010

Soldado das artes por Pedro Rocha, O Povo

Matéria originalmente publicada no caderno Vida & Arte do jornal O Povo em 17 de maio de 2010

No centenário de Jean-Pierre Chabloz, o Mauc abre exposição hoje com cartazes e ilustrações do artista plástico suíço que transfigurou nordestinos em seringueiros

Um suíço grandalhão e conversador que frequentava as rodas de artistas plásticos, escritores e músicos de Fortaleza. Artista plástico formado no final da década de 1930 na Accademia Belle Arti di Berna, em Milão, Jean-Pierre Chabloz mudou-se para o Rio de Janeiro com a família logo depois, em 1940, por causa da eclosão da Segunda Grande Guerra, onde participou da movimentação cultural. Fez pequenos trabalhos como a publicação de um curso de desenho em uma revista ilustrada para jovens até ser convidado para chefiar a propaganda do Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (Semta), que naquele momento deslocava sua sede de São Luiz (MA) para a capital cearense.

Chabloz dizia-se que sua chegada ao Ceará estava predestinada, e isso aconteceu em 1943, com o convite feito por um amigo suíço, representante no Brasil dos interesses norte-americanos, no caso, a necessidade bélica de borracha, muita borracha. Criado por Getúlio Vargas, o Semta tinha o objetivo de arregimentar nordestinos para a extração do látex, retirando os trabalhadores do sertão nordestino para alojá-los no seio da floresta tropical. O artista plástico suíço foi quem deu os traços e as cores dessa miragem.

Expostos nas vitrines do Centro da cidade e no hall do Cine Diogo à época, os 60 cartazes e ilustrações produzidos entre janeiro e julho de 1943 compõem a exposição, que será aberta hoje, no Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (Mauc). As peças conjugam a valorização do mito do Eldorado amazônico em contraposição à vida de incerteza da seca, ao passo que exaltam os serviços do Semta.

Para Pedro Eymar, diretor do Mauc, as peças têm um peso significativo não só para o Brasil, mas como representante dessa propaganda mundial vinculada à guerra. A coleção é um dos pilares no processo, ainda em curso, de tombamento federal do museu.

"Impressiona nesse trabalho primeiro a escala, A percepção de todo esse imaginário da Amazônia. É uma propaganda de convencimento, onde a escala e a geografia são alteradas. Impressiona pelo vigor do traço, pela percepção que ele vai tendo não só do cenário amazônico, como do homem nordestino. O Nordeste e a paisagem amazônica transfiguradas``.

Personalidade
Pedro Eymar chegou a ter aulas de desenho com o suíço na década de 1960. ``O que impressionava no Chabloz era essa postura didática, notadamente sobre o desenho, sobre a pintura. Era difícil você conversar uma vez com o Chabloz em que não saísse com uma nova informação``, diz.

Professor de artistas plásticos cearenses como Sérvulo Esmeraldo, Descartes Gadelha e Estrigas, Chabloz foi uma figura de importante atuação no cenário artístico cearense, seja na formação de artistas em cursos ou artigos jornalísticos, como os publicados na coluna Arte e Cultural, no jornal O Estado, seja no incentivo à carreira de nomes como Antônio Bandeira e Chico da Silva, artista descoberto pelo próprio Chabloz no Pirambu e que ganhou projeção no Brasil e na Europa graças ao trabalho de divulgação do suíço.

Na memória de Estrigas, Chabloz ficou como um homem grande, que chamava a atenção e conversava muito. Um cidadão excêntrico e que animava o meio artístico, com uma formação acadêmica e um conhecimento vasto de arte e filosofia que o fez transitar por vários meios artísticos da capital, como a Sociedade Cearense de Artes Plásticas (Scap) e a Sociedade Musical Henrique Jorge.

"Era uma pessoa fora do comum. Quando ele ouvia um jumento relinchar na Aldeota, ele achava aquilo lindo. Era o sabor daquela coisa original que ele não tinha na Suíça. Por exemplo, eu presenciei uma vez uma cena do Chabloz chegando na Associação Musical Henrique Jorge com uma coleira no pescoço e, na ponta, um garoto puxando. Era uma excentricidade. Uma maneira de proceder não todo dia, mas um espírito de blague``, conta.

Chabloz viveu por décadas em um constante trânsito entre Fortaleza, Rio de Janeiro e Europa, sempre participando da movimentação artística na cidade e divulgação a produção brasileira no exterior, até 1984, quando debilitado de saúde voltou a cidade para nunca mais deixá-la. O corpo do artista está sepultado no cemitério Parque da Paz.

Posted by Marília Sales at 1:28 PM

Museu de Lisboa exibe obras da dupla osgêmeos, Estado de S. Paulo

Matéria originalmente publicada no Caderno Cultura do estadao.com.br em 25 de maio de 2010.

Os artistas plásticos paulistanos osgêmeos abriram na semana passada, no Museu Coleção Berardo, em Lisboa, a mostra "Pra Quem Mora Lá, O Céu É Lá", com obras dos irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, em cartaz até setembro. "É a nossa primeira vez num museu", conta Gustavo. No ano passado, a dupla mostrou sua produção do lado de fora da Tate Gallery, em Londres.

São duas salas com suas obras. Na primeira, do lado direito, há três pinturas. Do lado esquerdo, uma instalação com caixas de som com bocas, olhos e ouvidos pintados e na frente instrumentos que podem ser tocados por qualquer visitante - guitarra, baixo, bateria e teclado.

Na outra sala, dois painéis ocupam toda a parede, com 6 metros de altura por 16 comprimento. De um lado, portas velhas pintadas cada uma com tema diferente. "As portas estão relacionadas com o passar para outro patamar", explica Gustavo. Na parede do outro lado, há o que os dois chamam de chão: uma base com tábuas e portas com pinturas diversas. Presas na parede, a uns 4 m de altura, estão duas pequenas casas deitadas. No fundo da sala, uma pequena casa, com um quarto que tem cama com travesseiro. As paredes e o teto são espelhados. Um ambiente convida a sentar ou a até deitar na cama.

Segundo o curador da exposição, o francês Eric Corne, as pinturas fazem uma mistura de estilos brasileiros. "São obras que sintetizam muitas experiências: a cultura hip-hop, a arte primitivista do País e algumas das pinturas lembram Guignard, Volpi e Portinari."

Vindo do grafite, os dois irmãos se irritam quando alguém fala que estão trazendo essa forma de arte para os museus. "Não tem nada a ver. O que está na rua é da rua. A gente não concebe as obras da mesma forma. O grafite tem que manter o clima de rua, o anonimato", diz Corne. É a segunda vez que eles estão em Portugal. Em 1997, na primeira viagem, deixaram uma pintura no muro de uma escola em Carcavelos, a 15 quilômetros de Lisboa.

Posted by Cecília Bedê at 12:39 PM

Obras de Picasso e Matisse são roubadas em Paris, O Povo

Matéria originalmente publicada no caderno Diversão & Arte do jornal O Povo em 20 de maio de 2010

Os serviços especializados da polícia apontaram diversas vezes para a falta de proteção dos museus

Cinco quadros de mestres como Matisse e Picasso foram roubados na madrugada desta quinta-feira no Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris, com valores estimados em 100 milhões de euros (232 milhões de reais).

Segundo um fonte judicial, as obras dos pintores Pablo Picasso "Pigeon aux petits pois" ("Os pombos e as ervilhas"), Henri Matisse "La pastorale" ("A pastoral"), Georges Braque "L'olivier près de l'Estaque" ("A oliveira perto de Estaque"), Fernand Léger "Nature morte, chandeliers" ("Natureza morta com candelabros") e Amedeo Modigliani "La femme à l'éventail" ("A mulher com leque"), foram roubados por assaltantes que, aparentemente, só precisaram quebrar uma janela e arrombar um cadeado para entrar.

O roubo foi descoberto na manhã desta quinta-feira às 6h50 locais (1h50 no Brasil), antes da abertura do museu que ocupa parte do 'Palais de Tokyo', prédio em estilo Arte Déco, debruçado sobre o rio Sena em um bairro chique da capital.

Os responsáveis pelo museu constataram a violação da janela e do cadeado, além de imagens registradas pelas câmeras de segurança do momento em que o ladrão entrou no estabelecimento pela janela.

Os serviços especializados da polícia apontaram diversas vezes para a falta de proteção dos museus, principalmente em Paris.

Em junho de 2009, no museu Picasso da capital um caderno de desenhos do artista, com valor estimado em 3 milhões de euros, foi roubado durante o dia. Em dezembro, um desenho em pastel de Edgar Degas, "Les Choristes" ("As Coristas"), foi roubado do museu Cantini de Marselha.

Desde que o roubo foi descoberto, a ocorrência e fotos dos quadros foram divulgadas em todas as bases de dados policiais existentes do mundo, via Interpol.

O escritório central de luta contra o tráfico de bens culturais (OCBC), serviço da polícia judiciária único e especializado desde 1975 nesse domínio, mostra uma base de dados que contabiliza 80 mil imagens de obras de arte desaparecidas.

A Interpol tem um base similar que rastreia cerca de 26 mil imagens de "obras de arte mais procuradas no mundo".

As obras roubadas foram recentemente recuperadas de outro assalto. A justiça francesa se prepara para julgar três homens pela posse ilegal das duas telas de Picasso, levadas em 2007 do domicílio em Paris de uma das netas da artista Diana Widmaier-Picasso, e que valiam mais de 50 milhões de euros. As pinturas foram encontradas depois de cinco meses de investigação.

O Museu de Arte Moderna de Paris, inaugurado em 1961 e mantido regularmente graças as doações, abriga mais de 8 mil obras ilustrando as diversas vertentes da arte do século XX (Fauvismo, Cubismo, Novo Realismo...).

Pablo Picasso, Henri Matisse, Raoul Dufy, Maurice de Vlaminck, Georges Rouault, Chirico, Pierre Bonnard, Suzanne Valadon, Maurice Utrillo, Jean Arp, Alberto Giacometti ou ainda Pierre Soulages estão entre os artistas em exposição.

(Para um esclarecimento maior, o roubo não aconteceu no Museu nacional de Arte Moderna - Centro Pompidou, mas no Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris).

Posted by Cecília Bedê at 12:17 PM

maio 24, 2010

Alice no país do horror por Cristiane Ramalho, TPM

Matéria de Cristiane Ramalho originalmente publicada na Revista TPM em 11 de maio de 2010

Alice Miceli resolveu encarar o risco da radiação e faz arte na cidade fantasma Chernobyl

Carioca, 30 anos, bonita, inteligente, viajada. Depois de ter estudado cinema em Paris e artes no Rio, Alice Miceli poderia levar uma vida mansa. Mas quis fazer arte em um dos lugares mais desolados do planeta: a zona de exclusão de Chernobyl, entre a Ucrânia e Belarus

Criada numa família de intelectuais de esquerda do Rio, entre livros de arte, boas escolas e a brisa da praia, Alice Miceli, 30, poderia escolher caminhos fáceis. Mas a artista carioca é do tipo que gosta de um desafio. Em meio à neve e ao frio cortante do inverno de Berlim, onde mora sozinha há três anos, ela não desiste de andar de bicicleta. Nem de correr, seu esporte favorito. Sua arte segue a mesma trilha. Para fazer seu mais recente trabalho, ainda inédito no Brasil, Alice mergulhou na zona de exclusão de Chernobyl - região até hoje contaminada pelo maior acidente nuclear de todos os tempos.

Embora não seja o melhor lugar do mundo para estar, ela foi oito vezes à região, levada pela obsessão de registrar o invisível: os rastros da radioatividade. "O lugar é lindo. É como se fosse uma reserva natural. Só que está tudo envenenado e isso você não sente, não cheira e não vê." A não ser, conta Alice, pelas casas abandonadas com restos de louça, roupa, brinquedos, livros e jornais. "E pelos inúmeros casos de câncer que ainda são registrados", lembra a artista, que pendurou na parede da sala fotos em preto e branco que fez na região.

Nos últimos dez anos, Alice passou temporadas entre idas e vindas e rodou 150 mil quilômetros para estudar ou fazer arte. Seus destinos incluem França, Camboja, Indonésia, Finlândia e Belarus (antiga Bielo-Rússia) - onde fica parte da zona de exclusão de Chernobyl.

Formada em cinema em Paris, pela Escola Superior de Estudos Cinematográficos, foi assistente de direção de cinema e vídeo no Brasil. Trabalhou com diretores como Sandra Kogut, Silvio Tendler e Maurice Capovilla. Mas foi se aproximando, cada vez mais, da videoarte. O que se reflete na pós-graduação que escolheu fazer na PUC-RJ: história da arte e arquitetura.

Aos poucos, Alice vem conquistando espaço na Europa. Além de mostrar seu trabalho em países como Bélgica, Holanda e Espanha, já participou de quatro edições do badalado festival Transmediale, talvez o mais antigo festival de artes e novas mídias da Alemanha, criado nos anos 80.

"O lugar é lindo, parece uma reserva natural. Só que está tudo envenenado e isso você não sente, não cheira, não vê"

tpm98-alice-001.jpg Retratos de Chernobyl: para “fotografar” a radioatividade, Alice adotou as “autorradiografias”, filmes de 30 x 40 centímetros que registram a contaminação do ambiente após longo tempo de exposição

Extremamente conceitual, sua obra nem sempre é popular. Mas agrada a alemães como Stephen Kovats, diretor artístico do Transmediale. "O trabalho dela tem uma poética forte e, junto com metodologias e processos científicos, revela problemáticas políticas e sociais que são universais", explica. Chernobyl começou a surgir durante um grupo de estudos, coordenado pelo professor Charles Watson, na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro. Quando propôs o silêncio como tema, Alice pensou imediatamente na região.

Mas, até lá, seria um longo caminho. Para registrar a radioatividade, teve que desenvolver, com a ajuda de cientistas, uma série de experimentos. Começou com uma rudimentar câmera pin hole. Mas acabou adotando as "autorradiografias" - filmes de 30 x 40 centímetros capazes de registrar a contaminação do ambiente depois de um longo tempo de exposição. "O resultado é uma espécie de Santo Sudário", compara Alice. Nada a ver com fotografia, portanto. "Não vai dar para identificar se as imagens vêm de um prédio ou de uma árvore. Mas elas terão a forma da respectiva contaminação", explica a artista, que deu início ao projeto em 2006, ao ganhar o prêmio Sérgio Motta de Arte e Tecnologia.

Alice teve ajuda de pesquisadores do Instituto de Radioproteção e Dosimetria do Rio, assim como apoio do Instituto de Radiação Otto Hug, de Munique, que desde 1990 trabalha na região com diagnóstico e tratamento de pacientes com câncer - e abriu as portas de Chernobyl para ela.

"Ajudar Alice é uma forma de mostrar o que realmente significa a energia nuclear, pois o elemento que produz as imagens no filme também muda o núcleo das nossas células, produzindo câncer", diz a alemã Christine Frenzel, cientista do Otto Hug, lembrando que "a catástrofe pode voltar a acontecer em qualquer uma das mais de 400 usinas mundo afora". Christine gostou de trabalhar com a artista: "Ela é uma jovem ativa, flexível, corajosa e determinada".

"É como subir o Himalaia"
Nas oito visitas que fez a Chernobyl, nos últimos três anos, Alice ficou exposta à radiação durante quase 70 horas. Se sentiu medo? "Um pouco." E explica: "Risco sempre tem. Mas é um risco controlado. É como subir o Himalaia. Quem está totalmente a salvo?".

Segundo a artista, o perigo está na exposição prolongada à radiação. No seu caso, foram muitas visitas, mas de apenas um dia. O importante era evitar tocar nas coisas, lavar a roupa imediatamente após sair da zona de exclusão e usar sapatos "descartáveis", como galochas. "A contaminação é uma questão de tempo. Por isso, os guardas seguem rígidos turnos de trabalho", conclui.

A região, que fica entre Belarus e a Ucrânia, é uma terra de ninguém que isola um raio de 30 quilômetros ao redor da antiga usina. As casas continuam de pé e as árvores voltaram a crescer. "Mas cada coisa foi substancialmente alterada para sempre", lembra Alice, que enfrentava as longas jornadas de trabalho em jejum, já que levar alimentos é proibido.

Alice, em Minsk, capital de Belarus, com Sergei Baida, tradutor russo-alemão, e Sascha Nartschuk , intérprete russo-alemão-inglês, parceiros do projeto

Alice, em Minsk, capital de Belarus, com Sergei Baida, tradutor russo-alemão, e Sascha Nartschuk , intérprete russo-alemão-inglês, parceiros do projeto

A cada viagem à zona de exclusão, a moça precisou de uma suada permissão do governo, que autorizou sua entrada como integrante da equipe científica. Lá dentro, passava por uma sucessão de postos de controle, até uma última barreira, a partir da qual só se prossegue com um guarda. "É tudo supervigiado, mas os guardas têm GPS e acabam servindo de guia."

Durante as viagens para Chernobyl, Alice se hospedava num hotel "bem ruinzinho", na cidade de Gomel, a duas horas da zona de exclusão, no lado de Belarus. Para ir de Berlim a Minsk, capital de Belarus, pegava o trem russo Berlim-Moscou Express: "A viagem é uma tortura que pode durar até 25 horas".

Por tortura, entenda-se intimidade forçada - já que não há cabine privativa -, um banheiro imundo, uma luz branca de neon e nenhum vagão-restaurante. "Esses trens russos são ruins, velhos e cheiram mal", confessa a artista, que já precisou dividir uma cabine com uma avó, a mãe e um bebê. "A menina tinha um peixinho que cantava sem parar, a mãe trocava fraldas naquele espaço mínimo e com as janelas fechadas, e tínhamos que nos apertar em meio à tralha da família." Sem saída, a carioca socializou e acabou aceitando o frango frito oferecido pelas russas. Uma refeição bem-vinda para quem levava apenas barrinhas de cereais.

Ao chegar a primeira vez a Minsk, a impressão foi péssima. "Quase ninguém fala uma língua estrangeira [ela sabe francês, inglês, arranha alemão, espanhol e italiano] e não há cultura de turismo. Ninguém te ajuda", relata a artista, que passou a carregar um bloquinho com palavras básicas do alfabeto cirílico.


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Retratos de Chernobyl: para “fotografar” a radioatividade, Alice adotou as “autorradiografias”, filmes de 30 x 40 centímetros que registram a contaminação do ambiente após longo tempo de exposição

À medida que se vai para o campo, o clima muda. "Os camponeses ficavam agradecidos quando descobriam o que eu estava fazendo." Como Larissa e seus dois filhos, que Alice conheceu num jantar em Gomel, oferecido pelo alemão Scumeck Sabottka, dono da Agência MCT - um dos financiadores do projeto. "A Larissa é uma mulher de 40 e poucos anos e já viúva", conta. O filho mais velho era bebê quando o reator nuclear explodiu, em abril de 1986. "A mãe se assustou e saiu de casa correndo com o menino no colo. Até hoje, ele apresenta comprometimentos do raciocínio e da fala", conta a artista. O mais novo, beirando os 20, ainda se recupera de um câncer. Eles têm noção de que sofreram uma injustiça tremenda. Mas não são amargos nem acomodados", lembra.

Mídia arcaica
Alice tinha 6 anos quando o reator explodiu. A nuvem radioativa, além de contaminar regiões da antiga União Soviética, espalhou-se por Europa e Escandinávia. "Houve um pesar na minha casa, até pela simpatia que meus pais tinham pelos comunistas", diz a carioca, filha de antropólogos de esquerda - ex-guerrilheiro da VAR-Palmares, seu pai é professor de história da PUC-RJ. "Lembro das imagens na TV, que mostravam um lugar assombrado. Aquilo me marcou."

Alice se esquiva de ser enquadrada como uma artista engajada. "O trabalho, evidentemente, toca em questões políticas. E revela consequências do que está envolvido na geração gananciosa e irresponsável da energia nuclear. Mas não me cabe prever o impacto que terá sobre as pessoas." Acostumada a transitar pela videoarte, Alice é identificada na Alemanha com o grupo de "new media arts" (artes de novas mídias). Mas rejeita rótulos e lembra que a mídia usada em Chernobyl "é arcaica: novo foi pensar nela desse jeito".

O projeto teve estreia mundial em outubro de 2009, no México. Agora, o Brasil pode conferir o trabalho, na Bienal Internacional de Artes de São Paulo, prevista para começar em setembro.


Texto por Cristiane Ramalho, de Berlim Fotos Fernando Miceli

Posted by Cecília Bedê at 4:03 PM

Hora de pensar grande por Paula Alzugaray, Istoé

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Istoé em 21 de maio de 2010

Atuantes há décadas no mercado de arte brasileiro, os marchands Maria Baró e Fabio Cimino abrem galerias com projetos ousados

Em tempos de mercado aquecido e interesse crescente na produção contemporânea por parte de jovens colecionadores, surgem em São Paulo duas novas galerias que prometem oxigenar o sistema de arte.

Para ocupar o espaço monumental do galpão de Santa Cecília, só mesmo um projeto ousado, com direito a 1.500 m2 de área expositiva, mais uma loja, um café, um ateliê para artistas e um apartamento para residências artísticas. A fórmula da nova Baró Galeria, que abre neste sábado 22, inclui a sinergia com a Galeria Emma Thomas, espaço experimental que desde 2006 aproxima artistas de diferentes backgrounds, da moda e da publicidade à arte urbana. “O papel de uma galeria apenas como local de venda está obsoleto”, afirma a catalã Maria Baró, há 13 anos radicada em São Paulo. “Nosso principal objetivo continua sendo comercial, mas queremos aglutinar artistas, curadores e colecionadores de diferentes gerações para fomentar a discussão sobre a criação artística.”

A mostra “Arsenal” celebra a abertura do espaço apresentando as “armas” da Baró e da Emma Thomas: 55 artistas do Brasil, Argentina, Colômbia, Peru, México, Chile, Guatemala, Espanha e Inglaterra. A exposição ilustra bem o projeto da galeria: colocar lado a lado artistas consagrados, como Carlos Fajardo, e novatos, como Érica Ferrari. Entre os grandes trunfos, Maria Baró anuncia a representação da “Cosmococa CC1 Trashiscapes”, de Hélio Oiticica e Neville D’Almeida. Design, arte sonora e novas mídias são outras frentes de atuação que a equipe vai assumir. “Se nosso desafio é repensar a função de uma galeria comercial, temos que pensar também como a artemídia pode ser absorvida pelo galerismo” , diz Adriano Casanova, diretor e curador da Baró Galeria.

A tecnologia também é um foco da Zipper Galeria, que Fabio Cimino inaugura em julho, um ano depois do fim da sociedade Brito-Cimino, e agora com a antena voltada para artistas em começo de carreira, como a paulistana Flávia Junqueira e o fluminense Pedro Varela. “Não quero uma arte hermética nem conceitual, quero ampliação de público”, diz Cimino, que iniciou a carreira nos anos 80, trabalhando com arte conceitual, junto à galerista Raquel Arnaud. “Quero falar com a geração do meu filho, por isso não coloquei meu nome na galeria. O Cimino já está careca e a Zipper será o lugar onde se abrem boas exposições e se fecham bons negócios”, diz. O otimismo é a alma do negócio e seu filho, Lucas Cimino, 22 anos, responsável pelo site da galeria e sua inserção em redes sociais, arremata: “A galeria nem foi aberta e já temos 1.600 seguidores no Twitter e no Facebook. Mais que a Fortes Vilaça.”

Posted by Cecília Bedê at 3:47 PM

FCCR abre inscrição para dois projetos no caderno Lazer & Turismo, JC Online

Matéria originalmente publicada em Lazer & Turismo, JC Online em 23 de maio de 2010.

A Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR) abre inscrições para selecionar exposições a partir de curadorias e apoiar um projeto de pesquisa sobre Murillo La Greca. Para tanto foram lançados dois editais: Amplificadores de Artes Visuais e Amplificadores de Pesquisa sobre o Pintor Vicente Murilo La Greca.

As inscrições começam nesta segunda-feira (24) e vão até o dia 15 de junho, de segunda à sexta, em dois horários: 9h às 12h e 14h às 17h. Elas podem ser feitas no Museu Murillo La Greca ou pelos Correios - com data de postagem até 15/6.

O Pojeto Amplificadores de Artes Visuais tem como proposta abrir espaço para exposições e discussões de arte contemporânea e questões curatoriais. Já a pesquisa sobre La Greca terá como resultado uma publicação lançada até o fim deste ano. O valor das exposições será de R$ 5 mil e a pesquisa tem bolsa de R$ 3 mil.

Posted by Cecília Bedê at 3:30 PM

A educação mobilizando o Brasil por Milú Villela e Mozart Neves Ramos, Folha de S. Paulo

Matéria de Milú Villela e Mozart Neves Ramos originalmente publicada em Tendências/Debates da Folha de S. Paulo em 24 de maio de 2010.

Uma coisa é certa: o grande salto na educação do Brasil só ocorrerá quando houver a valorização definitiva do trabalho dos professores

Vai ficando cada vez mais evidente que o próximo desafio para o país é a oferta de educação de qualidade para todos os brasileiros.

Hoje, é consenso que, sem educação, será difícil alinhar o desenvolvimento econômico e os ventos de prosperidade a uma mudança sustentável no campo social.

Somente a educação é capaz de promover a construção de um país mais justo para todos. Segundo o economista da Fundação Getulio Vargas (RJ) Marcelo Néri, membro do movimento Todos pela Educação, cada ano de estudo produz um impacto de 15% na renda média do trabalhador brasileiro.

O Brasil deslancha na economia, tornando-se cada vez mais um porto seguro para novos investimentos estrangeiros. As janelas de oportunidades criadas por essa economia próspera, entretanto, não serão devidamente aproveitadas por nossos jovens, por conta da baixa qualidade do ensino.

Se, no passado, havia falta de oportunidades de emprego no mercado de trabalho, agora há falta de gente qualificada para aproveitá-las. A precariedade do ensino parece ser o grande entrave para o crescimento sustentável do Brasil.

Por essa razão, os vários segmentos da sociedade estão cada vez mais engajados na causa educacional. A atmosfera de mobilização nacional em prol da universalização da educação de qualidade vem se fortalecendo a cada dia, desde o surgimento do movimento Todos pela Educação, com o apoio decisivo dos meios de comunicação.

Com cinco metas claras para a educação brasileira, o Todos pela Educação vem abrindo novas frentes de participação social; setores que, antes, só se preocupavam com a causa da educação de qualidade, agora participam ativamente.

Antes mesmo da confirmação oficial dos candidatos à Presidência da República, diferentes setores da sociedade civil, todos engajados na mesma causa, já começam a preparar propostas e documentos que possam contribuir para que a educação dê um salto de qualidade nos próximos anos, aproveitando as conquistas alcançadas até aqui.

O próprio Todos pela Educação, junto com outras entidades vinculadas à área de educação, vem trabalhando numa carta-compromisso a ser entregue aos candidatos à Presidência da República, aos governos estaduais e ao Congresso.

Uma coisa é certa e parece unânime em todas as frentes engajadas pela educação de qualidade: o grande salto na educação só ocorrerá quando o país definitivamente valorizar os seus professores, o que é fundamental para atrair os jovens mais talentosos e preparados do ensino médio para o magistério.
E a receita para isso já é bem conhecida: salários iniciais atraentes, carreira promissora, formação inicial sólida e condições de trabalho apropriadas. Foi assim que fizeram os países que estão no topo da educação mundial.

Todo esse movimento sinaliza um tempo de forte mobilização pela educação. Há quatro anos atrás, o Todos pela Educação tinha um sonho, o de ver este país mobilizado, engajado nessa causa. Esse sonho começa a se materializar. Para o bem do país e da manutenção de nosso vigor econômico.

Posted by Cecília Bedê at 3:04 PM

Na prática é diferente por Ferrreira Gullar, Folha de S. Paulo

Matéria de Ferreira Gullar originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 23 de maio de 2010.

Um carro esporte da marca Bugatti foi vendido em leilão por US$ 40 milhões. Não foi uma escultura de Rodin nem um quadro de Picasso, mas simplesmente um automóvel, ou seja, um produto industrial feito em série. É verdade que desse Bugatti só foram fabricados três exemplares, mas há casos de outros, de muito maior tiragem, que alcançaram vários milhões de dólares.

Tais fatos, sem dúvida, deixariam perplexo o pensador alemão Walter Benjamin, segundo o qual os produtos industriais não possuem aura, como as obras de arte consagradas.

O que então explicaria a verdadeira idolatria de certos colecionadores por automóveis antigos? Talvez o leitor não esteja entendendo por que Walter Benjamin ficaria perplexo. É que ele é o autor de um célebre ensaio intitulado "A Obra de Artena Época de Reprodutibilidade Técnica", no qual expõe a teoria da aura que envolve as obras de arte, que são originais únicos, como, por exemplo, "A Guarda Noturna", de Rembrandt, ou "Le Déjeneur sur Lherbe" (almoço sobre o gramado), de Manet.

Aliás, é próprio da pintura, por ser produto artesanal, criar originais únicos, contrariamente à fotografia, produto tecnológico, que possibilita a criação de numerosas cópias, sem original: o original da fotografia era, até recentemente, antes da câmera digital, o negativo.

As fotos assim obtidas eram cópias. Ou todas elas originais? Mas, quando Benjamin escreveu seu ensaio, nem sonhava coma foto digital. De qualquer modo, naquela época, como hoje, um automóvel também não tinha original, isto é, tinha, mas era o projeto do designer. Essa constatação levou o ensaísta alemão a desenvolver uma teoria, segundo a qual o conceito fundamental da obra de arte havia sido destruído pelas novas técnicas de reprodução das obras criadas.

Nascia, assim, segundo ele, um novo conceito de arte que eliminava a concepção tradicional de obra única e consequentemente o conceito de artista como indivíduo dotado de genialidade ou talento. É como consequência dessa tese que Benjamin afirma que as novas técnicas de reprodução extinguiram a aura que envolvia e sacralizava a obra única.

Por trás dessa tese está a concepção da sociedade de massa, vista como um avanço na história humana, quando, enfim, a coletividade se sobrepõe à individualidade, dispensando, portanto, o conceito de gênio, indivíduo superdotado, que seria na verdade fruto de uma mistificação da arte. Em seu entendimento, a aura que envolve as chamadas obras-primas nasceu da visão religiosa que estava na origem das criações artísticas da Antiguidade. Confundia-se a devoção aos deuses com a expressão estética, e assim a aura mística contaminava a expressão artística.

Mais tarde, quando a arte se libertou da religião, aquele sentimento místico se transferiu para a contemplação estética. A arte pela arte não seria outra coisa senão o resultado dessa transferência do místico para o estético. Tese perigosa que desconhece a diferença entre as pessoas, ao pressupor que todas têm as mesmas qualidades, o mesmo gênio de um Albert Einstein ou de um Leonard DaVinci. Mas os fatos foram suficientes para pôr abaixo a teoria.

Ao contrário do que afirmava, as reproduções da Mona Lisa, em vez de destruir-lhe a aura, a aumentaram, tornando-a mais admirada, já que todos desejam conhecer o original daquela reprodução que lhe caíra nas mãos. Cada ano, novos milhares de pessoas se a cotovelam no Louvre, atraídos pela aura da obra de Da Vinci.

Contrariando a previsão de Benjamin, a reprodução veio garantir e ampliar a aura. É evidente que ele se equivocou. A aura que envolve esse ou aquele objeto -seja um quadro ou um automóvel- depende de fatores muito diversos, que tanto pode ser a qualidade estética, sua condição de objeto raro ou extravagante, como a história ou lenda que o envolva.

Posted by Cecília Bedê at 2:39 PM

Mostra preenche vácuo de Rebecca Horn no Brasil por Fábio Cypriano, Folha de S. Paulo

Matéria de Fábio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 22 de maio de 2010.

Alemã, que integrou Documenta de Kassel, ganha primeira grande exposição na América do Sul, no CCBB carioca

Com seis filmes e 19 obras, várias delas feitas com próteses, "Rebelião em Silêncio" está em negociações para vir a SP

Rebecca Horn é uma das primeiras artistas que configuraram a arte como é vista hoje. Alemã de Hamburgo, já em 1972, mal saída da universidade de sua cidade, tomava parte da histórica Documenta de Kassel, com curadoria de Harald Szeemann (1933-2005), que lá a estimulou a registrar suas performances em vídeos.

Até agora, no entanto, havia um vácuo sobre a artista, de 66 anos, no Brasil, já que nem da Bienal de São Paulo ela chegou a tomar parte.

Essa falha se corrige agora com "Rebelião em Silêncio", primeira grande mostra de Horn na América do Sul, aberta, anteontem, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio e que está em negociação para vir a São Paulo.

"Nós fomos os pioneiros de uma época que o dinheiro não era importante e na qual conseguíamos ocupar espaços apenas improvisando", disse a artista de cabelos vermelhos à Folha, durante a montagem da mostra.

Organizada por Marcelo Dantas, a exposição chega ao Brasil após ser vista em Tóquio, mas com trabalhos selecionados pela própria artista para o centro carioca.

Com 19 obras e seis filmes, exibidos em três salas de cinema especialmente construídas, Horn ocupa ainda o monumental saguão do CCBB com "O Universo em uma Pérola", uma instalação composta por espelhos que trabalham com a percepção do espaço.

Desde 1968, quando ficou no hospital com infecção pulmonar por seis meses, além dos outros que passou na cama, Horn vem investigando maneiras de ocupar o espaço. "Como fiquei imobilizada, eu criava próteses que permitiam a expansão do meu próprio corpo."

Várias obras com próteses estão na mostra, mas a que, na verdade, trouxe a artista ao Brasil foi "Concerto dos Suspiros", criada para a Bienal de Veneza, em 1997. "Esse trabalho me impressionou muito e, desde então, estava tentando trazê-lo para cá", conta Dantas.

Murmúrios
"Concerto dos Suspiros" é composto por uma pilha de escombros, de onde saem diversos tubos de metal. Por estes tubos pode-se ouvir murmúrios de pessoas, em várias línguas diferentes. A fragilidade dessas vozes, que atravessa os destroços pesados, revela muito da poética de Horn, com sua "Rebelião em Silêncio", uma retrospectiva que fala muito da esperança em um mundo de crises.

Posted by Cecília Bedê at 2:19 PM

Exposição reúne cartazes gritantes de artistas russos por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 22 de maio de 2010.

Instituto Tomie Ohtake apresenta obras de designers do Ostengruppe, de influência construtivista e traços diretos

"A meta de um cartaz é desviar olhar da paisagem", explica artista do grupo que domina a cena de Moscou com energia e simplicidade

Parte do legado construtivista e uma proposta de fazer tudo com as próprias mãos está na base da obra gráfica do Ostengruppe, time de designers russos que dominam a cena de Moscou com seus cartazes.

São propostas simples que ganham contundência formal pelo traço direto, sem solavancos. É preto no branco, ideias estruturadas com tanta economia de meios que faz martelar a imagem. Chega a ser gritante em algumas peças.

"Queremos distância do glamour e não temos dinheiro para contratar fotógrafos ou modelos", resume Eric Beloussov, designer do grupo que faz mostra no Instituto Tomie Ohtake. "Nossa energia é mais dinâmica, e a meta de um cartaz é desviar os olhos da paisagem."

Posted by Marília Sales at 2:05 PM

maio 21, 2010

MAC detalha nova mostra por Juliana Girão, O Povo

Matéria de Juliana Girão originalmente publicada no jornal O Povo em 20 de maio de 2010

Com orçamento de R$ 440 mil, Museu de Arte Contemporânea expõe, a partir de 30 de junho, obras de 45 artistas internacionais, entre eles Picasso e Matisse. Todo o acervo foi disponibilizado gratuitamente por museus parceiros. De Fortaleza, a mostra segue para Sobral

Ao todo: R$ 440 mil. Esse é o valor que o Governo do Estado irá desembolsar para trazer ao Ceará a exposição De Picasso a Gary Hill, que reunirá, a partir do dia 30 de junho, no Museu de Arte Contemporânea (MAC), obras de 45 artistas de reconhecimento mundial, como Pablo Picasso, Henri Matisse, Salvador Dalí, Juan Miró e Paul Klee. O número de peças, no entanto, ainda não foi definido. A mostra, antecipada por O POVO com exclusividade na edição de 7 de abril, pretende quebrar recorde de público do museu do Centro Dragão do Mar, que hoje é de 75 mil visitantes, registrados durante a individual do escultor francês Auguste Rodin, quase dez anos atrás. As informações foram dadas na coletiva de imprensa, promovida pela Secretaria da Cultura, na manhã de ontem, no Palácio Iracema.

O valor empregado para a exposição, segundo o curador e diretor de Ação Cultural do Centro Dragão do Mar, Roberto Galvão, é baixo, pois todas as obras foram disponibilizadas gratuitamente. ``O orçamento será para seguro, transporte e montagem da exposição``, explica. Segundo o diretor do MAC e também curador da mostra, José Guedes, alguns museus chegam a cobrar U$ 200 mil só para conceder temporariamente uma peça de Pablo Picasso. ``Na exposição, nós teremos três Picasso``, destaca Guedes. São eles: Le Peintre au Travail (Guache sobre papel/1964), Les Lutteurs (carvão sobre papel/1921) e Figuras (óleo sobre tela/1945).

Durante a coletiva, o secretario da Cultura do Estado, Auto Filho, destacou a importância ``histórica`` da mostra coletiva. ``É a primeira exposição que se realiza no Ceará com a intenção de fazer um mapa da arte mundial no século XX``, disse. Para atingir o público em cheio, a curadoria pretende apostar no caráter pedagógico da mostra, que será dividia em sete blocos, que vão do figurativismo expressivo até os laços com a tecnologia. Em cartaz até o dia 15 de agosto, em Fortaleza, a exposição segue em setembro para Sobral, onde permanece durante um mês no Museu Madi.

A exposição contará com obras do Instituto Valenciano de Arte Moderna (IVAM), do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, do Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará, além de coleções particulares da Espanha e do Ceará. Serão expostos trabalhos de mestres modernistas, como os já citados, além de Marc Chagall, Antoni Tapies, Antonio Saura e Alexander Calder, também como artistas contemporâneos, a exemplo de Christian Boltanski, Gary Hill, Bruce Nauman, Richard Serra e Arden Quin. Este último criador do movimento Madi, que contribuiu para o surgimento da arte cinética na América Latina e para o neoconcretismo no Brasil.

Posted by Fábio Tremonte at 6:39 PM

A arte da experiência por Nina Gazire, Istoé

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na Istoé em 19 de maio de 2010

Desde os anos 1950, a artista paulistana Amélia Toledo, 83 anos, produz uma obra rica e diversificada. Com 60 anos de trajetória artística, exposições vistas e prêmios conquistados em diversos países do mundo, sua produção enfatiza as expressões de uma experiência individual materializada em cores e formas que flertam com o concretismo e com a arquitetura.

A artista costuma afirmar que suas obras são resultado da liberdade de experimentar as relações entre materiais e processos, forma simples, clara. Segundo Amélia, essas são questões essenciais, como a tensão que a chapa precisa sofrer para criar uma curva. Atualmente, ela realiza sua primeira exposição individual, “Minas de Cor”, no Estado de Minas Gerais, na Quadrum Galeria de Arte, em Belo Horizonte.
Segundo o crítico de arte Agnaldo Farias, o trabalho de Amélia é caracterizado por uma experimentação incessante. “Sua arte mergulha na matéria - vegetal, mineral, líquida – para dissecá-la, esquadrinhar sua intimidade, revelar suas peculiaridades e, por fim, trazê-la para diante de nós, acreditando no poder curativo do contato com a arte”, afirma o crítico.

A exposição “Minas de Cor” apresenta trabalhos de duas séries, uma com trabalhos em pintura e outra com esculturas. “Horizontes e Campos de Cor” é constituída de pinturas abstratas construídas com gestos e cores. Já a série “Impulsos e Poços” traz esculturas criadas com pedras, molas, aço e concreto.

Posted by Fábio Tremonte at 6:29 PM

O construtor de ruínas por Paula Alzugaray, Istoé

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Istoé em 10 de maio de 2010

“Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que a ruína é uma desconstrução.” A frase de Manoel de Barros, apropriada por Rosângela Rennó e utilizada em sua instalação “Matéria de Poesia”, que esteve em cartaz até o dia 8 na Galeria Vermelho, em São Paulo, poderia ser transportada para o contexto da individual de Caetano Dias, em Salvador. Uma ruína não se constrói, mas em “Transverso” o artista baiano interpreta a ruína social produzida pelo alagamento da cidade baiana de Remanso para a construção da Represa de Sobradinho, em 1978. Da cidade, restaram as lembranças de antigos moradores, recolhidas no videodocumentário “1978 – Cidade Submersa”. Sobrou também a visão de uma caixa-d’água, flutuando como um farol, marcando a presença de um passado apagado pelo nível de água. O objeto foi documentado na série fotográfica “Água Invertida” e reinterpretado em uma escultura, fabricada em resina e cimento, intitulada “Edifício 510” (foto). Índice solitário da história de Sobradinho, o edifício alagado tem presença central na exposição.

A água e as marés, suas enchentes e vazantes, são os temas aqui tratados. Para o crítico Josué Mattos, “Caetano Dias conjugou a existência de tempos paralelos”, aproximando os acontecimentos de 1978 das tragédias que anualmente matam e desabrigam famílias durante a época das chuvas. Na galeria, o edifício está cercado de vídeos e imagens fotográficas que contribuem para essa narrativa da enchente. As fotos da série “Construção” mostram ruínas de edifícios destruídos por infiltrações, e na videoinstalação “Submerso” um corpo mergulhado em água é projetado sobre um piso de cerâmica, que poderia muito bem pertencer ao “Edifício 510”.

Posted by Fábio Tremonte at 6:24 PM

Sussuro da imagem por Paula Alzugaray, Istoé

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Istoé em 30 de abril de 2010

Veterana da videoarte, Sonia Andrade incorpora indagações da poesia metafísica em nova videoinstalação

Uma frase (des)orienta o visitante da exposição de Sonia Andrade. Impressa na parede da entrada da instalação, “Get With Child a Mandrake Root,” é o título da exposição e corresponde a um verso do poema “Song”, do poeta inglês John Donne (1572-1631). “Donne sempre pede ao leitor coisas impossíveis”, diz a artista. “Como emprenhar uma raiz de mandrágora?” Esta é a quinta exposição em que Sonia se refere aos versos do poema de Donne. Se a linguagem poética desse autor se presta mais a criar enigmas do que a elucidá-los, a videoinstalação de Sonia funciona também como escavação aos sentidos ocultos de plantas mágicas e de poemas antigos.

A raiz da mandrágora, como explica a crítica Marisa Flórido Cesar no texto de apresentação da exposição, é cultuada e temida em várias culturas pelos poderes alquímicos, afrodisíacos, narcóticos e analgésicos que lhe são atribuídos. Segundo uma lenda medieval, o momento de sua colheita era cercado por lamento tão terrível que poderia matar. Seguindo o viés metafórico e metafísico de Donne, Sonia representa a mitologia da mandrágora com a gravação em vídeo das raízes de uma antiga árvore chorona do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que se projetam para fora da terra. A árvore, que no parque se agiganta em direção ao céu, é apenas adivinhada no espaço da exposição. Nas paredes, 25 telas de vídeo dispostas em linha irregular desenham um mapa das raízes, como se também escrevessem um texto. A pequena dimensão das telas dá a esse texto videográfico a qualidade de um segredo. Em cada tela, surgem pequenos acontecimentos – uma formiga que passa, uma brisa leve sobre a folhagem da grama – que nos fazem apenas intuir o crescimento invisível das raízes. Em vez de berrar como a mandrágora, as imagens de Sonia sussurram a sutileza de seu movimento.

A exposição comporta-se como uma reconstrução poética do espaço do Jardim Botânico, que é também representado em dois travellings de um de seus muros. Um deles corresponde ao primeiro vídeo da artista, gravado em 1974 com uma câmera Portapak, primeiro equipamento de vídeo portátil já lançado. Um exemplar foi trazido para o Rio por Jom Tob Azulay, que colocou a câmera à disposição de artistas cariocas, fomentando assim as experiências pioneiras com videoarte no Brasil. A tela em frente exibe o mesmo muro, gravado em 2010, com uma câmera DVC PRO-HD de última geração. Os dois muros conduzem o visitante à imagem final da exposição: uma flor de lótus, posicionada como em um altar. Com essa imagem, Sonia parece responder ao enigma de Donne: o verso sugere, afinal, que a magia floresça e espalhe seus frutos.

Posted by Fábio Tremonte at 6:18 PM

Brasil no Prix Ars Electronica 2010 por Nina Gazire, Istoé

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na Istoé em 20 de maio de 2010

Trabalho do brasileiro Lucas Bambozzi recebe menção honrosa na maior premiação de arte e tecnologia do ano

No dia 17 de maio, o Prix Ars Electronica, maior e mais antigo prêmio de arte e tecnologia do mundo, anunciou os vencedores de sua edição de 2010. A tradicional premiação Golden Nica contemplou sete trabalhos nas categorias Comunidades Digitais, Arte Interativa, Arte Híbrida, Soundart e Animação Computacional.

Além da premiação máxima, o Prix Ars Electronica concedeu prêmios de Distinção e Menções Honrosas a 80 trabalhos, dentre os 3.500 inscritos nessa edição, inclusive para o Brasil. Entre os vencedores das Menções Honrosas, o site brasileiro CulturaDigital.br foi contemplado na categoria Comunidades Digitais, e o trabalho “Mobile Crash”, de Lucas Bambozzi, na categoria Arte Interativa.

“Mobile Crash” ainda não foi apresentado no Brasil, mas apenas na exposição Geografias Celulares, em suas edições na Argentina, em 2009, e no Peru, em janeiro deste ano. “Receber esta distinção é mesmo um incentivo a continuar produzindo instalações dessa natureza, que exigem ajustes e cuidados bastante complexos na sua montagem, algo nem sempre é bem visto pelas instituições ou espaços expositivos que se dispõem a abrigar projetos envolvendo interatividade”, afirma Lucas Bambozzi, criador do projeto.

O trabalho foi desenvolvido com a ajuda de Ricardo Palimieri, Roger Sodré, Paloma Oliveira e Lucas Gervilla, emprega software livre (Ubuntu, Pure Data, e openFrameworks). A instalação tem inspiração na live performance “Da Obsolescência Programada”, que trata da rápida obsolescência das novas mídias. Mobile Crash é um ambiente criado por 4 vídeo-projeções em grande escala, que reajem à presença do público, disparando vídeos aleatórios retirados do registro da performance “Da Obsolescência Programada”, realizada em 2009 (foto).

A instalação também será mostrada na Europa ainda neste ano. Primeiro no ISEA-Inter Society for Electronic Arst, festival da Alemanha, e em mostra junto ao próprio Ars Eletronica, que tem sede na Áustria.
Além das menções honrosas recebidas, o Brasil teve a sua primeira participação no júri da categoria Arte Interativa, com a presença da curadora e artista Giselle Beiguelman. André Lemos, professor da UFBA, é membro do conselho consultivo internacional do Prix Ars Electronica, indicando projetos na categoria Comunidades Digitais desde 2003.

Posted by Fábio Tremonte at 6:11 PM

Presença brasileira cresce na Bienal por Fábio Cypriano, Folha de S. Paulo

Matéria de Fábio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 20 de maio de 2010.

Se confirmada lista com 51 nomes, brasileiros corresponderão a 34% do total da mostra, o maior número desde 1991

Projeto do curador, Moacir dos Anjos, estabeleceu uma espécie de revisão histórica das últimas três décadas da produção artística nacional

Contrariando uma tendência das últimas sete bienais de São Paulo, a presença dos artistas brasileiros cresce na 29ª Bienal, chegando a 34% do total, se o número de artistas confirmar os 51 entre 148 já convidados.

Na Bienal do Vazio, em 2008, os artistas do país chegaram perto, com 33%, mas a exposição, reduzida por conta da polêmica, configura-se mais exceção do que regra.

Esse "verde-amarelismo" já era esperado desde o ano passado, quando Heitor Martins assumiu a presidência da Fundação Bienal e, em entrevista à Folha, defendeu que seria importante uma presença brasileira expressiva na mostra.

O próprio curador, Moacir dos Anjos, também defendeu essa tese por conta da "insipiência e da fragilidade dos mecanismos institucionais para absorção e circulação da produção artística existentes no Brasil", conforme disse à Folha também no ano passado.

Em seu projeto, o curador estabeleceu que a Bienal realizasse uma espécie de revisão histórica das últimas décadas da produção artística a partir dos anos 1970.

Assim, não é de estranhar a grande quantidade de nomes com caráter histórico na mostra, caso de Hélio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape (1927-2004), Anna Maria Maiolino, Antonio Manuel e Milton Machado, entre outros, todos associados ao neoconcretismo.

A última Bienal com tantos brasileiros foi a 21ª, em 1991, com 79 artistas de um total de 183, ou seja, 43%.
Com curadoria de João Candido Galvão e Jacob Klintowitz, que abandonou o posto no meio do processo, a mostra foi muito criticada pela irregularidade, pois a seleção foi feita através de inscrições.

Já em 1998, Paulo Herkenhoff selecionou um alto número de brasileiros, 71, mas que representaram apenas 26% dos 271 artistas.

Posted by Fábio Tremonte at 6:05 PM

Bienal de SP busca consenso político por Fábio Cypriano, Folha de S. Paulo

Matéria de Fábio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 20 de maio de 2010.

Lista provisória obtida pela Folha adianta nomes dos 148 convidados para a 29ª edição, que começa em setembro

A relação entre arte e política, na concepção dos curadores da 29ª Bienal de São Paulo, será vista por um espectro de artistas com visões bem distintas.

A extensão dessa concepção parece abarcar modalidades tão diversas de produção que a lista dos selecionados para a mostra sugere que a curadoria está criando um consenso no circuito artístico.

A política, assim, ganha um caráter inclusivo no evento. Essa é umas das possíveis leituras da lista de trabalho com 148 artistas previstos para a exposição, com início em setembro.

Até agora, a Fundação Bienal já havia confirmado a presença de 48 nomes. A listagem obtida pela Folha, de 4 de maio, reúne artistas já convidados, mas nem todos confirmados.

A assessoria de imprensa da Fundação Bienal informou que a lista final será anunciada no dia 1º de junho.
Segundo a nota da instituição, "toda e qualquer versão da lista divulgada antes da coletiva oficial de imprensa não é definitiva, estando sujeita, portanto, a informações equivocadas e a possíveis alterações".
Contudo, mesmo sendo uma lista ainda em caráter transitório, devem ser anunciados cerca de 120 artistas, segundo o novo site da fundação.

Por esse inventário, é possível identificar algumas marcas da curadoria chefiada por Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias com a assistência de outros cinco curadores estrangeiros.

Entre os 51 brasileiros, há uma grande diversidade, que vai de nomes como Flávio de Carvalho (1899-1973) e Oswaldo Goeldi (1895-1961) a artistas da nova geração como Jonathas de Andrade, que já participou da Bienal do Mercosul no ano passado.

Entre esses dois pólos, há todo tipo de produção. De um lado, estão as experimentais da década de 1970, como as de Hélio Oiticica (1937-1980) e Lygia Clark (1920-1988).

De outro, as da Geração 80, como as de Daniel Senise e Rodrigo Andrade, ambos com obras centrada na pintura.
Segundo a lista, também já estão definidos os responsáveis pelos seis "terreiros" da mostra, espaços que terão temáticas e arquitetura próprias.

São eles os brasileiros Carlos Teixeira, Ernesto Neto, Marilá Dardot e, em dupla, o arquiteto Roberto Loeb e Kboco. Já entre os nomes do exterior, foram escolhidos o sloveno Tobias Putrih e o escritório holandês UN Studio.

Entre os 97 estrangeiros, um destaque é Aernout Mik, que participou da 26ª Bienal de São Paulo e da 52ª Bienal de Veneza, em 2007, com a instalação "Citizens and Subjects" (cidadãos e temas), uma das mais comentadas daquela edição.

Outro nome com grande projeção é o do escocês Douglas Gordon, especialmente por conta do filme realizado com Philippe Parreno, sobre o jogador Zidane, em 2006.

Vinculado também ao cinema, Kutlug Ataman, da Turquia, é mais um selecionado, assim como Ilya Kabakov, o artista russo com maior projeção no cenário internacional.

Também faz parte da lista a sul-africana Marlene Dumas, que pela pintura alcança uma forte narrativa sobre questões políticas, caso da exposição na galeria David Zwirner, em Nova York, encerrada no mês passado, que abordou as relações entre Palestina e Israel.

Depois do Brasil, o país com maior presença na Bienal será a Argentina, com 11 artistas selecionados. A África inteira terá oito, estando inclusa aí Dumas, que vive na Holanda.

Na maioria, os argentinos escolhidos possuem forte projeção desde os anos 1970, como Leon Ferrari, Marta Minujin, Victor Grippo e o grupo Tucumãn Arde, que esteve na última Documenta, em Kassel.

Posted by Fábio Tremonte at 5:53 PM

maio 17, 2010

CCBB abr hoje retrospectiva 'Aguilar 50 anos' em SP, no estadao.com.br

Matéria originalmente publicada no estadao.com.br em 11 de maio de 2010

Quando tinha 22 anos, o artista José Roberto Aguilar participou da 7.ª Bienal de São Paulo, em 1963, com quadros coloridos e de cores vibrantes, nos quais figuras se conectam nas composições, como seres híbridos da natureza. "Era o auge do abstracionismo e causou certo rebuliço essa espécie de realismo fantástico que eu estava fazendo", diz Aguilar, hoje, aos 69 anos. Ele ia todos os dias à Bienal acompanhar o que as pessoas achavam de suas obras e agora são as três pinturas que ele exibiu no evento, na década de 1960, que abrem o percurso cronológico de "Aguilar 50 Anos", retrospectiva do artista aberta hoje ao público, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo.

Pintor, videomaker, performer, escultor, escritor, músico e curador, Aguilar já fez um pouco de tudo - criou, até mesmo, na década de 1980, a Banda Performática (com Arnaldo Antunes, Paulo Miklos, entre outros). Mas, antes de qualquer coisa, considera que todas as suas criações nasceram da pintura. "Até a literatura que escrevo é do pictórico", diz o artista - e, sendo assim, são os quadros que se tornam o fio condutor de sua retrospectiva.

Por todos os andares do CCBB, há mais de 75 pinturas, de tamanhos variados e compreendendo sua carreira da década de 1960 até hoje - no hall central do prédio, ainda, a instalação "Vestidos de Noiva" é uma composição de 15 quadros pendurados, todos eles feitos de composição com as roupas prensadas em plástico e pintadas com cores diversas. "É como estar surfando: a gente só se enxerga com o olhar dos outros", afirma Aguilar sobre essa oportunidade de ver sua carreira exibida e condensada na mostra. "É horrível fazer uma retrospectiva. Fiz um distanciamento e comecei a ver as pinturas como se não fossem minhas", diz Aguilar. Segundo ele, a exposição é, na verdade, um ''trailer'' para um grande livro que a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo vai lançar no segundo semestre sobre sua carreira.

A retrospectiva de Aguilar é uma mostra cronológica e didática. O artista, que cursava economia, mas participava, desde 1958, do movimento Kaos de literatura e começou a pintar na década de 1960, sempre foi um experimentador. Seu ateliê na Rua Frei Caneca, 348, era, na época, polo de reunião de comunistas e de gente da direita, mas, antes de tudo, espaço para a criação. As informações são do Jornal da Tarde.

Posted by Fábio Tremonte at 4:16 PM | Comentários (1)

Cinemas do futuro por Paula Alzugaray, Istoé

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Istoé em 14 de maio de 2010

André Parente cria o Visorama e Giselle Beiguelman e Rafael Marchetti propõem o celular como nova tecnologia de visualização

Uma tela panorâmica de 9x4m descortina um mosaico de imagens tão diversas quanto o E.T. de Steven Spielberg; um tecido de roupa interativo; o Chacrinha; um teclado-vestível; um celular-bolsa; um aparelho de cinema portátil; uma coleira de cachorro com GPS. Quinhentas e cinquenta e cinco imagens compõem a obra “Telebits 2.0”, de Giselle Beiguelman e Rafael Marchetti, que faz um recorrido pela história das relações entre telecomunicação e cultura. Instalada na exposição “Tão Longe, Tão Perto”, realizada pela Fundação Telefonica, “Tele_bits 2.0” não tem a forma do que tradicionalmente conhecemos como uma obra audiovisual. Isto é, não consiste em uma projeção de imagens previamente editadas por um autor. Trata-se de uma projeção de dados, que serão organizados pelos visitantes por meio de telefones celulares com programas de leitura QR-Codes (códigos de barra lidos por celulares). O celular, em “Tele_bits 2.0”, corresponde a um novo instrumento de visualização. Da mesma forma, o Visorama, da instalação “Figuras na Paisagem”, de André Parente, em exposição até o final do mês no Oi Futuro, Rio de Janeiro, é um dispositivo de imersão do espectador na obra audiovisual. Ambos os trabalhos trazem respostas de artistas pesquisadores às indagações sobre o presente e o futuro do cinema, em seu encontro com as novas mídias digitais.

Para conceber o Visorama, o artista e pesquisador André Parente esteve nos últimos 12 anos envolvido em uma pesquisa científica similar à que levou os irmãos Lumière a criar, em 1898, uma câmera para fotografar panorâmicas e um sistema de projeções fotográficas em 360º. Esses primeiros sistemas fotográficos imersivos são a base conceitual do dispositivo de Parente, concebido no núcleo de tecnologia da imagem da Escola de Comunicação da UFRJ. O Visorama consiste em um software e em um aparelho de visionamento, que se parece com um binóculo. Nele, o espectador visualiza paisagens em 360º, que podem ser animadas a partir do acionamento de botões com três funções: rotações horizontais e verticais, zoom e saltos de imagem. Com esses recursos, Parente entrega ao usuário do aparelho as ferramentas de edição do filme, para a elaboração das narrativas de uma espécie de cinema ao vivo. “O dispositivo serve não apenas à arte. Pode ser usado em turismo histórico, em educação, em museologia, etc.”, aponta ele.

Em “Tele_bits 2.0”, o filme também é feito pelo espectador participante, que aponta o telefone celular para os códigos de barra, acionando imagens, vídeos e verbetes arquivados em um banco de dados no Flickr (site de compartilhamento de imagens). Trata-se, portanto, de um audiovisual “em camadas”, que acontece além da superfície da tela de projeção. Fruto de uma convergência de mídias, a obra poderia ser definida como “datacinema” ou “metacinema”. “Nenhuma das imagens foi captada por nós, todas foram trazidas da internet”, diz Giselle Beiguelman. “Este é o filme do ‘homem sem a câmera’”, diz ela, referindo-se ao clássico “O Homem com a Câmera”, de Dziga Vertov, 1929.

Se Vertov e Eisenstein pressentiram que uma nova sociedade exigia um novo tipo de visão, as recentes pesquisas com imagens, feitas com ou sem câmera, permitem compreensões múltiplas da realidade e são comparáveis ao grande período das experimentações com técnicas e linguagens do cinema.

Posted by Fábio Tremonte at 3:59 PM

maio 14, 2010

Exposição no Rio reúne obras do goiano Siron Franco, estadao.com.br

Matéria originalmente publicada no Caderno Cultura do estadao.com.br em 13 de maio de 2010.

Artista foi vítima de sequetro na Venezuela e passou três anos produzindo obras para a mostra 'Segredos'

Em 2001, o casamento de seu filho com uma venezuelana levou o artista plástico goiano Siron Franco a Caracas. Assim que ele pousou, entrou num pesadelo: o táxi que deveria levá-lo do aeroporto era dirigido por um bandido, que o manteve refém por três horas. O homem achou que se tratava de um milionário em visita ao país. O incidente traumatizou Franco de tal forma que deixou ecos em sua produção mais recente, como se comprova na exposição "Segredos", em cartaz na Caixa Cultural do Rio desde a última terça-feira, até 11 de julho.

O "Primeiro Segredo" é uma tela pintada com carvão e aplicações de 17 CDs. A imagem remete ao cartão magnético que Franco usava como chave do hotel em que ficou na Venezuela, todo perfurado. Exposta em sua última mostra no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio, há três anos, a obra indicou o caminho para outros segredos. A partir dela, surgiu uma série de 15 telas, diante das quais se tem a impressão de que há algo encoberto, escondido, secreto.

As telas trazidas ao Rio foram preparadas nos últimos três anos. Desde o fim de 2009, ele se dedicou a elas mais intensamente. Franco começou a preparar vários quadros de uma vez. Depois de um período inicial de secagem, as telas foram viradas para a parede, para que as cores não se misturassem aos olhos do artista, embaralhando sua visão. Franco então voltava a cada uma delas - em alguns casos, a pincelada inicial ainda pode ser vista; noutros, está encoberta por camadas e camadas de tinta a óleo.

Boa parte dessa produção foi descartada. Franco sabia o que não queria, mas não conseguia chegar à essência do que buscava dizer. Chegou a pensar em cancelar a data já acertada com a Caixa Cultural. "Sempre penso que meu compromisso maior é comigo. Eu não posso chegar aqui mentindo", justifica o artista, que, passado o bloqueio, alcançou não só com os óleos, mas também com esculturas aquilo que desejava.

A mostra "Segredos" chega à Caixa Cultural de São Paulo em setembro; em outubro, será aberta em Brasília. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Posted by Marília Sales at 2:46 PM

Escultora se dividiu entre o marido e Marcel Duchamp por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 14 de maio de 2010.

Maria Martins viveu uma vida dupla. Passava parte do tempo como embaixatriz em Washington e mantinha um ateliê em Nova York, onde se encontrava com o amante Marcel Duchamp, um dos artistas mais importantes do século 20.

Em sua obra mais célebre, "O Impossível", Martins mostra um conflito entre seres masculino e feminino. São garras em riste e um ato sexual não consumado, metáfora para o amor que viveu com Duchamp.
Num poema, ela provoca o amante. "Quero que a lembrança de mim enrosque em seu corpo como serpente de fogo", diz um dos versos. "Para você, quero longas noites insones."

Em resposta à relação impossível, Duchamp decide então fazer sua obra mais enigmática, "Étant Donnés".
Ficou 20 anos trancado num ateliê secreto reconstruindo as formas de Martins para fazer a mulher que está nua num cenário fantástico. Nas cartas que escreveu para a amante ao longo dos anos 40, Duchamp implorava para que ela se casasse e fugisse com ele.

"Minha pequena, dediquemos todo o tempo possível a nós mesmos", escreveu Duchamp. "Nada vale o esforço de suar sangue pelos outros."

Posted by Marília Sales at 2:37 PM

Visões de Maria por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 14 de maio de 2010.

Novo livro reúne imagens de toda a produção da escultora Maria Martins e traz interpretações contrastantes sobre a primeira surrealista na América Latina

Quando Maria Martins mostrou suas esculturas na Valentine Gallery em Nova York, um crítico chamou sua obra de "esquisita, complicada, fantástica", um "rococó assustador". Era 1946 e a madame Carlos Martins, como era conhecida a mulher do embaixador brasileiro, parecia antecipar as críticas. Um dos trabalhos na mostra se chamava "Não te Esqueças que Venho dos Trópicos".

Esculpiu uma mulher deitada de costas, com braços alongados e mãos em forma de garras. Martins descreveu depois a figura como personagem com "a crueldade de um monstro e a doçura de um fruto selvagem".

Não está muito distante da fama que ficou dela mesma. Artista à frente de seu tempo, amante voraz e ao mesmo tempo a anfitriã da embaixada, Martins se dividiu entre mundos, um Brasil folclorizado e o furacão de vanguardas na ponte entre Nova York e Paris.

Sua obra ficou dispersa entre os continentes e agora ressurge catalogada no maior livro já lançado sobre a artista.

"Maria", que a Cosac Naify entrega no fim deste mês, faz um resgate visual de toda a produção de Martins, considerada a primeira escultora surrealista da América Latina e fundadora de um modernismo tropical.
Essa estética bruta, de formas que parecem saltar da matéria amorfa, aparece com toda a força nas fotografias do livro. "Toda a textura dela vem à frente, como se fosse um arranhão no olho", descreve Vicente de Mello, fotógrafo que viajou de Buenos Aires a San Francisco, passando por Paris, para registrar todas as obras da artista. "É uma luz mais surreal, com certa fantasmagoria."

Entre a América pujante e a Europa arrasada pela guerra, André Breton, líder do movimento surrealista, enxergou na época a potência da obra de Martins, ao contrário do que diziam os críticos americanos.
"Nos últimos anos, o espírito humano não deixou de soprar desde as regiões cálidas", escreveu Breton sobre a artista, que conheceu em Nova York. "Outro vento em vão sonda as chaminés da Europa onde grelhas ardem sem produzir calor." Referências constantes a mitos amazônicos e a uma ancestralidade tropical serviram de base para as formas de Martins.

Barroco
Enquanto se misturava aos nomes mais fortes da vanguarda europeia exilada em Nova York, frequentando os jantares de Peggy Guggenheim com Breton e Duchamp, ela explorava um arcabouço estranho, tórrido e sensual para arquitetar suas criaturas híbridas.

"Tem algo de barroco na escultura dela", afirma à Folha a crítica britânica Dawn Ades, que tem um ensaio no livro. "Ela parece desconectada do tempo dela, mas vista pelo ângulo da magia e da metamorfose, parece mais em harmonia com o pensamento da época."

Barroco também foi o termo que o crítico Clement Greenberg, cronista dos expressionistas abstratos, como Jackson Pollock, usou para descrever a obra de Martins -era uma crítica dura e não um elogio.
Mas esse contraste entre o senso trágico do barroco e uma modernidade em formação é hoje chave de leitura para entender Martins e o caminho trilhado pelo modernismo que se radicou na América Latina.
"Era uma modernidade alternativa, que não precisava ser dominada por Nova York", diz Ades. "Ela fez parte disso." Mesmo causando estranheza e sob fogo dos críticos, Martins foi um sucesso comercial em sua época. Vendia todas as obras que mostrava e chegou a apadrinhar artistas com obras encalhadas, como o construtivista holandês Piet Mondrian.

Ela chegou a comprar a tela "Broadway Boogie Woogie", um dos trabalhos mais emblemáticos do artista, que depois doou para o acervo do MoMA. Mas enquanto a crítica esmiuça agora o legado da escultora, a dispersão de suas obras pelo mundo e um fim de vida menos produtivo -ela morreu no Rio, em 1973- mergulharam a artista no esquecimento.

"Não há contexto, o trabalho dela não tem aderência aqui", diz o escultor José Resende. "Ela continua sendo exceção."


Posted by Marília Sales at 2:16 PM

maio 13, 2010

Novo olhar sobre a arte por Suzana Velasco, O Globo


Matéria de Suzana Velasco originalmente publicada no Segundo Caderno do O Globo em 13 de maio de 2010

Conheça três jovens cariocas que reforçam a curadoria de exposições no país

Se os jovens artistas indicam os novos rumos da arte no país, cresce com eles uma geração de curadores que refletem sobre esses caminhos. Eles são novos pela idade, mas também por imprimir um olhar fresco à curadoria de exposições, que são organizadas em espaços antes impensados, como galerias comerciais.

Entre 30 e poucos e 30 e muitos anos, os cariocas Felipe Scovino, Daniela Labra e Marcelo Campos são três desses curadores cariocas que se dividem entre a crítica e a produção, entre as aulas e os editais de exposições — e, nesse vaivém, têm renovado a curadoria no país.

Com um pós-doutorado aos 31 anos, Felipe Scovino é um dos mais proeminentes curadores em atividade.

Ele começou a partir de um ícone da arte brasileira do século XX, Lygia Clark, a quem dedicou sua dissertação de mestrado, depois trabalhando na fundação que cuida de suas obras. Ali, enquanto fazia seu doutorado, ele aprendeu toda a parte prática de montagem e produção de exposições que a universidade não podia lhe dar.

— Na América Latina, geralmente o curador é também crítico de arte, quase sempre ligado a um trabalho acadêmico. É praticamente impossível sobreviver só como curador.

E, por estar dentro da academia, você quer transformar a pesquisa guardada na gaveta em algo material — diz Scovino, que dá aula de teoria da arte na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Foi a pesquisa acadêmica que originou a primeira curadoria de Scovino numa instituição. Com um doutorado sobre a arte brasileira nos anos 60 e 70, ele relacionou essa produção à das décadas de 90 e 2000, no livro “Arte contemporânea”, feito com uma bolsa da Funarte, e numa exposição no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, em 2009. Depois de cuidar da curadoria de uma exposição de Décio Vieira, em cartaz até o próximo dia 23 no Centro Universitário Maria Antonia, em São Paulo, Scovino prepara a mostra “Entre desejos e utopias”, que será inaugurada sábado, na galeria A Gentil Carioca, no Centro do Rio. Mais uma vez, ele unirá diferentes gerações de artistas — estão juntos, por exemplo, Cildo Meireles, Antonio Dias, Renata Lucas e Thiago Rocha Pitta —, desta vez por meio de esboços, desenhos e maquetes de seus projetos não realizados: — Tento não fazer projetos cronológicos, ponho em questão a palavra geração. Isso me levou a buscar artistas mais jovens que fazem obras com a qualidade de um Cildo ou Antonio Dias, que criam trabalhos atemporais e transnacionais.

Da brasilidade à performance

No sentido inverso, Marcelo Campos, de 37 anos, busca a brasilidade na arte contemporânea brasileira, característica geralmente identificada com o modernismo. Mas, como Scovino, foi também a pesquisa acadêmica que desaguou na curadoria.

Seu primeiro trabalho de curador, no Castelinho do Flamengo, em 2004, partiu de um capítulo de sua tese de doutorado. “Memórias heterogêneas” reuniu o mineiro Farnese de Andrade, o pernambucano Renato Bezerra de Mello, o cearense Efrain Almeida e o paraibano José Rufino — artistas que, segundo ele, carregam a marca da brasilidade, ainda que sem estereótipos.

— Eles lidam com sua própria memória e, ao assumir a primeira pessoa, acabam trazendo um pouco do imaginário brasileiro. É bem diferente da arte moderna, que queria nos dizer algo sobre o Brasil — diz ele. — A formação de muitos teóricos da arte é filosófica. Eu busquei um olhar mais antropológico.
Hoje, Campos contamina a pesquisa acadêmica com a curadoria. Na Uerj, ele dá aulas de Laboratório de História e Crítica e prepara, com os alunos, a mostra “Sobre ilhas e pontes”, que a galeria da instituição abre no dia 6 de julho. Campos também contamina a curadoria com a pesquisa acadêmica. Para chegar a “Sertão contemporâneo” — que rodou as filiais da Caixa Cultural no país, incluindo o Rio, em 2008 —, sugeriu que artistas visitassem regiões sertanejas, trazendo na volta diários de viagem.

Já Daniela Labra, diferentemente de Scovino e Campos, mergulhou primeiro na curadoria para depois se voltar mais profundamente à pesquisa acadêmica. Após se formar em teoria do teatro, em 1998, ela fez a típica viagem mochileira pela Europa, que culminou com um ano de pósgraduação em Madri. Antes disso, sua ligação mais direta com as artes visuais havia sido como secretária do artista plástico Daniel Senise.

— Na Europa, descobri esse ofício de curadora, que fica entre o prático e a teórico. Não me interessava ficar só no meio acadêmico, mas também não queria ligar para kombis ou fazer lista de salgadinhos — conta.

De volta ao Rio, em 2000, Daniela fez muitas listas de salgadinhos como produtora de festivais de cinema e teatro. Só no ano seguinte, quando foi morar em São Paulo, trabalhando em galerias e participando de grupos de estudos, ela se aproximou da atividade que deslancharia de vez em 2004, com sua primeira curadoria institucional, no Centro Maria Antonia. Intitulada “O artista-personagem”, a mostra indicava o que seria um de seus caminhos centrais, ainda que não exclusivo: a performance. Ela agora prepara, para novembro, a terceira edição do festival Performance Presente Futuro, no Oi Futuro.

— Meu maior interesse é a dimensão política da arte, e a performance exerce um impacto estético sobre o mundo — diz ela, que este ano começou um doutorado em História da Arte e critica os cursos para curadores que se espalham pelo país. — Curadoria não implica apenas organizar algo, mas estabelecer relações. O termo está superbanalizado.

Criadora da mostra de performance “Verbo”, na Galeria Vermelho, em São Paulo, Daniela mostra, como Scovino — que faz seu terceiro trabalho na Gentil Carioca —, que hoje o curador carioca tem que ir além da instituição para conseguir emplacar seus projetos. Além de se apoiar na ousadia de certas galerias, Scovino também tem passado mais tempo em São Paulo do que por aqui.

— No Rio, houve uma emergência de várias galerias nos últimos dez anos, mas o trabalho institucional está à deriva. A diferença em relação a São Paulo é brutal — diz ele.

"Felipe Scovino, 31 (em frente a foto de Luiza Baldan) Principais exposições: “Arquivo contemporâneo” (MAC de Niterói), “Décio Vieira: investigações geométricas” (Centro Universitário Maria Antonia, SP), atualmente em cartaz Tento não fazer projetos cronológicos, ponho em questão a palavra ‘geração’ “

"Marcelo Campos, 37 (em frente a obra de José Rufino) Principais exposições: “Sertão contemporâneo” (filiais da Caixa Cultural pelo Brasil), “Faustus”, de José Rufino (Palácio da Aclamação, Salvador) A formação de muitos teóricos da arte é filosófica.
“ Eu busquei um olhar mais antropológico”

"Daniela Labra, 35 (em frente a tela de Eduardo Berliner) Principais exposições: “Performance presente futuro” (Oi Futuro do Rio), “Verbo” (Galeria Vermelho, SP) Meu maior interesse é a dimensão política da arte, e a performance exerce impacto estético sobre o mundo"“

Posted by Marília Sales at 2:03 PM

É Dia de Feira por Nina Gazire, Istoé

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na Istoé em 12 de maio de 2010

Artistas realizam intervenções na tradicional feira de São Joaquim, em Salvador

Com a proposta de um flashmob estético-político, cerca de 60 artistas de todo o Brasil realizam, no dia 14 de maio, o evento Ocupação da Artística da Feira de São Joaquim. A feira é uma das maiores do país, e a maior feira livre da cidade de Salvador, sendo a mais tradicional para a população de baixa renda, não só dos soteropolitanos como do recôncavo baiano. O evento tem a curadoria de Leonel Mattos, artista que recentemente tem se dedicado a discutir a relação entre arte e política em uma série de trabalhos que protagonizam novas formas de inclusão e exposição artísticas e que colocam em perspectiva os espaços urbanos soteropolitanos. A Ocupação Artística na Feira de São Joaquim possui manifesto assinado pelo artista Vauluizo Bezerra Rodrigues, que participa da mostra propondo a similaridade do espaço da feira aos espaços das feiras tradicionais de arte contemporânea. “Caótica e pouco asséptica, mas viva em sua dinâmica funcional, a feira não difere estruturalmente das grandes feiras internacionais de arte e seus biombos milionários”, ironiza. Porém, a ocupação da Feira de São Joaquim pretende se apropriar dessa semelhança como forma de pastiche.

Na realidade a manifestação realiza uma crítica às instituições de arte tradicionais, celebrando aquilo que a arte dos museus muitas vezes não consegue alcançar: a dinâmica das ruas em tempo real. Talvez por isso, o evento se dá como uma manifestação efêmera, com duração de apenas um dia. Localizada na Cidade Baixa entre a Baía de Todos os Santos e a Avenida Oscar Pontes, no bairro do Comércio, a feira de São Joaquim, possui uma área de 34 mil m², sua importância é vital para o comércio, cultura e favorecimento dos menos abastados, devido aos bons preços. Mas, muito além de uma oportunidade pechincha, a feira é um patrimônio cultural. Tanto que um dos objetivos dessa intervenção artística é apropriação desse espaço como cenário expositivo e performático como forma de celebração da identidade baiana. “A ocupação dos espaços da Feira de São Joaquim e' um ato político acertado porque não atinge pessoas, antes, investe contra as clássicas instituições e seus clássicos pecados. Não existe nada mais baiano e menos turístico (para a grande maioria das pessoas) que A Feira. È a antítese de tudo que é permeável as instituições de arte”, afirma Vauluizo em seu texto sobre os objetivos da intervenção artística.

Posted by Marília Sales at 1:42 PM

Kracjberg acusa Curitiba de descuido com obras por Dimitri do Valle, Folha de S. Paulo

Matéria de Dimitri do Valle originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 13 de maio de 2010.

O artista Frans Kracjberg, 89, acusa a Prefeitura de Curitiba de abandonar obras doadas nos anos 90. Ele quer a devolução das peças e estuda processar o município caso não as tenha de volta. "Para mim acabou. Nunca fui tão humilhado", disse por telefone à Folha, da Bahia.

As 110 esculturas de troncos de árvores estão no Espaço Cultural Frans Kracjberg, no Jardim Botânico. "Viraram lixo", afirma o artista, que diz que o local foi fechado por mais de um ano.

A FCC (Fundação Cultural de Curitiba) nega o abandono e diz que o artista recusa a aplicação de um programa oficial de restauro.

A entidade afirma fazer manutenção e que o espaço, fechado para a "conservação das obras", foi reaberto no início do ano. A FCC pensa em recorrer à Justiça pelo direito de restaurar as peças.

Posted by Marília Sales at 1:30 PM

MuBE terá novo anexo e foco em arte de rua por Silas Marí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 13 de maio de 2010.

Museu chega aos 15 anos com planos de completar projeto de Mendes da Rocha

Presidente da instituição diz que alvo nunca foi escultura e que museu pretende ter "multiarte", com mostras de vídeo, fotografia e grafite

No ano em que completa 15 anos, o Museu Brasileiro da Escultura tenta se "realinhar" na cena institucional paulistana.

Depois de demitir o curador Jacob Klintowitz em agosto do ano passado, afirmando não ser necessário alguém no cargo, a direção do MuBE anuncia agora a construção de um anexo ao edifício projetado por Paulo Mendes da Rocha e um novo foco em grafite e arte de rua.

Já estava no projeto original de Mendes da Rocha o prédio que será erguido até o ano que vem, segundo as previsões do MuBE. "Como está agora, o museu não tem um depósito de acervo, carpintaria, nem boas instalações para os funcionários", diz Mendes da Rocha.

"Será uma torre baixa ao lado do que está lá", resume o arquiteto. "Essa construção começa lá embaixo, no nível inferior do museu, e ultrapassa a marquise." Do subsolo ao topo, terá 15 metros de altura.
Enquanto garante que sairá do papel o novo prédio, orçado em cerca de R$ 6 milhões, o MuBE não definiu ainda o que fará no espaço. A direção só adianta que o anexo, além de abrigar o pequeno acervo do museu, não terá muito a ver com o nome da instituição.

Um dos planos é dar aulas de arte pagas e gratuitas no local.

"Nunca fomos um museu de escultura", afirma Jorge Landmann, presidente do MuBE. "São Paulo já tem muitos museus de escultura, na Consolação, na Doutor Arnaldo, cheios de Brecheret", diz, em referência aos cemitérios da região. "Nós não queremos ser isso."

Mas ainda não parece claro o que quer ser esse museu. Em entrevista à Folha, Landmann falou em ter no MuBE "todos os aspectos da arte", desde vídeo e fotografia à arte de rua. "É multiarte, todo tipo de arte."
Ele preside o museu desde 2007. Em abril daquele ano, a prefeitura chegou a revogar a concessão de uso do espaço -embora seja privado, o museu ocupa um terreno da prefeitura e, por isso, é considerado propriedade pública cedida em comodato desde 1987.

Landmann contornou a situação transformando o museu numa organização social de interesse público, o que permite maior acesso a recursos públicos e direito à captação de verbas pelas leis de incentivo.
Mas não foi suficiente para acabar com a pecha de "museu de aluguel", como ficou conhecido o MuBE pelo número de eventos comerciais que recebe.

Landmann diz ter reduzido a frequência dessas ações, mas sua gestão abriu espaço para um campeonato de baristas, desfiles de calças jeans e reuniões de associações de bairro.

À época da demissão do curador Jacob Klintowitz, que hoje diz que o MuBE "não tem missão", o secretário municipal da Cultura, Carlos Augusto Calil, disse que o museu é "impermeável a projeto cultural".

Sob críticas, o MuBE virou alvo de seu vizinho. O Museu da Imagem e do Som tentou negociar com Landmann a transferência do Paço das Artes, que deverá desocupar sua sede na Cidade Universitária, para o prédio do MuBE, o que levaria à extinção do museu.

Embora confirme as negociações, Landmann diz que o plano está "fora de cogitação".

Posted by Marília Sales at 1:21 PM | Comentários (1)

maio 11, 2010

O grande utópico por por Paula Alzugaray , Istoé

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Istoé em 11 de maio de 2010

Duas exposições mostram o idealismo do artista e arquiteto que projetou uma cidade modernista em que homens usavam saias

Embora o arquiteto Flavio de Carvalho tenha projetado dezenas de edifícios e monumentos públicos tanto ou mais utópicos que Brasília, foi um projeto de 1956 que realmente o tornou uma figura pública. “Flavio de Carvalho estreou seu New Look. É de nylon e brim. Acalma os nervos. Evita as guerras. Previne resfriados”, dizia a chamada de uma reportagem na revista “Manchete” de 27 de outubro daquele ano. Intitulada “Experiência nº 3”, a caminhada do arquiteto pela avenida Paulista, vestindo saias, para divulgar seu projeto de utopia urbana, é hoje considerada a primeira performance da arte brasileira. As únicas imagens que ficaram para contar a história foram feitas por fotojornalistas da “Manchete” e de “O Cruzeiro”, e integram as exposições que o MAM-SP dedica a Carvalho.

A retrospectiva na Grande Sala apresenta um panorama de sua produção como arquiteto, cenógrafo, pintor e performer. Embora tenha sido dado destaque para um projeto para o Viaduto do Chá, o carro-chefe da exposição são as pinturas. O expressivo conjunto de aquarelas, óleos e desenhos mostra que Carvalho era um retratista de mão cheia, que captava com maestria a tensão e a gravidade dos rostos de seus retratados. Entre as pinturas que fez de escritores, psicanalistas e artistas figura um expressivo Oswald de Andrade acompanhado de sua terceira esposa, a escritora Julieta Barbara.

Na Sala Paulo Figueiredo, “A Cidade do Homem Nu”, curadoria de Inti Guerrero, faz uma livre interpretação do idealismo de Carvalho, que concebera um projeto urbanístico para um homem “sem deus, sem propriedade, sem matrimônio e sem tabus escolásticos, livre para o raciocínio e o pensamento”. A mostra apresenta obras contemporâneas brasileiras e estrangeiras que dialogam com as ideias do artista modernista e arrisca um interessante cruzamento com a performance libertária de Ney Matogrosso na fase Secos & Molhados. Ao exibir a roupa e o videoclipe desse músico também provocador, o curador reafirma a identidade multimídia de Carvalho, para quem a vida cotidiana e a arte pertenciam a um mesmo campo de ação.

Posted by Marília Sales at 12:21 PM

Multi artista apresenta arte instantânea no Mamam, Diário de Pernambuco

Matéria publicada originalmente no caderno Viver do Diário de Pernambuco em 11 de maio de 2010

Um bilhete de loteria pode significar esperança, mudança de vida, riqueza ou, para os mais céticos, uma remota probabilidade disso tudo. A partir das 12h de hoje, porém, o bilhete ganhará um sentido de arte para os que comparecerem ao Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães. É que até as 14h, o artista visual paulista Alex Flemming faz um happening no local, experimentando a condição de "Rei Midas" para transformar os bilhetes lotéricos em obras de arte a partir da sua assinatura.

"Vou fazer um trabalho performático, incorporar algo industrial ao mundo das artes. Estou incorporando o mundo das loterias. Quando um artista assina um objeto, ele está transformando aquilo numa obra de arte", explica Flemming, que hoje vive na Alemanha. Essa é a primeira vez que o paulista vai apresentar essa performance, que depois será realizada no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, e no Museu de Arte de São Paulo (Masp).

O princípio da performance não é novo, segue a mesma linha conceitual proposta por Marcel Duchamp quando deslocou um mictório e o pôs num salão de artes. "Na hora em que Duchamp fez isso, ele transformou o mictório numa outra coisa. O mictório perdeu sua funcionalidade e passou a ser visto dentro de um conceito de tridimensionalidade plástica", analisa Flemming.

A ideia de usar a assinatura como fator de entrelaçamento artístico também foi usada pelo pintor Salvador Dalí. No entanto, Flemming estabelece diferenças entre sua performance com a do artista espanhol, que passou a vender autógrafos como uma crítica à lógica comercial do mercado das artes. Conhecido pelo teor político de suas obras, a performance de Flemming mantém esse viés. "A experiência é radical porque levo a arte para todos, vou democratizar a obra para quem quiser", defende ele.

Os bilhetes que vão atingir o status de arte são os que a Caixa Econômica Federal fez em comemoração ao Dia do Artista Plástico. Como o homenageado deste ano é o próprio Flemming, os bilhetes trazem uma foto do artista enquanto ele montava a instalação Galileu Galilei, exposto na Pinacoteca de São Paulo. Os tíquetes serão carimbados com tinta acrílica e assinados por Flemming com uma caneta permanente.

Posted by Marília Sales at 12:03 PM

Criação coletiva por Alinne Rodrigues, O Povo

Matéria de Alinne Rodrigues originalmente publicada no caderno Vida & Arte do jornal O Povo em 11 de maio de 2010.

Criar um desenho totalmente no computador: possibilidade de cores testadas, recortes perfeitos, de desfazer o que deu errado, tudo a um só clique de distância. Ao final, salvar o produto em uma pasta junto com centenas de outros, muitos dos quais nem o artista se lembra. Fotografar em câmera digital: tentar dezenas de vezes cada foto, verificando em tempo real se ela ficou do jeito que se desejava. Depois, armazenar em uma pasta no computador e acumular gigas de informação bruta.

Trimestralmente, a revista digital IdeaFixa – de artes visuais, ilustração, design e fotografia – recebe, por e-mail, bytes e bytes desses trabalhos. A publicação, no entanto, tenta manter vivo o toque, o nanquim e o papel em seus projetos especiais. Há um ano, o primeiro deles chegou a Fortaleza: a exposição Enox Expressions. Parceria entre a publicação e a rede de mídia indoor Enox, a ideia foi imprimir 39 peças de 32 artistas em papel fotográfico e fazê-los circular por 22 cidades em espaços reservados à publicidade alternativa, como banheiros de bares e restaurantes.

A aposta na itinerância física, fora da Internet, continua. Na última semana, mais um projeto chegou por aqui. Desta vez, a exposição vem em forma de um sketchbook (um caderno de rascunho), que vai sendo preenchido com arte enquanto viaja pelas mãos dos criadores. A ação começou em fevereiro de 2009, com a abertura de inscrições, e a seleção dos artistas participantes. Entre quase 500 candidatos, 89 foram selecionados. Dois deles do Ceará: Daniel Chastinet e Natalia Kataoka. “A seleção foi feita por qualidade do trabalho. Outro ponto importante foi a diversidade de estilos, mas não houve uma preocupação geográfica. As pessoas que entraram eram realmente as melhores”, explica Janara Lopes, editora da IdeaFixa e curadora do projeto Cadernos de Viagem.

Para que ele se tornasse realidade, Janara procurou a marca Caderno Listrado, que confecciona os sketchbooks artesanalmente. Desde então, quatro deles têm viajado e sido preenchidos com as mais variadas formas de arte: colagens, aquarelas, pop-ups (aquelas figuras que saltam do papel quando a página é aberta), tem de tudo. Em Fortaleza, a passagem ocorre em duas etapas. A primeira, cumprida na última sexta-feira, foi a intervenção do ilustrador Daniel Chastinet, 25. Oficialmente engenheiro civil, ele dedica o tempo entre uma obra e outra ao desenho.

“Comecei em 2006 fazendo desenho vetorial, no computador, para estampar camisetas e participar de concursos em sites. Aí fui conversando com outros criadores e aprendendo o que era legal e o que não era”, lembra. A ilustração analógica só veio depois, nas paredes do quarto, atrás da porta, na geladeira de um albergue onde morou por um tempo, na Argentina, em pedaços de tábua colhidos em obras. “O Caderno é massa porque tem coletivos de designers que trabalham principalmente com o digital. É como se chegassem e dissessem: ‘Agora me mostra o que você sabe fazer com as mãos’”.

O tempo de execução de sua colaboração para o Cadernos de Viagem foi de três dias. Para desenvolvê-la, ele pensou nas significações de uma viagem. Focado no tema “jogar o corpo no mundo”, ele desenhou com nanquim e tinta acrílica casas expulsando seus moradores e utilizou o recorte de um barquinho de lego. A segunda etapa teve início do último domingo. Daniel passou a bola para Natalia Kataoka, 24, que, oficialmente, é publicitária, mas se dedica à fotografia. “Ainda não decidi o que vou ser quando crescer”, ela brinca.

A história de Kataoka teve início na faculdade, com as disciplinas de fotografia. Com a câmera digital compacta do pai, ela ficou em terceiro lugar na Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom), realizada no encontro nacional da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). “Eu não esperava que fosse conseguir uma colocação assim em um evento nacional. Foi quando eu percebi que poderia começar a experimentar com fotografia e comprei minha primeira câmera profissional”, rememora. A empolgação, no entanto, durou pouco tempo. “Comecei a perceber que não gostava tanto do digital. Tem pouco ruído, é muito limpa a imagem. Aí eu sempre ia no Photoshop botar sujeira”.

Em 2007, ela descobriu a lomografia, o tipo peculiar de fotografia feita a partir de uma câmera russa da marca Lomo. Feitas, em sua maioria de plástico – inclusive as lentes –, as lomos passaram a ser desejadas em todo o mundo por causa da distorção presente nas imagens produzidas. A tal sujeirinha que Kataoka procurava. “Hoje uso a digital muito mais para trabalhar. Quando quero tocar um projeto pessoal, só uso câmera de filme”, conta.

Dona de uma Holga, um modelo antigo de Lomo, é com a míni Diana que ela fotografa, esta semana, suas viagens para o Caderno. “Eu vou fazer diferente do Daniel. Não quero pensar viagem como um trajeto. Quero usar o mar, porque a gente está em Fortaleza, e o mar é um elemento muito forte, e quero usar pessoas com máscaras para fazer essa viagem”, adianta.

De São Paulo, o caderno que está em Fortaleza foi para o Rio de Janeiro, passou por Belo Horizonte e subiu para o Nordeste. Mas afinal, qual será o destino desse sketchbook artístico? “Os melhores trabalhos estarão num livro. Haverá uma exposição em algumas capitais, com fotos do processo, as imagens impressas e os cadernos - protegidos por uma redoma, claro. No final do processos, haverá uma festa em São Paulo com um leilão dos cadernos. O valor será revertido para instituições de caridade com foco no ensino das artes”, revela a editora Janara Lopes.

Posted by Marília Sales at 11:56 AM

maio 10, 2010

Nova Lei de Fomento à Cultura em debate no Recife, Diário de Pernambuco

Matéria publicada originalmente no caderno Viver do Diário de Pernambuco em 10 de maio de 2010

A Nova Lei de Fomento à Cultura, o Procultura está em debate hoje no Recife. Acontece esta tarde, no auditório da Assembleia Legislativa de Pernambuco, o encontro regional do Procultura, que visa aderir ao Projeto de Lei 6.722/2010, que institui o Programa Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura, com novas propostas, sugestões e moções.

Participam das discussões o secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, Henilton Menezes; a secretária de Articulação Institucional do MinC, Silvana Meireles; o secretário de Políticas Culturais do MinC, José Luiz Herência; o coordenador nacional do Sistema Nacional de Cultura do MinC, João Roberto Peixe; a chefe da Representação Regional Nordeste do MinC, Tarciana Portella; além dos deputados federais, Maurício Rands, Raul Henry, Paulo Rubem Santiago e Alice Portugal, relatora do Projeto de Lei.

A iniciativa faz parte de uma série de debates convocados pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados. Já foram realizadas reuniões públicas em São Paulo, Salvador, Curitiba e Porto Alegre. Ainda este mês também estão previstos debates no Rio de Janeiro, no dia 11; Belém, dia 14; Belo Horizonte, dia 17; e em Brasília, dia 24.

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, aponta que os investimentos da renúncia fiscal estão concentrados no eixo RJ-SP, e que, mesmo nesses estados, apenas 3% dos proponentes ficam com mais da metade dos recursos.

Dentre as principais mudanças na Lei Federal de Incentivo à Cultura estão a renovação do Fundo Nacional de Cultura (FNC), reforçado e dividido em nove fundos setoriais; a diversificação dos mecanismos de financiamento; o estabelecimento de critérios objetivos e transparentes para a avaliação das iniciativas que buscam apoio financeiro; o aprofundamento da parceria entre Estado e sociedade civil para a melhor destinação dos recursos públicos; e o estímulo à cooperação federativa, com repasses a fundos estaduais e municipais.

Posted by Marília Sales at 3:16 PM

maio 7, 2010

SP-Arte foi um sucesso de vendas, diz Fernanda Feitosa por Camila Molina, estadao.com.br

Matéria de Camila Molina originalmente publicada na seção Cultura do estadao.com.br em 7 de maio de 2010.

Com vendas na casa dos R$ 30 milhões, diretora do evento diz que não há crise no mercado de arte do País

SÃO PAULO - Pelos cálculos, fechados até esta quinta, 6, o volume total de vendas de obras na 6.ª SP-Arte - Feira Internacional de Arte de São Paulo, que ocorreu até domingo no Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, ficou entre R$ 30 milhões e R$ 32 milhões. "É um balanço pendente", como diz a diretora do evento, Fernanda Feitosa, porque, segundo ela, há negociações de obras ainda correndo, um movimento corriqueiro pela natureza de feiras. De qualquer maneira, como Fernanda estima, o balanço de 2010 revela aumento de cerca de 15% em se comparando com a edição passada da SP-Arte, de 2009, que teve cerca de R$ 26 milhões (ou US$ 15 milhões) de vendas. Não existe mesmo crise nenhuma no mercado de arte brasileiro.

No mesmo fim de semana em que ocorreu a feira na Bienal, com participação de 80 galerias, nacionais e estrangeiras e visitada por 15.795 pessoas, a Bolsa de Arte do Rio de Janeiro realizou em São Paulo dois leilões, um de arte moderna e outro de arte contemporânea, design e fotografia. Como conta Jones Bergamin, diretor da Bolsa de Arte, cada leilão rendeu em torno de R$ 2 milhões de vendas - o grande destaque foi This Is a Canvas, This Is a Box, acrílica sobre tela de 1996 de Cildo Meireles, arrematada por R$ 400 mil.

Cálculos. "É um momento financeiro muito bom, graças a Deus!", festeja Alessandra d’Aloia, presidente da Associação Brasileira de Arte Contemporânea (Abac), que agrega 20 galerias de 5 Estados e sócia da Galeria Fortes Vilaça, uma das mais importantes de São Paulo. Segundo cálculos da Abac, entidade criada em 2008, houve aumento de 30% de venda de obras de seus associados nesta 6.ª SP-Arte. "É um estrondo", define Alessandra. Pela primeira vez a Abac se dedicou a fazer um balanço de volumes vendidos.

Mas fazer cálculos de feiras é sempre complicado, ainda mais porque se misturam os chamados mercados primários e secundários no mesmo evento. No caso da SP-Arte, que reuniu cerca de 2.500 obras - e também promoveu cerca de R$ 190 mil em doações do Shopping Iguatemi, Banco Espírito Santo e da colecionadora Cleuza Garfinkel para aquisições destinados aos acervos da Pinacoteca do Estado, Museus de Arte Moderna de São Paulo e da Bahia -, há uma especificidade: ela é uma feira na qual colecionadores não arrematam peças de valores milionários ou mais caros. "Pode-se dizer que trabalhos de até US$ 50 mil se vendem bem", conclui Alessandra, exemplificando que foi A Coluna de Cinzas, de Nuno Ramos, vendida a US$ 90 mil, a peça de valor mais alto vendida no estande da Galeria Fortes Vilaça, que tem ainda em seu time nomes como Adriana Varejão, Beatriz Milhazes e Ernesto Neto.

Max Perlingeiro, diretor da Pinakotheke Cultural, afirma que Figura em Azul, pintura moderna de cifra milionária de Ismael Nery e datada de 1928, considerada uma das mais caras desta 6.ª edição da SP-Arte, ainda está em negociação. "As obras de menor valor são vendidas, as de mais valor, demandam negociação", diz Perlingeiro. A escultura em bronze de 1945 de Maria Martins exibida no estande da Arte 57, que também seria um destaque do evento, cotada a R$ 1,5 milhão, saiu sem comprador. "Acredito que haja mais folclore do que realidade quando se fala de uma efervescência do mercado. Colecionadores interessados em coisas excepcionais estão negociando muito. A euforia existe para arte contemporânea de valor palpável", pondera Max Perlingeiro.

Números:

A Feira Internacional de Arte de São Paulo revela alguns dados

32 milhões de reais - foi o volume estimado de vendas na edição deste ano

15% de aumento de faturamento em relação a 2009, que movimentou R$ 26 milhões

190 mil reais foi o valor aproximado de doações para instituições de São Paulo e Bahia

15.795 visitantes em cinco dias de feira, 20% a mais que em 2009

Posted by Cecília Bedê at 4:36 PM

maio 6, 2010

Mostra reúne trabalhos de artistas da galeria Gentil Carioca por Walter Sebastião, Estado de Minas

Matéria de Walter Sebastião originalmente publicada no jornal Estado de Minas em 22 de abril de 2010.

Arte contemporânea, mostrando o melhor da produção atual. A capacidade de revirar o cotidiano e encontrar, em paisagem dilacerante, alguma poesia. Assim é a mostra Uma gentil invenção, que será aberta amanhã, na galeria Arlinda Correia Lima do Palácio das Artes. Dezenove artistas cariocas trazem um jeito diferente de fazer arte, com produção que provoca o espectador, marcada pela urbanidade delirante e pela irreverência. Essa opção, não poucas vezes, valeu polêmicas e problemas aos autores. Cultivado desde a metade dos anos 1980, esse caminho está presente na exposição por meio de João Modé e Ricardo Basbaum, nomes históricos dessa prática.

O evento é mais que mera exposição. Traz a Belo Horizonte o trabalho da galeria Gentil Carioca, dirigida por artistas que decidiram enfrentar todos os problemas que afligem a cena das artes visuais – da falta de espaço à venda de obras. Somando programação regular, incentivo a novos nomes e programas educativos, o espaço ganhou respeito internacional. A importante revista nova-iorquina Flash Art pôs a Gentil Carioca entre os 100 espaços mais interessantes da arte contemporânea mundial.

Palestra

“É uma galeria diferente”, avisa a artista plástica Laura Lima. Ela vai fazer palestra com Márcio Botner, outro fundador da Gentil, amanhã, às 14h, no Cine Humberto Mauro. Desde 2003, o espaço funciona num sobrado do início do século 20, no Centro do Rio de Janeiro. Lá ficava o ateliê de Márcio Botner. Os bate-papos com o amigo dos tempos de cursos no Parque Lage trouxeram a ideia de transformar o ateliê em galeria. Márcio ouviu a proposta com curiosidade e, um mês mais tarde, topou, chamando Laura para sócia. A dupla convidou o artista plástico Ernesto Neto para a empreitada.

“Quem manda na Gentil são os artistas. Criar a galeria foi um gesto político numa época em que havia muita gente produzindo sem ter onde mostrar. Faltavam bolsas, projetos e investimento em arte”, explica Laura. “A gente gosta de arte. Então, batalhamos para apresentar os artistas, sejam ou não representados por nós”, observa.

Uma gentil invenção é o retrato do momento que a galeria vive. “O ideal é que se veja a mostra e se pesquise o que têm feito artistas”, recomenda ela. O evento surgiu do desejo do Sesc de promover mostra itinerante e foi transformado pela equipe da Gentil Carioca em experiência de formação de acervo público. O Sesc, inclusive, comprou as obras e viabilizou uma espécie de museu itinerante.

Projetos

Laura Lima conta que, aberta a galeria, chegaram-lhe dezenas de portfólios “de um monte de gente maravilhosa sem ter onde expor”. Criou-se então a mostra anual Abre-alas, dedicada aos novos. Uma exposição para crianças trouxe a certeza de que educação e convivência com a arte são questões importantes para a formação de público. A cada mostra, a Gentil Carioca passou a chamar artistas para conversar, além de bolar camiseta, sempre com a palavra educação, vendida a preço de custo. Atualmente, elas já são 20.

A equipe convenceu colecionadores a patrocinarem a Parede Gentil, na face externa do espaço, defendendo a ideia de que colecionar é construir pensamento, não apenas ter um objeto. “Fazemos o que uma boa galeria deve fazer: possibilitar que o artista e suas obras estejam no maior número de eventos possível. Galeria é só sede onde se tem informação sobre o artista”, defende Laura.

Há dramas nessa missão, concorda ela. “Não é fácil vender arte. O número de colecionadores está crescendo, mas eles ainda são poucos”, conta. Há solução para o problema? “Mostrar que coleção pode ter vários perfis”, responde ela. O acervo particular pode ser pequeno, grande, ter um tema ou ser dedicado a uma linguagem, por exemplo.

Atualmente, a Gentil Carioca representa cerca de 20 artistas, selecionados observando-se o respeito ao realizado e a afinidade dos proprietários com o que eles apresentam. “Não são só amigos. Se fosse assim, seriam duas mil pessoas”, brinca Laura. “Artista tem de sair do casulo, trabalhar melhor seu romantismo e cair no mundo”, conclui ela.

UMA GENTIL INVENÇÃO
Trabalhos de Alexandre Vogler, Carlos Contento, Ducha, Ernesto Neto, Jarbas Lopes, João Modé, Laura Lima, Márcio Botner & Pedro Agilson, Maria Nepomuceno, Marinho, Marssars, Paulo Nenflídio, Pedro Varela, Renata Lucas, Ricardo Bausbaum, Simone Michelin e Thiago Rocha Pitta. Galeria Arlinda Correia Lima do Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. Abertura sexta-feira, às 19h. O espaço funciona de terça-feira a sábado, das 9h30 às 21h, e aos domingos, das 16h às 21h. Até 30 de maio.

Posted by Cecília Bedê at 1:34 PM

maio 4, 2010

Picasso é a estrela na Christie's de NY por Tonica Chagas, O Estado de S. Paulo

Matéria de Tonica Chagas originalmente publicada no caderno Vida e Arte do jornal O Povo em 4 de maio de 2010.

O óleo sobre tela Nu au Plateau de Sculpteur, obra-prima pintada por Picasso num único dia, em março de 1932, é a grande aposta de leiloeiros e marchands para novo recorde de preço para obra de arte adquirida em leilão, quando for à venda hoje à noite na Christie"s de Nova York, no primeiro leilão da temporada de primavera na cidade. A casa não revela a estimativa de preço, mas a expectativa é que o quadro alcance mais de US$ 100 milhões.

O recorde atual é da escultura de bronze L"Homme Qui Marche I (1960), de Alberto Giacometti, arrematada em fevereiro pela viúva do banqueiro Edmond Safra, a socialite brasileira Lily Safra, na Sotheby"s de Londres, por US$ 104,3 milhões. Nu au Plateau de Sculpteur (ou Nude, Green Leaves and Bust, título em inglês) retrata a amante do pintor Marie-Thérèse Walter, então com 22 anos, e é uma das grandes telas da série com mulheres adormecidas ou sentadas que Picasso produziu para sua primeira retrospectiva, exibida em junho de 32 pela Galerie Georges Petit, de Paris.

Até agora, o recorde em leilão para um Picasso era de US$ 104 milhões, pagos pelo óleo sobre tela Garçon à la Pipe, de 1905, vendido pela Sotheby"s/NY em maio de 2004. Mas é possível comparar o valor dele com outro da mesma série de 32, Le Rêve, que pertence a Steve Wynn, empresário do setor imobiliário e dono de cassinos em Las Vegas.

Nu au Plateau é o lote principal entre os 27 vindos da coleção do empresário californiano Sidney Brody (morto em 1983) e sua mulher, Frances Brody, que morreu em novembro. As obras compõem seção especial do leilão de arte impressionista e moderna que a Christie"s realiza hoje.

A coleção, iniciada nos anos 1940, tem outras preciosidades como o óleo Nu au Coussin Bleu (1924), de Matisse, estimado entre US$ 20 milhões e US$ 30 milhões, e o busto de bronze Grande Tête Mince (1954), de Alberto Giacometti, com estimativa entre US$ 25 milhões e US$ 35 milhões, além de obras de Renoir, Henry Moore, Bonnard, Modigliani e mais sete de Picasso. O casal adquiriu Nu au Plateau do agente do pintor, Paul Rosenberg, em 1951, pagando por ele pouco menos de US$ 20 mil.

Posted by Cecília Bedê at 12:39 PM

Poesia visual por Marcos Sampaio, O Povo

Matéria de Marcos Sampaio originalmente publicada no caderno Vida e Arte do jornal O Povo em 4 de maio de 2010.

Premiado do 61° Salão de Abril com uma bolsa de formação, o artista Jared Domício lança seu olhar sobre a mostra e a produção de arte contemporânea

Qual é o limite da arte? A pergunta é recebida como um soco pelo artista Jared Domício, fortalezense escolhido pelos curadores do 61° Salão de Abril, entre os 30 selecionados, para receber uma bolsa de formação. Ainda assim, ele respira e arrisca uma resposta. "O limite da arte é o limite do mundo onde ela vive". Tomando como exemplo os artistas da body art que chegam a se mutilar ou auto flagelar, Jared completa. ``Antes de chamar de absurdo, é preciso entender a ideia, o contexto onde ele vive. A arte lida com uma diversidade de olhares``.

Convidado pelo O POVO, Jared Domício fez um passeio pelo Salão, no último sábado, para expor suas posições sobre arte contemporânea, a proposta do evento e os artistas selecionados. Logo na entrada, ele assumiu estar surpreso com os trabalhos e com o alto nível da exposição. ``Alguns trabalhos aqui você pode classificar como pintura, performance. Mas, a maioria trabalha com o hibridismo``, comenta ele sobre a mistura de diversas linguagens. Dentro desse conceito, por exemplo, ele cita o Mesa de Luz: Cotidiano, obra do grupo brasiliense Mesa de Luz. Formado pelos artistas Hieronimus do Vale, Marta Mencarini e Tomás Seferin, o grupo realizou no dia 16 de abril um trabalho que misturava música, edição e performance usando tecido. Tudo foi captado por uma câmera que filmava por baixo do tampo de uma mesa de vidro. ``Fico surpreso por que a própria obra não é para um salão tradicional, com categorias``.

Outro trabalho que Jared aponta por ter lhe chamado a atenção foi o de Alice Lara. As duas pinturas da brasiliense, batizadas de Esperando para mais delícias e Sutileza Lasciva, mostram cachorros de boca escancarada e se mordendo. ``Me causou um certo incomodo``, explica Jared. ``Ela não trabalha de uma forma realista. Ao mesmo tempo que a imagem revela extrema violência, ela utiliza cores como o amarelo, que tem muita sutileza``. Para ele, os quadros lhe trouxeram a ideia da contaminação. ``É quando um trabalho, você goste ou não, ele vai contigo de alguma forma``.

Voltando ao hibridismo, que parece estar presente em boa parte dos trabalhos do 61° Salão de Abril, Jared se detém diante das pinturas Things ain´t what they used to be (Oscar Peterson and Jon Faddis) e Rockin chair (Joe Wilder), do paulista Roberto Bernardo, que traz fortes influências do grafite unido com a colagem. ``Nenhuma área hoje é tão pura e a arte é um filtro do mundo em que vivemos. É muito difícil um artista compreender o que é arte contemporânea``.

Horizontes
"Você nota que são artistas com uma pesquisa em desenvolvimento", analisa Jared sobre as obras do Salão como um todo. "O artista, hoje trabalha mais com questões do que com uma técnica". Essa observação é o mote para ele falar da própria obra, de nome Arquivos do Horizonte. Trata-se de 65 transparências representando a linha do horizonte (que separa um plano do outro) de diversas obras de artistas como Leonilson, Da Vinci e Picasso. Explicando como uma pesquisa sobre como as pessoas se relacionam com o espaço, ele conta fez uma seleção entre as mais de 100 transparências que já fez. ``Enquanto existirem artistas trabalhando a ideia de horizonte, eu vou continuar buscando essa percepção``.

Passeando pelo centro da cidade onde estão outras obras e onde foram realizadas performances, Jared não esconde o orgulho pelo prêmio no valor de R$ 10 mil que recebeu. ``É um prêmio não pelo trabalho, mas por um processo de pesquisa``. Ele lembra que já participou de várias edições do Salão e em outras foi recusado. ``Prova que o trabalho mudou e o Salão também``. Classificado, muitas vezes, como minimalista, ele explica sua criação pelo foco no espaço, na precisão e pela preocupação com o grafismo. ``Gosto de criar situações onde o espectador não percebe de imediato. O artista não pode entregar tudo de uma vez``.

EMAIS

- O 61° Salão de Abril fica em cartaz até 31de maio, de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h e aos sábados, das 8h às 17h, no Centro de Referência do Professor (Rua Conde D-Eu, 560, antigo Mercado Central). Entrada gratuita.

- O artista Jared Domício nasceu em Fortaleza, em 1973. Começou a se interessar por artes por volta dos 12 anos. Graduado em Ciências Sociais, ele começou a expor durante os anos 1990. Em 2003, ele ganhou a Bolsa Pampulha, mudou-se para Belo Horizonte e fundou o projeto Casa da Passagem, com os artistas Paulo Nenflídio e Cristina Ribas. Seus trabalhos já estiveram em muitas cidades brasileiras como Belo Horizonte e Curitiba, além de Viena e México. Seus planos agora são dar continuidade à pesquisa sobre as linhas do horizonte utilizando o prêmio do Salão.

- "`Fortaleza tem um público em potencial muito grande``, comentou Jared Domício. ``O que ainda falta é educação. Uma maior interação entre os espaços culturais e as escolas``. E quando perguntado sobre quem seria o melhor público: ``para as artes contemporâneas são as crianças. Elas têm menos preconceito. Os adultos têm mais pudor``.

Posted by Cecília Bedê at 12:17 PM

Impostos sobre obra de arte podem chegar a até 42% de seu valor em SP por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 4 de maio de 2010.

Na semana passada, uma agente do Ministério da Cultura recebeu uma ligação da Receita Federal. Diziam querer doar ao Iphan uma obra de arte apreendida em 2009 no aeroporto de Viracopos. A tela, que chegou numa caixa com valor declarado de US$ 1.200, é, na verdade, a obra "Claudius", do alemão Gerhard Richter, avaliada em R$ 3,6 milhões.

"Explicaram que era uma obra de um artista importante", conta Wivian Diniz, coordenadora de bens móveis do Iphan. "Quando vi que era uma tela do Richter, levei um susto."

Mais pelo valor do que pelo fato de a obra entrar no país de forma ilegal. Esse desvio que levou o quadro de Richter a ser apreendido é comum no Brasil, país que não concede isenção de impostos a obras de arte.

Quando o trabalho de um artista é importado, mesmo que o autor seja brasileiro, a soma de impostos que incidem sobre a obra pode chegar a 42% de seu valor, pelo menos em São Paulo, já que as alíquotas incluem o ICMS, uma tarifa estadual.

Segundo informou a Receita Federal, em nota à reportagem, não há uma diferenciação entre produtos importados. Ou seja, qualquer objeto que entra no país é passível de tributação se não for isento de impostos.

"O descaminho [sonegação de impostos] de obras virou regra, é absurdo", diz Luís Nader, consultor da Unesco que estuda a questão a pedido do MinC. "Qualquer pessoa desse mercado admite, sem constrangimento, que isso é feito assim."

A Folha teve acesso à pesquisa. O documento sugere que obras de arte sejam isentas de parte dos impostos e que também seja ampliado o prazo de importação temporária de obras, ou seja, período em que trabalhos ficam no país para participar de exposições, que hoje é de seis meses, prazo "ridículo" na avaliação de Nader.

Entre outros esforços, o MinC está em negociações com a Receita para isentar de impostos as obras de artistas brasileiros que estão fora do país.

"É danoso punir colecionadores brasileiros que estão às vezes tentando repatriar obras", diz María Bonta, diretora de arte latino-americana da casa de leilões Sotheby's, que deve enviar uma carta ao governo brasileiro sugerindo a isenção de impostos. "Isso limita o volume de negócios que podemos fazer no país."

Posted by Cecília Bedê at 12:00 PM

Mercado opera em ritmo artificial por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 4 de maio de 2010.

Com escassez de obras consagradas no mercado, trabalhos de artistas ainda em ascensão entram em espiral de valorização

Estudo de investidores mostra que peças de Cildo Meireles, Adriana Varejão e Beatriz Milhazes valem 50 vezes o que valiam em 2000

Num mercado enxugado pela altíssima demanda, obras de artistas consagrados, em geral os mortos, estão cada vez mais escassas, abrindo um vácuo para que as bolas da vez da arte contemporânea se transformem mais cedo que nunca em fetiche de colecionadores.

Beatriz Milhazes, Cildo Meireles, Vik Muniz e Adriana Varejão viraram cifrões luminosos em cartelas de investimento. Na cola deles, nomes da novíssima geração, como Thiago Rocha Pitta, Tatiana Blass, Henrique Oliveira e André Komatsu já sofrem especulação.

"Poucos ativos têm potencial de valorização tão grande quanto arte brasileira", diz Rodolfo Riechert, da consultoria Plural Capital. "É um dos melhores campos para investir."

Junto de Heitor Reis, ex-diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia, Riechert criou um fundo de investimentos de R$ 40 milhões para arte brasileira. Um estudo que fizeram circula entre possíveis investidores e mostra que obras de alguns artistas hoje chegam a valer 50 vezes o que valiam há dez anos.

"Essa figura do investidor, que é comum lá fora, começou a aparecer também por aqui, gente que viu que comprar uma Beatriz Milhazes é um alto investimento", diz o galerista Oscar Cruz. "É sinal da evolução do mercado, é uma tendência."

No caso, tendência que leva o mercado a operar num ritmo artificial. A entrada de megainvestidores no circuito, às vezes mais interessados em lucrar com a revenda de obras em momentos estratégicos do que formar coleções, vem sustentando uma bolha especulativa e tornando menor o intervalo entre o momento em que o artista surge no circuito e a hora em que suas obras vão a leilão.

Espiral de valor
Trabalhos chegam a valer até cinco vezes sob o martelo do leiloeiro o preço que têm no cubo branco das galerias. Isso porque elas não têm "pronta entrega", nas palavras de Jones Bergamin, diretor da Bolsa de Arte, a casa de leilões mais importante do país. "Eles não têm como suprir a demanda do mercado, já que a rotatividade está muito intensa e o gosto muda muito rápido."

Dependendo desse gosto, séries específicas de alguns artistas, como as fotografias com diamantes, de Vik Muniz, ou as paredes que simulam charque, de Adriana Varejão, entram numa espiral descontrolada de valores. Isso pode estancar a demanda por esses artistas e levar a uma eventual desvalorização, ou seja, ao estouro da bolha.

"Tem gente que retira obra da galeria e manda entregar na casa de leilão", diz Márcia Fortes, da Fortes Vilaça. "É péssimo porque essas pessoas não representam o artista, só trabalham a especulação da obra", diz o galerista André Millan. "Mas não tem controle, a gente não comanda o espetáculo."
No máximo, galeristas tentam conter a alta excessiva dos valores comprando de volta obras de seus artistas que surgem no mercado. Até vão a leilões para resgatar suas obras e evitar que não sejam vendidas.

Mas, enquanto galeristas no país se assustam, esse movimento é normal no mercado internacional, sinal de que o país se aproxima de hábitos de consumo praticados lá fora. "Isso é bom, a gente tem de abrir a cabeça", diz Maria Baró, galerista espanhola radicada em São Paulo. "Isso de ficar marcando território é um erro."

Posted by Cecília Bedê at 11:54 AM

Arte acelerada por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 4 de maio de 2010.

Estampado na capa do catálogo de um leilão paulistano, um trabalho de Adriana Varejão foi arrematado, na semana passada, por R$ 551 mil sob aplausos tímidos e um "parabéns" do leiloeiro. A quadras dali, colecionadores disputavam obras no pavilhão da Bienal, que pareceu pequeno demais no furacão da SP Arte.

Em dez anos, obras de Varejão, Cildo Meireles, Vik Muniz e Beatriz Milhazes chegaram a se valorizar até 5.000%.

A entrada de megainvestidores no mercado de arte também promete anabolizar preços. "É o ativo mais valorizado, mais do que ações, mais do que o dólar, mais do que o ouro", diz Heitor Reis, que está liderando um fundo de investimentos de R$ 40 milhões para comprar arte brasileira. "É superagressivo", diz a galerista Márcia Fortes. "Está demasiado acelerado."

FEIRA SP ARTE TERMINA COM MAIS VENDAS

Encerrada no último domingo, a sexta edição da feira SP Arte, no pavilhão da Bienal, reuniu 80 galerias com 2.500 obras à venda. Neste ano, o evento teve 16 mil visitantes, 20% a mais do que no ano passado, sendo 30% do público de outros Estados.

Não há ainda um número oficial de vendas, mas a diretora da SP Arte, Fernanda Feitosa, acredita que bateram a marca dos R$ 15 milhões, faturamento total do ano passado. "Com certeza, todo mundo superou a expectativa", disse Feitosa à Folha.

Não foram vendidas as obras mais caras da SP Arte, como "Puerto Metafísico", de Joaquín Torres-García, avaliada em US$ 3,5 milhões, e "Tamba-Tajá", de Maria Martins, de R$ 1,5 milhão, mas a venda de contemporâneos puxou a alta dos negócios. "São valores menores, mas o volume é maior."

Posted by Cecília Bedê at 11:43 AM

maio 3, 2010

Adversários de Matarazzo colam rótulo de higienista por Mario Cesar Carvalho, Folha de S. Paulo

Matéria de Mario Cesar Carvalho originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 3 de maio de 2010.

Novo secretário da Cultura parece ter saudade de uma cidade que não existe mais, com um centro sem catadores, moradores de rua, camelôs e inferninhos

Num debate sobre políticas públicas para a região central de São Paulo, em 2006, catadores de sucata hostilizavam tanto Andrea Matarazzo que chegaram a gritar: "Pega! Bate!". A intenção era agredir fisicamente o então subprefeito da região da Sé na administração de José Serra. Eu, que mediava o debate, tive de falar alto com os catadores para demovê-los da ideia: "Debater pode, bater, não!".

O episódio ilustra o grau de animosidade que as políticas imaginadas por ele para a região central geraram em certos segmentos. Matarazzo parecia ter saudades de um centro sem catadores, sem moradores de rua, sem camelôs, sem inferninhos, sem bares mais heterodoxos, com uma Luz que lembrasse a exuberância dos anos 50. Ou seja, de uma cidade que não existe mais.

Seus adversários, um espectro que ia do PT aos padres católicos, conseguiram colar nele um rótulo de teor levemente erudito e altamente ofensivo: higienista. Era uma referência às políticas do século 19 e início do século 20 que removeram cortiços e prostíbulos do centro das cidades europeias.

A rampa para evitar que os sem teto dormissem no túnel no final da avenida Paulista era vista por seus adversários como a realização máxima dessa política. Virou a "rampa antimendigo" -caráter que ele negava com veemência. Dizia também que seus adversários nunca conseguiram provar que havia sido higienista.

Matarazzo tentou encarnar a versão paulistana de Rudolph Giuliani, prefeito de Nova York entre 1994 e 2002. Buscou implantar uma versão local do tolerância zero, que não deu certo, entre outras razões, porque São Paulo não é Nova York.

A imagem que ele gostava de cultivar era a do xerife. Fechava bares sem alvará como se tivesse realizado um grande feito. O eleitorado mais conservador o aplaudia como se tivesse encontrado nele um Jânio Quadros sem as manias.

O resultado dessas políticas para a cidade foi insignificante. Dos projetos que previa para o centro, um dos poucos implantados foi a abertura dos calçadões para veículos, com resultados nulos.
A Nova Luz, mais um slogan do que um projeto urbano para uma área degradada, não saiu do papel. O projeto de demolir um quarteirão -e não colocar nada no lugar- degradou ainda mais a paisagem da região.

Quando deixou a prefeitura, em setembro do ano passado, a varrição das ruas e a coleta de lixo piorou muito. Matarazzo dizia que na época em que esteve no poder isso não aconteceu. Manter a cidade limpa talvez tenha sido seu grande feito.

Posted by Cecília Bedê at 1:59 PM

Novo secretário é neófito na cultura por Fernanda Mena, Folha de S. Paulo

Matéria de Fernanda Mena originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 3 de maio de 2010.

Andrea Matarazzo, 53, carrega sobrenome de peso no meio artístico e não tem nenhuma experiência em gestão da área

O novo secretário de Estado da Cultura de São Paulo, Andrea Matarazzo, não é especialista no assunto, mas costuma se identificar, em relação à cultura, como um "apreciador".

Apesar de a mudança ainda não ter sido anunciada pelo governador Alberto Goldman (PSDB-SP), Matarazzo deve assumir a pasta ainda neste mês.

Neófito na área, o empresário e ex-ministro disfarça a falta de experiência em gestão cultural com um sobrenome de peso no meio artístico.

Nesse métier, ele é conhecido como sobrinho de Ciccillo Matarazzo, que foi criador da Bienal Internacional de São Paulo, do Museu de Arte Moderna (MAM) e da companhia cinematrográfica Vera Cruz.
Nos tempos de escola, Matarazzo e a irmã Claudia saíam do Colégio Dante Alighieri para almoçar na casa de Ciccillo, no Conjunto Nacional.

"Os almoços reuniam gente diversa e interessante da vida cultural paulistana. Eram conversas malucas de artista que só muitos anos depois eu fui entender", lembra Claudia Matarazzo, chefe do cerimonial do governo do Estado, para quem o irmão "é um esteta".

Vaidoso, Matarazzo gosta de ternos bem cortados. Manda fazê-los no mesmo alfaiate que atende ao apresentador Silvio Santos. Gosta de flores e cuida com preciosismo das gardênias e de um pé de limoeiro que tem no jardim de sua casa no Morumbi, construída ao estilo de uma vila italiana pelo arquiteto Gian Carlo Gasperini.

Do convívio com o tio, ele herdou o gosto pelas artes plásticas e os quadros que decoram a casa. É lá -entre obras de Lasar Segall, Luiz Paulo Baravelli e Paulo von Poser- que Matarazzo reúne amigos, políticos, artistas e ao menos dois membros da família para longos almoços de domingo.

O ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB-SP), um dos melhores amigos de Matarazzo, é habitué dos almoços, quando vai da mesa direto para a frente da televisão. Ali, acompanha os jogos de futebol do dia, entre colheradas do suflê de chocolate com calda de baunilha que sempre faz sucesso com os convidados e o dono da casa, um chocólatra convicto.

Mais rara nesses encontros é a presença do também ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP). O trânsito fácil entre esses dois polos do tucanato paulistano, representados por Serra e Alckmin, é característica da atuação de Matarazzo.

A própria dança das cadeiras entre ele e o secretário da Cultura João Sayad tem sido interpretada como mais um episódio dessa costura.

"É surpreendente [a indicação de Andrea Matarazzo], por um lado, porque não sei o que esperar. Por outro, confirma que a cultura é uma área de negociação política, onde se acomodam determinados interesses numa determinada conjuntura", diz Ismail Xavier, crítico e professor de cinema na USP.
"Pior do que o Sayad é impossível", dispara o diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa. "Tenho esperança de que Matarazzo descubra a cultura e seu potencial produtivo."

Para Emílio Kalil, diretor de produção da Bienal, Matarazzo "é um homem muito preparado para a coisa pública" e deve fazer uma boa gestão.

O novo secretário começou a carreira como estagiário do banco Bradesco, aos 18 anos. Atuou em negócios da família, como a Metalúrgica Matarazzo, e ingressou na carreira política.

Como ministro das Comunicações do governo de Fernando Henrique Cardoso, em 2000, censurou entrevista de João Pedro Stédile, dirigente do MST, à TVE. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) interviu para convencer Matarazzo, seu primo, de que a medida fora exagerada. "Temos diferenças de opinião, mas nos respeitamos mutuamente", disse.

Foi à frente da subprefeitura da Sé e da secretaria das Subprefeituras de São Paulo, entre 2005 e 2009, que Matarazzo anunciou projetos até hoje inconclusos: construção de garagens subterrâneas no centro, reforma da praça Roosevelt e revitalização do bairro da Luz.

Também nesses cargos que protagonizou suas ações mais contundentes. Primeiro, foi acusado de perseguir os desafortunados: moradores de rua e dependentes de crack foram alvos de operações policiais e da rampa "antimendigo". Depois, numa guinada, passou a mirar os bem-sucedidos: fechou bares, casas noturnas, escritórios e até um desfile de Cris Barros.

Tal atuação espelha a do protagonista do seriado de TV preferido de Matarazzo, "House": um médico se preocupa mais com doenças do que com seus próprios pacientes.

Posted by Cecília Bedê at 1:54 PM

Andrea Matarazzo é o novo secretário de Cultura de São Paulo por Mônica Bergamo, Folha de S. Paulo

Matéria de Mônica Bergamo originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 1 de maio de 2010.

Ex-secretário das subprefeituras e ex-ministro de FHC, ele substitui João Sayad, que vai presidir a TV Cultura

Pasta estadual tem agora como principal vitrine a construção do Teatro da Dança, projeto na região da Luz orçado em R$ 300 mi

O empresário e ex-ministro Andrea Matarazzo assume neste mês a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. Trata-se de um dos mais próximos amigos do ex-governador José Serra (PSDB-SP) e também do candidato ao governo do Estado, Geraldo Alckmin (PSDB-SP).

Procurado pela Folha, Matarazzo não se manifestou. Ele substituirá o economista João Sayad no cargo. Há uma semana, Sayad decidiu sair da pasta para concorrer à presidência da Fundação Padre Anchieta, que controla a TV Cultura, abortando a candidatura do jornalista Paulo Markun, até então considerado o nome favorito para o cargo.

Matarazzo é um dos principais quadros do PSDB. Foi ministro das Comunicações no governo de Fernando Henrique Cardoso e secretário das Subprefeituras de São Paulo, um dos principais cargos da administração municipal, quando Serra ainda era prefeito. No momento em que assume a pasta, a Secretaria de Estado da Cultura tem como principal vitrine a construção do Teatro da Dança, projeto do escritório da dupla de arquitetos suíços Jacques Herzog e Pierre De Meuron na região da Luz, com orçamento de R$ 300 milhões.

Também estão na pauta a transferência, atrasada em quase um ano, do Museu de Arte Contemporânea da USP para o antigo prédio do Detran, no Ibirapuera, e a consolidação do programa Fábricas de Cultura, que tenta instalar oficinas culturais para jovens em nove regiões carentes de São Paulo.

A gestão do ex-secretário João Sayad à frente da pasta também foi marcada pela defesa do modelo das organizações sociais, em que entidades privadas recebem verbas públicas para gerir órgãos culturais no Estado, o que levou a um confronto direto entre a Secretaria da Cultura paulista e o Ministério da Cultura, que defende um modelo mais estatizante. Matarazzo está afastado da vida pública desde que entregou o cargo de secretário das Subprefeituras no meio do ano passado, em protesto contra cortes orçamentários do prefeito Gilberto Kassab.

No antigo cargo, Matarazzo ficou conhecido pelo que adversários políticos chamaram de política higienista e conservadora. Ele não teve até hoje nenhum envolvimento com a área da cultura. Em meio à crise na Fundação Bienal de São Paulo, no ano passado, Matarazzo foi cotado para presidir a instituição, mas recusou.

Posted by Cecília Bedê at 1:42 PM

Rembrandt é tema de livro e mostra em Vitória por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 1 de maio de 2010.

Gravuras exaltam técnica rentável de luz e sombra

Na escuridão, surge um Cristo iluminado. Logo abaixo, fora do quadro, está explícita a inscrição: "gravura de 100 florins".

Rembrandt tinha graça, mas tinha também seus preços. Um livro recém-lançado destaca a relação do artista holandês com o mercado, já que foi notória sua transformação do ateliê em linha de montagem. Ao mesmo tempo, uma mostra agora em cartaz no Museu de Arte do Espírito Santo reúne gravuras que frisam sua produção em massa.

No livro "O Projeto de Rembrandt", da Companhia das Letras, a autora Svetlana Alpers destrincha o mundo que o artista recriou em seu ateliê. Dava ordens a um exército de ajudantes, limpava os pincéis na roupa, grosseiro como seus traços. Ela tenta mostrar como Rembrandt soube separar a luz das trevas em seus quadros para enriquecer no plano terreno.

Na verdade, as gravuras agora no país ajudam a entender que seu foco não era a distinção nítida de luz e sombra, mas a forma como figuras emergem da escuridão, aparição matizada por contornos luminosos.
Nas cenas bíblicas, como "Cristo Pregando", "A Escada de Jacó" e "A Adoração dos Pastores", Rembrandt arquiteta um emaranhado denso de traços que cede em alguns pontos para destacar a presença, bastante tímida, da luz.

Mergulha "O Sepultamento" num negror fuliginoso, com foco só para o rosto de Cristo. Dentro e fora de suas alegorias, instaura também um senso do cotidiano. A vida doméstica não cessa diante dos sermões, seus fiéis não disfarçam o ar entediado. Desenha mendigos nas ruas, velhas anônimas e se autorretrata à exaustão.

São fiapos de linhas apressadas que tentam dar estofo à rotina que recriava em seu ateliê. Vestia seus modelos com fantasias, exigia que declamassem até falas -um teatro da vida para vender como quadro.

Posted by Cecília Bedê at 1:34 PM

SP Arte atesta ebulição do mercado por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 1 de maio de 2010.

Principais galerias comemoram "saldo azulzíssimo" com vendas de pelo menos 80% das obras nos primeiros dias da feira

Com 2.500 obras, evento vai até domingo no pavilhão da Bienal; vendas podem bater marca do ano passado, que foi de cerca de R$ 15 milhões

Podiam ser fogos de artifício o espocar das rolhas de prosecco, espécie de trilha sonora desta edição da SP Arte. "Deu uma sensação dos tempos áureos, está bombando em todos os sentidos", diz Ricardo Trevisan, da galeria Casa Triângulo, que entrou na feira com metade de suas obras já vendidas. "É um saldo azul, azulzíssimo."

Desde que abriu as portas na última quarta, a feira de arte no pavilhão da Bienal tem levado hordas de colecionadores ao Ibirapuera. Chegaram a se dividir em turnos para fazer compras nas 80 galerias representadas ali. Do primeiro para o segundo dia, Fortes Vilaça, Vermelho, Nara Roesler, Luciana Brito e Casa Triângulo já tinham esgotado pelo menos 80% das obras que levaram.

Na ressaca da abertura, galeristas correram para reabastecer seus estandes. A Fortes Vilaça mandou trazer obras da dupla Osgemeos direto do ateliê dos artistas -foram vendidas menos de duas horas depois de chegar ao pavilhão. Na Leme, uma série de Felipe Cama esgotou também na primeira noite e mandaram emoldurar mais obras às pressas.

"Vendeu tudo e colocamos edições no lugar", conta Eduardo Brandão, da Vermelho. "Por causa disso, vendemos também até o que está na galeria."

Uma obra de Julio Le Parc, vendida por 300 mil na Nara Roesler, já cedeu lugar a outra peça do artista, ainda mais cara. No mesmo estande, uma série inteira de Marcos Chaves foi comprada por R$ 425 mil. Só na abertura, a galeria avalia ter movimentado cerca de R$ 2,5 milhões -no ano passado, o faturamento total da feira, com 79 galerias, foi R$ 15 milhões.

Mas é difícil fazer as contas. Muitos valores não são declarados por medo de assaltos e sequestros e receio de fiscalização tributária, já que esse é um mercado de grande informalidade e, dependendo da origem da obra, impostos podem chegar a até 42% de seu valor.

Talvez por isso, não foram vendidas as obras mais caras da feira. "Puerto Metafísico", tela do uruguaio Joaquín Torres-García avaliada em US$ 3,5 milhões, "Tamba Tajá", obra de Maria Martins com etiqueta de R$ 1,5 milhão, "Morto", de R$ 1,1 milhão, de Portinari, e "Ruína e Charque - Porto", peça de Adriana Varejão com valor estimado em cerca de R$ 1 milhão, estão sem comprador.

Enquanto isso, obras de valor menor, como as pinturas de Mariana Palma e Eduardo Berliner, na Casa Triângulo, têm fila de espera de interessados.

Posted by Cecília Bedê at 1:22 PM

Los sonidos del silencio por Celina Chatruc, lanacion.com

Matéria de Celina Chatruc originalmente publicada no lanacion.com em 24 de abril de 2010.

El lenguaje compartido en las obras de León Ferrari y Mira Schendel es el eje de una muestra del MoMA que llegó a Porto Alegre tras haberse exhibido en Nueva York y Madrid

En el principio no fue el verbo, sino el silencio. Al menos aquí, en la Fundación Iberê Camargo, frente a esta instalación de Mira Schendel. Que recuerda uno de los penetrables de Jesús Soto, salvo que no fue pensada para que el público caminara entre esas delicadas hebras blancas de nailon que cuelgan del techo, ni como una obra abstracta, ni como un estudio sobre el color. Si fue creada para evocar "el silencio de Dios en la historia", como afirma el curador Luis Pérez-Oramas (ver nota aparte), la artista logró lo que buscaba.

" Ondas paradas de probabilidad puede sacar a alguien de sus casillas", dijo sobre esta obra Roberta Smith, crítica de The New York Times , cuando la retrospectiva conjunta de Schendel y de León Ferrari fue presentada el año pasado por el Museo de Arte Moderno de Nueva York (MoMA), antes de seguir camino hacia el Museo Reina Sofía, en Madrid, y terminar su recorrido en Porto Alegre. Lo mismo opinó sobre El juicio final , de Ferrari, una reproducción de la obra de Miguel Ángel cubierta de excrementos de paloma. Y aunque aseguró que la exposición era "esencial para cualquier interesado en el arte del siglo XX", también dijo que la producción de Schendel era más "consistente" que la de Ferrari, reconocido en 2007 con el León de Oro en la Bienal de Venecia.

"Eso no hace más que confirmar que ella no conoce ni a Ferrari ni a Schendel", comenta ahora Pérez-Oramas a adncultura sobre Smith, a la que califica como "una crítica profundamente provinciana, que sólo maneja las categorías del arte estadounidense".

Video: León Ferrari y Mira Schendel en Brasil

Esto es sólo parte de la polémica provocada por una muestra que hace honor a su título, El alfabeto enfurecido , y que según Eduardo Costantini no llegará al Malba por razones de presupuesto.

Basada en la presencia de la palabra en la producción de ambos artistas, la exposición reúne 180 esculturas, pinturas, instalaciones y dibujos realizados desde 1960. Contrasta las delicadas obras sobre el silencio de Schendel (Zúrich, 1919-San Pablo, 1988), como una que refiere al Holocausto, con otras de Ferrari (Buenos Aires, 1920) que denuncian a gritos la violencia, el abuso del poder y la intolerancia. Por ejemplo, una caja de vidrio con pequeñas manos atrapadas en una maraña de finos alambres que simulan pelos y que parecen intentar aferrarse a la vida. Creada en 1964, anticipa el horror de lo que se viviría en la Argentina una década después, incluida la desaparición de uno de los hijos de León.

También hay muchos trabajos de Ferrari que abordan temas políticos y religiosos de una manera tan descarnada que tal vez para algunos resulte difícil de digerir. Basta recordar que en 2004 una retrospectiva sobre los 50 años de su producción en el Centro Cultural Recoleta, curada por Andrea Giunta, fue atacada por militantes ultracatólicos, clausurada por orden de una jueza y considerada "blasfema" por el cardenal Jorge Bergoglio.

Los collages que superponen iconografía católica con fotos de bombas atómicas y misiles e imágenes del Kamasutra sólo despiertan admiración aquí, en este impecable edificio frente al lago Guaíba que recuerda al Guggenheim de Nueva York, convertido con esta muestra en una auténtica Torre de Babel.

La nueva sede de la fundación que rinde homenaje al artista Iberê Camargo, fallecido en 1994, se inauguró hace dos años y fue construida a partir de un proyecto de Álvaro Siza que ganó el León de Oro en la Bienal de Arquitectura de Venecia en 2002. Además de las exposiciones temporales, aloja más de 5000 obras de Camargo y un taller de grabado en el que participaron artistas argentinos como Matías Duville y el propio Ferrari, cuando visitó la Bienal de Porto Alegre en 2003, cincuenta años después de que Schendel caminara por las empinadas calles de esta ciudad.

Aunque compartieron el exilio en Brasil, el rechazo al fascismo y un fuerte vínculo con Italia, Ferrari y Schendel prácticamente no se conocieron. Conversaron apenas diez minutos cuando coincidieron en una muestra colectiva con obras de ambos en la Pinacoteca de San Pablo. Fue en 1980, ocho años antes de que ella falleciera a raíz de un cáncer de pulmón.

Hoy, a los 89 años, León sigue tabajando a diario en su taller porteño. No recuerda mucho de su encuentro con Schendel aunque dice admirar sus trabajos, que no volvió a ver salvo en libros. Este dato vuelve a confirmar que, así como ocurrió con la muestra de Ferrari y Henri Michaux montada por Jorge Mara el año pasado, el arte es un lenguaje universal que se hace entender más allá de las culturas, del tiempo y del espacio, incluso sin palabras y en silencio.

SCHENDEL
(Zúrich, 1919-San Pablo, 1988)
Única hija de padres judíos, Myrrha Dub tuvo una educación católica. Vivió en Italia, emigró a Sarajevo para escapar del fascismo y de allí a Porto Alegre, en 1949. Estudió dibujo, escultura, filosofía y teología. Desde 1951 participó en varias ediciones de la Bienal de San Pablo, ciudad a la que se mudó en 1953 y donde conoció a su marido, Knut Schendel, con quien tuvo una hija. Realizó una retrospectiva en el Museo de Arte Moderno de Río de Janeiro (1966) y representó a Brasil en la Bienal de Venecia (1968)

FERRARI
(Buenos Aires, 1920)
Hijo de Augusto Ferrari, artista y arquitecto italiano que construyó varias iglesias, estudió en un colegio de curas al que consideró "el infierno". Artista autodidacta, trabajó como ingeniero durante décadas. Con Alicia Barros Castro tuvo una hija y dos hijos, uno de ellos desaparecido durante la dictadura militar. Vivió en Roma y Milán, y en 1976 emigró con su familia a San Pablo. En 1991 regresó a Buenos Aires, donde trabaja actualmente. Ganó el León de Oro en la Bienal de Venecia de 2007

O Alfabeto Enfurecido: León Ferrari e Mira Schendel

Curadoria de Luis Pérez-Oramas

9 de abril a 11 de julho de 2010

Fundação Iberê Camargo
Av. Padre Cacique 2.000, Porto Alegre - RS
51-3247-8000 ou site@iberecamargo.org.br
www.iberecamargo.org.br
Terça a domingo, 12-19h; quinta, 12-21h
Ver video en www.lanacion.com.ar

Posted by Ana Elisa Carramaschi at 12:42 AM

La palabra como voz por Celina Chatruc, lanacion.com

Matéria de Celina Chatruc originalmente publicada no lanacion.com em 24 de abril de 2010.

Luis Pérez-Oramas, curador de arte latinoamericano del MoMA, señala cuál es "el gran desafío crítico" de la región y analiza la obra de Schendel y Ferrari

Es "la pequeña estrella" del Museo de Arte Moderno de Nueva York según afirmó en Porto Alegre su director, Glenn Lowry. Eso convierte al venezolano Luis Pérez-Oramas en una de las personas más poderosas del mundo del arte. Sobre todo en América latina, ya que es el primer curador del MoMA dedicado en forma exclusiva a la región. Pero se lo toma con calma. Relajado y de buen humor, pide disculpas por llegar tarde a la entrevista y es generoso con su tiempo en medio de un arduo día de trabajo que incluirá, minutos después, la presentación en Brasil de una impecable muestra de León Ferrari y Mira Schendel (ver nota aparte) curada por él. Una exposición itinerante que no llegará a la Argentina, entre otros motivos, "porque ningún museo la pidió".

-¿Por qué reunir a León Ferrari y Mira Schendel?

-Yo te diría: ¿por qué no? El criterio que seguí fue, primero, de interés personal en la obra de ambos. Luego, de descubrimiento de puntos de contacto y diferencias que me parecieron interesantes y que no habían sido enfocados antes por nadie. Tercero, la necesidad de producir una exposición que fuese estructural y lógicamente diferente de la muestra de León que se haría obvia en la Argentina, y de la de Mira en Brasil. Creo que el gran desafío crítico que tenemos los latinoamericanos es escribir una historia del arte moderno y contemporáneo de América latina que responda a sus propias categorías. Para eso, tenemos que entender cuáles son los vínculos que existieron entre los artistas, independientemente de que se hayan conocido o no. Es decir, cuál es el contexto cultural, ideológico, que permitió que dos artistas absolutamente contemporáneos, con puntos originarios en común como la relación con Italia, pudieran producir sin conocerse, en dos inmensos países como la Argentina y Brasil, obras a partir de los mismos problemas. Los puntos de contacto son evidentes.

-Aunque en política y religión difieren bastante, ¿no?

-Difieren en muchas cosas. Difieren también en el uso del lenguaje, de la escritura, de las materialidades. La exposición, como yo la concebí, está basada en semejanzas. Pero toda semejanza tiene su sentido como diferencia. En cuanto al tema político y religioso, a mí me interesó en Ferrari y en Schendel la presencia de dos líneas comunes: ambos fueron artistas que nunca abandonaron la esencia de la palabra en sus obras, más allá de que hayan producido repertorios abstractos. El otro elemento común es la religiosidad. Independientemente de que la posición de León sea radical y militantemente antirreligiosa, la presencia de Dios en su obra como verbo, como nombre, como objeto de acusación, como presencia, como iconografía, es un hecho que la crítica de arte, a mi juicio, ha subestimado. Difícilmente se encuentra, en el programa del arte contemporáneo occidental, entre los artistas que produjeron desde 1950 hasta hoy, un artista en cuya obra haya más presencia del tema divino que León Ferrari. Lo que pasa es que el tema divino aparece en su obra como objeto de acusación, de denuncia, de desmontaje, de deconstrucción. En Schendel, el tema divino aparece como objeto de ansiedad, de pregunta existencial, de duda, de inquisición personal. Es un motivo de angustia.

-¿Y la política?

-Allí hay una diferencia obvia. León es un artista político y militante desde el principio. La civilización occidental y cristiana , los dibujos escritos son ya manifiestos políticos. Schendel nunca tuvo una posición política explícita en sus obras. Probablemente la diferencia es que el Holocausto haya provocado en Schendel una forma de silencio traumático. Que tiene a mi juicio dos manifestaciones que son dos de los momentos más álgidos de su producción, y de la producción artística en América latina durante ese período. Primero, una obra que se llama Trencito , de 1965, donde simplemente cuelga hojas vacías, arrugadas. Con el soporte en que hizo esa sobreproducción de repertorios escritos, hace este homenaje al silencio. Yo no puedo no pensar que en 1965 una artista como Schendel, extremadamente culta, conocedora de todas las implicaciones teológico-políticas de la discusión estética en Occidente en ese momento, no pensara en la pregunta que hizo Theodor Adorno pensando en el suicidio de Paul Celan: ¿cómo es posible la poesía después del Holocausto? El segundo momento álgido, que yo considero político, son las Ondas paradas de probabilidad . Es una instalación que Schendel produce para la Bienal de San Pablo de 1969, en el momento más crítico de la represión de la dictadura, en un momento en que el mundo intelectual y artístico brasileño había boicoteado la bienal. Ella recibe el consejo de ir y produce esa obra, que es sobre el silencio de Dios en la historia. Porque viene acompañada de un texto del Libro de los Reyes, donde el profeta dice: "Hubo un terremoto y no estaba Dios, hubo un incendio y no estaba Dios, hubo un ruido espantoso y no estaba Dios, y, de pronto, hubo apenas un murmullo". Ese murmullo, esa voz indescifrable, incodificable... Sólo podemos experimentar como silencio lo que esa obra está señalando. Es evidentemente una obra teológica.

-¿Por qué ambos artistas apelan a la palabra?

-Creo que lo que hacen Schendel y Ferrari es darle continuidad a un problema fundamental del arte visual occidental, que es su tensión con el verbo. Cuál es la relación de desproporción, de asimetría entre la posibilidad de representación visual y la posibilidad de nominación. Se ha dicho que Ferrari es el padre del arte conceptual latinoamericano... Yo creo que la de Ferrari no es una obra conceptual; tampoco la de Schendel. Y ello por dos razones: una, porque en sus obras la elaboración material es fundamental. Lo segundo es que la forma canónica del arte conceptual se refiere al lenguaje como un operador neutro de descripciones del mundo, sin sujeto. Lo propio de Schendel y de Ferrari es la presencia del lenguaje como acto de enunciación, no como enunciado neutro. Pero lo fundamental es que para Ferrari y para Schendel la utopía del arte es alcanzar a encarnar algo como la voz, que es algo completamente distinto de la palabra. La palabra escrita es como una voz cancelada. Es una voz que se silencia para dar lugar al signo escrito. En este caso, se trata de dejar el rastro, el síntoma, la presencia física, inscriptiva, de la palabra como voz en el soporte visual. Y creo que eso hace un mundo de diferencia con relación al conceptualismo y a otros artistas que hayan usado la palabra.

-¿Cómo definirías la obra de cada uno por separado?

-Yo diría que la de León es más enfurecida y la de Mira es más angustiada. En Mira, hay angustia y vacío; en León, hay acumulación y furia.

PÉREZ-ORAMAS
(Caracas, 1960) Historiador de arte, poeta y crítico, graduado en 1994 en la Escuela de Estudios Superiores en Ciencias Sociales (Ehess) de París. Desde 2006 es curador de arte latinoamericano del Museo de Arte Moderno de Nueva York (MoMA), gracias a un fondo aportado por la coleccionista de origen uruguayo Estrellita Brodsky. Curó la colección de Patricia Phelps de Cisneros desde 1995 hasta 2003, cuando ingresó al MoMA como comisario adjunto del Departamento de Dibujos

Posted by Ana Elisa Carramaschi at 12:35 AM