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junho 25, 2010

Jonathan Hernández na Nara Roesler, São Paulo

ROESLER HOTEL APRESENTA - CALEIDOSCÓPIO – DO MEXICANO JONATHAN HERNÁNDEZ

O Roesler Hotel, programa de intercâmbio de exposições entre a Nara Roesler e galerias e instituições estrangeiras, apresenta a primeira mostra de Jonathan Hernández (Cidade do México, 1972) no Brasil. O artista mexicano – que em Nova York fez parte da coletiva que inaugurou o New Museum (2008) e da Fit to Print, na Gagosian Gallery (2007) – foi premiado este ano com residência no Projeto Capacete em São Paulo e no Rio de Janeiro. Segundo Daniel Roesler, Hernández dialoga com alguns artistas do elenco da galeria, como Cao Guimarães, Brígida Baltar e Marcos Chaves, cujos olhares, como um caleidoscópio, capturam o lirismo oculto nas cenas cotidianas.

A exposição tem como eixo a série Couples & Celibataires (Casais e Celibatários), iniciada há dez anos, com cerca de 25 fotos. Segundo o artista, o conjunto de trabalhos aborda a luz e o tempo como elementos fundamentais da fotografia. “Um ping-pong formal, conceitual e emocional através da fotografia”, afirma. Caleidoscópio reúne também dois filmes, uma escultura, 80 fotografias e parte de seu arquivo de fotos de imprensa, matéria-prima de um processo desenvolvido há anos por Hernández.
O vídeo "Nada" apresenta um percurso por um cemitério do Japão (Kamakura), onde está enterrado o cineasta japonês Yasujiro Ozu que, por sua vontade, em seu epitáfio está escrito "nada". O outro filme, "Fricção", é um curta-metragem em 16mm feito na Cidade do México que traz um afiador de facas trabalhando manualmente em sua bicicleta, “num jogo de fricção, luz e obscuridade”.

A escultura “Espelho” foi concebida durante o período de sua residência em São Paulo (fevereiro/março). Para Hernández o que interessa muito nesta obra é o vazio gerado entre as duas mesas que compõem a escultura, uma fabricada com madeira de desperdício, suja, e a outra com madeira limpa e de bom acabamento. “Com esta escultura quero tratar do potencial de um objeto para refletir sobre uma paisagem social”, diz Hernandez.

A partir de sua janela do 22º andar do edifício Copan, também durante seu programa de residência em São Paulo, Hernández produziu os 80 diapositivos/fotografias que compõem “Contratempo”. Feitas com o mesmo enquadramento, as fotos abarcam o transcorrer de um dia completo. E finalmente em “Vulnerabilia”, a partir de fotos retiradas da imprensa, o artista, através de agrupamentos, cria surpreendentes nexos poéticos.

Publicado por Cecília Bedê às 5:51 PM | Comentários(0)


EMOÇÃO ART.FICIAL 5.0 no Itaú Cultural, São Paulo

Autonomia é o tema da mostra Emoção Art.ficial 5.0 que encerra trilogia cibernética
Um robô desenha rostos humanos; outros deixam rastros; a cabeça de um artista, projetada em uma parede em grandes dimensões, como se flutuasse, conversa com o público; um espécime artificial reage ao estado emocional do observador e responde com sons e movimentos: estas são algumas das 11 obras presentes na quinta edição da Bienal Internacional de Arte e Tecnologia do Itaú Cultural 


De 1º de julho a 5 de setembro o Itaú Cultural realiza a mostra Emoção Art.ficial 5.0 – Autonomia Cibernética, quinta edição da Bienal Internacional de Arte e Tecnologia organizada pelo Itaulab. Esta mostra fecha a trilogia cujos temas centrais – interface, emergência e autonomia – se ligam e intercalam em complexa interação entre seres humanos e máquinas. Em um total de 11 trabalhos, ela traz sete obras de artistas alemães, australianos, americanos, canadenses, portugueses e quatro de brasileiros – estas últimas escolhidas por uma comissão de profissionais entre os projetos inscritos por meio de convocatória. No dia 30 de junho, haverá um coquetel de abertura para convidados. E, em paralelo, de 1 a 3 de julho, o instituto promove o Simpósio Emoção Art.Ficial 5.0 – Autonomia Cibernética, para debater o tema e a sua evolução.

Segundo Marcos Cuzziol, gerente do Itaulab (Núcleo de Arte e Tecnologia do instituto) e organizador destas bienais, a seqüência das três exposições da Emoção Art.ficial (Interface Cibernética, em 2006; Emergência! em 2008; e, agora, Autonomia Cibernética) reflete parte importante das pesquisas deste núcleo do Itaú Cultural. “Nós buscamos o que as novas tecnologias realmente trazem de novo quando aplicadas ao campo artístico”, conta.

“Não há duvida de que a interatividade tenha propiciado o desenvolvimento de novas poéticas, mas uma investigação mais científica e menos baseada no mero aspecto lúdico desses processos parecia-nos necessária”, completa Cuzziol. Acompanhando este raciocínio, ele chama a atenção para a perda do sentido original da palavra “interatividade” em decorrência de ser tão usada e aplicada a qualquer situação em que há, no trabalho artístico, uma ação e uma reação. “O termo não está restrito às novas tecnologias – para que exista interação bastam sistemas que ajam entre si –, mas processadores e softwares progressivamente mais velozes permitiram o desenvolvimento de sistemas que interagem de modo cada vez mais complexo e interessante”, explica ele. Vem daí a escolha da cibernética como ferramenta de análise.

Os brasileiros

O Grupo Poéticas Digitais, formado por Gilbertto Prado, Agnus Valente, Andrei Tomaz, Claudia Sandoval, Claudio Bueno, Daniel Ferreira, Luciana Ohira, Lucila Meirelles, Luis Gustavo Bueno, Mauricio Taveira, Nardo Germano, Rodolfo Leão, Sérgio Bonilha, Tatiana Travisani e Tania Fraga, apresenta o Projeto Amoreiras. Trata-se de uma série de árvores reais colocadas na calçada do Itau Cultural. Munidas com dispositivos eletrônicos que captam o nível de poluição sonora os galhos das arvores são agitados de acordo com o som da Avenida Paulista. Dessa forma as árvores poeticamente respondem à poluição, como se pudessem corrigir seus efeitos e aumentar as suas funções naturais.

Caracolomobile é o trabalho de Tânia Fraga. Ela criou um organismo artificial no formato de um caracol que percebe diferentes estados emocionais humanos. Responde a eles de modo expressivo através de sons e movimentos. Lali Krotoszynski apresenta Ballet Digitallique, uma instalação interativa em que as silhuetas dos corpos dos espectadores são capturadas, transformadas e projetadas sobre uma parede.

Em MetaCampo um plano formado por hastes flexíveis, semelhante a uma plantação, sofre a ação mecânica do vento, provocando com esse movimento o registro do diálogo entre as ações da natureza e do ser humano. Esta obra foi criada pela equipe Interdisciplinar SCIArts, composta por Julia Blumenschein, Fernando Fogliano, Milton Sogabe, Renato Hildebrand e Rosangella Leote.
Internacionais

Autoportrait, realizado pelo Robotlab (grupo da Alemanha composto por Matthias Gommel, Martina Haitz e Jan Zappe) apresenta um robô industrial. Com uma caneta, ele traça retratos humanos de modo não previsível. Em Silent Barrage, robôs com formato de alças se movem verticalmente ao longo de 32 mastros, deixando rastros que são, na verdade, a própria amplificação de uma atividade neural ocorrendo a quilômetros de distância. Este é um trabalho do grupo australiano e americano SymbioticA, formado por Guy Ben-Ary, Philip Gamblen, Peter Gee, Prof. Nathan Scott, Dr. Steve Potter e Stephen Bobic.

A obra Robotarium do artista português Leonel Moura, traz um pequeno zoológico de robôs. São ao todo cinco deles construídos especificamente para Emoção Art.ficial 5.0. Distintos na sua morfologia e comportamento, eles convivem em uma pequena arena e se alimentam de energia, por meio de pequenos painéis solares colocados na parte superior do corpo. A obra é um desdobramento da pesquisa de Leonel Moura que, além de possuir uma galeria em Lisboa voltada exclusivamente para exposições de arte criada por robôs, também criou o primeiro zoológico de robôs do mundo, instalado no Jardim Central de Alverca, em Vila Franca de Xira, Portugal.

A Hysterical Machines, do canadense Bill Vorn, também é formada por cinco robôs, desta vez artrópodes. Estas “aranhas de metal” movimentam-se de forma orgânica e brusca com o objetivo de estimular a empatia do espectador com eles – personagens que são nada mais do que um punhado de estruturas metálicas.

Da Austrália vem Prosthetic Head, de Stelarc, e que vem ao Brasil participar do simpósio. Trata-se de uma projeção da cabeça modelada do próprio artista, que conversa com o público em inglês. O software que controla o diálogo é baseado no mecanismo de Alice, famoso chat bot (robô conversador).

Em Evolved Virtual Creatures, do americano Karl Sims, um vídeo mostra os resultados de um algoritmo que simula a evolução darwiniana por meio de criaturas virtuais compostas por blocos. Dos igualmente americanos Adam Brown e Andrew H. Fagg, a obra Bion é composta por de mil esculturas que, formando uma rede, gorjeiam. Como se fossem formas de vida, chamadas "bion", elas se comunicam entre si e reagem à presença de espectadores. 
 
 


Simpósio

O simpósio abre às 19h do primeiro dia de julho com uma key note de Murray Campbell. Gerente sênior do Departamento de Ciências da Matemática da IBM em Yorktown Heights, Nova York ele fala sobre Autonomia e Sistemas de Jogos. No dia seguinte, mesmo horário, a key note é com Jon McCormack, um dos artistas de novas mídias mais aclamados da Austrália. Professor sênior de Ciência da Computação e co-diretor do Centro de Mídia Arte Eletrônica na Universidade de Monash, em Melbourne, o seu tema é A Arte Evolucionária.

Encerrando o evento, a programação do dia 3 se desdobra em dois horários. O primeiro, às 16h é a mesa Autonomia e Pós-humanismo, com Lúcia Santaella e Stelarc. Ela é pesquisadora e professora titular da PUC-SP com doutoramento em Teoria Literária na PUC-SP, em 1973, e livre-docência em Ciências da Comunicação na ECA/USP, em 1993. Ele é um artista australiano interessado na arquitetura evolucionária do corpo e em possíveis maneiras de redesenhar o humano aumentado por implantes e exoesqueletos – uma de suas obras, Prosthetic Head, é exibida na exposição.

Paul Pangaro fecha o simpósio com o keynote Interação, Emergência e Autonomia. Ele estudou ciência da computação no Massachusetts Institute of Technology e fez doutorado em cibernética na Universidade de Brunel, Reino Unido.

Todos eles são transmitidos ao vivo pela internet, com opções de tradução em português ou inglês. Basta acessar itaucultural.org.br/emocao -- o site ainda conta com um chat, pelo qual os internautas podem enviar perguntas e comentários aos participantes do evento.

Publicado por Cecília Bedê às 5:48 PM | Comentários(0)


fevereiro 23, 2010

TRANS_imagem - Regina Johas

A paisagem como imagem. Constelações. Articulações.

Linha severa da longínqua costa -
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha (Fernando Pessoa)

Outrora pudemos alimentar indefinidamente o sonho de paisagem. Lá onde vislumbrávamos a linha abstrata do horizonte escondia-se, sob as mais diversas luminosidades dos dias tropicais, a natureza, resplandecente. Trata-se aqui da natureza e da paisagem como nos habituamos a formulá-las, vinculadas ao ideal de um mundo originário, puro, para o qual havíamos invariavelmente querido retornar.

Hoje sabemos que o quadro é o responsável por organizar o mundo das aparências: aprendemos a reconhecer a paisagem como um constructo. Ou seja, é a pintura que iria, a partir do Cinquecento, articular o sensível e o inteligível num vínculo incorruptível. O ponto em que se situa a questão da pintura teria desde então se tornado o “mostrar que se vê aquilo que se vê: ou seja, o estado de coisas tal como a razão cognoscente as apreende... Porque a pintura dá a ver não os objetos, mas o elo entre eles”1. A perspectiva, como sistema codificador da visualidade, seria portanto bem mais do que a simples aplicação de leis geométricas e matemáticas. Verdadeiro “modelo de organização e de racionalização de um espaço hierárquico”2, a perspectiva articularia a representação de uma idéia de mundo num sistema invisível para si mesmo –– esse “mostrar o que se vê” teria feito nascer a paisagem.

Ao instaurar um olhar operante, essa lógica visual por nós herdada teria estruturado “o ambiente mutável da natureza a partir de um ponto de vista que é aquele de um sujeito onisciente, interessado na preservação do passado e na difusão do presente”3. Questionar a permanência deste conhecimento técnico e ordenador é o que subterraneamente move as proposições das jovens artistas aqui reunidas. Sua produção – especulativa por natureza – articula no campo da visualidade e da plástica aspectos das atuais concepções de espaço, tempo, sujeito, memória e identidade, presentes no estatuto da imagem, hoje. 

O principal vetor que orienta o recorte desta curadoria, é, portanto, a problemática instaurada no âmago das questões da imagem, questões estas que em plena era da tecnologia digital tornaram-se o palco das redefinições a partir do qual se lançam os dados de TRANS_imagem. Resultante também das discussões realizadas nos encontros do Grupo de Pesquisa ECCOAR/ Aquário4, o desenho da exposição procurou circunscrever as pesquisas de cada artista para que as cintilações individuais, juntas, pudessem formar uma constelação. Em Ana Mazzei, o espaço hierarquizado e ordenado segundo o código da perspectiva, presente na estrutura da imagem fotográfica, é continuamente desmontado e rearticulado. Suas Paisagens Salgadas lançam uma nova luz na relação entre o olhar operante e o “mostrar que se vê aquilo que se vê”, partindo de escolhas poéticas regidas pelo princípio da montagem cinematográfica. Ao fragmentar a linha do horizonte, as articulações de planos seqüenciais em recortes sutilmente descontínuos afirmam, por trás da objetiva da câmera fotográfica, a presença de um kino-olho5 ubíquo e instável. Desdobrando as imagens em dois ou três campos, Mazzei rompe assim com a estrutura da composição ordenada segundo a lógica da perspectiva renascentista, gerando o que chamaremos de “paisagens cinemáticas”. O seu horizonte “quebrado” e os mínimos deslocamentos de posição do olho-câmera atestam para rupturas no continuum espaço-temporal e para a proposição de uma “realidade essencialmente móvel e articulada, em processo incessante de transformação”6.

Itinerários abertos, entre-mapas e entre-espaços são as ordenações que encontramos nas projeções e infografias de Ilma Guideroli. Subvertendo os sistemas de representação cartográficos, Guideroli cria mapas de lugares que romperam sua vinculação com os relatos que lhes deram origem e que lhes conferem memória. São mapas sem identidade. Resultantes de recortes, justaposições e sobreposições, apagamentos e entrelaçamentos rizomáticos, estas “paisagens atópicas” são a expressão da fluidez de limites característica da virtualização dos sistemas de arquivamento. Partindo de um vasto banco de dados e de imagens intercambiáveis entre si a artista articula lugares improváveis e rotas inexistentes, os quais passam a constituir as infovias desta paisagem em suspensão. Os percursos são da ordem do perder-se. Aqui, comprovamos que o real nunca mais terá condição de se produzir7 – os lugares não tem gravidade, o tempo presente é um estado intensivo. As paisagens anunciam um devir-espaço que é tido como zona de reverberações, rebatimentos e atualizações constantes8. Segundo a própria artista, são “espaços intervalares” da ordem do “entre” deleuziano9, da ordem do nem isso nem aquilo.

Reviver o espaço por apagamentos e entrelaçamentos rizomáticos, explorando lugares que romperam sua vinculação com os relatos que lhes deram origem, parece ser a mesma ordem de questionamento que impulsiona Guga Szabzon. Tomando como ponto de partida o pensamento classificatório no qual os lugares são nomeados em prol da organização e compreensão do mundo, os desenhos-mapa de Lugar Nenhum traduzem a necessidade de contestar a lógica cartográfica. Guga expõe em sua produção a crise identitária que tal condição reclama: quando a ordem classificatória começa a se perder, ela passa a ser ocupada pela lógica da coleção, na qual a objetividade cede para a subjetividade10 e na qual a própria noção de ordem passa a ser tratada segundo outros paradigmas. 

No arco que circunscreve as posições destas duas “formas-paisagem” – “paisagens cinemáticas” e “paisagens atópicas” – podemos situar as proposições dos outros artistas de TRANS_imagem. Aurelie Petrel, artista francesa vivendo e trabalhando em Lyon e Paris, explora em suas fotografias, como Mazzei, um regime intermediário entre o instante e a narrativa. Desdobrando nos frames fotográficos a captura de uma temporalidade suspensa, rebatimento entre o átimo e a sucessão, Petrel nos propõe um campo fragmentado e descontínuo que ilumina uma nova percepção: trata-se de uma nova definição do tempo. O passado como um todo não se constitui depois do presente que ele foi, mas ao mesmo tempo. O passado em estado puro se define em função de um atual presente, em relação ao qual ele é passado absoluto e imagem virtual. O passado, como pura virtualidade, reordena continuamente o atual do qual ele é passado imediato. O presente é a imagem atual, e seu passado contemporâneo é a imagem virtual, a imagem especular11. Pensar a imagem num outro regime de temporalidade. Campo de espelhos, imagem-tempo.

Ana Elisa Carramaschi, em Paisagem Elástica, dobra em transparências os espaços e tempos de um mundo fluido. Sobreposições e empilhamentos são as ferramentas com que a artista, ao manipular a imagem, modula o espaço heterotópico12 em que se inserem suas personagens. Aqui a “paisagem-imagem” ganha autonomia em relação ao seu modelo – o jardim – e questiona a superfície à qual estava condenada; já não é mais da ordem da representação. “A idéia clássica da janela é substituída pela interação permanente entre imagem e modelo, pela possibilidade de penetrar no interior da imagem, que se transforma em lugar, ao ver abandonada a bi-dimensionalidade à qual estava condenada”13.

Se é o enquadramento que fornece as regras para se abarcar o conjunto infinito da natureza que freme, sua lei regendo a relação entre nosso olho e o entorno indomesticado, a obra de Osmar Pinheiro (presente na exposição como homenagem póstuma) opera com os rebatimentos da janela-quadro em inúmeras outras janelas que reverberam pela superfície da tela. O enquadramento aqui configura apenas uma área delimitada na qual se articulam os desdobres do campo inicial. Nesta obra de Osmar, a matéria grassa da pintura se “descola” da imagem, que parece recuar para o fundo do campo. Como layers de uma imagem trabalhada em Photoshop, essas camadas que constituem a pintura interpõem “não apenas a moldura da intenção entre nós e o mundo, como também redobram os seus véus”14. Ou ainda, fragmentam. Fragmentos dentro do fragmento do quadro, o que era antes recorte ordenador se desdobra em reverberações. A imagem, aqui também tornada lugar, passa a ter uma outra condição: a de coisa colocada no mundo, dimensão habitável, espaço. Imagem-espaço.

Imagem-espaço e imagem-tempo são ainda terreno pra outra experiência especulativa, a de Adriana Ramalho. Sua vídeo-instalação propõe o retalhamento da paisagem em inúmeros campos, fragmentada como uma colcha de retalhos de tempos circulares e múltiplos. Imagem-sinfonia, as águas amazônicas redobram em acordes dissonantes, no campo instável e fluido desta paisagem líquida, a trama modernista.

Condensando em si toda uma ordem narrativa, as fotografias de Bia Toledo encenam a paisagem recortada como quadro dentro do quadro, desvelando de modo mais direto as reflexões aqui apresentadas acerca da noção da paisagem como constructo. Toledo opera com as mesmas ferramentas que Petrel e Mazzei, uma vez que suas imagens desenham um regime temporal suspenso entre o instante fotográfico e o cenário cuidadosamente construído, palco para a apresentação da passagem do que está construído para os estados de desordem e de ruína. Eco do regime de transitoriedade em que vivemos, o trabalho de Toledo revela-se, nas dobras da linguagem, termômetro sensível de nossa condição no mundo, hoje.

O contraponto a todas as imagens que desenham a exposição é dado pelo trabalho de Cristiana Camargo. Aqui temos um registro de outra natureza. Trata-se da palavra paisagem, materializada em gesso pilado numa escultura efêmera. O registro do tempo nesta escultura se manifesta na ação do ar e da umidade sobre o gesso: a palavra se desmancha e se transforma, ela mesma, em paisagem. O signo que mantinha tão fortemente unidos referente e referido se desmancha em colinas, declives, fendas, extensões arenosas, verdadeira topografia. O signo se transforma em lugar.

Em TRANS_imagem a paisagem remanesce como vestígio. Se o fragmento recortado da natureza (o quadro) dava conta da noção de uma totalidade – a natureza, ela própria entendida como um todo – temos hoje os fragmentos como elementos de um organismo que cresce desordenadamente. Fragmentos de espaços e tempos empilhados, ordenação em que já não reconhecemos a contigüidade ou a sucessão, buracos na rede do tempo. Dobra da paisagem sobre si mesma, em TRANS_IMAGEM as paisagens são de uma outra natureza: sonho de imagem.

1 CAUQUELIN, Anne. A Invenção da Paisagem. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
2 FABRIS, Anna Teresa. Rev. bras. Hist. v. 18, n. 35, São Paulo, 1998. Disponível em http://www.scielo.br
3 idem, ibidem.
4 O Grupo de Pesquisa ECCOAR integra a linha de pesquisa Poéticas Visuais da Pós-Graduação do Instituto de Artes da Unicamp. O objetivo desta linha de pesquisa consiste em desenvolver a investigação e a reflexão dos modos de produção a partir das relações entre procedimentos e linguagens nas manifestações artísticas contemporâneas. O Projeto AQUÁRIO abrange discussões e pesquisas com enfoque nas questões relacionadas aos sistemas de arquivamento, colecionismo, taxonomias e identidade, dentro do contexto das relações entre espaço e tempo, arte e memória.
5 O conceito foi extraído de: VERTOV, Dziga . Kino-Eye: the Writings of Dziga Vertov. (translated by Kevin O’Brien). Berkeley, University of California Press: 1984.
6CAUQUELIN, Anne, op. Cit.
6 CAUQUELIN, Anne, op. Cit.
7 BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulações. Lisboa: Relógio D’agua, 1991.
8 DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo, Brasiliense: 2005.
9 “As coisas e os pensamentos crescem ou aumentam pelo meio, e é aí onde é preciso instalar-se, é sempre aí que isso se dobra”. DELEUZE, Gilles, apud SPERLING, David. Fios Soltos, a arte de Helio Oiticica. São Paulo, Perspectiva: 2008.
10 “Em ensaio sobre o ato de colecionar, Jean Baudrillard diz que todo objeto, ao ser colecionado, deixa de ser definido pela sua função para entrar na ordem da subjetividade do colecionador (Baudrillard, 2000, p.94). Abstraído de seu contexto, perde sua presentidade, desloca sua temporalidade para sua espacialidade de um repertorio fixo, no qual a historia é substituída pela classificação. Neste sentido,
colecionar se converte em uma forma de enclausurar o objeto, des-historicizá-lo, de maneira que seu contexto seja abolido em favor da lógica sincrônica da coleção”. ( Maria Ester Maciel, p.19))
11 DELEUZE, Gilles, op. Cit.
12 FOUCAULT, Michel. Of Other Spaces, 1967. Disponível em: http://foucault.info/documents/heteroTopia/foucault.heteroTopia.en.html
13 FABRIS, Anna Teresa. Rev. bras. Hist. v. 18, n. 35, São Paulo, 1998. Disponível em http://www.scielo.br
14 CAUQUELIN, Anne. Op. Cit., p. 137

TRANS_imagem
Ana Mazzei, Adriana Ramalho, Ana Elisa Carramaschi, Aurelie Petrel, Beatriz Toledo, Cristiana Rolim de Camargo, Ilma Guideroli, Guga Szabzon, Osmar Pinheiro

Curadoria de Regina Johas

3 a 27 de fevereiro

Galeria Virgilio
Rua Virgílio de Carvalho Pinto 426, Pinheiros, São Paulo - SP
11-3062-9446/3061-2999 ou artevirgilio@uol.com.br
www.galeriavirgilio.com.br
Segunda a sexta, 10-19h; sábado, 10-17h

Publicado por Ana Elisa Carramaschi às 3:55 PM | Comentários(0)


janeiro 19, 2010

Projeto Zonas de Contato propõe diálogo entre artistas de diferentes gerações no Paço das Artes

Nesta primeira edição, Paulo Climachauska apresenta a exposição Rota da Seda e convida Rafael Carneiro para um diálogo artístico de desenhos e pinturas que trabalham com a desconstrução e o esvaziamento em busca de novas significações. Workshop e mesa redonda integram a programação

O novo projeto do Paço das Artes, Zonas de Contato, propõe a um artista que convide outro de geração mais nova para promover um diálogo de trabalhos. Paulo Climachauska é o artista-curador escolhido para inaugurar esta primeira edição, que traz como convidado o jovem artista Rafael Carneiro. Climachauska apresenta a exposição Rota da Seda, um conjunto de quatro pinturas e 16 desenhos realizados com contas de subtração, que dialogam com uma pintura de grande dimensão de Rafael Carneiro. Zonas de Contato tem abertura no dia 25 de janeiro, a partir das 20h, em evento aberto ao público, e pode ser visitada de 26 de janeiro a 04 de abril.

De 22 a 26 de março, das 16h às 18h, Paulo Climachauska ministra o workshop gratuito Procedimentos em Arte Contemporânea destinado a interessados na discussão sobre poéticas e procedimentos na arte contemporânea. Haverá análise de material apresentado pelos participantes e exercícios práticos. No dia 25 de março, ocorre o seu encerramento, com mesa redonda gratuita e aberta ao público que contará com as participações de Paulo Climachauska, Rafael Carneiro e Thales Ab’Saber.

Rota da Seda faz referência ao histórico caminho de ligação entre o Oriente e o Ocidente, que inclui regiões do Oriente Médio atualmente marcadas pelas disputas por gás e petróleo. Os desenhos representam imagens de locais destruídos por guerras e confrontos dentro do percurso da Rota da Seda extraídas de jornais impressos e internet; as pinturas mostram insetos como o bicho da seda e libélulas, em referência formal a aviões e helicópteros, todos pintados em padrões semelhantes à camuflagem militar.

Os trabalhos de Paulo Climachauska fazem parte de uma série denominada “construção por subtração”, na qual o artista busca reverter a lógica organizacional de um mundo pautado por uma somatória de processos construtivos e progressivos. “Propor um mundo construído por subtração no lugar da soma é para mim desvendar a artificialidade deste sistema tido como natural e propor outras formas de entendimento do mundo”, afirma o artista.

O contato estabelecido com a pintura de grande dimensão de Rafael Carneiro se dá tanto pela forma expositiva quanto pela linguagem e proposta teórica das obras. Ambos os artistas apropriam-se de imagens anteriormente produzidas como referência para a criação de suas obras e trabalham com a desconstrução e esvaziamento dos elementos que compõem um quadro em busca de uma significação que aponte para outra direção. Para a exposição, foram organizadas duas salas idênticas, formando dois corredores espelhados na entrada do Paço das Artes.

Sobre os artistas

Paulo Climachauska nasceu em São Paulo em 1962 e graduou-se em História e Arqueologia pela Universidade de São Paulo. Realizou sua primeira exposição em 1991 no MAC-SP. Participou da 26ª Bienal Internacional de São Paulo em 2006 e, no mesmo ano, da 8ª Bienal de Cuenca, no Equador, e da 14ª Bienal de San Juan, em Porto Rico. Realizou exposições individuais no Moderna Musset, de Estocolmo, na Galeria Millan (SP), Galeria Lurixs (RJ), Project 01, Park Gauflstrafle, em Hamburgo, Paço Imperial (RJ), entre outras tantas instituições. Participou ao longo deste tempo de quatro edições do Panorama da Arte Brasileira, no MAM-SP, e de outras Bienais como as de Havana, em Cuba, Lima, no Peru, e da I Bienal Ceará América, em Fortaleza, além da coletiva no Henry Moore Institute em Leeds, na Inglaterra, e no Toyota Contemporary Art museum, no Japão. Possui obras nos principais acervos públicos do Brasil, a exemplo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, MAM-SP, Instituto Cultural Itaú, MAC-SP, Pinacoteca Municipal de São Paulo, MAM-RJ e Coleção Gilberto Chateaubriand.

Rafael Carneiro nasceu em São Paulo (SP), em 1985, e concluiu, em 2006, o curso de artes plásticas na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Em 2005, expôs na mostra coletiva do Projeto Nascente, no Centro Universitário Maria Antônia (Ceuma). Em 2007, participou do 32º Salão de Arte de Ribeirão Preto Contemporâneo, onde ganhou o Prêmio Aquisição. Em 2008, expôs como artista premiado na coletiva Projéteis de Arte Contemporânea, promovida pela Funarte, Rio de Janeiro. Na mesma cidade, exibiu uma individual na Galeria Artur Fidalgo. Vive e trabalha em São Paulo.

Zonas de Contato

Zonas de Contato engloba o deslocamento e a ampliação das funções no ambiente da arte: o artista convidado, além de expor suas obras, atua como curador ao eleger e convidar um jovem artista cujo trabalho dialogue com o seu, estabelecendo as múltiplas zonas de contato que a arte contemporânea permite.

A inovação deste projeto do Paço das Artes se encontra nos diálogos possíveis entre as linguagens da arte contemporânea. Zonas de Contato propõe aproximações entre formas de exibição, linguagens e propostas artísticas, além de um diálogo entre artistas de diferentes gerações.

Paço das Artes

O Paço das Artes, Órgão da Secretaria de Estado de Cultura do Governo do Estado de São Paulo, foi criado em 1970 e atualmente é administrado pela Associação dos Amigos do Paço das Artes Francisco Matarazzo Sobrinho, Organização Social de Cultura. Atualmente, conta com a direção geral da curadora e crítica de artes visuais Daniela Bousso, com a direção técnica da pesquisadora e curadora de arte contemporânea Priscila Arantes, com a direção administrativo-financeira do engenheiro Selim Harari e com Marcela Amaral na gerência do Núcleo de Projetos. A missão do Paço das Artes é “fomentar, exibir, difundir e refletir sobre a arte contemporânea”.

Publicado por Marília Sales às 4:57 PM | Comentários(0)


Com curadoria de Hugo Fortes, Urbi et Orbi traz ao Paço das Artes vídeos que partem das experiências de deslocamento do artista contemporâneo

A exposição apresenta vídeos de artistas brasileiros e estrangeiros com seus olhares multiculturais sobre as metrópoles contemporâneas. O filme Dinâmica da Metrópole (2005), baseado em roteiro de 1921 de Moholy-Nagy, destaca-se por atualizar o legado deste precursor da ideia de artista multimídia em trânsito

Os artistas Hugo Fortes e Síssi Fonseca partem de suas vivências em Berlim e trazem ao Paço das Artes, de 26 de janeiro a 04 de abril, a exposição Urbi et Orbi - Para a cidade e para o mundo, composta por 12 vídeos brasileiros e estrangeiros que se focam no olhar revelador do artista contemporâneo, um grande observador em constante mobilidade geográfica à procura de novos modos de ver e sentir. No dia 25 de janeiro, às 19h, ocorre palestra do curador Hugo Fortes seguida de visita guiada à exposição. A partir das 20h, a performance Trajetos da artista e assistente de curadoria Síssi Fonseca marca a abertura da exposição, em evento gratuito e aberto ao público.

Os vídeos descrevem os processos de deslocamento dos indivíduos no ambiente globalizado e transnacional da atualidade. Artistas de nacionalidades diversas usam cidades de vários países (Alemanha, Brasil, Colômbia, França, Japão e Índia) como ponto de partida para discutir a diluição de fronteiras temporais e espaciais que o mundo atual experimenta. Surgem desse processo tensões culturais entre local e global em situações que envolvem identificação e estranhamento, solidariedade e conflito.

Embora centrada na produção atual, Urbi et Orbi – Para a cidade e para o mundo apresenta o filme Dinâmica da Metrópole, experimento cinematográfico de 2005 feito a partir do estudo de um roteiro de 1921-22 do artista László Moholy-Nagy que não chegou a ser filmado à época. A realização ficou a cargo de um grupo de pesquisa da Universität der Künste Berlin coordenado por Andreas Haus, que mesclou imagens originais e atuais para retratar a movimentação da metrópole de Berlim com poéticas construtivistas, dadaístas e futuristas. László Moholy-Nagy, artista e professor da Bauhaus no começo do século XX, é um dos símbolos do espírito de uma época marcada pelas possibilidades trazidas pela eletricidade e pela indústria: viveu nas metrópoles de Berlim e Nova York e transitou por diversas mídias (pintura, fotografia, cinema e design).

“O fenômeno do ‘artista em trânsito’ é o foco principal da exposição. Cada vez mais os artistas contemporâneos desenvolvem suas poéticas a partir de viagens e residências internacionais, o que lhes confere novas visões de mundo e possibilidades de expansão criativa. A ideia da exposição surgiu a partir das nossas vivências por dois anos em Berlim, onde travamos contato com os artistas e trabalhos que serão exibidos.”, explicam Hugo Fortes e Síssi Fonseca.

Sobre o curador

Hugo Fortes é artista plástico, designer e professor da USP. De 2004 a 2006 viveu em Berlim como bolsista de doutorado do Serviço de Intercâmbio Acadêmico Alemão (DAAD) e CAPES. Como artista já expôs no Brasil, Alemanha, França, Espanha, Dinamarca, Grécia, Chile, Venezuela, Marrocos, Armênia e Filipinas. Tem participado regularmente de festivais de vídeo como o Videobrasil, o Videoformes (França), a Kunstfilmbiennale (Alemanha), Athens Videoart Festival (Grécia). Entre suas últimas exposições estão Tierperspektiven, no Georg-Kolbe Museum (Berlim, Alemanha), Nouvelles de São Paulo, na École Nationale des Beaux-Arts (Paris, França), Deformes Bienal Internacional de Performance (Santiago, Chile) e Mostra Verbo, na Galeria Vermelho (São Paulo).

Artistas e obras exibidas

Andreas Haus (Alemanha) / Walter Lenertz (Alemanha) e grupo da Universität der Künste Berlin Dynamik der Großstadt, ein filmisches Experiment nach L. Moholy-Nagy (Dinâmica da Metrópole – um experimento cinematográfico a partir de roteiro de László Moholy Nagy)

Alemanha, 2005/6 , 14 min

A partir de um projeto original de 1921-22 do artista construtivista Moholy-Nagy, o grupo de pesquisa da Universität der Künste Berlin (Universidade das Artes de Berlim) realizou, em 2005, uma versão atual do filme Dinâmica da Metrópole, que nunca chegou a ser filmado pelo próprio Moholy-Nagy. Com uma estética embasada no Construtivismo, no Dadaísmo e no Futurismo, o filme retrata as energias formais e emocionais da grande cidade em movimento. A figura de Moholy-Nagy é emblemática na exposição, já que se trata de um dos artistas do início do século XX de grande trânsito internacional, tendo nascido na Hungria e vivido na Alemanha e nos Estados Unidos. Seu fascínio pelo movimento e pela metrópole e sua busca de um olhar inovador podem ser vistos neste filme.

Antje Engelmann (Alemanha) / Cyrill Lachauer (Alemanha)

Ein Kolonialfilm (Um filme colonial), 2008, 5 min

Em um ambiente rural na Colômbia, um casal se encontra para uma dança entre o sonho e a realidade. Incorporando os estereótipos de sul-americanos, o casal de artistas alemães assume uma nova identidade em uma narrativa irônica e aberta, que leva o espectador a questionar a representação dos papéis sociais e sexuais, suas relações de poder e dominação e as aparências.

Cao Guimarães (Brasil) / Rivanne Neuenschwander (Brasil)

Volta ao mundo em algumas páginas, Brasil/Suécia, 2002, 15 min

O vídeo mostra uma ação realizada pelos artistas em uma biblioteca de Estocolmo, Suécia. Os artistas inserem pequenos pedaços do mapa-mundi em meio a livros escolhidos aleatoriamente para serem encontrados por futuros leitores. Imagens de recordações de viagens são intercaladas entre as imagens dos livros, levando a uma reflexão poética sobre o transitar pelo mundo.

Carola Schmidt (Áustria)

Eine Zerstäubung in mehreren Posen (Uma pulverização em diversas poses), Alemanha, 2005, 13 min

Em um velho teatro, antigas atrizes revivem após um sono centenário e disputam uma vaga em uma audição. No porão do teatro, uma personagem limpa com vigor todo o pó do século, dissolvendo sua própria imagem. Outra figura misteriosa engole algodão, enquanto poemas sobre memória e culpa são lidos por várias vozes. Neste vídeo de impressionante resultado visual, a pulverização da história e seu apagamento são apresentadas de forma surreal e poética. O filme reúne atuações de artistas de origem alemã, inglesa, australiana, brasileira e austríaca. O acerto de contas com a pesada história dos países de língua germânica se dá através de um ambiente multicultural contemporâneo.

Hugo Fortes (Brasil)

Noturno, Alemanha, 2006, 5 min

Neva. É noite. Os últimos carros e transeuntes voltam para suas casas. Apenas os faróis continuam a piscar. Captado pela janela do próprio apartamento do artista em Berlim, o vídeo propõe um olhar sobre a melancólica paisagem noturna de Berlim, o tempo, o trânsito e o fluxo da vida.

Lina Kim (Brasil)

Stairs, Alemanha/Índia, 4 min. A artista brasileira, de origem coreana, que vive atualmente em Berlim, realiza este trabalho em sua viagem à Índia. Suas imagens poéticas mostram um homem lavando uma escada de uma rua em uma cidade indiana, onde tudo é trânsito, fluido e passagem.

Martyna Starosta (Polônia)

Pyromanic Exercises (Exercícios Piromaníacos), Alemanha, 2009, 11 min

O vídeo é uma espécie de parábola sobre poder, impotência e terrorismo. Nesta irônica videoperformance, a artista afirma ser capaz de provocar incêndios em lojas de departamento, shoppings centers e outros símbolos do capitalismo a partir de poderes telepáticos. Sua origem polonesa lhe fornece um olhar crítico sobre o capitalismo que invade Berlim cada vez mais.

Rabi Georges (Alemanha)
I fuck you, Alemanha, 2007, 4 min

Nesta videoperformance o artista desafia valores da sociedade, interagindo corporalmente e sensualmente com esculturas e monumentos públicos, em uma atitude iconoclasta e provocativa. Nascido na Alemanha, porém de origem árabe, o artista realiza frequentemente trabalhos em que questiona os choques culturais e os papéis sexuais tradicionais nas culturas ocidentais e orientais.

Rachel Rosalen (Brasil) / Marit Lindberg (Suécia)

Post-diaries (Pós-diários), Japão/Suécia/Brasil, 2008, 15 min

Uma artista brasileira e uma artista sueca reconstroem suas impressões sobre uma visita ao Japão realizada cinco anos antes da edição final do vídeo. As memórias e sensações que restaram dos momentos ali vividos são reelaboradas a quatro mãos, criando uma narrativa fragmentada feita de percepções sensíveis de uma cultura distante no espaço e no tempo.

Silvia Marzall (Brasil/Alemanha)

Moment: raised, videoinstalação com dois canais, Alemanha, 2007, 3 min

Nesta videoinstalação o movimento de um homem e de uma mulher em balanços é mostrado de forma a colocar em suspensão o poder da gravidade e a passagem natural do tempo. O momento do ápice da suspensão no ar ao balançar é estendido causando uma tensão, parecendo que os corpos dos personagens estão prestes a se soltar. As ideias de trânsito constante e fluidez estão expressas metaforicamente no vaivém dos balanços. Silvia Marzall é artista brasileira, crescida na Itália e vivendo na Alemanha. Este trabalho foi realizado em Berlim, em cooperação com o artista australiano Govinda Lange.

Síssi Fonseca (Brasil)

Trajetos, performance, 20 min, 2010

Nesta performance a artista circula entre os visitantes da exposição, caminhando de diversas formas, como diferentes pessoas em diversas situações nas ruas das metrópoles. Ela observa o gestual dos transeuntes e interage com o público. Ao final ela abre um imenso mapa imaginário de uma metrópole, sobre o qual circula e delineia seus passos.

Ulf Aminde (Alemanha)

Weiter (Continue), Alemanha, 2003, 10 min

Em um terreno abandonado, punks brincam de dança das cadeiras. Um comentário irônico sobre os costumes e os trânsitos sociais.

Wagner Morales

Les Bonnes Manières (As boas maneiras), videoinstalação com dois canais, França/Brasil, 2006, 8 min

A partir de uma residência realizada em Paris, o artista observa os costumes franceses, confrontando a imagem que se tem da França propagada em seus livros de boas maneiras com a realidade da vida diária encontrada no metrô e nas ruas desta metrópole europeia.

Publicado por Marília Sales às 4:51 PM | Comentários(0)