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outubro 9, 2017

Tudo é ficção por Heloisa Espada

Tudo é ficção

HELOISA ESPADA

Lais Myrrha - Cálculo das diferenças, Galeria Athena Contemporânea, Rio de Janeiro, RJ - 11/10/2017 a 11/11/2017

[scroll down for English version]

A obra de Lais Myrrha propõe conceitos claros para revelar formas inadequadas. Seu vocabulário é híbrido e poroso. Com cimento ou barro, colunas e torres, ações de construção e destruição, ouro e cocaína, mídia e política, a artista combina precisão e polissemia. Há uma urgência em elaborar o presente e, por isso, a análise histórica é fundamental. Mas se, teoricamente, a História e a Matemática deveriam operar nos domínios da razão, aqui elas expõem a arbitrariedade interessada de todas as linguagens.

Nesta exposição, Myrrha opera com medidas exatas para calcular o que é contingente, humano e potencialmente desleal. Propõe parâmetros de equivalência para configurar materiais incomparáveis ou incompatíveis. Os trabalhos contrastam porvir e ruína. Provocam o gosto amargo da autocrítica; a memória do que poderíamos ter sido; a consciência do fracasso que se percebe finalmente como delírio. Nas quatro peças de Cálculo das diferenças (2017), materiais brutos em estado de devir são confrontados com sua inutilização e morte. Essa condição sugere narrativas. Projeto e escombro se conformam em espaços idênticos, que podem ser tanto caixa quanto caixão.

Em Soma (não) nula (2017), ouro e cocaína têm o mesmo peso, um grama. A ideia de narrativa está novamente presente, pois a equivalência propõe algum tipo de acordo (pouco estável e pouco confiável) entre os materiais. As placas de ouro, precisas e sedutoras, não possuem memória. Lícito e ilícito se imiscuem. A artista está interessada na Teoria dos Jogos, um ramo da matemática que estuda o comportamento de indivíduos em estado de competição, com o objetivo de prever movimentos dos adversários e criar estratégias de ação. A teoria é aplicada a campos tão diversos quanto a economia, as ciências políticas, a biologia, as ciências militares e a cibernética. Nesse contexto, os chamados “problemas de soma não nula” são aqueles em que o ganho de um jogador nem sempre corresponde à perda do outro, o que não significa que o resultado será justo, pois ambos têm o objetivo maior de levar vantagem, nem que seja em prejuízo do adversário. Um exemplo clássico de “soma não nula” é o problema matemático conhecido como “dilema do prisioneiro”, onde dois jogadores são colocados numa situação em que o resultado mais vantajoso para ambos depende da mútua colaboração. Ainda assim, eles têm como opção confiar ou trair um ao outro.

Há cerca de quinze anos, Myrrha vem investigando o território incerto das memórias coletivas, onde patrimônio e monumento representam poderes, valores e aspirações. Ao construir anti-monumentos monumentais, a artista aponta para as fragilidades e as incoerências desses projetos. A fotografia está presente como documento parcial, uma espécie de olhar retrospectivo imperfeito e, por isso, adequado à investigação de estados pantanosos. Em trabalhos recentes como Corpo de prova (2016), Descontinuidade pelo tempo (2017) e Estrutura (2017), colunas projetam sua própria queda, consumada – ou na iminência de ser consumada – na inconsistência de procedimentos e materiais. Porém, ao formatar ruínas, as obras da exposição Cálculo das Diferenças se impõem como ações generosas e necessárias, exemplos da potência da arte em situações de desastre.


Everything is fiction

HELOISA ESPADA

Lais Myrrha - Cálculo das diferenças, Galeria Athena Contemporânea, Rio de Janeiro, RJ - 11/10/2017 a 11/11/2017

Lais Myrrha's work presents clear concepts to reveal inadequate forms. Their vocabulary is hybrid and porous. With cement or clay, columns and towers, acts of construction and destruction, gold and cocaine, media and politics, the artist combines precision and ambiguity. There is an urgency in elaborating the present, and therefore historical analysis is fundamental. But if, theoretically, history and mathematics ought to operate in the realm of reason, here they expose the curious arbitrariness of all languages.

In this exposition, Myrrha works with accurate measurements to calculate what is contingent, human, and potentially disloyal. She offers equivalency parameters to shape incomparable or incompatible materials. The works contrast the future and decay. They provoke the bitter taste of self-criticism; the memory of what we might have been; the consciousness of failure that is finally perceived as delirium. In the four pieces of Cálculo das diferenças (Calculus of Differences) - 2017, raw materials in a state of becoming are confronted with their destruction and death. This condition suggests narratives. Project and debris settle in identical spaces, which can be either a box or a coffin.

In Soma (não) nula (Non-zero Sum) - 2017, gold and cocaine have the same weight, one gram. The idea of narrative is present once again, since equivalence suggests some kind of agreement (not very stable or reliable) between the materials. The gold plates, precise and seductive, have no memory. The lawful and unlawful interfere with each other. The artist is interested in game theory, a branch of mathematics that studies the behavior of individuals in competition, to predict the adversaries’ moves and create strategies for action. The theory is applied to fields as diverse as economics, political science, biology, military science, and cybernetics. In this context, the so-called "non-zero sum problems" are those in which a player's gain doesn’t always correspond to the loss of the other, which doesn’t mean that the result will be fair (since both have the greater objective of taking advantage), nor that it is to the adversary’s detriment. A classic example of a "non-zero sum" is the mathematical problem known as the "prisoner's dilemma," where two players are placed in a situation where the most advantageous outcome for both depends on mutual collaboration. Still, they have the option of either trusting or betraying each other.

For the past fifteen years or so, Myrrha has been investigating the uncertain territory of collective memories, where heritage and monument represent powers, values, and aspirations. By constructing monumental anti-monuments, the artist points to the weaknesses and inconsistencies of these projects. Photography is present as a partial document, a kind of imperfect retrospective, and therefore suitable for the investigation of murky conditions. In recent works such as Corpo de prova (Body of Proof) - 2016, Descontinuidade pelo tempo (Discontinuity through Time) – 2017, and Estrutura (Structure) - 2017, columns project their own collapse, consummated—or about to be consummated—in the inconsistency of procedures and materials. However, in shaping ruins, the works of the exhibition Calculus of Differences assert themselves as generous and necessary acts, examples of the power of art in situations of disaster.

Publicado por Patricia Canetti às 7:15 PM


outubro 4, 2017

Losing it por Laura A. L. Wellen

Losing it

LAURA A. L. WELLEN

Paulo Whitaker - Temas para discussões inconclusivas, Galeria Marilia Razuk, São Paulo, SP - 06/10/2017 a 04/11/2017

Estas pinturas contêm estranheza e desconforto. Pelo menos é o que Paulo procura quando as produz, é o que o leva de volta à abstração, à tela inúmeras vezes. Aqui não há narrativa, e assim a tarefa do escritor – minha tarefa – fica mais difícil, menos fundada em substantivos e advérbios, mais em descrições e sensações. De certa forma, estas obras estão interligadas como palavras em uma sentença. Na verdade, Paulo prefere intitular exposições a trabalhos individuais. Assim, fragmentos de pensamentos formam uma ideia comum. E, afinal, o que são palavras além de abstrações articuladas e combinadas que se conectam a abstrações ainda maiores, como emoções, experiências, fatos que já aconteceram, histórias. Se removermos a narrativa, descreveremos impressões. A ciência por trás das emoções revela que entendemos e embarcamos nos estados emocionais alheios. Isto é, flutuações emocionais literalmente pairam no ar. Como podemos falar dessa coisa intangível, essa coisa que permeia o espaço, essa sensação inexplicável de pavor e loucura que invade nossas experiências?

Este texto será traduzido para o português e ficará no mesmo espaço das pinturas, mas muito distante do meu próprio mundo, dos significados acordados do meu idioma e dos meus espaços. Será que estou dizendo coisas que irão repercutir em uma língua diferente, em um contexto diferente? Isto que escrevo também é abstração, apesar de raramente usarmos o termo para descrever o trabalho do escritor ou curador. Tenho lido sobre descrições de cores para pensar sobre o material de abstração e figuração, e sobre de como investimos nossa energia emocional nas cores. Descrevendo o azul, Rebecca Solnit declara: “A cor da distância é a cor de uma emoção, a cor da solidão e do desejo, a cor de lá visto daqui, a cor de onde você não está. E a cor de onde você nunca poderá ir." [1] Paulo me diz que assiste à nova versão de Twin Peaks e, é levado para o contexto distante do enredo. “Não conseguimos tê-lo”, ele escreve, “e então o conseguimos para perde-lo novamente.” É como o azul profundo no horizonte, sempre escapando pelos nossos dedos. Na verdade, o efeito é sugerido na atmosfera, não na narrativa. Está na tensão, no desejo, e no peso do ar. Paulo retorna a trabalhos do começo dos anos 90, e inclui pinturas nas quais existem grandes espaços vazios, ambiente e vazio, tensão e sugestão. O que paira no ar aqui, ou, talvez, naquela época? Não é apenas uma questão de abstração ou de materiais de pintura. Hoje, produtos químicos são pulverizados sobre a cidade em que vivo para matar os mosquitos decorrentes da maior enchente da história dos Estados Unidos, causada pelo furacão Harvey. O que satura o ar de onde vivemos e como isso vai nos envenenar ou proteger; como isso vai ocupar os nossos dias e assombrar as nossas noites agitadas?

O oval azul-cobalto usado por Paulo, pairando sobre um azul-celeste num plano de fundo preto, é, na minha opinião, o azul da distância, aquele azul incognoscível que mistifica e interrompe, e é também o distanciamento que Paulo e eu experenciamos ao falar sobre este texto, sobre esta exposição que eu não verei, ou verei somente por fotos. “Sou levado por algo que não entendo detalhadamente”, escreve Paulo, “mas tenho prazer com as imagens, a estranheza, a singularidade... os detalhes... a pictoricidade... como eles apresentam algo a alguém que não está nem um pouco interessado na estória, mas em todo o resto”. Ele está escrevendo para mim sobre a televisão, mas é também sobre pintura, especialmente sobre pintura abstrata. Atente para tudo, atente para a estranheza, atente para os detalhes, para a tinta... aquele azul na tela, pairando no espaço. Tal como o passado, como a abstração, como o presente, como as palavras compartilhadas nos idiomas e lugares, como o azul distante que você consegue apenas compreender, você o tem somente para deixá-lo escapar novamente.

[1] Rebecca Solnit, "The Blue of Distance," in A Field Guide to Getting Lost (New York: Penguin, 2005): 29.

Publicado por Patricia Canetti às 11:09 AM


setembro 25, 2017

Agora somos todxs negrxs? por Daniel Lima

Agora somos todxs negrxs?

DANIEL LIMA

Sim, agora somos todxs negrxs! Artigo 14 da Constituição Haitiana de 1805, escrita a partir da única rebelião negra a tomar o poder na América, aponta para uma situação política em que lutamos pela expressão de uma voz historicamente silenciada. Aqui, essa voz canta a luta do quilombo urbano a atravessar todxs que foram e são excluídxs pelos poderes hegemônicos.

Não, agora não somos todxs negrxs! As instituições entenderam agora que os traumas da colonização existem? Entenderam agora a falácia do discurso da democracia racial? Não! Não somos todxs negrxs! Nós, negrxs, continuamos a viver como alvo de violência, silenciamento e exclusão. Não, não somos todxs negrxs. Esta é uma luta contínua por sobrevivência em que precisamos reconhecer as especificidades de uma trajetória afro-americana.

Sim, agora somos todxs negrxs! Poderíamos dizer que, na história da arte contemporânea brasileira, quase todas as exposições tacitamente se autonomearam “Sempre fomos todos brancos” — porque a presença negra no ambiente de arte contemporânea aqui sempre foi uma exceção. A exposição AGORA SOMOS TODXS NEGRXS? reúne parte da nova geração de artistas visuais negrxs brasileirxs. Uma geração marcada pelo amadurecimento da discussão sobre as questões raciais no Brasil e na América, e também pelo cruzamento com discussões sobre identidade de gênero e transgêneras.

Não, agora não somos todxs negrxs! Uma arte contemporânea produzida a partir da perspectiva da negritude que desafia as perspectivas de descolonização da América. Uma geração que se propõe a desconstrução do tríplice trauma da colonização (extermínio das populações nativas, escravidão e perseguição religiosa) por meio do poder micropolítico da arte, ao desabrigar estereótipos numa batalha por forças da vida contra forças de extermínio. Uma disputa para reconstruir nossa história e nosso mundo do nosso jeito.

X como atualização. X como afirmação histórica do não capturável. X como trama.

Daniel Lima
curador

Agora somos todxs negrxs?, Galpão VB, São Paulo, SP - 01/09/2017 a 16/12/2017

Publicado por Patricia Canetti às 1:57 AM


setembro 24, 2017

anoitecer, amanhecer: desalerta por Marco Veloso

anoitecer, amanhecer: desalerta

MARCO VELOSO

Após a transição efetuada através das armadilhas visuais, com a composição dos modelos de origem abrindo caminho por um espaço de trabalho antes compacto, meu desenho atual acontece, sincrônica e diacronicamente, em diferentes planos comunicáveis.

Por exemplo: um primeiro plano, no qual são geradas proto-imagens ainda não destinadas às suas formas finais; e, uma segunda dimensão, onde o traço aparece em suas linguagens próprias.

Ao mesmo tempo, os pré-esboços vêm somar-se ao campo de ação do grafismo, o qual, anteriormente, absorvia todo o trabalho.

Na verdade, o impulso racional e emocional separou-se do simples ato de desenhar.

De maneiras independentes, embora conjuntamente, os modos de compreensão e o gesto orientado constroem cada objeto esboçado e configurado.

Analogamente, vamos além da unidade fechada das paisagens abstratas (das tonalidades em carvão) e dos entrelaços característicos das armadilhas, das quais o olhar busca livrar-se.

Agora, os controles motores e visuais são conduzidos pelas motivações de modo a criarem figuras dinâmicas com espaços definidos.

Mas, também podemos dizer, de forma aparentemente contraditória, que as próprias composições preparam os meios físicos e, mesmo, conceituais para a tarefa que virá trazê-las à luz.

Este fato revela a nova importância que passa a ter o desenvolvimento de tais figurativos no andamento do trabalho.

Lembremos, ainda, que os desenhos não partem mais de modelos prévios, mas procedem de pré-esboços, de esboços de esboços.

28 de setembro de 2017
Marco Veloso

Marco Veloso - anoitecer, amanhecer: desalerta, Mercedes Viegas Arte Contemporânea, Rio de Janeiro, RJ - 29/09/2017 a 01/11/2017

Publicado por Patricia Canetti às 8:24 AM


setembro 20, 2017

Raro Rigor por Paulo Sergio Duarte

Raro Rigor

PAULO SERGIO DUARTE

Célia Euvaldo, Galeria Marcelo Guarnieri, Ribeirão Preto, SP - 25/09/2017 a 14/11/2017

Quando um artista marca sua obra com forte caráter nós a reconhecemos imediatamente; à distância mesmo. Antes de qualquer psicologia, Ferrater Mora nos ensina, que “o termo ‘caráter’ significa marca ou nota que assinala um ser e que por isso o caracteriza diante de todos os outros.” 1 Este é o caso do trabalho de Célia Euvaldo, sempre marcado por raro rigor. Quem está em contato com a pintura contemporânea no Brasil, e não são poucas as pinturas poderosas presentes no interior desse vale-tudo infernal em que se tornou o meio de arte, entra numa sala de galeria, museu ou qualquer outra instituição e, se existe um desenho ou tela da artista, este logo se distingue. Os artistas que alcançam essa marca devem exclusivamente à potência poética que os individualiza. Não é exagero que essa marca foi obtida por uma rara e rigorosa economia de meios, sobretudo na sua conhecida e reduzida paleta, durante muito tempo, comprimida a duas cores: o preto e o branco.

Essa obra que já percorre quase quatro décadas, se tomarmos como ponto de partida sua participação numa exposição coletiva no Solar Granjean de Montigny, na PUC-Rio, em 1981, passa por um longo processo de aprendizado e de experiências realizadas por uma artista absolutamente consciente de seus meios, recursos e procedimentos, como é demonstrada na Cronologia que redigiu para seu livro Célia Euvaldo. 2

Insatisfeita, no melhor sentido, Célia volta a nos surpreender […] surgem as pinturas com aguadas. Estas despertam um interesse particular para a experiência estética na sua obra. O preto impõe-se com sua presença já conhecida no trabalho e a aguada […] contraria a imposição do preto, pela sua delicadeza. Como em Rothko ou em muitos trabalhos de Mira Schendel, é como se estivéssemos flagrando o aparecimento da arte no mundo. Temos então duas relações simultâneas e opostas quando estamos diante dessas obras. O preto como se sempre estivesse lá, uma arte que estaria no mundo antes de nós tal a força de sua presença, enquanto a aguada nasce, vem ao mundo, no momento mesmo em que a olhamos. Toda uma nova experiência poética surge nesses novos trabalhos de Célia Euvaldo.

Permitam-me uma digressão antes de voltar à obra da artista. Num texto bastante conhecido, o filósofo Giorgio Agamben interroga “O que é o contemporâneo?”. 3 Logo nos adverte: “Aqueles que coincidem muito plenamente com a época, que em todos os aspectos a esta aderem perfeitamente, não são contemporâneos porque, exatamente por isso, não conseguem vê-la, não podem manter fixo o olhar sobre ela.” 4 Mais adiante afirma: “Todos os tempos são, para quem deles experimenta contemporaneidade, obscuros. Contemporâneo é, justamente, aquele que sabe ver essa obscuridade (...).” 5

“Pode-se dizer contemporâneo apenas quem não se deixa cegar pelas luzes do século e consegue entrever nessas a parte da sombra, a sua íntima obscuridade.” Concluindo a apresentação de seu seminário, o filósofo nos diz: “É como se aquela invisível luz, que é o escuro do presente, projetasse a sua sombra sobre o passado, e este, tocado por esse facho de sombra, adquirisse a capacidade de responder às trevas do agora.” 6

Ocorreu-me que a obra de Célia Euvaldo poderia ser vista como uma metáfora visual do pensamento do filósofo e, mais que isso, absolutamente contemporânea segundo as exigências do que é ser contemporâneo. De acordo com a artista, no princípio, seus trabalhos eram multicoloridos. Portanto, aderindo a seu tempo sem dele tomar distância. Era a época do retorno à pintura onde, não só aqui no Brasil, mas especialmente na chamada Transavanguardia italiana, multiplicavam-se as telas multicoloridas, muito decorativas, para alegria de marchands e arquitetos de interiores. Logo que se afasta dessa adesão, surge a cor negra em procedimentos variados, todos muito pessoais que logo marcam o caráter único do trabalho, durante mais de vinte anos. A escuridão do presente aparece com força diante de nossos olhos. E é sobre essa escuridão que a artista fixa sua atenção explorando-a numa extensa aventura pictórica. Sem esquecer o quadrado negro de Malevitch (1916) e os quinze anos de telas negras de Ad Reinhardt, durante os anos 60, a corajosa pintura da artista se inscreve do modo mais legítimo nessa tradição. Agora, nas pinturas com aguadas mais recentes, surgem, à sombra, outros resultados dessa corajosa experiência.

E, repito, a artista explora duas formas de a arte estar no mundo: a potente presença da cor negra e os delicados aparecimentos das aguadas. A fratura dessas duas formas está presente e é a essência dessa contemporaneidade e do próprio trabalho. Preparemo-nos para novas experiências sempre apresentadas com raro rigor.

*Texto publicado pela primeira vez no folder da exposição da artista na Mul.ti.plo Espaço Arte, Rio de Janeiro, 2017.

1 Ferrater Mora, José. Dicionário de Filosofia; Tomo I (A-D). Edição: Marcos Marcionilo. Diversos tradutores; 2ª edição. São Paulo: Edições Loyola, 2004. P. 397.
2 Euvaldo, Célia. Cronologia. In: Tassinari, Alberto et alt. Célia Euvaldo. São Paulo: Cosac Naify, 2008. Para os que não sabem, além de artista, Célia Euvaldo possui uma escrita fluente, lúcida e clara, como prova a citada cronologia, editora e tradutora. Traduziu, entre outros, Samuel Beckett e Hal Foster.
3 Agamben, Giorgio. O que é o contemporâneo? In: O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Tradução: Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó, SC: Argos, 2010. Pgs. 55-73. O texto retoma aquele da lição inaugural do curso de Filosofia Teorética 2006-2007 junto à Faculdade de Arte e Design do IUAV de Veneza.
4 Agamben. Op. cit. P. 59.
5 Op. cit. P. 62-63; 63-64.
6 Op. cit. P. 72.

Publicado por Patricia Canetti às 2:27 PM