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junho 23, 2017

5 artistas e a geometria - construção e desconstrução por Luiz Dolino

5 artistas e a geometria - construção e desconstrução

LUIZ DOLINO


5 artisti brasiliani geometrici, Um Galeria, Rio de Janeiro, RJ - 28/06/2017 a 09/08/2017

Reunir um coletivo tem sido sempre uma tarefa delicada. Quando a proposta é mesclar artistas, linguagens, expressões, as dificuldades desse mundo se multiplicam. No entanto, a ousadia, que é própria dos seres inquietos, nos propicia essa oportunidade e vem, portanto, daí o gesto heroico que acatamos.

O eixo central do argumento se sustenta na vontade de exibir cinco artistas que se aproximam e se tornam íntimos, sem prejuízo da singularidade de suas escolhas diante do ilimitado da expressão. A Geometria – geom, tudo aquilo que em Matemática se ocupa do estudo do espaço e das figuras que podem ocupa-lo – é, na largada, o polo que nos une. O rigor formal permeia o sonho, constrói e desconstrói. Há uma arquitetura que se impõe, que edifica; mas há também uma ordem que deforma, implode, desmonta.

Rodrigo de Castro e Luiz Dolino perseguem mais de perto a rota euclidiana – exploramos figuras que não possuem volume. No entanto, apesar de trilhar aparentemente uma mesma estrada, há, por sorte, um divisor de águas que nos fertiliza. Rodrigo ousa dizer que está sempre em busca da cor que melhor se ajuste ao seu propósito: “descobrir uma cor traz uma sensação maravilhosa. É como encontrar o acorde num piano. ” Do meu lado, sou mais direto, cético. Preciso tão somente de quatro cores. Quaisquer, vindas não importa de onde. Minha pauta é o Teorema das Quatro Cores, de formulação simples, mas de demonstração complexa: dado um mapa, quatro cores são suficientes para colori-lo de forma a que regiões vizinhas não partilhem a mesma cor. Rodrigo está atrelado à uma poética que, por mais ortodoxa, o liberta. Eu, sonhando-me livre, na verdade sou cativo um rito arbitrário.

Manfredo de Souzanetto, no quinteto, é um moderador ou ponto de equilíbrio. Paradoxalmente, vem de sua obra o privilégio atribuído à presença do objeto que, antes de tudo, nos surpreende. Mais ainda talvez, nos assusta e perturba com sua arritmia. Extasiamo-nos diante da permanente proposta que visa a recomposição de um imponderável puzzle. Leva e traz. Diz e contradiz. Dialeticamente se impõe: cheios e vazios. O impasse enganoso conduz o nosso olhar para periferia irregular. A percepção sofre reveses. A catedral se estrutura e abriga uma arquitetura arquetípica.

Maria-Carmen Perlingeiro agrega o espanto – matéria prima da poesia – ao discurso que, em síntese, busca uma possibilidade de amalgamar as singularidades do grupo. Prismas, cones, segredos, luz e pedra, ouro, são palavras de ordem na compulsão criativa dessa artista que, por meio de delicada magia, impõe expansões da própria forma. Sem deixar espaço para especulações, provoca a reverberação da matéria e, infatigável, conduz o seu experimentalismo como reflexão diante de múltiplos espelhos. Humor, ambiguidade e sensualidade também fazem parte do seu léxico.

Suzana Queiroga, foi dito pela crítica, tem sua obra relacionada às ideias de fluxo e conexões de sistemas dinâmicos. A experiência proposta ao espectador modifica a sua percepção e promove a expansão dos sentidos, do espaço e do tempo. Para a artista, o que está em causa é a discussão da bi-dimensionalidade e o questionamento dos limites entre pintura e escultura. O diálogo persiste ao fixar como pano de fundo a oposição entre geometria e forma orgânica; a integração do espaço real ao espaço pictórico e a ativação do ambiente por meio do recorte ou de superfícies vazadas. Cabe o registro de que, na intensa atividade pedagógica que desenvolve, está presente o propósito de gerar um território propício a investigações pessoais direcionadas à uma prática que tem como objetivo aliar a experiência à reflexão, considerando a pintura como pensamento.

Luiz Dolino, curador

Publicado por Patricia Canetti às 9:33 AM


junho 21, 2017

Carolina Paz – Os desejos e os motivos do outro por Divino Sobral

Carolina Paz – Os desejos e os motivos do outro

DIVINO SOBRAL

Carolina Paz - Desejo Motivo, Auroras, São Paulo, SP - 24/06/2017

Na busca por motivos para dilatar sua pesquisa em pintura, Carolina Paz pôs em circulação na internet e na fachada de seu antigo ateliê a seguinte chamada: “Envie uma carta com seu pedido, desejo, assunto, motivo para criação de uma imagem baseada em sua história”. Assim, a artista acionou um processo de coleta de histórias e de solicitações a ela endereçadas, que resultou em uma coleção de cartas sobre a qual se debruçou para criar uma série de trabalhos. Firmou com diversas pessoas um contrato informal de troca, que rezava o câmbio de uma história por uma pintura, e estabeleceu uma área de relações e cruzamentos que, de certa forma, permitiu ao espectador ter determinado grau de participação na gênese da pintura.

Na coleção de cartas, agrupam-se narrativas de diferentes naturezas: memorialismo poético; crônicas do cotidiano; reflexões sobre a arte. Nos dois primeiros grupos, afloraram recordações da infância, afetos, relatos de solidão, saudade, felicidade, amargura, encontro, separação, casos de amor, problemas familiares, desejos de autonomia e independência, projetos de trabalho e de viagem, pulsões de vida e de morte. No terceiro grupo, emergiram problematizações de questões que envolvem o processo artístico aberto e permeável à intervenção de outro agente que não o artista.

No mundo contemporâneo, a forma de comunicação que tradicionalmente conhecemos como carta foi posta em xeque com a utilização de equipamentos tecnológicos, que gradativamente alteram os modos de comunicação humana. As facilidades promovidas pela velocidade e pelo alcance dos meios digitais (e-mail, redes sociais) tornaram a carta um veículo moroso, obsoleto, relegado ao abandono e ao esquecimento. Enfim, há ainda que se considerar que, em meio à crise das relações e da comunicação humanas, imperam a impessoalidade, a frieza da objetividade, a síntese e a abreviação que atendem ao imediatismo, o narcisismo e o egocentrismo que impedem de ver e de falar com o outro. O contrário parece não ter mais lugar, mas apenas parece.

Em Desejo Motivo, os meandros do processo de troca da narrativa escrita por imagem pintada ativam outro processo de troca entre subjetividades, no qual ocorrem compartilhamentos de intimidades, experiências, vivências, entendimentos e sentimentos. Na verdade, para a artista, o contato com outras pessoas inseridas em seu processo criativo, ao mesmo tempo em que amplia suas relações humanas, substancia e integra as obras da série Desejo Motivo. A conversação inicial, travada por meio de cartas enviadas por dezenas de remetentes a um só destinatário, ao cabo do projeto é aberta por meio da pintura ao público.

Apesar de terem como “assunto” e “motivo” temas literários, coletados no inventário de pedidos e desejos levantados junto àqueles que atenderam ao convite da artista, as pinturas resultadas ao final do processo não são literais e ilustrativas das motivações alheias que acarretaram suas existências. Com certa autonomia dos motivos compilados, elas obedecem a um raciocínio interno já presente na concepção das pinturas que integraram a série Teoria dos Conjuntos (apresentada há cerca de dois anos). Trata-se de um raciocínio que opera na produção de alegorias, reunindo fragmentos descontextualizados de suas respectivas origens, criando sentidos com a junção de partes tão heterogêneas.

As alegorias de Carolina Paz são construídas pela relação entre uma única imagem e outro elemento linguístico, tal como letra, palavra, numeral ou sinal. O segundo não atua como legenda do primeiro, embora em alguns casos sugira deslocamentos poéticos e trocadilhos semânticos. As alegorias funcionam visualmente também como espantoso método de alfabetização, no qual as figuras são acompanhadas por palavras, letras ou sinais tipográficos. O que a imagem de um pedaço de carvão tem a ver com a palavra “máquina”? Aí lembramos que a máquina a vapor (movida com a queima de carvão) carrega a mensagem subterrânea da viagem sonhada. Ou o que a imagem de uma bola tem a ver com a palavra “voa”? Pensamos no movimento da bola durante a cobrança de um pênalti. A figura de um coração é associada às letras A e O, que recuperam o som da palavra que nomeia a própria figura. De maneira estranha e desconfortável, parece haver algo impreciso que liga a imagem ao texto ou ao sinal, ainda que seja o simples som de um fonema.

Do ponto de vista formal, as pinturas seguem uma metodologia bastante econômica de procedimentos. As telas em pequenos formatos guardam a escala da intimidade e têm as bordas das superfícies e as laterais do chassi destacadas pelo uso de cores e por acidentes que reafirmam a condição da pintura não somente como superfície-imagem, mas também como um objeto no mundo. As pinturas representam fragmentos do corpo humano, elementos vegetais, animais e minerais, alimentos ou objetos de toda sorte, associados a palavras ou sinais, aplicados frontalmente sobre fundos marcados pela materialidade da tinta, ora empastada ora diluída, pelo movimento do pincel e por cores praticamente chapadas, porém desejosas de guardarem afetividades. Em Desejo Motivo, Carolina Paz arma um campo de possíveis articulações entre esses elementos (imagem e palavra, figura e fundo) e convida o espectador a explorá-lo.

Divino Sobral
Goiânia, maio de 2007.

Publicado por Patricia Canetti às 7:55 PM


Uma poética das relações humanas por José Bento Ferreira

Uma poética das relações humanas

JOSÉ BENTO FERREIRA

O mundo da arte resulta de um conjunto complexo de variáveis que envolve diversos aspectos do que genericamente se chama “cultura”, o que inclui nacionalidade, classe, várias forças econômicas, formas simbólicas, mídia e outras determinações. Essa complexidade, ligada ao perfil heterogêneo das sociedades modernas, que por sua vez se amplifica no mundo globalizado, não torna os rumos da produção artística aleatórios nem arbitrários, mas difíceis de prever, avaliar, interferir.

Intervenções bem-sucedidas no mundo da arte são o resultado de uma correta leitura desse “espírito de época”, ou desse “tempo-de-agora”, como diriam leitores dos filósofos Hegel e Benjamin. Assim, por exemplo, o filósofo e crítico Arthur C. Danto descreveu o trabalho de Andy Warhol como o de alguém que, ao menos durante alguns “anos milagrosos”, teve inteligência e sensibilidade para compreender os movimentos do mundo da arte e, por isso, ofereceu revelações sem precedentes acerca da própria natureza da produção artística. Em face da indecidibilidade inerente ao mundo da arte, a artista Carolina Paz cria Desejo Motivo pela observação de característica simples e antiga da natureza humana: a relação de interdependência entre os indivíduos no seio das sociedades.

O crítico Nicolas Bourriaud acredita ser possível erigir uma “arte relacional” alicerçada no universo das interações humanas, seja com “objetos produtores de socialidade”, seja provocando “momentos de socialidade” propriamente ditos. Apesar da generalidade do que pode ser considerado objeto produtor de socialidade – o que envolve quase todos os tipos de produção artística, a ponto de Bourriaud intitular seu pensamento de “estética relacional” –, os trabalhos com frequência considerados relacionais tendem à esfera conceitual e acompanham o movimento que o crítico Hal Foster descreveu como “horizontal”, em direção a questões políticas, sociais e culturais, por oposição à “verticalidade” das preocupações concernentes à especificidade do meio ou à autonomia do fazer artístico.

Sabe-se que as ideias de Bourriaud pertencem ao leque de referências teóricas da artista, que, por outro lado, exerce prática duradoura de pintura. Apesar de uma pintura poder produzir socialidade e do significado originalmente coletivo do “tema”, “motivo”, “assunto” da pintura (por mais enraizado que esteja, como descreve Klee no texto “Confissão criadora”), a pintura parece pouco afeita à arte relacional, sobretudo a pintura de teor intimista. Desejo Motivo surpreendentemente articula a produção pictórica introspectiva à ação de caráter relacional, iluminando o processo ainda cercado de mistérios da criação artística, conforme designa, com inteligência, o título.

O que motiva um artista a produzir determinado trabalho, a escolher determinada forma para o trabalho? Uma primeira leitura da expressão “desejo motivo” sugere falta de assunto, um posicionar-se frente ao esgotamento das linguagens artísticas que obriga a artista a recorrer aos espectadores em busca dos temas, invertendo a direção convencional da atuação da artista sobre o espectador, por meio da obra, por uma atuação do espectador sobre a artista por meio do texto que inspira a obra. Uma vez produzidas as pinturas e compartilhados os textos, essa primeira impressão, que talvez não seja de toda falsa, altera-se sensivelmente.

A heterogeneidade dos textos obtidos pela artista revela, contudo, um traço comum nas diversas maneiras de se tratar da necessidade de contato com os outros de que nem mesmo uma boa vida solitária prescinde completamente. A tensão entre a intimidade e o convívio se expressa pela memória do contato, pela procura por contato, pela própria consideração dos meios da escrita, da carta, da troca e da pintura como formas de contato humano real, por oposição às simulações que se impõem pelo trabalho alienado, pela privatização do espaço público ou pela iconomania das redes sociais.

Alguns textos atingem intensidade poética e elaboração formal. Outros evitam de modo intencional qualquer pretensão literária. Todos contribuem para o conjunto da obra com uma realidade humana sem a qual as pinturas produzidas por livre associação seriam uma “ciranda aleatória de signos descarnados”, como o crítico Fredric Jameson deplora no pós-modernismo. Com essa “realidade humana”, essas pinturas ganham o significado afetivo e coletivo que falta aos não-lugares por onde se passa sem deixar marcas, às imagens que tudo querem mostrar e, por isso mesmo, escondem o real. Aflora nos textos uma dimensão humana da experiência vivida, protegida pela intimidade da linguagem epistolar e pela garantia do anonimato.

O trabalho de arte propriamente dito não se restringe à pura forma visual das pinturas, o que as tornaria as únicas contrapartes materiais da obra. Os textos, as pinturas e o momento do encontro entre os missivistas e as pinturas são aspectos de um mesmo “objeto distribuído no tempo e no espaço”, conforme formulação do antropólogo Alfred Gell a respeito do corpus das obras de arte. As figuras que aparecem nas pinturas são como portas que se abrem para uma miríade de imagens produzidas coletivamente pelo contato estabelecido entre a artista e os participantes.

Com isso, Desejo Motivo inscreve-se na linhagem de experiências como a da psicanalista Nise da Silveira, que via na imagem a “porta para o mundo interno” dos pacientes, alguns dos quais se tornaram artistas chancelados pelo mundo da arte; ou de Lygia Clark, que transitou da produção artística para a prática terapêutica, com seus “objetos relacionais”, que não são obras de arte, mas partes de uma obra de arte que é o próprio uso sobre os “clientes”, que seria mais ou menos bem-sucedido na medida em que esses fossem capazes de produzir e relatar imagens internas a partir da experiência a que se submeteram. A grande diferença entre Desejo Motivo e a “estruturação do self” é que temos acesso aos textos que deflagraram as imagens do trabalho de Carolina Paz, desvendando o mistério, como diria Danto; ao passo que os registros de Lygia Clark permanecem quase todos desconhecidos por causa da disputa dos herdeiros por direitos autorais. A ideia de um “objeto distribuído” composto por cartas, pinturas e por um encontro aponta para uma definição de imagem que não se restringe à visualidade da figura, mas envolve diversas interações entre figura, corpo e meio, tal como pensa Hans Belting, autor de Uma antropologia das imagens.

O jogo livre entre significado e significante é um aspecto central de Desejo Motivo, uma vez que a série se constitui pela associação entre figura e palavra (ou sinal gráfico). O procedimento retoma a associação livre surrealista e implementa uma “produção automática de causalidade”, conforme descrição do crítico Peter Bürger para o legado das vanguardas históricas depois do fracasso das intenções vanguardistas. Sobreposição ou montagem também caracterizam o conceito pós-vanguardista de obra de arte segundo Bürger e aparecem explícitas no trabalho de Carolina Paz. A figura desmente o caráter apenas indicial do sinal gráfico; antes, dá-lhe vida. Já o signo modula a figura, altera o seu sentido e indica, talvez no fundo, uma terceira dimensão da imagem, que não se deixa definir claramente, inapreensível, indizível e irrepresentável, mas ao mesmo tempo interpessoal, afetiva e vivida: um contato humano real, para além de toda simulação.

As pinturas de Carolina Paz poderiam ser admiradas independentemente do conjunto de relações travado em torno delas, mas isso equivaleria a considerar uma obra de arte a despeito do contexto histórico, do posicionamento em relação aos outros, da própria vida dos artistas (as cartas escritas por eles). Não estamos dispostos a sacrificar o mundo da vida, nem mesmo quando nos vinculamos a uma certa visão modernista de arte. Assim, não apenas as cartas, com desejos-motivos, devem ser consideradas partes constitutivas do trabalho, mas também o momento que a artista chama de “acontecimento”, termo que a teoria opõe a “evento”, como algo que irrompe no real de maneira espontânea, inexorável e imponderável.

Como foi dito, Desejo Motivo opera na chave da “produção automática de casualidade”. Apesar do planejamento das fases do trabalho e do controle técnico da prática da pintura, ou justamente por causa deles, um alto grau de imponderabilidade apresenta-se no perfil dos participantes, no resultado das pinturas produzidas por meio de associação livre e, por fim, mas não menos importante, no momento tradicionalmente significativo para a prática da pintura quando o trabalho for entregue. A história da arte de fato está repleta de relatos sobre deslumbramentos e incompreensões nesse contexto de revelação. Ecos da história da arte serão visíveis no momento em que os autores das cartas buscarão, em meio à série de pinturas, aquela que traduz a sua própria história. A diversidade esperada de reações completa Desejo Motivo, tornando-o uma espécie de diagrama da experiência de expressão artística, revelando as relações que conectam autor, obra e público.

Mas a imagem-acontecimento desse momento de retribuição pelas cartas enviadas não é apenas uma conclusão; deve reverberar, produzindo novas relações. As pinturas serão levadas com as pessoas, mas podem ser expostas em outras circunstâncias. Assim, os “desejos-motivos” dados e retribuídos permanecem inseridos no contexto de uma troca sistemática de dádivas que estabelece um determinado registro da circulação de imagens. Dúvidas, emoções, estranhamentos, hesitações vividas pelos participantes ao escrever suas histórias serão redimidas e compartilhadas nesse encontro, na imagem-acontecimento que é também uma imagem-dádiva. A realidade humana não é apenas de interdependência, mas imaginal, isto é, mediada por imagens, seja nas relações interpessoais, seja na relação com o mundo, entre o ser e o mundo, tanto quanto entre o ser e os outros.

José Bento Ferreira,
Junho de 2017.

Carolina Paz - Desejo Motivo, Auroras, São Paulo, SP - 24/06/2017

Publicado por Patricia Canetti às 7:51 PM


junho 12, 2017

Thomas Jeferson por Fernando Cocchiarale

Thomas Jeferson

A mostra de Thomas Jeferson Constelação mídia, no Paço Imperial, apresenta suas obras mais recentes. Há alguns anos o artista começou a intervir em dispositivos tecnológicos obsoletos, recobrindo-os com ripas e fragmentos geométricos de madeiras de cores diversas, por meio da técnica artesanal milenar da marchetaria.

Tal intervenção informa o conceito constelar da mostra: expor trabalhos que, embora muito diferentes, investigam poeticamente a tensão entre artesanato e máquina, surgida desde os primeiros sinais da Revolução Industrial no fim do século XVIII.

Em nossa época dispositivos eletrônicos de alta tecnologia invadiram todas as esferas do cotidiano de parte significativa da humanidade – esses dispositivos reduziram, praticamente, o trabalho manual à digitação. Muitos artistas têm reagido, de forma crítica, a essa tendência, produzindo artefatos radicalmente contemporâneos sem que o domínio artesanal seja abandonado ou preterido. Esse é o caso de todos os trabalhos de Thomas expostos em “Constelação mídia”.

A mostra mapeia três momentos de inflexão processual essenciais ao trabalho do artista. Entre 2013 e 2015 suas primeiras intervenções se concentravam em aparelhos tratados de maneira autônoma. Consistiam basicamente do revestimento de máquinas de escrever, de calcular, toca-discos, discos, bujões de gás, monitores de TV, entre outros. Em 2015, o artista passa a produzir instalações a partir do acúmulo de aparelhos de televisão idênticos, de tubo catódico, marchetados com lâminas de madeira negra e branca dispostas de modo a formar um padrão semelhante ao dos chuviscos frequentes desses antigos televisores.

Ultimamente ocorreram transformações significativas em seus objetos mídia. Esses trabalhos não se restringem mais ao uso funcional para o qual foram projetados, posto que Thomas atribui aos aparelhos novas funções, estranhas à sua utilidade original. É o caso, por exemplo, de dois toca-discos cujos pratos giram articulados por um metro de madeira que os unifica e desconstrói (objeto mídia 3027); ou do limpador de para-brisas de carro que se move sobre a tela de um monitor de TV (objeto mídia 3030).

No entanto, é necessário frisar que a crítica poética de Thomas não tem qualquer sentido retrógrado, já que não propõe recuo nostálgico ao período pré-industrial. Ao contrário, sua crítica incide sobre o maniqueísmo dos cultores acríticos da revolução tecnológica e não sobre as novas tecnologias propriamente ditas.

Ao marchetar dispositivos tecnológicos ultrapassados Thomas Jeferson conjuga num único aparelho o que os repertórios atuais tendem a separar em artesanais e industriais. Tal conjugação supera esse cisma integrando-os em novos dispositivos poéticos.

Fernando Cocchiarale

Publicado por Patricia Canetti às 2:30 PM


maio 30, 2017

Primeiro estudo: sobre a terra por Bernardo Mosqueira

primeiro estudo: sobre a terra

(ao meu amor)

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Análises de fósseis e vestígios materiais indicam que a geofagia era praticada entre os Homo habilis há 2 milhões de anos e entre os primeiros Homo sapiens há mais de 150 mil anos. Nos últimos 5 milênios, a ingestão de terra esteve presente na cultura de povos das mais diversas origens e, hoje em dia, é hábito comum no interior do Brasil, no Sul dos Estados Unidos, no Haiti e em diversas regiões em todos os continentes. A geofagia é utilizada como forma de disfarçar a fome, com propósitos medicinais, como parte de preceitos ritualísticos ou simplesmente por gosto ou cultura alimentar. Nesse último caso, a terra é utilizada como ingrediente em receitas, como acompanhamento de outros alimentos, na forma de bolos e biscoitos, in natura ou simplesmente temperada com especiarias. Muitas crianças e principalmente mulheres grávidas são acometidas pela alotriofagia (popularmente conhecido como “pica”) e sentem vontade incontrolável de comer terra, barro, tijolo e outros elementos que não são convencionalmente alimentos.

No Brasil, que tem mais de 50% de sua população afrodescendente, a geofagia era comum entre os negros escravizados entre os séculos XVI e XIX, e sua prática era castigada com violência física e com o uso da Máscara de Flandres, cuja imagem sobre o rosto de Anastácia ainda assombra o imaginário brasileiro. O banzo (espécie de saudade profunda do passado africano, limite do sujeito diante da exploração e da desumanização no novo continente) levava muitos negros à morte por desnutrição ou pelo suicídio. Desterritorializados, à distância irremediável de sua terra natal, muitas vezes os negros escravizados se matavam por meio da geofagia excessiva, ou seja, tiravam a própria vida comendo muita terra.

A partir do entendimento da força simbólica desse gesto íntimo de preencher a própria luz digestiva ou própria sombra existencial com terra é que se iniciou uma pesquisa sobre os procedimentos criados pelos artistas para se relacionarem com esse elemento. Dada a amplitude e potência desse tema, essa exposição é necessariamente incompleta – como um punhado de terra diante de todos os solos do planeta. Movimentando-se entre sobre a terra e o subterrâneo (“underground é difícil demais pro brasileiro”), essa mostra reúne uma primeira e contida experiência curatorial sobre a relação material, conceitual, política e simbólica entre o humano e a terra.

Da terra viemos, da terra vivemos, para a terra voltaremos. Está na terra o curso do destino. Se a epistemologia hegemônica confunde terra com território (e, portanto, ser com ter), devemos recorrer a outras epistemologias para compreender que só é possível algum futuro se entendermos ser terra. Ser da terra. É da terra a grande força ancestral, a alimentação, os ciclos naturais, a abundância e a cura. Somente reconhecendo seu poder e relevância, seremos capazes estar com ela num pacto de saúde e prosperidade. Onilé Mojuba! Salubá! Arroboboi! Atotô! Demarcação já! Demarcação já!

Bernardo Mosqueira, Maio de 2017


first study: from the ground

(to my love)

Trace fossil analysis provide evidence that the Homo habilis practiced geophagy 2 million years ago and Homo sapiens more than 150 thousand years ago. On the past 5 millennia, soil ingestion has been present culturally on peoples from different origins, and still today is common on the countryside of Brazil, in the south of the United States, on Haiti and many regions in all of the continents. Geophagy is used as a way to trick starvation, with medicinal purposes, as part of ritualistic precepts or simply due to personal taste and food culture. In the latter mentioned aspect, soil is used as an ingredient in recipes, as a garnish, in the dishes like cakes and cookies, in natura or just seasoned with spices. Many children and mostly pregnant women are affected with alotriophagy and have a yearning for eating soil, clay, mud, brick and other similar components unusual to menus.

On Brazil, a country in which more than 50% of the population descends from African people, geophagy was common among slaves between the XVI and XIX century, and the practice was punished with physical violence and the usage of “mascara de Flandres”*, whose image over Anastácia’s face still haunts the Brazilian imaginary. The “banzo” (a sort of deep longing for a past life in Africa, limit of the individual in face of the exploitation and dehumanization of the new continent) lead many black people to die of malnutrition or suicide. Deterritorialized, from an irretrievable distance from their land, much often the black slaves killed themselves through excessive geophagy, that is, took their own lives by eating too much soil.

Regarding the symbolic power of this intimate gesture of filling one’s “digestive light” or even an existential shadow with ground, this research started to relate the procedures developed by artists to this element. Given the extent and the strength of the subject, this exhibition is inevitably incomplete – like a handful of soil before all the land in the planet. Shifting between levels above ground and underground (“underground is too hard for Brazil”), this show assembles a first and temperate curatorial experience on the material, conceptual, political and symbolical relations between human and the soil.

For we are ground, of ground we live and unto the ground we’ll return. The future is grounded in this same soil we live in. As the hegemonic epistemology mistakes ground for territory (and therefore being for having), we must turn to other epistemologies in order to comprehend that a future is only possible if we master being ground. Being from the ground. It belongs to the ground the great ancestral strenght, the nourishment, the nature cycles, the abundance and the healing. Only acknowledging its power and relevance we can provide a pact of health and prosperity. Onilé Mojuba! Salubá! Arroboboi! Atotô! Demarcação já! Demarcação já!

Bernardo Mosqueira, May 2017

* iron mask used to stop slaves from practicing geophagy, consuming alcohol and stealing food or diamonds.

Publicado por Patricia Canetti às 3:26 PM