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dezembro 15, 2019

Gostem ou não por Cristina Barros, Marina Roncatto, Mel Ferrari e Nina Sanmartin

“Se gostam ou não do que faço, não me interessa”, afirmou Alice Brueggemann (1917-2001), em 1964, em entrevista ao jornal Correio do Povo. Nessa ocasião, a pintora já havia consolidado sua trajetória, mas, mesmo assim, era frequentemente indagada sobre as escolhas de sua pesquisa artística. Brueggemann foi uma das primeiras mulheres a se afirmar como “artista plástica profissional” no Rio Grande do Sul, mantendo por mais de 40 anos um ateliê conjunto com Alice Soares (1917-2005). Foi investigando processos de legitimação ou autolegitimação como esse que estabelecemos o eixo central da pesquisa curatorial de Gostem ou não – Artistas mulheres no acervo do MARGS.

A partir dos acervos da instituição, chegamos a um conjunto de artistas e obras, de valor artístico e histórico, que representam diferentes períodos da História da Arte. Nesse sentido, nossos esforços procuram compreender suas trajetórias e como elas se consolidaram e se consolidam no campo da arte. É importante frisar que a escolha diz respeito ao entendimento de que pesquisar os processos de legitimação de artistas mulheres é tão importante quanto pesquisar os silenciamentos de tantas outras, pois assim também é possível compreendermos suas condições de produção e de aceitação por seus pares.

Além da pesquisa curatorial, “Gostem ou não” apresenta aos públicos do MARGS o levantamento de dados efetuado pelo projeto Mulheres nos Acervos, que indica que mulheres representam 35% do total de artistas (390) e 39% do total de obras (2.048). Nossa pesquisa revela, no entanto, que, embora a assimetria entre os gêneros ainda seja uma realidade na coleção do museu, seus números estão acima da média mundial de coleções museológicas de arte (20% de mulheres para 80% de homens).

Nessa perspectiva, a importância de a instituição conhecer a si mesma passa não só por seu acervo, como também por suas estruturas de funcionamento e suas políticas de gestão. Se observarmos a história do MARGS, por exemplo, em um total de 27 gestões, apenas 3 mulheres foram diretoras: Evelyn Berg Ioschpe, Mirian Avruch e RomanitaDisconzi. Entretanto, a equipe técnica do museu sempre foi formada, majoritariamente, por mulheres, fato que nos faz crer que os dados levantados são reflexos dessa dinâmica, uma vez que as políticas de aquisição e exibição estão atreladas diretamente aos cargos de poder.

Entendemos que, para atingir a equidade, é preciso refletir sobre essas políticas e seguir construindo diálogos horizontais, que exigem participações plurais e confrontos com narrativas hegemônicas. Assim, alinhamo-nos com a pesquisadora mexicana Brenda Caro Cocotle: “ou descolonizamos o museu, ou nada feito”.

A exposição

Dividida em dois eixos, a exposição apresenta na galeria Iberê Camargo obras produzidas majoritariamente entre o século 19 e o século 20. Já na sala Oscar Boeira são priorizadas obras de arte contemporânea produzidas já no século 21, além dos dados levantados pela pesquisa Mulheres nos Acervos em cartazes colados nas paredes da galeria.

Nesse conjunto, “Gostem ou não” traz a público obras do acervo artístico do MARGS nunca expostas desde suas doações, como “Projectio I” (1984), de Regina Silveira, e “Atlas do céu azul” (2008), de Marina Camargo, além de aquisições recentes de artistas como Alice Brueggemann, Christina Balbão e Maria Lídia Magliani, única artista negra identificada no acervo do museu.

Cabe ainda ressaltar que “Gostem ou não” discute questões de gênero, ainda que as artistas presentes na exposição não tenham necessariamente trabalhado com essas problemáticas em suas obras, visto que produziram e produzem arte a partir de diferentes dinâmicas de poder e situações sociopolíticas. Entretanto, a pluralidade de diálogos e contraposições provenientes dessas produções permite uma abordagem desta que é uma das pautas tão caras ao nosso tempo: a presença de mulheres no campo artístico.

Cristina Barros, Marina Roncatto, Mel Ferrari e Nina Sanmartin
Mulheres nos Acervos

Publicado por Patricia Canetti às 2:32 PM


Mariza Carpes - Digo de onde venho por Paula Ramos

Tal como personagem, a figura da menina se repete: ereta, desponta com vestido abaixo dos joelhos, braços em repouso, pés unidos, cabelos comportados, expressões facial e corporal serenas. Tudo respira controle e delicadeza. Sua frontalidade perturba, mas ela insiste em manter os olhos fechados, em silêncio e reflexão. Em que estaria pensando? A pergunta parece tola, mas a natureza da figuração e a recorrência da imagem nos autorizam a divagar. Então, conscientes de que, deste modo, acessamos melhor nossos sonhos e lembranças, podemos imaginar que a menina rememora, fantasia ou planeja sua própria história. Num contraponto à imobilidade do corpo, passível de descrição, temos a fluidez e a liberdade do pensamento.

A menina atravessa a produção recente de Mariza Carpes. Ela surge solitária e introspectiva em meio a ramagens, plantas, águas ou suspensa no espaço; em roupas, objetos, fitas, bonecas; em imagens e fragmentos, produzidos, apropriados ou retrabalhados. A menina diante de seus caminhos, fantasmas, quereres. A menina e sua mãe. Mariza e sua mãe.

Durante anos a menina Mariza ouviu o tique-taque do relógio do balcão, bem como o pedalar incansável de Ivone Fontoura Carpes alimentando o motor da máquina de costura “Singer”. Na cidade de Santa Maria, onde a família vivia, a mãe gozava de amplo reconhecimento. Seus plissados, bordados e acabamentos para vestidos de festa eram famosos, e muitas foram as debutantes e noivas que ela vestiu. Como os irmãos, Mariza cresceu observando panos, linhas, rendas, botões, aviamentos, tesouras, moldes para roupas e o elegante manequim produzido no Rio de Janeiro, em 1955, a partir das medidas dela, Ivone. Quando esta parou de trabalhar, aquela começou a guardar.

Iberê Camargo, mestre e grande amigo da artista, escreveu que “a memória é a gaveta dos guardados” e que “as coisas estão enterradas no fundo do rio da vida. Na maturidade, no ocaso, elas se desprendem e sobem à tona, como bolhas de ar”. Sem surpresa, Mariza percebeu-se desenhando com linha e máquina de costura, sobrepondo e amalgamando pacientemente camadas de tecidos, papéis, palavras, temporalidades. Viu-se, igualmente, recolhendo flores secas, metais enferrujados, fotografias e impressos desbotados: matérias maculadas pelos anos, que passou a encapsular e a emoldurar, tal como relíquias.

Os artefatos antigos, familiares ou estrangeiros, preservados ou encontrados, conservam, cada qual, seus estilhaços de memória, nem sempre aprazível. Aspecto similar vale para os materiais novos, do papel vegetal, com sua transparência de incômoda opacidade, ao chumbo derretido, com sua plástica maleável e toxidade. Na mesa repleta por cacos de vidro, por exemplo, estão vestígios dos copos de cristal oriundos do enxoval da artista, quebrados por um pássaro libertário; eles são o início de uma coleção que se estende há mais de 20 anos. Há leveza, mas também peso, reais e metafóricos. Há carinho, mas também purgação. “Como se vê, a criação se faz com o agora e com o tempo que recua” – Iberê, ele de novo.

* * *

Digo de onde venho: o pessoal, o particular já na primeira palavra; o “eu” no início e no fim da sentença: digo / venho. Afirmação e movimento, com a segurança conquistada ao longo de décadas de continuada e sólida trajetória. O título da exposição assevera, portanto, a consciência e a maturidade da artista e aponta um eixo fundamental de sua pesquisa plástica: o mergulho em sua história pessoal e afetos. Ao mesmo tempo, o feminino, representado pela figura da mãe, da menina e dela mesma.

Publicado por Patricia Canetti às 11:02 AM


dezembro 12, 2019

Acervo em Movimento - nova fase por Francisco Dalcol

O acervo artístico do MARGS guarda mais de 5 mil obras de arte do século 19 à atualidade, de artistas brasileiros e estrangeiros. Abrange, assim, desde produções regidas pelos modelos acadêmicos europeus, passando pelas rupturas das manifestações dos modernismos em diferentes geografias, até chegar à pluralidade dos desdobramentos operados pelas práticas artísticas contemporâneas.

“Acervo em movimento” é um projeto concebido para trazer a público esse rico e diversificado acervo, lançando mão de uma proposta curatorial de caráter experimental e compartilhado.

Baseando-se em noções de dispositivo e montagem, coloca-se em operação uma estratégia expositiva de rotatividade das obras. Resulta disso um modelo de exposição recombinante, em que obras entram e saem de exibição segundo escolhas propostas pelas equipes do museu, que conjuntamente e em revezamento exercitam um mesmo metódo de organização de uma mostra dedicada a exibir o acervo.

As alterações de obras se dão entre períodos expositivos e também durante uma mesma temporada de exibição, de modo que cada nova configuração da mostra seja também uma resposta à anterior, e mesmo até às demais exposições ora em exibição nas outras salas e galerias do museu.

Com a estratégia de rotatividade das obras em exibição, as substituições e as recombinações procuram oferecer ao público uma exposição sempre viva e dinâmica, que aposta na experiência mais do que nos discursos, e na descoberta mais do que nas verdades.

O interesse é sondar as provisórias relações de vizinhança estabelecidas entre as obras, assim como as tensões das partes com o todo, propondo desdobramentos que intensificam e multiplicam as forma de ver, sentir e reagir. Parte-se do entendimento de que obras de arte não “falam” apenas por si mesmas, uma vez que seus sentidos são também efeito do que podem produzir no interior dos territórios discursivos que uma exposição é capaz de colocar em causa.

Abrindo mão de roteiros predeterminados e procurando eliminar hierarquias entre as obras do acervo, esta exposição pergunta ao visitante: quais relações podem ser feitas entre objetos de diferentes origens, períodos e estilos?

O convite é que o público constitua os seus caminhos interpretativos, estabelecendo os seus próprios encontros, relações e conexões, os quais sempre envolvem o que já sabemos, a expectativa do que ainda não vislumbramos e o estranhamento transformador da experiência inesperada e arrebatadora.

Em sua proposição, “Acervo em movimento” procura mobilizar questões prementes que orientam a atual direção do museu, como a necessidade de se descolonizar narrativas eurocêntricas, dessacralizar a retórica autoritária dos discursos canônicos, tensionar hierarquias preestabelecidas que reiteram os relatos dominantes, e explicitar as representatividades e suas lacunas em acervos e exposições.

Marcando a estreia de uma política de exibição dedicada a explorar estratégias de abordagem do acervo do MARGS por meio de exercícios curatoriais voltados à experimentação de modelos expositivos, “Acervo em movimento” estreou nas Pinacotecas do museu no primeiro semestre de 2019, passando a circular por outras salas e galerias expositivas em caráter de projeto permanente ao longo desta gestão.

Francisco Dalcol
Diretor-curador do MARGS
Doutor em Teoria, Crítica e História da Arte

Publicado por Patricia Canetti às 5:53 PM


novembro 28, 2019

Os 7 mares da pintura por Saulo di Tarso

Os 7 mares da pintura

“Um Quadro estranho e estranhos prisioneiros”.
Platão. A República. Livro VII.

Quando Édouard Manet visitou o Rio de Janeiro em 1849, ninguém poderia imaginar que a arte inventaria tantas tendências e movimentos, dividindo realidade figurativa e abstração, que o mundo se comunicaria em tempo real e que a pintura seria o ponto de partida para fotografia, cinema, vídeo redes mundiais de computadores. Que exatos 170 anos depois, na mesma cidade, estaríamos rediscutindo a pintura através de um artista para o qual as fronteiras territoriais não existem mais. É o caso de Walter Tada Nomura - Tinho, e os 7 Mares, no Paço Imperial.

Da “Alegoria da Caverna” de Platão (380 a.C.) ao princípio da câmara escura (1554), as invenções do livro (Pi Sheng em 1405 e Gutemberg em 1455), litografia (1796), a fotografia (de Angelo Sala à Joseph Niépce, entre 1604 e 1826), até que Hércules Florence, francês radicado no Brasil cunhasse o termo “photographie”, quando chegamos ao cinema (do cinetoscópio de Thomas Edison ao cinematógrafo dos irmãos Lumière, 1891 à 1895) e finalmente a rede mundial de computadores - internet - por volta de 1980.

Entre luz, eletricidade e telepatia, deixamos para trás o tempo lento das comunicações para falar em tempo real entre 8,7 bilhões de habitantes no planeta. Dentre todas as invenções a afirmação do psicólogo Hugo Mustemberg, um dos primeiros teóricos do cinema, já negava, em 1916, a possibilidade de efeito do movimento produzido no cinema resultar de fenômenos retinianos. Mustemberg, acreditava que tudo acontecia na fase neural do processo de percepção visual. A percepção de Mustemberg estava correta. É desta percepção ampliada ao modo coletivo de processos neurais que falam os 7 Mares de Tinho. Um tecido biodinâmico liga o espaço real as redes neurais coletivas, de indivíduo a indivíduo, de modo direto, através de relações antropológicas em comum. Liga quem leu, viu, ouviu, percebeu, vestiu, vivenciou e percorreu os espaços da vida através de uma determinada cultura e seus objetos que hoje vem sendo substituídos pelas redes digitais, como por exemplo os livros e skates que contém uma filosofia da mobilidade à parte.

Quem vê as pinturas de Tinho ativa a própria memória sobre aquilo que vê, amplia no mundo imediato a celebração de um universo da cultura material e dos costumes que integram diversas gerações e que vistas como ele pintou, recriam a força destas memórias culturais no presente. As pinturas de Tinho são ao mesmo tempo a descrição e a vida do tempo e do espaço e das relações, do limite entre culturas e mídias, por exemplo, livro e literatura, discos e sonoridade. São obras que elevam o ver para o estado de sentido e consciência.

Não podia se esperar menos de um artista que além de dominar a pintura tanto em termos realistas como abstratos, possui a experiência da rua, o domínio sintático e simbólico do universo da arte e do graffiti como circulação real da cultura contemporânea e seus objetos além da imaterialidade em diversas cidades do mundo. Fenômenos da nação global que espelham no minuto digital milhões de anos de vida do espaço real e topológico.

Ver a pintura de Tinho é levar a pintura para o lado de fora da pintura, como se não houvesse mais separação entre arte e realidade. Tinho simplesmente chegou ao lugar da obra em que arte é vida e vida é obra, sem distinguir o que ele viu daquilo que nós vemos. Ver sua obra é descobrir o oitavo mar, é perceber aquilo que nos liga diante de tudo aquilo que ele percebeu, criando uma série única, rara e singular da pintura recente, na qual estamos ele como artista e nós enquanto parte vida de sua própria obra, rompendo a mera espectatorialidade.

Realidade aumentada para o lado de dentro e de fora, simultaneamente. O modo de ver de um artista atual que não separa realidade natural e realidade abstrata e possibilita dizer que chegamos às bases da pintura do século XXI em busca das paisagens interativas e antropológicas.

Ao mesmo tempo que deixa o século XX para trás, esta arte nova, derivada diretamente das passagens urbanas, amplia nossas chances cognitivas no mundo real, onde a pintura funciona como “lugar de encontro” contrapondo as redes digitais na sua característica de realidade abstrata. Luz e não sombra da nossa própria existência, esta mostra possui o caráter singular e transgressivo da linha do horizonte encontrada por Manet, horizonte muitas vezes transcendidos pela Street Art que, como se vê, através das obras de Tinho, fez a pintura reencontrar com a pintura enquanto navegamos nosso olhar na composição dos 7 mares. Gens trouvé além do objet trouvé. Arte encontrada além da arte. Arte sem fronteiras conceituais, imaginárias e dialógicas. Um quadro semelhante e semelhantes livres.

Saulo di Tarso | artista visual, curador da mostra.

Publicado por Patricia Canetti às 11:39 AM


novembro 27, 2019

O ovo e a galinha por Ulisses Carrilho

O ovo e a galinha

Anna Bella Geiger, Claudia Andujar, Claudio Tobinaga, Cildo Meireles, Gabriela Noujaim, Ivens Machado, Jeane Terra, Jimson Vilela, Leandra Espírito Santo, Leticia Parente, Roberta Carvalho, Rubens Gerchman, Ursula Tautz, Waltercio Caldas

Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantém no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. Ver o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos. Ninguém é capaz de ver o ovo. O cão vê o ovo? Só as máquinas veem o ovo. O guindaste vê o ovo. – Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro. – O amor pelo ovo também não se sente. O amor pelo ovo é supersensível.

(LISPECTOR, 1964, p. 55)

Em 1975, houve o primeiro Congresso Internacional de Bruxaria, em Bogotá, na Colômbia. Nesse congresso houve psicanalistas, antropólogos e diversos estudiosos do invisível. A autora ucraniana Clarice Lispector (1920-1977) foi convidada para a mesa "Literatura e Magia". A escritora preparou para esta palestra o texto "O Ovo e a Galinha", um conto.

Esta mostra O ovo e a galinha parte da metafísica no texto para investigar uma hipótese: a ideia de desejo não é um privilégio humano, opera também entre os objetos. Como num duplo fantasmático, trabalhos apresentam-se aos pares. Reflexos e distorções sublinham semelhanças num regime de coincidências, concomitâncias. Atrações insuspeitas. As imagens da história da arte não operam em regime de influência, são consideradas sobretudo imagens espectrais, como assombrações: ovo visto, ovo perdido.

Na prosa de Lispector, imagem, real, sensível e, sobretudo, o sentido se fazem distantes: todos escapam. O Ovo e a Galinha empresta seu título a esta mostra menos pela sua qualidade narrativa, por como o leitor é conduzido. Mas por seus sobressaltos, suas qualidades metafóricas, seu desassossego. A maneira como a autora percebe ovo e galinha convida o leitor a questionar a separação entre um e outro, como facilmente divisíveis. Como estratégia para exibir os trabalhos, os diálogos aqui apresentados buscam iluminar aquilo que os objetos partilham, em vez de preocupação com singularidades ou ineditismos.

Vem da mesa da cozinha da autora este modo de pensar o ovo. Ao deparar-se com uma obra é preciso olhá-la com atenção superficial para não quebrá-la. É preciso tomar o cuidado de não entendê-la. "Sendo impossível realmente compreender do ovo, sei que se eu entendê-lo é porque estou errado de alguma forma. Entender é a prova do erro".

curadoria de Ulisses Carrilho

Publicado por Patricia Canetti às 10:27 AM