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março 18, 2010

Mostra revela faceta crítica de Warhol por Fábio Cypriano, Folha de S. Paulo

Matéria de Fábio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 17 de março de 2010.

Exposição aponta sarcasmo do artista em relação aos mitos americanos e exibe obras experimentais, além das famosas

O rótulo "artista pop" é muito pequeno para definir Andy Warhol, como se pode perceber na mostra "Andy Warhol, Mr. America", que será aberta no próximo sábado, na Estação Pinacoteca.

A reportagem da Folha viu a exposição em sua primeira montagem, em Bogotá, na Colômbia, no ano passado.

Obviamente, estão nas obras, como nas gravuras de Marilyn Monroe e nas das latas de sopa Campbell's, os elementos que marcam a chamada arte pop, ou seja, o uso de elementos do mundo das celebridades e da publicidade -nessas imagens, Warhol sempre se apropriou de fotos de jornal.

Mas o que a exposição revela com intensidade é, em primeiro lugar, uma faceta crítica, que até então costuma ser atribuída apenas ao pop inglês, onde o movimento surgiu, com a famosa colagem "O que Exatamente Torna os Lares de Hoje Tão diferentes, Tão Atraentes", de Richard Hamilton, de 1956.
Se Warhol não usava ironias em seus títulos, elas estão presentes, contudo, em suas próprias construções. Suas celebridades são maquiadas com cores fortes e berrantes, outro elemento que o caracteriza como pop, mas exibidas após situações de fraqueza. Na série sobre Jackie Kennedy, por exemplo, ela surge não quando estava gerando um padrão de beleza para o país, mas no momento de luto.

É como se Warhol apontasse para o poder ambivalente da imagem que se torna impressa, afinal ela não é capaz de revelar tudo. Nesse sentido, o custo da fama revela-se perverso e sem glamour. Mesmo assim, ao colorir tais imagens, ele apela para a sedução, uma das razões que o tornou a ser tão reconhecido popularmente.

Outro caráter importante da exposição é exibir, junto com os trabalhos mais famosos, sua obra mais experimental, até então normalmente vista em pequenas mostras ou como trabalhos menores. Warhol produziu filmes alternativos em grande quantidade -há 17 deles na exposição- e trabalhou em vários suportes, chegando até a criar ambientes imersivos, como "Silver Clouds" (nuvens prateadas), de 1966, ou "Cow Wallpaper" (papel de parede de vaca), de 1972.

São trabalhos precursores das instalações contemporâneas, que o levam muito além da mera produção pop.

Finalmente, o curador Philip Larratt-Smith acerta ainda ao apontar o caráter sarcástico de Warhol em relação aos mitos americanos. O artista abordou a violência contra os negros, em "Confrontos Raciais", a miséria, em "Desastres do Atum Enlatado", retratou temas tabus como a homossexualidade, a obsessão pela morte e, como se não fosse suficiente, a sociedade do espetáculo.

Assim, quem observa apenas as cores fortes e as imagens sedutoras, fica apenas na superfície da obra de Warhol, mas quem quiser se aprofundar de fato nessas imagens, vai descortinar um mundo não colorido e tampouco atrativo, o que afinal é o retrato da América.

Publicado por Marília Sales às 12:50 PM | Comentários(0)


Estação Andy Wahrol por Fábio Cypriano, Folha de S. Paulo

Matéria de Fábio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 17 de março de 2010.

Maior mostra do artista no país explora tom político de sua obra e a relação com os EUA do pós-Guerra

O lado glamouroso e pop nas obras de Andy Warhol (1928-1987) já é bastante conhecido, seja nos retratos de celebridades, como Marilyn Monroe ou Elizabeth Taylor, e mesmo em seus autorretratos, que também prenunciam o culto ao egocentrismo em tempos de Facebook e Twitter.

Com a mostra "Andy Warhol, Mr. America", que será inaugurada neste sábado, na Estação Pinacoteca, outra faceta será explorada: as relações políticas vistas em sua obra, a partir da consolidação do império americano do pós-Guerra.

"Warhol encarnou e expressou vários dos pressupostos que levaram à construção do império americano: a relação entre desejo, fantasia e consumo, ou mesmo a persistência da morte por trás da essencialmente afirmativa iconografia da cultura pop dos EUA", afirma o curador canadense Philip Larratt-Smith, responsável pela exposição.

"Andy Warhol, Mr. America" começou a circular no ano passado, no Museu de Arte do Banco da República, em Bogotá, na Colômbia, seguiu para a Argentina, no Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires, e termina seu périplo em São Paulo. O tema político da mostra, segundo o curador, foi escolhido graças ao circuito geopolítico: "Devido à longa história das intervenções norte-americanas na América Latina e ao papel fora do comum desempenhado pelas multinacionais americanas".

Para ilustrar a relação política na obra de Warhol, Larratt-Smith dá como exemplo as obras da carreira do artista nas quais ele passou a usar camuflagem, incorporando padrões militares. Nesses trabalhos, segundo o curador, "a camuflagem sugere que as aparências são enganosas, e que existem agendas escondidas". Assim, segue Larratt-Smith, "o império americano é um império travestido, que tem a pretensão de ser o que não é: um supervisor benevolente do sistema financeiro global ou o zeloso policial do mundo".

Nesse sentido, Warhol de fato seguiu na contramão da propaganda do governo dos EUA em defesa do expressionismo abstrato americano de Jackson Pollock e seus contemporâneos, que ainda continuam em voga: na semana passada, o correio norte-americano começou a vender selos de dez artistas desse movimento.

A turma de Pollock, aliás, nunca admirou Warhol. "De Kooning uma vez o chamou de "matador do belo", em uma festa, quando se encontraram", diz Larratt-Smith.

A mostra do artista na Estação Pinacoteca, a maior já vista no país, reúne cerca de 170 obras: 26 pinturas, 58 gravuras, 39 fotografias, duas instalações e 44 filmes, com ênfase para os trabalhos realizados entre os anos 1961 e 1968, período que Warhol trabalhou com intensidade em seu estúdio, a "The Factory", por onde circulava grande parte do meio criativo de Nova York, como Bod Dylan e Mick Jagger e Lou Reed.

Foi na "Factory" que Warhol criou grande parte de seus filmes experimentais, como "Empire", visto na mostra em uma versão curta de 50 minutos com imagens do Empire State Building (Nova York).
O deslumbre de Warhol com o brilho das luzes tem a ver com suas raízes, segundo o curador da mostra: "Um fora do sistema por sua classe social, orientação sexual e aparência, Warhol desejou, com intensidade patológica, viver o sonho americano e assimilar ele mesmo a complexidade dos mitos e narrativas da América".

Publicado por Marília Sales às 12:42 PM | Comentários(0)


Uma máquina pública por Pollyanna Diniz, Diário de Pernambuco

Matéria de Pollyanna Diniz originalmente publicada no Caderno Viver do Diário de Pernambuco em 17 de março de 2010.

O casarão onde funciona o Mamam é de 1890. Numa época de bailes e flertes, a casa abrigava o Clube Internacional do Recife. Só na década de 1980 a Galeria Metropolitana de Arte Aloísio Magalhães passou a ocupar o local, transformado em museu em 1997. Desde então, quatro diretores passaram pelo local, grandes exposições foram realizadas, mas para todos eles ficou a lição de que o museu precisa ser prioridade na política cultural da cidade.

"O Mamam exercia um papel fundamental. Pernambuco sempre teve uma presença artística importante e a ausência de um museu era uma lacuna para movimentar esse cenário e fazer circular essa arte. A resposta do público também surpreendia, era muito boa. Depois do Mamam, a arte contemporânea em Pernambuco adquiriu mais força; era um canal que falava com os artistas, estabelecia um diálogo com a produção nacional e internacional e fazia com que a arte daqui circulasse".

Marcus Lontra, diretor do Mamam entre 1998 e 1999

" Avançamos colocando o museu definitivamente no cenário e dando o mínimo de estrutura física. Fizemos toda a catalogação do acervo e possibilitamos uma reserva técnica adequada. Publicamos um catálogo com o inventário do acervo, adquirimos muitas obras, como por exemplo, a coleção de gravuras de Samico. Por outro lado, o museu passou a propor exposições e não só receber. Cumpriu o papel de atualizar o repertório da população. Tivemos exposições de Cildo Meireles, Antonio Dias, Nelson Leirner. Os artistas daqui tiveram tempo e recursos para desenvolver trabalhos, como Marcelo Silveira, Gil Vicente, Carlos Mélo. Mesmo assim, as artes visuais não fazem parte de uma agenda de prioridade na sociedade. É uma dificuldade para tocar projetos por ser uma instituição ligada a um órgão público, que tem burocracia e pouca flexibilidade. O próprio fato da reforma ter durado dois anos e ainda assim termos pendências mostra que os problemas parecem continuar. Se as artes visuais ocupassem um papel fundamental, seria motivo para um escândalo o museu ficar fechado; mesmo que, parte desse atraso, seja por conta dos trâmites. Mas sou muito solidário e confiante com a atual gestão".

Moacir dos Anjos, diretor do Mamam entre 2001 e 2006

"Assumi a direção quase no fim da gestão municipal. Percebi na prática que os museus fazem parte de uma política mais abrangente; que quaisquer mudanças na gestão, no contingenciamento de recursos, influem diretamente. A ideia era levar adiante o fortalecimento do museu, mas já sabia dos problemas que enfrentaria, como a parte elétrica. Tinha um laudo que apontava risco de incêndio. Era uma perda de 40 lâmpadas por mês. Sabia também que faltava um projeto de acessibilidade. Conseguimos aprovação num edital do Iphan para fazer o elevador, mas não a parte elétrica. Além disso, no início do ano, em 2008, um ornamento da fachada caiu e a perícia concluiu que outros elementos poderiam cair. Então tivemos que fechar para não causar acidentes. Ainda tínhamos problemas com ar-condicionado. A partir daí, não pudemos continuar com exposições. Sempre tive um vínculo afetivo com o Mamam; porque criei repertório, quando comecei a estudar arte, com o Mamam e a Fundação Joaquim Nabuco. Então foi frustrante, não poder levaras melhorias que eu pretendia, mas foi importante notar que ele faz parte de uma rede, que precisa do suporte da máquina. Acho que os desafios continuam: fortalecer, ampliar e trazer a sociedade para o museu, que é um espaço público".

Cristiana Tejo, diretora do Mamam entre 2008 e 2009

Publicado por Marília Sales às 12:36 PM | Comentários(0)


Promessas para o segundo semestre por Pollyanna Diniz, Diário de Pernambuco

Matéria de Pollyanna Diniz originalmente publicada no Caderno Viver do Diário de Pernambuco em 17 de março de 2010.

Depois que os outros dois andares do Mamam forem entregues ao público - a expectativa é que isso aconteça no segundo semestre -, estão previstas mostras sobre Lula Cardoso Ayres, Lygia Clark, Tomie Othake, Anna Letycia Quadros, além de uma exposição de fotografias produzidas por 12 coletivos internacionais.

A tarefa de decidir o que será visto no Mamam agora cabe a um conselho curatorial formado por Ricardo Rezende, diretor de Artes Visuais da Funarte; André Hernandes, curador independente e diretor executivo do MAM - SP; Marcelo Silveira, artista plástico pernambucano; e da própria Beth da Mata. "Isso me deixa mais confortável, são vários olhares. Além disso, não sou curadora", avalia Beth.

Além das mostras, o museu irá receber também exibições de vídeo e super 8; e será criado o Clube de Fotografia Mamam, inspirado no modelo do MAM-SP. "Todo ano vamos definir cinco fotógrafos que doarão uma obra inédita que será reproduzida para venda ao público", esclarece adiretora.

Falando em comercialização, está aberta a Loja Mamam; e o museu terá um programa de sócios, com contribuições anuais no valor mínimo de R$ 300. A entrada do museu, que antes custava R$ 1, agora é gratuita. "Esse valor não faz muita diferença e ao mesmo tempo não serve ao propósito de 'educar' o público, como dizem alguns", explica a diretora. O Mamam será aberto ao público de terça a sábado, das 10h às 19h, e aos domingos, das 10h às 17h.

Publicado por Marília Sales às 12:32 PM | Comentários(0)


Depois da estrutura, o conceito por Pollyanna Diniz, Diário de Pernambuco

Matéria de Pollyanna Diniz originalmente publicada no Caderno Viver do Diário de Pernambuco em 17 de março de 2010.

No ano que vem, o Mamam deve receber a itinerância da Bienal de São Paulo, que acontece no segundo semestre de 2010 na capital paulista. "Foi uma sinalização do curador Moacir dos Anjos e já tivemos uma reunião", explica Beth. O curador que agora está no comando da Bienal já foi diretor do Mamam e é creditado como um dos grandes responsáveis por colocar o museu no circuito nacional. "Na época de Moacir, o museu fez ótimas aquisições para o acervo, que, aliás, ele começou a organizar", complementa.

Enquanto a itinerância da Bienal não sai, a expectativa é que o museu consiga movimentar o cenário das artes plásticas na cidade e ser reinserido no cotidiano cultural da população. "A reabertura de um museu é muito problemática, o prejuízo de um fechamento é grande, já que o público deixa de frequentar o local".

Para retomar o processo de formação de espectadores, a primeira exposição do Mamam pós-reforma (mesmo que inacabada) propõe a participação do visitante e um olhar crítico sobre o acervo do museu, que foi adquirido a partir dos anos 1990, mas herdou obras de décadas anteriores.

Contidonãocontido foi dividida em cinco blocos, de acordo com as décadas em que as obras foram produzidas. "A nossa ideia era mostrar a arte produzida em Pernambuco no século 20", explica a curadora Clarissa Diniz, que trabalhou ao lado de Maria do Carmo Nino e do educativo da instituição. "Temos um acervo irregular, que não cobre a historiografia da arte", comenta Maria do Carmo. "Há obras de nomes como João Câmara, Samico, Vicente do Rêgo, mas temos também 110 obras de Luiz Carlos Guilherme, um artista que não é conhecido. Em contrapartida, não temos Montez Magno, Daniel Santiago", pontua Clarissa.

A mostra terá quadros que representam as décadas e uma relação de artistas "não-contidos" na coleção. Caberá ao visitante pesquisar a vida e arte desses que não estão retratados, para ampliar os materiais disponíveis. "Nós teremos um computador, acesso a internet, scanner. Quem souber de um artista que não é representado, pode trazer documentos, materiais de jornais, fotografias das obras", diz Clarissa Diniz.

A mostra tem trabalhos de Cícero Dias, de integrantes da Oficina Guaianazes, como Luciano Pinheiro, de João Câmara, Samico, Gato Félix, da única obra do pintor José Claúdio, um desenho da década de 1950. Nesta noite de abertura da mostra será realizada ainda uma performance idealizada por Carlos Mélo, a única do acervo do museu.

De dois em dois meses, os trabalhos expostos serão modificados, para que várias peças do acervo (que possui 1.100 obras) possam ser vistas pelo público.

Além da exposição Contidonãocontido, o Aquário Hélio Oiticica (na entrada do prédio, pela Rua da União - antes só utilizada por funcionários, agora aberta ao público) recebe documentos, cartas, que tratam da visita de Oiticica ao Recife, em 1979, um ano antes do artista falecer. "Foi uma das únicas cidades onde ele apresentou os parangolés", explica Beth da Matta.

Publicado por Marília Sales às 12:29 PM | Comentários(0)