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Como atiçar a brasa

 


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julho 25, 2017

No dia de seu aniversário de 60 anos, José Bechara abre individual no MAM por Nelson Gobbi, O Globo

No dia de seu aniversário de 60 anos, José Bechara abre individual no MAM

Matéria de Nelson Gobbi originalmente publicada no jornal O Globo em 25 de julho de 2017.

Com obras em grande escala, "Fluxo bruto" aborda temas como a passagem do tempo

José Bechara - Fluxo Bruto, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, RJ - 26/07/2017 a 05/11/2017

RIO — José Bechara completa 60 anos nesta terça-feira, mesmo dia em que abre sua nova individual no Museu de Arte Moderna do Rio, “Fluxo bruto”, com seis obras inéditas e outras quatro de colecionadores. Um dos artistas brasileiros mais atuantes de sua geração, com trabalhos em instituições como o Centre Pompidou, da França; o Museum of Latin American Art (Molaa), nos EUA; a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o próprio MAM Rio, Bechara também completa 25 anos de carreira em 2017. As datas poderiam suscitar uma mostra retrospectiva, mas esse é um projeto que está fora dos planos do autor das obras em grande escala que ocupam o Salão Monumental do museu carioca até 5 de novembro.

— Tem tanta coisa que quero realizar, inventar no meu ateliê, que não paro para pensar na obra em perspectiva nem em relação à idade. Comecei a fazer, sim, uma contabilidade, neste momento de vida, sobre as falhas que cometi e que não quero repetir. Quero ser melhor como indivíduo. Estamos vivendo um momento muito complicado no mundo, espero que as pessoas se deem conta de como perdemos tempo, uma matéria finita que nos é dada em pequeníssimas quantidades, com coisas absolutamente superficiais — analisa Bechara. — Sou um artista de ateliê, para mim é o melhor lugar do mundo. Mas o meu é pequeno. Então, quando tenho a oportunidade de ocupar grandes espaços em museus, aproveito para realizar novas experiências, coisas que não poderia fazer no meu ateliê. Mostrar apenas coisas que já fiz é como se perdesse uma dessas oportunidades. Prefiro deixar a retrospectiva para quando eu morrer, se valer a pena alguém faz.

Para a individual, foram selecionados, de sua produção recente, o díptico “Visto de frente é infinito” (2010), pertencente à coleção Dulce e João Carlos Figueiredo Ferraz, e duas pinturas (1995) da coleção Gilberto Chateaubriand, além de uma nova versão da instalação “Miss Lu Super-Super”, que foi ampliada para ocupar o espaço central do Salão Monumental. O resto do ambiente foi ocupado com duas telas inéditas e outas instalações em grande escala, como “Ângelas”, formada por três esferas maciças de mármore (a maior com 1,8 tonelada) e grandes placas de vidro, com todos os elementos suspensos por cabos de aço. Para o artista, as obras traduzem sua relação com o espaço e o tempo.

— Os trabalhos com o vidro, ou mesmo com o metal, que é vazado, criam essa dupla característica, de ocupar um grande espaço ao mesmo tempo que se deixa entrever. Esse tipo de dualidade também é o que me interessa no ser humano, essa criatura que produz poesia, música, arte, coisas elevadas para o espírito, e também é capaz de tanta selvageria. As obras trazem ainda um pouco da fragilidade humana. Apesar de serem enormes, elas estão montadas a partir da gravidade, poderiam vir ao chão — observa Bechara. — Colocar esses elementos dispostos dessa maneira é uma forma de congelar o tempo, essas obras só existirão assim durante o período da exposição. Essa breve interrupção do tempo me alivia um pouco. O tempo é algo aflitivo para mim, mas nunca quis analisar isso, prefiro lidar com essas questões no meu trabalho.

A curadoria de “Fluxo bruto” é assinada por Beate Reifenscheid, curadora e diretora do Ludwig Museum de Koblenz, na Alemanha, onde Bechara expôs em 2015. Beate conheceu o brasileiro em uma viagem ao Rio em 2014, e desde então a dupla nutria o projeto de realizar uma exposição. Após a montagem alemã, foi a vez da individual no Rio, que pode virar um livro com texto dela.

— Durante a exposição no Ludwig, o público admirava muito os trabalhos dele, nas nossas visitas guiadas tínhamos muitas conversas a esse respeito. Após esse projeto, começamos a pensar em novas exposições e, quando Bechara foi convidado para o MAM, me pediu para curar essa exposição — conta Beate. — Muitas das obras se concentram no tempo e no espaço e mesmo na sua transição, ainda que suas estruturas sejam sólidas. O trabalho do Bechara oferece ao público uma inesperada liberdade.

Bechara visitou várias vezes o Ludwig para montar a individual. O artista prefere criar ou finalizar as obras no espaço, como fez em “Fluxo bruto”, no MAM, onde permaneceu por duas semanas para executar os novos trabalhos:

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— Tenho a necessidade de frequentar o espaço, nunca consegui montar uma exposição apenas com base nas plantas, as uso apenas para resolver problemas técnicos. Mesmo no Salão Monumental do MAM, que conheço bem, tive de voltar várias vezes para elaborar as obras e sua disposição. Preciso dessa experiência física, de permanecer no espaço. Acabo transferindo meu ateliê para os lugares onde vou expor.

As “próximas paradas” do ateliê de Bechara serão em Buenos Aires, em setembro, durante a Bienalsur; na Bienal de Pequim, em outubro; e em Miami, em dezembro, onde faz uma individual na galeria Diana Lowenstein, durante a versão americana da Art Basel. Enquanto abre a individual no Rio, o artista já elabora as obras das próximas mostras, no “fluxo bruto” que dá título à exposição carioca.

— “Fluxo bruto” aborda essa sequência de trabalhos, cada um abre portas, brechas, caminhos para o próximo. Quando termino de montar uma exposição como essa, os braços param de se mexer, mas a cabeça, não.

Publicado por Patricia Canetti às 10:42 AM


julho 17, 2017

Gestos vitais ao porvir por Luisa Duarte, O Globo

Gestos vitais ao porvir

Crítica de Luisa Duarte originalmente publicada no jornal O Globo em 17 de julho de 2017.

Com curadoria de Marisa Flórido, a mostra ‘Miragens’ se inspira na Saara e expressa a vitalidade advinda do caos

Miragens, Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro, RJ - 05/06/2017 a 22/07/2017

Em uma época de grave crise como a que atravessamos hoje, somos convocados a imaginar e criar, diariamente, diferentes formas de resistência.

Se a situação atual da cidade, do estado e do país gera massacres de diferentes tipos, retirando direitos dos cidadãos, esvaziando os sonhos dos jovens por uma vida mais digna, ou ainda, em geral, deixando a todos com uma sensação de temor e incerteza no horizonte, essa mesma situação pode, também, nos seus melhores casos, inaugurar gestos que nos recordam a chance de seguir de maneira vital em meio ao nevoeiro espesso e complexo no qual caminhamos hoje.

A coletiva “Miragens”, curada por Marisa Flórido, no Centro de Arte Hélio Oiticica, é um gesto dessa natureza.

Ao ser convidada pelo CAHO para pensar uma exposição a partir da questão da cidade, tendo como leitmotiv a região na qual o Centro se encontra, a Saara (Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega), Flórido edificou, em conjunto com sete artistas que haviam sido seus alunos — Claudia Lyrio, Gilberto Martins, Fernanda Leme, Talita Tunala, Rafael Prado, Eduardo Garcia e Jean Araújo —, uma mostra realizada com poucos recursos financeiros mas prenhe de pensamento.

A partir dessa provocação inicial os artistas deram início a uma pesquisa na região, de tal forma que o que vemos na exposição é um cruzamento da poética de cada um e as impressões despertadas nesse encontro.

Na mostra, a cidade e a Saara são pontos de partida que não se tornam temas ilustrados de maneira literal. Na medida em que cada uma dessas respostas vinha ao mundo começava uma outra rede de diálogo. Dessa vez, a curadora, em parceria com um dos artistas, Gilberto Martins, se punha a escrever um pequeno conto que traduzia uma “cidade”.

No caso da obra de Eduardo Garcia, o que testemunhamos é uma evocação da pólis como espaço de trocas monetárias. “Apagamento” é uma instalação na qual vemos uma máquina de realizar compras em débito ou crédito à frente de uma multidão de comprovantes de transações apropriados do comércio da região da Saara.

O texto que traduz essa cidade de fluxos financeiros nos diz: “Que os rios correm como o tempo, disso nunca houve dúvida em ‘Cérbera’, cidade onde o fluxo é lei, nada deve fixar, os excedentes são sinal de prestígio e sinônimo de passagem, como estendidos apertos de mão ao som do silvo de guardas de trânsito fluvial, determinando que todos sigam logo seu destino de transeuntes e consumidores. ‘Cérbera’, cidade das águas, possui cinco rios invisíveis onde se vive em trocas perpétuas: Dádiva, Avareza, Ganância, Fetiche, Espetáculo.”

CALVINO COMO INSPIRAÇÃO

Lembrando Ítalo Calvino e o seu “Cidades invisíveis”, os ensaios que antecedem cada trabalho nos alimentam de forma poética e crítica para o encontro por vir. “Lexia” é a pólis de Gilberto Martins.

Em sua obra “Sem título” (2017) vemos um grande bloco formado por milhares de jornais empilhados e marcados com tinta asfáltica. O veículo que comercializa a notícia tem a sua dimensão verbal eclipsada em favor de sua aparição enquanto pura imagem. O artista subverte a cronologia dos dias, comprime anos em um só tempo e espaço. A rua adentra através do asfalto, que é tanto tinta quanto combustível fóssil.

Uma mostra como “Miragens”, cujo título significa “espelhismo”, ou seja, o efeito óptico produzido pela reflexão da luz solar que ocorre nas horas mais quentes, mas também quimera, sonho, finda por surgir como um exemplo para o tempo por vir. Ato de resistência que nos recorda a chance de uma potência vital e ativa por meio da arte em meio ao nevoeiro crepuscular que atravessamos.

Publicado por Patricia Canetti às 12:22 PM


Ex-parceiro de Paulo Bruscky reivindica autoria de performance do artista na atual Bienal de Veneza por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Ex-parceiro de Paulo Bruscky reivindica autoria de performance do artista na atual Bienal de Veneza

Post de Silas Martí originalmente publicado em seu blog no jornal Folha de S. Paulo em 11 de julho de 2017.

Ex-parceiro criativo de Paulo Bruscky entre as décadas de 1970 e 1990, Daniel Santiago vem atacando o ex-amigo por esconder seu envolvimento na elaboração da performance que realizou em maio na abertura da Bienal de Veneza, uma obra concebida pela extinta dupla Bruscky & Santiago.

Nos Giardini da mostra italiana, Bruscky empilhou caixas do tipo usadas para embalar obras de arte, executando só agora uma ação pensada pelos dois em 1973. Um telex daquele ano traz, de fato, o nome dos dois artistas como autores da performance.

Santiago, que acusa o ex-parceiro de só querer ganhar dinheiro com a venda dessas caixas, postou uma imagem do documento nas redes sociais. O mesmo telex também está reproduzido no catálogo da Bienal de Veneza, que não faz, no entanto, qualquer menção a Santiago ao descrever o trabalho como um “marco pioneiro da arte conceitual da América do Sul”.

Bruscky diz que fez questão que o telex fosse mostrado e reconhece a autoria compartilhada. “Ele pode dizer o que quiser, não me incomoda. Não tenho culpa da minha projeção.”

Atualização Depois da publicação da nota acima, o artista Daniel Santiago publicou um comentário em seu perfil no Facebook dizendo que a redação do texto foi “capciosa”, sugerindo que eu tenho algum tipo de ligação com a galeria Nara Roesler e por isso teria dito que ele está “atacando”, termo meu, seu ex-parceiro criativo Paulo Bruscky. Esclarecendo qualquer dúvida, e demonstrando que seu tom em nossa conversa foi, sim, de ataque, publico abaixo a íntegra de nossa conversa por telefone.

Ele transformou a obra numa performance. Aquela obra não era para ser feita em performance. Aquela obra foi mandada por telegrama para um salão no Paraná. O pessoal do salão devia pegar todas as caixas que embalaram as obras dos outros artistas e colocar em exposição dentro do salão. E o nome do trabalho era “Arte Se Embala Como Se Quer”.

Esse telegrama está no meu Facebook. E esse telex foi publicado num livro de Paulo Bruscky.

Ele repetiu uma obra da equipe Bruscky Santiago. E essa obra foi boa porque aquelas caixas agora vão valer muito para a galeria da Nara Roesler. Cada caixa daquela agora vai valer uma fortuna. A gente não podia mandar essa proposta na época porque já era tarde.

Não sei se fizeram. Mas o próprio telegrama já era uma obra de arte completa.

Ele não fala nada. Tem uma escultura de gelo que ele repetiu umas cem vezes, e é da equipe Bruscky & Santiago. Quando ele tinha uma ideia, ele fazia individualmente. Quando é da equipe, eu que fazia. Eu fazia porque era bom de trabalhar em equipe.

Não reclamo nada. Só estou publicando isso, que é para esclarecer para a história da arte, para os curadores e os jornalistas saberem. É curioso pelo seguinte: um trabalho feito em 1973 em 2017 está na maior bienal do mundo. Como é que um trabalho feito em 1973 agora estoura numa bienal no século 21? Achei curioso isso. O artista fica satisfeito.

Se fosse eu que fosse fazer esse trabalho, não teria feito daquele jeito. Aquele trabalho foi uma performance meio brega. Ele está com uma cara que parece que está doente. Não gostei daquela roupa dele, ele devia estar de paletó e gravata, de acordo com a Bienal.

Não quero dinheiro nenhum. Estou só dizendo o que aconteceu. Estava até pensando que você não publicava alguma coisa a esse respeito porque talvez a galeria tenha bom relacionamento com a Folha de S.Paulo.

Não é a primeira vez que ele faz isso não. Na 29ª Bienal de São Paulo, o Moacir dos Anjos me chamou para fazer um trabalho na Bienal de São Paulo. Eu fui para São Paulo para ver o ambiente onde seria o trabalho. O título era “A Democracia Chupando Melancia”. Fiz três propostas e mandei para a Bienal de São Paulo. Ele passou o tempo todinho, acabou a Bienal, e ele não me disse nada. E o Paulo saiu com a fogueira de gelo, que foi um trabalho nosso para o Salão de Recife e foi feito depois na exposição de escultura efêmera de Sérvulo Esmeraldo em Fortaleza. Essa fogueira de gelo foi exposta lá. Foi a escultura mais efêmera que houve na exposição.

Aquilo ele repete várias vezes. Ele, como já é um artista consagrado, na Bienal de Veneza deveria ter colocado um trabalho dele, somente dele, ou que criasse um trabalho do arquivo dele. Mas ele bebe muito, sabe? Estou achando que ele está em crise de criação, porque pegar um trabalho lá atrás, de 1973.

A coisa é outra. Eu não faria isso. Ele não me disse nada. Se ele tivesse vindo falar comigo, não teria feito aquela performance, nem tinha colocado esse trabalho, porque a equipe Bruscky & Santiago tem trabalhos mais bonitos para uma Bienal de Veneza. Aquilo que é bom para vender as caixas. Com esse negócio de lavar dinheiro agora, de político comprando obra de arte.

Ele está esperando só que eu morra para escrever um livro. Ele fica tranquilo em fazer as coisas, que eu não faço isso. Ele ganhou muito dinheiro com isso.

Publicado por Patricia Canetti às 11:54 AM


Performer tem sua obra interrompida e é detido pela PM de Brasília, O Globo

Performer tem sua obra interrompida e é detido pela PM de Brasília

Matéria originalmente publicada no jornal O Globo em 16 de julho de 2017.

O artista Maikon K. realizava a performance 'DNA de Dan' no sábado, quando foi interrompido por policias militares que o prenderam por 'ato obsceno'

RIO — O artista e performer paranaense Maikon Kempinski, conhecido como Maikon K., foi preso na tarde deste sábado pela Polícia Militar do Distrito FEderal, enquanto apresentava a sua performance "DNA de Dan" em frente ao Museu Nacional da República. Por volta das 17h20m de sábado, policiais militares abordaram o artista e o impediram de continuar realizando a performance. Detido sob a justificativa de que o artista praticava "ato obsceno", o performer foi colocado no porta-malas de uma viatura policial e levado para a 5ª Delegacia de Polícia da capital federal, onde teve de assinar um termo circunstanciado de ato obsceno. Durante a execução de "DNA de Dan", Maikon realiza o trabalho com o corpo nu, inserido numa esfera plástica e translúcida.

Neste domingo à tarde, após ser liberado, o artista publicou um texto em seu perfil no Facebook onde se disse indignado com o episódio e com a ação policial, que tanto o impediu de completar o seu trabalho como danificou o material cenográfico da performance. Concebida pelo artista para ser apresentada ao ar livre, em espaços públicos, "DNA de Dan" era apresentada como parte integrante do projeto Sesc Palco Giratório, que é considerado o principal projeto de circulação de obras de artes cênicas em território nacional. Antes de chegar a Brasília a obra já havia sido apresentada sem problemas em diferentes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Campina Grande. Reconhecido como um dos mais importantes performers do país, Maikon teve este mesmo trabalho apresentado na mostra “Terra Comunal: Marina Abramovic + MAI”, realizada pelo Sesc São Paulo em 2015 e dedicada à obra de Marina Abramovic.

Em seu relato, Maikon agradeceu ao apoio que recebeu de "pessoas que já viram a performance 'DNA de DAN' e de pessoas que não viram, mas que acreditam na arte como forma de expandir as visões e atuar no mundo. Porque não se trata de mim apenas ou do meu trabalho, o que aconteceu ontem é um sintoma do grande cadáver que fede há tempos por aqui", escreveu.

Em seu relato, Maikon diz que a sua performance "não chegou ao seu término, pois fui agredido por policiais e detido por ato obsceno". Além da apresentação de sábado, "DNA de Dan" também seria apresnetada neste domingo, no mesmo local, mas a sessão foi cancelada.

Sobre a suposta razão da sua prisão, a nudez do seu corpo, e a abordagem dos policiais, o artista contou que já havia iniciado o trabalho quando ouviu "vozes de um grupo de policiais militares ordenando que a apresentação fosse encerrada, com falas como 'isso vai parar de qualquer jeito, caralho', 'tira esse cara daí', 'que porra é essa'", disse.

Seus produtores teriam tentado dialogar com os policiais, mas não foram ouvidos:

"Eles não queriam saber o porquê daquilo estar acontecendo ali, o que significava, qual o contexto. Tínhamos a permissão e o apoio do Museu Nacional para estar ali, ou seja, um museu ligado ao Ministério da Cultura, e éramos contratados do Sesc. Até esse momento, eu pensava, parado, 'logo o produtor do Sesc vai explicar a eles e esse mal entendido vai acabar', e continuaremos o trabalho. Porque duas outras vezes já tivemos a aproximação de policiais, mas após a explicação eles entenderam se tratar de uma obra de arte e nos deixaram continuar sem que parássemos", escreveu.

De acordo com a PM, os militares foram ao local após transeuntes avisarem que teriam avistado "um homem nu" nas imediações do Museu da República. Segundo a PM, os PMs foram informados de que o performer realizava um trabalho artístico, mas como "não foi apresentada nenhuma documentação/autorização do museu tampouco da administração de Brasília, foi determinada a paralisação da referida exposição e foi dada voz de prisão ao elemento nu", informou a PM em uma nota.

Instituição responsável pela realização da performance, o Sesc informou que irá se posicionar sobre o ocorrido apenas na segunda-feira. Em seu texto, Maikon ressaltou a importância de projetos artísticos como o Palco Giratório, e disse esperar que "mesmo depois disso tudo, o Sesc continue com essa coragem de apoiar trabalhos artísticos de todos os estilos e discursos, como sempre fez ao longo dos anos".

Publicado por Patricia Canetti às 11:31 AM


Artista respeitado, Maikon K é preso por ficar nu em performance por Miguel Arcanjo, UOL

Artista respeitado, Maikon K é preso por ficar nu em performance

Post de Miguel Arcanjo originalmente publicado em seu blog no portal UOL em 16 de julho de 2017.

O artista paranaense Maikon Kempinski, conhecido como Maikon K, um dos nomes mais respeitados e consagrados da performance no Brasil, foi preso em Brasília, em uma ação policial que faz lembrar os tempos de ditadura [lembre outros casos ao fim desta reportagem].

Ele foi detido na tarde deste sábado (15). A prisão foi justificada pela Polícia Militar do Distrito Federal como sendo por “atentado ao pudor”, retirando completamente a nudez do contexto artístico em que ela ocorreu.

A prisão foi feita no momento em que Maikon K se apresentava em frente ao Museu Nacional da República com a performance “DNA de DAN”, na qual fica nu com o corpo coberto de um líquido que se resseca aos poucos, até, ao fim, se quebrar, revelando a pele do artista.

A performance “DNA de DAN” integra o projeto do Sesc “Palco Giratório”.

A performance já foi apresentada em diversos lugares no Brasil, sempre com respeito do público e da crítica especializada.

“DNA de DAN”, inclusive, foi escolhida pela artista Marina Abramović, maior nome da performance no mundo, para ser uma das oito performances brasileiras a integrar sua megaexposição “Terra Comunal” no Sesc Pompeia, em São Paulo, em 2015.

Foi a maior mostra na América do Sul da artista sérvia radicada em Nova York, e Maikon K foi convidado a apresentar “DNA de DAN” pela própria artista, admiradora do trabalho do brasileiro.

A própria Marina Abramović já utilizou da nudez como expressão artística em performances consagradas.

Abordagem violenta da PM

Em Brasília, a abordagem policial a Maikon foi feita de forma agressiva, conforme relato do artista. Ele foi levado à 5ª Delegacia de Polícia na Asa Sul e não pôde sequer terminar sua apresentação.

No DP, Maikon foi obrigado a assinar um termo circunstanciado por “praticar ato obsceno”, mesmo tendo feito uma performance artística, e só então foi liberado.

“Não estava ali como pessoa física, mas sim como artista contratado pelo Palco Giratório do Sesc”, afirma Maikon K ao Blog do Arcanjo do UOL, indignado.

Além disso, o cenário da performance — uma gigante bolha de plástico transparente criada pelo artista Fernando Rosenbaum, dentro da qual a apresentação é feita — foi rasgado de forma violenta durante a abordagem da PM, segundo relato de Maikon.

“Usaram de violência. Um sargento me imobilizou depois com uma chave de braço e não permitiu que eu levasse nem meus sapatos e documentos. Ninguém pôde me acompanhar na viatura, fui socado num porta-mala de camburão junto com um pneu de estepe”, conta.

Performance consagrada

Maikon lembra que seu trabalho “DNA de DAN” já esteve nas mais importantes instituições culturais do Brasil.

“Esse trabalho estreou em 2013 em Curitiba, com apoio de um prêmio da Fundação Nacional de Artes. Lá, fizemos dez apresentações ao ar livre, no bosque atrás do Museu Oscar Niemeyer. E nunca fomos impedidos ou atacados por isso”, diz.

“Depois, circulamos por várias cidades, tendo o apoio de instituições como a Funarte, o Sesc, o Museu de Arte Moderna do Rio, o Memorial Minas Gerais, a Casa de Cultura de Belém, o CCBB etc. Essa performance já foi feita em praças e ruas, universidades, centros de cultura, galerias”, lembra.

Maikon fala que, apesar da truculência policial da qual foi vítima, não vai desistir de sua arte.

“Podem me colocar diante de um juiz. Eu sei que eu não fiz nada de errado nem nada pelo qual eu deva me envergonhar. Eu estava trabalhando, e minha função é essa: perturbar a paisagem controlada dos sentidos”, declara.

E manda um recado a quem quer calar sua arte:

“O meu corpo afronta os seus canais entupidos, o seu ódio contido, mesmo estando parado. Porque vocês nunca vão me controlar e eu pagarei o preço, eu sei, eu sempre paguei. Porque parado ali, nu, imóvel no meio da praça, suas vozes me atravessam, suas piadas estúpidas tentam me derrubar, sua indiferença me faz rir, seu embaraço me dá dó, mas eu continuo em pé.”

O Sesc ainda não se pronunciou sobre o caso, mas o Blog do Arcanjo do UOL apurou que a instituição planeja divulgar nesta segunda (17) uma nota de repúdio à prisão de Maikon Kempinski.

Governador pede desculpas

O Blog do Arcanjo do UOL apurou ainda que, neste domingo (16), o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, e o secretário de Cultura do DF, Guilherme Reis, telefonaram para Maikon K para pedir desculpas pela prisão em nome do Governo do Distrito Federal. Maikon já está sendo assessorado por advogados do Sesc.

Caso lembra a ditadura

A prisão truculenta de Maikon K durante sua performance artística “DNA de DAN” lembra os tempos da ditadura, quando casos assim aconteciam.

Em 1968, a peça “Roda Viva”, dirigida por José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, com seu Teat(r)o Oficina teve uma sessão interrompida pelo grupo Comando de Caça aos Comunistas no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo. Os artistas foram espancados e o cenário, destruído. Depois, durante a turnê no Rio Grande do Sul, os artistas voltaram a ser perseguidos com violência por militares.

Também em 1968, a atriz Norma Bengell foi sequestrada por militares no momento em que chegava ao Teatro de Arena, em São Paulo, para apresentar a peça “Cordélia Brasil”, de Antônio Bivar.

Recentemente, o teatro tem sido vítima novamente da violência policial.

Em 2015, artistas do Teat(r)o Oficina precisaram depor no Fórum Criminal da Barra Funda. Ao fim, a Justiça decidiu que o diretor José Celso Martinez Corrêa, e os atores Tony Reis e Mariano Mattos Martins, eram inocentes na ação criminal movida pelo padre Luiz Carlos Lodi da Cruz, de Anápolis, Goiás.

O padre havia acusado os artistas de crime contra seu sentimento religioso católico por conta de uma cena da peça “Acordes”, apresentada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 2012 a convite de alunos, professores e estudantes em greve contra a posse da reitora Anna Cintra, que havia ficado em terceiro lugar na eleição.

O padre goiano viu a peça pela internet, no YouTube. Sentindo-se ofendido com a cena na qual um boneco semelhante ao Papa Bento 16, que na obra inspirada em Bertolt Brecht representava a figura do autoritarismo, resolveu então processar criminalmente os três artistas do grupo Oficina, além da produtora da companhia teatral, Ana Rúbia.

Também em 2015, o artista circense Leônidas Quadra, intérprete do palhaço Tico Bonito, foi preso também durante uma apresentação em Cascavel, interior do Paraná, justamente porque policiais que viam a apresentação não gostaram das críticas à polícia feita na peça. O palhaço foi detido por “desacato à autoridade”.

Em 2016, a PM de Santos, litoral paulista, prendeu o ator Caio Martinez Pacheco durante a peça “Blitz – O Império que Nunca Dorme”, da Trupe Olho da Rua, que satiriza o poder do Estado. Os policiais que estavam presentes na praça onde a peça era apresentada não gostaram do uso da bandeira nacional no espetáculo.

Passagem pelo corpo

Na programação do “Palco Giratório 2017” do Sesc, a performance de Maikon K é definida assim:

“DNA de DAN é uma dança-instalação de Maikon K. Num primeiro momento, o performer mantém-se imóvel enquanto uma substância seca sobre seu corpo. Após essa fase da experiência, ele se moverá. A ação acontece dentro de um ambiente inflável criado pelo artista Fernando Rosenbaum – o público poderá entrar nesse espaço e lá permanecer. Dan é a serpente ancestral africana, que dá origem a todas as formas. A partir desse arquétipo, Maikon K cria seu rito de passagem pelo corpo. A construção de outra pele, o ambiente artificial e a relação com o público são dispositivos para esta performance, na qual o corpo do artista passa por sucessivas transformações.”

Veja o vídeo da performance artística que foi criminalizada pela PM do Distrito Federal:

Publicado por Patricia Canetti às 11:22 AM