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Como atiçar a brasa

 


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abril 29, 2017

Bienal de Veneza e Pompidou destacam obra de Paulo Bruscky por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Bienal de Veneza e Pompidou destacam obra de Paulo Bruscky

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 28 de abril de 2017.

No ateliê de Paulo Bruscky, pilhas imensas de papéis e objetos estranhos, de botas de borracha a ferros de passar, ameaçam soterrar o artista. Suas montanhas de tralha, entre obras acabadas e esboços de novos projetos, parecem aumentar ali dentro a tórrida sensação térmica do Recife.

É nesse laboratório claustrofóbico, ou calabouço imundo, que fervem as ideias desse homem. "Sou um dos artistas mais sujos do Brasil, com muita honra", diz Bruscky. "Não tem essa preocupação com aparência, preciosidade. O lixo aqui é de uma riqueza arretada."

Ele fala de Boa Vista, um dos bairros mais antigos da cidade. Os pedaços de madeira, móveis descartados, retalhos de tecido e todo tipo de coisa que encontra por essas ruas –com as esquinas mais estreitas do mundo, ele gosta de observar– acabam virando parte de sua obra, uma crônica visual de um cotidiano atravessado por tensões.

Essa eletricidade estranha das calçadas orienta os trabalhos que Bruscky vai mostrar na próxima Bienal de Veneza, no mês que vem, e também no Pompidou, em Paris, onde terá uma retrospectiva neste ano –duas mostras que cristalizam a narrativa em torno do artista que desafiou a ditadura na periferia do mundo e agora é celebrado pelo establishment.

Desde a década de 1960, Bruscky vem trabalhando como uma espécie de alquimista, vertendo os dramas das ruas em trabalhos mordazes, como o caixão rotulado "arte" que jogou num rio do Recife, a fita vermelha que estendeu de ponta a ponta numa passarela, atrapalhando o tráfego, as performances em que fotocopiou seu rosto gritando ou os classificados inusitados que ainda planta em jornais.

Um deles, de retórica futurista, anunciava uma máquina capaz de gravar sonhos.

Talvez daí o poeta Jomard Muniz de Britto, um dos pilares da intelligentsia pernambucana, chamar Bruscky de bruxo –um observador afiado da "beleza sórdida" ao seu redor, "transtornado pela transformação".

Essa angústia parece estar por trás do vício do artista em acumular e catalogar todas as coisas, das obras de arte que mandou e recebeu pelo correio –ele é um dos pioneiros do movimento que ficou conhecido como arte postal, tática usada para driblar a censura de regimes totalitários– a gravações dos sons que fazem as baleias ou o farfalhar das asas de borboletas –um esforço monumental contra o esquecimento.

"Tem artista que não quer saber o que veio antes, mas eu sempre pesquisei para saber tudo que vinha antes de mim", diz Bruscky. "Acho que numa outra vida eu fui arquivista."

Nesta encarnação, pelo menos, Bruscky, que se diz um "exímio datilógrafo", desenvolveu certa habilidade burocrática nas décadas que passou trabalhando como funcionário público, assinando e carimbando documentos, o que explica sua desenvoltura ao navegar pelo caos de seu ateliê, onde calcula ter guardado 170 mil objetos.

ARQUEÓLOGO

"É uma desarrumação arrumada", diz o artista Silvio Hansen, sobre o acervo que parece infinito. "O Paulo é um arqueólogo da arte."

Ou um "colecionador com intuição", como lembra Celso Marconi, crítico de arte que escreveu sobre Bruscky e filmou, em 1978, a performance em que o artista passou o dia dentro da vitrine de uma livraria com um cartaz perguntando para que servia a arte.

Esse questionamento, aliás, também estrutura a ação que Bruscky quer realizar em Veneza. Na abertura da mostra, uma gôndola vai adentrar os Giardini cheia de caixas, as mesmas usadas para embalar obras de arte. Vestindo um macacão, o artista vai então empilhar as peças criando uma composição aleatória.

Seu jogo de embalagens cegas, no caso, se articula como um ataque à circulação de obras que se tornaram troféus, ou objetos esvaziados de significado e disputados por um mercado cada vez mais voraz.

Mesmo seus trabalhos mais conceituais, antes ignorados pela indústria movida por galeristas e colecionadores, agora são alvo de especulação.

"O mercado dele teve uma projeção, deu um salto", conta Lúcia Santos, a primeira marchande a representar o artista, na Amparo 60, sua galeria no Recife. "Triplicou o valor das obras, mas ele ainda é uma pessoa simples, que almoça nos mercados e gosta de tomar a cervejinha dele."

BOÊMIO SOLITÁRIO

Bruscky, de fato, costuma ser visto –sozinho– noite adentro pelos bares da cidade. "Tem um percurso etílico de Paulo", diz Hansen. "Ele sai do ateliê, vai ao mercado da Boa Vista, ao Tepan, ao Empório Sertanejo. Ele é um boêmio fechado, solitário, que vai ao bar não em busca de amizade, mas pela liberdade."

Márcio Almeida, artista que chegou a realizar algumas obras em parceria com Bruscky, conta que o bar vira uma espécie de extensão do ateliê. "A gente combina de se encontrar, mas cada um senta na sua mesa. Quando quer me dizer alguma coisa, ele vem e fala, mas depois volta para a mesa dele. Ele tem essa personalidade forte, mas também tem o coração gigante."

O silêncio e a solidão que Bruscky parece cultivar refletem também as circunstâncias em que construiu grande parte de seu trabalho.

"Vivi muito isolado aqui, não tinha crítica de arte", lembra o artista. "Os outros me chamavam de louco, diziam que eu era um artista merda que só queria aparecer. Achavam um escândalo as coisas que eu fazia, mas chegou um ponto em que não discutia mais, senão não teria mais com quem beber."

Celso Marconi, que escreveu sobre as estripulias de Bruscky nos jornais do Recife, lembra que seus trabalhos eram, de fato, criados num gueto conceitual, distante da compreensão do público.

"Ninguém valorizava muito o que ele fazia, achavam que era maluquice ele meter a cara no Xerox", conta o crítico. "Mas eu gostava das pessoas que não gostavam da ditadura. Elas tinham um senso de revolta na cabeça. Faziam o que queriam, mas tudo era feito dentro de guetos."

Esse isolamento, no entanto, acabou rendendo uma aura de mito ao artista depois da ditadura, quando Bruscky foi se firmando como estrela do cenário artístico e influenciando novas gerações.

"É lindo entrar naquelas salas abarrotadas e ver todos aqueles objetos dele", conta o artista Jonathas de Andrade. "Ele criou uma identidade do artista do Recife. É um personagem da cidade que parece estar sempre num estado de performance."

Publicado por Patricia Canetti às 3:00 PM


'Estamos quase em bancarrota', diz diretor do Parque Lage por Árion Lucas, O Globo

'Estamos quase em bancarrota', diz diretor do Parque Lage

Matéria de Árion Lucas originalmente publicada no jornal O Globo em 27 de abril de 2017.

Para contornar a crise, nova gestão planeja reestruturar modelo de captação de recurso

Sob a paisagem do Corcovado, os jardins em frente ao palacete do Parque Lage se enchem de turistas tirando fotos e de famílias fazendo piqueniques. Por semana, cerca de 12 mil pessoas passam pelo local. Uma caminhada pelo entorno, porém, revela uma infraestrutura precária, enquanto a insegurança aumenta pela falta de vigias. Pichações no muro externo, bancos quebrados e água parada se tornaram parte do cenário, cujo turismo é ainda dificultado pela falta de sinalização, uma vez que muitas placas estão quebradas ou pichadas. O palacete, por sua vez, apresenta manchas de mofo e rachaduras.

— Estamos quase em bancarrota — diz o novo diretor do parque, Fabio Szwarcwald.

A situação financeira do parque é grave e com pouca perspectiva de melhora a curto prazo, avalia Szwarcwald. Prestes a completar dois meses de gestão, ele diz lamentar o estado de abandono do terreno. Explica ainda que as melhorias na infraestrutura dependem de repasses do governo, da mesma forma que o parque precisa de leis de incentivo para se manter. Segundo Szwarcwald, os cursos da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV), por si só, não garantem os custos de manutenção do espaço.

Atualmente, o estado paga por limpeza, segurança, luz, água e telefone, mas abaixo do que seria necessário. Em 2014, a média de repasses era de R$ 5 milhões: hoje mal chega a R$ 500 mil.

Szwarcwald conta que, já para o próximo mês, está previsto o lançamento do programa Amigos do Parque Lage, pelo qual pessoas físicas e jurídicas poderão financiar a escola em troca de benefícios, como descontos em eventos. A ideia é aproximar o público do patrimônio.

— Acho que a escola é um bem da cidade. As pessoas precisam entender que isso aqui é um pulmão onde você respira arte e natureza — afirma o diretor.

Outro projeto traçado pela nova gestão é a criação de semanas de arte — eventos similares a congressos —, com encontros para desenvolver novas perspectivas e debater questões relativas ao meio cultural.

Há, ainda, planos para novos cursos, como o chamado Parquinho Lage, que seguirá moldes parecidos com a atual EAV, mas com aulas voltadas para crianças entre 6 e 12 anos.

Além disso, serão criados cursos de formação com duração de um ano, nos quais o aluno poderá estudar diversas disciplinas. No final, receberá um diploma. Todos os estudos serão pagos. Mas, segundo Szwarcwald, o objetivo é buscar patrocínios que viabilizem bolsas de estudo.

— Na crise, os cursos fazem a pessoa olhar com outro enfoque para a própria carreira. Estudar é uma ferramenta para mantê-la atualizada, aumentar o networking e inseri-la no mercado de trabalho — diz o diretor.

Szwarcwald acredita que a nova matriz financeira da EAV dará conta de reverter a situação do Parque Lage.

— Precisamos ter um planejamento para poder ir às empresas captar esses recursos via parcerias institucionais, financiamentos de empresas, de pessoas físicas e de órgãos internacionais. E a ideia é, sim, que parte desses recursos seja utilizada para reformas — conclui ele.

Publicado por Patricia Canetti às 2:35 PM


abril 26, 2017

Here’s What Sold at SP Arte 2017, the Heart of the Much-Watched Brazilian Art Market by Henri Neuendorf, Artnet

Here’s What Sold at SP Arte 2017, the Heart of the Much-Watched Brazilian Art Market

Matéria de Henri Neuendorf originalmente publicada no Artnet em 7 de abril de 2017.

Is Brazil's art market beginning to recover?

Brazil’s art market seems to have mastered the recent economic crisis and political instability, with dealers expressing optimism at the 13th edition of SP Arte in São Paulo.

Taking place at the city’s biennial pavilion, this year’s fair was split into three broad categories, with solo presentations on the ground floor, the main galleries sector on the second floor, and, for the first time, a dedicated design section on the third floor.

The fair is an important event in the domestic calendar, and not just in São Paulo, which serves as the nation’s primary arts hub. Organizers managed to lobby government to lower the state sales tax for participants for the five-day duration of the event (plus two extra days to close deals), to bring the exorbitant 50 to 60 percent sales tax down to a more manageable rate of between 15 to 16 percent. To attract international galleries, concessions on import duties have also been made during the run of the fair.

All in all, SP Arte is a local affair. Founder and director Fernanda Feitosa estimates that 95 percent of visitors are Brazilian—and this, according to dealer Daniel Roesler of São Paulo and New York-based Nara Roesler, is what sets the fair apart. “The uniqueness is the Brazilian-ness,” he explained. “You don’t see a range of Brazilian artists like this anywhere in the world. On top of that, the international participants create a rich dialogue. At a time when fairs are becoming more international, the local flavor is important.”

The gallery reported some good early sales. The São Paulo museum Pinacoteca do Estado acquired a recent painting by Bruno Dunley and a sculpture by Artur Lescher. Meanwhile, private collectors from Brazil and abroad bought works by Dunley, Rodolpho Parigi, Abraham Palatnik, Sergio Sister, Carlito Carvalhosa and Tomie Ohtake, and works from Vik Muniz’s “Handmade” series, among others.

Nearby, fellow São Paulo and New York-based outfit Mendes Wood DM also reported a solid start, including a 14-piece set by Paulo Montero, which went to a Brazilian institution. The gallery also placed a painting by Lucas Arruda, two paintings by Solange Pessoa, a wall piece by Paloma Bosque, and several photographs by Paulo Nazareth.

Another local gallery that did very well was Fortes D’Aloia & Gabriel, which nearly sold out its entire booth by the end of the second day. This included placements of works by Nuno Ramos, Jac Leirner, Lucia Laguna, Agnieszka Kurant, Efraim Almeida, Iran Ispírito Santo, and Luiz Zerbini. Gallery representative Marie Ana Pimenta told artnet News that most sold to Brazilian collectors, and were priced between $14,000 to $120,000. “Everyone is positive,” she said. “It was a good day for most galleries.”

Elsewhere, a São Paulo mainstay, the dealer Luisa Strina, sold works by Lygia Pape, Fernanda Gomes, Renata Lucas, and Cildo Meireles.

In contrast to the locals, overseas dealers reported slightly slower sales. As Fortes D’Aloia & Gabriel’s Pimenta noted, the Brazilians had a distinct advantage. “It’s our home fair,” she explained.

It was noticeable that the foreign participants brought works that they thought would appeal to a Latin American collector base, rather than offering the styles that have proven hot in the northern markets. There was lots of geometric abstraction and ephemeral pieces, in other words. “We certainly try to find a point of reference for the local audience when we do international fairs,” Heinrich Hohenlohe of Berlin’s Neugerriemschneider conceded, and others seemed to have followed the same path. But did the strategy pay off?

One of the most prominent international exhibitors, mega-gallery David Zwirner, reported the sale of canvasses by Yayoi Kusama and Oscar Murillo, a small piece by Francis Alÿs, and works by Lisa Yuskavage and Wolfgang Tillmans.

Thaddaeus Ropac brought a large sculpture and several works on paper by Georg Baselitz. The gallery’s head of operations, Markus Kormann, said the sculpture sold to a Brazilian collector, and that two drawings had been bought too.

A few booths over, London’s White Cube brought works by Gabriel Orozco, Virginia Overton, Damian Ortega, Damien Hirst, and Antony Gormley. “We have placed a series of important works by a variety of artists in the region,” director Peter Bentley-Brandt said in an email.

Although the gallery declined to divulge details, fellow Brit dealer Stephen Friedman said, “We did well,” while Mexico City’s Kurimanzutto allowed that they were “pleased” with sales.

Based on the market snapshot of SP Arte, it seems that confidence in the Brazilian sector is slowly returning, although the trend at the fair points towards slightly greater interest in works by local artists rather than foreign imports—which may be the result of the Brazilian government’s protectionist import policy. Regardless, it seems the recovery of Brazil’s art market is off to a promising start.

Recommended Reading

Brazil’s Art Market Isn’t Even Close to Its World-Class Potential. Here’s Why, By Henri Neuendorf, Apr 5, 2017

Must-See Art Guide: Brazil, By Tatiana Berg, Apr 6, 2017

Brazil’s Galleries Go Global in the Face of ‘Kafka-esque’ Climate, By Henri Neuendorf, Apr 6, 2017

Publicado por Patricia Canetti às 9:13 PM


abril 19, 2017

André Sturm: 'O prefeito é o prefeito, eu sou eu' por Julio Maria, Estado de S. Paulo

André Sturm: 'O prefeito é o prefeito, eu sou eu'

Entrevista de Julio Maria originalmente publicada no jornal Estado de S. Paulo em 18 de abril de 2017.

O secretário da Cultura de João Doria fala dos pouco mais de 100 dias de gestão, entre projetos, polêmicas, debates e xingamentos

As pedras passaram rente às vidraças da Galeria Olido logo que André Sturm, secretário nomeado pelo prefeito João Doria, assumiu a pasta e sentou-se em seu gabinete, no centro de São Paulo. O que parecia uma escolha apaziguadora, bem vista até pela gestão anterior, tornou-se o centro de episódios tensos. O anúncio do desmembramento da Virada Cultural, levando parte para Interlagos, as grafites apagadas sem aviso prévio na Avenida 23 de Maio, um edital de dança cancelado e o fim do Clube do Choro, uma luta dos músicos da Cidade, fizeram os pouco mais de 100 dias de gestão serem distantes de qualquer estabilização do setor. Em entrevista ao Estado, Sturm falou de seu entendimento de cultura, lembrou dos episódios que marcaram seus primeiros atos e disse que o prefeito é o prefeito, ele é ele.

O senhor assumiu sob boa expectativa, mas já apanhando ao anunciar mudanças na Virada. Como avalia a gestão até aqui?

Foi uma surpresa ruim. Eu não imaginava que seriam todos a favor, fazendo carinho, mas desde o começo eu falei da vontade de dialogar. Havia umas 600 pessoas no dia do diálogo com o pessoal do teatro, no Centro Cultural São Paulo. Elas vaiavam, berravam, xingavam, e eu era secretário havia um mês. Diziam que eu estava desmontando a cultura, foi espantoso.

No mesmo lugar, o CCSP, o governo Haddad fechou sua gestão apresentando um saldo e um plano. Havia uma bem estruturada arquitetura do que poderia ser feito pela Cultura. Existe algo que tenha sobrevivido das metas do governo anterior?

Arrisco dizer que todos os programas da gestão passada foram mantidos. O único ato que cancelamos foi o edital da dança. O Circuito Municipal de Cultura permanece com o mesmo nome, e a coisa mais fácil era mudar o nome. Não há nada que tenhamos desmontado.

O Clube do Choro acabou de fechar as portas.

Mas o Clube do Choro não é meta. Como ocupação do Teatro Arthur Azevedo, tinha dois anos, não tinha uma história. E veja, infelizmente entrou na categoria emendas internas que foi 100% congelada. Então, eu não tinha o que fazer. Mesmo assim, propus uma solução intermediária, que seria uma apresentação por mês para não perder a marca do choro. Agora, os R$ 500 mil eu não tenho, e não tenho de onde tirar.

Sem frequência maior, diziam, eles não chegariam à formação de público que almejavam.

Por concordar com isso, sugeri shows uma vez por mês. Não é a mesma coisa que uma vez por semana, claro, mas você garante uma permanência. E eu ia usar recurso de outra fonte. Eu tenho zero para o Clube do Choro. Não foi um ato de vontade, mas uma circunstância do congelamento.

O que é Cultura para o senhor?

Isso dá uma tese, pode ficar meio filosófico...

Sim, daqui a pouco melhora.

(Risos) Eu acho que o nosso papel é promover o acesso, no sentido amplo. Uma de nossas metas é a horizontalidade da atuação, com uma comissão que não é mais por área. Antes havia a pessoa da dança, a pessoa do teatro. Agora há um coletivo que faz a programação pensada como um todo. Não é porque o artista é de São Miguel Paulista que ele só vai se apresentar na Casa de Cultura de São Miguel Paulista. Vamos fazer mais diálogo, levar a Orquestra Sinfônica Municipal para tocar no Centro Cultural da Penha. O Balé da Cidade para outra região, vamos trazer o cara da zona norte para a zona sul. A gente atua na ideia de que as pessoas possam conhecer o diferente. Nosso desafio é esse, oferecer o diálogo.

Secretário, existe a cultura que vai até lá e a cultura que já está lá. Esse entendimento que o senhor coloca colide com a ideia já desenvolvida de que é possível fazer com que o Capão Redondo produza sua cultura, potencialize seus talentos e monetize sua produção. Há uma sensação de desmonte ideológico nesse sentido. Em vez de valorizar o que está lá, as mudanças impostas podem não gerar nem o interesse esperado pelo governo.

Eu concordo em gênero, número e grau com tudo isso. Não é que eu só quero levar a Orquestra do Teatro Municipal para a periferia, pelo contrário. Quero que o artista do Capão Redondo possa viver do que ele faz, mas não limitá-lo ao Capão Redondo. Por que eu não posso levá-lo para São Miguel, Santana ou Pirituba? E até para o Teatro Municipal? Claro, se ele for um rapper, não, mas de repente ele é um músico, um artista que posso levar ao CCSP. O que eu acho bacana é propor os encontros, levar o (bailarino) Ismael Ivo com uma dupla do Balé da Cidade para qualquer bairro para fazer uma apresentação chamando os dançarinos da região para depois interagir, acho que eles crescem, que eles vão ganhar com aquela experiência.

Mas a série de embates que surgem assim que o senhor assume, alinhado naturalmente às ideias do prefeito João Doria, parece ter como causa esse choque de entendimento cultural. Primeiro, o senhor propõe levar a Virada Cultural para o distante Autódromo de Interlagos. Depois, apaga os grafites da Avenida 23 de Maio e é proposta a criação de um grafitódromo para abrigar o trabalho dos artistas. Os pancadões, o senhor sugere, poderiam ser amenizados por bibliotecas nas mesmas regiões. São propostas que não dialogam com o meio e que parecem desconhecer como ele funciona. Não há um choque cultural entre rua e administração nessa gestão? É possível ajustar isso?

Sim, com certeza, e já houve uma correção de rumo. Acho que é normal e louvável que um gestor tenha ideias, que tente implementá-las, que ouça as críticas e que possa corrigir o rumo. Antes de acontecer o que aconteceu na 23 de Maio, eu havia proposto ao prefeito fazer um lugar em São Paulo para o grafite. Ele tinha adorado, citou o exemplo de Miami... Bom, aconteceu o que aconteceu. Aí, falamos que íamos fazer um local para o grafite. Montei uma comissão e ficamos aqui uma vez por semana discutindo até construirmos uma política pública que vai resultar em ações. Construímos no diálogo e corrigimos o rumo.
Olha, eu faço parte de uma gestão, mas o prefeito é o prefeito e eu sou eu. Ele me chamou porque considerava o meu trabalho na cultura positivo. Então, eu também sou um influenciador com minhas ideias. Eu tenho esse espaço.

O entendimento de cultura do prefeito não é mais próximo do entretenimento do que da transformação, da economia criativa?

Olha, ele me chamou, creio porque queria um gestor, uma pessoa que conhece e dialoga. Não sou um cara conhecido por fazer Lollapalooza. O que eu fiz no MIS (como diretor), embora o museu fique na Avenida Europa, foi transformá-lo de mega elitista no mais popular da cidade.

Uma crítica apontava que o senhor estava transformando o MIS em algo mais alinhado ao entretenimento do que à cultura, o mesmo assunto que estamos falando aqui. Que a experiência da arte estava sendo trocada pela da diversão.

Exposição do Castelo Rá-Tim-Bum é entretenimento ou arte? Acho que as duas coisas. Isso tem um valor incomensurável, havia pessoas lá que nunca haviam ido a um museu. Outra coisa, o Castelo Rá-Tim-Bum era blockbuster, mas ao lado dele tínhamos exposições sofisticadas e gratuitas. Um dos segredos do MIS era a combinação de programação. A crítica à popularização do MIS é de quem acredita que museu bom é museu vazio. E olha que eu não fiz lá exposição de Ivete Sangalo.

O senhor vai manter a Virada Cultural mesmo como anunciou no início do ano, parte em Interlagos e parte no centro?

Não, já mudamos mais um pouco. Descentralizamos ainda mais, encorpamos a programação do Centro, mas não teremos por lá palcos grandes. E teremos algumas atrações em Interlagos.

O senhor vai conseguir descongelar a verba da Cultura?

Quero descongelar 25% do que foi congelado, para ficar igual ao ano passado. Todo dia eu acredito. Sem acreditar, não se muda nada.

Publicado por Patricia Canetti às 10:46 PM


Entrevista com Fábio Luchetti por Paula Alzugaray, seLecT

Entrevista com Fábio Luchetti

Entrevista de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista seLecT em 17 de abril de 2017.

Adelina Galeria nasce com foco na criação de um micro-sistema integrado de produção, educação e difusão da arte

Inaugurada no início de abril, em São Paulo, a Adelina Galeria é um espaço que escapa ao modelo convencional de galeria comercial. Isto porque já nasce com um projeto que contempla as três fases da cadeia da arte contemporânea: a criação, a educação e a exibição. O proprietário, Fábio Luchetti, que também exerce o cargo de CEO da Porto Seguro, conceitua seu projeto como um “espaço de acontecimentos”, que divide-se entre três imóveis localizados na rua Cardoso de Almeida, em Perdizes. Um deles contempla o espaço expositivo; o outro, ateliês para cursos livres e salas de residências artísticas; o terceiro, em construção, será um café com janelas abertas para seu vizinho, a Galeria Brasiliana, especializada em arte popular.

A política da boa vizinhança é uma marca evidente. Mas Luchetti quer mais que isso. “Hoje as empresas crescem e se tornam burocráticas. Queremos preservar os pequenos cuidados, ficar nas relações em detrimento do crescimento e da produtividade”, diz ele à seLecT.

Ao olhar para o entorno e os outros “atores culturais” do bairro, a Adelina implanta um circuito de parcerias que inclui a livraria Zaccara e a Casa da Travessa, distribuidora de vinhos que oferece cursos e formação vitivinícola. Só para começar. “Estamos escapando dos territórios onde as galerias estão instaladas. Nossa proposta é tentar criar um circuito novo”, diz.

A residência Adelina recebe atualmente a dupla Lecuona e Hernández, radicada em Tenerife, nas Ilhas Canárias (Espanha). Eles participam da mostra inaugural, Para que Eu Possa Ouvir, curadoria de Douglas Negrisolli. A mostra apresenta jovens artistas, entre os quais, destaca-se Renan Marcondes, de São Bernardo do Campo (SP). Graduado em belas artes e doutorando em artes cênicas, Marcondes explora a performatividade de objetos de uso cotidiano. Nesta entrevista a seLecT, Luchetti fala sobre seu projeto de criação de novos territórios para a arte.

seLecT – Como pretende trabalhar a ideia de expansão do conceito de galeria?

Fábio Luchetti – Eu estava vendo uma daquelas pesquisas do Latitude (projeto em parceria da ABACT e da Apex-Brasil, no sentido de favorecer a exportação da arte brasileira) que diz que 58% das exposições na cidade de São Paulo estão em galerias. Só que não existe uma relação do público com as galerias como acontece, por exemplo, com o espaço cultural. O público vai ao CCBB, Tomie Ohtake, Masp, mas eventualmente não vai a uma galeria. Por sua vez, as galerias, pelo que vi circulando nos últimos anos, são mais fechadas para quem não é efetivamente do meio, não são um ambiente acolhedor. Por isso o que a gente está tentando fazer aqui é um híbrido disso. Contratamos um educativo, uma consultoria com a Stela Barbieri. Parte do escopo do projeto da Stela é montar esse programa de residência, dentro e fora do Brasil, dentro do eixo da América Latina. No espaço expositivo, o educativo irá trabalhar em sintonia com a equipe de vendas. As pessoas podem vir consumir a obra ou o conhecimento que está por trás disso. Se fizermos um trabalho mais sincronizado, talvez a gente consiga superar esses 10% da população que se envolve com arte no Brasil. Queremos ativar esse entendimento do que é a arte contemporânea. Vejo por mim, que tinha uma relação muito mais estética no começo, e aos poucos fui entendendo o grau de profundidade que existe por trás disso tudo.

Ampliar o público da arte também é uma meta?

Sim, temos um ateliê que montamos com oficinas, a ideia é começar a fazer um trabalho forte com escolas do entorno. Temos um espaço para preparar as pessoas para esse entendimento da arte contemporânea. No fundo, é você criar uma sustentabilidade para o sistema. Se você roda as galerias nos finais de semana, vê sempre as mesmas pessoas, os mesmos curadores, os mesmos artistas, os mesmos colecionadores. É como se o sistema fosse fechado. Tem uma aura meio que de joalheria. Só entra quem conhece ou quem vai adquirir.

Em sua experiência no Centro Cultural Porto Seguro, você lida com várias linguagens. Por que escolheu trabalhar a arte contemporânea?

Eu entrei na empresa pelo teatro, o Porto Seguro está envolvido com teatro há 15, 20 anos. Depois entramos no processo de montar um complexo cultural. Tínhamos uma relação com fotografia muito forte, mas era muito mais do mesmo. Aquilo estava ficando cristalizado e queríamos abrir um pouco. Fui fazer uma visita a uma seguradora dos Estados Unidos e fiquei impressionado porque eles tinham obras em todos os lados. O CEO deles me disse que eles acreditavam que a arte dispara uma criatividade nas pessoas que ocupam o espaço diariamente. Aquilo me agradou, comecei a fazer aquisições. De uns 10 anos para cá, comecei a adquirir obras próprias, a partir de meu envolvimento… mas comecei a perceber que minha relação era estética. Aí, parei de comprar porque percebi que estava formando uma coleção sem pé nem cabeça. E aí falei: tenho que entender isso. Na medida em que fui aprofundando, passei a comprar baseado muito mais no discurso que estava implícito do que na obra em si. Quando ficava na dúvida, meu fator de decisão era entender a cabeça do artista, o processo de criação dele, as inspirações. O olhar disruptivo do artista é uma coisa que me agrada. Mas você não sabe se todas as tuas apostas vão dar certo ou não. Você tem que ir tateando, tem uma subjetividade aí que é interessante. Aí fui buscar um curso de pós graduação na Belas Artes, de Museologia, Colecionismo e Curadoria, para entender esse contexto dos diversos ângulos. Terminei, estou na fase do TCC, que apresento em junho. Meu TCC é exatamente esse conceito do território: como se discute o território, seja na arte ou na educação.

Como avalia suas atuações na Porto Seguro e na Adelina?

Lá, eu estou deixando um legado para alguém. É um modelo de negócio como este, que trabalha com artistas novos, não é uma coisa que vira em 3, 4 anos. Eu já estou com 51 anos, não posso esperar me aposentar com 63 anos para começar algo novo. Como não quero fazer nada com pressa – essas coisas tem que achar seu espaço, vamos aprender, vamos errar. Se estiver errado, a gente faz tudo de novo, como fazem as startups, que vamos pivotando até achar um espaço. Além disso, hoje em dia, nas empresas, você tem que parar mais cedo pra dar espaço pra molecada que quer crescer, né?

Publicado por Patricia Canetti às 10:40 PM