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outubro 22, 2009
Começa restauro da obra de Hélio Oiticica por Márcia Vieira, O Estado de S. Paulo
Matéria de Márcia Vieira originalmente publicada no caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo em 22 de outubro de 2009.
Técnicos do Instituto Brasileiro de Museus montaram um laboratório na casa do irmão do artista para recuperar peças danificadas no incêndio de sexta-feira.
Os técnicos do Instituto Brasileiro de Museus começaram ontem a mexer nas obras mais atingidas pelo incêndio que destruiu boa parte do acervo de Hélio Oiticica na noite de sexta-feira, no Rio. "Temos chance de recuperar bastante coisa. Mas ainda estamos cautelosos", explicou José do Nascimento Júnior, presidente do Ibram, que ontem visitou a casa da família Oiticica, no Jardim Botânico, onde as obras eram mantidas.
"É um trabalho lento que precisa ser muito bem feito. Só agora nossos técnicos começaram a mexer nas obras que estavam na área mais atingida pelo incêndio."
Há dois dias , cinco técnicos do instituto trabalham para salvar o que restou do acervo de quase mil obras do artista. Ontem, começou a ser montado na sala da casa do irmão de Oiticica, César, um laboratório de restauro. "A família desmontou a casa para instalar o laboratório. É uma espécie de UTI. Estamos levando desumidificadores, equipamentos de controle ambiental, de secagem, tudo o que é necessário para este trabalho. Só assim poderemos ter condições emergenciais de tratamento e depois de avaliação de cada item da coleção."
Os museus da rede estadual e federal cederam os equipamentos. Os laboratórios de restauro dos museus estão de prontidão para trabalhar nas obras a medida que elas forem sendo examinadas pelos técnicos do Ibram. "A Casa de Ruy Barbosa está cedendo a expertise deles no restauro de papel. Estamos fazendo tudo para recuperar o máximo possível da obra do Oiticica", garantiu Nascimento.
Na noite do incêndio, a expectativa era que 90% das obras tinham sido totalmente destruídas. As esperanças de o estrago ter sido muito menor agora aumentaram, mas a avaliação do Ibram só deve ficar pronta na sexta-feira. "Estamos fazendo o possível para recuperar o máximo de obras. Mas ainda é cedo para dizer quantas."
Nascimento foi até a casa da família Oiticica a pedido do ministro da Cultura, Juca Ferreira, que logo após o incêndio chegou a ser acusado de omisso diante de uma perda de um acervo tão importante.
Segundo o presidente do Ibram, depois da fase de avaliação do que sobrou do acervo, o ministério poderá fazer uma proposta para ajudar Cesar Oiticica a manter as obras do criador dos parangolés. "Nossa ação agora é técnica, de salvamento do bem cultural. Depois vamos ver o desdobramento. O ministro vai avaliar que tipo de proposta o ministério pode oferecer à família."
Depois de conversar com os técnicos que trabalham na recuperação das obras, Nascimento elogiou as condições de armazenamento criadas pela família. "As condições eram boas. Tanto que já conseguimos recuperar várias obras. Havia orientação de técnicos para conservação e cuidados com restauro de obras."
Para Nascimento, o incêndio foi uma fatalidade. "Nós temos que descobrir o motivo da origem do fogo, para que a gente possa inclusive alertar as diversas instituições sobre este tipo de situação. Mas a discussão de culpa nestas horas não ajuda muito."
O sobrinho de Oiticica e a secretária de cultura do Rio, Jandira Feghali, chegaram a trocar acusações sobre a responsabilidade da prefeitura em cuidar da obra de um artista do porte de Hélio Oiticica. Ontem, Ana Durães, diretora do Centro Hélio Oiticica, ligado à prefeitura, ainda esperava que a família concordasse em abrir duas salas lacradas desde fevereiro onde estão obras do artista. "O momento é de dor, mas precisamos desta autorização para ver que obras estão nestas salas e em que condições."
outubro 21, 2009
Marcio Doctors - Respostas para a Folha de S. Paulo sobre o incêndio do acervo Oiticica
1 - Indepedente do direito de herança, vc acha que deveria haver algum mecanismo que protegeria a obra dos artistas contra eventuais abusos por parte das famílias?
Penso que a pergunta não está bem formulada: ela parte do pressuposto de que haja eventuais abusos por parte das famílias dos artistas. Eu acredito que a questão é mais ampla. O que pode parecer um abuso é um mecanismo de defesa frente a inexistência de uma conjuntura maior por parte dos poderes políticos e econômicos para proteger o patrimônio da arte brasileira. Não há ainda vontade política e econômica clara de como devemos proceder porque não há uma consciência real da importância do valor da arte brasileira. É uma pena! Tragédias como a ocorrida com o acervo de Helio Oiticica servem para nos alertar de que estamos no caminho errado e que algo é preciso ser feito. Penso que os herdeiros dos artistas Neoconcretos têm nos dado uma grande lição, reforçando a iniciativa pioneira da família Portinari, de que é necessário cuidar da obra legada pelo artista não só como valor econômico, mas também como valor cultural. A crescente presença internacional da arte contemporânea brasileira é também -mas não só-, resultado do esforço das famílias estarem lutando para preservar o legado cultural de seus antepassados.
2 - Você acha que o patrimonio legado por artistas do porte de Lygia Clark, Leonilson e o próprio Helio Oiticica, estariam em melhores condições se pertencessem a instituições públicas?
Não necessariamente. Reconheço o esforço que tem sido feito por diretores de museus e pelo Minc nos últimos anos no sentido de buscar aparelhar melhor nossas instituições culturais. Mas ainda estamos muito distantes de uma situação minimamente ideal. Esse esforço, que reconheço, é mais o reflexo de uma tendência mundial de musealização da realidade humana, que se impõe ao mundo contemporâneo como sua condição e da qual não temos como escapar, do que uma consciência real da importância do bem cultural. É como a questão ambiental ou a realidade digital: não dá para fechar os olhos. Nos falta ainda aguçar nossas consciências e produzir uma mudança de mentalidade para a importância desse fato, para evitar chorar depois pelo que não foi feito. Não se muda o passado, só se muda o futuro. Portanto, enquanto não for entendido que proteger o patrimônio cultural é proteger também a economia, estaremos infelizmente pensando os museus e todo o patrimônio tangível e intangível como um “enfeite” e não como uma poderosa ferramenta econômica, que sinaliza a importância do valor agregado para uma economia. Gostaria de citar dois exemplos para melhor evidenciar essa idéia: de um lado o Beaubourg, que foi o pólo de revitalização de uma área degradada de Paris que era o Marrais; de outro, Juazeiro do Norte, cuja economia hoje gira em torno da invenção plástica de Mestre Vitalino. O investimento em cultura no mundo da atualidade contemporânea é vital porque a economia gira em torno da tecnologia, que é a imaginação científica tornando realidade o imaginário humano. E a arte é a usina da imaginação humana, no sentido de “ser e ter a realidade”, como nos dizia Clarisse Lispector.
Portanto, a questão não é se os acervos estariam em melhores condições em instituições públicas. Eles estarão em melhores condições quando todos, herdeiros, poder público e privado tomem, em conjunto, para si a tarefa de proteger nosso patrimônio cultural, dividindo responsabilidades.
3 - Você teria mais algum comentário sobre a situação de sábado?
Foi uma tragédia. Um pesadelo do qual estamos ainda despertando. E mais do que tudo penso que Helio, na dimensão solar que traz no seu próprio nome, entrou em combustão para nos indicar mais uma vez os caminhos da arte brasileira. É preciso cuidar. Cuidar no sentido amplo: cuidar para que não haja miséria social, econômica, política e cultural. Para mim o que ficou foi um pensamento da Hanna Arendt de que não podemos banalizar a realidade. Infelizmente é esta a realidade que temos vivido no Brasil.
Parangolé Pamplona você mesmo guarda?? por Patrícia Palumba
Texto publicado no blog de Patrícia Palumba.
Logo agora que o Brasil começava a dar a devida importância para sua obra, o acervo de Helio Oiticica queima no Rio de Janeiro. Num incêndio trágico tudo o que era guardado na casa da família desse artista de vanguarda dos anos 50 e 60, o mais antenado com o mundo daquela época aqui no Brasil, foi destruído. Hélio Oiticica criou os famosos parangolés e vestiu com eles os moradores do morro da Mangueira. Oiticica fez as caixas penetráveis, obras de arte para entrar dentro, para vivenciar sensações, e uma delas se chamava Tropicália. Foi daí que surgiu o nome do movimento que revolucionou a música brasileira. E Caetano Veloso nem o conhecia pessoalmente quando o nome da obra lhe foi entregue de bandeja. Caiu como uma luva.
O penetrável Tropicália era formado por duas tendas com areia e brita espalhadas pelo chão, araras e vasos com plantas e uma espécie de labirinto que percorria a tenda principal, às escuras. Ao fundo um aparelho de televisão ligado. Helio Oiticica defendia a antropofagia como o único caminho da cultura verdadeiramente brasileira, original, não colonizada.
Adriana Calcanhotto, ligada em cinema, literatura e artes plásticas fez sua homenagem com Parangolé Pamplona no disco Maritmo: “Parangolé Pamplona você mesmo faz, com um retângulo de pano de uma cor só… e é só dançar, é só deixar a cor tomar conta do ar…”
Na prestigiosa galeria de arte Tate Modern, em Londres, Helio Oiticica fez uma mostra histórica e levou seus parangolés tropicais.
O que mais me assusta nesse incêndio trágico é saber que obras e acervos espalhados por esse Brasil estão por aí nessa situação precária. Hoje perdemos a obra de Hélio Oiticia e a todo momento quando uma rádio muda de endereço, por exemplo, milhares de horas de gravações históricas, de documentos culturais importantíssimos, são literalmente jogados no lixo em nome da falta de espaço. Ou será por falta de vontade, de entendimento, de educação? Quando será que esse país se levará à sério? Quando será que os investimentos em cultura e educação ganharão a importância que tem as ampliações de portos, rodovias, duplicação de marginais…
Parangolé Pamplona você mesmo guarda?
É triste.
Oiticica: herança artística e material por Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo
Matéria de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo em 21 de outubro de 2009.
Críticos, parceiros do artista e galeristas discutem o que fazer com o que restou do incêndio que destruiu parte da sua obra.
O incêndio que destruiu na sexta-feira pelo menos mil obras do artista plástico carioca Hélio Oiticica (1937-1980), na casa de seu irmão César Oiticica, no Jardim Botânico, zona sul do Rio, provocou não só reações no meio artístico brasileiro como internacional. O crítico inglês Guy Brett, responsável pela primeira exposição internacional do artista, realizada há 40 anos na Whitechapell Gallery de Londres, lamentou a tragédia que consumiu obras daquele que considera o grande renovador da arte brasileira do século 20, entre elas parangolés (capas) originais, para ele a maior das invenções de Oiticica.
Brett, um dos críticos mais respeitados da Inglaterra, responsável pela difusão europeia da obra de Oiticica como também do trabalho de Lygia Clark e Mira Schendel, classificou a perda das peças "uma tragédia não só para o Brasil como para todo o mundo, tratando-se de um dos artistas mais importantes do século 20". Sem culpar o irmão de Oiticica, responsável pela conservação dos trabalhos do artista, Brett lamentou a ausência de um programa estatal para aquisição de obras contemporâneas. Em sua opinião, elas deveriam estar em museus, não nas casas de herdeiros de criadores de fundamental importância para a história da arte, como Lygia Clark e Mira Schendel, cujas obras estão nas mãos de seus filhos.
"Não se pode culpar César por negligência, pois ele, como arquiteto, estava tentando adaptar a casa para abrigar o acervo, mas, por outro lado, o armazenamento de obras em locais seguros é um problema que a família tem de resolver, ou por meio de uma fundação ou instituições capazes de garantir a integridade desses trabalhos." Brett não considera que a destruição de grande parte das obras de Oiticica possa comprometer o entendimento futuro desse trabalho pioneiro, que começa ligado ao movimento neoconcreto brasileiro, nos anos 1950, e ganha dimensão internacional com a exibição, nos anos 1970, dos penetráveis (ambientes), que anteciparam a onda de instalações em todo o mundo.
"A destruição física das obras não significa, no caso de Oiticica, o fim desse trabalho, até mesmo porque ele via a atividade artística como uma atividade poética", observa Brett. No entanto, ele discorda de quem associa a existência corpórea das obras do artista um fetiche para ser explorado pelo mercado. O próprio Oiticica, lembra, permitiu a construção de réplicas de alguns trabalhos - inclusive um bólide de Brett, que se quebrou no apartamento do crítico em 1968, quando ele preparava a exposição da Whitechapell, reconstruído de acordo com instruções transmitidas por carta pelo artista.
Há dois anos, porém, Brett escrevendo no jornal online da Tate Modern, observou que a reprodução dos parangolés e dos ambientes de Oiticica é uma outra história. Brett não conseguiu autorização do artista para reproduzir o ambiente da exposição na Whitechapell, em 1969, em outras capitais europeias. Sobre os parangolés, ele certamente tinha outra opinião. Alguns remanescentes de uma performance pública realizada no Recife há 30 anos pertencem hoje à coleção do galerista Paulo Kuscinsky. Brett lembra que, no caso particular de Oiticica, a questão da reprodução do trabalho ganha outra dimensão em se tratando de um artista preocupado com o destino de suas obras. Ele mesmo supervisionou a construção dos parangolés do Recife, cuidando que fossem presos por alfinetes de segurança para serem reutilizados por diversos participantes da performance.
Kuscinsky conta que esses parangolés - dez exemplares "vintage", como os define - foram guardados pelo artista recifense Paulo Bruscky, que, a exemplo de Oititica, se envolveu com arte experimental (performances, instalações, vídeos) nos anos 1970. O marchand já teve chances de vender os parangolés para colecionadores particulares, mas considera que são obras destinadas a instituições. "O lugar deles é numa Tate ou num instituto como o Itaú, que digitalizou grande parte da obra do Oiticica", sugere.
Concordando com o crítico Guy Brett sobre a guarda de obras fundamentais em museus e fundações, Kuscinsky diz que os herdeiros dos artistas constituem, hoje, um entrave para a difusão da obra dos contemporâneos, dificultando a reprodução de imagens dos trabalhos, o empréstimo de peças para exposições e, principalmente, exercendo o papel de curadores. "Acho sintomático que a primeira informação logo após o incêndio tenha sido o valor dos prejuízos, em torno de US$ 200 milhões, como se o Oiticica fosse uma fábrica.
Com certeza não foi. O artista enfrentou sérias dificuldades para sobreviver em Nova York nos anos 1970. Hoje, porém, essa obra é disputada por grandes museus internacionais. O próprio Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), que tem obras de Oiticica em seu acervo, estava negociando, segundo um marchand paulista, a compra de O Grande Núcleo - três obras penduradas no teto que formam um labirinto para ser penetrado. Ele foi exposto apenas uma vez no Rio e queimado junto a outras obras no incêndio de sexta-feira.
A informação de que 90% do acervo guardado na casa do Jardim Botânico foi destruído não é verdadeira, segundo o cineasta Neville d"Almeida, parceiro de Oiticica em alguns trabalhos fundamentais como a série Cosmococa, que usa imagens de ícones da cultura pop (Marilyn Monroe, Jimi Hendrix) associadas a carreiras de cocaína. "Ajudei a tirar o material queimado da casa e posso afirmar que grande parte dos desenhos e dos metaesquemas foram salvos", diz Neville, criticando a histeria midiática em torno do incêndio. "Trataram o Hélio com se fosse um artista renascentista, quando ele foi um criador de conceitos, de propostas, de intervenções, um artista do futuro, não de um passado neoconcreto, que ficou lá atrás, como definiu Ferreira Gullar, reduzindo a dimensão de um dos inventores da arte contemporânea."
Predomina, diz Neville, um tom "melodramático" sobre o destino da obra de Oiticica, que, segundo ele, está bem preservada em museus internacionais dos EUA, Inglaterra, Espanha e em institutos como Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais, que tem penetráveis e uma Cosmococa de Oiticica (a de Jimi Hendrix). Segundo informações de uma galerista de São Paulo, Inhotim havia comprado recentemente cinco relevos espaciais, que foram destruídos no incêndio. Ainda de acordo com Neville, outra Cosmococa será exibida na mostra de um museu americano de São Francisco em novembro. Há também obras em comodato fora do País e outras, conceituais, que podem ser recriadas, diz o cineasta, lembrando que todo o acervo está digitalizado e disponível no site do Itaú Cultural.
A galerista Nara Roesler, que já vendeu uma instalação de Oiticica para o Museu Walker de Minneapolis (EUA), provou que as instruções deixadas por Oiticica para a construção de seus projetos podem fazer mais pela preservação de sua obra, ao adaptar há três anos sua galeria para receber a piscina da Cosmococa CC4 Nocagions (1993), criação de Oiticica e Neville d"Almeida. Não vendeu, mas causou sensação na última feira de arte em Basel. Em tempo: o preço é salgado. Algo em torno de US$ 500 mil, quase quatro vezes mais que um metaesquema, que está por volta de US$ 150 mil. Oiticica nunca viu esses valores em vida.
Esses preços elevados levam galeristas a buscar compradores no mercado internacional. E é o que já estão fazendo há algum tempo alguns deles. Com exceção de Inhotim, poucas instituições e museus brasileiros têm poder de fogo para bancar a aquisição dessas peças. "Não existe uma política de aquisição de obras de arte no Brasil, o que explica o fato de uma pintura fundamental do modernismo brasileiro, a tela Abaporu, de Tarsila, estar hoje na coleção do Malba argentino", critica o galerista André Milan.
Milan concorda com os que defendem a guarda de obras importantes como o de Oiticica por instituições públicas ou fundações privadas. "Legalmente, elas pertencem aos herdeiros, à família, mas não podemos esquecer que estamos falando de um patrimônio da humanidade, que deve ser preservado."
Numa entrevista sobre o artista, o poeta Haroldo de Campos ressaltou que era impossível entender Oiticica sem se compreender Malevitch ou Mondrian. Com o incêndio que destruiu parte de sua obra, é possível acrescentar: sem ele, dificilmente alguém vai entender tudo o que veio depois. Oiticica foi, antes de tudo, profeta.
Suas Obras Em Instituições No Brasil E No Exterior
INHOTIM: O centro em Brumadinho, Minas Gerais, possui a céu aberto, em seu jardim, a obra Invenção da Cor, Penetrável Magic Square #5, De Luxe, de 1977; e a instalação Cosmococa 5 Hendrix War, de 1973 e realizada com o cineasta Neville D"Almeida.
MUSEU DE ARTE MODERNA DE SÃO PAULO: O MAM possui dois guaches sobre papel da série Metaesquema, de 1958; e dois desenhos de 1956.
MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DA USP: Tem apenas dois guaches sobre cartão da série Metaesquema, de 1958.
MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE NITERÓI: Da coleção João Sattamini, a instituição possui o óleo sobre eucatex Três Tempos (Quadro I), de 1956; os metaesquemas Voo Alto para Cima, para Dentro e Para Fora, de 1958, e outro sem-título, datado da década de 1950 - essas duas últimas obras ficam em exibição.
MUSEU DE ARTE MODERNA DO RIO: Possui obra da coleção Gilberto Chateaubriand, em comodato na instituição.
TATE MODERN: O museu britânico tem conjunto de 8 obras de Oiticica: a emblemática instalação Tropicália, Penetráveis PN 2 "Pureza é um mito" e PN 3 "Imagético", de 1966-67; as esculturas Bólide Caixa 9, de 1964, Bólide Vidro 5 - Homenagem a Mondrian, de 1965, Relevo Espacial (Vermelho) e Bilateral Teman BIL 003, ambas de 1959, além três Metaesquemas de 1958.
MOMA: O Museu de Arte Moderna de Nova York possui 12 peças: 8 desenhos em guache sobre cartão da série Metaesquema, realizados entre 1956 e 1958, e duas serigrafias Homenagem a Meu Pai, de 1972 (conjunto doado pela família de Hélio Oiticica); a escultura Bólide Caixa 12 Arqueológico, de 1964/65 e a pintura a óleo sobre madeira Alívio Neoconcreto, de 1960 (doadas pela venezuelana Patricia Phelps de Cisneros).
HOUSTON: O Museum of Fine Arts de Houston, EUA, tem Metaesquema dos anos 50 na coleção do brasileiro Adolpho Leirner, vendida à instituição.
DAROS LATINO-AMÉRICA: A instituição privada suíça possui três obras do artista.
Muita discussão e... "até o próximo incêndio?" por Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo
Matéria de Marcos Augusto Gonçalves originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 21 de outubro de 2009.
Na madrugada do dia 8 de julho de 1978, a quase totalidade do acervo do Museu de Arte Moderna do Rio foi consumida por um incêndio. Pinturas de Di Cavalcanti, Portinari e Ivan Serpa viraram cinzas ao lado de obras de Picasso, Miró, Dalí, Magritte e do grande artista uruguaio Joaquín Torres-García -que figurava numa ampla exposição no museu e teve a maior parte de sua obra destruída pelo fogo.
O incêndio no MAM foi um trauma, uma espécie de chacina cultural ocorrida numa instituição criada para evitá-la. Num lance de trágica ironia, alguns anos depois ardeu o apartamento de Niomar Moniz Sodré, fundadora do museu. Desapareceram obras de Mondrian, Chagall e Volpi, entre outros artistas da coleção.
Incêndios nunca mais? Bem, há poucos anos o curador Paulo Herkenhoff deixou a direção do Museu de Belas Artes depois de denunciar riscos de incêndio. E sexta-feira, foi a vez de Hélio Oiticica. Culpa da família? Culpa do poder público?
É fácil sair atirando na hora da fúria -e não é de todo mal que se atire, mesmo com a chance de errar o alvo. A energia da revolta ajuda a criar movimento. O risco é conhecido: indignação nos botequins, discussões na imprensa, promessas de autoridades e... "nos vemos no próximo incêndio?".
Seria desejável que essa tragédia ajudasse a transferir para o plano das medidas práticas a reflexão sobre o papel dos museus de arte no Brasil já elaborada por críticos e curadores como Paulo Sergio Duarte e o próprio Herkenhoff.
O sistema de instituições é irracional, invertebrado e pobre, embora no meio artístico circule bastante dinheiro. Abrem-se centros culturais como lanchonetes, empresas bancam mostras com renúncia fiscal, mas os museus vivem com pires na mão. Alguns deles nem sequer possuem acervos próprios -apenas coleções particulares em regime de comodato. Aliás, é preciso pagar para expor em instituições como o Masp ou o MAM-Rio. Essa é a realidade.
A produção de arte se expande e os problemas vão se avolumando. Já é hora de criar meios para financiar e qualificar essas instituições -e o que é básico: fazer da aquisição de acervos uma rotina cultural no país.
A vida em celulóide por Ana Cecília Soares, Diário do Nordeste
Matéria de Ana Cecília Soares originalmente publicada no Caderno 3 do jornal Diário do Nordeste em 20 de outubro de 2009.
"Quando o cinema se desfaz em fotograma" é o mais novo trabalho de Solon Ribeiro, que será lançado, hoje, às 19h, no CCBNB-Fortaleza. Na mostra, o artista transformou frames de clássicos do cinema em vídeos, objetos e instalações artísticas.
Perdido. Feito alguém que sai à procura de algo desconhecido. O olhar misterioso casa bem ao jeito casmurro. Em cima de uma moto, segue sua saga solitária, de onde só se sabe a justificativa: a perda de memória.
Em qualquer lugar que ele vá, fotogramas aparecem e se camuflam às imagens do real. A confusão entre ficção e realidade é evidente, como no momento em que chega próximo a uma piscina e vê nos corpos das meninas que nadam, frames reluzindo.
As cenas descritas fazem parte de "Sage", vídeo do "não-artista" Solon Ribeiro. Na história, um personagem desmemoriado se lança ao mundo em busca de si mesmo. Mas, enquanto não se "acha", vivencia inúmeras experiências. "Há mais ou menos três anos, que venho construindo uma ficção de mim mesmo. Meu personagem teve a memória roubada pela indústria do cinema. Por isso, é tão constante a relação entre o ficcional e o real. Por meio dele, estou livre para fazer o que eu quiser", justifica Solon.
Laboratório artístico
O vídeo, juntamente, a outros trabalhos estão presentes em "Quando o cinema se desfaz em fotogramas". Ação de Solon Ribeiro, que será inaugurada hoje, às 19 horas, no Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza (CCBNB).
A partir da coleção de mais de 30 mil fotogramas de cinema, álbuns catalogados, arquivados, com nome dos atores e dos filmes, iniciada por seu avô (que vai da década de 1930 à de 1960); Ribeiro desenvolve uma pesquisa, cujo intuito é deslocar os fotogramas de seu contexto original, transformando-os novamente em imagem (fotografia).
O potencial da coleção sofre uma espécie de resignificação. Ele ativa novamente os frames para a vida, mas agora imbricado em outro sentido. Já não importa quem são os atores e suas histórias, mas sim a maneira como atuam nas poéticas construídas por Solon.
"É a partir da razão de ser da fotografia e do cinema com a construção de um corpo capaz de acolher o encontro da diversidade de linguagens, que procuro realizar um corte no tempo cinematográfico. Dos fotogramas criei vídeos, instalações e objetos. A escolha de cada um deles não acontece aleatoriamente, tudo é pensado conforme o contexto que pretendo dar", afirma. Os fotogramas serão exibidos em suportes como oito back-lights (uma espécie de expositor que é iluminado no verso), totens e projeções em vídeo.
Os trabalhos ocuparão o segundo andar do CCBNB, encontrando-se divididos em ambientes temáticos, como a "sala dos beijos". Nela, os visitantes poderão conferir cenas de clássicos do cinema, onde os personagens se beijam.
Além disso, haverá um ambiente de boate, comandada pelo VJ argentino MLIVE (Matias Sebastian Pereyra). Todo o evento de abertura será filmado para exibição no CCBNB, no decorrer da própria mostra.
"Quando o cinema se desfaz em fotograma" traz a proposta de não ser uma exposição. O trabalho é uma posição, que convida ao rompimento com o espaço expositivo de sua tradicional condição de receptáculo de "coisas" para o campo da experiência e da vida.
Diferentemente do interesse das instituições de arte em expor processos de artistas, Solon repensa o próprio espaço como lugar da experiência processual. Ribeiro não é contra o ambiente expositivo. Ele é a favor de um tempo mutante, do risco, da incerteza, da mistura, e, sobretudo, do encontro com o outro.
Arte ao vivo
"Uma coisa importante dessa exposição é que não é uma exposição. É um acontecimento. As pessoas já estão cansadas desse tipo de formato. Na área da boate, que vai ser filmada para um futuro vídeo, por exemplo, não terei controle de nada, eu dependo de tudo e de todos. O que me interessa é a arte como vida", diz ele.
Para Solon, sua iniciativa consiste num laboratório vivo, que vai sendo produzido a medida em que vai acontecendo. O risco é a certeza, que possibilita a liberdade de criação no seu trabalho.
"O que diferencia o artista do artesão e do operário é o envolvimento com o risco, o se deixar levar pela dúvida", diz.
Conforme André Parente, artista e professor da pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Solon se insere na tradição do cinema de invenção no Brasil, ou seja, de um cinema em que o personagem principal apresenta o que poderíamos chamar, provisoriamente, de certa idiotia do real como força espiritual. "Trata-se, no mais das vezes, de mentecaptos, zumbis, macabéas, visionários e autômatos espirituais que habitam cada um de nós, uma vez que são como a pré-história de nossas consciências (O super-outro); de nossos pensamentos e impossibilidades de pensamento; de nossas sexualidades; línguas (Tabu e Sermões); subdesenvolvimento e loucura".
FIQUE POR DENTRO
Solon Ribeiro e a saga de um amante da sétima arte
Solon Ribeiro, artista cearense com formação na Escola de Arte Decorativa de Paris, tem seus trabalhos voltados para a imagem fotográfica. Como em muitos artistas contemporâneos, há em sua obra uma problematização que leva em conta o fenômeno contemporâneo da saturação de imagens. Para ele, a imagem é um mistério, motivo pelo qual precisamos ressuscitar seus aspectos mágicos e metafísicos.
Nos anos 1990, herdou de seu pai uma coleção de mais de trinta mil fotogramas de filmes, iniciada nos anos de 1950 por seu avô Ubaldo Uberaba Solon, dono de uma sala de cinema no interior do Ceará, mais precisamente na cidade do Crato. Os fotogramas, que em geral mostram os atores principais dos filmes, foram cuidadosamente guardados em álbuns feitos para com esse intuito, apresentando, ainda, o nome e o ano da produção.
Mais informações
"Quando o cinema se desfaz em fotograma", do professor e curador Solon Ribeiro, abertura, hoje, às 19 horas, no Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza.
Rua Floriano Peixoto, 941 - 2º andar - Centro.
Contatos: (85) 3464.3108.
Uma carta aberta para César Oiticica Filho por Sergio Cohn, Jornal do Brasil
Uma carta aberta para César Oiticica Filho
Carta de Sergio Cohn publicada originalmente no Caderno B do Jornal do Brasil em 20 de Outubro de 2009.
Fiquei orgulhoso de sua força. A obra de Hélio não morreu e será reconstruída
Querido Cesinha, no momento em que acontece uma fatalidade dessas dimensões, não posso me furtar de dar o meu testemunho desses dois últimos anos de nossa convivência – que se iniciou profissionalmente e cresceu para a amizade e a irmandade.
O nosso primeiro contato foi em 2007, quando começava a organizar para a Azougue Editorial a Coleção Encontros, de livros de entrevistas com artistas e pensadores brasileiros. Ericson Pires, nosso amigo em comum, perguntou por que eu não tentava o Hélio Oiticica.
Respondi para ele que era impossível. Ele retrucou, e imediatamente marcou uma conversa entre nós. Ficou claro, para o meu espanto, que para o Projeto HO o interesse cultural estava muito acima do interesse financeiro.
Digo “meu espanto” porque existe uma lenda urbana no Brasil de que as famílias dos artistas são bichospapão, que estão apenas interessadas em usurpar a obra da sociedade, para fins financeiros.
Não há a construção real de parcerias culturais entre as diversas partes, artistas, autores, herdeiros, curadores, críticos, instituições, no intuito de criar um pensamento e uma política cultural eficiente no Brasil.
Isso precisa ser revertido.
Desde então, começamos a elaborar projetos em conjunto, compartilhando nossas inquietações em relação ao cenário cultural brasileiro.
A primeira coisa que percebi em todo esse processo é que havia em você uma preocupação ampla, não apenas restrita à obra do Hélio, mas das artes plásticas contemporânea.
O primeiro projeto que concebemos juntos, e que se encontra em franca conversa com o Ministério da Cultura, é a Rede Arte Brasil, uma rede digital que abrange um veículo para exibição permanente de filmes de artistas brasileiros e uma rede social de disponibilização de documentos e da agenda de artistas brasileiros, sejam eles consagrados ou iniciantes. O projeto, que conta com a participação de Raul Mourão, Luiza Mello e Romano, é uma tentativa de possibilitar que outros artistas digitalizem e disponibilizem seus acervos documentais, como realizado pioneiramente pelo Projeto HO.
Conversamos também sobre a elaboração de um museu que pudesse abrigar os artistas brasileiros contemporâneos e colocar disponíveis as suas reservas técnicas. Sobre isso, tivemos uma reunião importante com Alfredo Manevy, secretárioexecutivo do Ministério da Cultura no sábado, dia 10 de outubro. Foi um almoço na Nova Capela, na Lapa, no dia seguinte em que Jandira Feghalli, secretária de Cultura da prefeitura do Rio de Janeiro, desmarcou de última hora uma reunião que Alfredo havia marcado para tentar intermediar um diálogo entre vocês. O argumento dela para desmarcar a reunião virou até uma brincadeira entre nós: “Estou irredutível: o outro royalties movimentaram políticos, empresários e a sociedade civil e ainda prometem ser combustível para muitas outras negociações.
O percentual de 0,6% do Orçamento da União destinado ao Ministério da Cultura em 2008 dá a dimensão do problema.
Sem dinheiro em caixa, a Cultura se submete à lógica de mercado e as obras artísticas ao valor de troca. Como no exemplo do pré-sal, a Cultura precisa de aplicações de recursos a longo prazo. E a constituição de acervos artísticos ainda é um dos investimentos de mais alta rentabilidade no patrimônio cultural.
A preservação do trabalho de Helio Oiticica, a guarda de importantes bibliotecas que acabam vendidas para o exterior e uma política eficiente de aquisição de obras de arte contemporâneas – um campo ainda mais sensível pela falta de tempo de divulgação e de reconhecimento – esbarram na mesma barreira monetária. O resto é enxugar gelo. Ou apagar incêndios.
Mauro Trindade é jornalista especializado em literatura e artes plásticas.
lado é irredutível”. Seria engraçado, se não fosse triste. Conversamos longamente com Alfredo sobre a proposta de criação de um Museu na Rua Passos, no lugar onde era a primeira escola de artes plásticas do Brasil e que hoje hospeda tristemente um estacionamento.
Daí, na quinta-feira, em almoço com Carlos e João Vergara e José Bechara, pude ver novamente a sua generosidade, ao falar para eles que não interessava um Museu apenas para o Hélio Oiticica, mas um trabalho coletivo com artistas contemporâneos.
Ontem, quando conversamos, fiquei orgulhoso da sua força: cabeça erguida, disse que a obra do Hélio não morreu e será reconstruída.
E que temos que seguir em frente. Assim faremos, pode contar comigo para tudo o que puder ajudar. E gostaria de deixar claro aqui a minha admiração pelo seu trabalho e pela sua pessoa. O que aconteceu com o acervo Oiticica é uma tragédia espetacular, mas há tantas outras tragédias silenciosas acontecendo. Outro dia, visitando a casa de um importante artista plástico da geração de Hélio, senti um forte cheiro de vinagre.
Perguntei, e a resposta foi: “são os meus super-8, que estragaram”.
Acervos não apenas de artes plásticas, mas de todas as áreas culturais, estão se deteriorando dentro das casas e ateliês, sem nenhum trabalho sério das instituições para reverter isso. Não conheço outro artista que tenha recebido no Brasil a seriedade do tratamento que Hélio recebeu da sua família. A fatalidade não pode apagar isso, mas espero que seja um aviso para que não ocorram outras.
Com toda amizade, Sergio Cohn
Sergio Cohn é diretor da Azougue Editorial
outubro 20, 2009
Texto de Glória Ferreira sobre o incêndio do acervo Oiticica
2009 seguia seu curso, praticamente afásico em relação aos 50 anos da primeira exposição do Neoconcretismo − salvo uma pequena e quase inexpressiva mostra no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro − quando as obras de Hélio Oiticica se esfumaçam... provocando um choque nesse torpor, embora as palavras ainda não encontrem sintaxe passível de expressar esse gigantesco vazio.
Já há algum tempo sucedem-se comentários descabidos, ressentidos, de críticos e por vezes de artistas, até mesmo cariocas, sobre a possível usurpação da projeção de Hélio Oiticica e de Lygia Clark sobre a arte brasileira contemporânea. Situação reveladora de nossa incapacidade de incorporar criticamente a memória ao presente e, assim, absorvê-la, enriquecendo a reflexão sobre a produção atual e também histórica no Brasil. Se é bem verdade que às vezes o reconhecimento internacional da força da obra desses dois artistas tenda a tudo agregar ao neoconcretismo, não é menos verdade que essa aceitação fortalece o solo histórico em que se constituíram ao lado de muitos outros artistas e tendências, deslocando a percepção da produção de arte brasileira como sucedâneos, fissurando, de certo modo, o hipotético universalismo da narrativa historiográfica da arte ocidental.
Mas Parangolés, Grande Núcleo, Bólides, Maquetes e muitas outras obras hoje são restos queimados, cinzas. Catástrofe que se abate sobre um projeto que ao longo de 27 anos, por relações familiares e de amizades, assegurou a presença da obra de Hélio Oiticica no mundo, disponibilizou documentos e outros materiais para pesquisas, revelando-se, contudo, incapaz, em termos privados, de assegurar sua preservação. Catástrofe que é de todos nós e da cultura em geral, e cuja responsabilidade maior é do poder público brasileiro, inoperante na constituição de coleções públicas. Boa parte dessas obras deveria estar em museus brasileiros, com salas especiais. Coleções não apenas de suas obras, mas conjuntos que permitissem romper a permanente invisibilidade de que padecemos de nossa própria história e que se soma à invisibilidade dos trabalhos de arte internacional. Cabe lembrar que a proposta da Prefeitura do Rio de Janeiro de assegurar lugar para a obra de Oiticica com a criação do Centro de Arte Hélio Oiticia revelou-se de profunda incompetência em seus jogos de poder.
Do incêndio do MAM-RJ, em 1978, a herança revebera até hoje como perda de um lugar central da arte contemporânea na cidade. Lugar que foi de encontros e de presença de uma coleção pública, e, desde então, vem sendo de sucessivas tentativas de recuperação. Se esse incêndio nos privou de obras, entre muitos outros, de Mondrian, Picasso, Magritte e dezenas de trabalhos de Torres Garcia, não deixemos silenciar sua proposta de resistência cultural e poética – “Nosso norte é nosso Sul”. Já é hora também de transformarmos o célebre grito de alerta de Hélio Oiticica, “Da adversidade vivemos”, em estratégia, parafraseando-o, “de caracterização de um povo”.
A ação de sua arte no mundo será, helàs, para sempre inseparável da dor.
Glória Ferreira
Tragédia e trauma por Márcio Doctors, O Globo
Matéria de Márcio Doctors originalmente publicada no segundo caderno do jornal O Globo em 20 de outubro de 2009.
Quando soube da tragédia que havia acontecido com a obra de Hélio Oiticica, estava em Porto alegre, na Bienal do MercoSul, durante o café da manhã do hotel. Vários artistas, diretores de museus, críticos, curadores e produtores estavam reunidos tomando o café da manhã juntos e fomos todos surpreendidos pela notícia e tomados pela perplexidade. Uma sensação de irrealidade: aquilo não poderia estar acontecendo! Não era verdade! De repente, de uma hora para outra, estávamos órfãos da obra do maior artista brasileiro do século XX. Não dava para acreditar.
A imagem da dor da perda de César Oiticica e de seu filho Cesinha não me saia da cabeça. Tampouco a frase enunciada por César Oiticica de que sentia que havia fracassado no seu objetivo maior que era de conservar e divulgar a obra do irmão não parava de repercutir dentro de mim. Ao mesmo tempo me veio a idéia de Édipo. Havia algo de edipiano nas circunstâncias que tramaram essa tragédia. Por mais que o Rei Laio tenha procurado evitar que a advertência do oráculo se realizasse, de que seria assassinado por seu próprio filho Édipo, ordenando a um empregado que abandonasse o recém-nascido até a morte; não conseguiu despistar a realidade porque o empregado não cumpriu sua ordem, entregando Édipo a estrangeiros que cuidaram da criança. Édipo salvo, volta adulto a Delfos, e por uma disputa pela prioridade de passagem num desfiladeiro estreito, mata Laio, ignorando que era seu pai.
O que me chama atenção no mito de Édipo é que, apesar de todas as precauções de Laio em evitar que acontecesse o que havia sido previsto pelo oráculo, ele não consegue evitar o anunciado através de sua ação e o que temia se realiza. Da mesma forma, apesar do enorme empenho da família Oiticica, através do projeto H.O. em lutar árdua e heroicamente, contra as adversidades e dificuldades em conservar e cercar de todos os cuidados e dar a dimensão que a obra de Hélio Oiticica necessita e merece, o objetivo não foi alcançado. O que se temia, aconteceu. Da mesma forma, mantendo a analogia com o mito de Édipo, Laio foi morto porque quem o poderia ajudar no seu intento, o traiu: a sociedade brasileira traiu a obra de Helio Oiticica e não foi verdadeiramente solidária e conseqüente no esforço de conservação que a obra requeria. É uma perda dolorosa e traumática. A elite financeira e o governo não foram suficientemente sensíveis e responsáveis para perceber a dimensão do que é cuidar de um bem cultural da importância da obra de Helio Oiticica e a abandonaram a sua própria sorte.
Outra analogia se tornou inevitável, já que me encontrava em Porto Alegre: essa é a única cidade que foi capaz de juntar os poderes público e privado para proteger de maneira profissional e conseqüente a obra de um artista; a de Iberê Camargo.O Museu Iberê Camargo é o resultado de um esforço coletivo de uma mentalidade pouco comum entre nós, de que a obra de um artista atravessa os limites de sua existência física e passa a ser o centro irradiador de uma presença espiritual capaz de influenciar e determinar a vida de uma comunidade e gerar riqueza capaz de realimentar a economia. A consciência da importância de conservar e patrimonializar o bem cultural está no fato de que ele é capaz de ser um farol que ilumina a direção material e espiritual de uma sociedade. Tanto isso é verdade, que Porto Alegre tem conseguido nos últimos anos se firmar como um centro de excelência em arte visuais do Brasil, tendo hoje além do Museu Iberê Camargo, a Bienal do MercoSul que se destaca pela sua qualidade e competência.
Na mesa do café da manhã, em meio a indignação coletiva, Ernesto Neto me disse que Hélio havia morrido duas vezes. Não temos como discordar. Mas diria que Hélio também nasceu duas vezes. Ou melhor, foi capaz de fundar duas vezes a arte brasileira, de maneira solar como sempre soube ser, iluminando os caminhos. Primeiro ao criar uma obra radical, vigorosa e lúcida, capaz de abrir a passagem para a internacionalização da arte brasileira. E agora, da mesma maneira radical, sua obra nos indica (reafirmando algo que todos sabemos e temos consciência, mas que somos impotentes na medida em que banalizamos a realidade) de que o manter é tão importante quanto o fazer ou o ter. E essa responsabilidade deve ser compartilhada por todos da sociedade, principalmente os que detêm o poder político e econômico. Infelizmente e com muita dor, a obra de Hélio Oiticica precisou ser radicalmente destruída, para nos lembrar a importância do cuidado que devemos ter com tudo na vida de uma sociedade. A destruição da obra do Hélio foi um preço muito alto a ser pago, mas tem a medida do descaso e da irresponsabilidade com que tratamos a nossa memória cultural. Hélio renasceu das chamas para refundar, através do trauma, aquilo que já sabemos: o “Brasil” não pode continuar maltratando o “Brasil”.
Marcio Doctors
Curador da Fundação Eva Klabin e do Espaço de Instalações do Museu do Açude
Ministro refuta críticas sobre inexistência de política de aquisição de acervo por Miguel Conde, O Globo
Matéria de Miguel Conde originalmente publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo em 19 de outubro de 2009.
Juca Ferreira: é “irresponsabilidade” criticar agora o governo
O governo federal vinha conversando com a família de Hélio Oiticica para ajudar na criação de um espaço adequado à preservação da obra do artista. O ministro da Cultura, Juca Ferreira, diz que faltam recursos para a preservação do patrimônio artístico e cultural do país e reage irritado ao questionamento sobre a política de aquisição de acervos do governo: “Dizer nesse momento que não existe política de acervo é uma irresponsabilidade”, afirma por telefone, de Brasília. Criticando a imprensa por se opor às contratações de servidores feitas pelo governo Lula, o ministro diz que na hora da tragédia as pessoas correm para culpar o Estado.
Um comentário feito por críticos e artistas é o de que se houvesse uma política pública de aquisição de acervos...
JUCA FERREIRA: Espera, mas a imprensa não pode acender uma vela para Deus e uma para o Diabo no mesmo assunto. Desde que nós entramos no governo, temos dito que o Estado tem a responsabilidade de proteger nosso patrimônio cultural, tem que racionalizar o uso dos recursos. Não é que não tem política. Isso está na rua há muito tempo. Quando a gente pede recursos para política de patrimônio, acervo e preservação aparece gente dizendo um bando de coisas irresponsáveis, que o Estado está inchado. Dizer nesse momento que não existe política de acervo é uma irresponsabilidade.
Mas essa é uma demanda de pessoas do setor.
FERREIRA: Na hora que acontece uma tragédia, as pessoas correm para culpabilizar o Estado. A gente está há sete anos dizendo que o Estado tem que assumir responsabilidade. Não temos excesso de funcionários, pelo contrário. Deve ter em outros lugares, mas aqui falta gente, é um ministério pequeno, esquálido. Nós aumentamos em 1.000% os recursos dos nossos museus, recuperamos boa parte dos nossos museus. Encontramos uma estrutura falida e implantamos um conceito de política pública de cultura.
Qual é o principal entrave para a aquisição de acervos de artistas brasileiros? Esse é então um problema de pessoal?
FERREIRA: Não, não depende de pessoal, depende de recursos. Essa demanda está na rua há muito tempo. Nós estamos perdendo parte da arte contemporânea brasileira e moderna para colecionadores internacionais. Junto ao crescimento econômico e geopolítico do Brasil, há um interesse crescente pela cultura e pela arte brasileiras. Muitos críticos dizem que é o país mais promissor, profundo e diverso na produção da arte contemporânea no mundo, mas estamos correndo perigo de repetir o que acontece no futebol brasileiro: temos os melhores jogadores e a melhor técnica, mas ficamos reduzidos a fornecer mão de obra para jogos na Europa.
E por que o governo não destina mais verbas para isso?
FERREIRA: O Orçamento passa pelo Congresso, que é muito influenciado pela opinião pública. E às vezes a discussão fica colocada de uma forma simplória, atrasada, que acaba nos levando a atrasar muito o processo de criação de uma infraestrutura adequada no Brasil, fica uma discussão da Guerra Fria sobre o estatismo do governo. Nós não somos estatistas. Estou fazendo um convite para superarmos essa guerra de trincheira e fazermos uma pactuação pública pela preservação do nosso patrimônio cultural.
O ministério elaborou algum modelo de gestão para isso?
FERREIRA: Isso terá que ser feito por instituições federais, estaduais, municipais, privadas. O problema não é falta de instituição. O que a gente está precisando é que o Brasil assuma sua responsabilidade diante da sua produção cultural e dos seus artistas. Está tramitando no Congresso uma proposta de emenda constitucional que destinaria pelo menos 2% do Orçamento à cultura. Vejo com muita simpatia essa proposta. Aí, sim, você tem politica de acervo, modernização tecnológica, bolsas para artistas, como há em todos países importantes culturalmente.
O ministério já tinha oferecido alguma ajuda à família de Oiticica?
FERREIRA: Fomos procurados por eles e estávamos conversando há muito tempo. Temos consciência da importância do Hélio Oiticica. Os artistas fazem suas obras para serem expostas, para que tenham um efeito, cumpram um papel. As conversas têm ido muito bem, no sentido de fazer desse acervo um acervo público.
O senhor telefonou ontem para a família de Oiticica. Qual a importância das obras que se perderam?
FERREIRA: Meu primeiro trabalho remunerado foi como monitor da Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia, em 1968, e tomei conta da sala de Lygia Clark, Franz Krajcberg e Iberê Camargo. Junto com a Lygia, o Hélio Oiticica é o grande expoente da revolução estética e cultural que o Brasil viveu nos anos 1960, líder de todo o processo que estimulou o Tropicalismo e tudo que veio depois nas artes brasileiras. Ele merece e precisa ter um tratamento especial, acho que merecia um acolhimento nacional.
Busca nas cinzas por Inês Amorim e Miguel Conde, O Globo
Matéria de Inês Amorim e Miguel Conde originalmente publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo em 19 de outubro de 2009.
Família de Hélio Oiticica vasculha escombros do incêndio à procura de obras.
Com as mãos sujas de fuligem, César Oiticica Filho levanta um papel escurecido pelo fogo, que esconde diversos metaesquemas, inacreditavelmente preservados do fogo que destruiu, na noite de sexta-feira, boa parte do acervo de Hélio Oiticica, no Jardim Botânico. Passado o choque inicial, é hora de tentar resgatar das cinzas, literalmente, o que restou da obra do artista.
Inicialmente, a família estimou que 90% do acervo havia sido destruído.
- Olhando tudo queimado, parecia que não tinha sobrado nada, mas vimos que é possível recuperar algumas obras. Há uns bilaterais que estão chamuscados, mas que podem ser restaurados, assim como alguns bólides, que estão com o vidro rachado, mas podemos fazer outro - conta Oiticica Filho, curador do projeto Hélio Oiticica e sobrinho do artista.
Além dos penetráveis que estão na reserva técnica do Centro de Artes Hélio Oiticica, instalações e maquetes que estavam guardadas na garagem da casa de César Oiticica, irmão do artista, também foram preservadas.
- São peças de madeira crua, náilon, por isso estavam lá enquanto não fazíamos a obra para ampliação da reserva técnica. Além disso, há caixas na sala onde aconteceu o incêndio que ainda não foram abertas, e pode haver algo, embaixo, em bom estado. Uma técnica do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) esteve aqui ontem (sábado) e nos deu algumas boas orientações. Uma delas é não mexer muito nas coisas ainda - afirma Oiticica Filho.
Ele explica que boa parte do material já estava digitalizado, e que, como muitas obras são criadas com base nos projetos, podem ser recriadas. Entre trabalhos conservados está a série “Cosmococas”, cinco projeções feitas em parceria com o cineasta Neville de Almeida, que ganharão ambiente especial no Centro Inhotim, em Minas Gerais.
- O fundamental é que as proporções, as plantas e os projetos foram preservados. Está tudo digitalizado, e é isso que vai perpetuar a obra. O pensamento do Hélio é a parte mais importante de seu trabalho, e isso está preservado - argumenta Oiticica Filho.
Tragédia é incomparável, afirma diretor do MAM
Ainda abalado, o curador alerta que a arte brasileira está relegada a segundo plano.
- Se esta tragédia servir para alguma coisa, que seja para abrir os olhos do poder público para a necessidade de olhar para os acervos inestimáveis dos artistas brasileiros que não estão recebendo a devida atenção - diz o curador.
- A secretária (de Cultura, Jandira Feghali) nunca fez a proposta de comodato, como afirmou à imprensa. Acho deselegante, de muito mau gosto, ela falar isso num momento de luto da arte brasileira.
A diretora do Centro Hélio Oiticica, Ana Durães, reafirmou ontem que há cerca de dois meses, numa reunião com a família do artista, sugeriu o comodato, que teria sido rejeitado. Luiz Camillo Osório, diretor do Museu de Arte Moderna (MAM) - atingido em 1978 por um incêndio que devastou seu acervo - diz que não há na história da arte brasileira tragédia comparável à perda das obras de Oiticica.
- É como se de uma hora para outra se implodisse o Pão de Açúcar. Desapareceu um símbolo marcante da Cultura brasileira. A perda é incomensurável, particularmente dos bólides.
Eles têm uma presença plástica que se perde em qualquer tipo de réplica. Temos que repensar tanto o financiamento público quanto a participação da própria sociedade nos museus. Isso tudo mostra o descaso da sociedade brasileira com seu patrimônio.
O secretário-executivo do Ministério da Cultura, Alfredo Manevy, admite que são muitos os artistas brasileiros contemporâneos que armazenam suas obras no próprio ateliê, por falta de espaços adequados. Em janeiro, reportagem do Segundo Caderno mostrou a luta dos herdeiros de Franz Weissman para preservar o acervo do escultor, hoje guardado precariamente num galpão em Ramos. O governo, diz Manevy, tem tido conversas preliminares com a família de Oiticica e outras para criar um museu dedicado à arte contemporânea do país.
- O ministro espera receber a família em breve para uma conversa, podemos buscar recuperar parte do que foi destruído.
A Eternidade de Hélio Oiticica por Dodô Azevedo, Dodomundi
A Eternidade de Hélio Oiticica
Artigo de Dodô Azevedo originalmente publicado no blog Dodomundi em 17 de outubro de 2009.
Esse posto,s premiadas no centro. E ironizou a declaração da secretária de que, na França, o Estado tem prioridade na compra da obra quando um artista morre: "Quem dera que o Brasil fosse como a França. Acredito que a Jandira quase nunca deva ir a exposições."
O ex-prefeito Cesar Maia respondeu que Jandira "está tentando fugir das responsabilidades que são dela por não renovar o contrato".
Irmão do artista e pai de Cesinha, César Oiticica passou o dia tentando recuperar peças no local do incêndio, com representantes do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). "Eu não entendo o que ela (Jandira) diz. Ela fala coisas que não confirmo. As pessoas que são verdadeiramente ligadas às artes chegam aqui e choram quando veem o que aconteceu. O resto é o resto."
Hélio Oiticica, que morreu em 1980, se notabilizou por deixar os quadros de lado, criando penetráveis (obras em que as pessoas podem entrar) e parangolés (obras para vestir). Foi um dos inspiradores do movimento musical tropicalista.
ACUSAÇÕES
Jandira Feghali
Secretária de Cultura
"Perdemos um acervo por uma atitude fechada do herdeiro"
César Oiticica Filho
Curador do Projeto Hélio Oiticica
"É impressionante como ela mente"
outubro 19, 2009
Hélio Oiticica e a cultura dos escombros por Daniela Name, Pitadinhas
Hélio Oiticica e a cultura dos escombros
Artigo de Daniela Name publicado originalmente no blog Pitadinhas em 18 de outubro de 2009.
Passei o dia de ontem em clima de velório, recebendo ligações de artistas que, aos prantos, me passavam relatos dos escombros do incêndio que destruiu boa parte da obra de Hélio Oiticica, na reserva técnica mantida por seus herdeiros numa casa no Jardim Botânico. Alguns, como a querida Suzana Queiroga, foram até a casa chorar pelo morto. Sim, a destruição da obra de Hélio foi sua a segunda morte e, em se tratando de um artista, a extinção de sua anima, morte definitiva.
Mesmo em meio ao luto, é preciso evitar que novas tragédias aconteçam. Ontem, ao acordar com a notícia, escrevi neste blog que obra de arte não pode ser tratada como álbum de família (veja aqui). Continuo achando a mesma coisa – há muito o que se discutir e regulamentar em relação ao papel dos parentes dos artistas na manutenção de acervos e autorizações de curadorias e livros, sem destitui-los dos direitos legítimos que têm como herdeiros.
É preciso, no entanto, avançar na discussão. O fogo que lambeu obras fundamentais como os “Relevos espaciais” ou os caderninhos de anotação de HO – tão importantes para a compreensão de seu trabalho -, destruiu também todos os negativos de José Oiticica Filho, o JOF, pioneiro da fotografia nos anos 1940 e 1950, pai de Hélio e sua maior influência. Mais do que servir para que se crucifique apressadamente a família, o incêndio deve ser um alerta: estamos soterrados por uma cultura de escombros.
O que aconteceu à obra de HO também ameaça, neste exato momento, a obra de inúmeros artistas. Isso ocorre porque a lógica da Cultura no Brasil é completamente torta, precária, tacanha. Vivemos em uma cidade, em um Estado e em um país onde o Poder Público deixa exclusivamente nas mãos das Leis de Incentivo – e, portanto, dos empresários da iniciativa privada – a decisão sobre a aplicação de verbas em projetos culturais.
Produtores, curadores e artistas vivem numa constante corrida do ouro, completamente desvalidos de diálogo, proteção e incentivo DIRETO por parte dos governos. A ação dos administradores públicos na Cultura não é um direito, é um dever. Eles foram eleitos para isso. Por tal motivo, não podem ser interventores nesta atuação: precisam ser sensíveis às demandas.
Se por um lado é espantoso que a família tenha mantido a obra de HO numa casa do Jardim Botânico, por outro é igualmente aterrador que nenhum grande museu do país tenha feito uma proposta concreta – e sustentada pelo poder público – para abrigar a obra do artista em regime de comodato, dando a ela toda a visibilidade e a segurança que um acervo como o de Hélio merecia.
É certo que o Centro de Artes Hélio Oiticica abrigou parte do acervo por um tempo, mas sem as condições necessárias para tal e sem uma política constante de exposições. Se por um lado a família atravancava mostras que não fossem diretamente sobre o acervo de Hélio – um erro absurdo num lugar que abrigou exposições como a de Richard Serra ou o último panorama da obra de Lygia Pape, ricas conversas com o “dono” da casa – por outro o município nunca tratou o CAHO com a prioridade necessária.
Fico pensando no acervo de Franz Weissmann (1911-2005), contemporâneo de HO no Grupo Frente, escultor essencial para a compreensão da arte brasileira recente. Sua obra, parte integrante da paisagem do Rio de Janeiro, graças a esculturas públicas instaladas em pontos como a Rua Luís de Camões ou a Avenida Chile, está ameaçada. Apesar de pedir ajuda a todas as esferas do poder público há anos, a filha de Weissmann, Waltraud, a Wal, luta sozinha com seu marido para preservar a obra do pai. As peças estão armazenadas em condições precárias – de instalações e de segurança – em um galpão em Ramos, na Zona Norte. O GLOBO, maior jornal da cidade, deu uma capa de domingo de seu Segundo Caderno, assinada por Mauro Ventura, denunciando os riscos que a obra de Weissmann corria. De nada adiantou.
Wal também fez muitas reuniões com o Iphan e com a Secretaria Municipal de Cultura, tentando achar um lugar para a criação de um Instituto Weissmann, onde a obra possa ser abrigada e visitada pelo público. Até agora, houve muita conversa, muita promessa de empenho, mas nenhuma ação concreta. No galpão em Ramos, estão esculturas monumentais, peças de menores dimensões e os inúmeros estudos que Weissmann fazia com arame e papelão e revelam a minúcia de seu processo criativo.
Wal não quer vender este tesouro. Não pretende enriquecer com a obra de Weissmann e vive com simplicidade ao lado do marido, gastando suas reservas financeiras para preservar a obra. Afirma que, por não ter filhos, quer dar um destino para o legado do pai. Mas, diz, é claro, que precisa sentir firmeza, precisa se sentir segura. Está certíssima.
Houve uma grande mobilização pela restauração do painel de Aluísio Carvão na Lagoa (leia aqui). A Fundação Parques e Jardins se posicionou, dizendo que ia resolver o problema e conseguiu silenciar o movimento por um tempo. Mas não ouço falar sobre prazos. Quais são, então?
O mesmo Segundo Caderno do GLOBO, em reportagem assinada por Suzana Velasco, mostrou a precariedade das esculturas públicas de artistas da importância de Celeida Tostes, Angelo Venosa, Ivens Machado, José Rezende e Waltércio Caldas espalhadas por vários pontos da cidade. O que vai ser feito?
A secretária municipal de Cultura, Jandira Feghali, a secretária estadual de Cultura, Adriana Rattes, e o Ministro da Cultura, Juca Ferreira, podem alegar que os orçamentos da Cultura são tão baixos que muitas vezes ficam de mãos atadas. Não estarão mentindo. Mas é preciso então que pressionemos os três para que de fato cobrem mais verba de seus superiores. Eles precisam dizer o que têm feito para conseguir mais dinheiro para cuidar de nosso patrimônio. Qual é a estratégia, além das lamentações?
Também é preciso perguntar ao Eduardo Paes: prefeito, o que o senhor pretende fazer com a obra de Franz Weissmann? A escultura pública de Ivens Machado, no Largo da Carioca, vai perecer até começar a soltar pedaços em cima dos passantes?
Escultura de Ivens Machado na Carioca, quando ainda estava em bom estado
Outra pergunta, para Sergio Cabral: o senhor não acha que a construção espetacular do Museu da Imagem e do Som, na Praia de Copacabana, onde hoje funciona a boate Help, deveria gerar uma discussão mais consistente sobre a memória carioca, envolvendo DE FATO a classe artística?
Por fim, para o Juca Ferreira: ministro, como o senhor pretende armar o Iphan de recursos e de uma estratégia concreta para a preservação de nossa memória artística?
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A hora é de luto, mas também de debate e ações efetivas. Não dá mais para ficar lamentando o que não foi salvo no rescaldo. Eu fiz as minhas perguntas, quem vai fazer as suas? E quando vamos perguntar todos juntos?
Obra de arte não é foto de família por Daniela Name, Pitadinhas
Obra de arte não é foto de família
Artigo de Daniela Name publicado originalmente no blog Pitadinhas em 17 de outubro de 2009.
Até quando vamos perder acervos como o de Hélio Oiticica?
Reproduzo abaixo a reportagem do Globo On Line, assinada por Flávia Lima e postada hoje, às 9h41, na home do jornal. Gostaria de, antes de mais nada, manifestar meu pesar e minha solidariedade aos membros da família HO com quem trabalhei e que conheci de perto. Tenho certeza de que a barra está pesada e tomo a liberdade de usar o blog para mandar meu beijo para Janjão e Maria.
Peço licença e até desculpas aos dois, mas acredito que é hora de aproveitar a tragédia e tocar a sério em uma questão espinhosa e delicada.
Boa parte do acervo de Hélio Oiticica, um dos maiores artistas – senão o maior – dos anos 1950 e 1960 da arte brasileira, estava numa casa do Jardim Botânico.
É uma casa comum, onde HO morou – e onde Ferreira Gullar enterrou seu famoso poema. A família Oiticica ainda mora lá, isto é, o lugar onde está a reserva técnica tem duplo uso, é vizinho à esfera doméstica.
A pergunta é: por que este acervo não estava numa instituição? A família recebeu durante anos um fee mensal de R$ 20 mil da Prefeitura, para deixar o acervo no Centro de Artes Hélio Oiticica. Mas há anos, também, o grosso das obras não estava no prédio da Rua Luis de Camões, já que a reserva técnica era erguida paulatinamente no Jardim Botânico. Algumas obras significativas foram vendidas para o Museu de Houston, no Texas, Estados Unidos.
Quando o novo governo assumiu, a Secretaria de Cultura entendeu que não deveria pagar para sediar o acervo. Não renovou o contrato para os R$ 20 mil mensais, mas reiterou a disponibilidade de sediar toda a estrutura do Projeto HO nas dependências municipais. Foi então que o sobrinho de HO, Cesar Oiticica Filho, retirou o que restava das obras no prédio. Ele também alegava, com razão, que estava com o pagamento atrasado por ter produzido duas exposições que estavam em cartaz no Centro, com dois penetráveis do artista. A produção das exposições, feita pela própria família (no valor aproximado de R$ 500 mil) nada tinha a ver com o dinheiro recebido mensalmente da Secretaria. O desembolso era feito à parte, dentro da Lei do ISS. Quando a nova gestão entrou, como sempre ocorre, foram feitas auditorias nas contas. O pagamento atrasou. No poder público, é comum haver atrasos no início do ano, ainda mais em início de gestão. Não é o correto, mas é o corriqueiro – e todo mundo que já trabalhou com dinheiro público sabe disso. Mas Cesinha fechou as portas da exposição, privando o público de ver os penetráveis de HO.
Estava à época dentro da Prefeitura e tentei ajudar na negociação, bastante infrutífera – de ambos os lados, é bom que se diga, para alguma defesa da família. Havia incompreensão de parte a parte, embora tenha havido um esforço hercúleo, feito especificamente pela direção do Centro de Artes, para que os vínculos com a família fossem mantidos.
Já do lado de fora do poder municipal há meses, continuo com a mesma sensação de mal estar que me acometeu na época – e que coincidiu coma polêmica envolvendo a família de Volpi e a exposição organizada por Vanda Klabin no Instituto Moreira Salles.
Admiro o empenho de César Oiticica, irmão de Hélio, e de seu filho Cesinha em preservar a memória de HO. Acho mesmo que a família deve ser cão de guarda desta memória. Mas há limites: obra de arte não é foto de família e não deve ser tratada como tal. Uma parangolé não é uma jóia que se bota no cofre. No caso de HO – e de qualquer outro artista, sobretudo de seu quilate – a memória é da família, mas também de toda uma sociedade.
É claro que prédios públicos também pegam fogo, mas há menos probabilidade e maior vigilância. O que é público pode ter acompanhamento público. O que está numa casa do Jardim Botânico não é velado por ninguém, a não ser por quem mora lá.
É preciso pensar já em leis que regulem esta situação… Ou outros acervos serão perdidos.
A regulação do direito de imagem é outro ouriço: alguns artistas da maior importância para a história da arte brasileira estão deixando de figurar em catálogos e mostras por causa da irredutibilidade dos herdeiros. Mas isso é tema para outra conversa…
A REPORTAGEM DO GLOBO ON
RIO – Um incêndio na casa da família do artista plástico, pintor e escultor Hélio Oiticica no final da noite desta sexta-feira, no Jardim Botânico, Zona Sul, destruiu 90% do acervo das obras de arte do artista, um dos fundadores do movimento neoconcretista. Segundo o arquiteto César Oiticica, irmão de Hélio, cerca de duas mil peças do artista, morto na década de 1980, foram queimadas, num prejuízo estimado em US$ 200 milhões.
Bombeiros do quartel do Humaitá foram chamados para combater as chamas. Ainda não há informações sobre o que pode ter provocado o incêndio. O fogo atingiu uma sala do primeiro andar da casa onde ficavam as esculturas, as pinturas e as instalações do artista. A sala, porém, tem controle de umidade e temperatura. Não houve feridos.
- A cultura brasileira que ficou ferida – disse César Oiticica, desolado.
Segundo o site G1 , os parentes estavam no andar de cima quando sentiram um forte cheiro de fumaça.
- Arrombei a porta para sair a fumaça e a gente entrar e ver o que era, mas já era tarde demais. Já estava pegando fogo em tudo – disse César. – Eu sinto que fracassei, pois desde que me aposentei minha missão era cuidar da obra dele. Eu me sinto péssimo.
Um capítulo-chave da arte mundial por Miguel Conde, O Globo
Um capítulo-chave da arte mundial
Matéria de Miguel Conde originalmente publicada no jornal O Globo em 18 de outubro de 2009.
Críticos e artistas dizem que importância do trabalho vai além do Brasil
O incêndio que destruiu o acervo de Hélio Oiticica transformou em cinzas um capítulo fundamental da arte mundial, disseram críticos e artistas.
— Perdemos um momento-chave da história da arte da segunda metade do século XX — afirmou o crítico Paulo Sérgio Duarte, autor de “Anos 60, transformações da arte no Brasil”. — Já no final dos 1950 e início dos 1960, Hélio Oiticica começa a pensar a arte como criação de ambientes, algo que não era apenas contemplado, mas vivenciado espacialmente, aquilo que mais tarde se chamaria de instalações. Fora isso, com os parangolés ele repensou a questão da escultura, que passou a ser maleável e incorporada ao corpo humano.
O artista plástico Ernesto Neto foi enfático:
— Ele era simplesmente o nome mais representativo da arte brasileira. Um revolucionário da arte mundial. É uma perda enorme, como se ele tivesse morrido duas vezes.
O poeta Ferreira Gullar, um dos criadores do movimento neoconcreto, integrado por Oiticica, diz que as propostas e trabalhos do grupo foram a primeira contribuição realmente original do Brasil à arte mundial. O artista Cildo Meireles concorda:
— Ele é um dos artistas que, a partir da década de 1950, começaram a instaurar uma singularidade que deu uma visibilidade internacional à produção artística no Brasil.
Nos últimos anos, o reconhecimento internacional do pioneirismo e da originalidade da obra de Hélio Oiticica fez com que seus trabalhos fossem integrados a coleções públicas e privadas no exterior. O MoMA, em Nova York, tem em seu acervo 13 criações do artista, doadas por Patricia Cisneros, e a Tate Modern, em Londres, tem nove. Cesar Aché, que por sete anos cuidou das negociações em nome do Projeto Hélio Oiticica, diz que muitos trabalhos do artista foram vendidos:
— Ironicamente, essas vendas, que foram criticadas por tirar os trabalhos do Brasil, acabaram garantindo a sobrevivência das obras.
Em 2007, uma grande mostra de Oiticica foi organizada pelo Museu de Belas Artes de Houston, que trabalhou com a família num projeto de restauração das obras e reuniu trabalhos em poder de colecionadores privados. O museu comprou do brasileiro Adolpho Leirner uma coleção de arte nacional que incluía duas obras de Oiticica. A coleção privada Daros-Latinamerica, em Zurique, tem em seu acervo um bólide (objeto escultural), um metaesquema (pintura abstrata) e um relevo espacial.
No Brasil, o Museu de Arte Moderna tem um bólide e três metaesquemas que fazem parte da coleção Gilberto Chateaubriand, e o Museu de Arte Contemporânea, em Niterói, tem uma pintura a óleo e alguns metaesquemas da coleção de João Sattamini. O Museu do Açude, no Alto da Boa Vista, tem um penetrável da série “Magic Square”, assim como o centro Inhotim, em Minas Gerais, que tem ainda “Cosmococa 5: Hendrix War”, parte de uma série de cinco projeções feita com o cineasta Neville de Almeida, e está construindo um espaço para receber as outras quatro partes.
O artista plástico Waltércio Caldas disse que o percentual da obra de Oiticica destruído pelo fogo lembra a falta de uma política nacional de aquisição e preservação de obras de arte:
— Se tivéssemos mais museus comprando obras para seu acervo, a perda seria menor.
Incêndio destrói 90% da obra de Hélio Oiticica por Eduardo Fradkin e Flávia Lima, O Globo
Incêndio destrói 90% da obra de Hélio Oiticica
Matéria de Eduardo Fradkin e Flávia Lima originalmente publicada no jornal O Globo em 18 de outubro de 2009.
Avaliado em US$200 milhões, o acervo estava na casa do irmão do artista, que tinha sistema anti-incêndio
Um incêndio destruiu pelo menos mil obras do artista plástico Hélio Oiticica — considerado por críticos um dos nomes mais importantes da arte brasileira — na noite de sexta-feira, no Jardim Botânico. O acervo, cujo valor é estimado em US$200 milhões, estava no ateliê localizado no andar térreo da casa do irmão do artista, o arquiteto César Oiticica. Ninguém ficou ferido, mas César estima que 90% da obra de seu irmão tenham se perdido. Ele não soube dizer como o fogo começou, nem por que o sistema anti-incêndio não funcionou. O resultado da perícia é esperado dentro de 30 dias.
A obra do artista plástico estava antes abrigada no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, da prefeitura, mas começou a ser retirada de lá em 2002 pela família, sob alegação de que o prédio não tinha condições básicas de segurança. Mesmo ontem, César reafirmou a crítica:
— Lá, no Centro Municipal de Arte Helio Oiticica, não há controle de umidade e de temperatura, e nem fiscalização. Aqui, a gente tem temperatura de 22 graus e umidade de 50% o ano todo. Lá, não tem nada disso, só ratos e goteiras.
Desenhos e metaesquemas foram preservados
O fogo começou por volta das 22h. O arquiteto contou que jantava com a mulher e um grupo de amigos quando sentiu forte cheiro de queimado vindo do ateliê. Bombeiros do quartel do Humaitá foram chamados para apagar as chamas, que consumiram obras importantes do artista neoconcreto, como os parangolés — esculturas móveis feitas com bandeiras, estandartes ou tendas, para serem vestidas e movimentadas — e os bólides.
— Quando desci, meti o pé na porta para não perder tempo procurando chave. A fumaça preta já tinha se espalhado. Fui procurar o foco, mas meu primo me disse para sair dali. Não deu tempo de fazer nada. O que se perdeu foram 90% do total das obras de Hélio, pois quase tudo que ele fez estava no acervo. A única parte não afetada foi a mapoteca, onde estavam desenhos e metaesquemas. Os escritos dele foram queimados, mas estavam todos digitalizados. Tínhamos feito imagens de todas as obras para digitalizá-las também, e creio que a grande maioria delas tenham se queimado. No entanto, uma boa parte já está no computador, pois eu as vinha mandando para pessoas que pediam. Os parangolés foram totalmente destruídos. Dos bólides, 99% tampouco resistiram ao incêndio — lamentou César.
Segundo ele, os parangolés estavam todos no acervo, exceto dois ou três que Hélio doou para amigos em vida. As pinturas também se perderam. A casa e o acervo que ela abrigava não tinham seguro:
— Fiz um estudo, mas era um valor muito alto, e ficou inviável. Decidimos arcar com os riscos.
Instalações chamadas penetráveis — que têm esse nome porque o público é convidado a entrar nelas — podem ser reconstruídas.
— Penetráveis podem ter réplicas construídas, mas os parangolés, não. Seriam necessários os originais para servirem de modelos. O penetrável “Tropicália” tem três edições, e uma dela está no museu Tate de Londres. Os penetráveis “Nas quebradas” e “Filtro” têm cinco edições. Há vários penetráveis que podem ser refeitos. Outras obras, como relevos e bilaterais, podem ganhar réplicas com fins didáticos — disse César.
Andando pelos escombros, César disse ter visto algumas obras que podem ser recuperadas: um relevo vermelho, uma ou duas bilaterais e o “Projeto Cães de caça”.
Secretaria diz que ofereceu regime de comodato
A secretária municipal de Cultura, Jandira Feghali, lamentou o incêndio e disse, em nota oficial: “Este acervo não estava mais no Centro Hélio Oiticica quando assumimos a Secretaria de Cultura em janeiro deste ano. Apesar dos nossos esforços, não conseguimos trazê-lo de volta em regime de comodato, como acontece com o acervo do colecionador Gilberto Chateaubriand no Museu de Arte Moderna e com o acervo do colecionador João Satamini no Museu de Arte Contemporânea de Niterói. (...) A secretaria já está em contato com o Iphan para conseguir técnicos que ajudem e acompanhem o rescaldo para ver o que pode ser salvo.”.
A diretora do Centro de Artes Hélio Oiticica, Ana Durães, disse que a proposta de deixar o acervo em comodato no centro foi rechaçada pela família Oiticica e que há uma sala trancada a chave à qual ela não tem acesso, onde pode haver obras de Hélio.
— Jandira propôs um comodato, mas a ideia foi rejeitada. Nunca foi feita uma contraproposta. A família queria ter todo o poder sobre a obra, recebia R$20 mil mensais e ainda cobrava pelas exposições.
Do outro lado, César — que recebeu a visita e os votos de solidariedade de Ana Durães ontem — afirma que o motivo da briga foi apenas a falta de estrutura do centro:
— Organização estatal não funciona para abrigar arte. Tínhamos até que botar no preço da exposição os gastos com segurança.
Segundo ele, as obras de uma exposição realizada lá este ano continuam na reserva técnica do prédio da prefeitura.
— Todas as obras da exposição “Os penetráveis” ainda estão na reserva técnica do Centro de Artes Hélio Oiticica. Vamos trazê-las para a casa quando ela for restaurada.
''O Brasil é o único país que não cultua seus gênios'' por Ivan Cardoso, Estado de S. Paulo
''O Brasil é o único país que não cultua seus gênios''
Entrevista de Valéria França originalmente publicada no jornal Estado de S. Paulo em 18 de outubro de 2009.
O cineasta Ivan Cardoso, de 57 anos, realizou o filme HO, documentário sobre Hélio Oiticica, em 1979. Cardoso conheceu Hélio quando o artista foi dar uma palestra no colégio onde estudava, no Rio. A partir daí, viraram amigos. "A terra parou quando entrei pela primeira vez na casa de Hélio. Ele me apresentou um mundo maravilhoso da criação." Ivan avalia o que representa para o Brasil a perda do acervo de Oiticica.
O que significa um incêndio como este?
O Brasil não é um local adequado, pois é o único que não cultua seus gênios. Só aqui acontece um incêndio num acervo desta importância. Até o Museu de Arte Moderna já pegou fogo aqui no Rio.
Mas você diz que o Brasil não cultua seus gênios. Por quê?
Eles ficam esquecidos. Veja, por exemplo, Haroldo de Campos e Torquato Neto.
O que representa Hélio Oiticica para a arte?
Hélio representou na arte um voto de fé, que é o maior dom que Deus deu para o ser humano. Além de ser um grande criador, pensou sobre o processo de criação das artes plásticas. Criar era um veículo de experimentabilidade.
Qual é o melhor exemplo disso?
São os parangolés, que eram capas, estandartes e bandeiras. Eles funcionavam mais no corpo dos sambistas da Mangueira do que estáticos em qualquer outro lugar. Feitos de panos coloridos, que podiam levar retratos ou palavras, que só se revelavam com o movimento. A obra passava a existir plenamente neste momento, quando estava no corpo de alguém.
Como você ficou amigo de Hélio Oiticica?
Ele era acessível, muito democrático. Tinha mais chance com ele um pobre do que um rico. Quando reconhecia o talento e a criatividade, adorava incentivar. Foi o que fez comigo. Foi por causa dele que me descobri como artista.
Há 31 anos, o modernismo em cinzas, no MAM por Luiz Horta, Estado de S. Paulo
Há 31 anos, o modernismo em cinzas, no MAM
Matéria de Luiz Horta originalmente publicada no jornal Estado de S. Paulo em 18 de outubro de 2009.
A perda de acervos é parte da história cultural, não sendo triste exclusividade carioca. Mas fogo e arte parecem manter uma relação constante no Rio. Trinta e um anos passados, na madrugada de 8 de julho de 1978, um incêndio destruiu as mais de mil obras do acervo do Museu de Arte Moderna. Sobraram 50 trabalhos, as paredes calcinadas do projeto modernista de Affonso Eduardo Reidy e os jardins de Burle Marx. Algumas obras muito danificadas foram posteriormente restauradas, como uma escultura de Constantin Brancusi e umas poucas salvas, caso de uma tela de Jackson Pollock. Desapareceram irreversivelmente telas de Picasso, Miró, Magritte e de todos os artistas brasileiros representativos na época, como Di Cavalcanti e Portinari.
O mais terrível foi a destruição da quase totalidade da vida artística do mais importante pintor uruguaio, Joaquín Torres-García. Uma grande retrospectiva de seu trabalho estava montada no museu e dela nada sobrou. A perda representou 90% do que o artista produzira e quase gerou um incidente diplomático. O Museu Torres-García em Montevidéu exibe atualmente réplicas fotográficas de seus trabalhos.
O laudo sobre as causas do incêndio foi ambíguo, teria começado numa faísca gerada por curto-circuito e só foi percebido pelo vigia às 3 da manhã. O único extintor de incêndio existente no lugar não funcionou. Os bombeiros, quando chegaram, enfrentaram problemas de água para abastecer suas mangueiras. Em 1993 o MAM-Rio foi reinaugurado, com doações, principalmente da coleção Gilberto Chateaubriand. No acervo atual, felizmente, há obras de Hélio Oiticica.
Incêndio destrói acervo de Oiticica por Adriana Chiarini, Estado de S. Paulo
Incêndio destrói acervo de Oiticica
Matéria de Adriana Chiarini originalmente publicada no jornal Estado de S. Paulo em 18 de outubro de 2009.
Fogo em casa no Rio destrói pelo menos mil obras do artista, com prejuízo estimado de US$ 200 milhões
Pelo menos mil obras do artista plástico Hélio Oiticica foram destruídas por causa de um incêndio na noite de sexta-feira que atingiu o primeiro andar da casa da família, no Jardim Botânico, zona sul do Rio. Lá estavam as peças do acervo (estima-se que 90% dele) do Projeto Hélio Oiticica e nada se salvou. O prejuízo é estimado em US$ 200 milhões pelo arquiteto César Oiticica, irmão do artista, que mora no segundo andar da mesma casa, e não tem seguro das obras. "Fracassei. Minha missão depois que me aposentei era cuidar da divulgação e da guarda da obra dele. Me sinto péssimo", disse.
César, que se preparava para mudar para a casa ao lado na semana que vem e deixar os dois andares de sua casa atual para a obra do irmão, estava jantando com a mulher e um casal de amigos no segundo andar no momento do incêndio. "De repente, lá para as 11 ou 11h30 da noite, ouvimos um estouro. A empregada subiu correndo, dizendo que tinha fumaça. Corri para cá e já estava tudo pegando fogo", contou ele, na entrada da casa, na manhã de ontem.
Nenhum dos cinco presentes se feriu. Mas a tragédia abalou emocional e financeiramente a família. "O Hélio foi um dos artistas plásticos mais importantes da segunda metade do século 20", afirmou o irmão, sem conter as lágrimas.
Nascido em 1937 e morto em 1980, Hélio Oiticica tirou a pintura do quadro para o espaço. Foi um precursores das atuais instalações, ao criar os penetráveis, em que as pessoas entravam nas obras, e os parangolés, "obras para se vestir e dançar dentro delas", na descrição do irmão.
Uma das obras que se salvou foi o Penetrável Tropicália, um dos marcos do movimento Tropicalista do fim dos anos 60, que na música teve a participação de Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros. O original está no Centro Municipal de Arte Contemporânea Hélio Oiticica, na Praça Tiradentes, centro do Rio. "Lá ainda tem umas obras que íamos trazer para cá", contou César Oiticica, referindo-se à casa do Jardim Botânico.
A secretária municipal de Cultura, Jandira Feghali, divulgou nota, dizendo que tentava levar o acervo para o Centro. "Este acervo não estava mais no Centro Hélio Oiticica quando assumimos a secretaria, no início de janeiro, e, apesar de nossos esforços, não conseguimos trazê-lo de volta, em regime de comodato, como acontece com o acervo do colecionador Gilberto Chateaubriand, no MAM, e com o do colecionar João Satamini, no Museu de Arte Contemporânea de Niterói", diz a nota, que lamenta a perda da obra de um artista tão importante. A secretária também pede a apuração das causas do incêndio e informa que pediu ajuda ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para a recuperação do máximo possível.
O sobrinho do artista e curador do Projeto Hélio Oiticica, César Oiticica Filho, ficou revoltado com a manifestação da secretaria, de que tentava levar de volta as obras para o Centro. "Seria cômico, se não fosse trágico." O coordenador de Artes Visuais da Funarte e do Ministério da Cultura, Chico Chaves, amigo da família, disse que a Secretaria Municipal da Cultura achava muito caro conservar o acervo.
A família considerava mais seguro deixar as obras no primeiro andar da casa, onde havia equipamentos de controle de umidade e temperatura, do que no Centro. No primeiro semestre, uma exposição do Centro Municipal foi interrompida e parte das obras foram levadas pela família para a casa. A secretaria preferia ter as obras no Centro, mas não queria pagar por elas além do que já despendia com um custo alto para guardá-las.
Meta do artista era buscar uma estética nacional
Matéria originalmente publicada no jornal Estado de S. Paulo em 18 de outubro de 2009.
Se você já ouviu tantas vezes a palavra Tropicália associada a um momento peculiar da cultura brasileira, isso se deve ao genial Hélio Oiticica.
Na exposição Nova Objetividade Brasileira, no Museu de Arte Moderna (MAM), do Rio, em 1967, ele instalou nos jardins um ambiente (ou penetrável) chamado de Tropicália, um labirinto similar à estrutura arquitetônica improvisada das favelas. O público caminhava descalço, pisando em areia, brita, água, convivendo com plantas, pássaros, poemas-objetos e, no fim, se defrontava com um televisor ligado. Oiticica iniciou o confronto da arte brasileira com os movimentos artísticos mundiais. Sua meta era a busca de uma estética nacional. Nascia um Brasil de vanguarda.
Assim Oiticica, que morreu em 1980, após um acidente vascular cerebral, explicava sua forma de pensar a arte em seu tempo: "Como cheguei a isso é uma longa história. A descoberta no morro da favela carioca, do bas-fonds do Rio e minha iniciação no samba como passista da Mangueira foram um processo propositalmente anti-intelectual. Enquanto muitos sonhavam com Paris, Londres, Nova York, eu me dedico ao que chamo de volta ao mito. Longe de ser uma atitude intelectual, abstrata. Foi uma experiência decisiva no contexto da cultura brasileira, a descoberta de forças expressivas latentes nesse contexto. Não acredito numa arte cosmopolita. Para ser universal, só desenvolvendo nossa própria capacidade expressiva: a dança, o rito, as manifestações populares, o tropicalismo brasileiro, as festas coletivas. Nossa pobre cultura universalista, baseada na europeia e americana, deveria voltar-se para si mesma, procurar seu sentido próprio, voltar a pisar no chão, a fazer com a mão, voltar-se para o negro e o índio, à mestiçagem: chega de arianismo cultural no Brasil."
Oiticica rompeu com a ideia de contemplação estática de uma obra. Em vez disso, propôs a apreciação sensorial mais ampla da obra, por meio do tato, do olfato, da audição e até do paladar. São famosos os seus Penetráveis, criados para ser vivenciados pelo espectador. Os primeiros parangolés eram capas para se jogar sobre o corpo, feitas com materiais de tendas, estandartes e bandeiras. Ele as definia como "antiarte por excelência".
Neto de José Oiticica, anarquista, professor e filólogo, Hélio nasceu em 26 de julho de 1937 no Rio. Em 1959, fundou o Grupo Neoconcreto, com artistas como Amilcar de Castro e Lygia Clark. Em 1965, começou carreira internacional, na exposição Soundings Two, em Londres, ao lado de obras de Duchamp, Klee, Kandinski, Mondrian e Léger.
Em 1967, iniciou as propostas sensoriais, como os bólides da Trilogia Sensorial. Em 1972, passou a usar o formato Super-8 para fazer filmes, na proposta experimentalista que regeu sua vida. Em 1979, fez seu último penetrável, Azul in Azul. Nesse mesmo ano, Ivan Cardoso realizou o filme HO, sobre a obra do artista. Em 1981, é criado o Projeto Hélio Oiticica, para preservar, analisar e divulgar sua obra. Entre 1992 e 1997, o Projeto HO realiza uma mostra retrospectiva por Roterdã (Holanda), Paris (França), Barcelona (Espanha), Lisboa (Portugal), Minneapolis (EUA) e Rio.
Em 1996, é fundado o Centro de Artes Hélio Oiticica, para abrigar o acervo do artista e disponibilizá-lo ao público. Em 2007, outra mostra, a Hélio Oiticica: The Body of Color, viaja por países como EUA e Inglaterra.
Obra não era preservada como merecia por Fabio Cybriano, Folha de S. Paulo
Obra não era preservada como merecia
Análise de Fabio Cybriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 18 de outubro de 2009.
Por mais triste, lamentável e trágica que possa ser, a perda de praticamente todo o acervo do artista Hélio Oiticica representa, finalmente, o fim do fetiche pelo material em suas obras e a libertação de suas ideias.
Oiticica foi um dos mais originais e importantes artistas do século 20. Sua defesa em romper os limites entre arte e vida foi das mais radicais, mas apenas nos últimos 20 anos passou a ter o merecido reconhecimento e repercussão.
Dois momentos fundamentais nesse percurso foram a Documenta, em Kassel (Alemanha), em 1997, que mostrou muitos de seus projetos e obras, e a 27ª Bienal de São Paulo, em 2006, organizada por Lisette Lagnado a partir de conceitos do artista, mas que já nem exibiu objetos do artista, para atestar que suas ideias estavam proliferadas no circuito da arte.
No entanto, enquanto suas ideias ganhavam importância, um certo desvio de suas propostas também crescia. Oiticica queria que os Parangolés, um de seus mais importantes conceitos, que tinham nas capas uma de suas materializações, fossem usados por todos.
No entanto, o fetiche pelo original -que em seu caso é o menos importante, acabou dominando e em muitas mostras essas capas eram vistas penduradas como tristes espectros de algo muito mais vital.
Do ponto de vista do mercado, algo semelhante ocorria. As obras passaram a subir de preço exponencialmente, enquanto para o artista, durante sua vida, isso não era o fundamental, e seu trabalho passou a ser engessado naquilo que justamente ele criticava: o objetual.
Claro que é inacreditável que tudo tenha se esvaído dessa forma, até porque é a segunda vez que um incêndio destrói um acervo importante no Rio: foi assim que grande parte da coleção do Museu de Arte Moderna do Rio foi perdida, em 1978.
Claro que é lamentável que o precioso acervo de Oiticica não estivesse preservado da forma como merecia, numa instituição, mesmo que já existisse o Centro de Arte Hélio Oiticica, criado pela Prefeitura do Rio, palco de recentes polêmicas.
Durante um bom tempo, parte do que se queimou esteve lá armazenado e poderia estar a salvo. Mas isso faz parte da precariedade institucional que é típica no Brasil e das dificuldades que envolvem herdeiros em casos do tipo.
Recentemente, o Ministério da Cultura havia iniciado contatos para a criação de um museu Hélio Oiticica. Mas, essa institucionalização, se por um lado seria fundamental para preservar sua memória, poderia representar um risco ao institucionalizar sua obra, algo sempre contestado pelo artista.
Em Porto Alegre, artistas que participam da 7ª Bienal do Mercosul lamentavam ontem a perda desse acervo, mas também comentavam que parecia ser uma estranha vingança pelo tratamento que sua obra vinha ganhando.
Agora, se já não há mais original, então todos podem criar seu Parangolé. Felizmente, grande parte de seu acervo foi digitalizado e encontra-se disponível no site do Itaú Cultural, num dos mais importantes projetos de memória da arte brasileira. Os originais -e são milhares deles, pois tudo o que Oiticica pensava era obsessivamente descrito em seus cadernos- podem estar queimados, mas conseguiram sobreviver na internet, onde todos podem ter acesso, como o artista queria que fosse sua obra.
REPERCUSSÃO
"Oiticica é tudo. Estou em estado de choque. É uma fatalidade"
LISETTE LAGNADO
curadora da 27ª Bienal
"É uma perda lastimável para se entender a arte internacional. Oiticica deixou as fronteiras da arte brasileira"
TADEU CHIARELLI
curador e professor da USP
"É como se um pedaço de cada artista brasileiro tivesse se incendiado também. É uma tragédia cultural"
CILDO MEIRELES
artista
"A única forma de sair dessa tragédia é replicar as obras conceituais"
ROBERTO AGUILAR
artista plástico
"Não sei quais eram as condições da casa. Vamos pedir um laudo para fazer um diagnóstico"
JOSÉ DO NASCIMENTO JÚNIOR
presidente do Instituto Brasileiro de Museus, ligado ao MinC
"É desastroso. Mais um fato que mostra como é frágil a relação entre o privado e o público. Por que as famílias têm tanto poder sobre o legado de um artista já morto?"
MARTIN GROSSMANN
diretor do Centro Cultural São Paulo
"O lamentável nesse incêndio é que destruiu uma das contribuições mais originais, inventivas e audaciosas da arte brasileira"
FERREIRA GULLAR
poeta e companheiro de Oiticica no neoconcretismo
"Acho lamentável. O Hélio tem uma importância fundamental"
LEDA CATUNDA
artista plástica
Incêndio destrói centenas de obras de Oiticica por Caio Barreto Briso, Folha de S. Paulo
Incêndio destrói centenas de obras de Oiticica
Matéria de Caio Barreto Briso originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 18 de outubro de 2009.
Acervo estava na casa do irmão do artista, no Rio; César Oiticica estimou o prejuízo em cerca de US$ 200 milhões
Parangolés, bólides e bilaterais, alguns dos destaques da produção do artista, estão irrecuperáveis; obras não tinham seguro
Um incêndio destruiu grande parte do acervo do artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980) que estava na casa de seu irmão, César, no Jardim Botânico, zona sul do Rio.
Segundo César Oiticica, que dirige o Projeto Hélio Oiticica, instituição criada em 1981 para cuidar de trabalhos do artista, o acervo da casa destruída reunia mais de mil obras -centenas foram queimadas. Ele estima a perda em US$ 200 milhões (R$ 342 mi). Não havia seguro.
Conhecido e admirado internacionalmente, Hélio Oiticica é um dos mais importantes artistas brasileiros do século 20.
Ligado às tendências construtivas que o tornaram um dos principais nomes do neoconcretismo entre o final dos anos 1950 e o começo dos 60, seus trabalhos tinham ênfase entre arte e vida e pediam a participação do público -como a instalação "Tropicália", exibida inicialmente em 1967 e que consistia em um ambiente tropical vivenciado pelo espectador.
A casa abrigava pinturas, desenhos e toda a obra concebida nos anos 1960. Parangolés, bólides e bilaterais, um dos destaques da produção do artista, estão em estado irrecuperável.
Os penetráveis, obras maiores de Oiticica, que integraram a exposição "Penetráveis", no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, no centro do Rio, permaneceram no espaço e foram salvos. Os que estavam na casa foram destruídos parcialmente. Os desenhos foram encontrados em bom estado.
O incêndio
O fogo começou por volta das 23h de sexta-feira. "Eu estava jantando com amigos quando ouvimos um barulho estranho no primeiro andar da casa", disse César Oiticica. O Corpo de Bombeiros chegou 20 minutos depois e teve dificuldades para controlar o fogo. "Tiveram que pegar água da piscina do meu vizinho", afirma.
Os bombeiros só conseguiram apagar totalmente as chamas por volta de 2h30 de sábado. A casa tinha um alerta de fumaça, que tocou apenas quando as chamas já haviam se espalhado. As cinzas do primeiro andar, onde ficava a reserva técnica que guardava a obra de Oiticica, estão sendo removidas para que os danos possam ser avaliados.
Chorando várias vezes durante a entrevista à Folha, César Oiticica disse que irá se dedicar a restaurar o que for possível. "A vida do meu irmão estava naquela casa. Cada obra tinha um valor especial."
Segundo ele, a parte do acervo que se encontra no Centro Hélio Oiticica seria levada para a casa do Jardim Botânico em novembro. "O Centro, por responsabilidade das administrações públicas passadas, tem problemas de umidade e segurança. Além disso, o ar condicionado frequentemente não funciona", afirma, justificando a permanência das obras na casa do Jardim Botânico.
Em nota, a secretária de Cultura do Rio de Janeiro, Jandira Feghali, lamentou o incêndio. Ela disse que tentou levar o acervo da reserva técnica para o Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, mas não conseguiu. Artistas, amigos da família, estudantes de arte e admiradores da obra de Hélio Oiticica já foram visitar a casa. "Todos chegam aqui chorando", disse César. A Tate Modern, em Londres, e o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa), por exemplo, são duas instituições que possuem obras de Oiticica.
A crítica Lélia Coelho Frota, que não sabia do incêndio, ficou desolada com a notícia. "O percurso do Hélio como neoconcretista é único. A perda de parte do seu acervo é irreparável para a cultura brasileira."
