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outubro 8, 2009
Trilha sonora em mostra no MAM contraria curador por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 8 de outubro de 2009.
Quando concebeu o 31º Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, o curador Adriano Pedrosa decidiu não apresentar artistas brasileiros, gerando polêmica no circuito.
Em vez de artistas brasileiros, o curador pretendia apresentar artistas que trabalham com a cultura brasileira. Depois, chegou a incluir uma brasileira, a mineira Tamar Guimarães, que vive em Copenhague, na Dinamarca, e nunca tinha sido vista aqui.
Anteontem, a mostra --que foi inaugurada no último sábado-- incorporou vários brasileiros, à revelia de Pedrosa: uma trilha sonora de músicas dos tropicalistas Caetano Veloso e Gal Costa, ou canções de bossa nova, entre outras, podia ser ouvida ao longo de todo o percurso da exposição.
"Soy Loco por Ti America", de Capinan e Gilberto Gil, na voz de Caetano, por exemplo, era a música que tocava, anteontem, por volta das 17h.
"Será que é alguma sabotagem?", comentou Pedrosa, quando soube da trilha musical, ontem pela manhã, por meio da reportagem.
"No domingo, alguém escreveu "Ianques go home", com i mesmo, justamente ao lado da Tamar, a única brasileira da mostra", disse o curador.
DJ
Segundo a Folha apurou, a ideia de ter trilhas sonoras nas exposições partiu da presidente da instituição, Milú Villela, e levou o MAM-SP a ter um projeto denominado "DJ Residente", para sonorização de espaços do museu.
No sábado, durante a abertura, Milú Villela disse à Folha que "em 14 anos de museu, nunca vi uma exposição tão bonita aqui".
Segundo a assessoria de imprensa do MAM, "a equipe do som do auditório do museu colocou a trilha, que foi feita para a abertura, sem consultar o curador". Ontem, depois de procurado pela Folha, Pedrosa pediu para retirar a trilha. "Não quero, até porque há obras que têm música na mostra", afirmou à Folha.
Intitulada "Mamõyguara Opá Mamõ Pupé", que em tupi antigo significa "estrangeiros em todo lugar" e é um trabalho do coletivo francês Claire Fontaine, o Panorama tem cerca de 35 artistas, em sua maioria latino-americanos. A exposição segue até 20 de dezembro.
outubro 7, 2009
"Bienais devem se diferenciar" diz curador por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 7 de outubro de 2009.
A crítica de Rosalind Krauss às feiras não é isolada. "A temporalidade apressada de uma feira de arte é fato incompatível com o tempo estendido que muitas obras requerem para comunicar seus significados. Daí a necessidade de as Bienais reafirmarem sua diferença diante das feiras, propiciando um encontro com a arte de uma ordem distinta", defende Moacir dos Anjos, curador da 29ª Bienal de São Paulo.
Já para Adriano Pedrosa, curador do 31º Panorama da Arte Brasileira, no MAM-SP, "as feiras de arte servem mais ao especialista -o curador, o crítico, o colecionador, que têm um olhar afiado e seletivo, e podem de fato confundir o grande público com a enorme quantidade de informações desencontradas, uma grande cacofonia".
Mas, ressalta Pedrosa, "não devemos esquecer a principal função da feira: o comércio da arte. Nesse sentido, ela não é uma fraude. A função expositiva é desempenhada pela galeria, pelo museu, pela Bienal".
Fernanda Feitosa, diretora da SP Arte, defende o papel das feiras: "As feiras de arte são um veículo importantíssimo de promoção de contato e diálogo de um grande público com um também grande número de galerias e artistas -ao mesmo tempo e num mesmo local. Ao promover esse encontro em maior escala, a feira cria uma oportunidade para o visitante ter contato com a produção artística do mundo todo".
Para uma das organizadoras do simpósio, Daniela Bousso, "as feiras não focam a reflexão sobre a produção artística e seus procedimentos. São, porém, muito importantes para a difusão e ampliação do circuito das artes e sua circulação; cumprem um papel relevante dentro de um dado sistema econômico".
"A arte nas feiras é fraudulenta" diz crítica americana Rosalind Krauss por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 7 de outubro de 2009.
"A arte nas feiras é fraudulenta", diz crítica americana Rosalind Krauss, uma das principais estudiosas de artes visuais hoje, condena espetacularização da obra de arte
Ensaísta virá a São Paulo participar de simpósio no Paço das Artes e abordará trajetória de artistas como a francesa Sophie Calle
No próximo dia 15, o circuito internacional do mundo das artes migra para Londres, onde ocorre a feira de arte Frieze, considerada uma das três mais importantes do planeta, junto com Art Basel, na Suíça, e Art Basel - Miami Beach, nos EUA.
Com 150 expositores, cinco deles brasileiros (Fortes Vilaça, Casa Triângulo, Gentil Carioca, Luisa Strina e Vermelho), o que se vê nelas, segundo a crítica americana Rosalind Krauss é, simplesmente, uma "fraude".
"Eu acredito que a arte promovida nas feiras de arte internacionais é fraudulenta", escreveu à Folha Krauss, que irá abrir, no próximo dia 25, o 3º Simpósio de Arte Contemporânea do Paço das Artes. Ela ministrará a palestra "Reconfigurações no Sistema da Arte Contemporânea" (veja a programação no quadro à esq.). Ainda há vagas para o simpósio. [Canal Contemporâneo informa que as inscrições estão suspensas.]
Há exatos 30 anos, Krauss, 67, publicava um dos mais célebres ensaios sobre arte contemporânea, "A Escultura no Campo Expandido", na revista "October", que ajudara a fundar, em 1976, após ter se firmado como crítica na "Artforum".
No texto, a autora apontava para uma nova forma de realização escultórica para além dos parâmetros modernistas, ruptura histórica que teria sido feita por artistas como Robert Morris, Robert Smithson, Richard Serra, Walter De Maria e Bruce Nauman, entre outros.
No Brasil, a autora, que é professora da Universidade Columbia, em Nova York, desde 1992, tem publicado os livros "O Fotográfico", "Caminhos da Escultura Moderna" e "Papéis de Picasso".
Sua produção mais recente, contudo, de 2004, a antologia "Art Since 1900" (arte desde 1900), realizada em conjunto com Hal Foster, Yve-Alain Bois e Benjamin Buchloh, ainda não foi traduzida. Ao rever a história da arte no século 20, o livro tem o feito inédito de acrescentar os brasileiros Hélio Oiticica e Lygia Clark como protagonistas da cena artística.
Curiosamente, no entanto, Krauss não considera familiar a produção nacional: "Estou ansiosa com minha visita como uma oportunidade em conhecê-la", relatou ela.
Na troca de e-mails com a reportagem, Krauss, que também atua como curadora, contou que a influência do mercado na produção contemporânea será o tema central de sua conferência. Condena as feiras, pois "são puro espetáculo, envolvendo o observador com uma atmosfera sedutora sem demandar atenção ou trabalho por parte do visitante para analisar a habilidade que um trabalho tem em criar significados".
As críticas da norte-americana não se restringem às feiras mas também às "instalações", como são chamadas obras imersivas, onde o público participa de forma coletiva, defendidas pela estética relacional, conceito criado pelo curador francês Nicolas Bourriaud.
"Ao se mover da experiência privada de um trabalho para uma coletiva, a estética relacional simplesmente segue a análise de Marshall MacLuhan em "A Galáxia de Gutenberg", que descreve a superação da privacidade na leitura de um livro pela atividade coletiva de se assistir televisão, o que nós podemos chamar de espetáculo."
A espetacularização da arte, torna-se assim um dos temas que Krauss irá abordar no simpósio. No entanto, a crítica parafraseia Catherine David, curadora da 10ª Documenta, em Kassel, na Alemanha, para afirmar ainda que não crê "na pureza ou na oposição ontológica entre arte e mídia".
"Catherine disse que busca organizar mostras como se fossem filmes, e que quem ainda acredita no "cubo branco" é ingênuo ou estúpido", destaca Krauss. O "cubo branco" é uma expressão desenvolvida pelo crítico Brian O'Dogherty para a galeria, comercial ou de um museu, representar a garantia da autonomia de uma obra de arte, ou seja, sua total separação do mundo fora dele.
Finalmente, como alternativas oferecidas pela arte no início do século 21, Krauss conta que irá abordar o trabalho de artistas como o alemão nascido na República Tcheca Harun Farocki, o norte-americano Christian Marclay e o sul-africano William Kentridge, todos eles vinculados de certa forma ao cinema, e a francesa Sophie Calle, que recentemente mostrou sua instalação "Cuide de Você" em São Paulo.
outubro 6, 2009
FOTOARTE altera o Termo de Cessão do 2º Prêmio
Leia também:
Denúncia sobre irregularidades no prêmio FOTOARTE 2009 por Patricia Gouvêa
Reverberações da matéria publicada no Canal sobre as denúncia de irregularidades no Prêmio Fotoarte
Caros fotógrafos selecionados e premiados do 2º Prêmio FOTO ARTE,
Diante do debate surgido sobre o teor de 2 (duas) cláusulas do Termo de Cessão que lhes foi encaminhado anteriormente, a Organização do Prêmio, após consultas com o corpo de jurados, decidiu alterar o documento, realizando as seguintes modificações que encontram-se abaixo:
1) Será retirada inteiramente a Clausula 4, relativa à montagem das imagens;
2) Será alterada a redação da Clausula 6 que passará a ser 5 e terá o seguinte texto:
“5. O CEDENTE reitera seu aceite formal a todo o teor do Regulamento a que já aderiu de livre e espontânea vontade, ao inscrever-se no Prêmio, e cede os direitos sobre a(s) fotografia(s) à CESSIONÁRIA para que a mesma possa utilizá-las estritamente para divulgação do Prêmio, e à entidade sem fins lucrativos, WWF-Brasil, isentando ambas da obrigação de efetuar qualquer pagamento ao CEDENTE, pelo uso das imagens, que são cedidas, conforme previsto no Regulamento, cujo teor fica inteiramente mantido”.
3) Será alterada a Cláusula 10, reduzindo para 2 (duas) as vias originais a serem enviadas.
4) Todas as cláusulas a partir da Cláusula 4 serão renumeradas.
Informamos que todos os Termos serão substituídos e que a partir do dia 06 de outubro será encaminhado, via e-mail, o modelo modificado para cada um de vocês.
Após o recebimento por correio dos novos Termos, devidamente assinados, os documentos enviados anteriormente serão cancelados, tornando-se nulos e inválidos.
Aproveitamos para lembrar que o cronograma segue como o previsto e que a abertura da exposição será dia 13 de outubro. Contamos com a presença de todos vocês!
Atenciosamente,
Equipe do FOTO ARTE
Reverberações da matéria publicada no Canal sobre as denúncia de irregularidades no prêmio FOTOARTE
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FOTOARTE altera o Termo de Cessão do 2º Prêmio
Email de Patrícia Gouvêa enviado ao canal no dia 6 de outubro de 2009.
Caros amigos,
Acho que agora só mesmo os jornais deveriam debater o assunto... Recebei mais de 100 emails de apoio e acredito que esta seja a maior vitória de todos nós. Abaixo reproduzo o cometário deixado pela fotógrafa Paula Sampaio, de Belém, no blog da Simonetta Persichetti.
Patrícia,
Fico muito feliz com a sua atitude. No geral as pessoas se calam pra não criar antipatias, pra não serem vistas como encrenqueiras e isso acaba validando esse tipo de desrespeito.
Agora mesmo, eu e outros colegas nos recusamos a assinar um contrato que também tinha cláusulas desse tipo e a CESSIONÁRIA teve que aceitar nossas condições.No nosso caso não foi preciso uma briga pública, porque muita gente se posicionou de forma contundente e logo eles perceberam o equívoco.
Mas, isso prova que essa prática e esse tipo de contrato esta se disseminando e a gente tem que agir rápido e de forma efetiva, pra não deixar dúvidas quanto aos nossos direitos. Temos uma lei que nos ampara e também nos responsabiliza por tudo que fazemos e ela tem que ser respeitada.
E nesse caso, creio, é uma briga boa e ampla, porque inclusive os curadores e jurados acabam sendo desrespeitados também, porque o bom nome deles e suas credenciais são utilizados pra dar credibilidade a esses concursos, eventos e outras tantas iniciativas desse tipo.
É isso, vamos à luta. A gente não pode perder de vista que a criação é nossa, é o nosso trabalho, a nossa vida e das pessoas que tornamos visíveis por meio das imagens que fazemos, isso tem que ser respeitado. Inclusive porque nós, que produzimos as imagens ,somos responsáveis perante a lei, pelo uso que vai ser feito delas.
abraços,
paula
Acesse outros Blogs que divulgaram o assunto
http://www.canalcontemporaneo.art.br/brasa/archives/002527.html
http://www.fotoclubef508.com/blog/?p=9537
http://afotobrasilia.wordpress.com/
http://tramafotografica.wordpress.com/2009/10/02/carta-aberta-de-patricia-gouveia/#comments
http://naocustapensar.blogspot.com/2009/10/nota-de-repudio.html
http://polodefotografia.wordpress.com/2009/10/02/o-absurdo/
http://www.paratyemfoco.com/blog/2009/08/2º-premio-foto-arte-brasilia/
Convite para a transgressão no templo da arte por Antonio Gonçalves Filho e Camila Molina, estadao.com.br
Convite para a transgressão no templo da arte
Curadores da mostra elegem Flávio de Carvalho como vetor para tratar relação entre arte e política
Matéria de Antonio Gonçalves Filho e Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2, do estadao.com.br em 5 de outubro de 2009.
Flávio de Carvalho (1889-1973), artista fundamental do modernismo brasileiro, é a figura referencial escolhida da 29ª Bienal de São Paulo pelo coordenador geral Moacir dos Anjos e o curador Agnaldo Farias, crítico e professor da FAU/USP, um dos integrantes da equipe que prepara a mostra, cuja abertura está marcada para setembro de 2010. Hostilizado por suas atitudes transgressoras, como a de caminhar de boné na contramão de uma procissão de Corpus Christi (1931) e passear de saia pelo Viaduto do Chá (1956), Carvalho foi adotado como modelo dessa bienal, que se pretende política no sentido que a palavra assume no discurso do filósofo francês Jacques Rancière, citado por Moacir dos Anjos - isto é, uma atitude contra as convenções e os modelos estabelecidos.
A 29ª Bienal, orçada em R$ 30 milhões, vai reunir entre 120 e 150 artistas, brasileiros e estrangeiros. Prejudicada pela repercussão negativa de sua última edição, a instituição tenta resgatar seu prestígio e atrair 1 milhão de visitantes (a última teve pouco mais que 10% desse total), apostando em seu projeto educativo, que deve contemplar 400 mil estudantes da rede estadual e municipal. Nesta entrevista ao Estado, Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias não revelaram os nomes dos artistas que irão participar da mostra, nem dos curadores estrangeiros convidados, o que deverá ser feito oficialmente pelo presidente da Bienal, Heitor Martins.
Por outro lado, acenam com nomes e obras que gostariam de trazer, como Cabeça de Medusa, escultura de 14 toneladas feita pelo californiano Chris Burden. E revelam interesse nos artistas de países africanos e do leste europeu.
O título da Bienal de 2010, Há Sempre um Copo de Mar para um Homem Navegar, usa um fragmento de Invenção de Orfeu, o poema de Jorge de Lima, que, segundo Mario Faustino, se faz a partir da urgência de "criar um mundo de antes mesmo da criação da palavra". A escolha desse fragmento pode significar que a Bienal não fará restrições a artistas, mas, ao mesmo tempo, essa metáfora pode ser uma estratégia para fugir de um tema. Qual das alternativas é a correta?
Agnaldo Farias - Não haverá restrição a artistas. Todas as linguagens serão contempladas, pois a ideia de tema pode significar um constrangimento. Jorge de Lima é um poeta extraordinário, embora também oscile. No entanto, este é um daqueles versos numinosos, que se produzem de vez em quando. Ele veio ao encontro de nossa ideia, da capacidade que os artistas têm de conseguir abrir um universo trabalhando dentro de uma questão mínima.
Quem seriam para vocês os artistas que inauguram uma linguagem no Brasil?
Moacir dos Anjos - Penso que um dos artistas que merece destaque nesse sentido seja Flávio de Carvalho. Talvez ele não tenha a dimensão exata na história da arte brasileira por não se encaixar bem no discurso da antropofagia, do modernismo brasileiro, do construtivismo ou do neoconcretismo. No entanto, Flávio coloca, já nos experimentos dos anos 1930, questões que vão ser retomadas depois com outros nomes, como happening, performance, ações que, de um modo ou de outro, inauguram formas novas, lançam questões que suscitam modos diferentes de encarar o mundo.
Flávio de Carvalho, então, será um dos vetores da próxima bienal?
Moacir - É um artista que nos interessa que esteja presente na exposição.
Agnaldo - Até mesmo porque ele nem pretendia fazer arte com esses experimentos. Essa indiferença, despreocupação, essa dimensão prospectiva do trabalho dele, de investigação, tem relação com o grupo de surrealistas ligados a Bataille. Ele é uma figura a ser recuperada.
O que há de específico no olhar de Flávio de Carvalho que os contemporâneos dele não tiveram?
Agnaldo - Justamente essa abertura. Ele vem da arquitetura, produz para o mercado, tem experiências na área muito radicais. Ao mesmo tempo, mostra interesse pelo teatro, pela pintura e o desenho. Essas experiências revelam uma inquietude, um desassossego e fizeram com que ele tenha sido muito marginalizado, visto como um fanfarrão, uma pessoa de gênio forte.
Moacir - Outro aspecto importante é que, nos anos 1930 e 1940, quando se registrou uma adesão da produção artística a um status quo, o trabalho dele é declaradamente de rompimento de convenções, de acordos, de formas de enxergar o mundo. O olhar dele parece estar interessado em como chegar ao olhar do outro.
Como Flávio de Carvalho se insere na proposta de fazer uma bienal política?
Moacir - Justamente pelo entendimento que a gente partilha do que é política, arte política, isso a partir de Jacques Rancière, política como a erupção dessas brechas, fissuras nessas formas estáveis, nos acordos em que a sociedade se ancora para funcionar. Quando Flávio e outros artistas, mesmo sem tematizar política, abrem essas brechas, essas fendas nas convenções, eles estão fazendo política, criando esse desassossego, novas possibilidades de percepção do mundo que não existiam.
Quem seriam hoje os artistas brasileiros da estatura de Flávio de Carvalho?
Agnaldo - Muita gente. Há os consolidados, como Cildo Meireles, Artur Barrio, Antonio Dias, por exemplo, artistas muito densos, consistentes.
Eles foram convidados oficialmente?
Moacir - Oficialmente não, mas estamos em conversas. Eles estão na nossa mira.
Há outros nomes definidos?
Moacir - Estamos nesse processo de negociação. Às vezes eles já têm compromissos anteriores e não podem participar com trabalho novo, que é algo que a gente gostaria.
Esse é, de fato, um problema grave, a falta de tempo para organizar uma bienal um ano antes. E quem são os curadores estrangeiros que vão integrar a equipe?
Moacir - Estamos trabalhando em colaboração com dois curadores já definidos e assim que se definir o terceiro, vamos fazer o anúncio dos três.
Qual o perfil deles, de onde são?
Moacir - São curadores de experiência internacional, que já fizeram outros eventos lá fora. Procuramos curadores com mais conhecimento sobre áreas específicas, geográficas, geopolíticas. Justamente por termos tão pouco tempo, não conseguiríamos cobrir um universo tão grande sem grandes esforços de deslocamento.
Agnaldo - Estamos também trabalhando com o grupo Capacete, do Rio, para organizar os seminários e workshops. Outra abertura interessante é na África, com a Trienal de Luanda, por meio do curador Fernando Alvim. Fomos também a Veneza para consolidar o vínculo com a mostra italiana, até porque ela está mudando, querendo que os pavilhões sejam ativos durante todo o ano, o que demanda um envolvimento dos países.
A última Documenta de Kassel propôs uma discussão sobre a herança do modernismo, resgatando a meta da Documenta de 1955, que era a de reabilitar as vanguardas modernas perseguidas pelo nazismo. A tentativa da Bienal de rediscutir o papel da política na arte segue o propósito de reabilitar as vanguardas brasileiras dos anos 1960 e 1970?
Moacir - O foco da exposição é tentativa de reler, repensar, a articulação entre arte e política nas últimas décadas no Brasil, tentando subverter um pouco esse entendimento de que a arte brasileira nos anos 1960 e 1970 foi mais política e que, a partir dos anos 1980, ela seria descompromissada. Acho que essa divisão só se justifica quando se entende arte política como a que tematiza a política, mas, como falei antes, no nosso entendimento, a arte, tematizando ou não a política, tem potencialmente essa capacidade de transformar a nossa visão de mundo.
Agnaldo - Inserções em circuitos ideológicos (título de uma obra de Cildo Meireles, 1970) é mais uma ideia, mas a preocupação pode ser alargada. Acho muito pertinente a leitura que Lorenzo Mammì faz do trabalho de Volpi, no sentido de destacar o dado artesanal na pintura brasileira que havia sido descartado na produção moderna. No concretismo, a manualidade está fora de cena. Volpi entra, então, como uma figura dissonante, justamente por resgatar uma tradição que remete a um passado proletário. Hoje temos Marcelo Silveira, que bate na discussão do artesão, e o Nuno Ramos da instalação 111 (dedicada à memória dos 111 mortos no massacre do Carandiru), um trabalho evidentemente político, o que não o torna óbvio.
No plano internacional, críticas à espetacularização das grandes mostras de arte são constantes. Você, Agnaldo, disse há dois anos que a dimensão da Bienal faz com que ela pertença à lógica do espetáculo. Há efeitos positivos nessa espetacularização? Qual, afinal, é o papel da Bienal?
Agnaldo - Acho interessante o desafio de pensar que estamos fazendo uma exposição mega num país carente, cujos museus não têm acervo. É importante que as pessoas tenham acesso a uma certa quantidade de obras que provoque nelas um impacto. Isso não seria concessão, não estamos pensando em obras fáceis. Poderíamos citar, por exemplo, a Cabeça de Medusa (escultura de 1990) do Chris Burden, trabalho de difícil empréstimo, mas fundamental.
A participação brasileira será maior ou equivalente à estrangeira?
Moacir - Não é uma questão para nós, embora se justificasse pela discrepância que há entre os circuitos, como o alemão e o brasileiro.
Agnaldo - O brasileiros aqui são vistos, os estrangeiros é que não são. A gente precisa trazer. Na Bienal estamos pensando numa expografia que tenha um caráter dinâmico, no sentido de construir espaços dentro da exposição, mas diferenciados, encomendados a artistas e arquitetos. Vamos fazer o que chamamos de estações. É uma preocupação da curadoria, construir uma narrativa. Nesse sentido, a entrada é fundamental, como o primeiro parágrafo e o título de um livro. Há espaços no prédio que por si só já são eloquentes, como o vazio da bienal, que já hospedou Anish Kapoor, Borofsky, Tunga.
Quais foram os efeitos do vazio da bienal anterior? Como a Bienal, instituição portadora de uma visão internacional de arte, de repente assumiu esse vazio?
Moacir - Minha percepção, a de quem estava fora do país, é de que, de fato, houve uma repercussão negativa, mas tenho percebido, desde que me engajei no projeto, um sentimento de que é preciso reverter isso de qualquer maneira. Houve o reconhecimento da crise, mas há uma percepção da visibilidade que a Bienal de São Paulo tem lá fora. É impressionante. Estivemos com diretores do Pompidou, da Tate, todos eles se colocando à disposição para colaborar com a Bienal.
outubro 4, 2009
Denúncia sobre irregularidades no prêmio FOTOARTE 2009 por Patricia Gouvêa
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FOTOARTE altera o Termo de Cessão do 2º Prêmio
Carta aberta enviada no dia 2 de outubro de 2009 à produção do prêmio, para todos os jurados, postada no facebook e enviada para o Canal Contemporâneo.
À produção da FOTOARTE, Prêmio FOTOARTE 2009 e aos jurados,
Venho por meio desta informar que estou abdicando da Menção Honrosa recebida e que todos os materiais por mim enviados (CD com imagens am alta, biografia etc) devem ser inutilizados ou devolvidos e minhas imagens retiradas de qualquer suporte de divulgação.
Foram inúmeras as minhas tentativas, desde a última segunda-feira e as do júri para que a Sra. Karla Osório concordasse em redigir o termo de cessão de direitos de imagem, onde foram incluídas 2 cláusulas que não constavam do regulamento, cujo teor fere os direitos autorais dos fotógrafos, constituindo, portanto, ato irregular e que apenas beneficia as empresas controladas direta ou indiretamente pela ARTE 21:
4. A CESSIONÁRIA fica expressamente autorizada pelo CEDENTE a executar livremente a montagem das fotografias objeto deste contrato, podendo proceder aos cortes, às fixações e às reproduções necessárias.
6. A CESSIONÁRIA poderá ceder os direitos sobre a(s) fotografia(s) e/ou a conceder autorização de utilização a quaisquer empresas sob seu controle direto ou indireto, bem como a entidade sem fins lucrativos, especificamente à WWF Brasil, sem obrigação de efetuar qualquer pagamento ao CEDENTE.
A primeira é preocupante pois autoriza cortes na imagem, mas a segunda é ainda mais grave: por meio dela as imagens poderão ser usadas por outras empresas sob controle da ARTE 21 e outras ONGs!!!!
Todo o júri (Éder Chiodetto, presidente, Rogério Assis, Suzana Dobal, Marcelo Reis, Milton Guran e Tiago Santana) me apoiou e está pedindo que a Karla refaça os contratos e anule os antigos a partir da minha contestação, mas parece que ela, infelizmente, está optando por ignorar até mesmo o juri e passou a dizer que eu sou a única reclamante sobre o assunto, o que deixou a todos ainda mais perplexos.
Estamos num momento de mudança de paradigmas e as pessoas não podem ser irresponsáveis e precisam pensar de forma coletiva. Decidi então abdicar do prêmio, pois acredito que todos os fotógrafos tem que ter seu contrato revisto e os antigos rasurados, pois este é um problema grave que diz respeito a todos. Anteriormente a AFOTO, associação dos fotógrafos de brasília, já havia feito uma denúncia contra o prêmio, com comentários de um advogado especialista em direitos autorais: http://afotobrasilia.wordpress.com/2009/08/26/2º-premio-foto-arte-brasilia/
Este pedido foi ignorado, assim como agora um pedido coletivo e que envolve o juri do prêmio está sendo ignorado. A Sra. Karla Osório prefere manter uma atitude inflexível e colocar a questão como se fosse um ato isolado de contestação de minha parte, o que demonstrar sua falta de boa vontade com a questão, e que coloca em dúvida suas reais intenções com este prêmio. Muitas tem sido as manifestações em todo o Brasil contra esta atitude. Neste email estão copiados alguns premiados, para que tomem conhecimento da minha decisão: Macia Folleto, A.C. Júnior, Dalton Valério e Charly Techio.
A resposta ontem do presidente do júri, Eder Chiodetto, após mais um email evasivo da Carla foi contundente e simboliza a opinião do júri:
"Olá Karla,
Já foram muitos emails trocados, a posição de todo o corpo do jurado já está absolutamente clara. E nós seguimos estarrecidos com a sua posição inflexível. Nada justifica esse seu comportamento. Se todos estão apontando para uma direção porque você acha que é a única que pode ter razão? Também pedimos para advogados ler o regulamento e a cessão de direitos e o retorno é de que há um claro conflito entre ambos. Que a Cessão de Direitos pode sim prejudicar os fotógrafos que a assinarem da forma como já salientamos. Se não é isso que você quer, como você tem repetido "n" vezes nos emails, porque não alterar as duas cláusulas que desde o início estamos solicitando? Para você não mudaria nada, não é? Faça um comunicado oficial e público de que o Termo de Cessão enviado está anulado mesmo para quem já o enviou pelo correio e reenvie um outro. Mas, antes, submeta ao corpo de jurados, por favor. Porque eu não tenho autoridade para decidir sozinho qualquer coisa com você. É o nome e a reputação de todos do júri que está em jogo. Essa história já está extrapolando e ganhando uma repercussão sem controle.
Eder Chiodetto"
Para encerrar, gostaria de deixar uma frase do Carlos Carvalho, que serve para nossa reflexão: "Prêmio é para premiar e não para chantagear."
Atenciosamente,
Patricia Gouvêa
