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Como atiçar a brasa

 


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junho 29, 2012

Artista de São Paulo constrói obra labiríntica em museu no Pátio de São Pedro, www.diariodepernambuco.com.br

Artista de São Paulo constrói obra labiríntica em museu no Pátio de São Pedro

Matéria originalmente publicada no caderno Viver no jornal Diário de Pernambuco em 28 de junho de 2012.

Rodrigo Sassi passou o mês no Recife para construir Ponto para Fuga

O artista paulistano Rodrigo Sassi, que mora em São Paulo e viveu uma temporada em Londres, passou o mês de junho no Recife para produzir um traalho especialmente para o museu Mamam no Pátio (unidade do Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães no Pátio de São Pedro). O resultado da residência artística será apresentado nesta sexta, às 18h, mas a obra fica em cartaz no local até o dia 25 de agosto, de terça a sábado.

Sassi construiu estruturas que se adaptam à parede do museu e modificam o espaço. É uma espécie de escultura suspensa, que cria um labirinto visual formado por caminhos curvos. O título da exposição é Ponto para Fuga.

Lei texto sobre a obra escrito pela curadora e crítica de arte Maria do Carmo Nino:

PONTO PRA FUGA do artista plástico paulista Rodrigo Sassi se insere nas suas últimas pesquisas empreendidas em confronto com o espaço expositivo. Instalação ou escultura? Por que não os dois? Afinal a obra no seu próprio título ao assimilar termos que podem ser percebidos como opostos como convergência (ponto) e divergência (fuga) sugere uma associação de opostos apontando para a vontade do artista de que seu trabalho não seja percebido dentro de uma perspectiva restritiva.

Rodrigo faz um uso imaginativo de técnicas industriais e de certos materiais de construção que ele re-aproveita do próprio cenário urbano: compensado plástico recuperado que é moldado ao espaço em formas monumentais porém simples, em seguida abrigando o concreto que nele se insere. A explicitação do processo está muito presente no resultado final e seu espectador é eleito como partícipe desta experiência.

Há uma cadência evocativa da tradição construtivista que me parece muito musical no seu trabalho, mesmo após ter equilibrado mais as sinuosidades das obras anteriores com as linhas mais retas atuais. A obra parte de um vértice e projeta-se penetrando o espaço desenhando - o e animando-o, e tirando partido de estímulos diretos como a variação com a luz ambiente, com as percepções advindas das tensões gravitacionais, do jogo de contrastes ativados entre formas angulares e curvas, onde o artista parece afirmar continuamente o caráter experimental da arte e do estímulo ao nosso olhar em transformação no espaço.

Maria do Carmo Nino

Posted by Marília Sales at 11:50 AM

SP-Arte negociou ao menos R$ 49 mi, calcula Fazenda por Silas Martí, Folha de S. Paulo

SP-Arte negociou ao menos R$ 49 mi, calcula Fazenda

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no caderno Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo em 28 de junho de 2012.

Valor corresponde a transações de 24 das 110 galerias da feira, que tiveram isenção do ICMS em suas vendas

Diretora da feira diz que dado reflete parte dos negócios e que não se 'surpreenderia' com vendas de R$ 200 mi

Um levantamento da Secretaria da Fazenda paulista, feito a pedido da Folha, mostrou que a última edição da feira SP-Arte, realizada em maio em São Paulo, registrou vendas de R$ 49 milhões em transações declaradas por 24 de suas 110 galerias.

Esse é o primeiro dado concreto do volume de vendas da feira, já que a SP-Arte, que neste ano teve isenção de ICMS sobre suas vendas, não divulgou um balanço final.

Só esse valor, de R$ 49 milhões, já sugere um aumento do faturamento em relação a 2011, quando galerias disseram vender R$ 40 milhões. Mas esse dado é uma estimativa das galerias, não comprovado pela Fazenda, uma vez que não houve benefício fiscal na edição anterior.

O volume de transações calculado agora pela Fazenda reflete só as vendas de 24 das galerias que tiveram desconto tributário. Nem todas as 110 participantes tiveram o benefício, concedido só às casas do Estado de São Paulo e a galerias estrangeiras.

Isso significa que os R$ 49 milhões registrados pela Fazenda respondem pelas transações de 22% das galerias da feira. Se as demais casas realizaram vendas em patamar semelhante, o faturamento total da SP-Arte pode ter chegado a R$ 245 milhões.

"Não me surpreenderia se as vendas tivessem passado de R$ 200 milhões", diz Fernanda Feitosa, diretora da SP-Arte. "É um 'feeling' do tamanho desse mercado, mas não há estudo sobre isso."

Nas contas de Feitosa, o mercado de arte nacional movimenta cerca de R$ 1 bilhão por ano. Levando em conta que as maiores galerias do país afirmam faturar até 30% de seus lucros anuais durante a SP-Arte, Feitosa acredita que o volume de vendas da feira pode responder por até 30% do total das transações.

"É uma coisa muito informal, não tem nenhum cálculo", diz Eliana Finkelstein, presidente da Associação Brasileira de Arte Contemporânea e sócia da galeria Vermelho. "Eu, sentada com uns amigos num boteco, calculei que a feira pode ter chegado a uns R$ 150 milhões."

Diante do balanço de R$ 120 milhões divulgado no ano passado pela ArtRio, feira carioca concorrente da SP-Arte, os números são importantes para avaliar as dimensões do mercado de arte nacional.

Marcada para setembro, a ArtRio deste ano prevê movimentar até R$ 150 milhões.

Procurada pela Folha, a Secretaria da Fazenda fluminense não confirmou valores nem pôde levantar o total das vendas declaradas no ano passado pela ArtRio até o fechamento desta edição.

Posted by Marília Sales at 11:17 AM

junho 27, 2012

Centro de Arte Contemporânea Inhotim mira a classe C, www.diariodepernambuco.com.br

Centro de Arte Contemporânea Inhotim mira a classe C

Matéria de Agência O Globo originalmente publicada no caderno Viver no Diário de Pernambuco em 26 de junho de 2012

Museu em Minas Gerais atrai visitantes de todo o Brasil com pavilhões e obras de arte espalhadas no meio da natureza

Passa de meio-dia, e Bernardo Paz está sentado sozinho à mesa do restaurante Tamboril, em Inhotim. Fuma calmamente um cigarro e até parece alheio a uma família que, numa mesa próxima, tenta entender o mapa do parque enquanto ajeita os tênis de caminhada, bonés e celulares coloridos rumo à exploração do maior centro de arte contemporânea do Brasil. Paz se levanta, cumprimenta a repórter e pula introduções, já inflamado: "Olhe em volta: Inhotim não é elitizado! É um lugar para as classes B, C e D!", diz o dono do empreendimento milionário em Brumadinho, a cerca de 60 km de Belo Horizonte, em Minas Gerais.

O parque criado por Paz em 2002 (e então "visitável" apenas por convidados) chega aos dez anos com um foco quase oposto ao de sua inauguração: a mira, agora, é a tão falada nova classe C.

"No Brasil, esse é um caminho quase obrigatório, porque 80%, 90% da população são classe C", calcula Paz (segundo os últimos dados da Pnad, são 55% ). "Você tem que partir para esse lado."

Aberto ao público em outubro de 2006, Inhotim recebeu 247 mil visitantes no ano passado (mais do que o dobro de 2007). Desses, cerca de 70% já são da classe C, afirma o empresário. A estimativa é que, neste ano, o parque receba 400 mil pessoas.

Para atrair público, Inhotim amplia ações sociais e programa uma série de aberturas em 2012. A agência O Globo visitou os pavilhões de Lygia Pape e Tunga, que serão inaugurados no dia 6 de setembro. O de Lygia, feito só para a obra T-téia, de 2002, tem projeto arquitetônico do escritório Rizoma, gerido por Virgínia Paz (irmã do empresário). A instalação de fios dourados que saem do teto rumo ao chão fica numa galeria em que o visitante tem de caminhar alguns metros praticamente às cegas até chegar ao delicado jogo de luz do trabalho.

Longe dali, na mata, está quase finalizado o imenso pavihão de Tunga, um dos primeiros artistas da coleção de Inhotim. Com área de 2.600 metros quadrados e paredes de vidro, o prédio é elevado do chão e parece flutuar próximo à copa das árvores. O projeto — assinado por Maria Paz, de 26 anos, sobrinha do empresário, e Thomaz Regatos, de 31 anos, ambos do Rizoma — teve supervisão de Tunga.

Com três andares (incluindo o subsolo para videoinstalações, em que, revelam os arquitetos, o artista deve instalar até um serpentário), o prédio fica pronto em 40 dias e, então, será recheado com quase 30 obras, como a instalação Palíndromo incesto (1990-1992).

Haverá ainda um novo espaço, para Now let’s play to disappear (2002), do cubano Carlos Garaicoa. Sua videoinstalação com velas será montada em caráter permanente no prédio onde era o estábulo da antiga fazenda de Inhotim. A espanhola Cristina Iglesias também terá espaço para criar o site-specific Vegetation Room Inhotim. Entre as árvores da mata, ela vai construir um prédio espelhado por fora e coberto por uma textura que lembra vegetação por dentro. O público poderá caminhar pelo trabalho.

Das 18 galerias existentes atualmente, uma, a Mata, terá obras trocadas. Entram trabalhos de Renata Lucas, Leon Ferrari e Edward Krasinski, entre outros. A única que permanece no pavilhão é Seção diagonal (2008), de Marcius Galan.

Estrada, aeroporto e tranquilizantes

Para 2013, haverá ainda dois pavilhões imensos do dinamarquês Olafur Eliasson. Um deles será redondo, como um relógio do sol, com parte sob a terra e 15 metros de diâmetro. A fotógrafa Claudia Andujar também terá uma galeria própria, dedicada a sua trajetória com os índios yanomami, que registra desde os anos 1970.

As ações para levar a classe C ao crescente percurso de obras de arte foram ampliadas neste ano. No início do mês, por exemplo, o instituto criou o programa Inhotim para Todos, que disponibiliza ingressos gratuitos, transporte e até almoço para visitantes. Proliferam também convênios com escolas públicas de Brumadinho e de Belo Horizonte, que permitem o acesso gratuito de mais de 500 crianças por dia no instituto.

Inhotim tem ainda programas sociais em comunidades quilombolas de sua vizinhança. Lá, assistentes sociais e educadores criam projetos de geração de renda e organização comunitária. Boa parte da mão de obra do parque, que tem, entre outros funcionários, 90 jardineiros, vem dessas comunidades.

Os planos do dono do empreendimento incluem construir um loteamento em terras vizinhas a Inhotim. Ele diz que tenta vender outro negócio (de cerca de US$ 200 milhões) para comprar os 300 hectares de terra onde pretende construir 3.000 casas populares. Lá, exemplifica, poderá morar "o caseiro de um condomínio rico" nas redondezas de Inhotim.

"Sempre me preocupei com o social. Meus pais eram de comunidade de base, tinha retrato de Che Guevara na minha casa. Não sou milionário, todos os meus recursos estão aqui dentro", diz o empresário, que costuma repetir a última frase nas entrevistas que dá.

Logo na entrada de Inhotim, surge o esqueleto de uma pousada que ele planeja inaugurar em 2013, com 40 bangalôs. Inicialmente no projeto, um restaurante de luxo concebido por Alex Atala não será mais erguido. Mostrou-se inadequado à ideia da pousada.

Para "quem puder comprar", como diz o empresário, serão feitos 300 lofts na região. O governo de Minas faz licitação para que uma empresa desenvolva o projeto de estrada que vai ligar mais facilmente Belo Horizonte a Inhotim. Paz diz que já obteve autorização para construir um aeroporto na região — hoje, o visitante pode levar duas horas para ir do aeroporto de Confins ao parque.

"Estou cansado de ser chamado de excêntrico", reclama ele, pouco antes de se vangloriar por ter comprado T-téia por algo como US$ 200 mil e ver hoje a obra estimada em 4 milhões. "Não me considero dono de nada. Trabalho feito um cão, fumo feito um diabo, durmo com tranquilizantes, acordo com antidepressivos, tomo remédio para o coração, mas as coisas aconteceram para mim."

Posted by Marília Sales at 4:46 PM

No Centro das outras riquezas por Pedro Rocha, O Povo

No Centro das outras riquezas

Matéria de Pedro Rocha originalmente publicada no caderno Cultura no jornal O Povo em 24 de junho de 2012

A ação do BNB vai além do ambiente econômico e não diz respeito apenas ao interesse político. O forte apoio à cultura regional obriga também o meio a esperar uma solução para a crise

Em 2012, o Banco do Nordeste tem um orçamento previsto de R$ 1,84 milhão para investimentos na área cultural, dinheiro reservado apenas à produção de atividades, sem contar a folha de pagamento e os custos com a manutenção de seus três centros culturais: Juazeiro do Norte, Sousa, na Paraíba, e Fortaleza. Este último, inaugurado em 1998, foi o primeiro do gênero e se transformou ao longo de seus 14 anos de existência em uma das referências da programação cultural na cidade.

Instalado em um prédio de três andares no Centro de Fortaleza, o Centro Cultural Banco do Nordeste é um espaço acolhedor. Desavisados que passam por ali podem se surpreender, mas ao longo dos 14 anos de existência, o CCBNB criou um público próprio, afeito às aberturas de exposições, shows musicais, espetáculos de teatro, entre outros projetos.

As atividades do Centro vão desde clubes de leitura, oficinas de iniciação artística e programas infantis, até espetáculos teatrais e festivais de música. As apresentações musicais em horários vespertinos e no início da noite, assim como as peças teatrais, tornaram-se uma das marcas inconfundíveis do espaço, que atrai plateias distintas.

“Você não vê o garoto do colégio num show à noite na Praia de Iracema, nos clubes, na ruazinha do Maria Bonita. Mas você vê o cara no Banco do Nordeste, uma pivetada de 13, 14, 15 anos, na idade em que você começa a ouvir, trocar material no colégio com os colegas.”, comenta Amaudson Ximenes, músico e presidente da Associação Cearense do Rock (ACR).

Testemunho
Em parceria com o CCBNB, a ACR produz há seis anos o Festival Rock-Cordel, que reúne anualmente bandas do estilo de Fortaleza, região metropolitana e algumas cidades do interior do estado. O festival, que realizou sua 6ª edição no começo do ano, se transformou em um programa do Centro Cultural, com shows o ano todo.

“A maior contribuição (do programa) é a difusão dos trabalhos, principalmente na capital. O próprio festival tem revelado muita gente, mostrando o trabalho de várias bandas. É uma oportunidade que não existia antes”, conta Amaudson.

Outro projeto consolidado na programação, fruto da parceria entre o Centro Cultural e a ONG Mediação de Saberes, é o Percursos Urbanos. Todos os sábados à tarde um ônibus com os inscritos perfaz roteiros diferentes, apresentando lugares e histórias insuspeitas para boa parte dos fortalezenses.

“Num contexto de poucos investimentos para a cultura pelos governos estadual, municipal e federal, o CCBNB tem desempenhado ao longo dos anos um papel essencial na gestão e difusão cultural regional”, opina Júlio Lira, idealizador e um dos responsáveis pelo Percursos Urbanos, que hoje já acontece também no Centro Cultural do Cariri.

NÚMEROS

14
anos, é o tempo de existência do Centro Cultural de Fortaleza

2
Centros semelhantes funcionam hoje no Cariri e em Souza (PB)

Posted by Marília Sales at 4:16 PM

Gil Vicente experimenta a geometria em nova exposição, Diário de Pernambuco

Gil Vicente experimenta a geometria em nova exposição

Matéria originalmente publicada no caderno Viver do Diário de Pernambuco em 27 de junho de 2012.

Mais conhecido por pinturas e desenhos figurativos, que retratam o ser humano, o artista Gil Vicente costuma abrir espaço também para trabalhos com outras formas de linguagem. A abstração, com elementos geométricos, é uma área de seu interesse, como confirma a exposição Geometrias, em cartaz na Galeria Mariana Moura de 28 de junho a 28 de junho. A inauguração está marcada para esta quarta, às 20h.

Essa é sua segunda exposição neste estilo. A primeira foi Geometria Adiada, apresentada em 2008 na mesma galeria. A nova série é um desdobramento da anterior, um aprofundamento que se abre para novas possibilidades e novas tonalidades. Apesar da abstração ser seu objetivo, ele mantém certas regras na elaboração das imagens, onde parece haver movimentos, sobreposições ou relacionamentos físicos entre as figuras. Áreas em branco (ou cinza) também estão mais presentes e ampliam a sensação de espacialidade.

Gil Vicente é um dos artistas mais consagrados de Pernambuco e já participou, por exemplo, de duas Bienais de São Paulo. Na última, em 2010, provocou polêmica com a série de desenhos Inimigos (também já apresentada na Mariana Moura), em que atacava personalidades políticas do mundo contemporâneo.

Leia o texto de apresentação da exposição escrito pela crítica de arte Ana Luisa Lima:

Silêncio, quietude e apaziguamento

Foi morto. Sempre que se anuncia uma morte imaginamos uma tragédia. Morte e violência parecem andar comumente de mãos dadas. Morrer de velho não é excitante.

Nesses dias me perguntei de onde veio a violência que quis matar o autor, a pintura e a história da arte. A violência acalentada pelo medo, talvez. Medo de que um dia tudo seja silêncio, quietude e apaziguamento. Penso que anunciaram precocemente tantas mortes, não porque já não conseguiam enxergar-lhes vida, mas porque ansiavam outra vez por seus grandes gestos.

E por certo que há muito já não se podia ver grandes gestos, porque o mundo, e tragicamente também a arte, estava empenhado em dar respostas – quase sempre pragmáticas. O que se criou então foi uma tagarelice sem fim. Um movimento circular de excesso de significados para tão pouco significantes. Instaurou-se a arte adjetivada. A arte tecnológica, a arte política, a arte relacional, etc.

Tal necessidade obsessiva de adjetivação da arte deu lugar a um formalismo vulgar. Isso quer dizer que a arte contemporânea parida para ser a possibilidade de todas as coisas deixou-se ser domesticada pelos adjetivos de modo que hoje é possível identificar facilmente a genealogia de uma obra de arte contemporânea por seus parentescos próximos, de formas comuns.

Nesse sentido, fica bem engraçado quando daqui e dali se ouve dizer pejorativamente de um pintor contemporâneo que resolve tomar mão da abstração ser um formalista. É nesse contexto que gostaria de falar sobre Gil Vicente.

Penso que à contrapelo daquilo que vem sendo engendrado pela atual história da arte, com muito poucos grandes protagonistas, Gil com sua “Geometria adiada” anuncia uma série de perguntas no lugar das fáceis respostas.

Nesse momento histórico, talvez esse seu gesto prefigure um ato instaurador (ou restaurador) de uma arte que volte a ser tomada inteiramente por uma vontade de fruição, como diz Barthes. Um lugar em que sejam ultrapassadas a tagarelice, e a procura obsessiva pelos adjetivos.

Tenho pra mim que alguns desavisados estarão apegados à ideia de que a abstração é algo “datado”. O que vale dizer que um pensamento desses ser contemporâneo de estudos cada vez mais avançados sobre as dobras do tempo e do espaço é que não me parece ter muito lugar. Ademais, a genealogia artística além de se dar sem certeza de sua pureza, também não está estabelecida como uma espécie de evolução da criatividade obedecendo restrições lineares de temporalidade ou lugar. Desse modo, é possível esboçar incontáveis diagramas de parentesco em que se pode conferir a Gil a contemporaneidade tanto das investigações de Cézanne quanto as concretas e neoconcretas.

O certo é que a geometria pintada por Gil adia mortes e respostas. E as grandes perguntas só se multiplicam naquilo que em sua pintura se faz em planos, cor, ausência, contenção.

É na ausência que Gil se faz gesto e autoria – parafraseando de maneira livre Agamben**. E em sua pintura de aparente silêncio, quietude e apaziguamento permanece o artista de arma em punho ameaçando olhos nos olhos novos e velhos Inimigos***.

Ana Luisa Lima é crítica de arte, editora da revista Tatuí.

** No livro “Profanações” Giorgio Agamben traz o assunto no ensaio “O autor como gesto”.
*** Nome da série de desenhos de Gil Vicente presente na 29a. Bienal Internacional de São Paulo.

Posted by Marília Sales at 3:08 PM

A geometria colorida de Gil Vicente por Eugênia Bezerra, jc-online

A geometria colorida de Gil Vicente

Matéria de Eugênia Bezerra originalmente publicada no caderno Cultura no jornal JC On Line em 27 de junho de 2012.

O artista plástico pernambucano inaugura uma exposição de pinturas abstratas na Galeria Mariana Moura

Desde os 12 anos estudando e fazendo suas criações em artes visuais, o recifense Gil Vicente já encontrou na pintura, desenho, escultura e fotografia meios de expressão. Observando especificamente as pinturas e desenhos feitos por ele durante este tempo, também se nota mais um exemplo da diversidade de interesses artísticos de Gil Vicente pela presença do figurativo e do abstrato entre as obras. E é este último lado da produção do artista que o público pode conferir até o fim de julho na exposição Geometrias, individual que será inaugurada nesta quarta-feira (27/6), às 20h, na Galeria Mariana Moura.

A mostra reúne 18 pinturas em óleo sobre tela. São obras bem recentes, nas quais o artista trabalha desde janeiro de 2012 combinando as cores, formas e espaços vazios. Esta é a terceira exposição de Gil na Galeria Mariana Moura (que representa o artista, junto com a Galeria Nara Roesler, de São Paulo). A mostra também é a segunda em que ele apresenta pinturas abstratas. “"Na minha vida toda, representei paisagens, figuras especialmente, coisas do mundo real. A figura sempre foi muito mais urgente para mim, por motivos pessoais mesmo. Para me relacionar com o mundo tive que passar estes 30 anos pintando”", resume Gil Vicente.

Ele lembra que a geometria vez ou outra se insinuava em seu trabalho. Em 2008, na mesma Galeria Mariana Moura, o artista também reuniu alguns trabalhos abstratos em Geometria adiada. "“As obras eram muito diferentes destas, eu usava cores escuras. Desta vez elas estão mais claras, luminosas, diurnas, em contraste com a outra exposição. (A escolha das cores) foi do processo, naturalmente foram aparecendo cores mais claras. Mexi neles muitas vezes, algumas são quase fluorescentes"”, compara o artista.

Para 2012, ele tem mais duas exposições programadas em Pernambuco. Uma delas reúne obras dele, de Renato Valle e Manoel Veiga. A mostra Figura, paisagem e natureza-morta, que em 2011 foi montada no Sesc Casa Amarela, será levada em agosto para o Sesc Petrolina. “"O Museu Murillo La Greca está com uma exposição minha chamada Estudos, com trabalhos desde a Escolinha de Arte do Recife e também nos ateliês de extensão da Universidade Federal de Pernambuco, além de rabiscos que fiz até esta exposição"”, adianta o artista plástico.

A matéria completa está no Caderno C desta quarta-feira (27/6), no Jornal do Commercio.

Posted by Marília Sales at 2:19 PM

junho 26, 2012

Resposta do Ministério da Cultura à Carta de Conselheiros do CNPC sobre Processo Eleitoral

Carta enviada pelo Ministério da Cultura em 22 de junho de 2012, em resposta à carta dos Conselheiros do CNPC, representantes das Setoriais de Cultura, de 17 de maio de 2012.

Assunto: Processo eleitoral para renovação dos colegiados setoriais e do plenário do CNPC

Senhor Conselheiro,

1. Em resposta à correspondência assinada por parte dos Conselheiros desse Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC), encaminhada ao Ministério da Cultura no dia 17 de maio passado — e ao mesmo tempo divulgada publicamente -, relativa ao processo eleitoral para renovação dos colegiados setoriais e do plenário deste Conselho, temos a esclarecer o seguinte:

a) Que de fato houve erros na edição da Portaria regulamentadora do processo eleitoral (número 51), o que ocorreu única e exclusivamente por responsabilidade da Secretaria Geral do CNPC, por falha na revisão do texto encaminhado para publicação, em especial no calendário do processo eleitoral;

b) que, no entanto, visando sanar estas falhas, foi editada nova portaria (n° 59), com data de 25 de maio de 2012, já publicada no DOU. Esclarecemos que, justamente por ter constatado os erros da edição anterior, evitou-se a publicação da mesma na plataforma virtual do processo de renovação dos colegiados;

c) que as normas instituídas pela Portaria 51 e 59 não apenas consideram as deliberações da 6a Reunião Extraordinária do CNPC, como também buscam aperfeiçoá-las, a fim de assegurar a ampla participação do setores culturais em todo o território nacional;

d) que esse objetivo está expresso na priorização da plataforma virtual como o instrumento mais adequado para o cadastro de eleitores e candidatos de todo território nacional, debate de propostas e eleição dos delegados estaduais ao Fórum Nacional, instância decisiva na qual o método presencial será adotado;

e) que as duas Portarias não eliminam a possibilidade de encontros estaduais presenciais, embora saibamos das dificuldades logísticas que tal opção implica, em especial para que todos os cidadãos brasileiros, localizados nos 5565 municípios, possam participar em condições de igualdade;

f) que a nova Portaria 59 legitima a participação dos membros dos Grupos de Trabalhos criados para instituir os colegiados setoriais como delegados estaduais natos aos respectivos Fóruns Nacionais;

g) que eventuais discrepâncias das Portarias com as manifestações do CNPC, notadamente a que particulariza o processo eleitoral de 2 (dois) dos 19 (dezenove) setores que compõem o Conselho, decorrem das especificidades institucionais de organização desses segmentos, apontadas nas reuniões do CIPOC, principalmente pelo fato de já possuírem instâncias colegiadas de participação e consulta. Convém salientar que o CNPC é órgão consultivo, cabendo ao Ministério a deliberação sobre as resoluções do mesmo. Destaque-se ainda que a quase totalidade das manifestações do Conselho têm sido acatadas pelo MinC, confirmando a orientação democrática e participativa da gestão;

h) que os critérios de proporcionalidade na distribuição de vagas de delegados estaduais, entre as Unidades da Federação, embora modifiquem a sugestão do CNPC, ampliam as possibilidades de participação e reforçam a representatividade de cada setor, ajustando o coeficiente eleitoral ao número de inscritos no respectivo setor;

i) que a plataforma virtual criada pelo Ministério da Cultura para abrigar o processo de renovação do CNPC é uma inovação importante, que valoriza o processo, e que está aberta à colaboração e sugestões de todos os cidadãos e cidadãs brasileiras, em especial dos atuais conselheiros, a fim de que se consolide como um espaço de informação e comunicação constante e imediato; e

j) que o Ministério da Cultura está empenhado e já deu início ao processo de indicação, nomeação e instalação da Comissão Organizadora Nacional e das comissões eleitorais setoriais, compostas por membros do governo e da sociedade civil representada no Conselho Nacional de Política Cultural.

2. Com esses esclarecimentos acreditamos ter respondido às principais questões levantadas pelos senhores conselheiros e esperamos, a partir de hoje, contar com a colaboração de todos para que o processo de renovação do CNPC seja um momento privilegiado de exercício da democracia participativa em nosso país. Continuamos à disposição para esclarecer dúvidas que porventura tenham subsistido.

Atenciosamente,

Vitor Ortiz
Secretário-Executivo

Posted by Patricia Canetti at 9:48 AM

junho 25, 2012

Funarte é criticada por 'blindar' editais por Matheus Magenta, Folha de S. Paulo

Funarte é criticada por 'blindar' editais

Matéria de Matheus Magenta originalmente publicada no caderno Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo em 25 de junho de 2012.

Instituição fez portaria às pressas após Lei de Acesso à Informação para preservar conteúdo de projetos culturais

Ator Carlos Palma diz que ação é 'antidemocrática'; dramaturgo Jair Alves pede transparência

Uma portaria da Funarte, órgão vinculado ao Ministério da Cultura, recebeu críticas no setor cultural ao determinar sigilo para parte das informações referentes à seleção de seus editais. Para o ator Carlos Palma, a medida foi "antidemocrática" e "autoritária".

Publicada no "Diário Oficial" no mês passado, a portaria classificou como "reservadas" informações como o conteúdo dos projetos não contemplados e o dos vencedores, até as execuções deles.

"Como há a possibilidade de reconsideração do resultado, a gente precisa saber o que os vencedores propuseram, o que foi considerado mais importante por quem seleciona os ganhadores", afirmou o dramaturgo Jair Alves.

Segundo ele, "ninguém está questionando o resultado da seleção", mas sim pedindo transparência sobre a maneira que o dinheiro público é gasto.

Alves baseia seus questionamentos na Lei de Acesso à Informação, que entrou em vigor no mês passado com o objetivo de trazer mais transparência a dados públicos, como salários de servidores e agendas de ministros.

De acordo com a nova lei, as informações classificadas como reservadas têm um prazo de segredo de cinco anos que pode ser renovado uma vez. Em seguida, as informações se tornam públicas.

Para justificar o sigilo, a nova portaria cita um dos incisos do artigo 23 da lei, que trata dos possíveis riscos da divulgação de informações.

"O texto fala que a divulgação pode prejudicar ou causar risco a projetos de pesquisa e desenvolvimento científico ou tecnológico, mas esses editais não tratam disso, mas de arte e cultura", disse Alves.

OUTRO LADO

Em entrevista à Folha, o presidente da Funarte, Antonio Grassi, negou qualquer intenção de "esconder informações" e afirmou que a portaria serve para preservar a propriedade intelectual dos proponentes.

"Esses projetos não pertencem à Funarte, que é a única instituição que tem editais de criação artística. Se essas informações forem divulgadas, alguém pode copiá-las."

Ele rebateu as críticas afirmando que elas foram feitas por "perdedores" de editais da Funarte. Grassi, no entanto, admite que não seja necessário manter o sigilo dos conteúdos dos projetos contemplados até suas execuções. "Isso vai mudar. Nós tivemos de criar essa portaria com muita urgência para nos adequarmos à lei, mas estamos num processo evolutivo rumo à transparência."

Grassi disse ainda que outra novidade será que os proponentes dos próximos editais poderão autorizar a divulgação do conteúdo de seus projetos.

Ele não soube informar se a portaria atinge o recém-lançado edital de 30 bolsas para criação literária.

Posted by Marília Sales at 12:35 PM

Listras, estrelas e gravuras por Nina Gazire, Istoé

Listras, estrelas e gravuras

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 22 de junho de 2012

Um dos maiores nomes vivos da pop arte, o artista americano Jasper Johns exibe 70 obras em sua primeira exposição de fôlego no País

Jasper Johns - Pares, trios e álbuns, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, SP - 20/06/2012 a 26/08/2012

ÍCONE
Jasper Johns alcançou a fama com a série “Flags”, que faz interferência na bandeira dos EUA
A iniciativa dos artistas americanos Robert Rauschenberg e Jasper Johns de incorporar imagens de revistas, jornais e objetos do dia a dia em suas obras foi, durante muito tempo, entendida como uma resposta à agressividade do expressionismo abstrato, estilo de pintura focado na expressão e nas pinceladas gestuais. A essa prática impessoal se deu o nome de pop arte, e no início da década de 1960 as galerias de Nova York foram tomadas por artistas do gênero, como, por exemplo, Andy Warhol, que se tornou uma espécie de porta-voz do estilo. Até os dias de hoje é atribuída a Rauschenberg e a Johns uma espécie de paternidade da pop arte. Ao longo dos anos, contudo, ambos os artistas seguiram caminhos separados, e dois anos após a morte de Rauschenberg, em 2008, Johns recebeu do presidente Obama a Presidential Medal of Honor, o mais alto galardão concedido pela Casa Branca. Anteriormente, apenas Alexander Calder havia sido homenageado postumamente com a condecoração, em 1977.

O grande motivo para tamanha honraria talvez não seja apenas a importância da obra de Johns, hoje com 82 anos, mas o fato de que foi por meio de suas mãos que um dos maiores símbolos da supremacia norte-americana tenha se transformado em obra de arte. Desde 1955, o artista vem se dedicando a pintar, serigrafar e até transformar em peça escultórica a bandeira dos EUA. “Jasper vai fundo nos objetos que escolhe como tema para suas obras. Os objetos pintados, retratados, arrancados de páginas de revistas não se esgotam e são retrabalhados enquanto existirem possibilidades de leitura variadas”, diz o curador Bill Goldston, que selecionou com Johns as 70 gravuras da primeira mostra solo do artista no Brasil, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

REPETIÇÃO

Entre as obras não poderia faltar, claro, a “Star Spangled-Banner” (bandeira estrelada), nome dado à bandeira dos EUA, representada em sete diferentes versões. Denominadas “Flags”, as gravuras, realizadas entre 1960 e 1973, acompanham outros títulos abrangendo cerca de 40 anos de produção do artista. “A exposição foi pensada especialmente para o Brasil. Nesse contexto, a mostra pretende ilustrar o modo como Johns se apropria de uma imagem, transformando-a em algo diferente do original. Apresentamos apenas gravuras porque o artista não as entende como uma mera reprodução, mas como maneira de expressar suas ideias artísticas”, afirmou Goldston em entrevista à ISTOÉ, por telefone. Além dos 66 trabalhos individuais, estão quatro séries nas quais a repetição é trabalhada como forma de criação. Exemplo é a série de litogravuras “09”, em que se usa uma mesma fonte para fazer uma contagem de 1 a 9, em outro procedimento comum à pop arte. Mais recentes são os trabalhos realizados entre 1999 e 2001, quando o artista incorpora às gravuras em metal a mesma fotografia de uma família oitocentista.

Apesar da mostra não trazer nenhuma de suas pinturas, Johns figura no ranking dos 30 pintores mais caros do mundo. Uma de suas telas da série “False Start” (que também está na origem de algumas gravuras em exposição) foi vendida por US$ 80 milhões em 2006, até então o preço mais alto alcançado por um artista vivo. Atualmente, Johns vive em Conecticut, nos EUA, e continua produzindo.

Posted by Marília Sales at 12:23 PM

Bienal detalha próxima edição enquanto tenta acordo com o MinC por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Bienal detalha próxima edição enquanto tenta acordo com o MinC

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no caderno Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo em 22 de junho de 2012.

Heitor Martins, presidente da Fundação Bienal de São Paulo, vai conseguir pôr de pé a 30ª edição da mostra, que começa em setembro, mesmo com pendências com o Ministério da Cultura e ainda tentando captar R$ 4 milhões de um orçamento total de R$ 22 milhões.

Seu mandato, no entanto, termina neste ano, ameaçando deixar de herança para a próxima gestão um impasse com o governo, que estuda contas rejeitadas de gestões anteriores da fundação. "Essa é uma pendência importante", disse Martins à Folha. "É importante encaminhar essa solução para assegurar a vitalidade da instituição."

Em janeiro deste ano, o MinC bloqueou as contas da Fundação Bienal e chegou a exigir mais tarde que outra instituição se responsabilizasse pela edição deste ano da mostra, elegendo o Museu de Arte Moderna de São Paulo para a função.

Depois de uma manobra jurídica, a Bienal conseguiu o desbloqueio momentâneo dos fundos, dispensando a participação do MAM. Mas o acordo vale só para realizar a 30ª edição e não garante o futuro da instituição.

Segundo a Folha apurou junto a fontes na fundação Bienal, contas que já haviam sido aprovadas estão sujeitas a segunda análise, num pente fino que ainda não terminou. Estão sendo estudadas irregularidades em prestações de contas das gestões de Carlos Bratke, de 1999 a 2002, a e Manoel Francisco Pires da Costa, que ficou sete anos na presidência da instituição --a Justiça calcula um possível rombo de R$ 75 milhões.

Nos bastidores da Bienal, no entanto, o clima é de tranquilidade. Reuniões frequentes entre gestores da Bienal e interlocutores do MinC também têm sido realizadas para acelerar o processo, embora, segundo Martins, não haja "nenhuma previsão ou acordo" em vista com o MinC. "O ministério está sensível à questão", diz Martins. "Estão cientes de que isso precisa ser resolvido em tempo para não comprometer a 31ª Bienal."

Martins, o curador da 30ª Bienal, Luis Pérez-Oramas, e a equipe da mostra apresentaram nesta sexta em São Paulo detalhes dos preparativos do evento. Em seus dois mandatos à frente da Bienal, Martins criou estruturas permanentes de produção, comunicação e programas educativos. Antes de sua gestão, essas equipes eram criadas por ocasião de cada evento e depois desfeitas.

Também foram divulgadas metas do projeto educativo, coordenado por Stela Barbieri, que pretende atender até 1,4 milhão de pessoas até 2016 e tem como meta chegar a 600 mil visitas orientadas ao longo da 30ª Bienal.

Posted by Marília Sales at 12:16 PM

junho 22, 2012

Mulheres de fases por Nina Gazire, Istoé

Mulheres de fases

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 15 de junho de 2012

Quinze trabalhos escolhidos pelo próprio artista Miguel Rio Branco revelam como o feminino foi representado ao longo de sua carreira de mais de quatro décadas

Miguel Rio Branco - La Mécanique des Femmes, Galeria Silvia Cintra + Box 4, Rio de Janeiro, RJ - 01/06/2012 a 29/06/2012

Miguel Rio Branco começou sua carreira como pintor nos anos 1960, mas foi quando passou a usar a fotografia como meio de expressão que se tornou um artista conhecido. Já nos primeiros anos – e favorecido pelo ambiente de renovação nas artes visuais, que passou a aceitar plenamente a imagem fotográfica além do simples registro –, Rio Branco se tornou um dos pioneiros no Brasil a transgredir as fronteiras entre o ato documental da câmera e a expressão poética de quem foca a objetiva. Graças a essa ênfase no olhar pessoal como o primeiro mediador do gesto fotográfico, o artista recebeu prêmios de destaque como o Prêmio Kodak de la Critique Photographique, de 1982, na França, e suas obras figuraram nos mais importantes museus do mundo.

Uma de suas produções mais celebradas são as imagens de prostitutas da então decadente área do Pelourinho, em Salvador. Essa série começou a ser feita em 1979 e, nessa mesma época, ele realizou filmes e fotos que poderiam, respectivamente, ser mostrados em telejornais ou estampar jornais e revistas – mas transcendiam o registro imediato. “A minha fotografia encerra muito mais uma questão subjetiva que objetiva”, disse Rio Branco à ISTOÉ. A par dos lugares e circunstâncias, ele fotografou incidentalmente – ou propositalmente – mulheres nas mais diferentes situações. Foi revisitando esse material produzido durante três décadas que o artista decidiu fazer seu próprio recorte buscando uma poética do feminino em imagens de contextos e épocas distintas. Os 15 trabalhos escolhidos para a mostra “La Mécanique des Femmes” trazem assim, uma articulação de diferentes visões sobre o tema ao longo de sua carreira. “A exposição se faz a partir da edição e da construção do olhar. Imagens produzidas 20 ou 30 anos atrás e em condições diversas ganham uma nova dinâmica ao serem colocadas juntas”, afirma.

Nesse contexto, Rio Branco identificou em sua obra desde a tradição pictórica ocidental dos nus femininos até questões sociais como a subserviência da mulher. “Maria” é o trabalho mais recente. Realizado em 2011, mostra o torso da atriz Mariana Ximenes, que posou nua pela primeira vez em sua carreira. Nas três imagens, ela realiza posições contorcionistas que dão ao corpo um caráter escultórico. Já em “Ophelia”, de 1976, Rio Branco dá a sua versão para a personagem shakespeariana da tragédia “Hamlet” cujo suicídio em um rio foi retratado à exaustão ao longo da história da pintura. Completamente distinto é o díptico “Casamento Cigano”, que retrata detalhes de uma boda cigana. A imagem é mais que o registro de uma cerimônia étnica: o gestual do casal termina por desnudar uma ação universal de dominação do homem sobre a mulher. “Na cerimônia, a mulher está completamente entregue ao domínio do marido. É uma situação de submissão”, diz o artista.

A origem da atual exposição se deu com a observação das relações de gênero hoje. Para Rio Branco, nas novas configurações da atualidade as fronteiras entre masculino e feminino revelam-se cada vez mais sublimadas. “A mostra é um começo de uma série, um pedacinho de um trabalho que vai ser desenvolvido de forma mais interessante no futuro”, revela o artista, que evidencia também as suas próprias mudanças de foco em relação à representação da mulher em seu ato fotográfico.

Posted by Marília Sales at 10:58 AM

'Johns está à margem do pop', diz curador por Silas Martí, Folha de S. Paulo

'Johns está à margem do pop', diz curador

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no caderno Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo em 19 de junho de 2012.

Exposição relaciona obra do americano a virtuosismo cromático de Cézanne e irreverência de Marcel Duchamp

Instituto Tomie Ohtake abre hoje mostra com gravuras do artista; pinturas não vêm ao país por causa de custos

Jasper Johns - Pares, trios e álbuns, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, SP - 20/06/2012 a 26/08/2012

Jasper Johns, mesmo que não queira, é tido como o pai da arte pop, precursor de Andy Warhol e Roy Lichtenstein. Ele é também o último sobrevivente dessa geração -aos 82, segue trabalhando.

Tudo começou num surto. Depois de destruir, insatisfeito, as primeiras obras que fez, sonhou que pintava uma bandeira norte-americana.

Contou o sonho a Robert Rauschenberg, artista que morava no andar abaixo do seu em Nova York. Johns, aliás, foi descoberto no dia em que o galerista de Rauschenberg, então já conhecido, esteve no prédio e soube que ali morava o jovem artista que estreou com a pintura de um alvo verde numa exposição.

Era 1954, e Warhol ainda não havia imortalizado suas latas de sopa Campbell's.

Mas o recorte da obra de Johns na mostra que começa hoje no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, vai mais fundo que a ligação do artista com o movimento pop.

"Ele está à margem do pop", diz Bill Goldston, curador da mostra. "Você reconhece as imagens que ele pinta, mas ele não quer mostrar isso como imagem pop, e sim como uma imagem pura. São objetos fáceis, que ele usa como um pretexto para pintar."

No caso, Goldston aproxima a obra de Johns do virtuosismo cromático do francês Paul Cézanne e da irreverência de Marcel Duchamp, distanciando sua obra do embate com expressionistas abstratos então em voga e da arte pop que viria a surgir.

Na mostra paulistana, é difícil julgar o talento de Johns como pintor, já que só gravuras do artista foram trazidas ao país -segundo os organizadores, seria caro demais transportar suas pinturas.

Mas o repertório visual é o mesmo. Estão lá suas bandeiras, seus alvos e experimentos em colagem e fotografia.

Da mesma forma que Duchamp, Johns deslocou objetos banais da vida para a esfera da arte. Em vez do urinol, bandeiras e mapas dos EUA. Também se interessou, à maneira de Cézanne, pela construção minuciosa das cores em cada detalhe das obras.

"É como uma sinfonia", compara Goldston. "São milhares de notas para compor um som compreensível, como seus traços na pedra, recortes de papel e pinceladas precisas servem para recriar símbolos reconhecíveis."

Posted by Marília Sales at 10:21 AM

junho 21, 2012

Carta ao Ministério da Cultura e ao CNPC pela manutenção do Colegiado de Audiovisual

Carta ao Ministério da Cultura e ao CNPC - Conselho Nacional de Política Cultural

Car@s,

As entidades do audiovisual brasileiro e pessoas abaixo assinadas, representadas no Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC) por Luiz Alberto Cassol (titular) e Guigo Pádua (suplente), reafirmam a certeza no que foi acolhido, votado e deferido pela maioria do Pleno do referido Conselho na criação e manutenção do Colegiado do Audiovisual, representando a sociedade civil, conforme defendido dezenas de vezes em listas de debates sobre o audiovisual de forma franca, aberta e libertária.

Todas as entidades e pessoas físicas signatárias do abaixo assinado são contra quaisquer escolhas que contrariem as decisões do pleno do Conselho Nacional de Políticas Culturais, pois entendem que o desrespeito a esta instância fere os princípios democráticos e republicanos, princípios estes, que tem marcado as últimas gestões do Ministério da Cultura.

Nossos representantes, Luiz Alberto Cassol e Guigo Pádua, foram informados que as decisões do pleno seriam mantidas. Toda a informação contrária deveria ser feita de forma pública.

Portanto, temos certeza na criação e manutenção do Colegiado do Audiovisual, integrado por pessoas eleitas diretamente pela sociedade civil.

Isso posto, é fundamental dizer que qualquer ato contrário demonstra total desrespeito com tod@s aquel@s que trabalham no e pelo audiovisual.

Qualquer mensagem trocada ao contrário disso deve se tornar pública.

Assim, defendemos a sociedade civil tendo a legítima representação dentro do CNPC. Conquista histórica que o MinC certamente não irá se posicionar de forma contrária.

Somos abertos ao debate e refratários a qualquer forma de imposição que negue o que foi votado no Pleno do Conselho Nacional de Políticas Culturais, em data e horário, fixados para isso.

Cordialmente, abaixo assinamos.

Entidades Nacionais:
- ABD Nacional - Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas
- CNC - Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros
- CPCB – Centro dos Pesquisadores do Cinema Brasileiro
- Observatório Cineclubista Brasileiro

Entidades Internacionais:
- FICC - Federação Internacional de Cineclubes
- Grupo Iberoamericano da FICC

Entidades Regionais, Estaduais e Municipais:
- ABCV/DF
- ABCV-ABD-BA
- ABD-Acre
- ABdec/AP
- ABDeC-RR
- ABD-PB
- ABD-RN
- ACCV/ABD–CE
- ACVMS
- AMAV/ABD-MT
- APTC/ABD-RS
- APROCINE - Associação dos Produtores e Realizadores de Longa Metragem de Brasília (DF)
- CECAL Cineclube (SC)
- Cine Dona Chica (SC)
- Cine Ói e Ôiça de Audiovisual - Fundação Tocaia Altamira – (PA)
- CineolhO (RJ)
- Cinemateca Catarinense/ ABD-SC
- Cine Nelson Maleiro - Saubara (BA)
- Cine + Alto do Moura – Caruaru (PE)
- Cineclube Abelin Nas Nuvens – Silveira Martins (RS)
- Cineclube Amazonas Douro (PA)
- Cineclube Apôitchá - Lucena (PB)
- Cineclube Ariano Suassuna – Joca Claudino (PB)
- Cineclube Armação (SC)
- Cine Club Art Total – Ponto de Cultura Art Total - APP da Escola Jardim das Pedras - Ariquemes (RO)
- Cineclube Atlântico Negro (RJ)
- Cineclube Badaró – Guaçuí (ES)
- Cine Clube Baré (AM)
- Cineclube Beco do Rato (RJ)
- Cineclube Casa do Professor (PA)
- Cineclube Cinemando na Amazônia (AP)
- Cineclube Cearazinho (CE)
- Cineclube Cidadania - Recife (PE)
- Cineclube Cine Exílio – Recife (PE)
- Cineclube Cinema nos Bairros – Lins (SP)
- Cineclube Cultura Jorge Comassetto - Rio Pardo (RS)
- Cineclube ECO (ES)
- Cineclube Guadala – Vila Velha (ES)
- Cine Guará (PR)
- Cinelcube Independente – Caçador (SC)
- Cineclube da Irmandade – Ananindeua (PA)

- Cineclube Ieda Beck (SC)
- Cineclube Independente - Caçador (SC)
- Cineclube Kalu (MA)
- Cineclube Guarumã - Colares (PA)
- Cineclube Laguna (SC)
- Cineclube Lanterninha Aurélio – Santa Maria (RS)
- Cineclube Maria Sena (MG)
- CineClube Mocamba – Itabuna (BA)
- Cineclube Mossoró (RN)
- Cineclube Nangetu – Belém (PA)

- Cineclube Orlando Vieira – Aracaju (SE)
- Cineclube Santa Rosa - Santa Rosa (RS)
- Cineclube SMVC – Santa Maria (RS)
- Cineclube Vagalume – Caçapava do Sul (RS)
- Coletivo Resistência Marajoara (PA)
- COMOV - Comunidade em Movimento da Grande Fortaleza (CE)
- Curta Minas/ABD-MG
- Curta-SE
- Difusão Cineclube
- Espaço Cultural Coisa de Negro, Belém (PA)
- Estação Cinema – Associação dos Profissionais de Cinema de Santa Maria (RS)
- Federação Catarinense de Cineclubes - Fecacine (SC)
- Federação de Cineclubes do RS (FECIRS)
- Federação Pernambucana de Cineclubes – FEPEC (PE)
- Festival Santa Maria Vídeo e Cinema – Santa Maria (RS)
- Instituto Nangetu de Tradição Afro-Religiosa e Desenvolvimento Social, Belém (PA)
- OCA - Centro de Agroecologia e Educação da Mata Atlântica – Itabuna (BA)
- PARACINE – Federação Paraense de Cineclubes (PA)
- Ponto de Cultura Cinema de Animação - Pontão de Cultura Cine Anima (PE)
- Qualquer Coletivo - Laboratório de Performance e quaisquer outras coisas – Belém (PA)
- Rede de Cineclubes nos Terreiros da Zona Metropolitana de Belém (PA)
- Rede [aparelho]-: Belém (PA)
- Sintracine - Sindicato dos Trabalhadores da Industria Cinematográfica e do Audiovisual de SC
- Tela Tudo Clube de Cinema – Maceió (AL)
- Tintin Cineclube – João Pessoa (PB)
- União de Cineclubes da Bahia (UCCBA) (BA)

Pessoas Físicas
- Ademir Henriques - Cineclubista (RS)
- Adriane Gama - Bióloga, Cineclubista e Ativista em Cultura Digital e Software Livre Santarém (PA)
- Afonso Gallindo - Documentarista (PA)
- Alessandra Sousa - Monitora do Pontão de Cultura Digital do Tapajós, Cineclubista e Ativista em Software livre - Santarém (PA)
- Ana Cláudia Vasconcelos - Jornalista Cultural e Cineclubista
- André Sandino Costa – Cineclubista (RJ)
- Anna Claudia Hampf – Cineclubista – Recife (PE)
- Antônio Claudino de Jesus - Cineclubista - Presidente da FICC (ES)
- Aquiles Ferreira dos Santos – Cineclubista – Fortaleza (CE)
- Arthur dos Santos - Cineclubista (RS)
- Arthur Leandro - Artista, Professor Universitário e Cineclubista - Ananindeua(PA)
- Beto Rodrigues – Produtor / Produtor Executivo (RS)
- Bruna Suelem, Professora de filosofia, Ativista e Cineclubista – Colares (PA)
- Bruno Emilio Moraes - Cineclubista (RS)- Carlos Augusto Brandão - Conselheiro do Congresso Brasileiro de Cinema - CBC
- Carol Marins - Produtora Audiovisual (SC)
- Caroline Petrin da Rosa - Cineclubista (RS)
- Carla Francine - Produtora e Jornalista (PE)
- Carlos Edielson Rodrigues - Professor, Cineclubista e Ativista em Software Livre – Santarém (PA)
- Carollini Assis - Roteirista - Salvador (BA)
- Catia Cilene Morais Dutra - Cineclubista (RS)
- Cláudio Chaves Lavôr - Realizador Audiovisual, Produtor Musical, Presidente ABD&C Roraima (2012/2014), Diretor Biosphere Records (RR)
- Cláudio Lyrio – Cineclubista – Itabuna (BA)
- Claudio de Oliveira Souto – Cineclubista (RS)
- Clementino Junior - Cineasta, Cineclubista e Professor (RJ)
- Clever dos Santos - Sonoplasta, Carimbozeiro e Cineclubista – Belém (PA)
- Dani Franco - Jornalista e Produtora Audiovisual - Filiada a ABDeC-Pa (PA)
- Dariane Labres – Cineclubista (RS)
- Darlan Freitas - Cineclubista (RS)
- Demian Menegaes - - Cineclubista (RS)
- Dennie Fabrizio - Coletivo Puraqué, Matemático, Ativista em Software Livre - Santarém (PA)
- Edina Fujii - Tesoureira do Congresso Brasileiro de Cinema - CBC – UNINFRA
- Eduardo da Silva Schneider - Cineclubista (RS)
- Eunice Gutman – Cineasta (RJ)
- Everton Cassiano da Silveira - Cineclubista (RS)
- Francieli Rebelatto – Realizadora Audiovisual (RS)
- Francisco Weyl - Carpinteiro de Poesia (PA)
- Fernando de Pádua - Professor, Artista, Cineclubista e Engenheiro de Bike – Colares (PA)
- Gê Carvalho – Cineclubista e Presidente da Federação Pernambucana de Cineclubes – FEPEC (PE)
- Geraldo Moraes – Cineasta (BA)
- Geraldo Veloso - Cineasta (MG)
- Gian Filipe Rodrigues Orsini - Realizador Audiovisual e Cineclubista (PB)
- Gilvan Dockhorn – Cineclubista (RS)
- Giovanni Rodrigues - Cineclubista e Professor Universitário – UERN (RN)
- Giseli Vasconcelos - Artista multimidia, Agitadora Cultural e Cineclubista – Belém (PA)
- Gizely Cesconetto – Cineclubista (SC)
- Gleidson Carréra - Arte-educador, Carimbozeiro e Cineclubista – Belém (PA)
- Graziele Ferreira - Gestora e Produtora Cultural e Cineclubista – Aracaju (SE)
- Guigo Pádua - Suplente do Audiovisual no CNPC – Realizador e Produtor (MG)
- Helen Psaros – Cineclubista (PR)
- Hilda Bairros - Cineclubista (RS)
- Holmes Wilson Ativista e Desenvolvedor de Web - Worcester/MA (EUA)
- Ícaro Gaya - Bailarino, Ator e Realizador Audiovisual – Belém (PA)
- Isabela de Fátima do Lago Vieira - Professora de Arte, Artista Visual e Cineclubista – Belém (PA)
- Isidoro Cruz Neto – Professor Universitário e Cineclubista (MA)
- Jader Gama - Coletivo Puraqué, Tecnólogo, Cineclubista e Ativista em Cultura Digital e Software Livre - Santarém (PA)
- João Batista de Andrade – Cineasta (SP)
- Jorge Conceição – Cineclubista (BA)
- Jose Luiz Fernandes - Cinegrafista, Diretor Cultural e Cineclubista – Lins (SP)
- Juliana Duarte - Cineclubista (RS)
- Juliane Fossatti – Produtora e Cineclubista (RS)
- Kátia Quaresma - Professora de Laboratório de Informática Educativa, Cineclubista - Santarém (PA)
- Kelly Giacobe - Cineclubista (RS)
- Larissa Bassi - Cineclubista (RS)
- Leandro Araújo - Ator e Cineclubista - Santarém (PA)
- Liuba de Medeiros - Psicóloga e Cineclubista - João Pessoa (PB)
- Lucas Gouvêa - Artista e Auto-Crítico de Arte – Belém (PA)
- Luciano Guimarães – Cineclubista (ES)
- Luciano Moucks – Cineasta (RS)
- Lucas Gomes - Cineclubista (RS)
- Luiz Alberto Cassol - Titular do Audiovisual no CNPC - Cineclubista e Realizador (RS)
- Luíz Albuquerque - Carimbozeiro e Historiador – Belém (PA)
- Luiz Carlos Lacerda - Cineasta (RJ)
- Lula Gonzaga – Cineasta de Animação (PE)
- Manfredo Caldas – Documentarista (DF)
- Marcelo Laffitte – Cineasta (RJ)
- Mariana Gomes de Andrade - Cineclubista (RS)
- Marlene Correia Nakayama - Coordenadora do Cine Club Art Total, Cineclubista – Ariquemes (RO)
- Mateus Moura - Cineclubista e Diretor da PARACINE - Belém (PA)
- Maurice Capovilla – Cineasta (RJ)
- Mauro Lira - Cineclubista e Produtora (PE)
- Milena Evangelista - Produtora e Jornalista (PE)
- Myrna Silveira Brandão - Presidente do CPCB – Centro dos Pesquisadores do Cinema Brasileiro
- Nataska Conrado Veiga Braga - Cineclubista – Maceió (AL)
- Ney Lima - Músico, Carimbozeiro, Artesão e Cineclubista – Belém (PA)
- Nicole Bartmer Alves - Cineclubista (RS)
- Oneide Monteiro Rodrigues (Mametu Nangetu) - Sacerdotiza e cineclubista – Belém (PA)
- Patricia Canetti - Conselheira Titular de Arte Digital do CNPC (SP)
- Patrícia Simonely Costa - Cine Ói e Ôiça de Audiovisual - Fundação Tocaia Altamira – (PA)
- Pedro Lazzarini – Diretor de Fotografia - Presidente Sindicine (SP)
- Renata do Rosário Lira - Cineclubista - Ananindeua (PA)
- Renata Fumagalli - Cineclubista (RS)
- Renato Silveira da Rosa - Cineclubista (RS)
- Reno Caramori Filho – Cineclubista (SC)
- Romário Alves - Costureiro e Transformista – Belém (PA)
- Rosangela Rocha – Produtora e cineclubista – (SE)
- Rosemberg Cariry - Cineasta (CE)
- Sáskia Sá – Cineasta e Cineclubista (ES)
- Sebastião Maximiano Corrêa Genelhú – Cineclubista (MG)
- Sergio Bairros - Cineclubista (RS)
- Sérgio Onofre Seixas de Araújo – Professor da Universidade Federal de Alagoas - Projeto Cineclube Cine Artpopular (AL)
- Shirley Hunter - Cineclubista e Produtora (PE)
- Silvio Da-Rin- Cineasta (RJ)
- Simone Norberto – Cineclubista – Cineclube OCA (RO)
- Sofia Mafalda – Cineclubista (SC)
- Solange Lima - Produtora (BA)
- Télcio Brezolin – Cineclubista (RS)
- Tetê Moraes – Cineasta (RJ)
- Vera Leal - Cineclubista (RS)
- Victor Cayo - Cineclubista , Jornalista e Fotografo (PB)
- Yanara Galvão - Coordenação Geral Cine + Alto do Moura – Caruaru /PE / 2ª Secretária Federação Pernambucana de Cineclubes – FEPEC (PE)

Posted by Patricia Canetti at 12:00 PM | Comentários (1)

Três exposições colorem São Paulo, Destak

Três exposições colorem São Paulo

Matéria originalmente publicada no jornal Destak em 19 de junho de 2012.

Jasper Johns e os artistas plásticos Loro Verz e Debora Muszkat inauguram suas mostras hoje

A partir de hoje, São Paulo ganha novas cores com três exposições gratuitas de artistas de diferentes épocas, que usam diversos suportes e manifestam representações artísticas cada um à sua maneira.

O destaque é a mostra de um dos grandes artistas da pop art, o americano Jasper Johns. Nascido em 1930, ele protagonizou a derrocada do expressionismo abstrato nos EUA e o nascimento de uma arte totalmente inusitada.

Johns tem cerca de 70 peças expostas no Instituto Tomie Ohtake. O objetivo é traçar um panorama de sua carreira, revelando experiências com a litogravura e a serigrafia em objetos "banais", como bandeiras e mapas.

Artes plásticas O singular uso da madeira por Loro Verz é tema da exposição "Ralo Central". O artista plástico apresenta, na galeria Urban Arts, obras em que utiliza diversos suportes, de telas pintadas a óleo a neons.

"A proposta é que o público possa conferir um olhar novo e contemporâneo sobre a inusitada e agitada energia que emana da região central de São Paulo", explica Verz.

Já a artista plástica Debora Muszkat elabora uma casa inédita, trabalhada em vidro reciclado e ferro, na mostra "Através do Vidro". A ideia é permitir uma interação com o público e relacionar a técnica moderna ao meio ambiente, explorando um jogo de luzes e reflexos.

Posted by Marília Sales at 11:43 AM

Exposição em SP reúne 70 gravuras de Jasper Johns por Agência Estado, Veja

Exposição em SP reúne 70 gravuras de Jasper Johns

Matéria da Agência Estado originalmente publicada na Veja em 18 de junho de 2012.

São Paulo - Acossado pela filosofia de Wittgenstein, o pintor e gravador norte-americano Jasper Johns emergiu na cena norte-americana no fim dos anos 1950 como uma voz dissonante, que não acreditava na anárquica liberdade gestual dos expressionistas abstratos, mas na lógica matemática. Tampouco se identificava com os representantes da então nascente pop art, apesar de ser frequentemente classificado como um dos expoentes do movimento. Irreverente ele sempre foi, mas não cínico como Andy Warhol. Entre os 30 pintores vivos mais caros do mundo, Johns nunca teve uma exposição à altura de sua importância no Brasil. "Pares, Trios e Álbuns", que o Instituto Tomie Ohtake abre nesta terça-feira, introduz finalmente o trabalho de Johns ao público brasileiro, apresentando 70 gravuras concebidas de 1960 em diante, inclusive sua primeira experiência na técnica.

Na época, o pintor começava a ser notado pelo mercado, após fazer sua primeira exposição individual, em 1958, na galeria de Leo Castelli, marchand que bancou toda a geração da arte pop. E foi incentivado por Tatyana Grosman (1904-1982) que ele produziu sua primeira série de litografias. Filha de um tipógrafo siberiano, que emigrou para os EUA na época da guerra, Tatyana fundou, em 1957, uma oficina de gravura que logo se transformou na Meca dos artistas americanos da geração de Jasper Johns. No começo, era apenas uma oficina na garagem de sua casa, em West Islip, Long Island, a uma hora de Nova York, mas cresceu e virou a Universal Limited Art Edition (Ulae), especializada na edição de obras de arte, que organizou a mostra, patrocinada pelo Deutsche Bank.

Bill Goldston, amigo de Jasper Johns e curador da mostra, conta que escolheu justamente a primeira série de litografias do artista para abrir sua exposição porque ela sintetiza como nenhuma outra sua filosofia, que, como se disse, é marcada por Wittgenstein. Se o pensador austríaco havia inventado uma teoria pictórica do significado, tentando provar que é possível representar o mundo por meio da linguagem, por que um pintor não poderia fazer uso desse conceito na arte? Obcecado pela precisão matemática, ele desenvolveu séries em pares e trios. A de 1960, que fez para Tatyana Grosman, começa com um grande número zero e vai até o nove. "Ele modificou a pedra inaugural e conseguiu fazer três edições, uma com os dígitos em preto, outra em cinza e ainda uma terceira em cores", explica Goldston.

Johns, que, aos 82 anos, vive sozinho em sua casa, em Connecticut, não parou de experimentar combinações matemáticas - pares e trios - desde então. Um pode funcionar na vida real, mas dois parece um número melhor. Goldston revela que, além de se alimentar dos vegetais que produz na horta de sua casa, onde cultiva um belo jardim, o artista continua a pintar telas gigantescas e a produzir gravuras, muitas delas adotando essas pinturas como referência. "Ele foi o primeiro artista americano a usar a impressão offset para produzir gravuras em 1971", lembra o curador. O marco zero dessa técnica é uma obra que ele classifica entre as melhores, "Decoy" (Armadilha). Johns usou nela uma chapa fotográfica das provas rejeitadas em dois álbuns de águas-fortes, usando uma ferramenta para criar um orifício, que o artista explicou se tratar de uma "saída".

A exposição "Pares, Trios e Álbuns" atesta a honestidade intelectual de Johns e, em particular, sua criatividade. Infelizmente, parte do trabalho que fez em colaboração com outros artistas, músicos e literatos, não coube na mostra. Teria sido uma boa oportunidade para ver "Fizzles", série de gravuras em que dialoga com a densa obra do dramaturgo irlandês Samuel Beckett. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Posted by Marília Sales at 11:25 AM

Para além do visível... Por Ana Cecília Soares no Scribd

Para além do visível...

Texto de Ana Cecília Soares originalmente publicado em junho de 2012

Bem ali, na minha frente, os dois envolvidos em silêncio iniciavam afluidificação de seus corpos e mentes. Um processo germinal tracejado pelaconfabulação entre performance artística e referências às práticas ritualísticasancestrais

Entremeados por olhares e gestos, eles alteravam a lógica do dito tempo real,conduzindo-nos a uma realidade de sentido cosmológico. Justapondo econfundido eus, excursionando sensibilidades e desconstruindo a nossacapacidade perceptiva de conceber aquele espaço presente.Enquanto ele a adornava com fitas e arava seus pés com terra molhada, batidae encalcada por um dançar próprio de mãos e cabeça, semelhante a um rito depurificação. De outro lado, ela vivia um estado de metamorfose. Parecia umaárvore de raízes largas e flutuantes, algo como uma entidade da natureza. Seusorriso se diluía em sons de chocalhos arrastados pelo corpo em transe.

Essas foram algumas das sensações que tive e, agora, compartilho aovivenciar, como espectadora, a performance, realizada no dia 22 de março, no Centro Cultural Banco do Nordeste em Fortaleza. O trabalho, que teve, na ocasião, a presença da artista visualcearense Sabyne Cavalcanti, faz parte do projeto Perpendicular, idealizadopelo performer e pesquisador Wagner Rossi.De acordo com ele, a ideia planejada antes de chegar a Fortaleza, foi a deconstruir uma aproximação com outros artistas locais por meio de encontrosritualísticos/performáticos, questionando ou propondo um olhar diferenciadopara o que habitualmente chamamos de curador.

“Sou um artista que dialoga com conceitos em arte, e me designar curador desse encontro é uma forma de questionar o que é realmente a função desse ENTE na arte institucionalizada. Qual sua força? Por que o artista necessitadele? Como isso mantém um sistema hierárquico e formatado de arte emercado?”, indaga-se.

É interessante observar a relação que o artista desenvolve entre os termoscurador e curandoria. Etimologicamente, curador vem do latim tutor: aquele quetem uma administração a seu cuidado. Mais do que identificar talentos, saber fazer boas análises, o curador é quem dá sentido a exposição. Situando umalinha de raciocínio entre a poética artística e o nível de compreensão dopúblico. Não tão diferente, o neologismo curandoria nos remete aos conceitos decuidado, zelo e cura. Portanto, ambas as situações implicam num certo sentidode proteção ou acompanhamento referente a algo ou a alguém. Apropriando-sedesses universos, Rossi cria a sua chamada curandoria, onde as imagens docurador e curandeiro se fundem. E o processo curatorial se transforma em umaespécie de ritual mágico.

A partir desse contexto, em consideração a natureza de sua obra, que é a deinteragir energias e ampliar as consciências individual e grupal, Rossi trabalhauma ação de curandoriacom os artistas do encontro. Em cada uma, ele parti de um ponto de convergência, encontro e unicidade que nomeou de PontoCaos/Ponto Origem ou Ponto Pulsão. Em, este “local” consistiu em um desenhogeométrico produzido com fita adesiva fixada no chão. Além disso, o artistabuscou agregar na formulação do trabalho, objetos próximos do universoindígena e da tradição folclórica nordestina: fitas, batata doce, fumo de rolo e aprópria argila, que é um dos principais materiais usado no trabalho da Sabyne. A ação foi pensada especialmente para a artista. E não se tratando de umaperformer, sua postura seria a de receptora. Experimentar a transformação deenergia através dos movimentos de Rossi. Os dois juntos, cada qual com suafunção dentro daquele universo, provocaram aos que ali permaneciaobservando, uma espécie de deslocamento sensorial e estético, instaurandouma relação temporal/espacial desligada de seu caráter comum. A performance, nos propõe demarcar novossentidos. Convertendo o atemporal e o instante fugaz, a um momento do tempopresente. Tornando os corpos dos artistas como focos refletores de novasexperiências. Instrumentos que se pretende afirmar como força viva,possibilidade criativa, ruptura com o que é determinado e esperado.Dessa maneira, contribuindo para a criação de rituais de contato com o própriocorpo e com aquilo que o cerca, dilatando a experiência de percepção doespaço e do tempo. Um processo mágico de aguçar sensibilidades e permitir oolhar ao aparentemente invisível. “O corpo como acontecimento”, diria Wagner Rossi...Tudo isso, bem ali, na minha frente...

Posted by Marília Sales at 9:49 AM

junho 20, 2012

Curadora inglesa identifica diferencial orgânico na arte do Recife por Júlio Cavani, Diário de Pernambuco

Curadora inglesa identifica diferencial orgânico na arte do Recife

Matéria de Júlio Cavani originalmente publicada no Viver do jornal Diário de Pernambuco em 15 de junho de 2012.

Exposição de Daniel Santiago, em cartaz no Mamam, tem curadoria de Cristiana Tejo e Zanna Gilbert, que comenta a experiência em entrevista

Daniel Santiago - De que é que eu tenho medo?, Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães - MAMAM, Recife, PE - 15/05/2012 a 08/07/2012

Está em cartaz no Recife, no Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (Mamam), a exposição Do que É que Eu Tenho Medo, retrospectiva panorâmica da obra do artista plástico Daniel Santiago. A mostra tem curadoria da pesquisadora pernambucana Cristiana Tejo em dupla com a inglesa Zanna Gilbert.

A exposição transmite o sentimento de liberdade expressado pelas ideias visuais de Daniel Santiago. Uma das obras, por exemplo, é uma instalação que deve ser penetrada pelo público com óculos 3D.

"O que para mim é muito profundo no trabalho de Daniel é que ele resiste à categorização, como se fosse uma borboleta, ora aqui, ora ali, que é uma provocação a continuar pensando", aponta Zanna Gilbert. A curadora trabalha na Universidade de Essex, na Inglaterra, onde acaba de inaugurar uma exposição sobre elementos de subversão inseridos nas peças gráficas das Olimpíadas do México de 1968. A arte correio, movimento que foi bastante forte no Brasil entre as décadas de 1960 e 1980, foi um dos temas que a trouxe ao Recife. Trabalhos artísticos postais, inclusive, devem fazer parte de uma sala especial, na galeria Tate Modern, que Zanna deverá ajudar a montar.

LEIA ENTREVISTA COM ZANNA GILBERT:

Como medir a importância internacional de artistas pernambucanos como Daniel Santiago?

É impossível medir a arte! Para mim, a experiência e entendimento que um artista como Daniel Santiago pode trazer às pessoas é muito importante. É inquantificável-singular-irrepetível porque deriva de seu jeito idiossincratico de ver o mundo. Se é assim único, deve ser muito importante! Ele combina performance, literatura, teatro e uma prática experimental que é incomparavel e que contribui a um discurso da arte dos anos 70 em diante.

Você acha que alguns dos trabalhos mostrados na exposição de Daniel Santiago se referem a uma época do passado ou todos também têm efeito sobre a sociedade atual?

Daniel é um artista com um espirito muito vivo e ainda muito ligado ao mundo contemporâneo. A exposição conta com trabalhos atuais como o filme da performance O Velho Ernest Hemingway e o Mar do Recife, feito com Tião e Marcelo Lordello em abril deste ano. A performance consiste no artista vestido elegantemente com terno, gravata e chapéu dando um passeio pela praia de Boa Viagem. Aos poucos caminha para a água e começa a adentrá-la até desaparecer no mar. Outro trabalho realizado especialmente para a exposição é Na Floresta do Alheamento de Fernando Pessoa, executado em colaboração com Eduardo Souza. É uma “floresta” construída com centenas de fitas de voal branco suspensas e iluminadas por lâmpadas azuis e vermelhas. Os visitantes são convidados a entrar usando óculos 3D, que provocam um deslocamento de percepção e um sentimento de estar perdido quando a floresta é penetrada. Os trabalhos de Daniel, seja os mais antigos ou os mais novos, tratam de assuntos persistentes como questões existencias, o assunto de nacionalidade, o meio ambiente, a percepção e a liberdade. Em Poesia Classificada de 1977, por exemplo, ele ativa uma poesia de contemplação que é muito intimo, colocando isso nos classificados do jornal. O texto diz: “Interessa a alguém que numa madrugada de chuva eu fiquei olhando os pingos grossos pela janela da cozinha...e que eu estava com frio de cueca e pé no chão”. Esta poesia nao tem época - é sempre pertinente!

Pra você, qual é o principal tema da arte de Daniel Santiago?
Pessoalmente acho que a liberdade é o tema principal – a liberdade de experimentar, pensar, perceber, fazer, agir, apropriar, colaborar, rir, amar… enfim. É importantíssimo também notar que ele tenta entregar essa liberdade ao outro: não é só para ele. Por isso, ele trabalha com performance e intervenções na cidade. O que para mim é muito profundo no trabalho de Daniel é que ele resiste à categorização, como se fosse uma borboleta, ora aqui, ora ali, que é uma provocação a continuar pensando. Outro aspecto interessante é a estratégia de deslocar a experiência visual, como o utilização de 3D – isso exige as pessoas a questionar o mundo de aparências e utilizar seus outros sentidos.

Você concorda que a história da arte tem sido escrita sob um ponto de vista europeu e norte-americano? Isso começou a mudar?
Claro que na história o ponto de vista ocidental foi exportado e difundido pelo mundo desde o período colonial. A História da Arte faz parte dessa história – o que não fica dentro é "atrasado". Mas tambem existe histórias que já foram escritas e que não entraram na história supostamente mundial. O que começou a mudar é que estas histórias que também fazem parte da história da arte moderna estão sendo ‘incluídas’ no cânone. Este cânone está sendo expandido, só que com os mesmos limites: a expansão só tomará conta da arte que liga com o modernismo. É mais uma globalização que um verdadeiro repensamento das categorias do conhecimento. Para mudar isso, a história da arte teria que ser pensanda com uma outro estrutura.

Você acha que os artistas postais anteciparam fenômenos atuais de uma arte sem local geográfico definido? Aquelas experiências isoladas e clandestinas, que criaram uma rede de fluxos de informação não-material, hoje estão generalizadas no mundo da internet? Ou é diferente?

A ideia de arte fora das fronteiras nacionais parece ser muito ligada à internet e a um mundo alto-conetado. Mas, antes disso, os artistas postais ja criaram uma rede internacional que permitiu a troca de ideia e a circulação de informação, às vezes com conteúdo politico. A importância do conceito (arte conceitual) liberou este tipo da prática em que o objeto é um veiculo e não uma mercadoria . Tem coisas em comum mas sim há uma diferença que às vezes é contraditória: a materialidade. O objeto artesanal também foi importante para confirmar uma esfera humana. Também a distância percorrida é importante e evidente na arte correio, e talvez o sentido do local foi mais forte naquele época, mesmo que os artistas intercambiaram querendo ultrapassar fronteiras.

Como será a sala especial que você ajudará a montar na galeria Tate?
A ideia é começar com alguns artistas que ligam com circulação alternativa. Como tenho um interesse na rede de arte correio e regimes opressivos, começamos com as artistas que pesquisei do Brasil, Argentina e México. A ideia é construir uma história a partir dessa perspectiva, invertindo a relação mais comum … ou seja, em vez de ‘incluir’ artistas de America Latina num Cânone já estabelicido vamos começar com artistas de latino-america e ‘incluir’ artistas mais conhecidos, como On Kawara e Ray Johnson. Esta estratégia tambem não aceita uma categorização puramente ou principalmente geográfica. Entretanto, ainda não sabemos se vai acontecer ou não!

Como você se aproximou do Recife?
Li um artigo sobre o trabalho de Paulo Bruscky, fiquei interesada e decidi fazer meu doutorado sobre arte correio. Um ano depois, em 2010, recebi uma bolsa para vir pesquisar no atelier de Bruscky. Visitei Daniel Santiago várias vezes também. Durante a mesma visita conheci Cristiana Tejo e os artistas Cristiano Lenhardt, Jonathas de Andrade e a arquiteta Cristina Gouvea. Foi um período incrível e começei a ficar muito apaixonada pela cidade. Notei que a cena da arte daqui é diferente das cidades mais grandes, que é muito forte e ao mesmo tempo bastante ‘familiar’ e que as coisas funcionam de um jeito diferente, talvez mais orgânico. Gostei muito disso e resolvi tentar voltar logo. Só que demorei dois anos. Esta segunda visita foi mais incrível ainda por causa de trabalhar com Daniel, alguns artistas mais jovens e com a curadora Cristiana Tejo. Trabalhar com um artista como Daniel é uma aprendizagem especial.

O que levou você a estudar o design nos Jogos Olímpicos do México de 1968?
Foi uma conversa com a diretora da galeria onde trabalho como curadora na Universidade de Essex. Ela queria fazer uma exposição para marcar os Jogos Olímpicos em Londres este ano. Achei muito interessante que os estudantes se apropriaram do desenho gráfico oficial do Mexico ‘68 para levar a atenção do mundo à situação repressiva no Mexico naquela época. Abrimos a exposição Jogos Contestidos: A Gráfica Revolutionária de Mexico 68. O desenho oficial foi impresionante e poderoso, uma combinação de Op art international e tecelagem geométrica dos índios Huichol. A ideia era pensar como que é o intervalo entre a imagem oficial do país durante as Olimpíadas e a experiência cotidiana num momento de um outro tipo de crise, que é a crise de capitalismo na Europa.

Daniel Santiago - De que é que eu tenho medo?, Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães - MAMAM, Recife, PE - 15/05/2012 a 08/07/2012

Posted by Marília Sales at 8:49 AM

junho 15, 2012

Goeldi viveu rejeição familiar e exílio por Fabio Cypriano, Folha de S . Paulo

Goeldi viveu rejeição familiar e exílio

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 14 de junho de 2012.

Direitos sobre a obra do artista, hoje sob cuidados da família, foram deixados em testamento para Béatrix Reynal

Amiga de Goeldi cuidou da difusão de sua obra até a morte; depois parentes criaram associação cultural

Oswaldo Goeldi - Ateliê de Goeldi, Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM SP, São Paulo, SP - 15/06/2012 a 19/09/2012

"O Ateliê de Goeldi", com curadoria da sobrinha-neta do artista, Lani Goeldi, 53, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), representa uma mudança significativa na forma como a família do artista trata sua obra.

Afinal, não foi para seus parentes sanguíneos que Goeldi deixou a responsabilidade da manutenção de seus trabalhos.

"A minha obra artística ficará toda com Béatrix Reynal (1892-1990), que cuidará da sua colocação em museus nacionais ou estrangeiros, ou disporá dela como melhor entender", escreveu o artista, em seu testamento.

A confiança em Reynal vinha de longa amizade. Foi ela quem o resgatou de uma espécie de exílio, a que seu cunhado Martin Wegner, casado com sua irmã mais nova, Matilde, o condenou.

O pai de Goeldi, o naturalista suíço Emilio Augusto Goeldi, morreu em 1917. Wegner, na época um dos melhores amigos do artista, passou a dominar a família.

Ele obrigou Goeldi a formalizar a desistência da parte que lhe cabia na herança paterna, expulsou-o de casa e, com apenas um conto de réis, o enviou, em 1922, para a Europa, segundo a pesquisadora Laeticia Jensen Eble, em dissertação defendida na Universidade de Brasília no ano passado.

A rejeição seria motivada pela vida boêmia e pela obra sombria do artista.

Foi Reynal, uma poetisa uruguaia de origem francesa, quem o trouxe de volta e, com seu marido, Reis Júnior, ajudou o artista financeiramente. "Após a morte do Goeldi, Béatrix imprimiu alguns de seus trabalhos e cuidou muito bem da difusão de sua obra", conta o curador Paulo Venâncio Filho.

"Béatrix e seu marido morreram sem deixar herdeiros, o que fez com que os direitos voltassem para a família e, por isso, nós criamos uma associação cultural, há dez anos, para preservar sua obra", diz Lani.

Curiosamente, as obras de Goeldi nunca estiveram penduradas na casa de seu avô, Edgar, um dos seis irmãos do artista. "Ele considerava aquelas obras muito tristes, obscuras", conta. No entanto, ressalta a sobrinha-neta, "meu avô sempre foi o elo entre ele e a família, e os pertences pessoais do Goeldi ficaram com ele".

MOSTRA DO ATELIÊ

Segundo o diretor-superintende do MAM, Bertrando Molina, foi Lani quem sugeriu a mostra sobre o ateliê de Goeldi: "Nós ficamos interessados na mostra e dissemos que a faríamos se, ao mesmo tempo, pudéssemos organizar uma grande mostra que contextualizasse o artista".

De acordo com Molina, o museu pagou R$ 24 mil para a Associação Artística e Cultura Oswaldo Goeldi pelo direito de imagem das 240 obras que estão nas duas mostras em cartaz.

O valor é bem inferior ao pago para a Imagem Ação, empresa que cobrou R$ 100 mil para a retrospectiva de Alfredo Volpi, no MAM, em 2006, que tinha quase cem obras a menos.

Segundo Lani, o dinheiro será utilizado para viabilizar uma publicação didática sobre o artista. "Muitas vezes nós nem cobramos pelo direito de imagem, só queremos saber a origem dos trabalhos para ajudar na catalogação", diz.

Oswaldo Goeldi - Ateliê de Goeldi, Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM SP, São Paulo, SP - 15/06/2012 a 19/09/2012

Posted by Cecília Bedê at 3:06 PM

O antitropicalista por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

O antitropicalista

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 14 de junho de 2012.

Grande mostra de Oswaldo Goeldi abre hoje no MAM e ressalta versão alternativa ao modernismo brasileiro de cores vivas

Oswaldo Goeldi - sombria luz, Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM SP, São Paulo, SP - 15/06/2012 a 19/09/2012

Com 201 obras, "Oswaldo Goeldi: Sombria Luz" abre hoje no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Trata-se da maior mostra do artista já montada no país.

"Não é uma retrospectiva, mas uma exposição que retrata o período mais importante da produção do artista: obras do final dos anos 1920 até 1960", conta o curador Paulo Venâncio Filho.

A exposição ressalta a versão alternativa ao modernismo brasileiro, em geral caracterizado por cores vivas -como nas pinturas de Tarsila do Amaral ou Di Cavalcanti-, que marca a trajetória de Goeldi (1895-1961).

"Ele é nota dissonante do modernismo e nos observa por um outro lado que não é o tropical", diz Venâncio.

As gravuras, os desenhos e as aquarelas selecionados representam casarios decadentes do Rio de Janeiro -série apresentada na segunda sala da mostra- e cenas do meretrício carioca.

"São imagens que têm relação com a vida subterrânea que ele levou. Sem dinheiro, Goeldi chegou a dormir na rua e se envolvia com as chamadas 'mulheres de vida fácil'", afirma Venâncio.

Já quando retrata a elite, em fraques e roupas de baile, o artista a apresenta na forma de cadáveres, numa típica representação expressionista.

Amigo do austríaco Alfred Kubin (1877-1959), um dos expoentes do expressionismo, Goeldi sempre confirmou sua afinação com o movimento.

Na sala menor do MAM, a sobrinha-neta do artista, Lani Goeldi, apresenta ainda "O Ateliê de Goeldi", com objetos pessoais do artista.

Oswaldo Goeldi - sombria luz, Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM SP, São Paulo, SP - 15/06/2012 a 19/09/2012

Posted by Cecília Bedê at 2:54 PM

junho 12, 2012

Rock pesado por Paula Alzugaray, Istoé

Rock pesado

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 7 de junho de 2012.

Wagner Morales - Dual Overdrive/Anita Schwartz Galeria de Arte, RJ/ até 30/6

A primeira individual de Wagner Morales no Rio de Janeiro é constituída por quatro séries de trabalhos que formam um só corpo, coeso e consistente. “Dual Overdrive” é o título que amarra o conjunto: talvez porque o efeito produzido por esse pedal de efeitos de guitarra seja a distorção. Contorcer, reverter, desvirtuar são os efeitos que reverberam no ambiente da Anita Schwartz Galeria de Arte.

Na antessala, a série “Joker” é uma coleção de fotografias de pôsteres da campanha política francesa. Morales, que reside em Paris com a artista Beatriz Toledo – sua mulher, com quem realizou essa série –, perseguiu cartazes em que os rostos dos candidatos foram maculados, seja com spray, seja com navalha. Ao se apropriar dessas imagens destruídas, a dupla interroga a publicidade: sua estratégia de superficialidade e sua mecânica da frontalidade visual. Nas demais obras que integram a mostra, Morales reafirma seu partido da negação. Na grande sala da galeria, instalou dois outdoors de madeira, voltados para as paredes. Não há nada para ver neles além de sua ossatura magra, feita de ripas de madeira barata. “É como se eles tivessem ido parar ali por algum acidente de percurso, um tufão, um tsunami”, conjectura o artista. Mas não, não é acidental. Eles estão ali para enfatizar o rompimento com a lógica do espetáculo – finalidade para a qual se voltam todas as obras da exposição.

A cultura dos bastidores se consolida na surpreendente foto-instalação “Estudo de Balística” – compilação de imagens de cuspes encontrados nas calçadas acinzentadas das cidades e posicionada aqui, desavisadamente, sob um dos outdoors – e na série “Vicinais”. Essas fotos – de lugares feios, sujos e abandonados, que não se escondem nas periferias das cidades – são pregadas sem moldura diretamente sobre a parede e interligadas por um risco de spray verde. “Para mim não há importância no que está sendo fotografado, tenho vontade de preservar a banalidade das coisas. Há também uma espécie de “autovandalismo” no spray de tinta que perpassa todas as imagens. Algo que confirma uma despretensão, uma vontade de negar a cultura do bom acabamento e do “beletrismo” do mundo da fotografia”, afirma Morales.

Tudo isso está envolto pelo incômodo som amplificado do ar-condicionado da galeria. Em “Dual Overdrive”, Wagner Morales recolhe imagens e objetos das periferias da civilização. Não para cantá-los em versos, mas para expor seus reversos. P.A.

Posted by Cecília Bedê at 3:37 PM

Curadora analisa diálogo da Documenta com cenário atual por Camila Molina, O Estado de S. Paulo

Curadora analisa diálogo da Documenta com cenário atual

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 12 de junho de 2012.

Mostra de arte fica em cartaz na cidade alemã de Kassel até o dia 16 de setembro

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

A dOCUMENTA (13) no Canal Contemporâneo

A curadora espanhola Chus Martínez foi, desde 2009, o braço direito - e esquerdo - da diretora artística da Documenta 13, a escritora ítalo-americana Carolyn Christov-Bakargiev, na concepção desta edição da mostra. "Carolyn é uma grande historiadora", diz Chus, chefe do departamento de curadores do evento, em cartaz na cidade alemã até 16 de setembro. A seguir, a entrevista que a espanhola concedeu ao Estado sobre a Documenta 13.

Cada edição da Documenta é concebida em pelo menos quatro anos de trabalho. Qual é a pertinência do evento?

A pertinência é imensa. A diferença de uma exposição como esta e de outras, como uma Bienal de São Paulo, é que sua ambição é apresentar não apenas a arte deste momento, mas a situação do mundo atual. A Documenta 13 produziu cem livros e mais de cem obras nova.

No caso da Documenta 13, prevaleceu mais a ambição de tratar da situação do mundo?

A arte de hoje tem a ver com pensar o futuro da vida por meio de questões relacionadas, por exemplo, a natureza, o feminismo, as novas formas de política, a sustentabilidade. É uma exposição versátil.

Como foi o processo de criação da Documenta 13? Quais foram as questões motivadoras desta edição?

De saída, a indagação foi "Como se recuperar de um colapso?" Econômico, ético ou até mesmo emocional. Depois, a questão sobre como viver em um mundo em que a palavra de ordem é a globalização - mas não usamos essa palavra na mostra - e a sincronização da economia. Ninguém hoje usa expressões como Primeiro Mundo ou Terceiro Mundo porque tudo está sincronizado. A terceira indagação referiu-se à capacidade de se dessincronizar nesse contexto atual. Também é importante dizer que há a questão da memória ou da arte se recordar através da memória. A Anna Maria Maiolino faz uma obra magnífica com sua instalação de peças de argila, o barro está relacionado à sensualidade, à fantasia da matéria. Outra brasileira, Renata Lucas, criou uma pirâmide imaginária que se levanta sobre esta Documenta. Poderia dar outros exemplos de como a matéria cria ficções, executam outras formas de política.

Muitas obras lidam com a história de Kassel, como o trabalho da artista Janet Cardiff, que em sua criação sonora, no meio do parque Karlsaue, promove a experiência de recriação de sons dos bombardeios na cidade durante a 2ª Guerra Mundial e do transporte de judeus para campos de concentração. É inevitável que obras das Documentas recorram à memória da cidade?

As obras sobre Kassel têm a ver com a ideia de colapso. A própria criação da Documenta (na década de 1950) foi uma resposta ao colapso. Mas não estamos historicizando nada. Existe uma simetria entre esse colapso e o que vivemos agora. A única maneira de sair dessa situação é propor o sentido de risco, pensar parâmetros distintos.

Durante a Documenta 2, em 1959, o filósofo Adorno fez a palestra "A Ideia de uma Nova Música", intrigado com a atonalidade e as experimentações de John Cage na época. Há muitas obras sonoras nesta Documenta 13, propondo uma relação distinta sobre o visível. Qual seria a radicalidade de hoje?

É a capacidade de a arte contemporânea se conectar a novas formas e conhecimentos. A filosofia e a sociologia não têm hoje a mesma eloquência que tinham antes ao se condensarem com a arte. As disciplinas das ciências humanas cobram um sentido novo dentro das produções artísticas. A Documenta nos faz lembrar que a arte não está em crise, porque ela absorve os conhecimentos das ciências humanas e outras disciplinas. Creio que isso é radical e político. As obras não têm a ver com a ilustração de formas ideológicas, elas se renovam dentro desta raiz.

Alguns visitantes desta Documenta afirmam que a mostra está dispersa e confusa e foi perguntado na coletiva de imprensa se a mostra não refletia, afinal, a confusão pessoal da diretora artística da exposição. O que pensa sobre isso?

Carolyn é a segunda mulher que faz uma Documenta - e a imagem de uma mulher confusa é histórica. Há cem livros e outras ferramentas para se ler esta Documenta. Talvez a confusão seja o surrealismo resgatado neste projeto.

Como surgiu a ideia de deslocar a Documenta 13 para o Oriente Médio, com atividades em Cabul, Cairo e Alexandria?

Fomos levados a Cabul por causa do artista Mario Garcia-Torres, que resolveu, em sua participação, seguir os passos de outro artista, Allighiero Boetti e seu One Hotel em Cabul (experiência realizada pelo italiano entre 1971 e 1977). Nós os seguimos também e, uma vez em Cabul, não teríamos como não levar a Documenta para lá. Foi algo intuitivo.

Por que ocupar o parque Karlsaue com casinhas de madeira para abrigar as obras dos artistas?

O parque foi o único lugar de Kassel que não foi bombardeado durante a guerra. Tornou-se, de certa forma, um refúgio. Ao mesmo tempo, é especial, mágico. Essa seção oferece uma orientação diferente da mostra em sua sede principal, no Fridericianum, elege um espaço aberto. Sobre as casinhas, não queríamos construir uma arquitetura imponente nesses tempos de precariedade. São formas elásticas e banais.

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

Posted by Cecília Bedê at 2:28 PM

junho 11, 2012

Sintonia tecnológica por Nina Gazire, Istoé

Sintonia tecnológica

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 7 de junho de 2012.

Em sua última edição, a Bienal de Arte e Tecnologia Emoção Art.ficial, do Itaú Cultural, mostra excelência da produção brasileira no gênero

Bienal Internacional de Arte e Tecnologia: Emoção Art.ficial 6.0, Itaú Cultural, São Paulo, SP - 30/05/2012 a 29/07/2012

Foram dez anos dedicados a mostrar ao público brasileiro pesquisas de ponta em robótica, inteligência artificial e cibernética – e o que isso tudo tinha a ver com arte. Em sua sexta – e última – edição, a Bienal de Arte e Tecnologia Emoção Art.ficial encerra um ciclo. Os campos da arte e da tecnologia, que iniciaram o século XXI de mãos dadas, se afirmando e ganhando terreno em importantes eventos como este promovido pelo Itaú Cultural, hoje formam um corpo só – e um corpo já não tão estranho ao mundo da arte contemporânea.

É a partir dessa premissa que o Itaú Cultural encerra seu ciclo de bienais de arte e tecnologia. “Queremos dar o próximo passo. Todas as obras que estão aqui poderiam perfeitamente estar em uma exposição de arte contemporânea, e não apresentadas como um gênero separado”, explica Marcos Cuzziol, gerente do Itaulab, laboratório de mídias interativas do Instituto Itaú Cultural e um dos responsáveis pelo projeto desde seu início.

Nas dez obras apresentadas nesta sexta edição, dividem-se os trabalhos que explicitam o uso da robótica e da inteligência artificial – nos quais o objetivo é evidenciar os processos subjetivos da máquina – e aqueles que fazem uso de mídias interativas como plataformas para evidenciar problemas conceituais. Nesse âmbito, os destaques são veteranos da arte e tecnologia brasileira, que foram selecionados via edital e desenvolveram seus trabalhos especialmente para a mostra, como Silvia Laurentiz, Martha Gabriel, Giselle Beiguelman, Fernando Velázquez, Leonardo Crescenti e Rejane Cantoni.

“Chama a atenção quanto a produção de artistas brasileiros é consistente. De alguma maneira, temos uma estética que se diferencia sem necessariamente estar atrelada a identidades nacionais, mas que está em sintonia com o cenário globalizado”, observa Giselle Beiguelman, que participou da primeira edição do Emoção Art.ficial, em 2002, e está presente agora com a obra “Você Não Está Aqui”, realizada em parceria com Fernando Velázquez. Na videoinstalação, telas dispostas em 360 graus recebem projeções de imagens que são retiradas aleatoriamente de um banco de dados. São imagens de cidades que, a partir do uso dos visitantes, podem criar lugares imaginários.

O fator da proliferação maquínica perpetrado por celulares é o centro do trabalho “Fala”, de Leonardo Crescenti e Rejane Cantoni. Na instalação, um “coro” de 40 celulares capta, por meio de um microfone, as vozes do ambiente da mostra repetindo palavras isoladas. Em “iFlux”, Silvia Laurentiz e Martha Gabriel conectam um ser artificial que reage ao fluxo de informações do edifício do Itaú Cultural.

Você que se interessa pelo futuro, não fique triste com o encerramento do Emoção Art.ficial. Marcos Cuzziol já trabalha em um novo projeto de curadoria que integra os campos da “arte e tecnologia” e da “arte contemporânea”, previsto para ocupar o Itaú Cultural no ano 2013. Nina Gazire

Bienal Internacional de Arte e Tecnologia: Emoção Art.ficial 6.0, Itaú Cultural, São Paulo, SP - 30/05/2012 a 29/07/2012

Posted by Cecília Bedê at 3:40 PM

Renata Lucas expõe obra na Documenta 13 por Camila Molina, O Estado de S. Paulo

Renata Lucas expõe obra na Documenta 13

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 8 de junho de 2012.

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

A dOCUMENTA (13) no Canal Contemporâneo

Um simulacro em que Kassel é tomada por tempestades de areia. Mais ainda, uma obra formada por partes de pirâmides encravadas em porões e sótãos de edifícios: "Ontem, Areias Movediças", que a artista brasileira Renata Lucas criou especialmente para a Documenta 13, a ser aberta no sábado para o público, é mais um de seus trabalhos conceituais que envolvem o espaço urbano e expositivo. Suas intervenções, à primeira vista estranhas, requerem a percepção de quem está desatento e desafiam o espectador. No caso desse projeto, ele se faz como que em simbiose com o tecido da cidade e sua história, guardando em camadas a potência da materialização poética e crítica de uma ação artística.

Sempre há algo de crítico nas obras de Renata. Numa descrição de seu trabalho para a Documenta 13, seis pontos com sinal gratuito de internet, delimitados por um quadrilátero no centro de Kassel abrangendo o porão do museu Fridericianum, o subsolo do prédio onde se hospedou a curadora da exposição, Carolyn Christov-Bakargiev - local era a antiga casa dos irmãos Grimm -, o piso inferior da loja de departamentos Kaufhof; e mais uma outra localidade da Friedrichsplatz, possibilitam aos visitantes capturar com telefones, tablets e computadores vídeos que a artista produziu usando imagens artificiais de locais da cidade alemã sendo invadida por tempestades de areia como as dos desertos. Renata usou o Photoshop e se apropriou de cenas da internet. Mais ainda, esculpiu em madeira e concreto o que seriam os fragmentos de uma pirâmide nos quatro pontos que formam o quadrilátero de sua ação.

"Escolhi a pirâmide por ser um elemento comum, mas ainda assim um sólido geométrico calculado matematicamente e comum a diversas culturas", diz a artista. Mas há outros sentidos complexos por trás dessa escolha. "Além de qualquer aspecto místico intrínseco, a pirâmide faz referência à monumentalidade da Documenta, à mística da própria mostra, ao modo como as pessoas chegam em massa a Kassel atrás de um sinal", conta ela. "Preferi buscar um símbolo para falar de uma história materializada no subsolo, do número de mortos e escondidos que caracteriza o subsolo da cidade como uma urbanização em paralelo."

A artista faz menção, nesse sentido, à "indústria armamentista que sustenta a cidade ao mesmo tempo que alimenta os conflitos no Oriente Médio; à fantasia de uma cultura superior anciã; à própria fantasia delicada da curadoria ao ir buscar parceria com o Afeganistão e Egito; à fantasia comum em relação ao Oriente, ao exótico; às imagens facilmente recolhidas da internet e que você pode pegar e colar para construir ficções como provas da realidade nas telas de vigilância; aos processos migratórios e migrações de paisagem".

A obra, assim, é um escopo de disparos contundentes de Renata Lucas. Quando passamos pelo porão do Fridericianum, por exemplo, não temos ideia de que aquele pedaço de uma base de pirâmide poderia abrigar tantas questões. Curiosamente, ainda, o título do projeto foi baseado em texto surrealista do escultor e pintor Alberto Giacometti.

Renata Lucas foi convidada em 2009 pela escritora e curadora Carolyn Christov-Bakargiev a participar da Documenta 13. Volta e meia, está escalada para as principais mostras de arte contemporânea, como a última Bienal de Istambul, a 53.ª Bienal de Veneza e a 27.ª Bienal de São Paulo, entre outras, além de ter recebido prêmios e residências no exterior. "Não há hierarquia, toda exposição é perturbadora e todo lugar tem assunto", diz a artista.

"A Documenta é muito importante porque permite um tempo de pesquisa e reflexão maior, tem um time curatorial afiado e o artista também tem oportunidade de acompanhar o processo de outros artistas. Mas está longe de ser ideal com seus problemas de comunicação, autorização (restrições de segurança inviabilizaram vários trabalhos) e orçamento. Entretanto, a Documenta permite um certo afastamento que o circuito frenético de bienais e feiras já consumiu. Ela ocorre num lugar absolutamente inexpressivo, que literalmente ''incorpora'' uma entidade que está fora do movimento local, e você precisa cavar fundo nesse falso contexto de mesmice e banalidade que é a cidade de Kassel para entender sobre o que esta urbanidade plácida está construída." As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

Posted by Cecília Bedê at 3:34 PM

Brasileira expõe na mais importante mostra de arte contemporânea por Camila Molina, O Estado de S. Paulo

Brasileira expõe na mais importante mostra de arte contemporânea

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 6 de junho de 2012.

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

A dOCUMENTA (13) no Canal Contemporâneo

KASSEL, ALEMANHA - A artista Anna Maria Maiolino comemorou seus 70 anos no dia 20. Estava em Kassel, na Alemanha, onde trabalhava na montagem de sua obra para a nova edição da mais importante mostra de arte contemporânea, a Documenta 13, que, a partir de hoje, é apresentada para convidados e profissionais da área, e no sábado será aberta para o público.

Ela participa da exposição com um projeto especial, Here & There (Aqui & Lá), instalação multidisciplinar abrigada em uma casinha típica alemã, às margens do parque próximo ao museu Staatliche de Kassel. "Criei um projeto de multiplicidade de sentimentos e sentidos porque queria me divertir", diz a artista, que concedeu entrevista ao Estado, em São Paulo, um dia antes de viajar para Kassel.

Divertir-se significa escrever um poema, Eu Sou Eu, em que Anna Maria mistura seus escritos a apropriações de trechos de O Alienista, de Machado de Assis, e de Reino dos Bichos e dos Animais É o Meu Nome, de Stella Patrocínio - interna do mesmo hospital de Arthur Bispo do Rosário. Eu Sou Eu é declamado pela artista, em português, por meio de uma gravação instalada no porão da casa (e a obra transformou-se também num pequeno livro, vendido na mostra).

Mas, mais do que a palavra, Anna Maria ocupa todos os cômodos do térreo com uma instalação com peças de argila, de sua série Terra Modelada, em que nos coloca o gesto primordial da mão. As esculturas tomam sofás, cama, cadeiras, beirais das janelas, criando uma imagem de acúmulo de formas. E apresenta a criação de um trabalho sonoro (em parceria com Tânia Pifer, Sandra Lessa e Mateus Pires), que faz reverberar sons da fauna brasileira, com ecos para o jardim e o bosque.

Trabalhando o espaço interior e exterior, Anna Maiolino concebe uma obra que inspira ares surrealistas. "As linguagens do inconsciente e da intersubjetividade enunciam o etéreo no espaço." Galhos de pinho, misturados a sons, ainda "impregnam o sótão da casa" como parte da riqueza de operações simbólicas criadas pela artista.

Em 2010, ela foi convidada pela curadora e escritora ítalo-americana Carolyn Christov-Bakargiev, diretora artística da Documenta 13, a participar da exposição. A mostra alemã, realizada a cada cinco anos, tem a tradição de manter segredo sobre seus participantes, mas, desta vez, uma lista foi publicada há poucas semanas na imprensa alemã. Os organizadores da Documenta 13 - sob o título The dance was very frenetic, lively, rattling, clanging, rolling, contorted and lasted for a long time - não a confirmaram. O anúncio oficial dos participantes ocorreria hoje em Kassel.

Anna Maria Maiolino, que nasceu na Itália, em 1942, viveu na Venezuela nos anos 1950 e radicou-se no Brasil na década de 1960, é uma das representantes do País - outras criadoras brasileiras já confirmadas são Renata Lucas, Maria Martins e Maria Thereza Alves.

Vivendo mais um momento especial de sua consagrada carreira, Anna Maria, que acaba de ganhar o 1.º Prêmio Masp, fala na entrevista a seguir sobre sua participação na Documenta 13.

Como se deu o convite para a Documenta 13?

A curadora-chefe da Documenta veio ao Brasil há dois anos. Ela havia me convidado antes para a Bienal de Sydney (de 2008), com o filme In-Out, Antropofagia, histórico, de 1973. Carolyn sugeriu então uma instalação de argila da série Terra Modelada para a Documenta. Disse "tudo bem", mas com 50 anos de trabalho é desagradável para o artista maduro o convite de uma obra histórica. Ao mesmo tempo que é um elogio, você quer fazer algo novo. A instalação de argila é uma série, uma obra aberta em que uso quatro formas básicas da mão. Ela se modifica dependendo do espaço, mas a base é a presença do gasto energético e da ação básica do gesto.

Como foi o diálogo com a curadora sobre o conceito da Documenta 13?

Para dizer a verdade, não li a proposta. Fui atrás da minha fantasia, do meu delírio. Os artistas não precisam se adequar a formas. Mas não vou fazer só a minha instalação de argila, com a questão da mão laboriosa, dos primórdios até hoje. Carolyn me disse que a instalação de argila é uma expressão humana. Eu disse tudo bem, mas sou uma artista. Levei em conta o que ela me pediu. Fui a Kassel, que não conhecia, em 2010. A curadora pediu que eu escolhesse um espaço para minha obra, não me levou ao museu (Fridericianum, sede da Documenta), então, entendi que ela queria que eu escolhesse um espaço alternativo da cidade. Voltei e fiquei pensando. Fiz um livro para a minha instalação, Eu Sou Eu, como resumo de pequenas poesias e pensamento.

Como é sua obra?

O nome do meu projeto é Here & There. No livro, aproprio-me de um trecho de O Alienista e outro de Stella Patrocínio, mas não estou falando da loucura no sentido negativo, e sim de sentido criativo. A obra tem uma multiplicidade. Tem o livro, tem o som, é uma obra que ocupa três andares de uma casa, mas que só é definida com a minha presença.

É uma obra de palavra, som e o gesto da mão?

No primeiro andar, tem a argila, o ente operante. No sótão, está a memória encontrada. E no porão, o corpo ausente. Here & There se divide em três itens. Quis levar um pouco da vitalidade brasileira.

A senhora teve liberdade total para ampliar seu projeto. A casa também foi sua escolha?

Sim. Quando escolhi a casa, a curadora me disse que do outro lado moravam os irmãos Grimm, que escreveram contos incríveis. Escolhi a casa para me refugiar às margens do parque. É típica alemã e é onde construo minha fábula e poética, e é, inconscientemente, um refúgio. Kassel, inevitavelmente, remete à guerra. Acho que a Documenta também foi feita para sanar a memória da cidade. Levo sons da fauna brasileira, algo de sol, alegria, esperança. Mas só me dei conta quando terminei o projeto. Falo da morte também, o poema é paradoxal, a vida é paradoxal. A obra de arte vive na dualidade, mas quando fala de insanidade, transforma essas situações para a vida, como que resgata para a vida. É ocupação da memória, com uso de mídias diferentes.

E sobre o título Aqui & Lá?

São dois advérbios de lugar só para indicar a obra. São muitos lugares que estou ocupando. Sou filha da guerra também. Sinto-me como (o poema) Banquete Antropofágico (escrito por ela), sou brasileira, mas com sotaque diferente.

Como é participar da Documenta? Vê sentido nessas mostras?

Vejo sentido em exposições grandes, coletivas. Nunca vi uma Documenta, todos dizem que chegar lá é o reconhecimento de que se é competente. Não acho isso. Vejo a arte como a máxima expressão do ser humano em sua humanidade. Fiquei contente, mas não estou eufórica. Quando quis ampliar meu projeto ou criar um projeto de multiplicidade de sentimentos e sentidos foi porque quero me divertir. É uma experimentação. Tenho mais de 13 filmes, mas não sou cineasta. Trabalho com fotografia, mas não sou fotógrafa. A curiosidade que move o desejo de poesia. Quando se muda de mídia, você entra no risco. Posso dizer que me diverti muito.

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

Posted by Cecília Bedê at 3:25 PM

Com 4 brasileiras, Documenta 13 propõe questões como o poder e a injustiça por Camila Molina, O Estado de S. Paulo

Com 4 brasileiras, Documenta 13 propõe questões como o poder e a injustiça

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 7 de junho de 2012.

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

A dOCUMENTA (13) no Canal Contemporâneo

KASSEL, ALEMANHA - Parafraseando o título da Documenta 13, The dance was very frenetic, lively, rattling, clanging, rolling, contorted and lasted for a long time, a coreografia das propostas desta edição é enérgica. "A confusão é maravilhosa", disse ontem a diretora artística da mostra, a ítalo-americana Carolyn Christov-Bakargiev, em uma bem-humorada coletiva de imprensa no Kongress Palais de Kassel, na Alemanha. Ela teve quatro anos de trabalho para preparar a Documenta 13, que foi aberta ontem para convidados, vai ser inaugurada no sábado para o público e fica em cartaz até 16 de setembro.

A era digital, o deslocamento, o comprometimento "no momento crítico que vivemos", a precariedade, o poder, o feminismo, o surrealismo, a injustiça de um mundo entre ricos e pobres, todas essas são questões levantadas pela curadora, "mulher e feminista", como frisou, para a concepção da exposição formada por obras de 193 criadores (dentre eles, o Brasil está representado por Anna Maria Maiolino, Maria Martins, Renata Lucas e Maria Thereza Alves).

A coreografia, afirmou Carolyn Christov-Bakargiev, não poderia ser harmoniosa. "O intuito da Documenta 13 não é ler o momento histórico através da arte, mas reimaginar o mundo com o uso da ficção, da poética e da ciência", disse. Primeiramente, esta edição evento propõe uma mudança, deixa de ter apenas Kassel como sua sede (desde 1955) para ainda promover, entre 20/6 e 15/8, seminários e exposições em Cabul (Afeganistão), Cairo-Alexandria (Egito) e Banff (Canadá).

O desafio de expandir a mostra ainda se refere à própria cidade alemã - os trabalhos de seus participantes ocupam, além dos tradicionais museus Fridericianum, Neue Galerie e Ottoneum (de história natural), espaços como o palácio Orangeire, o parque Karlsaue, o Museu dos Irmãos Grimm e a estação Hauptbahnhof, entre outras localidades. Entretanto, com tantas "parassimultaneidades, importa o aqui e o agora", afirmou Carolyn. Ela até usou em sua palestra uma espécie de fábula, um projeto não realizado dos artistas Guillermo Faivovich e Nicolas Goldberg para a Documenta 13, em que se cogitava como seria a colisão de um meteoro vindo da Argentina até Kassel. "Como poderia ser essa transição temporária de um objeto?", indagou ela.

A mostra principal no Fridericianum, a casa tradicional das Documentas, expõe de uma maneira bem direta o conceito de coreografia frenética de contradições proposto para esta edição do evento. Os primeiros espaços nada têm de espetaculosos, pelo contrário: são salas brancas, à primeira vista, como que vazias. Pouco depois se encontra o trabalho do inglês Ryan Gander, I Need Some Meaning I Can Memorise (2012), que é apenas feito da circulação de ar, de uma "brisa gentil" sobre os espectadores - no mesmo setor, há uma obra sonora de Ceal Flyer. Até começar uma espécie de "babel" de objetos, épocas, culturas pelo restante do espaço expositivo da instituição, abrigada na Friedrichsplatz.

A relação da arte e do objeto - primordial ou intrínseca - é apresentada em múltiplas formas, por camadas. Em vitrines, esculturas de princesas da tradição do Uzbequistão estão ao lado dos vasos que o pintor metafísico italiano Giorgio Morandi usava como "modelos" de suas naturezas-mortas, de objetos destruídos durante a guerra civil no Líbano, de peças de Man Ray e fotografias da década de 1930 de Lee Miller, entre elas, de artigos dos banheiros do casal Adolf Hitler/Eva Braun. "Venho de uma mãe arqueóloga", diz, em certo momento, a curadora.

No Fridericianum, ainda chamam a atenção as tapeçarias modernas e políticas criadas também nos anos 30 pela sueca Hannah Ryggen. Passa-se pela ciência, em que teorias da física engendram uma série de parafernálias criadas este ano pelo austríaco Anton Zeilinger em parceria com os alunos da Universidade de Viena até se chegar a uma instalação desconcertante de Kader Attia, um gabinete de esculturas primitivas africanas e grandes bustos de homens deformados de madeira, livros, fotografias e objetos, na obra deste ano The Repair from Occident to Extra-Occidental Cultures.

As Documentas ocorrem a cada cinco anos e por isso são as mais aguardadas mostras do cenário contemporâneo. Esse longo processo de concepção levanta muitas questões (nem sempre respondidas ou materializadas) e a impressão que se tem é a de que artistas estiveram em diálogo com a curadora sobre os temas desta edição. Como afirmou Carolyn, quatro motivações engendraram a Documenta 13: "Sob o cerco: Estou cercado pelo outro, sitiado por outros"; "Em retiro: Me retiro, escolho abandonar os outros, Eu durmo"; "Em estado de esperança, ou otimismo. Eu sonho, sou o tema do sonho por antecipação"; e "No palco: Estou interpretando um papel, Sou um tema no ato da reperformance."

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

Posted by Cecília Bedê at 3:21 PM

Documenta de Kassel começa 'dramática' por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Documenta de Kassel começa 'dramática'

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 9 de junho de 2012.

Para diretora da mostra alemã, tempos absurdos tendem a levar artistas e intelectuais em direção ao surrealismo

Reunindo obras de 183 participantes, 13ª edição do evento permanecerá aberta ao público por cem dias

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

A dOCUMENTA (13) no Canal Contemporâneo

"Eu já estou farta dessa vida, eu estou farta desse tempo", escreveu Charlote Salomon (1917-1943) em uma das 769 aquarelas exibidas no museu Friedricianum, um dos oito espaços em que ocorre a 13ª Documenta de Kassel, na Alemanha, que será aberta ao público hoje.

Na aquarela em questão, uma das 1.325 pintadas por ela entre 1941 e 1942, Salomon se autorretrata com as mão na cabeça, em sentido trágico. O conjunto foi feito como forma de superação do suicídio de sua mãe. Ela própria morreria no ano seguinte, perseguida por nazistas no campo de concentração de Auschwitz.

Esse sentimento de tragédia pessoal e histórica, retratado por Salomon, perpassa toda a Documenta. Foi um sentido dramático o que a diretora artística, Carolyn Christov-Bakargiev, atribui como característica do mundo contemporâneo.

"O mundo está louco, tudo é tão impossível de parecer justo ou coerente! Nós vivemos nesse mundo de riqueza absurda e pobreza absurda. A guerra ainda ocorre no Afeganistão, apesar de dizerem que acabou", disse a diretora em entrevista à Folha.

No entanto, não se trata apenas de uma mostra com obras melancólicas, já que a diretora aponta outras estratégias artísticas frente às crises. "Quando o mundo é absurdo, um intelectual tende a ir em direção ao surrealismo", defende Bakargiev.

Surgido nos anos 1920, o surrealismo enfatizou o inconsciente como força criativa e, por isso, suas obras misturavam elementos desconexos e um tanto sarcásticos, como na pintura "A Grande Paranoia", de Salvador Dali (1904-1989), presente nesta edição da mostra.

Assim, junto a obras dramáticas como as de Salomon, sua curadoria inclui um grande número de obras históricas surrealistas, como as do próprio Dali (1904-1989), além de Man Ray (1890-1976) e da brasileira Maria Martins (1894 - 1973), ao lado de produções contemporâneas.

Entra elas, está a performance da artista Ceal Floyear, que ficou roendo as unhas por cinco minutos, antes da entrevista coletiva, na terça, ação que será repetida várias vezes na mostra.

O tom surrealista também está na obra da brasileira Anna Maria Maiolino, um dos trabalhos considerados "extraordinários" pela diretora.

Ela colocou centenas de peças de barro feitas a mão sobre os móveis de uma casa de 1947, a mais antiga período pós-guerra, em Kassel, numa ação obsessiva, que durou duas semanas.

Mesclar obras modernistas, especialmente dos anos 1930 e 1940, a trabalhos contemporâneos faz sentido, segundo a diretora, por conta do contexto de sua produção.

"Se você pensa na história dos anos 1930, após a crise financeira de 1929, e nosso tempo, vemos analogias nas questões econômicas, culturais e sociais. Esses são tempos surrealistas".

Um dos eventos surrealistas mais comentados é a sessão de hipnose de Marcos Lutyens e Raimundas Malasauskas, que promete fogos de artifício físicos e mentais.

Com 183 artistas, a Documenta permanecerá aberta por cem dias em oitos instituições da cidade, além de ter 50 obras em pavilhões no parque Karlsaue, e intervenções em outros espaços.

Agigantada, confusa, impossível de ser vista em poucos dias, a mostra mistura a tristeza dos tempos de guerra com a esperança criativa surrealista. Na Alemanha, faz todo sentido.

Mostra irá acontecer também em Cabul, Alexandria e Banff

Além de Kassel, a Documenta irá ocorrer em Cabul, no Afeganistão; Alexandria, no Egito; e Banff, no Canadá.

O feito não é inédito, já que Okwui Enwezor, há dez anos, organizou seminários em outros continentes. A novidade está na diversidade do que irá ocorrer em cada cidade.

Em Banff, a curadora Carolyn Christov-Bakargiev irá permanecer enclausurada num monastério, entre 2 e 15/8, com outras 16 pessoas, entre artistas e curadores.

Já em Cabul, parte da própria exposição ocorre lá até o dia 19 de julho. "Há anos, trabalho com artistas no Afeganistão para criar debates sobre arte numa área de conflito", diz a curadora.

Filmes de artistas que participaram de encontros no Afeganistão, como Francys Alys, estão sendo exibidos em Kassel e em Cabul.

Finalmente, Alexandria será sede de estudos e seminários dedicados às transformações da Primavera Árabe, que tiveram início em 2011. "Trata-se de um evento de reflexão, esperança, sonho e processos de aprendizagem." (FC)

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

Posted by Cecília Bedê at 3:01 PM

junho 6, 2012

A artista Maria Thereza Alves será uma das quatro brasileiras na Documenta de Kassel por Audrey Furlaneto, O Globo

A artista Maria Thereza Alves será uma das quatro brasileiras na Documenta de Kassel

Matéria de Audrey Furlaneto originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Globo em 6 de junho de 2012.

Consagrada mundialmente mas quase desconhecida por aqui, artista participa de uma das maiores exposições de artes visuais do mundo

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

A dOCUMENTA (13) no Canal Contemporâneo

RIO - Maria Thereza Alves vasculhou subsolos na Inglaterra em busca de sementes ancestrais, criou um dicionário para salvar o idioma de uma etnia indígena brasileira quase extinta e fez mulheres francesas posarem nuas em retratos que lembram pinturas do século XIX. As obras decorrentes de suas pesquisas, misto de antropologia, política e arte, já foram expostas em importantes mostras, como a Manifesta (a bienal de arte contemporânea da Europa), as bienais de Praga, Lyon, Atenas e Havana, a Trienal de Guangzhou, na China, e em renomadas instituições, como o New Museum, em Nova York, e o Palais de Tokyo, em Paris. A brasileira, porém, teve seus trabalhos expostos no Brasil apenas uma vez, durante a 29 Bienal de São Paulo, em 2010.

Aos 51 anos, ela será anunciada nesta quarta, na Alemanha, como uma das quatro artistas que vão representar o país na Documenta de Kassel, uma das maiores e mais respeitadas exposições de artes visuais no mundo, que ocorre a cada cinco anos na Alemanha e que será aberta ao público no sábado. Maria Thereza figura ao lado de Renata Lucas, Anna Maria Maiolino e Maria Martins (1894-1973), estas com longa lista de exposições no Brasil.

Lobista nos EUA e fundadora do PV no Brasil

O fato de ser pouco conhecida em seu país de origem pode ser reflexo de a artista paulistana viver há 15 anos na Europa, com residência entre Berlim e Roma. Maria Thereza, porém, defende que a questão é histórica: quando começou a desenvolver os primeiros trabalhos, nos anos 1980, fotografando comunidades em situações miseráveis para a série "Brazilian recipes", não havia no Brasil "espaço para vozes que não estavam economicamente bem".

— Não havia lugar para pessoas como eu. Eu não tinha o sobrenome correto — diz, referindo-se à sua origem simples, de família rural, vinda do interior dos estados do Paraná e de São Paulo. — Quando terminei a faculdade de Belas Artes (nos Estados Unidos), tentei mostrar meu trabalho no Brasil e, muitas vezes, perguntavam meu sobrenome. Eu não entendia, era nova, não tinha essa sabedoria. Perguntavam: "De que família Alves você é?" E eu pensava: "Por quê? Estou mostrando meu portfólio..." Até descobrir que queriam saber se eu vinha de uma família importante, porque havia outra família Alves importante. Quando o Brasil parar de fazer esse tipo de pergunta (sobre status) e pensar que todas as pessoas podem participar da sociedade, o país poderá ser mais interessante.

O tom político acompanha sua produção. Ela diz não ter autorização para divulgar o que vai apresentar na Documenta, mas adianta que vem estudando Chalco, região central do México. Seu projeto é construir uma ilha — sim, uma ilha real — nos moldes da que existiu séculos atrás naquela região e que, em decorrência da urbanização, foi soterrada. A obra é "sobre a possibilidade, a energia de transformação". O produto é o projeto da ilha e o diálogo com os povos indígenas locais.

A ligação de Maria Thereza com tribos está na origem da carreira da artista que, ainda criança, mudou-se para os Estados Unidos (o pai temia problemas por ser sindicalizado em tempos de ditadura). Lá, nos anos 1970, ela fazia lobby contra o tratamento que o governo brasileiro dava aos índios. Foi assim que conheceu o marido, Jimmie Durham, índio cherokee americano, artista e ativista. As ações políticas do casal se mesclam às obras de arte que criam, ora sozinhos, ora em dupla. Na Bienal de São Paulo, por exemplo, ela apresentou um dicionário em que traduzia para o português o dialeto krenak, etnia indígena quase dizimada. Já Durham analisava a elite paulistana, reunindo objetos de valor numa vitrine.

Para Moacir dos Anjos, curador que esteve à frente da 29 Bienal e que trouxe a artista e seu marido ao país, "há certo recalque no Brasil com relação à cultura indígena", e o trabalho de Maria Thereza "abre fissuras no contrato social".

— Ela é uma das poucas artistas que trabalham com a questão indígena no país — afirma o curador. — No Brasil, existe esse recalque e talvez por isso o trabalho de Maria Thereza passe ao largo do interesse dos curadores e das instituições.

Ela afirma que não vê outro caminho para transformações que não o da política ("Para mim, tudo é política, relação de pessoas na sociedade", diz). No fim dos anos 1980, de volta ao Brasil depois da juventude nos Estados Unidos, ela deixou o Partido dos Trabalhadores (PT) e ajudou a fundar o Partido Verde (PV). Pouco depois, frustrada com as dificuldades de transformações na "colonizada sociedade brasileira", mudou-se para a Europa.

‘Me interessa a história como parte de hoje’

No âmbito da arte política de Maria Thereza entram ações para decifrar costumes e convenções sociais. Com Durham, ela assinou o vídeo "Male display among European population" para a Manifesta de 2008, em que tentavam descobrir o motivo pelo qual homens têm o hábito de, diz ela, "tocar os testículos em público".

— Estou interessada em como acreditamos que somos e em como somos realmente. Como a gente pensa que o normal é normal? Me interessa a história como parte de hoje.

Para uma de suas obras mais recentes, "Beyond the painting" (2011), exposta no Museu de História de Nantes, na França, estudou como a mulher é retratata na arte, desde o século XVII — então, a figura feminina aparecia "vigorosa e forte"; já no século XIX, surgia "alongada e sem energia". Convidou francesas para repetir, nuas, as poses dos retratos, mas sempre fortes, com os olhos cravados no espectador. Em outro trabalho, buscou, no subsolo de áreas portuárias da Inglaterra, sementes dormentes trazidas de outros continentes por antigas embarcações. "Seeds of change" (2005) resultou numa instalação em que, germinadas, as sementes revelam plantas exóticas.

A artista diz que quer voltar ao Brasil para um longo projeto e conta que tem comprado livros para saber mais sobre o país. Afirma, no entanto, estar distante da "síndrome do exilado, que deseja sempre voltar". Daí o mergulho em culturas diversas para criar suas obras.

— Tenho que estar onde estou — diz a artista. — Quero saber exatamente meu lugar no mundo.

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

Posted by Cecília Bedê at 1:20 PM

Universo de Anna Maria Maiolino ganha casa própria por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Universo de Anna Maria Maiolino ganha casa própria

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 6 de junho em 2012.

Obras da ítalo-brasileira vão integrar a Documenta de Kassel, maior mostra de arte contemporânea do mundo

Cotidiano doméstico é mote da artista, que ocupa uma residência na cidade alemã para expor seus trabalhos

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

A dOCUMENTA (13) no Canal Contemporâneo

Não estranha que Anna Maria Maiolino tenha escolhido ocupar uma casa com a obra que fez para a 13ª edição da Documenta, maior mostra de arte contemporânea do mundo, que começa agora em Kassel, na Alemanha. O universo doméstico, que no seu trabalho permanece ligado ao feminino, sempre foi um "leitmotiv" (motivo condutor) potente.

Maiolino, italiana radicada em São Paulo, nunca havia pisado na cidadezinha alemã quando foi convidada para integrar a exposição.

Numa viagem a Kassel com a curadora Carolyn Christov-Bakargiev, Maiolino viu a casinha à beira do parque que decidiu não só ocupar com esculturas, obras sonoras e vídeos mas também transformar em grande instalação.

"Queria que o espectador ficasse envolvido pelo espaço da casa, pelo jardim", contou Maiolino à Folha, em seu apartamento na Vila Madalena, antes de viajar para montar os trabalhos.

Na primeira visita a Kassel, Maiolino também foi a um antigo mosteiro que serviu de base da polícia secreta durante a Segunda Guerra (1939-45), lugar onde faziam a triagem dos prisioneiros que seriam mandados aos campos de concentração. Um manicômio hoje funciona ali.

LOUCURA E PODER

"Era um lugar onde se administrava o poder de uma maneira terrível, tentando colocar todas as mentes numa mesma forma", diz ela. "São todos exercícios de poder."

Um vídeo que gravou na hora, durante a visita ao manicômio, será mostrado dentro da casa no parque. "É um documentário modesto", diz Maiolino. "Foi mesmo um registro da minha chegada."

No caso dos desvios mentais, trechos do conto "O Alienista", de Machado de Assis, e versos de Stela do Patrocínio, poeta que viveu anos internada na colônia Juliano Moreira, no Rio, serão combinados à fala da artista em gravações audíveis na porta da casa.

"Nenhuma obra de arte, a menos que seja panfletária, pode ser lógica", diz Maiolino. "Tudo é uma sobreposição de sentimentos ambíguos, estamos em busca dos sentidos. Estou fazendo uma afirmação da subjetividade."

LABOR FEMININO

Outra afirmação é a série de esculturas em argila que Maiolino quer mostrar no térreo da casa. São formas básicas, resultado de quatro movimentos da mão, que formam rolinhos e dobras.

"Terra Modelada", nome dado a esse ato de repetição quase obsessiva de formas em argila, é uma série que começou no início dos anos 1990. "Remete ao labor cotidiano, uma referência ao feminino", diz a artista.

Maiolino mete mesmo a mão na argila para moldar as peças sempre únicas, embora pareçam iguais. "Meu trabalho não pode ser olhado como algo preso à forma", diz a artista. "Estamos trabalhando em cima de um ritual."

Em Kassel, isso quer dizer entrar na casa da artista, ver e ouvir suas memórias e tentar entender suas proposições para um futuro possível.

Raio-X: Anna Maria Maiolino

VIDA

Nasceu em 1942, em Scalea, na Itália. Vive em São Paulo desde os anos 1960

OBRA

Ficou conhecida por seu trabalho em diversos suportes, como gravura e escultura. Sua obra discute política e temas ligados ao universo doméstico

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

Posted by Cecília Bedê at 12:47 PM

junho 4, 2012

A resistência artística no país por Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

A resistência artística no país

Matéria de Lúcia Guimarães originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 2 de junho de 2012.

A curadora e historiadora de arte carioca Claudia Calirman acaba de se tornar vizinha do dissidente cego chinês Chen Guangcheng, que se instalou no mesmo complexo de edifícios do bairro nova-iorquino do Greenwich Village, onde ela mora. Se forem apresentados, é fácil prever um tema da conversa: como resistir com integridade a uma ditadura? A resistência que interessa à carioca é a dos artistas plásticos atuantes no Brasil, especificamente três nomes que seguiram carreiras consagradas; eles são o foco de Brazilian Art Under Dictatorship - Antonio Manuel, Artur Barrio, and Cildo Meireles (Arte Brasileira sob a Ditadura: Antonio Manuel, Artur Barrio e Cildo Meireles), livro que sai no dia 29 pela Duke University Press. Claudia Calirman é professora de História da Arte do John Jay College of Criminal Justice, em Manhattan. A ideia da obra veio de uma série de conversas com o crítico Frederico Morais, um curador que não se ausentou do País durante a ditadura. "Foi ele que me chamou a atenção para a narrativa individual dos três", lembra a autora.

Claudia não romanceia a trajetória dos artistas, que analisa no período entre 1968 (AI-5) e 1975. As ações dos três, escreve, eram mais mundanas do que heroicas. O heroísmo, diz, reside na distância que eles percorreram com a arte e do que realizaram com ela. "Eles partiram de um começo que incluía nomes como Hélio Oiticica e Lígia Clark e atravessaram o pior momento da ditadura", comenta.

Leia a seguir a entrevista exclusiva de Claudia Calirman ao Sabático.

Você destaca, no livro, a escassez de documentação jornalística sobre as ações dos artistas plásticos da época, por causa da censura.

Sim, é um ponto importante porque você vê muita gente perguntar "então, já viu uma Coca-Cola do Cildo Meireles? Viu o trabalho do Antonio Manuel nas bancas de jornal?" Não havia cobertura convencional. E os próprios artistas viam o que faziam como ações rápidas. Não é como hoje, quando há tanto trabalho performático, consciente da câmera, com a expectativa do registro.

Sua tese é que a resistência representada por este grupo de artistas plásticos se situava longe do dogma ideológico e do nacionalismo?

Não havia um movimento organizado. Esses artistas não se agruparam. Faziam sua arte e, de vez em quando, expunham juntos. E eram censurados juntos. Mas não há um rótulo, como "geração AI-5". Acho que o teatro foi mais organizado, até ser violentamente perseguido no período do AI-5. Tivemos a Tropicália na música. Acho que as artes visuais foram menos perseguidas porque eram menos expostas.

Você cita outro marco, o boicote à Bienal de São Paulo, em 1969, que nem foi muito percebido pelo público por causa da censura. Por que acha que o boicote teve outro efeito?

O boicote internacional começou em Paris, com o critico e curador Pierre Restany, se espalhou pela Europa e chegou aos Estados Unidos. Foi um esvaziamento, que ficou conhecido com a Bienal do Boicote. Por isso mesmo, outros eventos locais, como o Salão da Bússola, começaram a ter mais importância, já que, até então, a Bienal dominava como vitrine do que acontecia na arte.

Coloque em perspectiva o trabalho do Antonio Manuel, que fez a performance em abril de 1970, no MAM-Rio, quando estava nascendo a body art.

Vejo mais o ato do Antonio Manuel de tirar a roupa no MAM naquele dia como um gesto espontâneo e não como uma estratégia de expressão. Ele - seu corpo - havia sido recusado pelo Salão de Arte Moderna. O fato de que ele apresentou o próprio corpo como obra de arte é mais importante do que o gesto de tirar a roupa. Como ficar nu provocou escândalo, ficamos com a memória de ser o fato relevante. Por ele ter tentado se inserir na exposição como uma obra, este momento é que se relaciona com a body art.

Em 2010, causou grande repercussão aqui a instalação da Marina Abramovic, em que ela passava o dia sentada no MoMA e convidava o visitante a se sentar à sua frente e fixar o olhar no seu. Qual a diferença que o contexto político faz para o artista quando a ousadia estética encontra o estado policial?

É um aspecto importante. Em momentos de repressão, a arte acaba por reinventar formas de expressão. É de novo a frase do Oiticica, "da adversidade vivemos". E a produção artística enfrenta um obstáculo maior na autocensura, quando a criatividade do artista entra em conflito com sua autopreservação. Você vê exemplos de arte mais efêmera em situações de restrição à liberdade, como na União Soviética e China. Mas quero notar que a Marina teve que lidar com a questão institucional, corporativista do museu e fez várias concessões para fazer a exposição. E esta forma de restrição tende a ser mais branda no Brasil.

E como você vê a trajetória do Antonio Manuel saindo dos anos da ditadura?

Não quis, intencionalmente, fazer a ponte com os dias de hoje; espero que outros sigam com essa narrativa. É um ótimo pintor que se interessa pelas questões da pintura. Livre da repressão política, ele evolui para a abstração geométrica que vemos hoje.

O aspecto efêmero da obra do Artur Barrio é um desafio maior ainda para a memória do trabalho dele naquele período?

Vamos lembrar que, além de ter representado o Brasil na última Bienal de Veneza, ele ganhou, em 2011, o prêmio Velázquez de Artes na Espanha, que mostra que passou a ter reconhecimento internacional. O desafio para quem pesquisa é o fato de o Barrio não ter interesse em preservar o trabalho. Faz questão de destruir e não acredita em reprodução da obra. Acha que uma foto da obra deve ser identificada como "registro" do trabalho. Não quer que seu trabalho seja distorcido por certas formas de representação.

Um ponto em comum entre os três artistas é a juventude deles, quando é decretado o AI-5. Barrio com 23 anos, Manuel, 21, Meireles, 20. Há algo em comum na memória que eles têm daquele tempo?

São três personalidades muito distintas, que passaram por processos de evolução diferentes. Mas todos olham para aquele momento, inequivocamente, como o passado. O artista sempre quer se firmar no presente. Na verdade, foi um pouco difícil trazer a conversa para aqueles anos que, em parte, gostariam de esquecer.

E não têm uma ideia romântica do período.

Não, veem como um momento que tiveram que atravessar, fazendo uma arte tão marginal. Não era pintura, escultura, não se vende. Como sobreviver? Senti que precisam manter certa distância daquele tempo.

Entre os três, o Cildo Meireles é o que articula mais intelectualmente a questão da história e da identidade do Brasil, certo?

Com certeza. Acho que o Cildo se preocupa com a questão da trajetória narrativa da arte brasileira. Ele valoriza artistas como Oiticica, Ligia Clark, o neoconcretismo, mesmo não fazendo parte de movimentos, porque morava em Brasília. E ele veio para Nova York no fim dos anos 60. Cildo acha importante criar uma genealogia contínua da arte brasileira. Acho que o Manuel e o Barrio são mais interessados em rupturas. O Manuel era muito amigo do Hélio Oiticica e teve uma relação de trabalho com ele, que vem mais da arte construtivista, do Dada.

Você lembra no livro como a arte conceitual criou uma resposta à ditadura.

Sim, mas havia uma diferença de expressão conceitual. Nos Estados Unidos, era uma arte mais ligada à linguagem, a palavras. No Brasil, você toma como exemplo a Coca-Cola do Cildo Meireles, é mais uma estratégia, como também era a distribuição dos dólares. Os artistas tiveram que procurar estratégias conceituais para se opor ao regime, evadindo a censura. Aquela nota de 1 cruzeiro com a inscrição "quem matou o Herzog?". Todo mundo sabia que o Vladimir Herzog tinha sido assassinado na prisão. A pergunta é pura retórica, para espalhar uma dupla consciência.

Há uma tendência nos Estados Unidos de romantizar a experiência do perseguido por um regime autoritário. De exacerbar a condição de vítima. E você afirma que a criatividade desses artistas não existia por causa da ditadura.

Achei importante dizer isso. Não se pode elevar um artista por causa do contexto político. Lembro do samba do Chico Buarque, Apesar de Você. A arte efêmera estava acontecendo em outros países. No Brasil, ela adotou um caráter mais político, mas havia a emergência de uma linguagem internacional, na performance, na body art, no conceitualismo. E sim, apesar da ditadura, eles continuavam a produzir, mas não por causa dela.

Posted by Cecília Bedê at 4:06 PM

"Emoção Art.ficial" tem última edição no Itaú Cultural por Silas Martí, Folha.com

Emoção Art.ficial" tem última edição no Itaú Cultural

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha.com em 30 de maio de 2012.

Bienal Internacional de Arte e Tecnologia: Emoção Art.ficial 6.0, Itaú Cultural, São Paulo, SP - 30/05/2012 a 29/07/2012

Foram dez anos de obras que combinam inteligência artificial, interatividade em tempo real, transmissão de dados, muita energia elétrica e certa pirotecnia visual.

Mas agora o Itaú Cultural, que abre hoje a sexta edição de sua tradicional mostra bienal de arte tecnológica "Emoção Art.ficial", decidiu encerrar o ciclo, dizendo que essa produção não precisa mais estar isolada do resto da arte contemporânea.

"Muita coisa evoluiu", diz o curador da mostra, Marcos Cuzziol, brincando com a projeção de uma estrela do mar na montagem. "É inegável que o deslumbramento que havia no início não existe mais. Há uma evolução da tecnologia e uma apropriação desta pelas pessoas."

Também tem a febre de marketing em torno desse tipo de trabalho e um arrefecimento do "hype", que já pôs empresas (em especial do setor de telecomunicações) em pé de guerra inventando e patrocinando festivais do gênero. É fato que Vivo e Oi ainda estão no páreo, mas Nokia e Motorola já caíram fora.

Depois de uma aguardada renovação, o Museu da Imagem e do Som, que tentou fincar um espaço fixo para o gênero em São Paulo, também teve suas propostas revistas, e o foco voltou para manifestações mais convencionais, como cinema e fotografia.

Enquanto isso --e também porque telas sensíveis ao toque são hoje a "coisa mais normal do mundo", nas palavras de Cuzziol--, o mercado vê com menos exotismo a arte em novas mídias.

"Um motivo para separar a arte tecnológica do resto era a não compreensão dessa poética. Tinha gente que achava que isso nem era arte", diz Cuzziol. "Mas a gente sabia que haveria um limite de tempo para essa separação."

Tanto que em 2014, segundo o curador, o Itaú Cultural volta a expor obras tecnológicas ao lado de trabalhos em suportes tradicionais, num contexto "mais híbrido".

Mas, enquanto isso não acontece, a mostra que abre hoje exibe o tradicional arranjo de obras high-tech --robôs que identificam o rosto dos visitantes, painéis que permitem aos usuários escrever e projetar seus pensamentos, a imagem de uma estrela do mar que estica e encolhe, reagindo ao toque...

Uma das obras tem um arsenal de smartphones instalados diante de um microfone. Estão programados para reconhecer palavras em inglês, espanhol, francês, português e até russo e polonês. Quando alguém diz alguma coisa, eles devolvem o vocábulo distorcido em várias línguas --é a tentativa de decifrar essa poética eletrônica.

Bienal Internacional de Arte e Tecnologia: Emoção Art.ficial 6.0, Itaú Cultural, São Paulo, SP - 30/05/2012 a 29/07/2012

Posted by Cecília Bedê at 3:30 PM

Como transformar cópias em originais por Paula Alzugaray, Istoé

Como transformar cópias em originais

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 1 de junho de 2012.

Sem ser falsificador profissional, Gustavo von Ha vende desenhos copiados de Leonilson e de Tarsila do Amaral e discute sistema de direitos autorais

Gustavo Von Ha - T.L. /Galeria Leme, SP/ até 13/6

Para copiar os 23 desenhos de Tarsila do Amaral (1888-1973) e os 16 de Leonilson (1957-1993) que estão atualmente expostos na Galeria Leme, em São Paulo, o artista paulista Gustavo von Ha passou meses estudando os gestos, as técnicas e os traços de cada artista. “Fazendo esse trabalho, me senti um ator. Para chegar à intensidade empreendida pelos lápis de cada um deles, tive que forjar uma simulação até mesmo em minha postura corporal”, afirma Von Ha à Istoé. A exposição denominada “T.L.” – as iniciais de Tarsila e Leonilson, que algumas vezes assinavam só com letras – é o resultado de uma pesquisa do artista sobre sistemas de reprodução de imagem e da arte na atualidade.

Mas os desenhos resultantes dessa pesquisa são muito mais do que cópias. De fato, seriam apenas cópias, não fosse por um pequeno detalhe: o artista aplicou-lhes um efeito de espelho e assim as reproduções aparecem em posição invertida em relação aos originais. A partir desse gesto simples de inversão, Von Ha garante sua autoria sobre as imagens e balança um sistema de convicções sobre o estatuto da cópia e da autoria – e, de quebra, da verdade e da mentira, da ficção e da realidade. Com isso, entra em sintonia com uma discussão que já data quase 100 anos – começou com Walter Benjamin e Roland Barthes em meados do século 20 – e hoje explodiu com as mídias digitais.

“O mundo da lei é muito restrito. Autores como Roland Barthes nos falam que uma mesma obra, por mais original que seja, nunca é fruto de uma autoria única. Ela sempre traz outras referências. As leis de direitos autorais, constituídas no ápice do Iluminismo, pensam o autor como um sujeito estanque, com direito a proteção a sua propriedade e por isso são menos dinâmicas”, afirmou Luciana Rangel, advogada especialista em direitos autorais, convidada a debater com von Ha, no sábado 26, as mudanças que o conceito de originalidade vem sofrendo em tempos de reprodução digital.

Posted by Cecília Bedê at 3:06 PM | Comentários (3)

Muito além do olhar por Nina Gazire, Istoé

Muito além do olhar

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 18 de maio de 2012.

Arthur Omar percorre os caminhos da percepção visual, em exposição que remonta aos pensamentos de William Blake e Aldous Huxley

AS PORTAS DA PERCEPÇÃO – ARTHUR OMAR/ Oi Futuro, BH/ até 17/6

“Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito.” Assim escreveu o poeta William Blake, em 1790. A frase inspirou o escritor Aldous Huxley a fazer experimentos com LSD, nos anos 1950, e registrá-los em um livro chamado “As Portas da Percepção”. Nesse trabalho, Huxley declara que a mente humana filtra a realidade não permitindo a passagem de todas as impressões e imagens existentes. A mente é como uma porta, um limite a ser transposto. E a imagem de uma porta entreaberta, de cuja fresta emana uma luz incandescente, é o ponto de partida para a exposição que exibe a série fotográfica “As Portas da Percepção”, de Arthur Omar, no Oi Futuro de Belo Horizonte.

A porta de Omar é a de um forno: símbolo da transformação desde o tempo dos alquimistas. Tomando a antropologia visual como norte para sua criação, o objetivo do artista sempre foi o de abordar as outras realidades e suas relações por meio da fotografia. Nesses trabalhos recentes, ele chega à radicalidade ao criar uma forma de registro dos limites da representação visual, não só dentro da fotografia, mas dentro do processo mental de formação das imagens. “Foi uma espécie de laboratório. Ir além do elemento humano e concentrar-se no processo da percepção. É uma exposição radical”, declarou Omar à IstoÉ.

Composta de 33 fotografias inéditas, uma videoinstalação, um vídeo e cinco fotografias da série “A Menina do Brinco de Pérolas” – em que o artista modifica com a câmera o olhar da mulher do quadro mais famoso do flamengo Johannes Vermeer –, a mostra é um contínuo no qual cada imagem é uma etapa de um processo de pesquisa sobre a cognição. Na série “As Portas da Percepção” há imagens polimórficas e transparentes. O fotógrafo cria monstros, figuras humanas, fantasmagorias ao captar a instabilidade de jatos d’água. Ou seriam cristais? “Eu quis perceber outras possibilidades que, no fundo, estão cristalizadas nas nossas estruturas básicas de percepção. Será que tudo o que recebemos na mente é produto de uma construção ou existem estruturas universais que estão além?”, questiona. A teoria visual proposta por Omar é complementada por dois trabalhos em vídeo nos quais o artista deixa clara sua ideia de fotografia expandida para além da câmera. Na videoinstalação “Ciência Cognitiva dos Corpos Gloriosos”, de 2006, ele explora o estado contemplativo e lento da percepção e da imagem a partir da performance dos atores alemães Grabrielle Osswald e Wolfgang Sautermeister. Ao longo do trabalho, fogos de artifício aparecem sobrepostos aos rostos e olhos dos atores. A cena poderia muito bem ser descrita pela frase “se o olho não fosse como o sol, não perceberíamos sua luz”, do alemão Johann Wolfgang von Goethe. Esta citação está no início da segunda obra em vídeo apresentada, “Um Olhar em Segredo”, e que também é uma espécie de portfólio em que o público pode ter contato com trabalhos anteriores e percorrer os caminhos que levam ao desvelamento da percepção, segundo Arthur Omar.

Posted by Cecília Bedê at 2:55 PM

Céu na terra por Paula Alzugaray, Istoé

Céu na terra

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 25 de maio de 2012.

Com técnicas artesanais, Maria Nepomuceno transforma a sala e o jardim da casa de Eva Klabin em ambientes solares

15ª edição do Projeto Respiração: O que não tem fim nem tem começo - Maria Nepomuceno e Sara Ramo, Fundação Eva Klabin, Rio de Janeiro, RJ - 04/05/2012 a 01/07/2012

Em 2006, a artista carioca Maria Nepomuceno atirou aos foliões do bloco carnavalesco Cordão da Bola Preta, no Rio de Janeiro, uma bola cor-de-rosa de dois metros de diâmetro, com a inscrição da palavra amor. As imagens da folia com a bola – até ela tomar uma facada e dar seu último suspiro no asfalto – foram editadas no vídeo “Expiro”. A mesma bola já havia circulado pela praia do Leme num domingo de sol. Embora Maria não tenha subido a Santa Teresa para soltar a bola “Amor” no tradicional bloco de marchinhas e maxixes do morro, hoje na exposição “O que Não Tem Fim Nem Tem Começo”, na Fundação Eva Klabin, ela evoca simbolicamente o bloco Céu na Terra. Isso porque, na grande sala da casa que pertenceu à colecionadora Eva Klabin, Maria Nepomuceno despejou milhares de contas e esferas azuis, de tons e tamanhos variados, que pendem de lustres e se amontoam sobre os valiosos tapetes, sofás e as peças de arte de quatro continentes e até cinco séculos de idade. Os volumes azuis são como corpos que caíram do céu.

“O azul para mim está relacionado à espiritualidade e transcendência”, diz Maria Nepomuceno. “Realizar esse trabalho é como dotar de energia vital uma sala imortalizada pela história”, afirma a artista, que também relaciona os azuis de sua instalação aos trabalhos do francês Yves Klein e à performance “Alviceleste”, da carioca Marcia X. Maria foi convidada pelo curador Marcio Doctors a integrar, ao lado de Sara Ramo, a 15ª edição do Projeto Respiração, que desde 2004 propõe diálogos de arte contemporânea com o acervo da Fundação Eva Klabin.

Há quase dez anos Maria Nepomuceno se dedica a construir objetos escultóricos desenvolvidos a partir de tradições manuais da costura e do artesanato. Ela começou em 2003, trabalhando com chapéus de palha trançada, procurando radicalizar suas formas e escapar da convenção dos objetos utilitários. Depois vieram as redes. No jardim da Fundação Eva Klabin ela expõe uma de suas redes inutilizáveis. Trata-se de um objeto sedutor e convidativo, que não pode ser usado, apenas contemplado.

Com sua instalação solar, Maria Nepomuceno ocupa pela primeira vez o jardim da casa. A luminosidade e a vitalidade sugeridas por seus trabalhos contrastam com os elementos da outra intervenção desse Projeto Respiração. “Penumbra”, de Sara Ramo, é uma instalação noturna, criada dentro do quarto, do closet e do banheiro da antiga dona da casa, concebida para ser vista no escuro. Como se estivesse na sala escura de um cinema, o espectador é convidado a enfrentar seus fantasmas e encarar aquilo que é inatingível com os olhos: a imaginação.

Posted by Cecília Bedê at 2:43 PM

Desenhos animados por Paula Alzugaray, Istoé

Desenhos animados

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de Artes visuais da Istoé em 18 de maio de 2012.

Janaina Tschäpe - Flatland, Galpão Fortes Vilaça, São Paulo - SP, 15/05/2012 a 16/06/2012

“Flatland”, a nova individual de Janaina Tschäpe em São Paulo, é o título de uma tela monumental, que centraliza a exposição. É também o título de um romance (“Flatland: a Romance of Many Dimensions”, de Edwin Abbott Abbott), mas funciona ainda como definição para os novos territórios explorados pela pintura da artista alemã radicada no Brasil. Nesse mural de nove metros de comprimento, composto predominantemente em tons de azul, desenha-se uma espécie de mapa-múndi de um universo plástico pessoal.

A tela inaugura uma nova pesquisa com geometrias, que coloca em oposição e em complementaridade gestos programados ou produzidos ao acaso. O resultado é uma imagem que traduz uma matemática imprecisa e relativa. “Imagine uma grande folha de papel em que linhas retas, triângulos, quadrados, pentágonos, hexágonos, e outras figuras, ao invés de ficarem fixas em seus lugares, se movimentassem livremente...”, é um trecho do livro usado como guia pela artista, para seu novo percurso geométrico. O texto fala de um país e de habitantes que vivem entre essas formas instáveis. Em continuidade às palavras do escritor, as pinturas de Janaina Tschäpe também se modificam e criam modelos de vida peculiares.

Além de “Flatland”, 20 pinturas produzidas em guache sobre papel em cores vivas e vibrantes compõem a exposição. Elas são como estudos artístico-científicos para novas formas de vida: elementos nucleares que se projetam, se fundem e se precipitam uns contra os outros, reformulando suas estruturas; esferas elásticas, moldáveis, que se prolongam em linhas ou se espalham em manchas de cor. As pinturas de Janaina Tschäpe são como desenhos animados, que não se deixam conter nos limites do papel ou do plano do quadro. PA

Posted by Cecília Bedê at 2:39 PM

O homem diante do espelho por Nina Gazire, Istoé

O homem diante do espelho

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 25 de maio de 2012

Maurício Dias e Walter Riedweg - Estranhamente Possível, Museu de Arte Moderna da Bahia - MAM BA, Salvador, BA - 19/05/2012 a 22/07/2012

Diz-se que a alteridade é uma condição, que define que o homem jamais poderá se entender como um ser isolado. Ele é sempre um reflexo, espelhando suas relações e individuações a partir de seu contato com o exterior, com o outro. A figura do espelho social, no qual as alteridades são constantemente dadas, é o mote da dupla suíço-brasileira composta por Maurício Dias e Walter Riedweg. E, para entrar nesse espelho, os artistas elegeram o vídeo como ferramenta para experimentações, registros e reflexões sobre o outro.

Na retrospectiva “Estranhamente Possível” pode-se perceber como, segundo a dupla, a ideia de alteridade é sempre uma referência mutável. Nos seis trabalhos – videoinstalações, fotografias e performances feitas entre 2002 e 2012 –, a questão do outro e seus meios é trabalhada em diferentes âmbitos. Seja explorando as diferenças em culturas distantes, como em “Juksa”, de 2006, centrado no depoimento dos últimos três habitantes de uma pequena ilha no Polo Norte, seja em questões de gênero, como é o caso de “Paraíso Cansado”, em que um experimento poético é realizado para investigar o turismo sexual nas Ilhas Canárias.

O trabalho mais recente, “Água de Chuva no Mar”, foi produzido este ano em uma residência artística a convite do MAM-Bahia, em conjunto com a comunidade do Solar do Unhão, próxima ao museu. Para a realização do trabalho, os artistas conviveram durante um mês com habitantes dessa comunidade composta majoritariamente por famílias comandadas por mulheres. Desde os tempos mais remotos, elas dependeram da fonte de água do engenho de açúcar, onde hoje está o museu. A história do local é revivida em depoimentos de lavadeiras, que evocam suas antepassadas. “Além do trabalho da residência, escolhemos para a exposição obras que dialogam não só com a comunidade onde o museu está inserido, mas também com a cidade de Salvador, onde a questão das alteridades sempre esteve latente”, comentam Dias e Riedweg, que se definem mais como “bons contadores de histórias” do que artistas.

Posted by Cecília Bedê at 2:28 PM

Arte contemporânea internacional em Óbidos por Fátima Ferreira, Gazeta das Caldas

Arte contemporânea internacional em Óbidos

Matéria de Fátima Ferreira originalmente publicada no jornal Gazeta das Caldas em 18 de maio de 2012.

“Uma colecção de arte contemporânea para Josefa de Óbidos – entre fora e dentro, entre o que é e o que possa ser” é a proposta dos curadores Fátima Lambert e Lourenço Egreja para Óbidos. A mostra, que será inaugurada no próximo domingo, 20 de Maio, na galeria novaOgiva, denomina-se “13 artistas+13 obras” e junta na vila um conjunto de trabalhos de artistas nacionais, brasileiros, belgas, austríacos e argentinos.
Os curadores procuram deste modo dar uma nova leitura às obras de arte, que foram na sua grande maioria concebidas para o Carpe Diem Arte e Pesquisa, situado no antigo Palácio Pombal, em Lisboa.

“Pretendemos também permitir que se aplique a descentralização e que tudo aquilo que se produz possa, em vez de morrer num armazém, ir à luz e ser apreciado noutros locais do país”, explicou Lourenço Egreja à Gazeta das Caldas.

De acordo com o curador, tratam-se maioritariamente de obras recentes feitas já este ano. Algumas delas ainda se encontram em exposição no antigo Palácio Pombal e serão agora transportadas para Óbidos.
Na novaOgiva estarão patentes várias obras, mas apenas “duas peças à parede”, como faz questão de explicar Lourenço Egreja, justificando que se trata de toda uma abordagem de arte contemporânea, com peças electrificadas, mecânicas e que promovem interacção com os visitantes.

Para além da galeria, a mostra estende-se à vila, com a colocação de quatro peças em espaço público. Logo junto à Porta da Vila é possível apreciar uma peça de Manuel Caeiro e no chafariz no Largo de Santa Maria encontra-se uma obra da brasileira Laura Vinci. Rodrigo Oliveira tem patente uma peça de arte na Porta de Nossa Senhora da Graça e Nuno Sousa Vieira uma outra no largo junto ao restaurante Pretensioso.
De acordo com Ana Calçada, responsável pela Rede de Museus e Galerias de Óbidos, esta parceria é uma forma de envolverem “cada vez mais gente no mundo da criatividade, que olhe para Óbidos como um espaço que recebe quem cria, inova e pretende, noutro contexto que não as grandes cidades”. A responsável destaca que a Carpe Diem é um sitio de arte e pesquisa e apresentou-se como parceiro “muito interessante daquilo que se faz em Lisboa, com um conjunto de artistas que não são só grandes nomes, mas a possibilidade de juntarmos nomes em ascensão e autores estrangeiros”.

A exposição vai estar patente em Óbidos até 7 de Outubro.

Saiba mais sobre a exposição na agenda de eventos: 13 artistas + 13 obras [e todas as demais] na novaOgiva, Portugal

Posted by Cecília Bedê at 2:16 PM

Mostra reúne as glamourosas fotos de José Esteve e sua filha Aracy por Simonetta Persichetti, O Estado de S. Paulo

Mostra reúne as glamourosas fotos de José Esteve e sua filha Aracy

Matéria de Simonetta Persichetti originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 4 de junho de 2012.

'Do Retrato Interior ao Exterior do Retrato: Coleção José Esteve e Aracy Esteve Gomes 1920-1970' entra em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo a partir do dia 09

José Esteve, catalão, nascido em Barcelona em 1886, queria fazer a América. Aos 28 anos, em 1914, embarcou no navio Santa Helena e desembarcou no Rio. Químico de formação, começou porém a trabalhar numa fábrica de piteiras. Dois anos depois resolveu morar em Salvador, mas a peste negra já havia chegado ao Estado e ele, assustado, decidiu, então, mudar-se para o interior, mais precisamente para Santo Antonio de Jesus. Foi nessa cidade que ele se casou, teve filhos e começou a construir sua carreira de narrador fotográfico. De 1920 até 1934 ele registrou sua família, os amigos, o cotidiano da cidade. Imagens que foram preservadas por sua filha, Aracy Esteve Gomes, que segue os mesmo passos do pai e durante 20 anos, de 1950 a 1970, narrou seu entorno.

Desse encontro de olhares nasce a exposição Do Retrato Interior ao Exterior do Retrato: Coleção José Esteve e Aracy Esteve Gomes 1920-1970, com curadoria e pesquisa de Diógenes Moura, a partir de sábado, dia 9, na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Saudoso de sua família, José Esteve construiu ele mesmo sua câmara fotográfica e seu laboratório. Começou a registrar seus amigos, a família, o entorno de seu cotidiano, além de trocar inúmeros cartões-postais com a Barcelona deixada para trás. Aos poucos, com seu olhar de amador, mas sofisticado e glamouroso, foi construindo uma memória de seu tempo e também de uma cidade do interior da Bahia: “Seus retratos são impressionantes. Seguem a lógica romântica do retrato europeu. Incrível notar os cenários que ele criava para fotografá-los”, nos narra Diógenes Moura.

Assim, aos poucos, esse homem que inventou sua própria câmera nos traz à mostra a sofisticação, a elegância de toda uma época sempre acompanhado por sua assistente, a filha Aracy, que começa a se apaixonar perdidamente pela fotografia. Infelizmente, com a crise de 1929 na bolsa de valores americana e com os negócio indo cada vez pior, em 1934 ele abriu falência e mudou-se com a família para Salvador. Dez anos depois José Esteve morreu.

Vai então a vez de Aracy, nessa época já casada com o grande amor de sua vida, o escultor Arlindo Gomes, que em 1950, resolveu retomar a escrita imagética deixada por seu pai. Com a ajuda do marido, em 1950 conseguiu importar sua Rolleiflex e retomar o caminho deixado por ele. Assim como José, Aracy fotografava sua família, seus amigos, sua vida cotidiana: “Era uma fotografia despretensiosa, com muito humor, mas sem nenhuma construção intelectual e ao mesmo tempo com uma estética fascinante”, comenta o curador.

Durante 20 anos, Aracy também registrou seu entorno. Primeira mulher a dirigir automóvel em Salvador, pegava o carro da família e ia fotografar a cidade. Encontro imagético entre pai e filha, cuja única preocupação era com a memória. Uma memória pessoal que acabou por se transformar em documento de uma época.

E foi esse seu pioneirismo que a levou, há dois anos, a procurar Diógenes Moura para tornar esta exposição pública. Hoje, às vésperas de completar 90 anos, Aracy Esteve Gomes, toma conta de todo esse material em seu apartamento em Salvador. Relíquia de uma época contada agora para nós em 80 imagens selecionadas de seu arquivo.

Posted by Cecília Bedê at 2:05 PM

30.ª Bienal de São Paulo apresenta novos artistas por Camila Molina, O Estado de S. Paulo

30.ª Bienal de São Paulo apresenta novos artistas

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 4 de junho de 2012.

Sob o título 'A Iminência das Poéticas', mostra vai ser inaugurada para o público em 7 de setembro

“Hoje pude andar por detrás das paredes”, diz a artista Nydia Negromonte - e ainda, naquele dia, desvendar o teto e encanamentos do pavilhão da Fundação Bienal de São Paulo, no Parque Ibirapuera. Há duas semanas, Nydia fez a primeira visita de trabalho ao prédio onde ocorrerá a 30.ª Bienal de São Paulo que, sob o título A Iminência das Poéticas, vai ser inaugurada para o público em 7 de setembro.

A artista, que vive em Belo Horizonte, é uma das participantes da mostra e prepara a obra Hídrica: Episódios, uma instalação criada a partir do sistema hidráulico do grande edifício projetado na década de 1950 por Oscar Niemeyer. Trata-se de um projeto complexo e delicado, feito a partir da caixa d’água central do prédio.

“O trabalho vai tornar visível o fluxo da água, será um desenho do invisível”, conta Nydia ao Estado. Engenheiros e arquitetos vão colaborar com ela na concretização de sua instalação para a mostra, a primeira Bienal de sua carreira. “A artista faz dos vestígios da matéria e dos espaços intersticiais do ambiente de instauração de sua obra uma plataforma para pensar a impermanência dos gestos e das coisas”, define o cocurador da 30.ª Bienal de São Paulo, o gaúcho André Severo.

No trabalho Hídrica: Episódios, a “água pública” que percorre os canos do prédio da Bienal vai abastecer uma série de “episódios” propostos ao público pela artista, muitos deles, ações simples. “As pessoas vão acessar o trabalho a partir da manipulação direta com a água. Por exemplo, mesmo que não a beba, terá a oportunidade de acessá-la na medida em que visualiza o desenho de seu fluxo, ou ainda, pode ser até que se tenha mangueiras para aguar o jardim do pavilhão”, enumera a artista. Sua proposta, como diz Severo, desvela “as qualidades poéticas escondidas nas sobrecamadas materiais de espaços determinados”.

Em março, quando o curador-geral da 30.ª Bienal, o venezuelano Luis Pérez-Oramas, anunciou a lista dos 110 artistas participantes da edição da mostra, ele afirmou que cerca de 60% das obras seriam inéditas ou criadas especialmente para a exposição. O trabalho Hídrica: Episódios é uma das instalações comissionadas para o evento, que ainda vai apresentar criações em outros espaços da cidade que não apenas o Pavilhão da Bienal no Ibirapuera, como a Casa Modernista, a Capela do Morumbi e o Masp.

Mas Nydia Negromonte não vai participar da 30.ª Bienal apenas com a instalação feita a partir da caixa d’água do pavilhão. Até o fim do mês, ela expõe uma versão inicial desse projeto em outro edifício projetado por Niemeyer, o Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte. Há ainda outra proposta - “embrionária”, conforme definição da própria artista - a ser exibida na Bienal: obras da série Lição de Coisas, uma instalação iniciada em 2009, na qual ela articula a apropriação de gravuras e ilustrações de um livro homônimo, uma edição francesa da década de 1940, com fotografias de álbuns de sua família datados dos anos 1930 aos 60. “É um trabalho construído a partir da justaposição de duas imagens que, geralmente, mostram situações coincidentes”, conta a artista.

“Nydia articula duas coisas que me interessam muito: é uma obra baseada numa memória arqueológica e em como a noção de arquivo se atualiza no funcionamento de um trabalho e, ao mesmo tempo, sua criação lida com a fluidez material através da água e da arquitetura, em como a fluidez da memória é construção a partir de fundamentos que são incertos”, diz Oramas.

“Percebi que os curadores não estavam interessados em apenas uma obra. Ao apresentar um conjunto de trabalhos, o público pode perceber muito mais a pesquisa do artista do que o produto finalizado”, afirma Nydia, que nasceu em 1965 em Lima, Peru, mas vive no Brasil desde os 2 anos.

Mecanização da pintura

A curadoria da 30.ª Bienal de São Paulo apostou em selecionar uma maioria de artistas emergentes e de consagrados pouco vistos ou desconhecidos do público brasileiro, o que já revela um projeto dedicado ao frescor. O pintor francês Bernard Frize é um dos participantes que o curador Luis Pérez-Oramas celebra como um dos criadores mais interessantes da pintura contemporânea. “Sou um admirador de sua obra há muitos anos”, comenta o curador. “Frize levanta a questão da autoria, da autoria coletiva, em que a imagem é sempre arqueológica, fala sobre a automatização do mecanismo de produção do quadro, temas relevantes hoje”.

“Recebi uma visita de todo o time curatorial da 30.ª Bienal em meu ateliê (em Paris) e Oramas, que não conhecia, disse-me que acompanhava minha obra desde os anos 1980”, conta Frize. “Olhamos muitas pinturas, tanto antigas quanto recentes, e Luis (Oramas) decidiu que seria interessante exibir um grande número delas. Fizemos a seleção juntos”, diz o pintor. Avesso a discorrer sobre sua pesquisa pictórica no contexto da mostra brasileira - “deixo para os curadores pensarem sobre a questão político-poética da exposição e o lugar de minha obra nela” -, Frize estará representado na 30.ª Bienal com cerca de 30 a 40 obras, “pinturas grandes”, diz Oramas, criadas desde o início dos anos 80 - entre elas, inéditas, realizadas para a exposição.

O artista, nascido em 1954, iniciou sua carreira na década de 1970. Pelo princípio da mecanização do fazer pictórico - feito a partir de técnicas diversas -, Bernard Frize chega até mesmo a colocar a pintura como “ready-made”, já destacou a crítica Eva Wittocx.

A reprodução de um ateliê

Lucia Laguna, que vive no Rio, começou a pintar aos 54 anos. Nascida em 1941, em Campos dos Goytacazes, cidade fluminense, ela despontou no cenário artístico quando participou da edição de 2005/2006 do programa Rumos Artes Visuais Itaú Cultural. Agora, está entre os artistas convidados da 30.ª Bienal. Lucia conta que todas as obras que vai exibir no evento foram criadas especialmente para a ocasião. “Digo isto com muito orgulho, pois não parei de trabalhar desde que fui convidada”.

“Não pensei em título, mas o conceito de constelação (do projeto curatorial) me agrada muito. Na verdade, conceitualmente vou reproduzir o espaço do meu ateliê na sala que me for destinada”, diz a pintora. “Desde o início penso a pintura como ato, o fazer é o que me interessa e o que me move. E aquilo que está à minha volta, o lugar de trabalho, a janela , casa no subúrbio do Rio de Janeiro, o jardim, enfim, meu entorno é a parte do mundo onde estou inserida. O espaço urbano atual é a minha fonte de expressão. Não poderia ser diferente. Por isso, quando os curadores propuseram aos artistas trabalhar sobre ‘As Iminências das Poéticas’, atos que estão prestes a transbordar, que ‘são imprevisíveis’, que ‘se nutrem de uma memória orgânica’, me vi fazendo parte deste discurso”, continua a artista.

“É uma obra que começa de maneira coletiva com a sobreposição de imagens”, afirma o curador Luis Pérez-Oramas. A pintura de Lucia Laguna é como uma paisagem interior/exterior. Além dela, o carioca Eduardo Berliner, nascido em 1978, é o outro destaque brasileiro de pintura na 30.ª Bienal.

Posted by Cecília Bedê at 1:39 PM