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outubro 10, 2012
Impasses e possibilidades da arte contemporânea por Marisa Flórido, O Globo
Impasses e possibilidades da arte contemporânea
Artigo de Marisa Flórido originalmente publicado no Segundo Caderno, do jornal O Globo, em 8 de outubro de 2012.
Celebramos um culto vazio, o da própria exposição. Isso coloca as artes visuais em um lugar muito sensível e ambíguo
Em 1851, abria-se em Londres a primeira Exposição Universal (sob o título “Grande exposição dos trabalhos da indústria de todas as nações”), abrigada em um grande edifício de vidro e ferro, projeto de John Paxton, jardineiro construtor de estufas. O Palácio de Cristal, como ficou conhecido, geraria furor no público e contendas na crítica especializada. Como é possível uma arquitetura sem sombras? Interrogava-se então.
Giorgio Agamben especula se Marx não teria pensado no Palácio de Cristal ao escrever “O fetichismo da mercadoria e seu segredo”. Mas o fato é que o palácio não só colocava a mercadoria mas também seus visitantes expostos em uma redoma. É sintomático que um dos primeiros templos da mercadoria traga implícita a fase extrema do capitalismo: o espetáculo. Guy Debord constataria que o capital chegaria a tal grau de acumulação que se tornaria imagem, invadindo a vida social. “O espetáculo não é o conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens.” Na sociedade do espetáculo, não apenas o valor de troca separou-se do valor de uso, falsificando a produção social, como encobriu e submeteu toda a existência. O que definia o homem, como a política, a religião, a linguagem e a sexualidade, foi se retirando para essa dimensão separada, virtual e em permanente exposição. Basta pensarmos no julgamento do mensalão ao vivo em rede nacional, a vida íntima exposta nos reality shows, a disputa pelas almas (e por seus centavos) entre as igrejas em suas tele-evangelizações. As potências da vida em comum foram se abrigando no Palácio de Cristal e seu invólucro de vidro. Inclusive a arte e a cidade.
Nas novas geografias globais, as cidades competem para atrair os fluxos de capital e imagem, concentrá-los e de algum modo materializá-los em símbolos. Competem tanto pelo famoso museu e sua arquitetura extraordinária como para sediar grandes eventos esportivos. O Rio não permaneceria insensível a esse redesenho de forças. Nas últimas décadas, empenharia-se em atrair um grande museu internacional (na área portuária, onde ocorreu a ArtRio), concorreria para sediar grandes eventos esportivos, como as Olimpíadas de 2016. A cidade do espetáculo, tornando-se um grande evento, vive sua extrema exposição e insere-se na era do turismo cultural, uma das indústrias que mais crescem no mundo.
Curioso é como arte e cidade vêm se cruzando nesse redesenho. Arte e cultura vêm sendo usadas para alavancar reformas arquitetônicas e urbanas em áreas degradadas: tanto com a implantação de grandes equipamentos (museus e centros culturais) como com a ocupação de usos afins (ateliês, galerias). A contrapartida perversa desse processo de recuperação é a expulsão de seus moradores, principalmente dos mais pobres, conhecida como gentrificação. Equilibrar a recuperação do patrimônio histórico e urbano com a permanência da população tem sido um dos desafios das políticas urbanas. (Ler Alucinações produtivas. Produção cultural na Zona Portuária? por Cristina Ribas)
A VITRINE DE PAXTON
Faço eco às preocupações de minha colega de coluna, Luisa Duarte, em sua pertinente crítica, de termos o acesso à arte mediado principalmente pelo mercado e sua feira, em que “a experiência para o leigo acaba sendo a de um shopping”. A multidão frenética e ruidosa, a saturação do olhar na confusão das obras, o encontro com pessoas que raramente vão a uma exposição geravam mal-estar. Estávamos todos na vitrine de Paxton, em exposição como as obras, atraídos pelo evento social, pela paisagem, pela vista do mar, com que esta cidade tem laços afetivos e históricos.
Mas o fato é que 70 mil visitantes é um número considerável, e é preciso refletir sobre esse fenômeno. Isso não vem acontecendo apenas na ArtRio, o Rio teve três exposições no ano passado entre as dez mais vistas no mundo, todas no CCBB. Podemos até entender o apelo lúdico da mostra que ocupou o topo do ranking, “O mundo mágico de Escher”, mas isso não se aplica a outra que também esteve entre as dez mais: a de Laurie Anderson. Podemos deduzir suas causas de muitos fatores: a gratuidade, a propaganda intensiva, a atração do espetáculo, o investimento em educação dos centros culturais e das escolas públicas cariocas etc.
Por outro lado, percebemos também outro processo em curso na cidade, o de descentralização das ofertas culturais, a exemplo de iniciativas como o Bela Maré, o Museu da Maré, as Bibliotecas Públicas de Manguinhos e da Rocinha, os pontos de cultura, assim como os espaços independentes de artistas e de coletivos.
O que talvez possamos vislumbrar nisso é uma demanda reprimida, que se manifesta de diversas formas. O poder, hoje, não é mais fundado apenas sobre o uso da violência e o controle da opinião, mas, sobretudo, sobre a manipulação da emoção (com a qual o terrorismo joga) e sobre o monopólio das visibilidades. A exposição em si tornou-se um valor. Celebramos um culto vazio, o da própria exposição. Isso coloca as artes visuais em um lugar muito sensível e ambíguo, tanto de servidão como de resistência. Mas é exatamente por isso que talvez seja, pela arte, que se possa refletir de modo consistente (ainda que problemático) o mundo contemporâneo.
Marta resgata diretor de direito autoral das gestões de Gil e Juca por Matheus magenta, Folha de S. Paulo
Marta resgata diretor de direito autoral das gestões de Gil e Juca
Matéria de Matheus Magenta originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 9 de outubro de 2012.
Marcos Souza retoma cargo que perdeu no Ministério da Cultura sob Ana de Hollanda
A ministra da Cultura, Marta Suplicy, decidiu trazer de volta à pasta o responsável pela formulação da política de direitos autorais durante as gestões de Gilberto Gil (2003-08) e Juca Ferreira (2008-10). É a primeira medida após o retorno ao MinC do anteprojeto de reforma da Lei de Direitos Autorais.
O texto, que estava na Casa Civil, voltou à Cultura após a chegada de Marta ao ministério, no mês passado.
Marcos Souza, que ocupou a Diretoria de Direitos Intelectuais do MinC nas gestões Gil/Juca, retorna ao cargo após ser demitido pela ex-ministra Ana de Hollanda, em 2010.
No lugar de Souza, Ana nomeara a advogada Marcia Barbosa, indicada por Hildebrando Pontes, um dos advogados do Ecad (entidade que arrecada e distribui os direitos autorais advindos da execução pública de músicas).
Após a nomeação, a ministra passou a ser acusada de proteger a entidade na condução da reforma da lei, ao reduzir a fiscalização de entidades como o Ecad.
Para setores da indústria cultural do país, o anteprojeto criado ao longo das gestões Gil/Juca era muito flexível em relação aos direitos do autor.
Por outro lado, os críticos de Ana de Hollanda dizem que seu anteprojeto dificultou iniciativas como o Creative Commons, licença que libera a divulgação de conteúdos sem a cobrança de direitos por parte de autores.
"Não tenho dúvida de que o retorno dele representa exatamente a retomada dos pressupostos das gestões Gil e Juca", afirmou Pontes.
Apesar do aspecto simbólico da mudança e da desconfiança de Pontes, a Folha apurou que o MinC não pretende que a medida seja vista como reafirmação de bandeiras de Gil e Juca.
Marta Suplicy espera que Souza leve em conta as propostas feitas pela gestão Ana de Hollanda e as some à sua experiência à frente das discussões da reforma da lei durante as gestões Gil/Juca.
Obra é furtada da Bienal de São Paulo por Paula Carvalho, Estadão.com.br
Obra é furtada da Bienal de São Paulo
Matéria de Paula Carvalho originalmente publicada no caderno Cultura do jornal estadão.com.br em 9 de outubro de 2012.
Sumiço da aquarela 'homes (homenols)', de Daniel Steegmann Mangrané, foi percebido no dia 27 de setembro
A aquarela homes (homenols) (2004), do artista espanhol Daniel Steegmann Mangrané foi furtada da Bienal de São Paulo. De acordo com a nota oficial divulgada nesta terça-feira, 9, pela organização do evento, o roubo da obra foi percebido no dia 27 de setembro e "imediatamente comunicado ao artista e à seguradora". A pintura, uma aquarela em papel de dimensões 15,5 X 21,5 cm, era exibida na série Lichtzwang, junto a outros 221 trabalhos.
As obras de Mangrané foram instaladas na Bienal apenas com fita adesiva e sem molduras, por exigência sua. Após o roubo, o artista aceitou que fossem instalados vidros de proteção nos trabalhos. A segurança ao espaço reservado à Lichtzwang também foi reforçada, de acordo com a Bienal.
Mangrané nasceu em Barcelona em 1977 e vive no Brasil desde 2004. Suas obras já foram expostas em Berlim, Teerã e no Chile, além de Brasil e Espanha.
A 30ª edição da Bienal de São Paulo foi inagurada no dia 7 de setembro e reúne 1900 trabalhos feitos por 111 artistas. O curador venezuelano Luis Pérez-Oramas investiu na divulgação de artistas pouco conhecidos do público: cerca de 75% deles nunca tiveram suas obras exibidas. Orçada em R$ 22,4 milhões, a mostra tem recursos públicos e privados. Só no primeiro final de semana, 23 mil pessoas visitaram o Pavilhão do Ibirapuera. A exposição seguirá até o dia 9 de dezembro.
outubro 9, 2012
Marta nomeia nova secretária-executiva do Ministério da Cultura, estadão.com.br
Marta nomeia nova secretária-executiva do Ministério da Cultura
Matéria originalmente publicada no caderno Cultura do jornal estadão.com.br em 9 de outubro de 2012.
Jeanine Pires ocupa cargo deixado por Victor Ortiz, levado ao posto pela ex-ministra Ana de Hollanda
A ministra Marta Suplicy nomeou nesta segunda-feira, 08, Jeanine Pires como nova secretária-executiva do Ministério da Cultura. Ela substitui Victor Ortiz, levado ao posto pela ex-ministra Ana de Hollanda, de quem era o principal homem de confiança no ministério.
Formada em História e especializada em Economia do Turismo, Jeanine Pires foi presidente da Embratur entre 2006 e 2010 e não tem experiência em cargos ligados à gestão cultural. Antes de aceitar o convite de Marta, ela presidia o Conselho de Turismo e Negócios da Fecomercio de São Paulo.
Em comunicado oficial, a ministra ressaltou seu “perfil técnico” e disse que ela trabalhará articulando a produção cultural e a imagem do Brasil no exterior, apostando na “importância da cultura para a identidade e a imagem de um país”. Dentro de casa, no entanto, ela terá ao menos dois desafios imediatos: a aprovação pelo Congresso do Vale Cultura - que tanto Juca Ferreira quanto Ana de Hollanda não conseguiram concretizar - e do aumento no orçamento do ministério.
Para comer com os olhos por Nina Gazire, Isto é
Para comer com os olhos
Matéria de Nina gazire originalmente publicada na seção de Artes Visuais da Revista Istoé em 5 de outubro de 2012
Encontros de Arte e Gastronomia, Museu de Arte Moderna, São Paulo, SP - 04/09/2012 a 16/12/2012
Desde as naturezas-mortas até as mais banais representações da Santa Ceia ao longo da história da arte, a comida sempre foi o símbolo da ostentação ou fartura. O que pouco se discutiu durante esse percurso foi como a maneira de representar artisticamente a mesa e a culinária acabou por reproduzir séculos de tradição gastronômica, quando o ato da refeição passou a ser vigiado por regras de etiqueta. Aquilo que antes se dava em um ambiente de comensalidade vem se tornando, cada vez mais, um ritual solitário e individualizado. Constatações e reflexões como essas regem os “Encontros de Arte e Gastronomia”, projeto pioneiro no Brasil a propor uma ponte entre o mundo da gastronomia e o da arte.
A sala Paulo Figueiredo do MAM-SP foi transformada em um híbrido de cozinha e espaço expositivo que, desde o dia 3 de setembro, vem recebendo chefs e artistas plásticos para o trabalho em duplas arranjadas pelos idealizadores do projeto, o curador Felipe Chaimovich e o professor de culinária Laurent Suaudeau. Mas se engana quem pensa que o museu foi adaptado para um restaurante, apesar de algumas duplas – que trabalham de terça-feira a domingo e são trocadas a cada semana – terem servido refeições para o público. Esse foi o caso da parceria entre o coletivo carioca Opavivará e o chef Leo Filho, que distribuiu marmitas feitas a partir de receitas de sua família. “Essa é uma oportunidade para que as pessoas venham ao MAM e vivam a experiência sem a expectativa de serem servidas como em um restaurante”, esclarece Chaimovich.
O questionamento sobre a redução da culinária ao ato de consumo esteve presente no trabalho da dupla formada pela artista Laura Lima e pelo chef José Barattino, do Hotel Emiliano, de São Paulo. Entre os dias 18 e 22 de setembro, Laura Lima e Barattino produziram uma refeição vegetariana cujos ingredientes passaram por um processo de desidratação, sendo posteriormente embalados a vácuo. A proposta é que a refeição seja doada ao museu, como uma obra museológica, para ser consumida em um jantar marcado para acontecer daqui a 30 anos. Já Caetano Dias, que, no Panorama da Arte Brasileira de 2005, apresentou um Cristo feito com rapadura, realizou, entre 25 e 29 de setembro, uma comemoração ao dia de São Cosme e São Damião. Ao trabalhar ao lado da chef e doceira do restaurante Girarrosto, Amanda Lopes, em uma ação denominada “Jardim das Delícias”, ambos criaram um cordeiro feito de chocolate, rodeado por doces que se estendiam para além da mesa. “O trabalho é uma referência à figura do corpo de Cristo e a outros atos antropofágicos”, explica Dias.
A série de “Encontros” vai durar dez semanas e é também uma oportunidade para o público conhecer o que há de ponta na área da tecnologia gastronômica. Para a ocasião, foram importados dois fogões com sistema de depuradores de fumaça que devolvem o ar limpo ao ambiente, impedindo a fumaça de se espalhar pelo museu (também abrigando atualmente uma mostra de Adriana Varejão). “A gastronomia é uma cultura que tem de ser entendida como criação livre de regras. Nesses termos, criamos essa situação vivencial, sendo meio “Big Brother”, com todos os focos no sentido da cozinha”, explica Chaimovich.
Entre 9 e 13 de outubro, o artista Rodrigo Bueno e a chef Ana Luiza Trajano, do restaurante Brasil a Gosto, realizarão uma ação inspirada nas comidas de santo oferecidas aos orixás. Nina Gazire
Artista mineiro Pablo Lobato é destaque no Brasil e no exterior por Gracie Santos, divirta-se.uai.com.br
Artista mineiro Pablo Lobato é destaque no Brasil e no exterior
Matéria de Gracie Santos originalmente publicada no caderno Cinema do divirta-se.uai.com.br em 7 de outubro de 2012.
Obra do cineasta e artista plástico está espalhada por diversas galerias pelo mundo
Tudo ao mesmo tempo agora. Não é exagero dizer que 2012 é o ano em que a obra do cineasta e artista plástico Pablo Lobato está pipocando pelo Brasil e o mundo. Diretor de pérolas como o curta Cerrar a porta (2002) e o longa Acidente (2006 – em parceria com Cao Guimarães), este ano, ele já fez mostras no Brasil, França, Bolívia e Uruguai e, no momento, contabiliza nada menos que seis exposições em cartaz no país e exterior. Apresenta videoinstalações, mostras fotográficas e site specific.
Pablo Lobato atribui o bom momento ao fato de ter se dedicado, nos últimos anos, aos trabalhos que trafegam entre o cinema e as artes plásticas. “Foi tudo natural, chega uma hora em que a obra começa a reverberar. Este está sendo um ano importante, em que tenho podido mostrar minha obra dentro e fora do país. Nunca pude mostrar minhas pesquisas em artes visuais em tantos lugares ao mesmo tempo, e é bom poder partilhar tudo isso”, comemora.
A videoinstalação Acidente integra a coletiva The storytellers: Narratives in international contemporary art, no Sternersen Museum, em Oslo, Noruega. Na mostra Via Brasil, no Wexner Center for The Arts, de Ohio, EUA, a videoinstalação Bronze revirado está no projeto específico de cinema e artes visuais e é apresentada, como conta Pablo, na sala Box, ao lado do filme O som ao redor, do pernambucano Cléber Mendonça. Na ShanghArt Gallery, em Xangai (China), o mineiro participa de coletiva com oito artistas brasileiros e chineses, também com Bronze revirado. Já na Colômbia, em El Paraqueadero, a mesma peça está sendo mostrada na exposição Poetas en tiempo de escasez.
No Museu de Arte de Joinville, em Santa Catarina, Pablo Lobato participa da mostra À deriva, com instalação que mostrou em BH no Museu Inimá de Paula. Criou uma máquina que define o tempo de vida para trechos de arquivos seus. “Diante da obra Expiração, você vê imagens que vão deixar de existir. É um convite à memória”, afirma. Também no museu brasileiro está a videoinstalação Bronze revirado. Quem quiser conhecer a obra em viagem um pouco mais curta pode dar um pulo a São Paulo e conferir a mostra Do corte, individual de Pablo Lobato na Luciana Brito Galeria. Lá, até o dia 27, além de Bronze revirado ele apresenta a videoinstalação Castell; duas séries de fotografia (Um a zero e Front light), além do site specific Escada, que criou especialmente para o espaço. “São móbiles de madeira parafusados em direção a uma janela onde são exibidas imagens de torres e igrejas do interior, frutos de pesquisas”, conta.
Atualmente, o cineasta se dedica à finalização do filme Ventos de Valls, que deriva de ação realizada na Espanha, em 2009, financiada pela Fundação John Simon Guggenheim (Nova York). Seu trabalho integra as coleções do Museu de Arte da Pampulha (BH), do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Porto Alegre) e do Museu de Arte Contemporânea do Paraná (Curitiba).
Vale quanto pesa? por Matheus Magenta, Folha de S. Paulo
Vale quanto pesa?
Matéria de Matheus Magenta originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 9 de outubro de 2012.
Para destravar o Vale Cultura na Câmara, ministra articula a retirada dos aposentados do projeto
Para evitar o desgaste político de um veto da presidente Dilma Rousseff, a ministra da Cultura, Marta Suplicy (PT), articula com a base aliada a exclusão, ainda na Câmara, de aposentados e servidores públicos dentre os beneficiários do Vale Cultura.
A ministra avalia que a retirada de parte dos beneficiários causaria menos dano do que deixar o projeto parado na Câmara, como está hoje.
O Vale Cultura propõe benefício de R$ 50 mensais a ser utilizado no consumo de bens culturais, como livros e discos -no caso dos aposentados, seriam R$ 30.
Lançado com pompa em 2009 pelo então presidente Lula, o projeto é pretende incentivar o consumo cultural e é a principal proposta de política pública para este fim.
Para o professor Pablo Ortellado, do grupo de pesquisa em Políticas Públicas da USP, o objetivo do Vale Cultura não é incentivar projetos sem sustentação financeira (questão a ser sanada por políticas de financiamento e subsídio da produção).
"O que Vale Cultura visa é dar ao consumidor, principalmente ao mais pobre, o direito de ter acesso à cultura de acordo com seu próprio gosto e interesse", disse.
Segundo pesquisa de amostragem nacional feita em 2010 pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), 71% dos brasileiros dizem que o preço alto é um obstáculo ao acesso à cultura e 80,4% dos que vivem na região Sudeste vão raramente ou nunca foram ao cinema.
BENEFÍCIO
Inicialmente, o vale só beneficiaria, por exemplo, trabalhadores que recebem até cinco salários mínimos (R$ 3.110, no valor atual), via a renúncia do Imposto de Renda dos empregadores. Ao todo, cerca de 12 milhões de trabalhadores seriam beneficiados (veja quadro ao lado).
Assim, o governo deixaria de arrecadar cerca de R$ 7 bilhões anuais -valor que seria injetado no setor cultural.
Para se ter uma ideia do impacto potencial do Vale Cultura, foram investidos, via renúncia fiscal, R$ 9,1 bilhões ao longo de 20 anos de vigência da Lei Rouanet, o maior mecanismo de fomento à cultura do país.
O impasse na aprovação do projeto surgiu durante tramitação na Câmara, em 2009, quando aposentados e servidores federais foram incluídos no projeto. Só com os aposentados, a União desembolsaria R$ 9 bilhões anuais (o MinC não calculou o impacto do funcionalismo).
"Foi uma armadilha porque inviabilizou o projeto mais importante de cultura para a população carente. Foi uma perversidade", disse Marta Suplicy à Folha.
Procurado, o Sindicato Nacional dos Aposentados não se manifestou até o fechamento desta edição.
ESTRATÉGIA
Na semana retrasada, a ministra se reuniu com o presidente da Câmara, Marco Maia (PT), para acertar os detalhes da estratégia governista de pulverizar o ônus político entre os deputados federais.
O projeto já foi aprovado no Senado, mas voltou à Câmara porque sofreu mudanças, como a inclusão da possibilidade de usar o vale para comprar jornais e revistas.
Os ex-ministros da Cultura Juca Ferreira (2008-10) e Ana de Hollanda (2011-12) não tiveram força política para convencer a base aliada a mudar o projeto e levá-lo a votação. Agora, caso seja aprovado, segue para sanção de Dilma.
Há ainda uma preocupação com as eleições presidenciais de 2014, quando Dilma deve concorrer à reeleição.
O governo corre contra o relógio porque projetos com renúncia fiscal só passam a valer no exercício seguinte. Ou seja, se for aprovado neste ano, só vigorará em 2013. Somam-se a isso os seis meses necessários para a implementação do vale, que estaria a pleno vapor no ano eleitoral.
Edital para negros divide meio cultural por Lucas Nobile e Matheus Magenta, Folha de S. Paulo
Edital para negros divide meio cultural
Matéria de Lucas Nobile e Matheus Magenta originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 2 de outubro de 2012.
Medida anunciada anteontem pela ministra da Cultura deve criar seleções públicas para criadores afro-descendentes
Marta Suplicy pediu propostas para Funarte, Biblioteca Nacional e Ancine até o Dia da Consciência Negra
O anúncio do lançamento de editais exclusivos para criadores e produtores negros, feito anteontem pelo Ministério da Cultura, dividiu opiniões entre acadêmicos e artistas brasileiros.
Enquanto parte defende os editais, que devem ser lançados no Dia da Consciência Negra (20/11), outros os consideram preconceituosos.
"É um absurdo. Se eu fosse negro, ficaria muito puto. É uma coisa de demência, ligada à culpa cristã de classe média branca. É só um passo a mais pelo ódio racial que está sendo potencializado desde que o PT entrou no poder", disse o cantor Lobão.
Para o autor de "Cidade de Deus", Paulo Lins, a medida anunciada pela ministra Marta Suplicy é boa e necessária.
"O negro tem que ter privilégio e inclusão em tudo. Ele foi sacrificado durante 400 anos de escravidão no país."
KL Jay, do Racionais MC's, concorda com Lins sobre a dívida que o Brasil tem com os descendentes de escravos. "O país me deve muito mais."
Já o cineasta Zelito Viana, que produziu "Terra em Transe" (1967) e "Cabra Marcado Para Morrer" (1985), considera a medida "racista". "Agora haverá editais também para anão e para mulher?"
Para o professor de ciência política da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) João Feres Júnior, a medida é importante porque a cultura brasileira é "extremamente branco-cêntrica".
"Os produtores de narrativas são quase que exclusivamente brancos ou falam de uma perspectiva da qual a questão do racismo e da discriminação é invisível."
O compositor, pesquisador e escritor Nei Lopes concorda com Feres Júnior.
"Há uma grande 'invisibilização' da produção do povo negro nos circuitos da ação cultural", afirmou Lopes.
Danilo Miranda, diretor do Sesc-SP, disse ter inicialmente se assustado com o anúncio. "Achei que seria inadequado para um país que respeita a igualdade. Mas, depois, achei que se tratava de algo adequado para tornar o Brasil um país mais justo."
LEGALIDADE
Para o sociólogo Demétrio Magnoli, a medida é discriminatória porque viola a igualdade constitucional entre os cidadãos, mas hoje "infelizmente" é legal graças à decisão do Supremo Tribunal Federal a favor das cotas raciais no vestibular da universidade de Brasília (UnB).
Em agosto, a presidente Dilma Rousseff aprovou um sistema cotas sociais, mas não raciais, na rede federal de ensino superior.
Sobre o edital anunciado pelo MinC, o advogado Sebastião Ventura da Paixão Jr disse que a medida pode ser "inconstitucional" caso o critério de seleção seja racial.
"O governo deve ter muito cuidado para que, na ânsia de resolver um problema social, não faça um ato despido do necessário equilíbrio constitucional", afirmou.
Gisele Jordão, responsável por um estudo sobre a produção cultural no Brasil, diz que o debate é anterior ao de raça: 63% dos produtores do país não conseguem viver da profissão. Segundo ela, projetos com tema afro-brasileiro têm mais dificuldade em captar recursos via Lei Rouanet que a média do país.
Processo criativo de Maíra Ortins ocupa Mamam no Pátio, no Recife por G1, globo.com
Processo criativo de Maíra Ortins ocupa Mamam no Pátio, no Recife
Matéria do G1 originalmente publicada no globo.com em 8 de outubro de 2012.
Visita à residência artística começa na segunda-feira (8) e é de graça. Artista e curadora Mariana Ratts vão conversar com o público dia 27
A partir da segunda-feira (8), no Recife, o Mamam no Pátio recebe "Al revés", projeto de pintura-processo idealizado pela artista cearense Maíra Ortins. Durante a residência, que terá duração de 23 dias, a artista pintará sobre as paredes do Mamam no Pátio a história de uma ilha imaginária.
Todo o processo de composição do trabalho será registrado diariamente e pode ser visto pelo público no blog ou visitando o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (Mamam) de graça. O horário de funcionamento é de terça à sexta, das 13h às 18h, e aos sábados, das 12h às 17h.
No dia 27 de outubro, Maíra Ortins e a curadora da mostra, Mariana Ratts, vão conversar com o público, a partir das 15h. O resultado do processo será apresentado no dia 30, a partir das 19h.
"Al revés" significa esquerdo, às avessas, que ocorre de maneira contrária. No projeto, as paredes do Mamam no Pátio serão povoadas por pinturas de criaturas míticas, que habitam a Ilha de Pasárgada, e cenas cotidianas. As imagens serão gradativamente sobrepostas pelo desenho do mar em um movimento de maré, que logo cobrirá a imagem anterior.
A maré desordenada, por fim, engolirá simbolicamente as imagens, a parede, o espaço. O projeto se materializa através do transcorrer do tempo, utilizando-se deste como elemento fundamental para a sua ação.
