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outubro 5, 2012
Mudanças no CCBNB afetam exposições por Pedro Rocha, O Povo
Mudanças no CCBNB afetam exposições
Matéria de Pedro Rocha originalmente publicada no caderno Vida & Arte do jornal O Povo em 4 de outubro de 2012.
Centro Cultural do Banco do Nordeste entregou o terceiro andar do prédio que ocupa no Centro. Prazo para a saída completa se encerra em março de 2013
Aberta no último dia 14 de setembro, a exposição Perambular, Experimentar e Correr Perigo já foi desmontada, ao menos por enquanto. Resultado da primeira turma do Programa de Pesquisa do Centro de Artes Visuais de Fortaleza, a exposição foi a mais afetada pelas recentes mudanças no Centro Cultural do Banco do Nordeste (CCBNB), depois deste ser obrigado a entregar na semana passada o terceiro dos quatro andares que ocupa no edifício Raul Barbosa, no Centro.
O espaço agora será ocupado pela Justiça Federal do Ceará, instituição que funciona desde 2001 na maior parte do prédio e que em outubro do ano passado comprou por R$ 10 milhões o restante dos 15 andares.
No lugar da exposição dos alunos do curso – uma parceria entre a Vila das Artes e o próprio CCBNB –, será instalada a biblioteca do centro cultural, que por anos funcionou no terceiro andar e é hoje um dos serviços mais procurados do equipamento. As obras artísticas devem ser deslocadas para outro local no próprio térreo, que antes servia de espaço de convivência. Tanto a exposição quanto a biblioteca devem ser reinauguradas no próximo dia 9, afirma Jacqueline Medeiros, coordenadora de artes visuais e gerente interina do centro cultural.
Uma reforma no térreo do prédio foi feita em três dias para se adequar à nova disposição. “Nessa data não estava programado, porque estávamos esperando pra novembro”, fala Jacqueline. De fato, o aviso sobre a desmontagem da exposição foi feito aos participantes apenas dias antes, como confirma Enrico Rocha, coordenador do Programa de Pesquisa em Artes Visuais, que criticou a decisão.
“O banco trabalha com uma grade de programação fechada com muita antecedência, então era previsível fazer essa alteração, adequar a programação, mas a gente foi surpreendido.”, afirma Enrico. “O novo lugar destinado é muito menor do que o anterior, a gente ainda está estudando a possibilidade de adequar, mas sabe que não vai poder montar a exposição como estava”.
Para ele, a redução do espaço do CCBNB preocupa por representar a visão da diretoria do banco sobre a cultura. A avaliação é semelhante a feita pelo artista plástico Eduardo Frota, que estava programado para abrir a exposição Diagramas em Monocromias no segundo e terceiro andares e também foi afetado pela mudança de última hora – apesar da exposição ter sido aberta e permanecer em cartaz, agora com obras no primeiro andar também.
“É inverter o papel. A burocracia do banco tem que entender exatamente o contrário, que o que dá aval ao banco é um projeto sociocultural, é o que dá aval pra essa instituição merecer um status”, opina Eduardo.
Planejamento
Por trás dos comentários dos artistas, está a razão da mudança repentina. O contrato de compra pela Justiça Federal dos quatro andares do prédio, onde hoje funcionam o centro cultural e uma agência do BNB, estabeleceu prazos para a desocupação gradual do espaço.
De acordo com o juiz federal Leonardo Resende, ficou previsto que a agência sairia do local em um ano após a compra, ou seja, em outubro agora; e o centro cultural, em março de 2013. Todavia, o banco não conseguiu concluir a tempo a transferência da agência e sacrificou o terceiro andar do CCBNB para cumprir o acordo.
“Recentemente, diante da dificuldade do BNB, negociamos a liberação de um outro espaço - no caso, o 3º andar do edifício -, a fim de que a Justiça Federal pudesse seguir com a reforma. É que dispomos de recursos orçamentários para esse fim que devem ser necessariamente gastos no decorrer do ano de 2012.”, explica Leonardo.
Os prazos são confirmadas pela gerente em exercício do Ambiente de Gestão da Cultura do BNB, Tessi Letícia, que nega que a instituição foi surpreendida. “Não pegou de surpresa, já que a negociação vinha sendo realizada há algum tempo”, afirma.
Quanto à desocupação total, que deve ser realizada até março de 2013, ela afirma que a nova sede do CCBNB está sendo viabilizada: “As negociações para a mudança de local estão em andamento, mas ainda não podemos adiantar nenhum detalhe”.
Monalisa, o eterno retorno por Paula Alzugaray, Istoé
Monalisa, o eterno retorno
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da revista Istoé em 28 de setembro de 2012.
Com série de 100 Monalisas manipuladas artesanalmente, Nelson Leirner revolve a própria memória e volta ao cinema
Quadro a Quadro: Cem Monas – Nelson Leirner/ Silvia Cintra + Box 4, RJ/ até 20/10
O primeiro a corromper o maior ícone de todos os tempos foi Marcel Duchamp. Em 1919, o artista francês riscou bigode e cavanhaque sobre um cartão-postal da “Monalisa” e intitulou a intervenção “L.H.O.O.Q.” (letras que pronunciadas em francês conformam a frase “Elle a chaud au cul” e que, em tradução coloquial, quer dizer algo do gênero “Ela tem fogo no rabo”). Esta foi apenas uma das provocações do artista que mudou para sempre o estatuto da arte moderna. Depois de Duchamp, outros artistas trabalharam com a popularização da pintura de Da Vinci. Warhol nos EUA, nos anos 1970; e Nelson Leirner, em obra que representou o Brasil na Bienal de Veneza de 1999. Hoje, quase um século depois da crítica de Duchamp, a “Monalisa” tem aproximadamente 23 milhões de manipulações digitais na internet. Além de bigode, ela hoje usa óculos, fita no cabelo, gravata-borboleta, colar de pérolas, cabelo crespo, orelhas de coelha e por aí afora. Como observador arguto da cultura de massa, Leirner não poderia passar incólume por esse fenômeno que caiu na rede. Resolveu, então, “banalizar o banalizado”.
Fazer uma instalação que remete ao cinema, sem o uso da câmera. Esse foi o desafio autoimposto pelo artista ao realizar a obra “Quadro a Quadro: Cem Monas”, exposta na Silvia Cintra + Box 4, no Rio. Em seu trabalho mais recente, Leirner retorna à figura mais pop e enigmática da história da arte para revolver e reprocessar as diversas fases do próprio trabalho. A começar pelo cinema, que experimentou nos anos 1960 e 70, fazendo uso do super-8. “Pensei muito em super-8 enquanto fazia essas Monas. Eu pegava filminhos que vendiam para festas de aniversário e fazia montagens. Numa cena que a Lady Godiva estava nua no cavalo, eu cortava para o Chaplin, depois passava para o Mickey. Ia grudando com durex. Ficava muito divertido. A “Monalisa” teve para mim o efeito desses filmes, de colagem”, conta Leirner.
Assim, quadro a quadro, Leirner passeia pelos mercados populares e camelôs onde foi buscar as matérias de tantos trabalhos memoráveis.
Cem Monas e cinco livros
Essas colagens são como eternos retornos? Personagens periodicamente vão e voltam, entram e saem de cena?
Essas colagens são como eternos retornos? Personagens periodicamente vão e voltam, entram e saem de cena?
Retornos de memória, sim. Hoje eu não trabalho mais com o conceito, só com a memória. O artista está sempre colocando o conceito antes. Eu antes faço o trabalho para depois conceituar.
Então essa relação das Monalisas com o cinema apareceu depois?
Apareceu durante, no fazer. Mas antes havia o livro do Tarkovsky, que eu já tinha lido. Quando dei aula para vocês, eu só falava de Duchamp. Hoje eu tenho cinco livros de cabeceira. Esculpir o tempo, Tarkovsky. Porque o tempo é o principal mote do cinema. Depois, peguei o Pirandello, porque todo teatro do Pirandello é um jogo, e a questão do jogo me atrai muito. Depois, peguei “A Poética do Espaço”, do Bachelard, porque ele tem uma visão psicológica e antropológica do espaço. Ele fala de um outro espaço. Do espaço que está no canto, no cofre, na gaveta, no armário, naquela tua bolsa. Gosto dessa ideia de me relacionar com um espaço que não é o meu.
O espaço que não é o seu é o desconhecido. Esse também não é o espaço da arte?
Com a arte, você abre o cofre. Enquanto que, se o cofre está fechado, você sempre poderá imaginar tudo o que está lá dentro. Não é só dinheiro. Posso guardar a própria arte dentro do cofre. Pelo valor. Então, você pode pensar a arte como dinheiro, dentro do cofre. Veja bem, você roda muito mais não lendo sobre arte. Depois vem a fotografia, que eu acho que tem muita importância, hoje. Daí eu pego o Barthes, “A Câmara Clara”. Por quê? Porque acho muito bacana a percepção dele da fotografia como não fotógrafo. E no fim o Duchamp, né? O livro do Octavio Paz sobre Duchamp, “O Castelo da Pureza”. Octavio Paz escreve sobre dois gênios: Duchamp e Picasso. Picasso pelo que fez, Duchamp pelo que não fez. E eu estou no meio! Não chego nem a fazer, nem a deixar de fazer, como Duchamp. Por isso é que eu me sinto, de certa maneira, frustrado. Porque eu não atingi nem o fazer – por mais que eu faça, não sinto que a arte para mim é essa compulsão do Picasso. E Duchamp pelo que não fez: 35 anos jogando xadrez. E o xadrez que ele joga vira arte! E a vida dele se torna arte! Isso eu também não consigo fazer.
outubro 3, 2012
MinC é "só confusão", diz Marta Suplicy por Matheus Magenta (Folhapress), O Povo
MinC é "só confusão", diz Marta Suplicy
Matéria de Matheus Magenta originalmente publicada no caderno Vida e Arte do jornal O Povo em 3 de outubro de 2012.
Após ouvir um depoimento sobre a falta de recursos para Pontos de Cultura no Tocantins, a ministra da Cultura, Marta Suplicy, afirmou na tarde de segunda passada que a pasta é “só confusão”. Ela assumiu o cargo no último dia 13.
“Esse ministério é só confusão”, disse Marta durante encontro na sede da Coletivo Digital, em São Paulo, organização não governamental que atua na área de inclusão digital.
A declaração da ministra arrancou risos da plateia, formada por cerca de 100 pessoas - a maioria ligada a ONGs que têm convênios com o Ministério da Cultura (MinC).
Marta disse ainda que o programa Cultura Viva, que inclui os Pontos de Cultura, foi “desidratado” no MinC, mas deve ser retomado agora durante sua gestão.
Os Pontos de Cultura são iniciativas independentes espalhadas pelo País e financiadas diretamente pelo ministério para impulsionar a produção e a difusão cultural, como oficinas de vídeo.
No encontro, a ministra ouviu diversas sugestões sobre a reforma da Lei de Direitos Autorais, discussão que está em curso no MinC, e reclamações sobre a falta de recursos para Pontos de Cultura durante a gestão da ex-ministra Ana de Hollanda (2011-12).
“Gente, vamos esquecer minha antecessora. Precisamos olhar pra frente”, disse Marta. Ela arrancou novamente risos da plateia ao ser questionada sobre a perenidade das políticas públicas implementadas durante sua gestão.
Críticas
Para Pedro Markun, do grupo Transparência Hacker, Marta deixará o MinC em algum momento por causa de seu perfil político. Ela deixou o cargo de ministra do Turismo em 2008 para disputar a Prefeitura de São Paulo.
“Você já está me mandando embora?”, brincou a ministra. Em seguida, o mesmo Markun cobrou dela mais transparência no site oficial do Ministério da Cultura em relação aos gastos públicos da pasta.
“Eu nunca vi um site tão ruim”, concordou Marta. Depois, ela sugeriu que a página deve passar por uma reformulação.
Após o evento, que durou quase uma hora, ela seguiu para participar de um evento da agenda do candidato petista à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad. (Matheus Magenta, da Folhapress)
Verbo reúne performances com ar teatral por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Verbo reúne performances com ar teatral
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 2 de outubro de 2012.
Festival da galeria Vermelho traz ações que usam roteiro, cenografia e iluminação
De efêmero e visceral para algo estruturado e teatral. Performances já não são mais o que eram quando o gênero estourou nas artes visuais nas décadas de 1960 e 1970.
Na atual etapa de ações do Verbo, festival dedicado a esse suporte na galeria Vermelho, em São Paulo, o foco se volta para um híbrido de performance e elementos tradicionalmente ligados ao teatro, como cenografia, roteiro, direção, figurino, trilha sonora e iluminação.
"Há um controle que foi retomado no campo da performance", analisa Julia Rodrigues, que montou o programa de seis performances encenadas hoje na galeria. "É quase artificial: a ação é construída, tem roteiro, regras, toda uma estrutura teatral."
Essa é uma mudança que extrapola o festival. Museus de peso no mundo todo, como o MoMA, em Nova York, a Tate, em Londres, e instituições brasileiras, como o Museu de Arte Moderna do Rio e o Instituto Inhotim, em Minas Gerais, vêm repensando a forma de encaixar performances em exposições e preservar essas ações em seus acervos.
Na última Documenta, em Kassel, na Alemanha, o artista Tino Sehgal ocupou um galpão escuro com músicos e dançarinos que provocavam quem entrasse na sala. Embora parecesse improviso, ali também havia um roteiro.
É o caso igualmente das performances que podem ser vistas agora em São Paulo. Vivian Caccuri, a única brasileira do time de artistas, encena uma espécie de leitura dramática arrastada.
Junto de outros atores, ela lê um texto em que as palavras foram decantadas em sílabas e cada fonema é pronunciado de forma isolada. Cada ator aguarda o término da sílaba pronunciada pelo antecessor para então recitar a sua parte do verso, alongando o texto por uma hora.
Lilibeth Cuenca Rasmussen, artista dinamarquesa que já participou do Verbo, encena agora uma performance em que se veste de homem e encarna alguns estereótipos masculinos -uma reflexão sobre o território perdido pelos homens numa sociedade que já reconheceu a importância da mulher.
Rasmussen troca de figurino várias vezes e tem também músicos e atores em ação no palco. "Esses artistas pensam em como expandir a performance para o espaço", diz Rodrigues. "São personagens surreais, improváveis, e tudo é construído, roteirizado."
Tanto que outras ações, como a do grupo A Kassen, em que uma goteira de vinho foi instalada na galeria, a do francês Julien Bismuth, em que o artista lê um texto com projeções, e a da dinamarquesa Hannah Heilmann, em que a artista cria uma representação do mundo virtual, também respeitam a ideia de mise-en-scène e construção.
Cotidiano repagina galeria tradicional por Juliana Monachesi, Revista Select
Cotidiano repagina galeria tradicional
Matéria de Juliana Monachesi originalmente publicada na Revista Select em 1 de outubro de 2012.
Aproximações entre modernos e contemporâneos instigam o olhar e o pensamento sobre arte
Curadoria de Mario Gioia coloca a Galeria de Arte André de volta no mapa da arte contemporânea
Caso a vista do cruzamento entre as ruas Estados Unidos e Gabriel Monteiro da Silva, retratada acima, seja novidade para você, então chegou o dia de você deixar seus preconceitos do lado de fora e entrar na tradicionalíssima Galeria de Arte André. A maior parte dos frequentadores do circuito de galerias de arte contemporânea só conhece a fachada da galeria André, de passar a pé ou de carro por ali a caminho da Zipper, da Logo ou da Vila Madalena. São da opinião de que ali só há arte moderna ou obras decorativas para ver. Certo?
Errado. A exposição coletiva Cotidiano, com curadoria de Mario Gioia, que fica em cartaz até o próximo sábado, dia 6, marca um redirecionamento da galeria e apresenta, lado a lado, obras do acervo da André, entre as quais estão pinturas de Aldo Bonadei, Alfredo Volpi, Cícero Dias e Eliseu Visconti, e obras de artistas atuantes na cena paulistana, como Angela Santos, Cecilia Walton, Ivan Grilo e Rodrigo Cunha.
O ponto alto da curadoria está no feliz encontro entre Aldeia a Beiramar (1984), de Fulvio Pennacchi, e Ateliezinho (2012), de Rodrigo da Cunha. A tela de Pennacchi representa uma vila de pescadores em que os moradores protagonizam serenamente seus labores diários. A pintura de Cunha mostra o interior de seu ateliê, onde elementos prosaicos do cotidiano do artista revelam características íntimas de seu processo de trabalho. E há muitos outros encontros surpreendentes, como na abertura da exposição, nos retratos criados por Eliseu Visconti em 1921 e por Clarice Gonçalves em 2003.
Ou na tríade formada por telas de Marco Stellato, Carlos Scliar e um vídeo de Angela Santos. "Se a pintura de tons terrosos de Teruz, a retratar melancólicas cenas das bordas urbanas, parece prenunciar o desordenado crescimento da urbe brasileira, Cotidiano exibe trabalhos de outros artistas que atestam o status conflitante da cidade contemporânea. Sob certa perspectiva, Angela Santos, Marco Stellato e Rafael Resaffi lidam com uma metrópole lacerada, cindida", analisa o curador no ensaio do catálogo, afirmando ainda adiante que na tríade Stellato, Scliar e Santos existe uma coincidência temática de criar passagens para outros lugares por meio do superenquadramento.
O romeno André Blau fundou a Galeria de Arte André em 1959. A sede na rua Estados Unidos passou por expansões ao longo dos anos e hoje possui mais de mil metros quadrados. Blau trabalhou diretamente com muitos dos artistas que hoje são os mais representativos de seu acervo. Recentemente, a filha do galerista, Juliana Blau, após retornar de alguns anos de formação no exterior, assumiu a diretoria do espaço, com o objetivo de criar um novo programa de exposições acolhendo artistas em início de carreira e também dando espaço a nomes já estabelecidos. Para acompanhar de perto!
Orgia por Fernanda Torres, Folha de S. Paulo
Orgia
Coluna de Fernanda Torres originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 28 de setembro de 2012.
A travessia africana de Carl G. Jung, narrada no livro "Memórias, Sonhos, Reflexões", termina com um exótico embate diplomático no Sudão profundo. Partindo de Mombaça, no Quênia, em direção à nascente do Nilo, a expedição cruza as terras altas dos Massais até atingir o território "dos pretos mais pretos que já conheci", segundo as palavras do psicanalista.
Cansados, os viajantes se preparam para dormir, quando são surpreendidos por uma dezena de guerreiros armados de lanças. Com medo de um ataque, Jung e os outros trocam oferendas e veem o grupo se retirar. Já na vigília, o suíço escuta uma violenta algazarra do lado de fora da barraca.
São os guerreiros que retornam acompanhados do restante da tribo. Animados, erguem uma imensa fogueira e se dividem em dois círculos, o das mulheres por dentro e o dos homens por fora, e se põem a dançar freneticamente em torno do fogo.
Aliviados com a recepção amigável, os europeus assistem pasmos à cerimônia imemorial que se estende pela madrugada. Jung comunga do transe nativo, grita, rebola, bebe e roda o chicote, até que, vencido pelo cansaço, sugere, com tato, uma retirada ao chefe. Mas o cacique responde que não, que eles querem dançar mais, e manda acelerar o batuque. Outra hora de catarse e nada do suado festejo ter fim.
Desesperado de sono, Jung, entre o sério e o jocoso, ordena com voz de lobo mau que a balbúrdia termine. E arrisca estalar o chicote, em uma exibição de força digna de um babuíno enraivecido. Surpresos com a atitude do estranho, os africanos estancam. Jung receia tê-los ofendido, mas uma gargalhada geral reverbera na selva e os faz retomar o incontrolável rito. Já sem humor, o branco repete enfático a sua pantomima de insatisfação. O líder, finalmente, entende o recado e comanda a debandada.
O som longínquo da orgia ressoa até a tarde do dia seguinte.
Lembrei-me do causo ao adentrar a Art Rio, feira de arte contemporânea que aconteceu no Rio de Janeiro em meados de setembro.
Sempre gostei de passar as tardes em museus, de ir aos ateliês dos amigos, às galerias e bienais, mas jamais havia estado em uma feira de arte. Ao contrário dos exemplos anteriores, todos filtrados por um olhar, seja o do curador, do galerista ou do próprio artista, na feira, cabe a você separar o que é arte do que é excesso.
O domingão de sol com as crianças, somado ao calor abafado e à extensão da mostra, proporcionaram uma visão distorcida do evento. Os estandes, com divisórias repletas de desenhos, esculturas, pinturas, instalações e vídeos, todos à venda, pareciam uma feira de adoção de animais em surto coletivo semelhante ao dos sudaneses de Jung.
As sessões privadas para colecionadores, razão primeira da iniciativa, devem ter causado outra impressão. O real forte e a falta de dinheiro no Primeiro Mundo merecem ser capitalizados, temos que compensar o exílio do "Abaporu", mas em meio a tanto de tudo: tanta gente, tanta obra, tanta expressão por metro quadrado, Di Cavalcanti, Mourão, Koons e Barrão se equivaliam pelos cantos.
A instalação do Ernesto Neto na Estação da Leopoldina, onde passei com a família antes de me dirigir ao mercado --um intestino rugoso que digere visitantes a dez metros de altura-- essa sim, me trouxe contemplação. A feira, não, a feira me deu angústia.
Dentre todas as manifestações artísticas, as artes plásticas são as que melhor se adaptaram aos valores atuais, tão ligados à economia e às massas. O teatro, a literatura, o cinema e a música ainda permanecem órfãos do século 20.
Com vantajosa liquidez, as artes plásticas se transformaram em um fenômeno popular comparável à culinária, à moda e à decoração. O luxo para todos. E fez isso sem perder o caráter íntimo de seus artistas. Mesmo amontoados, Moore, Hirst, Tarsila e Varejão resistiam sendo Moore, Hirst, Tarsila e Varejão.
Apesar da voracidade e do cheiro de bolha inflacionária da quermesse dominical, comemorei a boa fase da arte no Brasil. Mas tive vontade de rodar o chicote e gritar: "Comprem tudo de uma vez e, pelo amor de Deus, levem essas pobres obras para casa!".
Causa preocupação o acesso à arte por intermédio da feira por Luisa Duarte, O Globo
Causa preocupação o acesso à arte por intermédio da feira
Matéria de Luisa Duarte originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Globo em 1 de outubro de 2012.
A experiência, para o leigo que busca educação, acaba sendo, naturalmente, a de um shopping
Na última sexta-feira, Fernanda Torres publicou em sua coluna na “Folha de S.Paulo” um ótimo texto intitulado “Orgia”, no qual relatava sua primeira experiência numa feira de arte, ocorrida em uma visita à ArtRio no domingo, dia 16 de setembro. A atriz se dizia assídua frequentadora de exposições em museus e galerias, mas uma feira ainda era algo inédito até então. O título da coluna já nos faz imaginar o que ficou como impressão desta vivência primeira. Algo angustiante pela quantidade, pela pressa, pela impossibilidade de discernir os trabalhos, os artistas, os valores. Tudo em meio a um ambiente cheio e ruidoso.
Eu estive na feira no dia de abertura, destinado a convidados, sendo colecionadores, curadores e diretores de instituições aqueles que mais interessam de fato aos galeristas, que por sua vez são o motivo de a feira existir e seus principais clientes. Voltei ao mesmo local no domingo ensolarado para rever trabalhos e fotografar alguns para uma pesquisa. Ou seja, pude testemunhar as duas situações distintas, mesmo que na abertura bares e pista de dança com música alta já dessem ao local um ar de festa incomum em feiras de arte.
Indo um pouco além e pensando com o olhar de quem trabalha dentro deste universo, divido aqui algumas preocupações. O fato de a feira alcançar um público de mais de 70 mil pessoas não é ruim em si, ao contrário, mas chama mais uma vez a atenção para a forma como se cristaliza hoje no Brasil uma conjuntura na qual o mercado se torna o grande paradigma da experiência da arte. Instituições e museus seguem, na sua maioria, esvaziados de atenção e público, bem como o espaço para a crítica e o debate permanece rarefeito, destituído de valor. Uma feira de arte não é, definitivamente, o lugar para uma experiência primeira com a arte. Tudo ali realmente incorre para o fragmentado, para a velocidade que distorce a visão, para a quantidade que nos deixa sem memória do que vimos. Trata-se de um lugar para especialistas, que pode vir a ser um bom passeio para um público leigo mas interessado, entretanto não pode e não deve se tornar a baliza para o contato com a arte e o paradigma solitário que dita os todos os valores.
Antes de começar as duas semanas dedicadas à arte no país, com a abertura da Bienal de São Paulo, de dezenas de mostras e terminando com a ArtRio, escrevi um texto breve para este caderno no qual falava sobre a necessidade de contermos a ansiedade que estava por vir, buscando escolher ver menos para ver melhor. Ou seja, ir a uma mostra de arte não é como ir ver vitrines de um shopping. E a experiência da feira, para o leigo que busca educação, acaba sendo, naturalmente, a de um shopping, não porque tudo ali está à venda — são poucos os que podem comprar —, mas por que a quantidade e a falta de critérios é imensa e não é papel da feira educar o olhar do público. Este papel, vou repisar, está destinado às instituições, aos museus, às escolas em geral, ou seja, há uma ligação da arte e da cultura, com a educação e a formação de um país.
Um outro dado que chamou a atenção nesta segunda edição da ArtRio foi o imenso espaço destinando a uma mostra da Galeria Gagosian. Tudo ali soava como um gesto neocolonizado, de uma subserviência de nossa parte chocante diante dos que vêm de “fora”.
Fez parte ainda dos lances protagonizados pela feira uma coluna paga, publicada nesta mesma página do Segundo Caderno nas semanas que antecederam o evento e na semana seguinte ao mesmo. Colocar na mesma página de conteúdos editoriais, de críticas feitas por especialistas anúncios travestidos de textos assinados (todos de qualidade duvidosa, quando não prosaicos mesmo) é uma ação que finda por embaralhar o leitor, que corre o risco de não discernir o que é propaganda do que é conteúdo editorial de fato.
Se orgia foi o termo usado por Fernanda Torres para definir o que viu, e angústia a palavra para definir o que sentiu lá dentro, considerando pertinentes tais colocações, e enxergando a proporção desmesurada que o mercado alcança no nosso circuito de arte, eclipsando outras instâncias fundamentais, nota-se que algo está fora do lugar.
A via de acesso à arte pela qual todos temos a responsabilidade de trabalhar não deve ser esta em voga, qual seja a do boom, da euforia, da grife. Desejo que o mercado faça o seu trabalho bem feito, que a ArtRio tenha vida longa, aperfeiçoe-se ano após ano e tenha a humildade de aprender com os erros e as críticas. Mas cabe a nós parar, analisar e pensar quando o paradigma maior da experiência da arte se torna a feira de arte. Volto a frisar o que escrevi nesta mesma época do ano em 2011: a tarefa de construir um maior equilíbrio de forças dentro dos vários eixos que compõem o circuito da arte do Brasil se torna a cada ano mais premente, e o ano de 2012 deixa isso ainda mais evidente. Arte é para proporcionar uma segunda pele para o mundo, deixá-lo menos opaco. De situações eufóricas que findam por promover angústia, ansiedade e, quiçá, depressão, já estamos fartos.
outubro 2, 2012
Candidatos à Prefeitura de São Paulo divergem sobre ação das OS por Anna Virginia Balloussier e Matheus Magenta, Folha de S. Paulo
Candidatos à Prefeitura de São Paulo divergem sobre ação das OS
Matéria de Anna Virginia Balloussier e Matheus Magenta originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 1 de outubro de 2012.
O modelo de gestão cultural via organizações sociais (OS), no qual o poder público seleciona um ente privado sem fins lucrativos para gerir teatros, museus e orquestras, por exemplo, é uma das maiores divergências entre os cinco principais candidatos à Prefeitura de São Paulo.
Essa é uma das conclusões de um questionário com 24 itens enviado aos candidatos Haddad (PT), Chalita (PMDB), Serra (PSDB), Russomanno (PRB) e Soninha (PPS) por integrantes da Rede Paulista de Pesquisadores da Cultura.
A entidade reúne professores e pesquisadores universitários e produtores culturais, como Pablo Ortellado, professor da pós-graduação em Estudos Culturais da USP, e o pesquisador Valmir de Souza, do Instituto Pólis (ONG da área de políticas públicas).
Para o secretário municipal da Cultura de São Paulo, Carlos Augusto Calil, a análise da gestão via organizações sociais, hoje em fase de implantação para o Theatro Municipal, "não pode ser vista pelo lado ideológico".
Criado em 1998 no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), o modelo de OS dá maior flexibilidade administrativa, já que o repasse de verbas e a gestão de equipamentos culturais como teatros e museus não precisam se submeter à Lei de Licitações.
Para o PT, o modelo privatiza uma gestão que deveria ser responsabilidade do Estado. Hoje, alguns dos principais museus de São Paulo, como a Pinacoteca e o Museu do Futebol, são geridos por organizações sociais.
POLARIZAÇÃO
A maioria das divergências se dá entre as posições defendidas pelos candidatos adversários do PSDB (partido governa o Estado de São Paulo e é aliado da gestão do pessedista Gilberto Kassab) e do PT (sigla no comando do governo federal desde 2003).
"A polarização PSDB versus PT ficou patente em pelo menos quatro pontos, como o papel atribuído à cultura nos processos de revitalização urbana e as políticas voltadas para a cultura comunitária e periférica", disse o professor da USP Pablo Ortellado, um dos responsáveis pelo questionário aplicado.
Já quando a pergunta aborda o Sistema Nacional de Cultura (modelo inspirado no Sistema Único de Saúde que integra federação, Estados e municípios e prevê o aumento progressivo de recursos para o setor), elaborado no governo do ex-presidente Lula (PT), as posições se invertem.
Serra tem restrições à adesão de São Paulo ao sistema.
"Ele embute o risco de ignorar particularidades locais e a autonomia dos entes federados. Não se pode comparar a complexidade de atuação de uma secretaria de uma cidade como São Paulo com a de uma cidade pequena do interior do país", afirmou.
Diante da pouca importância dada pelos candidatos à cultura durante a campanha eleitoral, o questionário tem dois objetivos centrais: apresentar a agenda da política cultural para a cidade e criar uma espécie de compromisso público dos candidatos.
Serra só enviou suas respostas após ser informado pela Folha de que o questionário seria abordado em uma reportagem.
Criticado por adversários por não apresentar propostas claras de governo ao longo da campanha eleitoral (a votação será no próximo domingo), Russomanno não foi além das respostas "sim", "não" ou "em termos", sem justificar suas posições.
Ainda assim, só ele, que lidera as pesquisas, e Chalita se comprometeram a investir na área 1,8% do orçamento municipal (cerca de R$ 700 milhões dos R$ 38,8 bilhões previstos para este ano).
O índice de 1,8% foi proposto pelos pesquisadores por ser o maior valor desde 1992. Atualmente, a fatia para a cultura oscila em torno de 1% (R$ 400 milhões).
"Não adianta colocar orçamento muito grande. Você recebe, mas não consegue executar, não tem instrumentos para isso", argumenta Calil.
ECONOMIA
Para os pesquisadores, a atual gestão da Secretaria Municipal de Cultura foi marcada pela criação e reforma de grandes equipamentos culturais (como museu ou teatro), a fim de revitalização urbana do centro da cidade.
Segundo eles, essa política levou, ao mesmo tempo, a um maior dinamismo econômico de uma região degradada e à gentrificação (a chegada de moradores mais abastados e o encarecimento do metro quadrado da região).
Para Haddad, esse tipo de política cultural é "um mecanismo de exclusão social".
Sobre as economias criativa e da cultura, apenas Chalita e Serra responderam.
"Parece-me coerente com o que Serra defende, como a proposta de construção de um centro de referência da moda, na zona leste", avalia a especialista em economia criativa Ana Carla Fonseca.
