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junho 29, 2012
Artista de São Paulo constrói obra labiríntica em museu no Pátio de São Pedro, www.diariodepernambuco.com.br
Artista de São Paulo constrói obra labiríntica em museu no Pátio de São Pedro
Matéria originalmente publicada no caderno Viver no jornal Diário de Pernambuco em 28 de junho de 2012.
Rodrigo Sassi passou o mês no Recife para construir Ponto para Fuga
O artista paulistano Rodrigo Sassi, que mora em São Paulo e viveu uma temporada em Londres, passou o mês de junho no Recife para produzir um traalho especialmente para o museu Mamam no Pátio (unidade do Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães no Pátio de São Pedro). O resultado da residência artística será apresentado nesta sexta, às 18h, mas a obra fica em cartaz no local até o dia 25 de agosto, de terça a sábado.
Sassi construiu estruturas que se adaptam à parede do museu e modificam o espaço. É uma espécie de escultura suspensa, que cria um labirinto visual formado por caminhos curvos. O título da exposição é Ponto para Fuga.
Lei texto sobre a obra escrito pela curadora e crítica de arte Maria do Carmo Nino:
PONTO PRA FUGA do artista plástico paulista Rodrigo Sassi se insere nas suas últimas pesquisas empreendidas em confronto com o espaço expositivo. Instalação ou escultura? Por que não os dois? Afinal a obra no seu próprio título ao assimilar termos que podem ser percebidos como opostos como convergência (ponto) e divergência (fuga) sugere uma associação de opostos apontando para a vontade do artista de que seu trabalho não seja percebido dentro de uma perspectiva restritiva.
Rodrigo faz um uso imaginativo de técnicas industriais e de certos materiais de construção que ele re-aproveita do próprio cenário urbano: compensado plástico recuperado que é moldado ao espaço em formas monumentais porém simples, em seguida abrigando o concreto que nele se insere. A explicitação do processo está muito presente no resultado final e seu espectador é eleito como partícipe desta experiência.
Há uma cadência evocativa da tradição construtivista que me parece muito musical no seu trabalho, mesmo após ter equilibrado mais as sinuosidades das obras anteriores com as linhas mais retas atuais. A obra parte de um vértice e projeta-se penetrando o espaço desenhando - o e animando-o, e tirando partido de estímulos diretos como a variação com a luz ambiente, com as percepções advindas das tensões gravitacionais, do jogo de contrastes ativados entre formas angulares e curvas, onde o artista parece afirmar continuamente o caráter experimental da arte e do estímulo ao nosso olhar em transformação no espaço.
Maria do Carmo Nino
SP-Arte negociou ao menos R$ 49 mi, calcula Fazenda por Silas Martí, Folha de S. Paulo
SP-Arte negociou ao menos R$ 49 mi, calcula Fazenda
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no caderno Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo em 28 de junho de 2012.
Valor corresponde a transações de 24 das 110 galerias da feira, que tiveram isenção do ICMS em suas vendas
Diretora da feira diz que dado reflete parte dos negócios e que não se 'surpreenderia' com vendas de R$ 200 mi
Um levantamento da Secretaria da Fazenda paulista, feito a pedido da Folha, mostrou que a última edição da feira SP-Arte, realizada em maio em São Paulo, registrou vendas de R$ 49 milhões em transações declaradas por 24 de suas 110 galerias.
Esse é o primeiro dado concreto do volume de vendas da feira, já que a SP-Arte, que neste ano teve isenção de ICMS sobre suas vendas, não divulgou um balanço final.
Só esse valor, de R$ 49 milhões, já sugere um aumento do faturamento em relação a 2011, quando galerias disseram vender R$ 40 milhões. Mas esse dado é uma estimativa das galerias, não comprovado pela Fazenda, uma vez que não houve benefício fiscal na edição anterior.
O volume de transações calculado agora pela Fazenda reflete só as vendas de 24 das galerias que tiveram desconto tributário. Nem todas as 110 participantes tiveram o benefício, concedido só às casas do Estado de São Paulo e a galerias estrangeiras.
Isso significa que os R$ 49 milhões registrados pela Fazenda respondem pelas transações de 22% das galerias da feira. Se as demais casas realizaram vendas em patamar semelhante, o faturamento total da SP-Arte pode ter chegado a R$ 245 milhões.
"Não me surpreenderia se as vendas tivessem passado de R$ 200 milhões", diz Fernanda Feitosa, diretora da SP-Arte. "É um 'feeling' do tamanho desse mercado, mas não há estudo sobre isso."
Nas contas de Feitosa, o mercado de arte nacional movimenta cerca de R$ 1 bilhão por ano. Levando em conta que as maiores galerias do país afirmam faturar até 30% de seus lucros anuais durante a SP-Arte, Feitosa acredita que o volume de vendas da feira pode responder por até 30% do total das transações.
"É uma coisa muito informal, não tem nenhum cálculo", diz Eliana Finkelstein, presidente da Associação Brasileira de Arte Contemporânea e sócia da galeria Vermelho. "Eu, sentada com uns amigos num boteco, calculei que a feira pode ter chegado a uns R$ 150 milhões."
Diante do balanço de R$ 120 milhões divulgado no ano passado pela ArtRio, feira carioca concorrente da SP-Arte, os números são importantes para avaliar as dimensões do mercado de arte nacional.
Marcada para setembro, a ArtRio deste ano prevê movimentar até R$ 150 milhões.
Procurada pela Folha, a Secretaria da Fazenda fluminense não confirmou valores nem pôde levantar o total das vendas declaradas no ano passado pela ArtRio até o fechamento desta edição.
junho 27, 2012
Centro de Arte Contemporânea Inhotim mira a classe C, www.diariodepernambuco.com.br
Centro de Arte Contemporânea Inhotim mira a classe C
Matéria de Agência O Globo originalmente publicada no caderno Viver no Diário de Pernambuco em 26 de junho de 2012
Museu em Minas Gerais atrai visitantes de todo o Brasil com pavilhões e obras de arte espalhadas no meio da natureza
Passa de meio-dia, e Bernardo Paz está sentado sozinho à mesa do restaurante Tamboril, em Inhotim. Fuma calmamente um cigarro e até parece alheio a uma família que, numa mesa próxima, tenta entender o mapa do parque enquanto ajeita os tênis de caminhada, bonés e celulares coloridos rumo à exploração do maior centro de arte contemporânea do Brasil. Paz se levanta, cumprimenta a repórter e pula introduções, já inflamado: "Olhe em volta: Inhotim não é elitizado! É um lugar para as classes B, C e D!", diz o dono do empreendimento milionário em Brumadinho, a cerca de 60 km de Belo Horizonte, em Minas Gerais.
O parque criado por Paz em 2002 (e então "visitável" apenas por convidados) chega aos dez anos com um foco quase oposto ao de sua inauguração: a mira, agora, é a tão falada nova classe C.
"No Brasil, esse é um caminho quase obrigatório, porque 80%, 90% da população são classe C", calcula Paz (segundo os últimos dados da Pnad, são 55% ). "Você tem que partir para esse lado."
Aberto ao público em outubro de 2006, Inhotim recebeu 247 mil visitantes no ano passado (mais do que o dobro de 2007). Desses, cerca de 70% já são da classe C, afirma o empresário. A estimativa é que, neste ano, o parque receba 400 mil pessoas.
Para atrair público, Inhotim amplia ações sociais e programa uma série de aberturas em 2012. A agência O Globo visitou os pavilhões de Lygia Pape e Tunga, que serão inaugurados no dia 6 de setembro. O de Lygia, feito só para a obra T-téia, de 2002, tem projeto arquitetônico do escritório Rizoma, gerido por Virgínia Paz (irmã do empresário). A instalação de fios dourados que saem do teto rumo ao chão fica numa galeria em que o visitante tem de caminhar alguns metros praticamente às cegas até chegar ao delicado jogo de luz do trabalho.
Longe dali, na mata, está quase finalizado o imenso pavihão de Tunga, um dos primeiros artistas da coleção de Inhotim. Com área de 2.600 metros quadrados e paredes de vidro, o prédio é elevado do chão e parece flutuar próximo à copa das árvores. O projeto — assinado por Maria Paz, de 26 anos, sobrinha do empresário, e Thomaz Regatos, de 31 anos, ambos do Rizoma — teve supervisão de Tunga.
Com três andares (incluindo o subsolo para videoinstalações, em que, revelam os arquitetos, o artista deve instalar até um serpentário), o prédio fica pronto em 40 dias e, então, será recheado com quase 30 obras, como a instalação Palíndromo incesto (1990-1992).
Haverá ainda um novo espaço, para Now let’s play to disappear (2002), do cubano Carlos Garaicoa. Sua videoinstalação com velas será montada em caráter permanente no prédio onde era o estábulo da antiga fazenda de Inhotim. A espanhola Cristina Iglesias também terá espaço para criar o site-specific Vegetation Room Inhotim. Entre as árvores da mata, ela vai construir um prédio espelhado por fora e coberto por uma textura que lembra vegetação por dentro. O público poderá caminhar pelo trabalho.
Das 18 galerias existentes atualmente, uma, a Mata, terá obras trocadas. Entram trabalhos de Renata Lucas, Leon Ferrari e Edward Krasinski, entre outros. A única que permanece no pavilhão é Seção diagonal (2008), de Marcius Galan.
Estrada, aeroporto e tranquilizantes
Para 2013, haverá ainda dois pavilhões imensos do dinamarquês Olafur Eliasson. Um deles será redondo, como um relógio do sol, com parte sob a terra e 15 metros de diâmetro. A fotógrafa Claudia Andujar também terá uma galeria própria, dedicada a sua trajetória com os índios yanomami, que registra desde os anos 1970.
As ações para levar a classe C ao crescente percurso de obras de arte foram ampliadas neste ano. No início do mês, por exemplo, o instituto criou o programa Inhotim para Todos, que disponibiliza ingressos gratuitos, transporte e até almoço para visitantes. Proliferam também convênios com escolas públicas de Brumadinho e de Belo Horizonte, que permitem o acesso gratuito de mais de 500 crianças por dia no instituto.
Inhotim tem ainda programas sociais em comunidades quilombolas de sua vizinhança. Lá, assistentes sociais e educadores criam projetos de geração de renda e organização comunitária. Boa parte da mão de obra do parque, que tem, entre outros funcionários, 90 jardineiros, vem dessas comunidades.
Os planos do dono do empreendimento incluem construir um loteamento em terras vizinhas a Inhotim. Ele diz que tenta vender outro negócio (de cerca de US$ 200 milhões) para comprar os 300 hectares de terra onde pretende construir 3.000 casas populares. Lá, exemplifica, poderá morar "o caseiro de um condomínio rico" nas redondezas de Inhotim.
"Sempre me preocupei com o social. Meus pais eram de comunidade de base, tinha retrato de Che Guevara na minha casa. Não sou milionário, todos os meus recursos estão aqui dentro", diz o empresário, que costuma repetir a última frase nas entrevistas que dá.
Logo na entrada de Inhotim, surge o esqueleto de uma pousada que ele planeja inaugurar em 2013, com 40 bangalôs. Inicialmente no projeto, um restaurante de luxo concebido por Alex Atala não será mais erguido. Mostrou-se inadequado à ideia da pousada.
Para "quem puder comprar", como diz o empresário, serão feitos 300 lofts na região. O governo de Minas faz licitação para que uma empresa desenvolva o projeto de estrada que vai ligar mais facilmente Belo Horizonte a Inhotim. Paz diz que já obteve autorização para construir um aeroporto na região — hoje, o visitante pode levar duas horas para ir do aeroporto de Confins ao parque.
"Estou cansado de ser chamado de excêntrico", reclama ele, pouco antes de se vangloriar por ter comprado T-téia por algo como US$ 200 mil e ver hoje a obra estimada em 4 milhões. "Não me considero dono de nada. Trabalho feito um cão, fumo feito um diabo, durmo com tranquilizantes, acordo com antidepressivos, tomo remédio para o coração, mas as coisas aconteceram para mim."
No Centro das outras riquezas por Pedro Rocha, O Povo
No Centro das outras riquezas
Matéria de Pedro Rocha originalmente publicada no caderno Cultura no jornal O Povo em 24 de junho de 2012
A ação do BNB vai além do ambiente econômico e não diz respeito apenas ao interesse político. O forte apoio à cultura regional obriga também o meio a esperar uma solução para a crise
Em 2012, o Banco do Nordeste tem um orçamento previsto de R$ 1,84 milhão para investimentos na área cultural, dinheiro reservado apenas à produção de atividades, sem contar a folha de pagamento e os custos com a manutenção de seus três centros culturais: Juazeiro do Norte, Sousa, na Paraíba, e Fortaleza. Este último, inaugurado em 1998, foi o primeiro do gênero e se transformou ao longo de seus 14 anos de existência em uma das referências da programação cultural na cidade.
Instalado em um prédio de três andares no Centro de Fortaleza, o Centro Cultural Banco do Nordeste é um espaço acolhedor. Desavisados que passam por ali podem se surpreender, mas ao longo dos 14 anos de existência, o CCBNB criou um público próprio, afeito às aberturas de exposições, shows musicais, espetáculos de teatro, entre outros projetos.
As atividades do Centro vão desde clubes de leitura, oficinas de iniciação artística e programas infantis, até espetáculos teatrais e festivais de música. As apresentações musicais em horários vespertinos e no início da noite, assim como as peças teatrais, tornaram-se uma das marcas inconfundíveis do espaço, que atrai plateias distintas.
“Você não vê o garoto do colégio num show à noite na Praia de Iracema, nos clubes, na ruazinha do Maria Bonita. Mas você vê o cara no Banco do Nordeste, uma pivetada de 13, 14, 15 anos, na idade em que você começa a ouvir, trocar material no colégio com os colegas.”, comenta Amaudson Ximenes, músico e presidente da Associação Cearense do Rock (ACR).
Testemunho
Em parceria com o CCBNB, a ACR produz há seis anos o Festival Rock-Cordel, que reúne anualmente bandas do estilo de Fortaleza, região metropolitana e algumas cidades do interior do estado. O festival, que realizou sua 6ª edição no começo do ano, se transformou em um programa do Centro Cultural, com shows o ano todo.
“A maior contribuição (do programa) é a difusão dos trabalhos, principalmente na capital. O próprio festival tem revelado muita gente, mostrando o trabalho de várias bandas. É uma oportunidade que não existia antes”, conta Amaudson.
Outro projeto consolidado na programação, fruto da parceria entre o Centro Cultural e a ONG Mediação de Saberes, é o Percursos Urbanos. Todos os sábados à tarde um ônibus com os inscritos perfaz roteiros diferentes, apresentando lugares e histórias insuspeitas para boa parte dos fortalezenses.
“Num contexto de poucos investimentos para a cultura pelos governos estadual, municipal e federal, o CCBNB tem desempenhado ao longo dos anos um papel essencial na gestão e difusão cultural regional”, opina Júlio Lira, idealizador e um dos responsáveis pelo Percursos Urbanos, que hoje já acontece também no Centro Cultural do Cariri.
NÚMEROS
14
anos, é o tempo de existência do Centro Cultural de Fortaleza
2
Centros semelhantes funcionam hoje no Cariri e em Souza (PB)
Gil Vicente experimenta a geometria em nova exposição, Diário de Pernambuco
Gil Vicente experimenta a geometria em nova exposição
Matéria originalmente publicada no caderno Viver do Diário de Pernambuco em 27 de junho de 2012.
Mais conhecido por pinturas e desenhos figurativos, que retratam o ser humano, o artista Gil Vicente costuma abrir espaço também para trabalhos com outras formas de linguagem. A abstração, com elementos geométricos, é uma área de seu interesse, como confirma a exposição Geometrias, em cartaz na Galeria Mariana Moura de 28 de junho a 28 de junho. A inauguração está marcada para esta quarta, às 20h.
Essa é sua segunda exposição neste estilo. A primeira foi Geometria Adiada, apresentada em 2008 na mesma galeria. A nova série é um desdobramento da anterior, um aprofundamento que se abre para novas possibilidades e novas tonalidades. Apesar da abstração ser seu objetivo, ele mantém certas regras na elaboração das imagens, onde parece haver movimentos, sobreposições ou relacionamentos físicos entre as figuras. Áreas em branco (ou cinza) também estão mais presentes e ampliam a sensação de espacialidade.
Gil Vicente é um dos artistas mais consagrados de Pernambuco e já participou, por exemplo, de duas Bienais de São Paulo. Na última, em 2010, provocou polêmica com a série de desenhos Inimigos (também já apresentada na Mariana Moura), em que atacava personalidades políticas do mundo contemporâneo.
Leia o texto de apresentação da exposição escrito pela crítica de arte Ana Luisa Lima:
Silêncio, quietude e apaziguamento
Foi morto. Sempre que se anuncia uma morte imaginamos uma tragédia. Morte e violência parecem andar comumente de mãos dadas. Morrer de velho não é excitante.
Nesses dias me perguntei de onde veio a violência que quis matar o autor, a pintura e a história da arte. A violência acalentada pelo medo, talvez. Medo de que um dia tudo seja silêncio, quietude e apaziguamento. Penso que anunciaram precocemente tantas mortes, não porque já não conseguiam enxergar-lhes vida, mas porque ansiavam outra vez por seus grandes gestos.
E por certo que há muito já não se podia ver grandes gestos, porque o mundo, e tragicamente também a arte, estava empenhado em dar respostas – quase sempre pragmáticas. O que se criou então foi uma tagarelice sem fim. Um movimento circular de excesso de significados para tão pouco significantes. Instaurou-se a arte adjetivada. A arte tecnológica, a arte política, a arte relacional, etc.
Tal necessidade obsessiva de adjetivação da arte deu lugar a um formalismo vulgar. Isso quer dizer que a arte contemporânea parida para ser a possibilidade de todas as coisas deixou-se ser domesticada pelos adjetivos de modo que hoje é possível identificar facilmente a genealogia de uma obra de arte contemporânea por seus parentescos próximos, de formas comuns.
Nesse sentido, fica bem engraçado quando daqui e dali se ouve dizer pejorativamente de um pintor contemporâneo que resolve tomar mão da abstração ser um formalista. É nesse contexto que gostaria de falar sobre Gil Vicente.
Penso que à contrapelo daquilo que vem sendo engendrado pela atual história da arte, com muito poucos grandes protagonistas, Gil com sua “Geometria adiada” anuncia uma série de perguntas no lugar das fáceis respostas.
Nesse momento histórico, talvez esse seu gesto prefigure um ato instaurador (ou restaurador) de uma arte que volte a ser tomada inteiramente por uma vontade de fruição, como diz Barthes. Um lugar em que sejam ultrapassadas a tagarelice, e a procura obsessiva pelos adjetivos.
Tenho pra mim que alguns desavisados estarão apegados à ideia de que a abstração é algo “datado”. O que vale dizer que um pensamento desses ser contemporâneo de estudos cada vez mais avançados sobre as dobras do tempo e do espaço é que não me parece ter muito lugar. Ademais, a genealogia artística além de se dar sem certeza de sua pureza, também não está estabelecida como uma espécie de evolução da criatividade obedecendo restrições lineares de temporalidade ou lugar. Desse modo, é possível esboçar incontáveis diagramas de parentesco em que se pode conferir a Gil a contemporaneidade tanto das investigações de Cézanne quanto as concretas e neoconcretas.
O certo é que a geometria pintada por Gil adia mortes e respostas. E as grandes perguntas só se multiplicam naquilo que em sua pintura se faz em planos, cor, ausência, contenção.
É na ausência que Gil se faz gesto e autoria – parafraseando de maneira livre Agamben**. E em sua pintura de aparente silêncio, quietude e apaziguamento permanece o artista de arma em punho ameaçando olhos nos olhos novos e velhos Inimigos***.
Ana Luisa Lima é crítica de arte, editora da revista Tatuí.
** No livro “Profanações” Giorgio Agamben traz o assunto no ensaio “O autor como gesto”.
*** Nome da série de desenhos de Gil Vicente presente na 29a. Bienal Internacional de São Paulo.
A geometria colorida de Gil Vicente por Eugênia Bezerra, jc-online
A geometria colorida de Gil Vicente
Matéria de Eugênia Bezerra originalmente publicada no caderno Cultura no jornal JC On Line em 27 de junho de 2012.
O artista plástico pernambucano inaugura uma exposição de pinturas abstratas na Galeria Mariana Moura
Desde os 12 anos estudando e fazendo suas criações em artes visuais, o recifense Gil Vicente já encontrou na pintura, desenho, escultura e fotografia meios de expressão. Observando especificamente as pinturas e desenhos feitos por ele durante este tempo, também se nota mais um exemplo da diversidade de interesses artísticos de Gil Vicente pela presença do figurativo e do abstrato entre as obras. E é este último lado da produção do artista que o público pode conferir até o fim de julho na exposição Geometrias, individual que será inaugurada nesta quarta-feira (27/6), às 20h, na Galeria Mariana Moura.
A mostra reúne 18 pinturas em óleo sobre tela. São obras bem recentes, nas quais o artista trabalha desde janeiro de 2012 combinando as cores, formas e espaços vazios. Esta é a terceira exposição de Gil na Galeria Mariana Moura (que representa o artista, junto com a Galeria Nara Roesler, de São Paulo). A mostra também é a segunda em que ele apresenta pinturas abstratas. “"Na minha vida toda, representei paisagens, figuras especialmente, coisas do mundo real. A figura sempre foi muito mais urgente para mim, por motivos pessoais mesmo. Para me relacionar com o mundo tive que passar estes 30 anos pintando”", resume Gil Vicente.
Ele lembra que a geometria vez ou outra se insinuava em seu trabalho. Em 2008, na mesma Galeria Mariana Moura, o artista também reuniu alguns trabalhos abstratos em Geometria adiada. "“As obras eram muito diferentes destas, eu usava cores escuras. Desta vez elas estão mais claras, luminosas, diurnas, em contraste com a outra exposição. (A escolha das cores) foi do processo, naturalmente foram aparecendo cores mais claras. Mexi neles muitas vezes, algumas são quase fluorescentes"”, compara o artista.
Para 2012, ele tem mais duas exposições programadas em Pernambuco. Uma delas reúne obras dele, de Renato Valle e Manoel Veiga. A mostra Figura, paisagem e natureza-morta, que em 2011 foi montada no Sesc Casa Amarela, será levada em agosto para o Sesc Petrolina. “"O Museu Murillo La Greca está com uma exposição minha chamada Estudos, com trabalhos desde a Escolinha de Arte do Recife e também nos ateliês de extensão da Universidade Federal de Pernambuco, além de rabiscos que fiz até esta exposição"”, adianta o artista plástico.
A matéria completa está no Caderno C desta quarta-feira (27/6), no Jornal do Commercio.
junho 26, 2012
Resposta do Ministério da Cultura à Carta de Conselheiros do CNPC sobre Processo Eleitoral
Carta enviada pelo Ministério da Cultura em 22 de junho de 2012, em resposta à carta dos Conselheiros do CNPC, representantes das Setoriais de Cultura, de 17 de maio de 2012.
Assunto: Processo eleitoral para renovação dos colegiados setoriais e do plenário do CNPC
Senhor Conselheiro,
1. Em resposta à correspondência assinada por parte dos Conselheiros desse Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC), encaminhada ao Ministério da Cultura no dia 17 de maio passado — e ao mesmo tempo divulgada publicamente -, relativa ao processo eleitoral para renovação dos colegiados setoriais e do plenário deste Conselho, temos a esclarecer o seguinte:
a) Que de fato houve erros na edição da Portaria regulamentadora do processo eleitoral (número 51), o que ocorreu única e exclusivamente por responsabilidade da Secretaria Geral do CNPC, por falha na revisão do texto encaminhado para publicação, em especial no calendário do processo eleitoral;
b) que, no entanto, visando sanar estas falhas, foi editada nova portaria (n° 59), com data de 25 de maio de 2012, já publicada no DOU. Esclarecemos que, justamente por ter constatado os erros da edição anterior, evitou-se a publicação da mesma na plataforma virtual do processo de renovação dos colegiados;
c) que as normas instituídas pela Portaria 51 e 59 não apenas consideram as deliberações da 6a Reunião Extraordinária do CNPC, como também buscam aperfeiçoá-las, a fim de assegurar a ampla participação do setores culturais em todo o território nacional;
d) que esse objetivo está expresso na priorização da plataforma virtual como o instrumento mais adequado para o cadastro de eleitores e candidatos de todo território nacional, debate de propostas e eleição dos delegados estaduais ao Fórum Nacional, instância decisiva na qual o método presencial será adotado;
e) que as duas Portarias não eliminam a possibilidade de encontros estaduais presenciais, embora saibamos das dificuldades logísticas que tal opção implica, em especial para que todos os cidadãos brasileiros, localizados nos 5565 municípios, possam participar em condições de igualdade;
f) que a nova Portaria 59 legitima a participação dos membros dos Grupos de Trabalhos criados para instituir os colegiados setoriais como delegados estaduais natos aos respectivos Fóruns Nacionais;
g) que eventuais discrepâncias das Portarias com as manifestações do CNPC, notadamente a que particulariza o processo eleitoral de 2 (dois) dos 19 (dezenove) setores que compõem o Conselho, decorrem das especificidades institucionais de organização desses segmentos, apontadas nas reuniões do CIPOC, principalmente pelo fato de já possuírem instâncias colegiadas de participação e consulta. Convém salientar que o CNPC é órgão consultivo, cabendo ao Ministério a deliberação sobre as resoluções do mesmo. Destaque-se ainda que a quase totalidade das manifestações do Conselho têm sido acatadas pelo MinC, confirmando a orientação democrática e participativa da gestão;
h) que os critérios de proporcionalidade na distribuição de vagas de delegados estaduais, entre as Unidades da Federação, embora modifiquem a sugestão do CNPC, ampliam as possibilidades de participação e reforçam a representatividade de cada setor, ajustando o coeficiente eleitoral ao número de inscritos no respectivo setor;
i) que a plataforma virtual criada pelo Ministério da Cultura para abrigar o processo de renovação do CNPC é uma inovação importante, que valoriza o processo, e que está aberta à colaboração e sugestões de todos os cidadãos e cidadãs brasileiras, em especial dos atuais conselheiros, a fim de que se consolide como um espaço de informação e comunicação constante e imediato; e
j) que o Ministério da Cultura está empenhado e já deu início ao processo de indicação, nomeação e instalação da Comissão Organizadora Nacional e das comissões eleitorais setoriais, compostas por membros do governo e da sociedade civil representada no Conselho Nacional de Política Cultural.
2. Com esses esclarecimentos acreditamos ter respondido às principais questões levantadas pelos senhores conselheiros e esperamos, a partir de hoje, contar com a colaboração de todos para que o processo de renovação do CNPC seja um momento privilegiado de exercício da democracia participativa em nosso país. Continuamos à disposição para esclarecer dúvidas que porventura tenham subsistido.
Atenciosamente,
Vitor Ortiz
Secretário-Executivo
junho 25, 2012
Funarte é criticada por 'blindar' editais por Matheus Magenta, Folha de S. Paulo
Funarte é criticada por 'blindar' editais
Matéria de Matheus Magenta originalmente publicada no caderno Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo em 25 de junho de 2012.
Instituição fez portaria às pressas após Lei de Acesso à Informação para preservar conteúdo de projetos culturais
Ator Carlos Palma diz que ação é 'antidemocrática'; dramaturgo Jair Alves pede transparência
Uma portaria da Funarte, órgão vinculado ao Ministério da Cultura, recebeu críticas no setor cultural ao determinar sigilo para parte das informações referentes à seleção de seus editais. Para o ator Carlos Palma, a medida foi "antidemocrática" e "autoritária".
Publicada no "Diário Oficial" no mês passado, a portaria classificou como "reservadas" informações como o conteúdo dos projetos não contemplados e o dos vencedores, até as execuções deles.
"Como há a possibilidade de reconsideração do resultado, a gente precisa saber o que os vencedores propuseram, o que foi considerado mais importante por quem seleciona os ganhadores", afirmou o dramaturgo Jair Alves.
Segundo ele, "ninguém está questionando o resultado da seleção", mas sim pedindo transparência sobre a maneira que o dinheiro público é gasto.
Alves baseia seus questionamentos na Lei de Acesso à Informação, que entrou em vigor no mês passado com o objetivo de trazer mais transparência a dados públicos, como salários de servidores e agendas de ministros.
De acordo com a nova lei, as informações classificadas como reservadas têm um prazo de segredo de cinco anos que pode ser renovado uma vez. Em seguida, as informações se tornam públicas.
Para justificar o sigilo, a nova portaria cita um dos incisos do artigo 23 da lei, que trata dos possíveis riscos da divulgação de informações.
"O texto fala que a divulgação pode prejudicar ou causar risco a projetos de pesquisa e desenvolvimento científico ou tecnológico, mas esses editais não tratam disso, mas de arte e cultura", disse Alves.
OUTRO LADO
Em entrevista à Folha, o presidente da Funarte, Antonio Grassi, negou qualquer intenção de "esconder informações" e afirmou que a portaria serve para preservar a propriedade intelectual dos proponentes.
"Esses projetos não pertencem à Funarte, que é a única instituição que tem editais de criação artística. Se essas informações forem divulgadas, alguém pode copiá-las."
Ele rebateu as críticas afirmando que elas foram feitas por "perdedores" de editais da Funarte. Grassi, no entanto, admite que não seja necessário manter o sigilo dos conteúdos dos projetos contemplados até suas execuções. "Isso vai mudar. Nós tivemos de criar essa portaria com muita urgência para nos adequarmos à lei, mas estamos num processo evolutivo rumo à transparência."
Grassi disse ainda que outra novidade será que os proponentes dos próximos editais poderão autorizar a divulgação do conteúdo de seus projetos.
Ele não soube informar se a portaria atinge o recém-lançado edital de 30 bolsas para criação literária.
Listras, estrelas e gravuras por Nina Gazire, Istoé
Listras, estrelas e gravuras
Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 22 de junho de 2012
Um dos maiores nomes vivos da pop arte, o artista americano Jasper Johns exibe 70 obras em sua primeira exposição de fôlego no País
ÍCONE
Jasper Johns alcançou a fama com a série “Flags”, que faz interferência na bandeira dos EUA
A iniciativa dos artistas americanos Robert Rauschenberg e Jasper Johns de incorporar imagens de revistas, jornais e objetos do dia a dia em suas obras foi, durante muito tempo, entendida como uma resposta à agressividade do expressionismo abstrato, estilo de pintura focado na expressão e nas pinceladas gestuais. A essa prática impessoal se deu o nome de pop arte, e no início da década de 1960 as galerias de Nova York foram tomadas por artistas do gênero, como, por exemplo, Andy Warhol, que se tornou uma espécie de porta-voz do estilo. Até os dias de hoje é atribuída a Rauschenberg e a Johns uma espécie de paternidade da pop arte. Ao longo dos anos, contudo, ambos os artistas seguiram caminhos separados, e dois anos após a morte de Rauschenberg, em 2008, Johns recebeu do presidente Obama a Presidential Medal of Honor, o mais alto galardão concedido pela Casa Branca. Anteriormente, apenas Alexander Calder havia sido homenageado postumamente com a condecoração, em 1977.
O grande motivo para tamanha honraria talvez não seja apenas a importância da obra de Johns, hoje com 82 anos, mas o fato de que foi por meio de suas mãos que um dos maiores símbolos da supremacia norte-americana tenha se transformado em obra de arte. Desde 1955, o artista vem se dedicando a pintar, serigrafar e até transformar em peça escultórica a bandeira dos EUA. “Jasper vai fundo nos objetos que escolhe como tema para suas obras. Os objetos pintados, retratados, arrancados de páginas de revistas não se esgotam e são retrabalhados enquanto existirem possibilidades de leitura variadas”, diz o curador Bill Goldston, que selecionou com Johns as 70 gravuras da primeira mostra solo do artista no Brasil, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.
REPETIÇÃO
Entre as obras não poderia faltar, claro, a “Star Spangled-Banner” (bandeira estrelada), nome dado à bandeira dos EUA, representada em sete diferentes versões. Denominadas “Flags”, as gravuras, realizadas entre 1960 e 1973, acompanham outros títulos abrangendo cerca de 40 anos de produção do artista. “A exposição foi pensada especialmente para o Brasil. Nesse contexto, a mostra pretende ilustrar o modo como Johns se apropria de uma imagem, transformando-a em algo diferente do original. Apresentamos apenas gravuras porque o artista não as entende como uma mera reprodução, mas como maneira de expressar suas ideias artísticas”, afirmou Goldston em entrevista à ISTOÉ, por telefone. Além dos 66 trabalhos individuais, estão quatro séries nas quais a repetição é trabalhada como forma de criação. Exemplo é a série de litogravuras “09”, em que se usa uma mesma fonte para fazer uma contagem de 1 a 9, em outro procedimento comum à pop arte. Mais recentes são os trabalhos realizados entre 1999 e 2001, quando o artista incorpora às gravuras em metal a mesma fotografia de uma família oitocentista.
Apesar da mostra não trazer nenhuma de suas pinturas, Johns figura no ranking dos 30 pintores mais caros do mundo. Uma de suas telas da série “False Start” (que também está na origem de algumas gravuras em exposição) foi vendida por US$ 80 milhões em 2006, até então o preço mais alto alcançado por um artista vivo. Atualmente, Johns vive em Conecticut, nos EUA, e continua produzindo.
Bienal detalha próxima edição enquanto tenta acordo com o MinC por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Bienal detalha próxima edição enquanto tenta acordo com o MinC
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no caderno Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo em 22 de junho de 2012.
Heitor Martins, presidente da Fundação Bienal de São Paulo, vai conseguir pôr de pé a 30ª edição da mostra, que começa em setembro, mesmo com pendências com o Ministério da Cultura e ainda tentando captar R$ 4 milhões de um orçamento total de R$ 22 milhões.
Seu mandato, no entanto, termina neste ano, ameaçando deixar de herança para a próxima gestão um impasse com o governo, que estuda contas rejeitadas de gestões anteriores da fundação. "Essa é uma pendência importante", disse Martins à Folha. "É importante encaminhar essa solução para assegurar a vitalidade da instituição."
Em janeiro deste ano, o MinC bloqueou as contas da Fundação Bienal e chegou a exigir mais tarde que outra instituição se responsabilizasse pela edição deste ano da mostra, elegendo o Museu de Arte Moderna de São Paulo para a função.
Depois de uma manobra jurídica, a Bienal conseguiu o desbloqueio momentâneo dos fundos, dispensando a participação do MAM. Mas o acordo vale só para realizar a 30ª edição e não garante o futuro da instituição.
Segundo a Folha apurou junto a fontes na fundação Bienal, contas que já haviam sido aprovadas estão sujeitas a segunda análise, num pente fino que ainda não terminou. Estão sendo estudadas irregularidades em prestações de contas das gestões de Carlos Bratke, de 1999 a 2002, a e Manoel Francisco Pires da Costa, que ficou sete anos na presidência da instituição --a Justiça calcula um possível rombo de R$ 75 milhões.
Nos bastidores da Bienal, no entanto, o clima é de tranquilidade. Reuniões frequentes entre gestores da Bienal e interlocutores do MinC também têm sido realizadas para acelerar o processo, embora, segundo Martins, não haja "nenhuma previsão ou acordo" em vista com o MinC. "O ministério está sensível à questão", diz Martins. "Estão cientes de que isso precisa ser resolvido em tempo para não comprometer a 31ª Bienal."
Martins, o curador da 30ª Bienal, Luis Pérez-Oramas, e a equipe da mostra apresentaram nesta sexta em São Paulo detalhes dos preparativos do evento. Em seus dois mandatos à frente da Bienal, Martins criou estruturas permanentes de produção, comunicação e programas educativos. Antes de sua gestão, essas equipes eram criadas por ocasião de cada evento e depois desfeitas.
Também foram divulgadas metas do projeto educativo, coordenado por Stela Barbieri, que pretende atender até 1,4 milhão de pessoas até 2016 e tem como meta chegar a 600 mil visitas orientadas ao longo da 30ª Bienal.
