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junho 6, 2012
A artista Maria Thereza Alves será uma das quatro brasileiras na Documenta de Kassel por Audrey Furlaneto, O Globo
A artista Maria Thereza Alves será uma das quatro brasileiras na Documenta de Kassel
Matéria de Audrey Furlaneto originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Globo em 6 de junho de 2012.
Consagrada mundialmente mas quase desconhecida por aqui, artista participa de uma das maiores exposições de artes visuais do mundo
Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012
A dOCUMENTA (13) no Canal Contemporâneo
RIO - Maria Thereza Alves vasculhou subsolos na Inglaterra em busca de sementes ancestrais, criou um dicionário para salvar o idioma de uma etnia indígena brasileira quase extinta e fez mulheres francesas posarem nuas em retratos que lembram pinturas do século XIX. As obras decorrentes de suas pesquisas, misto de antropologia, política e arte, já foram expostas em importantes mostras, como a Manifesta (a bienal de arte contemporânea da Europa), as bienais de Praga, Lyon, Atenas e Havana, a Trienal de Guangzhou, na China, e em renomadas instituições, como o New Museum, em Nova York, e o Palais de Tokyo, em Paris. A brasileira, porém, teve seus trabalhos expostos no Brasil apenas uma vez, durante a 29 Bienal de São Paulo, em 2010.
Aos 51 anos, ela será anunciada nesta quarta, na Alemanha, como uma das quatro artistas que vão representar o país na Documenta de Kassel, uma das maiores e mais respeitadas exposições de artes visuais no mundo, que ocorre a cada cinco anos na Alemanha e que será aberta ao público no sábado. Maria Thereza figura ao lado de Renata Lucas, Anna Maria Maiolino e Maria Martins (1894-1973), estas com longa lista de exposições no Brasil.
Lobista nos EUA e fundadora do PV no Brasil
O fato de ser pouco conhecida em seu país de origem pode ser reflexo de a artista paulistana viver há 15 anos na Europa, com residência entre Berlim e Roma. Maria Thereza, porém, defende que a questão é histórica: quando começou a desenvolver os primeiros trabalhos, nos anos 1980, fotografando comunidades em situações miseráveis para a série "Brazilian recipes", não havia no Brasil "espaço para vozes que não estavam economicamente bem".
— Não havia lugar para pessoas como eu. Eu não tinha o sobrenome correto — diz, referindo-se à sua origem simples, de família rural, vinda do interior dos estados do Paraná e de São Paulo. — Quando terminei a faculdade de Belas Artes (nos Estados Unidos), tentei mostrar meu trabalho no Brasil e, muitas vezes, perguntavam meu sobrenome. Eu não entendia, era nova, não tinha essa sabedoria. Perguntavam: "De que família Alves você é?" E eu pensava: "Por quê? Estou mostrando meu portfólio..." Até descobrir que queriam saber se eu vinha de uma família importante, porque havia outra família Alves importante. Quando o Brasil parar de fazer esse tipo de pergunta (sobre status) e pensar que todas as pessoas podem participar da sociedade, o país poderá ser mais interessante.
O tom político acompanha sua produção. Ela diz não ter autorização para divulgar o que vai apresentar na Documenta, mas adianta que vem estudando Chalco, região central do México. Seu projeto é construir uma ilha — sim, uma ilha real — nos moldes da que existiu séculos atrás naquela região e que, em decorrência da urbanização, foi soterrada. A obra é "sobre a possibilidade, a energia de transformação". O produto é o projeto da ilha e o diálogo com os povos indígenas locais.
A ligação de Maria Thereza com tribos está na origem da carreira da artista que, ainda criança, mudou-se para os Estados Unidos (o pai temia problemas por ser sindicalizado em tempos de ditadura). Lá, nos anos 1970, ela fazia lobby contra o tratamento que o governo brasileiro dava aos índios. Foi assim que conheceu o marido, Jimmie Durham, índio cherokee americano, artista e ativista. As ações políticas do casal se mesclam às obras de arte que criam, ora sozinhos, ora em dupla. Na Bienal de São Paulo, por exemplo, ela apresentou um dicionário em que traduzia para o português o dialeto krenak, etnia indígena quase dizimada. Já Durham analisava a elite paulistana, reunindo objetos de valor numa vitrine.
Para Moacir dos Anjos, curador que esteve à frente da 29 Bienal e que trouxe a artista e seu marido ao país, "há certo recalque no Brasil com relação à cultura indígena", e o trabalho de Maria Thereza "abre fissuras no contrato social".
— Ela é uma das poucas artistas que trabalham com a questão indígena no país — afirma o curador. — No Brasil, existe esse recalque e talvez por isso o trabalho de Maria Thereza passe ao largo do interesse dos curadores e das instituições.
Ela afirma que não vê outro caminho para transformações que não o da política ("Para mim, tudo é política, relação de pessoas na sociedade", diz). No fim dos anos 1980, de volta ao Brasil depois da juventude nos Estados Unidos, ela deixou o Partido dos Trabalhadores (PT) e ajudou a fundar o Partido Verde (PV). Pouco depois, frustrada com as dificuldades de transformações na "colonizada sociedade brasileira", mudou-se para a Europa.
‘Me interessa a história como parte de hoje’
No âmbito da arte política de Maria Thereza entram ações para decifrar costumes e convenções sociais. Com Durham, ela assinou o vídeo "Male display among European population" para a Manifesta de 2008, em que tentavam descobrir o motivo pelo qual homens têm o hábito de, diz ela, "tocar os testículos em público".
— Estou interessada em como acreditamos que somos e em como somos realmente. Como a gente pensa que o normal é normal? Me interessa a história como parte de hoje.
Para uma de suas obras mais recentes, "Beyond the painting" (2011), exposta no Museu de História de Nantes, na França, estudou como a mulher é retratata na arte, desde o século XVII — então, a figura feminina aparecia "vigorosa e forte"; já no século XIX, surgia "alongada e sem energia". Convidou francesas para repetir, nuas, as poses dos retratos, mas sempre fortes, com os olhos cravados no espectador. Em outro trabalho, buscou, no subsolo de áreas portuárias da Inglaterra, sementes dormentes trazidas de outros continentes por antigas embarcações. "Seeds of change" (2005) resultou numa instalação em que, germinadas, as sementes revelam plantas exóticas.
A artista diz que quer voltar ao Brasil para um longo projeto e conta que tem comprado livros para saber mais sobre o país. Afirma, no entanto, estar distante da "síndrome do exilado, que deseja sempre voltar". Daí o mergulho em culturas diversas para criar suas obras.
— Tenho que estar onde estou — diz a artista. — Quero saber exatamente meu lugar no mundo.
Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012
Universo de Anna Maria Maiolino ganha casa própria por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Universo de Anna Maria Maiolino ganha casa própria
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 6 de junho em 2012.
Obras da ítalo-brasileira vão integrar a Documenta de Kassel, maior mostra de arte contemporânea do mundo
Cotidiano doméstico é mote da artista, que ocupa uma residência na cidade alemã para expor seus trabalhos
Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012
A dOCUMENTA (13) no Canal Contemporâneo
Não estranha que Anna Maria Maiolino tenha escolhido ocupar uma casa com a obra que fez para a 13ª edição da Documenta, maior mostra de arte contemporânea do mundo, que começa agora em Kassel, na Alemanha. O universo doméstico, que no seu trabalho permanece ligado ao feminino, sempre foi um "leitmotiv" (motivo condutor) potente.
Maiolino, italiana radicada em São Paulo, nunca havia pisado na cidadezinha alemã quando foi convidada para integrar a exposição.
Numa viagem a Kassel com a curadora Carolyn Christov-Bakargiev, Maiolino viu a casinha à beira do parque que decidiu não só ocupar com esculturas, obras sonoras e vídeos mas também transformar em grande instalação.
"Queria que o espectador ficasse envolvido pelo espaço da casa, pelo jardim", contou Maiolino à Folha, em seu apartamento na Vila Madalena, antes de viajar para montar os trabalhos.
Na primeira visita a Kassel, Maiolino também foi a um antigo mosteiro que serviu de base da polícia secreta durante a Segunda Guerra (1939-45), lugar onde faziam a triagem dos prisioneiros que seriam mandados aos campos de concentração. Um manicômio hoje funciona ali.
LOUCURA E PODER
"Era um lugar onde se administrava o poder de uma maneira terrível, tentando colocar todas as mentes numa mesma forma", diz ela. "São todos exercícios de poder."
Um vídeo que gravou na hora, durante a visita ao manicômio, será mostrado dentro da casa no parque. "É um documentário modesto", diz Maiolino. "Foi mesmo um registro da minha chegada."
No caso dos desvios mentais, trechos do conto "O Alienista", de Machado de Assis, e versos de Stela do Patrocínio, poeta que viveu anos internada na colônia Juliano Moreira, no Rio, serão combinados à fala da artista em gravações audíveis na porta da casa.
"Nenhuma obra de arte, a menos que seja panfletária, pode ser lógica", diz Maiolino. "Tudo é uma sobreposição de sentimentos ambíguos, estamos em busca dos sentidos. Estou fazendo uma afirmação da subjetividade."
LABOR FEMININO
Outra afirmação é a série de esculturas em argila que Maiolino quer mostrar no térreo da casa. São formas básicas, resultado de quatro movimentos da mão, que formam rolinhos e dobras.
"Terra Modelada", nome dado a esse ato de repetição quase obsessiva de formas em argila, é uma série que começou no início dos anos 1990. "Remete ao labor cotidiano, uma referência ao feminino", diz a artista.
Maiolino mete mesmo a mão na argila para moldar as peças sempre únicas, embora pareçam iguais. "Meu trabalho não pode ser olhado como algo preso à forma", diz a artista. "Estamos trabalhando em cima de um ritual."
Em Kassel, isso quer dizer entrar na casa da artista, ver e ouvir suas memórias e tentar entender suas proposições para um futuro possível.
Raio-X: Anna Maria Maiolino
VIDA
Nasceu em 1942, em Scalea, na Itália. Vive em São Paulo desde os anos 1960
OBRA
Ficou conhecida por seu trabalho em diversos suportes, como gravura e escultura. Sua obra discute política e temas ligados ao universo doméstico
Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012
junho 4, 2012
A resistência artística no país por Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo
A resistência artística no país
Matéria de Lúcia Guimarães originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 2 de junho de 2012.
A curadora e historiadora de arte carioca Claudia Calirman acaba de se tornar vizinha do dissidente cego chinês Chen Guangcheng, que se instalou no mesmo complexo de edifícios do bairro nova-iorquino do Greenwich Village, onde ela mora. Se forem apresentados, é fácil prever um tema da conversa: como resistir com integridade a uma ditadura? A resistência que interessa à carioca é a dos artistas plásticos atuantes no Brasil, especificamente três nomes que seguiram carreiras consagradas; eles são o foco de Brazilian Art Under Dictatorship - Antonio Manuel, Artur Barrio, and Cildo Meireles (Arte Brasileira sob a Ditadura: Antonio Manuel, Artur Barrio e Cildo Meireles), livro que sai no dia 29 pela Duke University Press. Claudia Calirman é professora de História da Arte do John Jay College of Criminal Justice, em Manhattan. A ideia da obra veio de uma série de conversas com o crítico Frederico Morais, um curador que não se ausentou do País durante a ditadura. "Foi ele que me chamou a atenção para a narrativa individual dos três", lembra a autora.
Claudia não romanceia a trajetória dos artistas, que analisa no período entre 1968 (AI-5) e 1975. As ações dos três, escreve, eram mais mundanas do que heroicas. O heroísmo, diz, reside na distância que eles percorreram com a arte e do que realizaram com ela. "Eles partiram de um começo que incluía nomes como Hélio Oiticica e Lígia Clark e atravessaram o pior momento da ditadura", comenta.
Leia a seguir a entrevista exclusiva de Claudia Calirman ao Sabático.
Você destaca, no livro, a escassez de documentação jornalística sobre as ações dos artistas plásticos da época, por causa da censura.
Sim, é um ponto importante porque você vê muita gente perguntar "então, já viu uma Coca-Cola do Cildo Meireles? Viu o trabalho do Antonio Manuel nas bancas de jornal?" Não havia cobertura convencional. E os próprios artistas viam o que faziam como ações rápidas. Não é como hoje, quando há tanto trabalho performático, consciente da câmera, com a expectativa do registro.
Sua tese é que a resistência representada por este grupo de artistas plásticos se situava longe do dogma ideológico e do nacionalismo?
Não havia um movimento organizado. Esses artistas não se agruparam. Faziam sua arte e, de vez em quando, expunham juntos. E eram censurados juntos. Mas não há um rótulo, como "geração AI-5". Acho que o teatro foi mais organizado, até ser violentamente perseguido no período do AI-5. Tivemos a Tropicália na música. Acho que as artes visuais foram menos perseguidas porque eram menos expostas.
Você cita outro marco, o boicote à Bienal de São Paulo, em 1969, que nem foi muito percebido pelo público por causa da censura. Por que acha que o boicote teve outro efeito?
O boicote internacional começou em Paris, com o critico e curador Pierre Restany, se espalhou pela Europa e chegou aos Estados Unidos. Foi um esvaziamento, que ficou conhecido com a Bienal do Boicote. Por isso mesmo, outros eventos locais, como o Salão da Bússola, começaram a ter mais importância, já que, até então, a Bienal dominava como vitrine do que acontecia na arte.
Coloque em perspectiva o trabalho do Antonio Manuel, que fez a performance em abril de 1970, no MAM-Rio, quando estava nascendo a body art.
Vejo mais o ato do Antonio Manuel de tirar a roupa no MAM naquele dia como um gesto espontâneo e não como uma estratégia de expressão. Ele - seu corpo - havia sido recusado pelo Salão de Arte Moderna. O fato de que ele apresentou o próprio corpo como obra de arte é mais importante do que o gesto de tirar a roupa. Como ficar nu provocou escândalo, ficamos com a memória de ser o fato relevante. Por ele ter tentado se inserir na exposição como uma obra, este momento é que se relaciona com a body art.
Em 2010, causou grande repercussão aqui a instalação da Marina Abramovic, em que ela passava o dia sentada no MoMA e convidava o visitante a se sentar à sua frente e fixar o olhar no seu. Qual a diferença que o contexto político faz para o artista quando a ousadia estética encontra o estado policial?
É um aspecto importante. Em momentos de repressão, a arte acaba por reinventar formas de expressão. É de novo a frase do Oiticica, "da adversidade vivemos". E a produção artística enfrenta um obstáculo maior na autocensura, quando a criatividade do artista entra em conflito com sua autopreservação. Você vê exemplos de arte mais efêmera em situações de restrição à liberdade, como na União Soviética e China. Mas quero notar que a Marina teve que lidar com a questão institucional, corporativista do museu e fez várias concessões para fazer a exposição. E esta forma de restrição tende a ser mais branda no Brasil.
E como você vê a trajetória do Antonio Manuel saindo dos anos da ditadura?
Não quis, intencionalmente, fazer a ponte com os dias de hoje; espero que outros sigam com essa narrativa. É um ótimo pintor que se interessa pelas questões da pintura. Livre da repressão política, ele evolui para a abstração geométrica que vemos hoje.
O aspecto efêmero da obra do Artur Barrio é um desafio maior ainda para a memória do trabalho dele naquele período?
Vamos lembrar que, além de ter representado o Brasil na última Bienal de Veneza, ele ganhou, em 2011, o prêmio Velázquez de Artes na Espanha, que mostra que passou a ter reconhecimento internacional. O desafio para quem pesquisa é o fato de o Barrio não ter interesse em preservar o trabalho. Faz questão de destruir e não acredita em reprodução da obra. Acha que uma foto da obra deve ser identificada como "registro" do trabalho. Não quer que seu trabalho seja distorcido por certas formas de representação.
Um ponto em comum entre os três artistas é a juventude deles, quando é decretado o AI-5. Barrio com 23 anos, Manuel, 21, Meireles, 20. Há algo em comum na memória que eles têm daquele tempo?
São três personalidades muito distintas, que passaram por processos de evolução diferentes. Mas todos olham para aquele momento, inequivocamente, como o passado. O artista sempre quer se firmar no presente. Na verdade, foi um pouco difícil trazer a conversa para aqueles anos que, em parte, gostariam de esquecer.
E não têm uma ideia romântica do período.
Não, veem como um momento que tiveram que atravessar, fazendo uma arte tão marginal. Não era pintura, escultura, não se vende. Como sobreviver? Senti que precisam manter certa distância daquele tempo.
Entre os três, o Cildo Meireles é o que articula mais intelectualmente a questão da história e da identidade do Brasil, certo?
Com certeza. Acho que o Cildo se preocupa com a questão da trajetória narrativa da arte brasileira. Ele valoriza artistas como Oiticica, Ligia Clark, o neoconcretismo, mesmo não fazendo parte de movimentos, porque morava em Brasília. E ele veio para Nova York no fim dos anos 60. Cildo acha importante criar uma genealogia contínua da arte brasileira. Acho que o Manuel e o Barrio são mais interessados em rupturas. O Manuel era muito amigo do Hélio Oiticica e teve uma relação de trabalho com ele, que vem mais da arte construtivista, do Dada.
Você lembra no livro como a arte conceitual criou uma resposta à ditadura.
Sim, mas havia uma diferença de expressão conceitual. Nos Estados Unidos, era uma arte mais ligada à linguagem, a palavras. No Brasil, você toma como exemplo a Coca-Cola do Cildo Meireles, é mais uma estratégia, como também era a distribuição dos dólares. Os artistas tiveram que procurar estratégias conceituais para se opor ao regime, evadindo a censura. Aquela nota de 1 cruzeiro com a inscrição "quem matou o Herzog?". Todo mundo sabia que o Vladimir Herzog tinha sido assassinado na prisão. A pergunta é pura retórica, para espalhar uma dupla consciência.
Há uma tendência nos Estados Unidos de romantizar a experiência do perseguido por um regime autoritário. De exacerbar a condição de vítima. E você afirma que a criatividade desses artistas não existia por causa da ditadura.
Achei importante dizer isso. Não se pode elevar um artista por causa do contexto político. Lembro do samba do Chico Buarque, Apesar de Você. A arte efêmera estava acontecendo em outros países. No Brasil, ela adotou um caráter mais político, mas havia a emergência de uma linguagem internacional, na performance, na body art, no conceitualismo. E sim, apesar da ditadura, eles continuavam a produzir, mas não por causa dela.
"Emoção Art.ficial" tem última edição no Itaú Cultural por Silas Martí, Folha.com
Emoção Art.ficial" tem última edição no Itaú Cultural
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha.com em 30 de maio de 2012.
Foram dez anos de obras que combinam inteligência artificial, interatividade em tempo real, transmissão de dados, muita energia elétrica e certa pirotecnia visual.
Mas agora o Itaú Cultural, que abre hoje a sexta edição de sua tradicional mostra bienal de arte tecnológica "Emoção Art.ficial", decidiu encerrar o ciclo, dizendo que essa produção não precisa mais estar isolada do resto da arte contemporânea.
"Muita coisa evoluiu", diz o curador da mostra, Marcos Cuzziol, brincando com a projeção de uma estrela do mar na montagem. "É inegável que o deslumbramento que havia no início não existe mais. Há uma evolução da tecnologia e uma apropriação desta pelas pessoas."
Também tem a febre de marketing em torno desse tipo de trabalho e um arrefecimento do "hype", que já pôs empresas (em especial do setor de telecomunicações) em pé de guerra inventando e patrocinando festivais do gênero. É fato que Vivo e Oi ainda estão no páreo, mas Nokia e Motorola já caíram fora.
Depois de uma aguardada renovação, o Museu da Imagem e do Som, que tentou fincar um espaço fixo para o gênero em São Paulo, também teve suas propostas revistas, e o foco voltou para manifestações mais convencionais, como cinema e fotografia.
Enquanto isso --e também porque telas sensíveis ao toque são hoje a "coisa mais normal do mundo", nas palavras de Cuzziol--, o mercado vê com menos exotismo a arte em novas mídias.
"Um motivo para separar a arte tecnológica do resto era a não compreensão dessa poética. Tinha gente que achava que isso nem era arte", diz Cuzziol. "Mas a gente sabia que haveria um limite de tempo para essa separação."
Tanto que em 2014, segundo o curador, o Itaú Cultural volta a expor obras tecnológicas ao lado de trabalhos em suportes tradicionais, num contexto "mais híbrido".
Mas, enquanto isso não acontece, a mostra que abre hoje exibe o tradicional arranjo de obras high-tech --robôs que identificam o rosto dos visitantes, painéis que permitem aos usuários escrever e projetar seus pensamentos, a imagem de uma estrela do mar que estica e encolhe, reagindo ao toque...
Uma das obras tem um arsenal de smartphones instalados diante de um microfone. Estão programados para reconhecer palavras em inglês, espanhol, francês, português e até russo e polonês. Quando alguém diz alguma coisa, eles devolvem o vocábulo distorcido em várias línguas --é a tentativa de decifrar essa poética eletrônica.
Como transformar cópias em originais por Paula Alzugaray, Istoé
Como transformar cópias em originais
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 1 de junho de 2012.
Sem ser falsificador profissional, Gustavo von Ha vende desenhos copiados de Leonilson e de Tarsila do Amaral e discute sistema de direitos autorais
Gustavo Von Ha - T.L. /Galeria Leme, SP/ até 13/6
Para copiar os 23 desenhos de Tarsila do Amaral (1888-1973) e os 16 de Leonilson (1957-1993) que estão atualmente expostos na Galeria Leme, em São Paulo, o artista paulista Gustavo von Ha passou meses estudando os gestos, as técnicas e os traços de cada artista. “Fazendo esse trabalho, me senti um ator. Para chegar à intensidade empreendida pelos lápis de cada um deles, tive que forjar uma simulação até mesmo em minha postura corporal”, afirma Von Ha à Istoé. A exposição denominada “T.L.” – as iniciais de Tarsila e Leonilson, que algumas vezes assinavam só com letras – é o resultado de uma pesquisa do artista sobre sistemas de reprodução de imagem e da arte na atualidade.
Mas os desenhos resultantes dessa pesquisa são muito mais do que cópias. De fato, seriam apenas cópias, não fosse por um pequeno detalhe: o artista aplicou-lhes um efeito de espelho e assim as reproduções aparecem em posição invertida em relação aos originais. A partir desse gesto simples de inversão, Von Ha garante sua autoria sobre as imagens e balança um sistema de convicções sobre o estatuto da cópia e da autoria – e, de quebra, da verdade e da mentira, da ficção e da realidade. Com isso, entra em sintonia com uma discussão que já data quase 100 anos – começou com Walter Benjamin e Roland Barthes em meados do século 20 – e hoje explodiu com as mídias digitais.
“O mundo da lei é muito restrito. Autores como Roland Barthes nos falam que uma mesma obra, por mais original que seja, nunca é fruto de uma autoria única. Ela sempre traz outras referências. As leis de direitos autorais, constituídas no ápice do Iluminismo, pensam o autor como um sujeito estanque, com direito a proteção a sua propriedade e por isso são menos dinâmicas”, afirmou Luciana Rangel, advogada especialista em direitos autorais, convidada a debater com von Ha, no sábado 26, as mudanças que o conceito de originalidade vem sofrendo em tempos de reprodução digital.
Muito além do olhar por Nina Gazire, Istoé
Muito além do olhar
Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 18 de maio de 2012.
Arthur Omar percorre os caminhos da percepção visual, em exposição que remonta aos pensamentos de William Blake e Aldous Huxley
AS PORTAS DA PERCEPÇÃO – ARTHUR OMAR/ Oi Futuro, BH/ até 17/6
“Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito.” Assim escreveu o poeta William Blake, em 1790. A frase inspirou o escritor Aldous Huxley a fazer experimentos com LSD, nos anos 1950, e registrá-los em um livro chamado “As Portas da Percepção”. Nesse trabalho, Huxley declara que a mente humana filtra a realidade não permitindo a passagem de todas as impressões e imagens existentes. A mente é como uma porta, um limite a ser transposto. E a imagem de uma porta entreaberta, de cuja fresta emana uma luz incandescente, é o ponto de partida para a exposição que exibe a série fotográfica “As Portas da Percepção”, de Arthur Omar, no Oi Futuro de Belo Horizonte.
A porta de Omar é a de um forno: símbolo da transformação desde o tempo dos alquimistas. Tomando a antropologia visual como norte para sua criação, o objetivo do artista sempre foi o de abordar as outras realidades e suas relações por meio da fotografia. Nesses trabalhos recentes, ele chega à radicalidade ao criar uma forma de registro dos limites da representação visual, não só dentro da fotografia, mas dentro do processo mental de formação das imagens. “Foi uma espécie de laboratório. Ir além do elemento humano e concentrar-se no processo da percepção. É uma exposição radical”, declarou Omar à IstoÉ.
Composta de 33 fotografias inéditas, uma videoinstalação, um vídeo e cinco fotografias da série “A Menina do Brinco de Pérolas” – em que o artista modifica com a câmera o olhar da mulher do quadro mais famoso do flamengo Johannes Vermeer –, a mostra é um contínuo no qual cada imagem é uma etapa de um processo de pesquisa sobre a cognição. Na série “As Portas da Percepção” há imagens polimórficas e transparentes. O fotógrafo cria monstros, figuras humanas, fantasmagorias ao captar a instabilidade de jatos d’água. Ou seriam cristais? “Eu quis perceber outras possibilidades que, no fundo, estão cristalizadas nas nossas estruturas básicas de percepção. Será que tudo o que recebemos na mente é produto de uma construção ou existem estruturas universais que estão além?”, questiona. A teoria visual proposta por Omar é complementada por dois trabalhos em vídeo nos quais o artista deixa clara sua ideia de fotografia expandida para além da câmera. Na videoinstalação “Ciência Cognitiva dos Corpos Gloriosos”, de 2006, ele explora o estado contemplativo e lento da percepção e da imagem a partir da performance dos atores alemães Grabrielle Osswald e Wolfgang Sautermeister. Ao longo do trabalho, fogos de artifício aparecem sobrepostos aos rostos e olhos dos atores. A cena poderia muito bem ser descrita pela frase “se o olho não fosse como o sol, não perceberíamos sua luz”, do alemão Johann Wolfgang von Goethe. Esta citação está no início da segunda obra em vídeo apresentada, “Um Olhar em Segredo”, e que também é uma espécie de portfólio em que o público pode ter contato com trabalhos anteriores e percorrer os caminhos que levam ao desvelamento da percepção, segundo Arthur Omar.
Céu na terra por Paula Alzugaray, Istoé
Céu na terra
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 25 de maio de 2012.
Com técnicas artesanais, Maria Nepomuceno transforma a sala e o jardim da casa de Eva Klabin em ambientes solares
Em 2006, a artista carioca Maria Nepomuceno atirou aos foliões do bloco carnavalesco Cordão da Bola Preta, no Rio de Janeiro, uma bola cor-de-rosa de dois metros de diâmetro, com a inscrição da palavra amor. As imagens da folia com a bola – até ela tomar uma facada e dar seu último suspiro no asfalto – foram editadas no vídeo “Expiro”. A mesma bola já havia circulado pela praia do Leme num domingo de sol. Embora Maria não tenha subido a Santa Teresa para soltar a bola “Amor” no tradicional bloco de marchinhas e maxixes do morro, hoje na exposição “O que Não Tem Fim Nem Tem Começo”, na Fundação Eva Klabin, ela evoca simbolicamente o bloco Céu na Terra. Isso porque, na grande sala da casa que pertenceu à colecionadora Eva Klabin, Maria Nepomuceno despejou milhares de contas e esferas azuis, de tons e tamanhos variados, que pendem de lustres e se amontoam sobre os valiosos tapetes, sofás e as peças de arte de quatro continentes e até cinco séculos de idade. Os volumes azuis são como corpos que caíram do céu.
“O azul para mim está relacionado à espiritualidade e transcendência”, diz Maria Nepomuceno. “Realizar esse trabalho é como dotar de energia vital uma sala imortalizada pela história”, afirma a artista, que também relaciona os azuis de sua instalação aos trabalhos do francês Yves Klein e à performance “Alviceleste”, da carioca Marcia X. Maria foi convidada pelo curador Marcio Doctors a integrar, ao lado de Sara Ramo, a 15ª edição do Projeto Respiração, que desde 2004 propõe diálogos de arte contemporânea com o acervo da Fundação Eva Klabin.
Há quase dez anos Maria Nepomuceno se dedica a construir objetos escultóricos desenvolvidos a partir de tradições manuais da costura e do artesanato. Ela começou em 2003, trabalhando com chapéus de palha trançada, procurando radicalizar suas formas e escapar da convenção dos objetos utilitários. Depois vieram as redes. No jardim da Fundação Eva Klabin ela expõe uma de suas redes inutilizáveis. Trata-se de um objeto sedutor e convidativo, que não pode ser usado, apenas contemplado.
Com sua instalação solar, Maria Nepomuceno ocupa pela primeira vez o jardim da casa. A luminosidade e a vitalidade sugeridas por seus trabalhos contrastam com os elementos da outra intervenção desse Projeto Respiração. “Penumbra”, de Sara Ramo, é uma instalação noturna, criada dentro do quarto, do closet e do banheiro da antiga dona da casa, concebida para ser vista no escuro. Como se estivesse na sala escura de um cinema, o espectador é convidado a enfrentar seus fantasmas e encarar aquilo que é inatingível com os olhos: a imaginação.
Desenhos animados por Paula Alzugaray, Istoé
Desenhos animados
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de Artes visuais da Istoé em 18 de maio de 2012.
Janaina Tschäpe - Flatland, Galpão Fortes Vilaça, São Paulo - SP, 15/05/2012 a 16/06/2012
“Flatland”, a nova individual de Janaina Tschäpe em São Paulo, é o título de uma tela monumental, que centraliza a exposição. É também o título de um romance (“Flatland: a Romance of Many Dimensions”, de Edwin Abbott Abbott), mas funciona ainda como definição para os novos territórios explorados pela pintura da artista alemã radicada no Brasil. Nesse mural de nove metros de comprimento, composto predominantemente em tons de azul, desenha-se uma espécie de mapa-múndi de um universo plástico pessoal.
A tela inaugura uma nova pesquisa com geometrias, que coloca em oposição e em complementaridade gestos programados ou produzidos ao acaso. O resultado é uma imagem que traduz uma matemática imprecisa e relativa. “Imagine uma grande folha de papel em que linhas retas, triângulos, quadrados, pentágonos, hexágonos, e outras figuras, ao invés de ficarem fixas em seus lugares, se movimentassem livremente...”, é um trecho do livro usado como guia pela artista, para seu novo percurso geométrico. O texto fala de um país e de habitantes que vivem entre essas formas instáveis. Em continuidade às palavras do escritor, as pinturas de Janaina Tschäpe também se modificam e criam modelos de vida peculiares.
Além de “Flatland”, 20 pinturas produzidas em guache sobre papel em cores vivas e vibrantes compõem a exposição. Elas são como estudos artístico-científicos para novas formas de vida: elementos nucleares que se projetam, se fundem e se precipitam uns contra os outros, reformulando suas estruturas; esferas elásticas, moldáveis, que se prolongam em linhas ou se espalham em manchas de cor. As pinturas de Janaina Tschäpe são como desenhos animados, que não se deixam conter nos limites do papel ou do plano do quadro. PA
O homem diante do espelho por Nina Gazire, Istoé
O homem diante do espelho
Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 25 de maio de 2012
Diz-se que a alteridade é uma condição, que define que o homem jamais poderá se entender como um ser isolado. Ele é sempre um reflexo, espelhando suas relações e individuações a partir de seu contato com o exterior, com o outro. A figura do espelho social, no qual as alteridades são constantemente dadas, é o mote da dupla suíço-brasileira composta por Maurício Dias e Walter Riedweg. E, para entrar nesse espelho, os artistas elegeram o vídeo como ferramenta para experimentações, registros e reflexões sobre o outro.
Na retrospectiva “Estranhamente Possível” pode-se perceber como, segundo a dupla, a ideia de alteridade é sempre uma referência mutável. Nos seis trabalhos – videoinstalações, fotografias e performances feitas entre 2002 e 2012 –, a questão do outro e seus meios é trabalhada em diferentes âmbitos. Seja explorando as diferenças em culturas distantes, como em “Juksa”, de 2006, centrado no depoimento dos últimos três habitantes de uma pequena ilha no Polo Norte, seja em questões de gênero, como é o caso de “Paraíso Cansado”, em que um experimento poético é realizado para investigar o turismo sexual nas Ilhas Canárias.
O trabalho mais recente, “Água de Chuva no Mar”, foi produzido este ano em uma residência artística a convite do MAM-Bahia, em conjunto com a comunidade do Solar do Unhão, próxima ao museu. Para a realização do trabalho, os artistas conviveram durante um mês com habitantes dessa comunidade composta majoritariamente por famílias comandadas por mulheres. Desde os tempos mais remotos, elas dependeram da fonte de água do engenho de açúcar, onde hoje está o museu. A história do local é revivida em depoimentos de lavadeiras, que evocam suas antepassadas. “Além do trabalho da residência, escolhemos para a exposição obras que dialogam não só com a comunidade onde o museu está inserido, mas também com a cidade de Salvador, onde a questão das alteridades sempre esteve latente”, comentam Dias e Riedweg, que se definem mais como “bons contadores de histórias” do que artistas.
Arte contemporânea internacional em Óbidos por Fátima Ferreira, Gazeta das Caldas
Arte contemporânea internacional em Óbidos
Matéria de Fátima Ferreira originalmente publicada no jornal Gazeta das Caldas em 18 de maio de 2012.
“Uma colecção de arte contemporânea para Josefa de Óbidos – entre fora e dentro, entre o que é e o que possa ser” é a proposta dos curadores Fátima Lambert e Lourenço Egreja para Óbidos. A mostra, que será inaugurada no próximo domingo, 20 de Maio, na galeria novaOgiva, denomina-se “13 artistas+13 obras” e junta na vila um conjunto de trabalhos de artistas nacionais, brasileiros, belgas, austríacos e argentinos.
Os curadores procuram deste modo dar uma nova leitura às obras de arte, que foram na sua grande maioria concebidas para o Carpe Diem Arte e Pesquisa, situado no antigo Palácio Pombal, em Lisboa.
“Pretendemos também permitir que se aplique a descentralização e que tudo aquilo que se produz possa, em vez de morrer num armazém, ir à luz e ser apreciado noutros locais do país”, explicou Lourenço Egreja à Gazeta das Caldas.
De acordo com o curador, tratam-se maioritariamente de obras recentes feitas já este ano. Algumas delas ainda se encontram em exposição no antigo Palácio Pombal e serão agora transportadas para Óbidos.
Na novaOgiva estarão patentes várias obras, mas apenas “duas peças à parede”, como faz questão de explicar Lourenço Egreja, justificando que se trata de toda uma abordagem de arte contemporânea, com peças electrificadas, mecânicas e que promovem interacção com os visitantes.
Para além da galeria, a mostra estende-se à vila, com a colocação de quatro peças em espaço público. Logo junto à Porta da Vila é possível apreciar uma peça de Manuel Caeiro e no chafariz no Largo de Santa Maria encontra-se uma obra da brasileira Laura Vinci. Rodrigo Oliveira tem patente uma peça de arte na Porta de Nossa Senhora da Graça e Nuno Sousa Vieira uma outra no largo junto ao restaurante Pretensioso.
De acordo com Ana Calçada, responsável pela Rede de Museus e Galerias de Óbidos, esta parceria é uma forma de envolverem “cada vez mais gente no mundo da criatividade, que olhe para Óbidos como um espaço que recebe quem cria, inova e pretende, noutro contexto que não as grandes cidades”. A responsável destaca que a Carpe Diem é um sitio de arte e pesquisa e apresentou-se como parceiro “muito interessante daquilo que se faz em Lisboa, com um conjunto de artistas que não são só grandes nomes, mas a possibilidade de juntarmos nomes em ascensão e autores estrangeiros”.
A exposição vai estar patente em Óbidos até 7 de Outubro.
Saiba mais sobre a exposição na agenda de eventos: 13 artistas + 13 obras [e todas as demais] na novaOgiva, Portugal
Mostra reúne as glamourosas fotos de José Esteve e sua filha Aracy por Simonetta Persichetti, O Estado de S. Paulo
Mostra reúne as glamourosas fotos de José Esteve e sua filha Aracy
Matéria de Simonetta Persichetti originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 4 de junho de 2012.
'Do Retrato Interior ao Exterior do Retrato: Coleção José Esteve e Aracy Esteve Gomes 1920-1970' entra em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo a partir do dia 09
José Esteve, catalão, nascido em Barcelona em 1886, queria fazer a América. Aos 28 anos, em 1914, embarcou no navio Santa Helena e desembarcou no Rio. Químico de formação, começou porém a trabalhar numa fábrica de piteiras. Dois anos depois resolveu morar em Salvador, mas a peste negra já havia chegado ao Estado e ele, assustado, decidiu, então, mudar-se para o interior, mais precisamente para Santo Antonio de Jesus. Foi nessa cidade que ele se casou, teve filhos e começou a construir sua carreira de narrador fotográfico. De 1920 até 1934 ele registrou sua família, os amigos, o cotidiano da cidade. Imagens que foram preservadas por sua filha, Aracy Esteve Gomes, que segue os mesmo passos do pai e durante 20 anos, de 1950 a 1970, narrou seu entorno.
Desse encontro de olhares nasce a exposição Do Retrato Interior ao Exterior do Retrato: Coleção José Esteve e Aracy Esteve Gomes 1920-1970, com curadoria e pesquisa de Diógenes Moura, a partir de sábado, dia 9, na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Saudoso de sua família, José Esteve construiu ele mesmo sua câmara fotográfica e seu laboratório. Começou a registrar seus amigos, a família, o entorno de seu cotidiano, além de trocar inúmeros cartões-postais com a Barcelona deixada para trás. Aos poucos, com seu olhar de amador, mas sofisticado e glamouroso, foi construindo uma memória de seu tempo e também de uma cidade do interior da Bahia: “Seus retratos são impressionantes. Seguem a lógica romântica do retrato europeu. Incrível notar os cenários que ele criava para fotografá-los”, nos narra Diógenes Moura.
Assim, aos poucos, esse homem que inventou sua própria câmera nos traz à mostra a sofisticação, a elegância de toda uma época sempre acompanhado por sua assistente, a filha Aracy, que começa a se apaixonar perdidamente pela fotografia. Infelizmente, com a crise de 1929 na bolsa de valores americana e com os negócio indo cada vez pior, em 1934 ele abriu falência e mudou-se com a família para Salvador. Dez anos depois José Esteve morreu.
Vai então a vez de Aracy, nessa época já casada com o grande amor de sua vida, o escultor Arlindo Gomes, que em 1950, resolveu retomar a escrita imagética deixada por seu pai. Com a ajuda do marido, em 1950 conseguiu importar sua Rolleiflex e retomar o caminho deixado por ele. Assim como José, Aracy fotografava sua família, seus amigos, sua vida cotidiana: “Era uma fotografia despretensiosa, com muito humor, mas sem nenhuma construção intelectual e ao mesmo tempo com uma estética fascinante”, comenta o curador.
Durante 20 anos, Aracy também registrou seu entorno. Primeira mulher a dirigir automóvel em Salvador, pegava o carro da família e ia fotografar a cidade. Encontro imagético entre pai e filha, cuja única preocupação era com a memória. Uma memória pessoal que acabou por se transformar em documento de uma época.
E foi esse seu pioneirismo que a levou, há dois anos, a procurar Diógenes Moura para tornar esta exposição pública. Hoje, às vésperas de completar 90 anos, Aracy Esteve Gomes, toma conta de todo esse material em seu apartamento em Salvador. Relíquia de uma época contada agora para nós em 80 imagens selecionadas de seu arquivo.
30.ª Bienal de São Paulo apresenta novos artistas por Camila Molina, O Estado de S. Paulo
30.ª Bienal de São Paulo apresenta novos artistas
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 4 de junho de 2012.
Sob o título 'A Iminência das Poéticas', mostra vai ser inaugurada para o público em 7 de setembro
“Hoje pude andar por detrás das paredes”, diz a artista Nydia Negromonte - e ainda, naquele dia, desvendar o teto e encanamentos do pavilhão da Fundação Bienal de São Paulo, no Parque Ibirapuera. Há duas semanas, Nydia fez a primeira visita de trabalho ao prédio onde ocorrerá a 30.ª Bienal de São Paulo que, sob o título A Iminência das Poéticas, vai ser inaugurada para o público em 7 de setembro.
A artista, que vive em Belo Horizonte, é uma das participantes da mostra e prepara a obra Hídrica: Episódios, uma instalação criada a partir do sistema hidráulico do grande edifício projetado na década de 1950 por Oscar Niemeyer. Trata-se de um projeto complexo e delicado, feito a partir da caixa d’água central do prédio.
“O trabalho vai tornar visível o fluxo da água, será um desenho do invisível”, conta Nydia ao Estado. Engenheiros e arquitetos vão colaborar com ela na concretização de sua instalação para a mostra, a primeira Bienal de sua carreira. “A artista faz dos vestígios da matéria e dos espaços intersticiais do ambiente de instauração de sua obra uma plataforma para pensar a impermanência dos gestos e das coisas”, define o cocurador da 30.ª Bienal de São Paulo, o gaúcho André Severo.
No trabalho Hídrica: Episódios, a “água pública” que percorre os canos do prédio da Bienal vai abastecer uma série de “episódios” propostos ao público pela artista, muitos deles, ações simples. “As pessoas vão acessar o trabalho a partir da manipulação direta com a água. Por exemplo, mesmo que não a beba, terá a oportunidade de acessá-la na medida em que visualiza o desenho de seu fluxo, ou ainda, pode ser até que se tenha mangueiras para aguar o jardim do pavilhão”, enumera a artista. Sua proposta, como diz Severo, desvela “as qualidades poéticas escondidas nas sobrecamadas materiais de espaços determinados”.
Em março, quando o curador-geral da 30.ª Bienal, o venezuelano Luis Pérez-Oramas, anunciou a lista dos 110 artistas participantes da edição da mostra, ele afirmou que cerca de 60% das obras seriam inéditas ou criadas especialmente para a exposição. O trabalho Hídrica: Episódios é uma das instalações comissionadas para o evento, que ainda vai apresentar criações em outros espaços da cidade que não apenas o Pavilhão da Bienal no Ibirapuera, como a Casa Modernista, a Capela do Morumbi e o Masp.
Mas Nydia Negromonte não vai participar da 30.ª Bienal apenas com a instalação feita a partir da caixa d’água do pavilhão. Até o fim do mês, ela expõe uma versão inicial desse projeto em outro edifício projetado por Niemeyer, o Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte. Há ainda outra proposta - “embrionária”, conforme definição da própria artista - a ser exibida na Bienal: obras da série Lição de Coisas, uma instalação iniciada em 2009, na qual ela articula a apropriação de gravuras e ilustrações de um livro homônimo, uma edição francesa da década de 1940, com fotografias de álbuns de sua família datados dos anos 1930 aos 60. “É um trabalho construído a partir da justaposição de duas imagens que, geralmente, mostram situações coincidentes”, conta a artista.
“Nydia articula duas coisas que me interessam muito: é uma obra baseada numa memória arqueológica e em como a noção de arquivo se atualiza no funcionamento de um trabalho e, ao mesmo tempo, sua criação lida com a fluidez material através da água e da arquitetura, em como a fluidez da memória é construção a partir de fundamentos que são incertos”, diz Oramas.
“Percebi que os curadores não estavam interessados em apenas uma obra. Ao apresentar um conjunto de trabalhos, o público pode perceber muito mais a pesquisa do artista do que o produto finalizado”, afirma Nydia, que nasceu em 1965 em Lima, Peru, mas vive no Brasil desde os 2 anos.
Mecanização da pintura
A curadoria da 30.ª Bienal de São Paulo apostou em selecionar uma maioria de artistas emergentes e de consagrados pouco vistos ou desconhecidos do público brasileiro, o que já revela um projeto dedicado ao frescor. O pintor francês Bernard Frize é um dos participantes que o curador Luis Pérez-Oramas celebra como um dos criadores mais interessantes da pintura contemporânea. “Sou um admirador de sua obra há muitos anos”, comenta o curador. “Frize levanta a questão da autoria, da autoria coletiva, em que a imagem é sempre arqueológica, fala sobre a automatização do mecanismo de produção do quadro, temas relevantes hoje”.
“Recebi uma visita de todo o time curatorial da 30.ª Bienal em meu ateliê (em Paris) e Oramas, que não conhecia, disse-me que acompanhava minha obra desde os anos 1980”, conta Frize. “Olhamos muitas pinturas, tanto antigas quanto recentes, e Luis (Oramas) decidiu que seria interessante exibir um grande número delas. Fizemos a seleção juntos”, diz o pintor. Avesso a discorrer sobre sua pesquisa pictórica no contexto da mostra brasileira - “deixo para os curadores pensarem sobre a questão político-poética da exposição e o lugar de minha obra nela” -, Frize estará representado na 30.ª Bienal com cerca de 30 a 40 obras, “pinturas grandes”, diz Oramas, criadas desde o início dos anos 80 - entre elas, inéditas, realizadas para a exposição.
O artista, nascido em 1954, iniciou sua carreira na década de 1970. Pelo princípio da mecanização do fazer pictórico - feito a partir de técnicas diversas -, Bernard Frize chega até mesmo a colocar a pintura como “ready-made”, já destacou a crítica Eva Wittocx.
A reprodução de um ateliê
Lucia Laguna, que vive no Rio, começou a pintar aos 54 anos. Nascida em 1941, em Campos dos Goytacazes, cidade fluminense, ela despontou no cenário artístico quando participou da edição de 2005/2006 do programa Rumos Artes Visuais Itaú Cultural. Agora, está entre os artistas convidados da 30.ª Bienal. Lucia conta que todas as obras que vai exibir no evento foram criadas especialmente para a ocasião. “Digo isto com muito orgulho, pois não parei de trabalhar desde que fui convidada”.
“Não pensei em título, mas o conceito de constelação (do projeto curatorial) me agrada muito. Na verdade, conceitualmente vou reproduzir o espaço do meu ateliê na sala que me for destinada”, diz a pintora. “Desde o início penso a pintura como ato, o fazer é o que me interessa e o que me move. E aquilo que está à minha volta, o lugar de trabalho, a janela , casa no subúrbio do Rio de Janeiro, o jardim, enfim, meu entorno é a parte do mundo onde estou inserida. O espaço urbano atual é a minha fonte de expressão. Não poderia ser diferente. Por isso, quando os curadores propuseram aos artistas trabalhar sobre ‘As Iminências das Poéticas’, atos que estão prestes a transbordar, que ‘são imprevisíveis’, que ‘se nutrem de uma memória orgânica’, me vi fazendo parte deste discurso”, continua a artista.
“É uma obra que começa de maneira coletiva com a sobreposição de imagens”, afirma o curador Luis Pérez-Oramas. A pintura de Lucia Laguna é como uma paisagem interior/exterior. Além dela, o carioca Eduardo Berliner, nascido em 1978, é o outro destaque brasileiro de pintura na 30.ª Bienal.
