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maio 31, 2012
"Arte depende de colecionador", diz Ferraz por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
"Arte depende de colecionador", diz Ferraz
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo em 30 de maio de 2012.
Para João Carlos Figueiredo Ferraz, instituições públicas não contam com política sólida para aquisição de obras
Acervo de seu instituto em Ribeirão Preto reúne mais de 800 peças, que o curador tentou ceder à Pinacoteca do Estado
"Se não fosse o colecionismo privado, não existiria arte contemporânea brasileira, porque as instituições públicas não têm uma política consistente de aquisição", desabafa o colecionador João Carlos Figueiredo Ferraz, 60.
Por dez anos, ele próprio tentou ceder em comodato sua coleção de mais de 800 obras à Pinacoteca do Estado. Ferraz vive há 30 anos em Ribeirão Preto, mesmo período dedicado ao colecionismo. Sua única condição era que o acervo deveria permanecer na cidade, num espaço a ser doado pela prefeitura.
"O único prefeito que me ajudou mesmo foi o [Antonio] Palocci. Desde que ele deixou o cargo [em 2002], nenhum prefeito me disse não, mas nunca ajudou, por isso resolvi construir um espaço por conta própria", conta Ferraz, que é filho do ex-prefeito de São Paulo, José Carlos Figueiredo Ferraz (1971-73).
Inaugurado em outubro do ano passado, o Instituto Figueiredo Ferraz possui uma área de 2.500 m², sendo que 1.800 m² de área expositiva, quase o dobro do Museu de Arte Moderna de São Paulo.
"Seria muito barato, mas falar de cultura em Ribeirão ou em qualquer parte do país é como falar de extraterrestres para o Papa", ironiza.
Ele não conta quanto gastou na obra, mas estima-se que a edificação não tenha saído por menos de R$ 1,25 milhão. Criado para abrigar uma coleção privada, normalmente confinada em uma residência, o espaço é público e ganhou dimensões de museu moderno com seus cubos brancos.
PELA CULTURA
Enquanto alguns colecionadores preferem doar obras e dinheiro a museus no exterior, Ferraz criou uma instituição no país.
Ainda assim, ele poupa os colegas: "Não posso criticar os colecionadores que apoiam museus estrangeiros. Ir ao MoMA e ver Waltercio Caldos, Lygia Clark ou Leonilson é bom para o Brasil."
No entanto, são os governos que permanecem em sua mira: "A Dilma [Roussef] disse que queria trazer de volta ao Brasil o 'Abaporu', mas antes ela tinha era que cuidar dos museus, que estão péssimos. Vamos preservar o que já está aqui."
Empresário do ramo da agropecuária e da importação, Ferraz critica as taxas aplicadas às obras de arte no país. "Por falta de formação, os governantes as consideram obra de arte como uma mercadoria qualquer."
A iniciativa pioneira, longe do eixo das capitais, poderia ser comparada a Inhotim, em Minas, do colecionador Bernardo Paz. Ferraz, no entanto, prefere distinguir-se do projeto mineiro: "Meu espaço está em área urbana".
EDP e Instituto Tomie Ohtake anunciam os finalistas para a 3ª edição do Prêmio EDP nas Artes, Portugal Digital
EDP e Instituto Tomie Ohtake anunciam os finalistas para a 3ª edição do Prêmio EDP nas Artes
Matéria originalmente publicada no caderno Cultura do jornal Portugal Digital em 29 de maio de 2012.
Exposição dos trabalhos dos 26 finalistas será inaugurada dia 4 de junho quando serão anunciados os três vencedores.
São Paulo - O Instituto Tomie Ohtake, com o patrocínio do Grupo EDP no Brasil e apoio do Instituto EDP, apresenta no dia 04 de junho às 20 horas, os finalistas da 3ª Edição do Prêmio EDP nas Artes e abertura da exposição de seus trabalhos.
A exposição acontecerá até 24 de junho com entrada franca e os três vencedores terão sua produção acompanhada por críticos durante um ano, além do prêmio desenhado pelo artista Artur Lescher. Caberá ainda ao primeiro colocado uma bolsa de dois meses no The Banff Centre, no Canadá, ao segundo uma viagem ao exterior, pelo programa Dynamics Encounters, e ao terceiro cursos no Instituto Tomie Ohtake. O professor indicado pelo vencedor também receberá uma viagem ao exterior pelo programa Dynamics Encounters.
Foram inscritos 284 jovens artistas provenientes de 15 Estados brasileiros, entre eles São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Espírito Santo, Santa Catarina, Paraná, Goiás, Pernambuco, Ceará, Bahia, Pará, Paraíba e Tocantins.
O júri foi composto por Agnaldo Farias (coordenador do júri, crítico de arte, professor doutor de História da Arte da FAU-USP, curador do Instituto Tomie Ohtake e da 29ª Bienal Internacional de São Paulo); Stela Barbieri (diretora da Ação Educativa do Instituto Tomie Ohtake e artista plástica); Paulo Miyada (arquiteto e membro do Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake); Leda Catunda (artista plástica); Lucas Dupin (artista plástico vencedor da segunda edição do prêmio, em 2010) e Eduardo Leme (diretor da Galeria Leme).
O prêmio replica a experiência do Grupo EDP em desenvolver talentos nas artes plásticas. As edições anteriores nos mostraram que há jovens com grande potencial, mas sem oportunidades para projeção neste mercado.
Confira os 26 jovens artistas selecionados para concorrer a 3ª Edição do Prêmio EDP nas Artes:
São Paulo - Alan de Lima Pinto, Anna Carolina Israel da Veiga Pereira, André Tereyama Haguiuda, Andrea Atanasio Sandtfoss, Felipe Salem, Henrique César de Oliveira, Jan de Maria Nehring, Jimson Ferreira Vilela, Julia Massa Regina Armentano, PirarucuDuo (Fernando Visockis Macedo e Thiago Parizi), Renan Teles de Melo, Sandra Maria Lorenzon Távera, Selene Alge e Marcus Vinicius Braga.
Belo Horizonte - Maria Gabriela de Carvalho Ribeiro Alves, Ricardo de Almeida Reis, Tales Bedeschi Farias e Vicente Pessôa.
Rio de Janeiro - Alexandre Colchete Broda, Fernanda Furtado de Mattos Ribeiro e Sofia Gerheim Caesar.
Brasília - Gregório Soares Rodrigues de Oliveira, Miriam Araujo e Virgilio de Barros Abreu Neto.
Rio Grande do Sul - Erika Gonçalves Romaniuk e Rafael Pagatini.
Serviço
Prêmio EDP nas Artes - Inauguração da exposição e anúncio dos vencedores
Quando: 4 de junho
Horário: 20 horas
Local: Instituto Tomie Ohtake
Av. Faria Lima 201 (entrada pela Rua Coropés 88) – Pinheiros – São Paulo
Fone: 11. 2245-1900
*Exposição até 24 de junho, de terça a domingo das 11 às 20 horas.
Nuno Ramos abre mostra em BH com série de trabalhos que resumem sua trajetória por Sérgio Rodrigo Reis, uai
Nuno Ramos abre mostra em BH com série de trabalhos que resumem sua trajetória
Matéria de Sérgio Rodrigo Reis originalmente publicada no caderno Cultura do jornal Uai em 16 de maio de 2012.
Fazem parte da exposição desenhos, instalações e pinturas. Artista diz que mantém parceria produtiva com Minas
O artista plástico Nuno Ramos, diante do Brasil, “um país onde tudo está pronto e não está, onde há ainda muito o que fazer”, se deleita. “É o mais legal daqui”, conta ele, que se alimenta desse caos, e das soluções encontradas para os problemas nacionais, para criar e conceber a própria obra, seja nas artes plásticas, na literatura, no cinema e na música. “Essa confusão é a minha estética”, resume ele, cheio de projetos em andamento nas mais variadas áreas de atuação, boa parte com interface com Minas Gerais. A abertura da exposição Só lâmina, nesta quinta para o público, no Sesc Palladium, em Belo Horizonte, é oportunidade para uma aproximação com o processo criativo do artista.
A mostra reúne 11 desenhos, oito deles representações visuais de estrofes do poema Uma faca só lâmina, de João Cabral de Melo Neto. Também apresenta Luz negra, instalação feita a partir de caixas acústicas que, no chão, tocam a canção Juízo final, de Nelson Cavaquinho. Em outro momento da exposição, dois blocos de pedra, um diante ao outro, estabelecem diálogo a partir do texto escrito pelo artista e lido pelos atores Gero Camilo e Marat Descartes. “A mostra foi adquirida pelo Sesc e já circulou por mais de 40 cidades. É, essencialmente, meu pé na estrada. Tentei propor uma antologia, dando conta da diversidade de gênero e linguagem com que trabalho”, explica Nuno, que estará presente na abertura.
São grandes os projetos aos quais o artista se dedica atualmente. Além de letras de canções, feitas em parceria com Rômulo Froes e com Clima, que deverão se desdobrar em discos em breve, flerta com a literatura, quase diariamente. Autor premiado com várias obras publicadas, entre elas o livro de contos Ó e o de poesia Junco, ambos da Editora Iluminuras, ele prepara para ano que vem Os sermões, livro poético ambientado em Ouro Preto. “É verso, mas prefiro chamar de prosa entrecortada. Será um livro longo, erótico e o nome é referência a um personagem que, quando vai à praia, sobe num banquinho e começa a fazer seu sermão”, adianta.
No entanto, são os projetos de artes visuais que mais o aproximam de Minas. “A cada 15 dias estou aí, culpa do Allen Roscoe”, diz ele, citando a parceria com o arquiteto mineiro que o tem ajudado a tirar do papel a maioria de suas obras. “É um privilégio trabalhar com ele. Me dá segurança, entro com as ideias e ele com a execução, que não é só o lado mecânico do processo, mas também o criativo. Depois que entrou na minha vida, tudo melhorou.” Como trabalha com projetos inéditos, a maioria deles concebidos no limite físico dos materiais empregados na elaboração das peças, a contribuição do arquiteto, que também é engenheiro mecânico, tem sido primordial. Durante muitos anos, Allen manteve parceria semelhante com escultor Amílcar de Castro (1920-2002).
No chão As soluções para os projetos desenvolvidos para a exposição que Nuno Ramos planeja para agosto, na Celma Albuquerque Galeria de Arte, em Belo Horizonte, têm sido desenvolvidas em Nova Lima pelo arquiteto. “Estou com o coração nela”, avisa Nuno, que vai, literalmente, quebrar todo o chão da galeria para realizar uma enorme instalação no espaço. Ela é inspirada em casas onde morou e na notícia inusitada de um homem que foi cavar um poço artesiano e acabou atingindo um vulcão, que passou a jorrar lava, inundando toda a região próxima ao buraco.
Cada casa onde morou será lembrada por Nuno Ramos por meio de cortes dos cômodos, que serão reproduzidos no chão da galeria mineira em tamanho real, como piscinas. Elas serão preenchidas com lama preta, outra com lama branca e, a última, com material marrom. “Vou escolher partes de cada uma das casas que surgirão do chão. É como se a lama e o que está sobre ela fossem estágios diferentes da mesma matéria. Quase como se a casa tivesse voltado a ser novamente matéria”, explica. O projeto que fará em Viena, na Áustria, no ano que vem, seguirá raciocínio parecido.
O outro projeto que está sendo desenvolvido junto com Eduardo Climachauska é O globo da morte de tudo, que será apresentado em dois momentos na Galeria Anita Schwartz, no Rio de Janeiro, em novembro. Na abertura da mostra, o visitante verá prateleiras de sete metros de altura com cerca de 5 mil objetos quebráveis, sustentando dois globos da morte em perfeito equilíbrio. Quinze dias depois, dois motociclistas ocuparão os postos dentro dos globos e farão as apresentações, desestabilizando tudo em volta e provocando a queda dos objetos. “O resultado será o segundo momento da exposição, que poderá ser visto por mais 45 dias. Tudo será amplamente documentado e catalogado”, antecipa.
Mentor de Inhotim, Bernardo Paz busca na arte contemporânea uma forma de educar, www.estadao.com.br
Mentor de Inhotim, Bernardo Paz busca na arte contemporânea uma forma de educar
Matéria originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal o Estado de S. Paulo em 14 de maio de 2012.
Empresário dono de mineradora Itaminas transfere praticamente tudo o que ganha para o projeto
Para Bernardo Paz, a caminhada da mineração para a arte foi árdua. Empresário self made, exportando desde os anos 80 para a China - "o partido comunista chinês entrou de sócio e me deu US$ 10 milhões em 1986" -, o idealizador de Inhotim conta que chegou a ter 39 empresas, nove mil funcionários e custos baixíssimos. O Brasil mudou, seu grupo entrou em processo difícil e, sem apoio do BNDES, "eu tinha oficial de Justiça na minha porta todo dia. Era um inferno a minha vida na década de 90". Paz esclarece que, no auge da crise, entre pagar impostos ou funcionários, optou por seus empregados. E acabou tendo que entrar no Refis.
O mineiro só respirou melhor em 2000, com a alta do preço do minério. Hoje, sua Itaminas fatura cerca de R$ 600 milhões por ano, e ele transfere praticamente tudo o que ganha para Inhotim. "Isto é a minha vida", diz o homem que, não sabendo ser impossível, foi lá e fez.
Paz só concordou em dar entrevista depois que a colunista conhecesse o parque de 300 mil metros quadrados, ao lado da cidade de Brumadinho em Minas. A chegada é indescritível, tamanha a harmonia entre os projetos arquitetônico e de jardinagem. Ao se percorrer as alamedas projetadas inicialmente por Burle Marx, esbarra-se em pavilhões gigantes que nada devem a qualquer museu no mundo. Ele não revela quanto enterrou ali, mas há quem estime mais de R$ 500 milhões. Nunca teve ajuda de governos. No aguardo da cobiçada obra de Anish Kapoor - o artista indiano está desenhando algo especial para lá -, Paz está hoje empenhado em montar um complexo imobiliário que possa dar sustentabilidade à sua singular criação. Ele abrange desde hotéis a até um aeroporto. A mineradora hoje mantém Inhotim praticamente sozinha, mas seu criador quer perpetuá-lo. E começa a contar com apoio de empresas do porte do Itaú, Vale, Votorantim e Vivo.
A seguir, os principais trechos da conversa com a coluna.
Como você começou a se interessar por arte?
Eu comprava obras de arte moderna. Hoje, tenho pavor de arte moderna. Vou tentar resumir. Antes da fotografia, arte era muito importante, era a única forma de você mostrar aos outros os lugares, os acontecimentos, as pessoas. E era muito controlada pelos ricos, pelos reis, pela Igreja.
Eram retratos mesmo.
Sim, inclusive de lugares, que você jamais veria não fosse por meio da pintura. Você nem saberia como era o rosto de uma pessoa. Imortalizava-se por meio da pintura. Veio a fotografia, e o modernismo passou a ser uma fuga da fotografia. O quadro não tinha mais sentido em si mesmo ou passou a ter sentido só para os gênios que tentavam traços de mulheres deformadas, cubismos e outras coisas mais, fugindo da fotografia. Mas arte, para mim, sempre foi educação. Foi e é.
E como a arte contemporânea pode ser educativa?
Agora nós vamos chegar lá. A arte passou por cem anos em que não se transformou em processo educativo nem cultural. Quem era Picasso? Um devasso que gostava de mercado, gostava de comércio, ia à galeria e perguntava qual quadro estava vendendo mais. Aí, fazia mais dez. Assim foi a arte moderna. Não ensinou nada a ninguém.
Até artistas como Gauguin você inclui nessa lista?
Gauguin é uma pessoa que, de alguma forma, me traz simpatia. É um homem que viajou para o Taiti, sofreu o diabo para pintar aquelas mulheres maravilhosas, morreu de sífilis. Mas era um homem entregue à arte, como foi Van Gogh. São pessoas em que o sangue aparece mais do que a obra.
Michelangelo você também acha comercial?
Não, espera aí, Michelangelo é outra história. Michelangelo era outro momento, o Renascimento, era um grande artista. Agora, os modernistas não têm nada a ver, não têm sentido. Como você educa uma criança? Esse amarelo, só esse artista pintava esse amarelo. Justifica? A criança aprendeu o quê? Que um amarelo é diferente de outro amarelo? Olha esse azul, só Cézanne pintava esse azul. Pelo amor de Deus. Cézanne tem uma história bonita, foi para o mar, foi pintar a claridade, deixou uma marca. Mas como um azul diferente de outro azul educa uma criança? Então, um monte de teóricos da arte moderna falam palavras difíceis, mas não dizem nada.
A que você atribui o sucesso dessa gente, então?
Foi a única arte plástica que existiu do período da fotografia para cá. Na fuga da fotografia, eles partiram para essa arte da deformação da pessoa, para a arte abstrata e para uma série de artes que não criavam emoção. Às vezes, um quadro enorme com uma paisagem maravilhosa dá até vontade de embarcar lá dentro. Mas isso era muito difícil, eram mais os clássicos. Já essa arte deformante, essa arte abstrata, o que isso trouxe de benefício para a sociedade, a não ser para alguns ricos que querem mostrar que têm em casa um quadro que custou US$ 20 milhões?
Vai criar polêmica com isso.
Manda à m... as pessoas. Aí, entrou Duchamp, primeiro exemplar da arte contemporânea. Entrou com uma curiosidade, a arte passou a ser uma curiosidade. E, da curiosidade, ela passou à crítica. Hoje, toda a arte contemporânea é crítica. Em todos os sentidos: crítica na ecologia, na religião, na situação política, nas questões sociais. Ela exalta os benefícios criados, critica e destrói a sociedade atual, tentando criar uma sociedade melhor. Você passa por Inhotim e entra no Através. O que é o Através? Uma simplificação das dificuldades da vida. Você pisa em cacos de vidro, vai atravessando um monte de obstáculos para chegar ao outro lado. O que significa isso? Você enxerga o outro lado, mas não vai reto.
Você tem o Hélio Oiticica em Inhotim. Ele educa?
O Hélio criou a arte interativa, a alegria, uma arte em que as pessoas participam daquele processo artístico. Essa interatividade do artista com a sociedade...
Você acha que educa?
Totalmente. Uma criança que vai a Inhotim vibra mais do que um adulto. Agora, entra com ela no MoMA. A criança quer ir embora 15 minutos depois, ela não suporta. E o MoMA é um museu extraordinário, criado por pessoas muito inteligentes, de artistas extraordinários. Mas a arte contemporânea não funciona no MoMA, porque ela exige espaços muito grandes, que não cabem dentro de um andar.
Foi por isso que você criou Inhotim? Por causa do espaço?
Foi intuitivo, percebi que a arte contemporânea exigia isso e chamei os artistas para pensarem seus sonhos. E eles colocaram esses sonhos lá. Eu fiz este jardim sem sentido, só era belo. Comecei, então, a construir alguns pavilhões de arte - que passaram a ser visitados por um público diferenciado, que tomou um susto com o que estava sendo feito. Foi a partir dessa reação que comecei a observar esses visitantes mais atentamente, a ver os olhos brilharem. Pensei: estou certo, o caminho é esse. O público está sendo educado. E qual era esse público? Classe média alta.
E como se deu o start do projeto de Inhotim?
Numa conversa com o Tunga, ele me falou: esquece o modernismo, porque a verdade está na arte contemporânea. Aí, sim, você saiu da fotografia; aí, sim, você não pode ser repetido, não é mais uma cultura.
Qual foi o empurrão?
Foi loucura. Não me pergunte, porque nem eu sei. Fui fazendo. Eu nasci e sofria, a cada dia da vida, porque não era do tamanho que queria ser. Cada dia que passa, hoje, eu sofro, porque quero ser maior do que fui ontem. Esse processo é extremamente angustiante.
Mas maior em que sentido?
Você tem de pensar grande a vida toda. O que é Inhotim hoje? O que era Inhotim há dez anos?
Utopia que virou realidade?
Inhotim está de pé. E, além de curadores do mundo inteiro, que aprendem no parque o que é arte contemporânea, temos também cientistas de todos os cantos do planeta nos nossos laboratórios. Fazem desde pesquisa de genoma até pesquisa biológica. A folha de alface, por exemplo, te dá 30% de nutrientes. Mas a biologia propicia que você aumente isso para 70% de nutrientes. Vamos poder alimentar o mundo por meio do processo biológico. Dizem que não temos terra suficiente para plantar e alimentar todos os que estão nascendo. Mentira, a alimentação virá da concentração de nutrientes numa mesma planta. Você vai comer menos e se alimentar mais.
Você diria que o artista é um esquizofrênico que deu certo?
O artista mora dentro do umbigo dele, é ensimesmado, acha que é o melhor do mundo e ponto final. Com alguns, você consegue conversar, são pessoas facílimas de trocar ideias, inteligentíssimas em relação à humanidade, ao mundo. O artista, entretanto, não é importante pelo que é, mas, sim, pelo que faz. Então, normalmente, o artista é insuportável, mas faz coisas extraordinárias. Numa análise geral, você vai encontrar mais neurônios nesse pessoal, eles sabem mais. Agora, sabem para eles, interpretam a vida para eles e jogam para fora o sentimento por meio de suas obras.
Você se considera um artista?
Não. O que eu sou? Já disse uma vez: sou uma pessoa que está tentando alcançar alguma coisa o tempo todo. Isso tem a ver com gente que faz escalada, alpinismo.
É um insatisfeito?
Sempre insatisfeito, sempre angustiado, sempre ansioso, sempre deprimido. Minha vida é um inferno. Eu olho para o que ainda tenho de fazer na vida e vejo uma trilha no meio, que vai dar em um túmulo. Não consigo enxergar essa trilha com um céu aberto, cheio de alegria e um horizonte belíssimo no final. Eu vejo um túmulo, porque não há outra alternativa para mim. Não existe essa outra alternativa, porque minha cabeça não para. Isso me irrita profundamente, me faz tomar remédios demais para dormir, remédios demais para acordar, remédio para o coração, remédio para veia e assim por diante.
Mas como se sente um artista? Não é assim?
O problema do artista é que ele é egoísta, o artista pensa nele, não pensa nos outros, não pensa nas pessoas. Nem sabe que existem outros. Só sabe que existe ele. Mora dentro do umbigo dele, não enxerga nada além do umbigo. No meu caso, é diferente, porque eu não penso em outra coisa a não ser nas pessoas. A gente vive da perspectiva do sonho, da realização. Quer dizer, da tentativa da realização, porque a realização já é passado.
Você é feliz?
Acho muito difícil ser feliz, porque tenho de pensar nas outras pessoas. O burro pensa mais nele do que nos outros, o inteligente pensa mais nos outros do que em si. A diferença é essa. O que é a verdade na vida, meu Deus? A verdade na vida é que só a vida é importante. Por que o ser humano destrói a vida?
Você faz análise?
Fiz durante muitos anos, mas nem ligo para isso. Minha análise era conversar com o cara para não ficar maluco. Meu analista era psiquiatra de hospital de doido, eu gostava desse tipo de gente. Tem 80 anos, hoje; passei 30 com ele. Se você está desesperado no seu dia a dia, tem de procurar alguém que te ajude a achar a solução, para que possa sair lá na frente e abrir outra janela.
Qual sua opinião sobre o ser humano?
Olha, eu não posso desacreditar do ser humano. A formação do ser humano é formação animal, então essa formação animal era irracional e foi se tornando racional, foram se formando tribos. Quando dois grupos de leões se encontram, um mata o outro. A Europa era uma série de tribos, cada país daqueles era formado por 30, 40 tribos. Elas foram se juntando, uma foi matando a outra. Ainda há 27 países que lutam entre si - e dentro de cada país, tribos que brigam umas contra as outras. Qual a razão disso? O que isso traz de benefício? É o poder pelo poder.
Como você vê Inhotim daqui a dez anos?
Não vejo Inhotim daqui a dez anos. Faço questão de ver Inhotim daqui a mil anos.
Não dá para ser um pouquinho mais perto? Cem anos?
Não, não dá. Porque, quando você trabalha com educação e cultura, tem de imaginar milhares de anos. Não adianta, cultura é um processo que avança, não pode parar.
maio 27, 2012
Paradoxo: Crise Política na Cultura X Participação Social por Charles Narloch e Patricia Canetti
Paradoxo: Crise Política na Cultura X Participação Social
Carta dos conselheiros titulares de artes visuais e arte digital no Plenário do CNPC
Caros colegas,
Temos pela frente um desafio que precisamos responder à altura: a criação e renovação dos Colegiados Setoriais do Conselho Nacional de Política Cultural - CNPC, junto ao Ministério da Cultura - MinC, para o período 2012 a 2014. Os membros dos Colegiados Setoriais participam da formulação de políticas públicas de cultura no Governo Federal e avaliam a aplicação do Plano Nacional de Cultura. Exercem um papel fiscalizador das ações do MinC, cobrando pertinência e coerência em sua execução. O CNPC deve ser o mais legítimo canal de diálogo com o MinC, assim como ocorrem com os conselhos nacionais das demais áreas de governo.
São dezenove segmentos com representação da sociedade civil no CNPC. Todos são eleitos democraticamente. Se pensarmos estrategicamente - e deixarmos de lado o pensamento segmentado - podemos afirmar que a participação política das artes visuais naquela instância cresceu desde o início da criação do Sistema Federal de Cultura, em 2005. Atualmente teremos dois Colegiados Setoriais diretamente relacionados à arte contemporânea - artes visuais e arte digital - e quatro outros de áreas afins, que anteriormente também eram vinculadas pelo MinC às artes visuais: arquitetura, artesanato, design e moda.
Como conselheiros titulares de artes visuais e arte digital no Plenário do CNPC, pedimos a atenção de todos para a importância deste espaço conquistado de participação social e, principalmente, neste momento específico, de renovação e ampliação. Quase sem divulgação pelo MinC, está deflagrado o processo de eleição dos delegados estaduais que participarão dos Fóruns Nacionais Setoriais. Para que o processo continue representativo, todos nós precisamos ficar atentos e participar.
- São os delegados eleitos nos Fóruns Estaduais Setoriais que, em Brasília, reunidos em um segundo momento, para o Fórum Nacional Setorial, poderão votar e concorrer às vagas dos Colegiados Setoriais;
- Todos os Estados e o Distrito Federal deverão eleger seus delegados, três para cada área setorial. (O MinC vai arcar com as despesas de deslocamento de todos os delegados eleitos até Brasília.
Se, por um lado, alguns setores do MinC defendem essa instância como um espaço legítimo para a pactuação das políticas públicas com a sociedade, outros (também do MinC) parecem ignorar as conquistas dos últimos anos e tentam, visivelmente, minimizar ou neutralizar o papel do conselho e de seus colegiados.
Trata-se, portanto, de um triste paradoxo. Até então o MinC foi o maior defensor da implantação de um Sistema Nacional de Cultura em que o Conselho Nacional e seus equivalentes nos Estados e Municípios seriam as instâncias deliberativas mais relevantes para o fortalecimento da participação social. Mas o que se percebe é que o MinC, que pautou Estados e Municípios para a adoção dessa prática, hoje precisa reaprender o que ensinou. O processo eleitoral, discutido e deliberado pelo CNPC, foi ignorado pelo MinC.
Denúncias e pedidos de atenção dos atuais conselheiros não faltaram, como já divulgamos, mas estes foram solenemente ignorados ou até menosprezados pela ministra Ana de Hollanda, protagonista ímpar de uma série de demonstrações declaradas de desprezo às práticas legítimas de pactuação de políticas públicas. Pelo exemplo ou orientação da ministra, secretarias e instituições vinculadas do MinC parecem - neste momento - estar alheias ao processo eleitoral do CNPC, situação muito diferente da vivida em 2010, quando o envolvimento das mesmas foi total.
Diante desta realidade, exclusiva do atual governo e inédita desde a eleição do ex-presidente Lula, o desencanto e o desânimo têm contaminado aqueles que militam nos mais diversos segmentos culturais, levando tantos a um sentimento de incredulidade e decepção. Preocupados que estamos com esta reação quase atônita da sociedade, propomos aqui a manutenção da ocupação crítica e consciente daquele espaço, como resposta política eficaz. Uma luta legítima, mas usando a inteligência como estratégia. Estamos propondo aqui uma ampla mobilização de todos os agentes culturais brasileiros para a eleição de seus delegados. Se é isso que a atual ministra quer evitar, é isso que conscientemente deveremos oferecer.
Nos Colegiados e no Plenário do CNPC, temos a oportunidade de mostrar ao Governo Federal que não pensamos apenas em “nossos quadrados”, mas na defesa da cultura como um todo. Por isso, não é hora de nos dividirmos, por mais que as “gavetas” que nos classificam naquele espaço instiguem diferenças e peculiaridades. Somos agentes em diferentes segmentos culturais, por todo o país. Temos muito a contribuir nas artes visuais e arte digital, mas também no artesanato, no patrimônio cultural, nos museus, na moda, no design ou na arquitetura e urbanismo, já que muitos de nós também atuam nesses segmentos. Por que nos considerarmos divididos se podemos somar? Ocupar esses espaços no CNPC é mais do que legítimo, é um exercício político que nos permitirá conquistar maior respeitabilidade e, finalmente, sermos ouvidos.
Inscreva-se no portal do MinC e mobilize seu segmento em sua cidade, em seu Estado.
- As inscrições encerram no dia 24 de junho;
- Para votar ou ser votado, o cadastramento online é obrigatório.
Abraços!
Charles Narloch
Membro titular do Colegiado Setorial de Artes Visuais, membro titular do CNPC (2010-2012)
Patricia Kunst Canetti
Membro titular do CNPC, representante do segmento de Arte Digital (2008-2012)
COMO PARTICIPAR
Os cidadãos que atuam em áreas técnico-artísticas ou de patrimônio cultural podem participar debatendo as temáticas do seu segmento e elegendo delegados estaduais, que por sua vez formarão o colégio eleitoral nacional para a escolha dos membros do Colegiados Setoriais do Conselho Nacional de Política Cultural – CNPC.
Portaria nº 51/2012/MinC (atualizada)
Estabelece o processo eleitoral para os Colegiados Setoriais do Conselho Nacional de Política Cultural para o período de 2012 a 2014.
As áreas que formarão novos colegiados são: Arquitetura e Urbanismo; Arquivos; Arte Digital; Artes Visuais; Artesanato; Circo; Cultura dos Povos Indígenas; Culturas Afro-Brasileiras; Culturas Populares; Dança; Design; Livro, Leitura e Literatura; Moda; Música; Patrimônio Imaterial; Patrimônio Material; e Teatro.
Observação: Audiovisual e Museus não terão colegiados e terão seus representantes no Plenário do CNPC escolhidos por comitês já existentes. Esta decisão do Ministério da Cultura vai contra a votação realizada em plenário que decidiu pela isonomia dos segmentos culturais e pelo acesso democrático a todos os colegiados.
Cartas públicas de conselheiros do CNPC
Carta de Conselheiros do CNPC à Ministra da Cultura aponta problemas na participação social, 17/05/2012
Nota de esclarecimento do Ministério da Cultura, 07/12/2011
