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junho 15, 2012

Goeldi viveu rejeição familiar e exílio por Fabio Cypriano, Folha de S . Paulo

Goeldi viveu rejeição familiar e exílio

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 14 de junho de 2012.

Direitos sobre a obra do artista, hoje sob cuidados da família, foram deixados em testamento para Béatrix Reynal

Amiga de Goeldi cuidou da difusão de sua obra até a morte; depois parentes criaram associação cultural

Oswaldo Goeldi - Ateliê de Goeldi, Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM SP, São Paulo, SP - 15/06/2012 a 19/09/2012

"O Ateliê de Goeldi", com curadoria da sobrinha-neta do artista, Lani Goeldi, 53, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), representa uma mudança significativa na forma como a família do artista trata sua obra.

Afinal, não foi para seus parentes sanguíneos que Goeldi deixou a responsabilidade da manutenção de seus trabalhos.

"A minha obra artística ficará toda com Béatrix Reynal (1892-1990), que cuidará da sua colocação em museus nacionais ou estrangeiros, ou disporá dela como melhor entender", escreveu o artista, em seu testamento.

A confiança em Reynal vinha de longa amizade. Foi ela quem o resgatou de uma espécie de exílio, a que seu cunhado Martin Wegner, casado com sua irmã mais nova, Matilde, o condenou.

O pai de Goeldi, o naturalista suíço Emilio Augusto Goeldi, morreu em 1917. Wegner, na época um dos melhores amigos do artista, passou a dominar a família.

Ele obrigou Goeldi a formalizar a desistência da parte que lhe cabia na herança paterna, expulsou-o de casa e, com apenas um conto de réis, o enviou, em 1922, para a Europa, segundo a pesquisadora Laeticia Jensen Eble, em dissertação defendida na Universidade de Brasília no ano passado.

A rejeição seria motivada pela vida boêmia e pela obra sombria do artista.

Foi Reynal, uma poetisa uruguaia de origem francesa, quem o trouxe de volta e, com seu marido, Reis Júnior, ajudou o artista financeiramente. "Após a morte do Goeldi, Béatrix imprimiu alguns de seus trabalhos e cuidou muito bem da difusão de sua obra", conta o curador Paulo Venâncio Filho.

"Béatrix e seu marido morreram sem deixar herdeiros, o que fez com que os direitos voltassem para a família e, por isso, nós criamos uma associação cultural, há dez anos, para preservar sua obra", diz Lani.

Curiosamente, as obras de Goeldi nunca estiveram penduradas na casa de seu avô, Edgar, um dos seis irmãos do artista. "Ele considerava aquelas obras muito tristes, obscuras", conta. No entanto, ressalta a sobrinha-neta, "meu avô sempre foi o elo entre ele e a família, e os pertences pessoais do Goeldi ficaram com ele".

MOSTRA DO ATELIÊ

Segundo o diretor-superintende do MAM, Bertrando Molina, foi Lani quem sugeriu a mostra sobre o ateliê de Goeldi: "Nós ficamos interessados na mostra e dissemos que a faríamos se, ao mesmo tempo, pudéssemos organizar uma grande mostra que contextualizasse o artista".

De acordo com Molina, o museu pagou R$ 24 mil para a Associação Artística e Cultura Oswaldo Goeldi pelo direito de imagem das 240 obras que estão nas duas mostras em cartaz.

O valor é bem inferior ao pago para a Imagem Ação, empresa que cobrou R$ 100 mil para a retrospectiva de Alfredo Volpi, no MAM, em 2006, que tinha quase cem obras a menos.

Segundo Lani, o dinheiro será utilizado para viabilizar uma publicação didática sobre o artista. "Muitas vezes nós nem cobramos pelo direito de imagem, só queremos saber a origem dos trabalhos para ajudar na catalogação", diz.

Oswaldo Goeldi - Ateliê de Goeldi, Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM SP, São Paulo, SP - 15/06/2012 a 19/09/2012

Posted by Cecília Bedê at 3:06 PM

O antitropicalista por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

O antitropicalista

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 14 de junho de 2012.

Grande mostra de Oswaldo Goeldi abre hoje no MAM e ressalta versão alternativa ao modernismo brasileiro de cores vivas

Oswaldo Goeldi - sombria luz, Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM SP, São Paulo, SP - 15/06/2012 a 19/09/2012

Com 201 obras, "Oswaldo Goeldi: Sombria Luz" abre hoje no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Trata-se da maior mostra do artista já montada no país.

"Não é uma retrospectiva, mas uma exposição que retrata o período mais importante da produção do artista: obras do final dos anos 1920 até 1960", conta o curador Paulo Venâncio Filho.

A exposição ressalta a versão alternativa ao modernismo brasileiro, em geral caracterizado por cores vivas -como nas pinturas de Tarsila do Amaral ou Di Cavalcanti-, que marca a trajetória de Goeldi (1895-1961).

"Ele é nota dissonante do modernismo e nos observa por um outro lado que não é o tropical", diz Venâncio.

As gravuras, os desenhos e as aquarelas selecionados representam casarios decadentes do Rio de Janeiro -série apresentada na segunda sala da mostra- e cenas do meretrício carioca.

"São imagens que têm relação com a vida subterrânea que ele levou. Sem dinheiro, Goeldi chegou a dormir na rua e se envolvia com as chamadas 'mulheres de vida fácil'", afirma Venâncio.

Já quando retrata a elite, em fraques e roupas de baile, o artista a apresenta na forma de cadáveres, numa típica representação expressionista.

Amigo do austríaco Alfred Kubin (1877-1959), um dos expoentes do expressionismo, Goeldi sempre confirmou sua afinação com o movimento.

Na sala menor do MAM, a sobrinha-neta do artista, Lani Goeldi, apresenta ainda "O Ateliê de Goeldi", com objetos pessoais do artista.

Oswaldo Goeldi - sombria luz, Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM SP, São Paulo, SP - 15/06/2012 a 19/09/2012

Posted by Cecília Bedê at 2:54 PM

junho 12, 2012

Rock pesado por Paula Alzugaray, Istoé

Rock pesado

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 7 de junho de 2012.

Wagner Morales - Dual Overdrive/Anita Schwartz Galeria de Arte, RJ/ até 30/6

A primeira individual de Wagner Morales no Rio de Janeiro é constituída por quatro séries de trabalhos que formam um só corpo, coeso e consistente. “Dual Overdrive” é o título que amarra o conjunto: talvez porque o efeito produzido por esse pedal de efeitos de guitarra seja a distorção. Contorcer, reverter, desvirtuar são os efeitos que reverberam no ambiente da Anita Schwartz Galeria de Arte.

Na antessala, a série “Joker” é uma coleção de fotografias de pôsteres da campanha política francesa. Morales, que reside em Paris com a artista Beatriz Toledo – sua mulher, com quem realizou essa série –, perseguiu cartazes em que os rostos dos candidatos foram maculados, seja com spray, seja com navalha. Ao se apropriar dessas imagens destruídas, a dupla interroga a publicidade: sua estratégia de superficialidade e sua mecânica da frontalidade visual. Nas demais obras que integram a mostra, Morales reafirma seu partido da negação. Na grande sala da galeria, instalou dois outdoors de madeira, voltados para as paredes. Não há nada para ver neles além de sua ossatura magra, feita de ripas de madeira barata. “É como se eles tivessem ido parar ali por algum acidente de percurso, um tufão, um tsunami”, conjectura o artista. Mas não, não é acidental. Eles estão ali para enfatizar o rompimento com a lógica do espetáculo – finalidade para a qual se voltam todas as obras da exposição.

A cultura dos bastidores se consolida na surpreendente foto-instalação “Estudo de Balística” – compilação de imagens de cuspes encontrados nas calçadas acinzentadas das cidades e posicionada aqui, desavisadamente, sob um dos outdoors – e na série “Vicinais”. Essas fotos – de lugares feios, sujos e abandonados, que não se escondem nas periferias das cidades – são pregadas sem moldura diretamente sobre a parede e interligadas por um risco de spray verde. “Para mim não há importância no que está sendo fotografado, tenho vontade de preservar a banalidade das coisas. Há também uma espécie de “autovandalismo” no spray de tinta que perpassa todas as imagens. Algo que confirma uma despretensão, uma vontade de negar a cultura do bom acabamento e do “beletrismo” do mundo da fotografia”, afirma Morales.

Tudo isso está envolto pelo incômodo som amplificado do ar-condicionado da galeria. Em “Dual Overdrive”, Wagner Morales recolhe imagens e objetos das periferias da civilização. Não para cantá-los em versos, mas para expor seus reversos. P.A.

Posted by Cecília Bedê at 3:37 PM

Curadora analisa diálogo da Documenta com cenário atual por Camila Molina, O Estado de S. Paulo

Curadora analisa diálogo da Documenta com cenário atual

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 12 de junho de 2012.

Mostra de arte fica em cartaz na cidade alemã de Kassel até o dia 16 de setembro

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

A dOCUMENTA (13) no Canal Contemporâneo

A curadora espanhola Chus Martínez foi, desde 2009, o braço direito - e esquerdo - da diretora artística da Documenta 13, a escritora ítalo-americana Carolyn Christov-Bakargiev, na concepção desta edição da mostra. "Carolyn é uma grande historiadora", diz Chus, chefe do departamento de curadores do evento, em cartaz na cidade alemã até 16 de setembro. A seguir, a entrevista que a espanhola concedeu ao Estado sobre a Documenta 13.

Cada edição da Documenta é concebida em pelo menos quatro anos de trabalho. Qual é a pertinência do evento?

A pertinência é imensa. A diferença de uma exposição como esta e de outras, como uma Bienal de São Paulo, é que sua ambição é apresentar não apenas a arte deste momento, mas a situação do mundo atual. A Documenta 13 produziu cem livros e mais de cem obras nova.

No caso da Documenta 13, prevaleceu mais a ambição de tratar da situação do mundo?

A arte de hoje tem a ver com pensar o futuro da vida por meio de questões relacionadas, por exemplo, a natureza, o feminismo, as novas formas de política, a sustentabilidade. É uma exposição versátil.

Como foi o processo de criação da Documenta 13? Quais foram as questões motivadoras desta edição?

De saída, a indagação foi "Como se recuperar de um colapso?" Econômico, ético ou até mesmo emocional. Depois, a questão sobre como viver em um mundo em que a palavra de ordem é a globalização - mas não usamos essa palavra na mostra - e a sincronização da economia. Ninguém hoje usa expressões como Primeiro Mundo ou Terceiro Mundo porque tudo está sincronizado. A terceira indagação referiu-se à capacidade de se dessincronizar nesse contexto atual. Também é importante dizer que há a questão da memória ou da arte se recordar através da memória. A Anna Maria Maiolino faz uma obra magnífica com sua instalação de peças de argila, o barro está relacionado à sensualidade, à fantasia da matéria. Outra brasileira, Renata Lucas, criou uma pirâmide imaginária que se levanta sobre esta Documenta. Poderia dar outros exemplos de como a matéria cria ficções, executam outras formas de política.

Muitas obras lidam com a história de Kassel, como o trabalho da artista Janet Cardiff, que em sua criação sonora, no meio do parque Karlsaue, promove a experiência de recriação de sons dos bombardeios na cidade durante a 2ª Guerra Mundial e do transporte de judeus para campos de concentração. É inevitável que obras das Documentas recorram à memória da cidade?

As obras sobre Kassel têm a ver com a ideia de colapso. A própria criação da Documenta (na década de 1950) foi uma resposta ao colapso. Mas não estamos historicizando nada. Existe uma simetria entre esse colapso e o que vivemos agora. A única maneira de sair dessa situação é propor o sentido de risco, pensar parâmetros distintos.

Durante a Documenta 2, em 1959, o filósofo Adorno fez a palestra "A Ideia de uma Nova Música", intrigado com a atonalidade e as experimentações de John Cage na época. Há muitas obras sonoras nesta Documenta 13, propondo uma relação distinta sobre o visível. Qual seria a radicalidade de hoje?

É a capacidade de a arte contemporânea se conectar a novas formas e conhecimentos. A filosofia e a sociologia não têm hoje a mesma eloquência que tinham antes ao se condensarem com a arte. As disciplinas das ciências humanas cobram um sentido novo dentro das produções artísticas. A Documenta nos faz lembrar que a arte não está em crise, porque ela absorve os conhecimentos das ciências humanas e outras disciplinas. Creio que isso é radical e político. As obras não têm a ver com a ilustração de formas ideológicas, elas se renovam dentro desta raiz.

Alguns visitantes desta Documenta afirmam que a mostra está dispersa e confusa e foi perguntado na coletiva de imprensa se a mostra não refletia, afinal, a confusão pessoal da diretora artística da exposição. O que pensa sobre isso?

Carolyn é a segunda mulher que faz uma Documenta - e a imagem de uma mulher confusa é histórica. Há cem livros e outras ferramentas para se ler esta Documenta. Talvez a confusão seja o surrealismo resgatado neste projeto.

Como surgiu a ideia de deslocar a Documenta 13 para o Oriente Médio, com atividades em Cabul, Cairo e Alexandria?

Fomos levados a Cabul por causa do artista Mario Garcia-Torres, que resolveu, em sua participação, seguir os passos de outro artista, Allighiero Boetti e seu One Hotel em Cabul (experiência realizada pelo italiano entre 1971 e 1977). Nós os seguimos também e, uma vez em Cabul, não teríamos como não levar a Documenta para lá. Foi algo intuitivo.

Por que ocupar o parque Karlsaue com casinhas de madeira para abrigar as obras dos artistas?

O parque foi o único lugar de Kassel que não foi bombardeado durante a guerra. Tornou-se, de certa forma, um refúgio. Ao mesmo tempo, é especial, mágico. Essa seção oferece uma orientação diferente da mostra em sua sede principal, no Fridericianum, elege um espaço aberto. Sobre as casinhas, não queríamos construir uma arquitetura imponente nesses tempos de precariedade. São formas elásticas e banais.

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

Posted by Cecília Bedê at 2:28 PM

junho 11, 2012

Sintonia tecnológica por Nina Gazire, Istoé

Sintonia tecnológica

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 7 de junho de 2012.

Em sua última edição, a Bienal de Arte e Tecnologia Emoção Art.ficial, do Itaú Cultural, mostra excelência da produção brasileira no gênero

Bienal Internacional de Arte e Tecnologia: Emoção Art.ficial 6.0, Itaú Cultural, São Paulo, SP - 30/05/2012 a 29/07/2012

Foram dez anos dedicados a mostrar ao público brasileiro pesquisas de ponta em robótica, inteligência artificial e cibernética – e o que isso tudo tinha a ver com arte. Em sua sexta – e última – edição, a Bienal de Arte e Tecnologia Emoção Art.ficial encerra um ciclo. Os campos da arte e da tecnologia, que iniciaram o século XXI de mãos dadas, se afirmando e ganhando terreno em importantes eventos como este promovido pelo Itaú Cultural, hoje formam um corpo só – e um corpo já não tão estranho ao mundo da arte contemporânea.

É a partir dessa premissa que o Itaú Cultural encerra seu ciclo de bienais de arte e tecnologia. “Queremos dar o próximo passo. Todas as obras que estão aqui poderiam perfeitamente estar em uma exposição de arte contemporânea, e não apresentadas como um gênero separado”, explica Marcos Cuzziol, gerente do Itaulab, laboratório de mídias interativas do Instituto Itaú Cultural e um dos responsáveis pelo projeto desde seu início.

Nas dez obras apresentadas nesta sexta edição, dividem-se os trabalhos que explicitam o uso da robótica e da inteligência artificial – nos quais o objetivo é evidenciar os processos subjetivos da máquina – e aqueles que fazem uso de mídias interativas como plataformas para evidenciar problemas conceituais. Nesse âmbito, os destaques são veteranos da arte e tecnologia brasileira, que foram selecionados via edital e desenvolveram seus trabalhos especialmente para a mostra, como Silvia Laurentiz, Martha Gabriel, Giselle Beiguelman, Fernando Velázquez, Leonardo Crescenti e Rejane Cantoni.

“Chama a atenção quanto a produção de artistas brasileiros é consistente. De alguma maneira, temos uma estética que se diferencia sem necessariamente estar atrelada a identidades nacionais, mas que está em sintonia com o cenário globalizado”, observa Giselle Beiguelman, que participou da primeira edição do Emoção Art.ficial, em 2002, e está presente agora com a obra “Você Não Está Aqui”, realizada em parceria com Fernando Velázquez. Na videoinstalação, telas dispostas em 360 graus recebem projeções de imagens que são retiradas aleatoriamente de um banco de dados. São imagens de cidades que, a partir do uso dos visitantes, podem criar lugares imaginários.

O fator da proliferação maquínica perpetrado por celulares é o centro do trabalho “Fala”, de Leonardo Crescenti e Rejane Cantoni. Na instalação, um “coro” de 40 celulares capta, por meio de um microfone, as vozes do ambiente da mostra repetindo palavras isoladas. Em “iFlux”, Silvia Laurentiz e Martha Gabriel conectam um ser artificial que reage ao fluxo de informações do edifício do Itaú Cultural.

Você que se interessa pelo futuro, não fique triste com o encerramento do Emoção Art.ficial. Marcos Cuzziol já trabalha em um novo projeto de curadoria que integra os campos da “arte e tecnologia” e da “arte contemporânea”, previsto para ocupar o Itaú Cultural no ano 2013. Nina Gazire

Bienal Internacional de Arte e Tecnologia: Emoção Art.ficial 6.0, Itaú Cultural, São Paulo, SP - 30/05/2012 a 29/07/2012

Posted by Cecília Bedê at 3:40 PM

Renata Lucas expõe obra na Documenta 13 por Camila Molina, O Estado de S. Paulo

Renata Lucas expõe obra na Documenta 13

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 8 de junho de 2012.

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

A dOCUMENTA (13) no Canal Contemporâneo

Um simulacro em que Kassel é tomada por tempestades de areia. Mais ainda, uma obra formada por partes de pirâmides encravadas em porões e sótãos de edifícios: "Ontem, Areias Movediças", que a artista brasileira Renata Lucas criou especialmente para a Documenta 13, a ser aberta no sábado para o público, é mais um de seus trabalhos conceituais que envolvem o espaço urbano e expositivo. Suas intervenções, à primeira vista estranhas, requerem a percepção de quem está desatento e desafiam o espectador. No caso desse projeto, ele se faz como que em simbiose com o tecido da cidade e sua história, guardando em camadas a potência da materialização poética e crítica de uma ação artística.

Sempre há algo de crítico nas obras de Renata. Numa descrição de seu trabalho para a Documenta 13, seis pontos com sinal gratuito de internet, delimitados por um quadrilátero no centro de Kassel abrangendo o porão do museu Fridericianum, o subsolo do prédio onde se hospedou a curadora da exposição, Carolyn Christov-Bakargiev - local era a antiga casa dos irmãos Grimm -, o piso inferior da loja de departamentos Kaufhof; e mais uma outra localidade da Friedrichsplatz, possibilitam aos visitantes capturar com telefones, tablets e computadores vídeos que a artista produziu usando imagens artificiais de locais da cidade alemã sendo invadida por tempestades de areia como as dos desertos. Renata usou o Photoshop e se apropriou de cenas da internet. Mais ainda, esculpiu em madeira e concreto o que seriam os fragmentos de uma pirâmide nos quatro pontos que formam o quadrilátero de sua ação.

"Escolhi a pirâmide por ser um elemento comum, mas ainda assim um sólido geométrico calculado matematicamente e comum a diversas culturas", diz a artista. Mas há outros sentidos complexos por trás dessa escolha. "Além de qualquer aspecto místico intrínseco, a pirâmide faz referência à monumentalidade da Documenta, à mística da própria mostra, ao modo como as pessoas chegam em massa a Kassel atrás de um sinal", conta ela. "Preferi buscar um símbolo para falar de uma história materializada no subsolo, do número de mortos e escondidos que caracteriza o subsolo da cidade como uma urbanização em paralelo."

A artista faz menção, nesse sentido, à "indústria armamentista que sustenta a cidade ao mesmo tempo que alimenta os conflitos no Oriente Médio; à fantasia de uma cultura superior anciã; à própria fantasia delicada da curadoria ao ir buscar parceria com o Afeganistão e Egito; à fantasia comum em relação ao Oriente, ao exótico; às imagens facilmente recolhidas da internet e que você pode pegar e colar para construir ficções como provas da realidade nas telas de vigilância; aos processos migratórios e migrações de paisagem".

A obra, assim, é um escopo de disparos contundentes de Renata Lucas. Quando passamos pelo porão do Fridericianum, por exemplo, não temos ideia de que aquele pedaço de uma base de pirâmide poderia abrigar tantas questões. Curiosamente, ainda, o título do projeto foi baseado em texto surrealista do escultor e pintor Alberto Giacometti.

Renata Lucas foi convidada em 2009 pela escritora e curadora Carolyn Christov-Bakargiev a participar da Documenta 13. Volta e meia, está escalada para as principais mostras de arte contemporânea, como a última Bienal de Istambul, a 53.ª Bienal de Veneza e a 27.ª Bienal de São Paulo, entre outras, além de ter recebido prêmios e residências no exterior. "Não há hierarquia, toda exposição é perturbadora e todo lugar tem assunto", diz a artista.

"A Documenta é muito importante porque permite um tempo de pesquisa e reflexão maior, tem um time curatorial afiado e o artista também tem oportunidade de acompanhar o processo de outros artistas. Mas está longe de ser ideal com seus problemas de comunicação, autorização (restrições de segurança inviabilizaram vários trabalhos) e orçamento. Entretanto, a Documenta permite um certo afastamento que o circuito frenético de bienais e feiras já consumiu. Ela ocorre num lugar absolutamente inexpressivo, que literalmente ''incorpora'' uma entidade que está fora do movimento local, e você precisa cavar fundo nesse falso contexto de mesmice e banalidade que é a cidade de Kassel para entender sobre o que esta urbanidade plácida está construída." As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

Posted by Cecília Bedê at 3:34 PM

Brasileira expõe na mais importante mostra de arte contemporânea por Camila Molina, O Estado de S. Paulo

Brasileira expõe na mais importante mostra de arte contemporânea

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 6 de junho de 2012.

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

A dOCUMENTA (13) no Canal Contemporâneo

KASSEL, ALEMANHA - A artista Anna Maria Maiolino comemorou seus 70 anos no dia 20. Estava em Kassel, na Alemanha, onde trabalhava na montagem de sua obra para a nova edição da mais importante mostra de arte contemporânea, a Documenta 13, que, a partir de hoje, é apresentada para convidados e profissionais da área, e no sábado será aberta para o público.

Ela participa da exposição com um projeto especial, Here & There (Aqui & Lá), instalação multidisciplinar abrigada em uma casinha típica alemã, às margens do parque próximo ao museu Staatliche de Kassel. "Criei um projeto de multiplicidade de sentimentos e sentidos porque queria me divertir", diz a artista, que concedeu entrevista ao Estado, em São Paulo, um dia antes de viajar para Kassel.

Divertir-se significa escrever um poema, Eu Sou Eu, em que Anna Maria mistura seus escritos a apropriações de trechos de O Alienista, de Machado de Assis, e de Reino dos Bichos e dos Animais É o Meu Nome, de Stella Patrocínio - interna do mesmo hospital de Arthur Bispo do Rosário. Eu Sou Eu é declamado pela artista, em português, por meio de uma gravação instalada no porão da casa (e a obra transformou-se também num pequeno livro, vendido na mostra).

Mas, mais do que a palavra, Anna Maria ocupa todos os cômodos do térreo com uma instalação com peças de argila, de sua série Terra Modelada, em que nos coloca o gesto primordial da mão. As esculturas tomam sofás, cama, cadeiras, beirais das janelas, criando uma imagem de acúmulo de formas. E apresenta a criação de um trabalho sonoro (em parceria com Tânia Pifer, Sandra Lessa e Mateus Pires), que faz reverberar sons da fauna brasileira, com ecos para o jardim e o bosque.

Trabalhando o espaço interior e exterior, Anna Maiolino concebe uma obra que inspira ares surrealistas. "As linguagens do inconsciente e da intersubjetividade enunciam o etéreo no espaço." Galhos de pinho, misturados a sons, ainda "impregnam o sótão da casa" como parte da riqueza de operações simbólicas criadas pela artista.

Em 2010, ela foi convidada pela curadora e escritora ítalo-americana Carolyn Christov-Bakargiev, diretora artística da Documenta 13, a participar da exposição. A mostra alemã, realizada a cada cinco anos, tem a tradição de manter segredo sobre seus participantes, mas, desta vez, uma lista foi publicada há poucas semanas na imprensa alemã. Os organizadores da Documenta 13 - sob o título The dance was very frenetic, lively, rattling, clanging, rolling, contorted and lasted for a long time - não a confirmaram. O anúncio oficial dos participantes ocorreria hoje em Kassel.

Anna Maria Maiolino, que nasceu na Itália, em 1942, viveu na Venezuela nos anos 1950 e radicou-se no Brasil na década de 1960, é uma das representantes do País - outras criadoras brasileiras já confirmadas são Renata Lucas, Maria Martins e Maria Thereza Alves.

Vivendo mais um momento especial de sua consagrada carreira, Anna Maria, que acaba de ganhar o 1.º Prêmio Masp, fala na entrevista a seguir sobre sua participação na Documenta 13.

Como se deu o convite para a Documenta 13?

A curadora-chefe da Documenta veio ao Brasil há dois anos. Ela havia me convidado antes para a Bienal de Sydney (de 2008), com o filme In-Out, Antropofagia, histórico, de 1973. Carolyn sugeriu então uma instalação de argila da série Terra Modelada para a Documenta. Disse "tudo bem", mas com 50 anos de trabalho é desagradável para o artista maduro o convite de uma obra histórica. Ao mesmo tempo que é um elogio, você quer fazer algo novo. A instalação de argila é uma série, uma obra aberta em que uso quatro formas básicas da mão. Ela se modifica dependendo do espaço, mas a base é a presença do gasto energético e da ação básica do gesto.

Como foi o diálogo com a curadora sobre o conceito da Documenta 13?

Para dizer a verdade, não li a proposta. Fui atrás da minha fantasia, do meu delírio. Os artistas não precisam se adequar a formas. Mas não vou fazer só a minha instalação de argila, com a questão da mão laboriosa, dos primórdios até hoje. Carolyn me disse que a instalação de argila é uma expressão humana. Eu disse tudo bem, mas sou uma artista. Levei em conta o que ela me pediu. Fui a Kassel, que não conhecia, em 2010. A curadora pediu que eu escolhesse um espaço para minha obra, não me levou ao museu (Fridericianum, sede da Documenta), então, entendi que ela queria que eu escolhesse um espaço alternativo da cidade. Voltei e fiquei pensando. Fiz um livro para a minha instalação, Eu Sou Eu, como resumo de pequenas poesias e pensamento.

Como é sua obra?

O nome do meu projeto é Here & There. No livro, aproprio-me de um trecho de O Alienista e outro de Stella Patrocínio, mas não estou falando da loucura no sentido negativo, e sim de sentido criativo. A obra tem uma multiplicidade. Tem o livro, tem o som, é uma obra que ocupa três andares de uma casa, mas que só é definida com a minha presença.

É uma obra de palavra, som e o gesto da mão?

No primeiro andar, tem a argila, o ente operante. No sótão, está a memória encontrada. E no porão, o corpo ausente. Here & There se divide em três itens. Quis levar um pouco da vitalidade brasileira.

A senhora teve liberdade total para ampliar seu projeto. A casa também foi sua escolha?

Sim. Quando escolhi a casa, a curadora me disse que do outro lado moravam os irmãos Grimm, que escreveram contos incríveis. Escolhi a casa para me refugiar às margens do parque. É típica alemã e é onde construo minha fábula e poética, e é, inconscientemente, um refúgio. Kassel, inevitavelmente, remete à guerra. Acho que a Documenta também foi feita para sanar a memória da cidade. Levo sons da fauna brasileira, algo de sol, alegria, esperança. Mas só me dei conta quando terminei o projeto. Falo da morte também, o poema é paradoxal, a vida é paradoxal. A obra de arte vive na dualidade, mas quando fala de insanidade, transforma essas situações para a vida, como que resgata para a vida. É ocupação da memória, com uso de mídias diferentes.

E sobre o título Aqui & Lá?

São dois advérbios de lugar só para indicar a obra. São muitos lugares que estou ocupando. Sou filha da guerra também. Sinto-me como (o poema) Banquete Antropofágico (escrito por ela), sou brasileira, mas com sotaque diferente.

Como é participar da Documenta? Vê sentido nessas mostras?

Vejo sentido em exposições grandes, coletivas. Nunca vi uma Documenta, todos dizem que chegar lá é o reconhecimento de que se é competente. Não acho isso. Vejo a arte como a máxima expressão do ser humano em sua humanidade. Fiquei contente, mas não estou eufórica. Quando quis ampliar meu projeto ou criar um projeto de multiplicidade de sentimentos e sentidos foi porque quero me divertir. É uma experimentação. Tenho mais de 13 filmes, mas não sou cineasta. Trabalho com fotografia, mas não sou fotógrafa. A curiosidade que move o desejo de poesia. Quando se muda de mídia, você entra no risco. Posso dizer que me diverti muito.

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

Posted by Cecília Bedê at 3:25 PM

Com 4 brasileiras, Documenta 13 propõe questões como o poder e a injustiça por Camila Molina, O Estado de S. Paulo

Com 4 brasileiras, Documenta 13 propõe questões como o poder e a injustiça

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 7 de junho de 2012.

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

A dOCUMENTA (13) no Canal Contemporâneo

KASSEL, ALEMANHA - Parafraseando o título da Documenta 13, The dance was very frenetic, lively, rattling, clanging, rolling, contorted and lasted for a long time, a coreografia das propostas desta edição é enérgica. "A confusão é maravilhosa", disse ontem a diretora artística da mostra, a ítalo-americana Carolyn Christov-Bakargiev, em uma bem-humorada coletiva de imprensa no Kongress Palais de Kassel, na Alemanha. Ela teve quatro anos de trabalho para preparar a Documenta 13, que foi aberta ontem para convidados, vai ser inaugurada no sábado para o público e fica em cartaz até 16 de setembro.

A era digital, o deslocamento, o comprometimento "no momento crítico que vivemos", a precariedade, o poder, o feminismo, o surrealismo, a injustiça de um mundo entre ricos e pobres, todas essas são questões levantadas pela curadora, "mulher e feminista", como frisou, para a concepção da exposição formada por obras de 193 criadores (dentre eles, o Brasil está representado por Anna Maria Maiolino, Maria Martins, Renata Lucas e Maria Thereza Alves).

A coreografia, afirmou Carolyn Christov-Bakargiev, não poderia ser harmoniosa. "O intuito da Documenta 13 não é ler o momento histórico através da arte, mas reimaginar o mundo com o uso da ficção, da poética e da ciência", disse. Primeiramente, esta edição evento propõe uma mudança, deixa de ter apenas Kassel como sua sede (desde 1955) para ainda promover, entre 20/6 e 15/8, seminários e exposições em Cabul (Afeganistão), Cairo-Alexandria (Egito) e Banff (Canadá).

O desafio de expandir a mostra ainda se refere à própria cidade alemã - os trabalhos de seus participantes ocupam, além dos tradicionais museus Fridericianum, Neue Galerie e Ottoneum (de história natural), espaços como o palácio Orangeire, o parque Karlsaue, o Museu dos Irmãos Grimm e a estação Hauptbahnhof, entre outras localidades. Entretanto, com tantas "parassimultaneidades, importa o aqui e o agora", afirmou Carolyn. Ela até usou em sua palestra uma espécie de fábula, um projeto não realizado dos artistas Guillermo Faivovich e Nicolas Goldberg para a Documenta 13, em que se cogitava como seria a colisão de um meteoro vindo da Argentina até Kassel. "Como poderia ser essa transição temporária de um objeto?", indagou ela.

A mostra principal no Fridericianum, a casa tradicional das Documentas, expõe de uma maneira bem direta o conceito de coreografia frenética de contradições proposto para esta edição do evento. Os primeiros espaços nada têm de espetaculosos, pelo contrário: são salas brancas, à primeira vista, como que vazias. Pouco depois se encontra o trabalho do inglês Ryan Gander, I Need Some Meaning I Can Memorise (2012), que é apenas feito da circulação de ar, de uma "brisa gentil" sobre os espectadores - no mesmo setor, há uma obra sonora de Ceal Flyer. Até começar uma espécie de "babel" de objetos, épocas, culturas pelo restante do espaço expositivo da instituição, abrigada na Friedrichsplatz.

A relação da arte e do objeto - primordial ou intrínseca - é apresentada em múltiplas formas, por camadas. Em vitrines, esculturas de princesas da tradição do Uzbequistão estão ao lado dos vasos que o pintor metafísico italiano Giorgio Morandi usava como "modelos" de suas naturezas-mortas, de objetos destruídos durante a guerra civil no Líbano, de peças de Man Ray e fotografias da década de 1930 de Lee Miller, entre elas, de artigos dos banheiros do casal Adolf Hitler/Eva Braun. "Venho de uma mãe arqueóloga", diz, em certo momento, a curadora.

No Fridericianum, ainda chamam a atenção as tapeçarias modernas e políticas criadas também nos anos 30 pela sueca Hannah Ryggen. Passa-se pela ciência, em que teorias da física engendram uma série de parafernálias criadas este ano pelo austríaco Anton Zeilinger em parceria com os alunos da Universidade de Viena até se chegar a uma instalação desconcertante de Kader Attia, um gabinete de esculturas primitivas africanas e grandes bustos de homens deformados de madeira, livros, fotografias e objetos, na obra deste ano The Repair from Occident to Extra-Occidental Cultures.

As Documentas ocorrem a cada cinco anos e por isso são as mais aguardadas mostras do cenário contemporâneo. Esse longo processo de concepção levanta muitas questões (nem sempre respondidas ou materializadas) e a impressão que se tem é a de que artistas estiveram em diálogo com a curadora sobre os temas desta edição. Como afirmou Carolyn, quatro motivações engendraram a Documenta 13: "Sob o cerco: Estou cercado pelo outro, sitiado por outros"; "Em retiro: Me retiro, escolho abandonar os outros, Eu durmo"; "Em estado de esperança, ou otimismo. Eu sonho, sou o tema do sonho por antecipação"; e "No palco: Estou interpretando um papel, Sou um tema no ato da reperformance."

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

Posted by Cecília Bedê at 3:21 PM

Documenta de Kassel começa 'dramática' por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Documenta de Kassel começa 'dramática'

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 9 de junho de 2012.

Para diretora da mostra alemã, tempos absurdos tendem a levar artistas e intelectuais em direção ao surrealismo

Reunindo obras de 183 participantes, 13ª edição do evento permanecerá aberta ao público por cem dias

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

A dOCUMENTA (13) no Canal Contemporâneo

"Eu já estou farta dessa vida, eu estou farta desse tempo", escreveu Charlote Salomon (1917-1943) em uma das 769 aquarelas exibidas no museu Friedricianum, um dos oito espaços em que ocorre a 13ª Documenta de Kassel, na Alemanha, que será aberta ao público hoje.

Na aquarela em questão, uma das 1.325 pintadas por ela entre 1941 e 1942, Salomon se autorretrata com as mão na cabeça, em sentido trágico. O conjunto foi feito como forma de superação do suicídio de sua mãe. Ela própria morreria no ano seguinte, perseguida por nazistas no campo de concentração de Auschwitz.

Esse sentimento de tragédia pessoal e histórica, retratado por Salomon, perpassa toda a Documenta. Foi um sentido dramático o que a diretora artística, Carolyn Christov-Bakargiev, atribui como característica do mundo contemporâneo.

"O mundo está louco, tudo é tão impossível de parecer justo ou coerente! Nós vivemos nesse mundo de riqueza absurda e pobreza absurda. A guerra ainda ocorre no Afeganistão, apesar de dizerem que acabou", disse a diretora em entrevista à Folha.

No entanto, não se trata apenas de uma mostra com obras melancólicas, já que a diretora aponta outras estratégias artísticas frente às crises. "Quando o mundo é absurdo, um intelectual tende a ir em direção ao surrealismo", defende Bakargiev.

Surgido nos anos 1920, o surrealismo enfatizou o inconsciente como força criativa e, por isso, suas obras misturavam elementos desconexos e um tanto sarcásticos, como na pintura "A Grande Paranoia", de Salvador Dali (1904-1989), presente nesta edição da mostra.

Assim, junto a obras dramáticas como as de Salomon, sua curadoria inclui um grande número de obras históricas surrealistas, como as do próprio Dali (1904-1989), além de Man Ray (1890-1976) e da brasileira Maria Martins (1894 - 1973), ao lado de produções contemporâneas.

Entra elas, está a performance da artista Ceal Floyear, que ficou roendo as unhas por cinco minutos, antes da entrevista coletiva, na terça, ação que será repetida várias vezes na mostra.

O tom surrealista também está na obra da brasileira Anna Maria Maiolino, um dos trabalhos considerados "extraordinários" pela diretora.

Ela colocou centenas de peças de barro feitas a mão sobre os móveis de uma casa de 1947, a mais antiga período pós-guerra, em Kassel, numa ação obsessiva, que durou duas semanas.

Mesclar obras modernistas, especialmente dos anos 1930 e 1940, a trabalhos contemporâneos faz sentido, segundo a diretora, por conta do contexto de sua produção.

"Se você pensa na história dos anos 1930, após a crise financeira de 1929, e nosso tempo, vemos analogias nas questões econômicas, culturais e sociais. Esses são tempos surrealistas".

Um dos eventos surrealistas mais comentados é a sessão de hipnose de Marcos Lutyens e Raimundas Malasauskas, que promete fogos de artifício físicos e mentais.

Com 183 artistas, a Documenta permanecerá aberta por cem dias em oitos instituições da cidade, além de ter 50 obras em pavilhões no parque Karlsaue, e intervenções em outros espaços.

Agigantada, confusa, impossível de ser vista em poucos dias, a mostra mistura a tristeza dos tempos de guerra com a esperança criativa surrealista. Na Alemanha, faz todo sentido.

Mostra irá acontecer também em Cabul, Alexandria e Banff

Além de Kassel, a Documenta irá ocorrer em Cabul, no Afeganistão; Alexandria, no Egito; e Banff, no Canadá.

O feito não é inédito, já que Okwui Enwezor, há dez anos, organizou seminários em outros continentes. A novidade está na diversidade do que irá ocorrer em cada cidade.

Em Banff, a curadora Carolyn Christov-Bakargiev irá permanecer enclausurada num monastério, entre 2 e 15/8, com outras 16 pessoas, entre artistas e curadores.

Já em Cabul, parte da própria exposição ocorre lá até o dia 19 de julho. "Há anos, trabalho com artistas no Afeganistão para criar debates sobre arte numa área de conflito", diz a curadora.

Filmes de artistas que participaram de encontros no Afeganistão, como Francys Alys, estão sendo exibidos em Kassel e em Cabul.

Finalmente, Alexandria será sede de estudos e seminários dedicados às transformações da Primavera Árabe, que tiveram início em 2011. "Trata-se de um evento de reflexão, esperança, sonho e processos de aprendizagem." (FC)

Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012

Posted by Cecília Bedê at 3:01 PM