|
|
outubro 17, 2013
A vida das coisas nas obras da mostra de Barrão por Audrey Furlaneto, O Globo
A vida das coisas nas obras da mostra de Barrão
Matéria de Audrey Furlaneto originalmente publicada no jornal O Globo em 13 de outubro de 2013.
De Budas a gatinhos, objetos de louça coletados em feiras, como a da Praça XV, ganham formas improváveis na exposição que o artista inicia
Barrão - Arrumação, Galeria Laura Marsiaj, Rio de Janeiro, RJ - 16/10/2013 a 21/11/2013
RIO - No ateliê que mantém desde os primórdios da Bhering, na Zona Portuária do Rio, Barrão guarda centenas de peças de louças. Há prateleiras dedicadas a cachorros, outras a imagens de Buda ou a objetos cor de rosa. Cachorros, budas e vasinhos vêm de feiras como a da Praça XV, da Ladra, em Lisboa, ou de Dusseldorf, na Alemanha. Estão lá, na Bhering, desde os anos 2000, quando o artista começou essa espécie de coleção que vem dando origem a muitas de suas obras.
Na exposição “Arrumação”, que a galeria Laura Marsiaj abre amanhã, às 19h, ele expõe sete esculturas criadas com os cacarecos de louça ora inteiros, ora quebrados e reorganizados em formas improváveis, já distantes da função de objeto decorativo que um dia tiveram. Há um gato de louça azul (coletado na Praça XV) de cujo rabo parece explodir uma forma alongada, composta de vasos e seus cacos. Trata-se de “Rastro”, obra que ele concluiu em 2013, mas que há pelo menos um ano vem sendo desenvolvida no ateliê.
Longo processo de criação
A colagem de objetos já prontos é algo recorrente na obra de Barrão. Nos anos 1980, ele lembra, comprava aspiradores de pó e até motores de geladeiras e fogões que rearranjava em obras de arte. Naquele tempo, os eletrodomésticos, e não os objetos de louça, apinhavam o ateliê.
— Na verdade, eu não encaro esses objetos que guardo como uma coleção, mas a maneira como trabalho passa um pouco por essa coisa de colecionar, de acumular coisas — diz o artista. — Tinha pensado, lá atrás, no final dos anos 1980, em fazer um trabalho com louça, mas era só um, com uns bichos colados e tal. Nunca fiz esse trabalho e passou. Um dia resolvi fazer. No ano 2000, fui atrás dessas coisas, fiz e achei que o resultado estava legal, gostei de como tudo se misturava. Aí fiz outro e outro...
Então, Barrão passou a comprar objetos de louça em feiras populares. Primeiro, ia aos locais focado: comprava apenas objetos em forma de cachorros, por exemplo. Depois, o artista diz ter percebido que a diversidade seria útil — e, assim, começou a comprar e levar de tudo um pouco para o ateliê.
— Esse jeito de criar um acervo para trabalhar é algo que sempre foi assim para mim. Não sei ter uma ideia e sair para comprar, produzir. Preciso ter as coisas para pensar a partir delas — explica.
Assim, uma série de Budas prateados que Barrão encontrou em Dusseldorf acabou agrupada a pequeninos bules brancos num objeto de parede. Uma mulher esculpida em louça azul, recostada em troncos (também azuis), forma uma composição com um cofre de moedas em forma de pênis, chuchus, um cachimbo, legumes — tudo em louça, tudo fálico, como pretendia Barrão.
Embora os objetos criados pelo artista carioca possam ter estética um tanto kitsch, ele diz que não é isso, “de forma alguma”, o que pretende com essas esculturas.
— Nem penso nisso. Talvez eu tenha um sentimento mais flexível em relação a isso. Quer dizer, eu não enquadro as peças como kitsch, de jeito nenhum. Nem gosto quando é um objeto muito característico, ou algo de muito valor ou de uma estética valiosa. Gosto de quando os objetos perdem suas características individuais e se descobrem novamente numa reunião com outra coisa.
O processo de criação das esculturas, ele completa, é longo. Justamente porque é preciso encontrar peças que se encaixem ou “produzir” cacos perfeitos que completem uma obra. E Barrão faz quase tudo sozinho (tem um assistente no ateliê, que o ajuda em questões técnicas e, por conviver com o artista, também dá sugestões para as criações).
— Não gosto muito de delegar, gosto de fazer — afirma. — Me interessa muito esse imaginário popular, que tem uns bichos, umas decorações, umas coisas que acho muito bonitas, e outras, bem loucas. Essa diversidade cria uma possibilidade de misturar tudo.
De urubus e outros entortamentos por Noemi Jaffe, Folha de S. Paulo
De urubus e outros entortamentos
Texto de Noemi Jaffe originalmente publicado em Tendências/Debates no jornal Folha de S. Paulo em 29 de setembro de 2013.
Um dos méritos da arte moderna e contemporânea foi ampliar a ideia de belo. Por que não considerar arte algo emocionante ou estranho?
Com insistência, o poeta Ferreira Gullar vem reiterando em sua coluna na Folha que os "urubus presos em gaiolas", ou "o casal nu postado numa porta" não são obras de arte.
Seus principais argumentos seriam: 1) o fato de elas não terem sido produzidas por mãos humanas e o fato de que este seja, há mais de 5.000 anos, o critério para definir o que é arte; 2) o fato de elas não poderem ser consideradas belas; 3) o fato de não poderem ser criticadas, pois não haveria critério para avaliar algo que ninguém fez.
Em primeiro lugar, o argumento de que a arte tenha sido feita de uma certa maneira há muito tempo não define o que é arte. O ser humano trabalhou durante séculos como artesão dos produtos que consumia e, na atualidade, mal coloca a mão sobre esses produtos. Isso não muda o termo "trabalho" para ambas as intervenções: artesanal ou eletrônica.
Seguindo por esse raciocínio, os urubus de Nuno Ramos podem igualmente ser chamados de arte. E, mesmo assim, também neles houve intervenção humana: na concepção, na montagem, na relação espacial que se criou pelo contraste entre os urubus e o prédio de Niemeyer, no poema emitido pelas caixas de som e no estranhamento causado pela presença horrífica em um lugar em que se supõe encontrar somente o "belo".
Poemas de Carlos Drummond de Andrade se baseiam em bulas e verbetes de lista telefônica: onde está a mão humana? No efeito combinatório (o que não é pouco). O mesmo se aplica a Marcel Duchamp, a Marina Abramovic e tantos outros.
Gullar cita a ausência do "belo" para desqualificar os urubus. Ora, um dos méritos da arte moderna e contemporânea foi relativizar e ampliar a ideia de belo. Platão já questionava como era possível, para um escultor, esculpir belamente um homem feio. Seriam belas esculturas.
Por que não posso considerar que algo emocionante ou estranho também seja tido como arte? E por que não posso chamar de belo aquilo que me faz revisitar o conceito do que seja belo?
Afinal, Van Gogh foi considerado feio em seu tempo, assim como o próprio Picasso, citado por Gullar sob a rubrica de "cubistas".
Finalmente, não é verdade que não possa haver crítica de arte sobre o trabalho de Nuno Ramos, tanto que houve, assim como as há relativas a várias obras conceituais, minimalistas etc., que tampouco exigem o trabalho direto da mão humana.
Eu mesma escrevi sobre uma obra de Tatiana Blass: um carro semienterrado numa calçada de rua. Escrevi sobre o efeito de estranhamento, sobre a intervenção estético-crítica e sobre a "beleza" inesperada desse entortamento do banal.
Muito me estranha que alguém que tenha escrito sobre o apodrecimento e sobre a morte não entenda o papel do assim chamado "feio" na arte. É certo que foi o próprio poeta que produziu esses poemas. Mas que se pense no "Poema Tirado de uma Notícia de Jornal", de Manuel Bandeira. A arte existe justamente porque a vida não basta (como já dizia Fernando Pessoa) e essas obras não negam a arte, mas a reafirmam, problematizam e ampliam a dimensão da própria vida.
NOEMI JAFFE, 51, é escritora e doutora em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo
Porque a vida não basta por Ferreira Gullar, Folha de S. Paulo
Porque a vida não basta
Texto de Ferreira Gullar originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo em 22 de setembro de 2013.
A arte contemporânea acabou com a crítica; isso é expressão da crise por que passam as artes plásticas
Embora tenha frequentemente criticado o que se chama de arte contemporânea, devo deixar claro que não pretendo negá-la como fato cultural. Seria, sem dúvida, infundado vê-la como fruto da irresponsabilidade de alguns pseudoartistas, que visam apenas chocar o público.
Há isso também, é claro. Mas não justificaria reduzir a tais exemplos um fenômeno que já se estende por muitas décadas e encontra seguidores em quase todos os países.
Por isso, se com frequência escrevo sobre esse fenômeno cultural, faço-o porque estou sempre refletindo sobre ele. Devo admitir que ninguém me convenceria de que pôr urubus numa gaiola é fazer arte, não obstante, me pergunto por que alguém se dá ao trabalho de pensar e realizar semelhante coisa e, mais ainda, por que há instituições que a acolhem e consequentemente a avalizam.
O fato de negar o caráter estético de tais expressões obriga-me, por isso mesmo, a tentar explicar o fenômeno, a meu ver tão contrário a tudo o que, até bem pouco, era considerado obra de arte. Não resta dúvida de que alguma razão há para que esse tipo de manifestação antiarte (como a designava Marcel Duchamp, seu criador) se mantenha durante tantos anos.
Não vou aqui repetir as explicações que tenho dado a tais manifestações, as quais, em última análise, negam essencialmente o que se entende por arte. Devo admitir, porém, que a sobrevivência de tal tendência, durante tanto tempo, indica que alguma razão existe para que isso aconteça, e deve ser buscada, creio eu, em certas características da sociedade midiática de hoje. O fato de instituições de grande prestígio, como museus de arte e mostras internacionais de arte, acolherem tais manifestações é mais uma razão para que discutamos o assunto.
Uma observação que me ocorre com frequência, quando reflito sobre isso, é o fato de que obra de arte, ao longo de 20 mil anos, sempre foi produto do fazer humano, o resultado de uma aventura em que o acaso se torna necessidade graças à criatividade do artista e seu domínio sobre a linguagem da arte.
Das paredes das cavernas, no Paleolítico, aos afrescos dos conventos e igrejas medievais, às primeiras pinturas a óleo na Renascença e, atravessando cinco séculos, até a implosão cubista, no começo do século 20, todas as obras realizadas pelos artistas o foram graças à elaboração, invenção e reinvenção de uma linguagem que ganhou o apelido de pintura.
Isso não significa que toda beleza é produto do trabalho humano. Eu, por exemplo, tenho na minha estante uma pedra --um seixo rolado-- que achei numa praia de Lima, no Peru, em 1973, que é linda, mas não foi feita por nenhum artista. É linda, mas não é obra de arte, já que obra de arte é produto do trabalho humano.
Pense então: se esse seixo rolado, belo como é, não pode ser considerado obra de arte, imagine um casal de urubus postos numa gaiola, que de belo não tem nada nem mantém qualquer relação com o que, ao longo de milênios, é tido como arte. Não se trata, portanto, de que a coisa tenha ou não tenha qualidades estéticas --pois o seixo as tem-- e, sim, que arte é um produto do trabalho e da criatividade humana. Se é boa arte ou não, cabe à crítica avaliar.
E toca-se aqui em outro problema surgido com essa nova atitude em face da arte. É que, assim como o que não é fruto do trabalho humano não é arte, também não é possível exercer-se a crítica de arte acerca de uma coisa que ninguém fez.
O que pode o crítico dizer a respeito dos urubus mandados à Bienal de São Paulo? A respeito de um quadro, poderia ele dizer que está bem mal-executado, que a composição é pobre ou as cores inexpressivas, mas a respeito dos urubus, que diria ele? Que não seriam suficientemente negros ou que melhor seria três em vez de dois? Não o diria, pois nada disso teria cabimento. Não diria isso nem diria nada, porque não é possível exercer a crítica de arte sobre o que ninguém fez.
Desse modo --e inevitavelmente--, a chamada arte contemporânea acabou também com a crítica de arte. Isso tudo é, sem dúvida, a expressão da crise grave por que passam hoje as artes plásticas.
Costumo dizer que a arte existe porque a vida não basta. Negar a arte é como dizer que a vida se basta, não precisa de arte. Uma pobreza!
outubro 13, 2013
Dossiê: O episódio da censura à obra da artista Márcia X por parte do CCBB
Publicações no Canal Contemporâneo - cartas e manifestos de artistas, abaixo-assinado, matérias e editoriais, posicionamentos do Banco do Brasil e do então Ministro da Cultura Gilberto Gil - sobre a censura à obra "Desenhando com Terços", de Márcia X, na exposição Erótica no Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio de Janeiro, em 2006, que culminou com o cancelamento da itinerância da mostra para o CCBB de Brasília.
CARTAS, MANIFESTOS E ABAIXO-ASSINADO
Exigimos que a obra censurada pelo CCBB retorne à exposição, A Gentil Carioca - 24/04/2006
Carta enviada ao Banco do Brasil pelos artistas Maurício Dias e Walter Riedweg - 24/04/2006
ABAIXO-ASSINADO CENSURA NÃO! - Pelo retorno da obra de Márcia X à exposição Erótica no CCBB - parte 1
ABAIXO-ASSINADO CENSURA NÃO! - Pelo retorno da obra de Márcia X à exposição Erótica no CCBB - parte 2
Comentários enviados pelos signatários do abaixo-assinado Censura Não!
Comentários enviados pelos signatários do abaixo-assinado Censura Não! - continuação
Banco do Brasil responde a três perguntas do Canal Contemporâneo - 24/04/2006
Cartas de Rosângela Rennó e Annelise Davée Llerena para o CCBB em 24 de abril de 2006 - 25/04/2006
Nota à Imprensa: Ministro da Cultura, Gilberto Gil, manifesta-se contrário à proibição de obra da artista plástica Márcia X - 25/04/2006
Resposta ao Prof.Felipe Aquino e ao Prof.Paulo Adib Casseb pela Profa.Deborah Sztajnberg - 29/04/2006
Márcia X - Manifestação de 29 de abril, por Alex Hamburger - 01/05/2006
Uma polêmica censurada ou o x da congestão erótica, por Marcos Hill - 04/05/2006
Marcia X e o CCBB - Censura e/ou a lógica do sistema?, por Paulo Paes e Luiz Camillo Osorio - 19/05/2006
O Corpo da Arte - É o seu silêncio que permite que tudo isso aconteça, por Bia Medeiros e Daniela Bezerra - 26/05/2006
MATÉRIAS E EDITORIAIS
Banco retira "terço erótico" de exposição no RJ, do Terra Online - 20/04/2006
Banco proíbe "terço erótico" em exposição por Talita Figueiredo, Folha de S. Paulo - 20/04/2006
Curador diz ter ficado chocado e que havia restrição de idade por Luiz Fernando Vianna, Folha de S. Paulo - 20/04/2006
Matérias do jornal Extra / Globo Online sobre a Manifestação contra a censura à obra de Márcia X no CCBB - 21/04/2006
Opus Christi quer proibir outra obra erótica por Talita Figueiredo, Folha de S. Paulo - 21/04/2006
Camiseta vai expor peça censurada por Mario Cesar Carvalho, Folha de S. Paulo - 21/04/2006
Maioria dos internautas não concorda com a retirada de obra polêmica do CCBB-RJ, Extra/Globo Online - 24/04/2006
Ato é protesto contra censura por Talita Figueiredo, Folha de S. Paulo - 25/04/2006
Ministro Gilberto Gil se manifesta contra censura à obra de Márcia X. por Suzana Velasco, o Globo - 25/04/2006
Arte Crucificada - Editorial da Folha de S. Paulo - 29/04/2006
BB cancela a exposição "Erotica" em Brasília por Mario Cesar Carvalho, Folha Online - 03/05/2006
CCBB cancela etapa de ‘Erotica’ em Brasília por Bernardo Araujo, O Globo - 04/05/2006
Obra de Marcia X considerada profana é proibida outra vez, Globo Online - 26/05/2006
E-NFORMES
ABAIXO-ASSINADO - CENSURA NÃO! - Pelo retorno da obra de Márcia X à exposição Erótica no CCBB - 25/04/2006
Passeata do Paço Imperial ao CCBB, EDUCA-AÇÃO / CENSURA NÃO! - 26/04/2006
CIRCUITO Artista também é correntista. Ação contra censura no CCBB, Brasília
Projeção da obra Desenhando co Terços pelo artista Leo Ayres na manifestação de 22 de julho de 2013
Alvo de censura, Márcia X tem obra iconoclasta revista em livro por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Alvo de censura, Márcia X tem obra iconoclasta revista em livro
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 12 de outubro de 2013.
Dossiê: O episódio da censura à obra da artista Márcia X por parte do CCBB
"É interessante pensar a impossibilidade das instituições de incorporar uma produção que tem carga pornográfica. Como o público vai ver um monte de pirocas depois de ter visto Monet?"
Quem pergunta é Márcia X, performer carioca morta em 2005, aos 45 anos, de câncer, antes de a resposta chegar.
Sua obra, de tão censurada e perseguida, ficou anos fora do radar até ressurgir com força numa mostra no Museu de Arte Moderna do Rio, no ano passado, e agora em livro organizado por Beatriz Lemos, que documenta todas as suas performances.
São quase 600 páginas de textos e imagens, só disponíveis em bibliotecas e centros culturais, já que o volume --financiado pela Funarte-- não pode ser vendido em livrarias.
Não deixa de ser, no entanto, um esforço louvável de dissecar a obra de Márcia X, que será sempre lembrada por usar terços para desenhar contornos de pênis em uma obra mostrada há sete anos no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, e que foi removida depois de grande pressão da comunidade católica.
Também por aparecer nua, só coberta com plástico transparente, num shopping do Rio. E por criar uma bacanal com bonequinhos de bebês, ou usar pênis de sex shop estilizados numa instalação.
"É claro que eram trabalhos que iam despertar uma reação", diz Ricardo Ventura, viúvo da artista. "Ela mexia com barris de pólvora."
primeiro confronto
Ou com "tabus muito fortes da nossa sociedade", nas palavras do poeta Alex Hamburger, que também foi casado com Márcia X. Ele estava lá, aliás, quando ela teve seu primeiro confronto público.
"Eu lia poemas e ia cortando partes da roupa, que era de plástico transparente com manchas vermelhas nas partes íntimas", diz Hamburger. "Foi um problema com a polícia, chegaram a apontar uma arma para a gente."
Dias depois do episódio, em 1986, Márcia X mandou uma carta de desabafo a um colunista do"Jornal do Brasil" que não entendera a ação.
"Já não é a primeira vez que vejo citada de forma incorreta a performance", escreveu a artista. "Ninguém sabia o que significava performance. Agora, a imprensa se ocupa em dizer que isso é a última moda, demonstrando que a situação evoluiu da ignorância completa para uma confusão diluidora."
É uma confusão que persiste. Museus e galerias lidam ainda hoje com o paradoxo de uma obra de arte que não tem presença física -uma ação efêmera, que a princípio não tem valor de mercado.
"Performance era uma coisa que não entendiam", diz Hamburger. "Só depois que nos separamos, em 1992, ela passou a incorporar objetos à obra, como coisas de sex shop. Até eu fiquei chocado."
Filha de pai militar e mãe ultracatólica, Márcia X também chocou a família com sua obra de teor iconoclasta.
"Um artista sempre trabalha com suas obsessões", afirma Ventura. "Sua obra infantilizava o mundo adulto e erotizava o mundo infantil."
