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Como atiçar a brasa

 


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julho 13, 2012

Pinacoteca exibe retrospectiva do venezuelano Cruz-Diez, O Estado de S. Paulo

Pinacoteca exibe retrospectiva do venezuelano Cruz-Diez

Matéria originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 13 de julho de 2012.

"A pintura do passado sempre tem suas mensagens codificadas, nada nela é ingênuo. Aqui não há código, é fenomenologia, é uma coisa que está acontecendo, uma obra no tempo e no espaço, uma ação. É o conceito de um presente perpétuo", diz o artista venezuelano Carlos Cruz-Diez. Desde a década de 1950, quando iniciou sua experimentação com a cor, movimento e luz, criando, de maneira única, as obras de sua série mais importante, a das "Fisiocromias", iniciada em 1959, ele se tornou um criador referencial. A retrospectiva que a Pinacoteca do Estado inaugura sábado, dedicada a Cruz-Diez, apresenta seu pensamento e sua produção para além do movimento da arte cinética ou da Op Art.

"Numa época em que os artistas pensavam ser a cor algo do passado, Cruz-Diez foi dos poucos que se interessou pelo tema e ainda quis inová-lo", diz Mari Carmen Ramirez, curadora de arte latino-americana do Museum of Fine Arts de Houston e da mostra "Carlos Cruz-Diez: Cor no Espaço e no Tempo", que ocupa as principais salas climatizadas da Pinacoteca, assim como o espaço Octógono do museu. Desde uma pintura figurativa de 1949, "Papagaio Verde", em que o artista representa uma favela de Caracas pelo viés do realismo social, sua motivação de então, até se chegar a uma sala com uma das instalações "Cromosaturação", em que cor e luz tornam-se experiência física, "na pele", a retrospectiva perpassa o caminho de uma experimentação pulsante do artista, que completa 89 anos em agosto.

O espectador é sempre importante na obra de Cruz-Diez. Em 1954, seus "Projetos para Muros Exteriores" já eram a vontade de o venezuelano levar a cor para o espaço e para a dimensão pública, criando trabalhos, depois, em relação com a arquitetura. "O mundo da cor é afetivo, cada pessoa terá uma resposta à obra", afirma Cruz-Diez. "Quando comecei a criar as Fisiocromias, as pessoas se surpreenderam com a matéria, mas o importante era o espetáculo", conta o artista. As primeiras obras da série, que colocavam a "instabilidade do plano". foram feitas a partir de estruturas com ripas de cartões pintados e comprimidos na superfície - depois foram usados filtros e outros materiais.

A maior revolução de Cruz-Diez, que vive em Paris desde 1960, foi, assim, a dedicação a uma pesquisa na qual a cor deixa de ser "elemento fixo" para transformar-se em "acontecimento" a partir da luz, do olho e do movimento do espectador. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

CARLOS CRUZ-DIEZ: COR NO ESPAÇO E NO TEMPO

Pinacoteca (Pça. da Luz, 2). Tel. (011) 3324-1000. 10 h/18 h (fecha 2ª). R$ 6 (sáb., grátis). Até 23/9. Abre sábado, 11 h.

Posted by Cecília Bedê at 3:06 PM

Obras do acaso por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Obras do acaso

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 13 de julho de 2012.

Fotógrafos caçam sincronia nas maiores metrópoles do mundo, em séries criadas para Bienal de SP e festival em Paraty

Numa esquina de Nova York, 14 pessoas vão olhar na mesma direção no que parece ser um mesmo instante. Em São Paulo, 12 passantes vão estar vestindo camisas listradas num mesmo dia numa determinada esquina.

Não são "flash mobs" ou performances combinadas antes da hora. Nas metrópoles do mundo, sincronias desse tipo vêm chamando a atenção de fotógrafos que decidiram transformar essas coincidências banais em testemunhos de seu tempo.

Com uma câmera escondida debaixo da camisa e um disparador acionado de dentro do bolso, o holandês Hans Eijkelboom já foi de Nova York a Xangai registrando esses acasos. Em São Paulo, onde fez algumas séries para a próxima Bienal, que começa em setembro, ele foi a pontos movimentados da cidade atrás dessas coincidências.

Enquanto isso, o dinamarquês Peter Funch, nome central do próximo Paraty em Foco, também em setembro, fez de sua rotina em Nova York, onde vive, uma série de flagras que parecem orquestrados, mas estão longe disso.

Ele vai ao mesmo lugar da cidade nas mesmas condições de luz e tempo e fotografa os passantes. Quando nota um ponto em comum, como as figuras que bocejam na imagem acima, ele monta uma cena artificial reunindo todos esses personagens.

"É um documento das relações humanas e de como nos comportamos nas ruas", diz Funch. "Mas mesmo algo documental pode ter alguns elementos de ficção."

Posted by Cecília Bedê at 1:25 PM

A dois passos do abismo, Diário do Pará

A dois passos do abismo

Matéria originalmente publicada no caderno Você do jornal Diário do Pará em 13 de julho de 2012.

A partir da próxima quarta-feira até o dia 2 de setembro, o público de Belém pode conferir O Fio do Abismo na Casa das Onze Janelas (um dia antes, é realizado um coquetel de abertura para convidados). Trata-se de um recorte da exposição Convite à Viagem – Rumos Artes Visuais 2011/2013, realizada em São Paulo, sob curadoria de Agnaldo Farias, quando foram exibidos os 100 trabalhos feitos pelos 45 selecionados em todo o país no mais recente edital do programa no segmento. Na capital do Pará, a mostra traz 24 obras de 18 desses artistas e a curadora é Gabriela Motta que trabalhou com Farias e assina essa versão em cocuradoria com Luiza Proença e Alejandra Muñoz. Ainda no dia 18, às 19h, elas dão palestra no Auditório do Museu do Estado do Pará sobre os conceitos de sua linha curatorial.

Para definir o tema do recorte em Belém, Gabriela analisou o conjunto dos trabalhos e procurou unificá-los em torno da representação de situações limítrofes. Assim, ela selecionou obras que problematizam circunstâncias antagônicas, porém contíguas, como chão e vão, vida e morte, passado e presente, amor e ódio, belo e feio e as dividiu em três subtemas de leituras complementares.

Em um deles, lida com a ideia de permeabilidade entre opostos exibida, por exemplo, nas obras Tapete e Faqueiro, do paulista Adriano Costa e Expiração 04, do mineiro Pablo Lobato. O primeiro utiliza objetos retirados de meios sociais excluídos que os usam de forma improvisada, como panos de chão e facas, para lançar dúvidas sobre a quem eles pertencem, quais os seus usos e novos significados. O artista joga perguntas institucionais de como expô-los ou como armazená-los. A obra de Lobato representa um ser vivo que passa a morrer a partir do momento em que existe, propondo problemas de ordem estética.

Ainda lidando com o oposto, mas de forma mais delicada, a artista paraibana Iris Helena usa o jogo semântico para indicar paradoxos no trabalho Notas Públicas. A obra é composta por um painel de post-its que formam uma foto de um lugar qualquer. Ela tende a se desmanchar e a perder partes, mas a dissolução é consequência de um rigor e um controle absolutos.

O segundo subtema lida com a noção de vertigem e a mudança radical na passagem de um estado a outro. Cada uma a seu modo, as obras desse segmento são trabalhadas entre a performance e as inutilidades e pertinências do sujeito-imagem. A violência física e psicológica é mostrada pela carioca Gabriela Mureb no vídeo Sem Título (Ânsia), em que o corpo que coordena a cena vivencia um jogo de submissão e controle, onde a cumplicidade é fundamental.

O vídeo Miss Zebra, da amazonense Naia Melo Arruda, apresenta um registro cheio de sensações antagônicas. Ele é composto de 15 esquetes em que a artista protagoniza cenas vestida com um pijama zebrado, com humor, sarcasmo e perspicácia visual, sem encadeamento lógico nem narrativa. O pernambucano Cristiano Lenhardt cria uma neblina de história: Polvorosa faz parte de um projeto chamado Entredécada, em que duas frágeis estruturas de madeira e papel vegetal servem de suporte para projeções de imagens. Nos vídeos, os personagens protagonizam fusões entre sujeito e contexto e a partir do contato entre as figuras, os corpos contaminam-se por chuviscos, aquela quase esquecida imagem de dissintonia de um televisor.

O terceiro conceito da mostra abrange trabalhos autorreferentes, que contêm em si o tema da obra como uma metalinguagem. Fábio Magalhães, da Bahia, se utiliza do tradicional óleo sobre tela na Série Retratos Íntimos para gerar uma experiência sensorial em que técnica e poética são complementares, apresentando a pintura como possibilidade de enfrentar tabus da representação. Ainda assumindo a imagem como problema central, o paulista Luiz Roque coloca o espectador entre duas imagens, como se, em vez de olhar a paisagem, fosse ela que observasse e sufocasse o espectador. Rodado com uma câmera que alcança 2500 frames por segundo, Projeção 0 e 1 versa sobre a força da imagem e o poder de acreditarmos nela.

Eloquente e visceral,a imagem fala

Diante de Morte Súbita, do mineiro João Castilho, há o fator surpresa pelo uso contundente de imagens violentas obtidas na internet. “São três minutos que parecem uma eternidade, em que se vê imagens turvas e distorcidas que antecipam a indesejada violência e a inevitável sincronia da morte. O que choca é o espelhamento que a obra é capaz de refletir e da avidez pelo trágico em nossa sociedade”, completa Gabriela.

SELEÇÃO E DIFUSÃO

A proposta do programa Rumos Artes Visuais é, com base na realidade de cada região, ao mesmo tempo viajar, diagnosticar e fomentar a criação visual do país. Assim, além de investigar o momento atual desta produção, detecta as direções e propicia aos selecionados oportunidades de difusão de seus trabalhos, intercâmbios e aprimoramento profissional por meio de ações de formação, como a concessão de bolsas de estudo.

AGENDE-SE

Exposição ‘O Fio do Abismo’. Abertura com coquetel para convidados na próxima terça (17), às 20h, na Casa das Onze Janelas (Praça Dom Frei Caetano Brandão, s/ n, Cidade Velha). A mostra segue em cartaz de 18 de julho a 2 de setembro, de terça-feira a sexta, das 10h às 18h. Sábados, domingos e feriados, das 9 às 14h. Ingressos: R$ 2. Entrada franca: crianças até 7 anos , adultos a partir dos 60 anos, portadores de necessidades especiais, grupos agendados e turmas da rede de ensino agendadas. Classificação indicativa: livre. Informações: 4009-8825 / 4009-8823.

e pelo email onzejanelas@gmail.com.

Palestra com curadoras e artistas da mostra. 18 de julho (quarta-feira), às 19h. Entrada franca. Ingressos distribuídos por ordem de chegada. Vagas: 80. Auditório do Museu do Estado do Pará [MEP]. Praça Dom Pedro II, s/n, Cidade Velha.

(Diário do Pará)

Posted by Cecília Bedê at 12:38 PM

julho 12, 2012

Ilusionismo da cor por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Ilusionismo da cor

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 12 de julho de 2012.

Cruz-Diez mostra na Pinacoteca suas telas mutantes e diz que arte é como 'bomba no tempo'

De sua desilusão com o realismo, Carlos Cruz-Diez forjou um arsenal de ilusões.

Em vez de denunciar questões sociais em quadros figurativos, como fez no início da carreira, o artista venezuelano decidiu recriar em sua obra toda a potência da cor e da luz, dominando uma espécie de ciência do olhar.

Foi em Paris, depois que viu a primeira mostra de cinéticos da história em 1955, na galeria de Denise René, marchande morta nesta semana, que Cruz-Diez teve o estalo para aplicar uma matriz de movimento a composições que não saem do lugar, mas que se transformam diante dos olhos, parecendo vibrar, flutuar e trocar de cor.

"Fazer com que as pessoas entendessem a cor no espaço me ocupou durante muitos anos", diz Cruz-Diez, 88, em entrevista à Folha, de seu ateliê em Paris. "Estava tentando devolver a vista a uma geração de cegos."

Essa cegueira, ou ilusão de que a cor é algo físico e preso a uma superfície, deve ser diluída em parte agora na megarretrospectiva dedicada a Cruz-Diez que a Pinacoteca do Estado abre neste sábado.

Na mostra, estão telas antigas de Cruz-Diez, exercícios figurativos ainda convencionais, tomando como base naturezas-mortas de Cézanne, além das obras mais ambiciosas, que reinventaram a percepção de cor e movimento.

Mas mesmo na fase inicial, as cores começam a dominar a composição, um cromatismo que se adensa até engolir todas as figuras e virar só cor nas primeiras abstrações que fez com tiras de papelão.

"Sou um artista que esquadrinha como transmitir ao espírito a percepção da cor", afirma Cruz Diez. "Em todas as minhas obras essa cor se faz e se desfaz diante dos olhos, num presente contínuo, sem passado nem futuro, como é sua realidade."

É essa ideia de suspensão, de catarse diante da cor, que Cruz-Diez compara ao impulso de mudança que suas primeiras obras figurativas tentavam expressar. Na visão dele, não são formas puras e vazias as de suas peças, mas abalos físicos e ideológicos.

"Arte é como uma bomba no tempo", resume. "Ela explode quando menos se espera e muda comportamentos que pensávamos imutáveis."

Cruz-Diez libertou a cor de seu plano físico

Artista dominou princípios teóricos para induzir a percepção dos tons

Telas ganham feições diferentes dependendo da luz e da posição em que são observadas pelos espectadores

Carlos Cruz-Diez foi enquadrado a contragosto entre os artistas cinéticos. Sua obra depende do movimento, mas não discute o movimento.

Dependendo do ângulo em que é visto, um quadro pode parecer todo branco, mergulhado em tons quentes ou se resfriar numa paleta glacial.

Isso porque é composto de tiras finíssimas de papelão ou alumínio fixadas na tela, pintadas ou serigrafadas em tons diferentes de cada lado, com maior e menor intensidade em cada uma das pontas.

No fundo, Cruz-Diez passou mais de 60 anos de sua vida tentando libertar as cores de seus suportes físicos.

"Quando criamos a exposição, vimos que sua obra ainda não havia sido entendida", conta Mari Carmen Ramírez, do Museu de Belas Artes de Houston, que organizou a mostra. "Ele não era do grupo cinético, mas se apoiou na matriz cinética para atingir os resultados que queria."

No caso, Cruz-Diez começou alternando dois tons distintos numa superfície de ripas de papelão, criando a ilusão de uma terceira cor. Depois chegou à conclusão de que os efeitos que buscava se resumiam a dois comportamentos básicos das tonalidades diante de olho humano.

ECO NA RETINA

Quase toda a obra de Cruz-Diez toma por base os princípios de cor aditiva e do deslocamento da cor. No primeiro, duas cores justapostas numa composição induzem o olhar a perceber outro tom.

No segundo caso, trechos em branco de um quadro acabam sendo percebidos como coloridos, uma espécie de eco na retina causada pela proximidade das outras cores.

"Essas cores se produzem com o efeito da luz e com o movimento do espectador", diz Ramírez. "Se a cor não existe sobre o suporte, ele a liberta, e ela ganha vida própria. É a passagem da cor de adjetivo a substantivo."

No enorme painel que fez para a Bienal de Veneza em 1970, que está na mostra, Cruz-Diez demonstra esse princípio em larga escala, uma tela que parece inundar a sala num dilúvio de cor.

Depois disso, seus experimentos se tornaram mais radicais. Cruz-Diez se livrou da tela convencional e passou a arquitetar ambientes inteiros mergulhados em cor, situações em que os espectadores caminham por zonas cromáticas intensas, confundindo a ideia de cor na pintura com a realidade da luz no espaço. "É experimentar e absorver a cor na pele", diz Ramírez. "Ele cria experiências quase alucinógenas."

Posted by Cecília Bedê at 4:01 PM

julho 10, 2012

Curador fala sobre novidades do 11º Festival de Arte de Serrinha por Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S. Paulo

Curador fala sobre novidades do 11º Festival de Arte de Serrinha

Matéria de Lauro Lisboa Garcia originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 6 de julho de 2012.

Parque de Instalações a céu aberto é novidade em 2012; evento celebra a 'possibilidade da diferença'

Com o tema Muitos Irmãos, celebrando "a possibilidade da diferença", o cenógrafo e artista plástico Fabio Delduque realiza a partir de amanhã a 11.ª edição do Festival de Arte Serrinha, em Bragança Paulista, que une diversas modalidades artísticas - música, cinema, fotografia, gastronomia, artes visuais - em oficinas, performances, encontros e shows musicais em vários ambientes. Uma das novidades deste ano é a criação do Parque de Instalações a céu aberto. Outra é o Teatro Rural, que será inaugurado no último dia do festival. "São muitas frentes", diz o artista e curador.

A fazenda já tem várias obras de artistas que são resultados de oficinas realizadas nas edições anteriores do festival. Elas estarão juntas no Parque de Instalações. Como será esse parque?

A ideia é que sejam todas peças criadas para o espaço. Existem alguns projetos que já estão até bem desenhados. Dudi Maia Rosa quer fazer duas torres espelhadas. Rochelle Costi quer fazer umas escadas em espiral, Carlos Fajardo quer fazer um trabalho com tijolos. A única obra pronta que a gente levaria para lá seria uma de Frans Krajcberg, mas dependeria de uma doação dele. Estou querendo procurá-lo para mostrar o projeto. Obviamente não temos como adquirir uma obra dele de galeria, mas acredito que ele seja sensível a um projeto como esse.

Por falar em sensibilidade, todo ano é uma batalha conseguir apoio e patrocínio para o festival, que tem procurado unir arte e educação. Este ano você conseguiu maior participação do governo do Estado, por exemplo?

Durante a negociação do festival deste ano tive um monte de reuniões com as Secretarias Estaduais de Cultura e Educação e entendi que tem uma possibilidade incrível de integração. Temos também apoio das secretarias municipais de Bragança. A gente este ano tem um programa de bolsas focado nos professores da rede pública, que são um dos públicos alvos do projeto para o ano que vem. A ideia é ter na Serrinha uma atividade que seja anual, que seja mais concentrada no festival, mas que tenha o ano todo. Existem diversas possibilidades que estamos negociando, dentre elas a Unesp, via Zé Espanhol, Agnus e Sérgio Romagnolo, que são professores artistas. A ideia é que os cursos de extensão universitária possam fazer residência na Serrinha algumas vezes por ano. Vamos fazer uma experiência agora no segundo semestre. Outro ponto é a criação de cursos para formação de professores, que a gente está articulando com as Secretarias de Cultura e Educação. A gente teria um projeto pedagógico criado a partir das obras existentes na Serrinha e outras que virão.

Como é o Teatro Rural? O que está previsto na programação?

O teatro é de madeira e terá um palco que abre para a floresta de eucalipto. Então é tipo um Auditório do Ibirapuera, só que no meio do mato. A inauguração vai ser no último dia do festival. Em dezembro já vamos ter um festival de música instrumental, que terá Yamandú Costa, Trio Curupira e Bocato, entre outros. No ano que vem vai ter uma programação direta de teatro e show mais intimistas e também vai abrir para oficinas durante o festival todo. A capacidade é para 200 pessoas.

A ideia de intercâmbio entre as várias artes é uma das qualidades do festival, como você vê outros festivais pelo Brasil?

Nessa peregrinação anual pelos festivais aprendo muita coisa, mas percebo também que há pouca troca. Participei da última Bienal de São Paulo e conheci no máximo o cara que estava montando a obra do lado da minha. Não existe muito intercâmbio que é o que move o Festival de Arte Serrinha. A ideia também é levar o resultado dos trabalhos na Serrinha para fora. De 30 de agosto a 4 de setembro vai ter uma exposição no Paço das Artes em São Paulo.

Posted by Cecília Bedê at 10:30 AM

Fazenda pretende criar "Inhotim paulista" por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Fazenda pretende criar "Inhotim paulista"

Matéria de Silar Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 10 de julho de 2012.

Como no museu mineiro, Serrinha propõe mistura de arte contemporânea e natureza

Vacas pastam ao longe numa tarde ensolarada de inverno. No meio do mato, está um outdoor com a imagem de uma mula sem cabeça. Perto dali, uma instalação em que o esqueleto de uma casa parece flutuar sobre o campo.

Na fazenda onde acontece agora a 11ª edição do Festival de Arte Serrinha, vem tomando forma uma espécie de Inhotim paulista. Serão obras de 17 artistas espalhadas por um terreno do mesmo tamanho da Disneylândia da arte no interior mineiro, cerca de cem campos de futebol.

"Essa coisa de arte na natureza é a nossa história", conta Fabio Delduque, um dos donos da Serrinha, num passeio pelas terras. "Tem aproximações com Inhotim, mas não temos o capital inicial deles. Lá é mais um museu, aqui as coisas são criadas, são vivas, é um laboratório de experimentação."

De fato, não se compara o orçamento de R$ 1,1 milhão do parque de obras da Serrinha em Bragança Paulista, no interior de São Paulo, com os R$ 400 milhões despejados no Instituto Inhotim, centro nos arredores de Belo Horizonte, com um dos maiores acervos de arte contemporânea ao ar livre do mundo.

Mas artistas de peso na cena do país, como Laura Vinci, Carlos Fajardo, Rochelle Costi e José Spaniol, já estão desenhando seus projetos para o parque onde já estão instalações de Luiz Hermano, que fez a casa flutuante, Bené Fonteles, que construiu um redemoinho de tijolos, e Eduardo Srur, que pôs um barquinho de papel gigante no lago da fazenda.

Alguns desses e a maioria dos novos trabalhos devem ser feitos com materiais da terra, como tijolos fabricados nas olarias da região, eucaliptos das matas do entorno e formas em taipa de pilão.

OBRAS QUE NASCEM

"Todo mundo está desenhando coisas e me mandando", diz Delduque. "As obras estão nascendo agora."

Rochelle Costi, que esteve na última Bienal de São Paulo, deve construir duas escadas em espiral em algum ponto da fazenda. Spaniol deve fazer outra escada usando barro moldado ali mesmo.

Frans Krajcberg, artista famoso pela militância ecológica e por ter se isolado em um sítio na Bahia, também deve criar para o parque.

Suas peças de madeira recuperada, raízes e galhos retorcidos, farão eco ao mobiliário talhado em troncos de árvore do designer Hugo França, o mesmo de Inhotim, que também está na Serrinha.

Uma vez instaladas, as obras serão tema de um projeto que pretende levar professores de escolas públicas e outros artistas para cursos na fazenda. "A ideia é desdobrar essas obras em conteúdos", diz Delduque.

Posted by Cecília Bedê at 9:58 AM

Na barra da cultura por Fábio Marques, Diário do Nordeste

Na barra da cultura

Matéria de Fábio Marques originalmente publicada no caderno 3 do jornal Diário do Nordeste em 10 de julho de 2012.

Articuladores do "MAR - Movimento Arte e Resistência" reclamam mudanças na política cultural do Governo

Nenhum deles quer ser secretário, não têm nomes a indicar para o posto, nem pleiteiam cargos junto à Secretaria da Cultura (Secult). Quem garante é a coreógrafa Sílvia Moura e o articulador cultural Leandro Guimarães em relação aos participantes do "MAR - Movimento Arte e Resistência", que há 14 dias vêm mobilizando artistas cearenses em protestos (na rua e na internet) e na elaboração de uma pauta de sugestões, em meio à insatisfação declarada com a política cultural do Governo do Estado. A afirmação sobre o caráter não eleitoral e apartidário dos manifestantes vem em resposta à entrevista com o secretário da Cultura, Francisco Pinheiro, publicada com exclusividade na última sexta-feira, dia 6, pelo Caderno 3, onde o secretário alerta para o uso escuso da mobilização.

"O que o movimento questiona é a questão estrutural da Secult. Ser ou não o Pinheiro o secretário da Cultura não é fundamental. Porque pode mudar o gestor e continuar com a mesma estrutura", reitera Leandro, acompanhado por Silvia, que reclama que há bastante tempo as diversas linguagens artísticas vinham insatisfeitas com a política cultural da gestão Cid Gomes e com a atual estrutura de funcionamento da Secult.

"As linguagens já vinham conversando de maneiras diferentes com a secretaria. E já vinham insatisfeitas. Aliás, a gente já vinha insatisfeito desde a gestão anterior, do professor Auto Filho. Nós fomos procurados várias vezes, conversamos várias vezes, mas a gente não sente que há uma resposta concreta às nossas reivindicações", reitera.

As manifestações eclodiram após uma sequência de decisões por parte do Governo que resultaram na segunda saída de Francisco Pinheiro do cargo de secretário em um ano e meio de gestão, seguida pela posse do deputado estadual Antônio Carlos, que também deixou o cargo, dia 12 de junho, apenas seis dias depois de assumir. "Ele (Pinheiro) voltou pela terceira vez sem nos apresentar uma proposta concreta de governo. Isso gerou uma insatisfação muito grande pela falta de compromisso. Então, o compromisso dele é mais político do que o com a pasta que ele está ocupando", questionou Silvia Moura, lembrando ainda que pesou o fato de, nesse entremeio, Antônio Carlos ter assumido a pasta e se desligado via mensagem SMS, como divulgou à imprensa.

Críticas

As demandas do movimento foram organizadas em um abaixoassinado que circula entre os artistas recolhendo assinaturas e que deve ser encaminhado ao governador. Na próxima quarta-feira, às 16 horas, haverá um ato-show na Praça do Ferreira, em frente a sede da Secult, explica Sílvia, para cobrar ações concretas por parte do Governo. Na quinta-feira, dia 12, às 17 horas, está agendada ainda uma reunião com as categorias no Theatro José de Alencar para a organização de uma lista de demandas específicas que serão entregues à Casa Civil em anexo ao abaixoassinado. Hoje, também no TJA, de 14h às 17 horas, representantes da música se reúnem.

"A gente sabe que as soluções vão vir da pasta, mas a gente quer dizer para o governador o que a gente já disse na secretaria", reforça.

Os artistas questionam o fato do próprio governador, Cid Gomes, ter assumido "erros e omissões" em relação à pasta e anunciado, na ocasião da última posse de Pinheiro, uma "virada da cultura", que, no entendimento dos manifestantes, implicaria em grandes mudanças na política desenvolvida no Estado.

Em contraponto à fala do governador, reclamam os articuladores do MAR que, na entrevista publicada com Pinheiro na última sexta-feira, embora o secretário tenha assumido que há deficiências quanto ao trabalho da secretaria, ele sustentava a perspectiva "de continuar normalmente como estávamos anteriormente". "Como tem tanta gente dizendo que não está bem, que as coisas não têm andado como deveria e você está à frente disso e não ouve? Como vai continuar do jeito que está? Apresente uma proposta concreta para a categoria", questiona Sílvia.

Entre as críticas feitas à Secult, estão a falta de uma política cultural clara para o Estado capaz de dar conta das demandas, com ações que vão além da política de editais; a falta de uma equipe técnica especializada capaz de cumprir prazos e procedimentos burocráticos específicos da pasta; mais autonomia de gestão da secretaria, para que o conselho gestor do Fundo Estadual da Cultura possa de fato gerir os recursos e projetos a serem apoiados (decisão hoje atrelada ao gabinete do governador); interlocução especializada entre os profissionais da cultura e a secretaria e investimentos em formação nas diversas linguagens artísticas. Sílvia rebate ainda a reclamação de Pinheiro de que as áreas que mais protestam junto a secretaria - o teatro e a dança - seriam também as que são mais contempladas pelos incentivos da Secult. "Não é questão de orçamento. Embora a gente não esteja satisfeito com o incentivo que existe, a questão não é essa. Isso nem está no documento que a gente está levando para o governador", pontua.

Respostas

Em relação à entrevista dada por Pinheiro ao Caderno 3, Silvia destaca ainda que a necessidade de ações de formação nas diferentes linguagens não é suprida pela recente criação de cursos universitários voltados para linguagens como o audiovisual, a música e o teatro. O secretário havia ponderado que a criação de cursos é uma preocupação de sua gestão, mas que seria avaliada a demanda real de cada linguagem artística.

"Os projetos de formação que a gente solicita nada tem a ver com formação universitária. Embora a gente tenha aumentado o número de cursos de teatro e dança, isso não responde a uma demanda de formação básica. Nós só temos um curso acontecendo com o apoio do governo na dança (Cursos Técnico em Dança) e um do teatro (Curso de Princípios Básicos). Para um estado inteiro", diz.

E continua. "Depois de toda essa manifestação, a gente esperava que o secretário chamasse os artistas, não para uma conversa, que a gente já teve, mas para uma discussão mais ampla. Chamasse o estado para mostrar quais são as mudanças concretas para a secretaria nos próximos dois anos. Porque já foi perdido muito tempo. Manter os editais? A gente não está satisfeito com o edital. O edital é uma ferramenta, uma parte de uma política pública, não deve ser o todo de uma política pública", e encerra, "a gente esperava depois dessa mobilização toda uma reação de ´vamos lá gente, tá complicado? Vamos trabalhar´".

Posted by Cecília Bedê at 9:25 AM

julho 9, 2012

Mitos e Mutações por Nina Gazire, Istoé

Mitos e Mutações

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 6 de julho de 2012.

A fotógrafa americana Francesca Woodman, que criava imagens inspirada na mitologia grega e no surrealismo, ganha a sua primeira exposição no Brasil

Francesca Woodman, Galeria Mendes Wood, São Paulo, SP - 25/06/2012 a 21/07/2012

Embora tenha interrompido sua obra aos 22 anos – e tragicamente, ao se atirar de um prédio em Nova York –, a fotógrafa americana Francesa Woodman deixou um grande acervo, com cerca de dez mil negativos. Filha de pai fotógrafo e mãe escultora, ela deu a largada na sua produção aos 14 anos e em apenas oito anos constituiu um rápido, mas genial conjunto de imagens. Em vida, a artista nunca chegou a ter uma carreira reconhecida e viu apenas 800 fotos de sua autoria serem reveladas. Hoje, contudo, o seu espólio, mantido por seus pais, Betty e George Woodman, em parceria com a Marian Goodman Gallery, uma das mais importantes dos EUA, é um dos mais requisitados. Parte dele pode ser vista na exposição que a galeria Mendes Wood, em São Paulo, exibe até o dia 21, na primeira mostra da artista no País.

Heroínas vitorianas, composições surrealistas e temas retirados da mitologia grega povoam suas imagens, sempre feitas em preto e branco. Modelos nuas ou seminuas dão forma a esse imaginário de modo fugidio e instável, já que a artista constantemente usava uma longa e lenta exposição para fazer suas fotos. Outra de suas obsessões era retratar a si própria. Recentemente, Francesca esteve em cartaz no Museu Guggenheim, em Nova York, em uma das maiores retrospectivas já realizadas em torno de sua obra. Encerrada no dia 13 de junho, uma parte considerável da mostra de Nova York está presente na seleção feita pela galeria Mendes Wood. “É incrível o fato de que somente agora o Brasil tenha recebido o trabalho de Francesca. A sua obra é um divisor de águas e influenciou toda uma geração de fotógrafos, e continua a influenciar até os dias de hoje”, afirma o americano Matthew Wood, dono da galeria e responsável pela curadoria da mostra.

Fascinado pelas imagens de Francesca, Wood foi a New Hampshire, nos EUA, onde os pais dela vivem, para escolher as 30 fotografias que integram a antologia. Ele optou por apresentar a evolução da produção da artista de maneira cronológica, a partir de 1972. As fotos mais recentes são de 1981, ano de sua morte. “Ela teve uma produção rápida e densa e não pôde amadurecer seu trabalho. A cronologia dá uma ideia de como seus temas e experimentalismo evoluíram”, diz Wood.

Além do traço fortemente feminino, as fotos de Francesca impressionam ao registrar a passagem do tempo como metamorfose. Talvez por isso ela tenha se interessado tanto pela mitologia grega, já que grande parte de suas narrativas tratam exatamente da transformação. A imagem “Sem Título – 1979-1980”, que mostra uma mulher acariciando um cisne, é uma referência ao mito de Leda, princesa grega que foi seduzida por Zeus quando ele se metamorfoseou na ave. “A obra de Francesca se dá pela vibração, pela ideia de que uma imagem é algo instável no sentido de que a natureza do ser é sempre o movimento, a transformação”, afirma Wood.

Posted by Cecília Bedê at 3:07 PM

Derivas audiovisuais por Nina Gazire, Istoé

Derivas audiovisuais

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 6 de julho de 2012.

Luiz Duva - Tormentas, Galeria Pilar, São Paulo, SP - 27/06/2012 a 18/08/2012

A experiência que teve ao vivenciar uma terrível tempestade na costa da Inglaterra é o ponto de partida para uma série de trabalhos que o artista Luiz duVa vem desenvolvendo há cerca de quatro anos. Os resultados dessa pesquisa estão agora nas salas da Galeria Pilar, em São Paulo. Sua proposta foi transformar toda a produção resultante em uma espécie de ocupação ensaística sobre as tormentas, em que uma série de trabalhos em diferentes suportes cria uma narrativa sobre a noção de tempestade.

As tormentas dos mares são um dos temas preferidos da pintura do período romântico. Antes de duVa, o pintor britânico William Turner realizou, durante o século XIX, expedições pela costa inglesa registrando em luzes contrastantes e pinceladas convulsionadas as águas agitadas da região. Quase duzentos anos depois, duVa repensa essa iconografia ao utilizar as mídias digitais para transferir sua experiência pessoal para o público, enfatizando o aspecto corpóreo e sensorial.

Na instalação “Tormenta Azul Brilhante” (foto), que abre a mostra, o artista cria um ambiente imersivo em forma de cubo no qual fragmenta suas imagens marítimas, misturando-as aos sons e luzes que dão a sensação de se estar em meio a um estorvo – isso aproxima o significado literal da palavra tormenta ao seu sentido conotativo. “A montagem da exposição foi concebida para transmitir o processo de pesquisa do artista para o espaço da galeria”, diz Christine Mello, crítica de arte e curadora da mostra.

Além da instalação, nove impressões mostram imagens estáticas retiradas das manipulações realizadas na obra “Tormenta Azul Brilhante”. Junto a essas impressões está posicionado um vídeo que apresenta o registro de um mar calmo, tratando-se da primeira imagem captada pelo artista no início do trabalho: fragmentos imperceptíveis e inalcançáveis quando vivenciados na instalação anterior. “Ele faz um percurso poético muito profundo, estabelecendo uma relação corpórea com a imagem e o som. Promove sensações para o outro por meio da imagem”, continua Christine, que, com o artista, criou um ambiente contínuo impossível de ser alcançado apenas com o sentido da visão.

Posted by Cecília Bedê at 2:58 PM

Preços estratosféricos no mercado de arte mascaram realidade por Mike Collett-White, O Estado de S. Paulo

Preços estratosféricos no mercado de arte mascaram realidade

Matéria de Mike Collett-White originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 9 de julho de 2012.

Desconexão entre os 'melhores' e outras peças à venda é contradição nos leilões

LONDRES - Uma publicação de arte comparou as vendas recordes de verão, que acabaram de se encerrar em Londres, a andar sobre a água, embora as casas de leilões digam que não há nenhum milagre por trás dos preços estratosféricos que desafiam o ambiente econômico amplamente pessimista.

Três semanas de vendas nas galerias Christie's e Sotheby's, e em rivais de menor porte, terminaram nesta quinta-feira, 5. Mas enquanto os raros tesouros datando do século 14 até os dias de hoje eram rapidamente levados, uma grande quantidade de lotes bem menos desejados ficaram encalhados.

A Christie's, maior casa de leilões do mundo, vendeu arte no valor total de 385 milhões de libras (600 milhões de dólares) e registrou recordes para obras de John Constable, Yves Klein e Jean-Michel Basquiat.

A Sotheby's, sua rival mais próxima, arrecadou 346 milhões de dólares, valor que sobe para 411 milhões de dólares se for incluída a coleção de Gunter Sachs, vendida em Londres em maio. E também estabeleceu um recorde, para o artista espanhol Joan Miró, cuja obra "Pintura (Estrela Azul)", de 1927, foi vendida por 36,9 milhões de dólares.

No entanto, nesse mesmo leilão, os preços ficaram abaixo das expectativas, evidenciando o que alguns peritos consideram ser uma "desconexão" entre o melhor de tudo e tudo o mais à venda.

"Quando se lê as manchetes, parece que tudo vai bem no mercado de arte. Não é assim", disse Georgina Adam, colaboradora do Art Newspaper, em um artigo no Financial Times.

MILIONÁRIOS ESBANJAM

O apetite pelos tesouros mais preciosos está lá para todos verem. Em maio, a única cópia de “O Grito, de Edvard Munch, que ainda estava em mãos de particulares foi levada à venda pela Sotheby's de Nova York.

Depois de cerca de 15 minutos de intensa disputa, com acréscimos nos lances na casa dos milhões de dólares, foi arrematada por 120 milhões de dólares, incluindo comissão, em um novo recorde para uma obra de arte em leilão.

Os dois recordes anteriores também eram recentes: "Nu, Folhas Verdes e Busto", de Picasso, por 106,5 milhões de dólares, em maio de 2010 (havia sido vendido por 19.800 dólares em 1951; e, em fevereiro de 2010, "O Homem que Caminha", escultura de Alberto Giacometti, por 104,3 milhões de dólares.

O valor de negócios privados é ainda mais estonteante.

Numa troca amplamente noticiada em 2011, mas ainda não confirmada, o Catar levou o famoso "Os Jogadores de Cartas', de Paul Cézanne - a única versão que não está num museu - por 250 milhões de dólares.

Posted by Cecília Bedê at 2:29 PM

Ousadias da Infância nas leituras de três artistas por Fábio Marques, Diário do Nordeste

Ousadias da Infância nas leituras de três artistas

Matéria de Fábio Marques originalmente publicada no caderno 3 do jornal Diário do Nordeste em 9 de julho de 2012.

Infância - Cao Guimarães, Nan Goldin e Paula Trope, Centro Cultural Banco do Nordeste, Fortaleza, CE - 06/07/2012 a 05/08/2012

Nem regras, nem perigo, nem limites para a realidade e os sonhos. O mundo sob a perspectiva da infância é um lugar onde se permite transgredir essas amarras da vida adulta com a naturalidade de quem as desconhece. Na exposição “Infância”, em cartaz até o dia cinco de agosto no Centro Cultural Banco do Nordeste de Fortaleza, três artistas com obras e origens distintas traçam seu recorte sobre este universo e transportam o público para seus dias de ousadia infantil.

“Eles não impõem essa visão da infância, mas criam a atmosfera que a sugere”, arrisca o curador da mostra, Moacir dos Anjos, que aproximou o trabalho dos três artistas em torno dessa ideia de infância como “um lugar quase utópico, onde os condicionantes da vida adulta ainda não estão marcados”.

A mostra reúne obras da artista norte-americana, Nan Goldin, do mineiro Cao Guimarães e da carioca Paula Trope. Embora os três trabalhem com recursos audiovisuais, possuem trabalhos em linhas e propostas bastante distintas.

“A ideia da exposição surgiu quando vi o trabalho da Nan Goldin em Londres. Fiquei encantado por essa visão da infância que ele induzia. Lembrei do trabalho desses outros dois artistas, que eu já conhecia e resolvi aproximar os trabalhos para levantar estas questões”, remonta o curador. Em exposição, vídeos e projeções fotográficas.

Obras

Inspiradora da exposição, a projeção “Fire Leap” (de 2010), de Nan Goldin, reúne fotografias da família, de amigos da artista e dos filhos destes amigos em momentos diversos de suas intimidades. São dezenas de imagens recolhidas entre 1970 e o ano 2000, divididas por tema e acompanhada de músicas com vocais infantis.

“As imagens projetadas enfatizam sempre um aspecto da infância. Desde mulheres gravidas e nascimentos, passando pela relação dos filhos com os pais, das crianças entre si”, ilustra. As fotos mostram ainda crianças em situações introspectivas, mais melancólicas, contrapondo ideia da infância como algo sempre exuberante.

Moacir chama atenção para a diferença desta série em relação a outros trabalhos da artista, pela ausência de sinais de violência ou angústia, que permeiam as fotografias de Nan quando o universo adulto está em foco.

De Cao Guimarães, cineasta e artista plástico de Belo Horizonte, compõem a exposição os vídeos “Da Janela do Meu Quarto” (2004), com cinco minutos de duração e “ “Peiote” (2007), com quatro, ambos rodados em Super-8. “O Cao traz dois trabalhos que te colocam diante desse universo infantil que rompe essas classificações rígidas sobre as coisas” argumenta. Com cenas filmadas ao acaso pelo autor, o primeiro filme, de 2004, traz a imagem de duas crianças na rua em meio a uma chuva. “Não se sabe se eles estão brincando ou brigando.

Tudo fica ali misturado na lama, se desmanchado na lama”, desvenda. O outro trabalho, “Peiote”, retrata uma criança dançando em meio a um grupo de dança folclórica no México. “A criança que se mete na apresentação.

Ela começa tentando imitar os dançarinos e no final se desliga disso e cria uma dança dela própria, subvertendo espaço dos dançarinos adultos. Ignora as regras que estão sendo seguidas pelos adultos”, reflete o curador.

Fechando o ciclo, Paula Trope apresenta também dois trabalhos. “Contos de Passagem” (2001) e “Traslados” (1996-1998). O primeiro, é um documentário focado entrevistas feitas com crianças que moravam nas ruas do Rio de Janeiro no início do ano 2000. O segundo, traz pares de fotografia projetados na parede, onde de uma lado estão crianças brasileiras, tiradas em poses espontâneas, e do outro crianças cubanas interagindo com as fotos originais. “Ela levou fotos para Havana em 1997 e pediu para as crianças escolherem uma das fotos e posarem de uma forma que dialogassem com as brasileira. Quase como intercambio, uma aproximação entre dois mundos distante”, explica Moacir.

Transgressão

A iniciativa faz parte do projeto Política da Arte, realizada pela Fundação Joaquim Nabuco e trazida a Fortaleza por meio de parceria com o CCBNB. Moacir dos Anjos argumenta que todas estas questões levantadas pelas obras guardam como pano de fundo um caráter político, que é o foco do projeto. “Fazem lembrar que nosso mundo adulto não necessariamente tem que ser o que é. Outros futuros, lá atrás eram possíveis”, diz.

Mesmo a infância sofrida, que é retratada por Paula Trope em “Contos de Passagem”, destrincha o curador, mostra a capacidade destas crianças de imaginar outros futuros para elas. “Futuros que olhando do ponto de vista adulto são difíceis de serem atingidos, mas ali, naquele momento, elas têm essa capacidade de imaginar”, completa. A exposição já passou por Recife e, ainda este ano, deve ir para Salvador e, em seguida,
São Paulo.

Posted by Cecília Bedê at 1:08 PM