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março 23, 2007
REDE NO BRASA Onde está a burguesia paulista ? em Houston II, por Paulo Henrique Amorim, Portal IG
Onde está a burguesia paulista ? em Houston - II
Matéria de Paulo Henrique Amorim, originalmente publicada no blog conversa-afiada.ig, no dia 22 de março de 2007
Máximas e Mínimas 238
. Estes são os homens e mulheres mais ricos do Brasil, em 2007, segundo a revista americana Forbes:
Joseph Safra; Jorge Paulo Lemann; Aloysio de Andrade Faria; Antonio Ermirio de Moraes; Moise Safra; Marcel Herrmann Telles; Carlos Alberto Sicupira; Rubens Ometto Silveira Mello; Julio Bozano; Abilio dos Santos Diniz; Dorothéa Steinbruch; Elie Horn (da Cyrela); Guilherme Peirao Leal (da Natura); Eliezer Steinbruch (CSN); Constantino de Oliveira (Gol)
. É claro que outros nomes poderiam estar aí - como, por exemplo, nomes da família Setúbal (Itaú), Moreira Salles (Unibanco), outros usineiros de açúcar; e "new money", como os que se fizeram na privatização de Fernando Henrique Cardoso, como Daniel Dantas e André Lara Rezende.
. Nenhum deles impediu que a fantástica coleção de arte construtiva brasileira de Adolpho Leirner fosse vendida a um museu de Houston, no Texas.
. Nenhum museu de São Paulo - um deles, por exemplo, dirigido por Milú Villela, do grupo controlador do Banco Itaú - se interessou pela coleção.
. (Um dos museus estava fora de cogitação, porque não tinha dinheiro para pagar a conta da luz...)
. Não é a primeira vez que São Paulo se vê diante de situação igualmente constrangedora: quer ir ver o "Abapuru", de Tarsila do Amaral? Dê um pulo ao Malba, em Buenos Aires...
. Nos anos 90, um banqueiro argentino arrematou o "Abapuru" numa casa de leilões em Nova York, já que o vendedor brasileiro não conseguiu interessar nenhum milionário brasileiro...
. Leirner procurou todos os museus. Ofereceu a coleção a todos eles.
Leia a matéria completa no blog conversa-afiada.ig
março 22, 2007
Sururu nas artes plásticas, por Marcos Augusto Gonçalves
Sururu nas artes plásticas
Matéria de Marcos Augusto Gonçalves, originalmente publicada na Folha de São Paulo no dia 22 de março de 2007
Patriotada e hipocrisia marcam reações à venda da coleção de arte de Adolpho Leirner para Houston
Estava cheia, na noite de terça, a galeria Millan, na Fradique Coutinho. Artistas, colecionadores, escritores, fotógrafos e modernetes foram ver a bela exposição de fotografias de Miguel Rio Branco. E só se falava de outra coisa: as reações à venda da coleção de Adolpho Leirner para o Museu de Belas Artes de Houston e o arroubo de criatividade do curador Teixeira Coelho e da cenógrafa Bia Lessa, que decidiram "inovar" na mostra da coleção de arte do Itaú. Artistas como Paulo Pasta, Vergara e Antonio Manuel, que haviam chegado à galeria da Vila Madalena vindos da exposição da Paulista, babavam de indignação.
Mas falemos da transferência das obras de Leirner para Houston, já que o bafafá do Itaú está relatado aí acima, na coluna da Mônica Bergamo. A notícia da venda foi publicada pela Ilustrada, no sábado. Seria natural -e apropriado- que se lamentasse o fato de esse importante conjunto de obras do concretismo e neoconcretismo não ter sido adquirido por um museu brasileiro ou por um desses institutos culturais financeiros que usam a renúncia fiscal criada pela Lei Rouanet para fomentar a arte no país.
Mas muito do que se viu nas reações ao anúncio da venda não passou de patriotada preconceituosa, ressentida e hipócrita. Adolpho Leirner parece estar sendo culpado por alguns de ser um indivíduo -ou um "judeu paulista"?- que passou mais de 40 anos a reunir obras de nossos artistas construtivistas, formando uma valiosa coleção privada. Valiosa hoje, pois o establishment da arte brasileira passou anos desprezando solenemente o concretismo e ignorando a grandeza de Hélio Oiticica.
Há anos, a coleção de Leirner, que foi exposta no MAM de São Paulo, está à venda. É óbvio que é preciso criticar a ausência de uma política de aquisições nos museus brasileiros. E não tenho dúvida de que os recursos da Lei Rouanet poderiam ser mais bem utilizados.
Mas o fato é que ninguém quis pagar o preço do colecionador, até que o museu de Houston -uma instituição, diga-se, de alto nível, focada em arte latino-americana- interessou-se.
O que queriam os revoltados? Que Leirner cantasse o hino nacional e enxotasse a pedradas os pretendentes imperialistas?
O mundo está cheio de museus que reúnem obras relevantes de artistas de vários países -é conhecido o caso das coleções francesas do século 19 guardadas na Rússia.
Brasileiros adoram propor leis e regulamentos, tanto quanto descumpri-los. Há quem simplesmente queira impedir por decreto que as obras sejam vendidas. Não poderiam sair do país. Que tal, então, proibir também a participação de galerias brasileiras em feiras internacionais e -para sermos coerentes- a aquisição de obras de artistas estrangeiros por instituições e colecionadores brasileiros?
Ou será que só Leirner vende Hélio Oiticica, Lygia Clark, Waldemar Cordeiro ou Mira Schendel para o exterior? E os nossos prestigiados artistas contemporâneos? Não seria melhor, preventivamente, trancafiá-los por aqui?
março 21, 2007
Depoimento completo de Ligia Canongia a Fabio Cypriano
Depoimento completo da crítica e curadora de arte Ligia Canongia ao jornalista Fabio Cypriano para o jornal Folha de S. Paulo
Caro Fabio,
Não estou fazendo um abaixo-assinado, mas iniciei um debate, daqui de Paris, via internet, com amigos artistas, críticos e diretores de museu, tentando conclamá-los a um protesto, que eu chamaria de cívico, contra essa venda, ou melhor, esse "desastre". A repercussão foi estimulante, e posso lhe garantir que estamos todos chocados.
Soube que, há 15 anos, o Adolpho tenta vender essa coleção no Brasil, sem sucesso. Se encontrou interesse nos EUA, tem seus plenos direitos em fazer a transação, uma vez ser um acervo privado. A questão não é essa. A questão, como todos nós sabemos, é o descaso público com a cultura.
Em qualquer país civilizado do mundo, haveriam leis de proteção contra a saída de acervos importantes de sua história.
Essa é maior coleção construtiva privada das Américas, e possui a nata da produção geométrica brasileira, o melhor momento moderno de nossa arte. Jamais poderemos recuperar essa parcela "imperdível" que perdemos. Isso é inacreditável, chocante, perverso.
Porque o MinC não se pronunciou? Porque não houve uma discussão com a sociedade? Como a alfândega, o fisco, as instâncias políticas deixaram essa coleção sair do Brasil? O museu de Houston está de olho na arte latino-americana, e tem recursos para varrer do mapa todo e qualquer patrimônio disponível. Cada país que segure o que é seu.
Os EUA compraram quantidades de obras modernas européias no pós-guerra, mas era uma Europa falida, com suas riquezas a leilão. O próprio Pietro Maria Bardi soube aproveitar o momento e comprar o acervo moderno do Masp, pois era um "negócio da China".
Não da para acreditar que permitimos um "negócio da China" com nosso patrimônio, nos dias de hoje. Que pais é esse? Essa coleção tinha que ter sido comprada, tombada e exposta em caráter permanente no Brasil. É a história do país saindo pelo ralo.
Abraços, Ligia
Simplesmente não se interessaram, por Suzana Velasco
'Simplesmente não se interessaram'
Matéria de Suzana Velasco, originalmente publicada no Jornal O Globo, no dia 21 de março de 2007
Artistas reagem à venda de coleção de Adolpho Leirner para o Museu de Houston
Avenda da coleção de Adolpho Leirner para o Museu de Belas Artes de Houston (MFAH), nos EUA, anunciada anteontem, vem causando um intenso debate e reações iradas no meio artístico. Segundo Leirner, depois de mais de dez anos tentando vender seu acervo para uma instituição brasileira, ele não teve outra opção. Considerada a mais importante coleção construtivista do país, ela reúne cerca de cem obras de nomes como Cícero Dias, Hélio Oiticica, Lygia Clark, Alfredo Volpi e Sérgio Camargo.
- Você acha que eu não gostaria de ter a coleção no Brasil? Não consegui - lamenta Leirner. - O problema é estrutural. Uns podem ter recursos, outros não, mas simplesmente não se interessaram, seja por falta de dinheiro, por ciúme de curadoria, por egos.
Em "Arte concreta no Brasil: a coleção Adolpho Leirner" (DBA Melhoramentos, 1998), organizado por Aracy Amaral, Leirner já atentava para o fato de instituições estrangeiras muitas vezes darem mais valor à arte brasileira do que o próprio Brasil, que freqüentemente se importa mais com exposições de fora. Sua coleção segue completa para o Museu de Houston, que vem investindo fortemente na arte latino-americana, restaurando obras de Hélio Oiticica e preparando um catálogo raisonné do artista. A coleção será exposta em maio, e ninguém tem dúvida do cuidado que o museu terá com ela. O que vem revoltando artistas e críticos é justamente a ausência desse cuidado em instituições brasileiras.
- É importante pensar como, havendo R$1 bilhão disponível em isenção fiscal este ano, ninguém esteve disposto a comprar essa coleção - diz o crítico de arte Paulo Sergio Duarte. - Há 15 anos Leirner tenta vender essa coleção e teve a coragem imensa de não dispersá-la num leilão, com o qual ele ganharia três vezes mais. É isso que dá a política cultural do Brasil, financeiramente, ficar à disposição das diretorias de marketing das empresas.
Artistas e críticos mostram espanto com o caso
No site Canal Contemporâneo, multiplicam-se as manifestações de espanto. "Por que nosso governo não interveio para comprar esse patrimônio insubstituível e mantê-lo no país?", escreve o artista Roberto Cabot. "O pior de tudo ainda é ouvir que, pelo menos em Houston, ela estará preservada e valorizada. Que país é esse?", dispara a crítica Ligia Canongia.
- Essa venda expressa a total incapacidade do Estado e da sociedade brasileira de conservarem seu patrimônio - afirma Moacir dos Anjos, diretor do Museu de Arte Moderna Aluísio Magalhães, em Recife.
O crítico Agnaldo Farias diz não ter uma visão "tão catastrofista", justamente porque a coleção estará bem cuidada:
- Seria interessante a coleção ficar aqui, mas o museu saberá cuidar dela. Os artistas pertencem ao mundo e temos que fazer por merecê-los.
Venda da coleção de Leirner gera protesto, por Fabio Cypriano
Venda da coleção de Leirner gera protesto
Matéria de Fabio Cypriano publicada originalmente no jornal Folha de S. Paulo, Ilustrada, em 21 de março de 2007.
Artistas e curadores se manifestam contra a transferência das obras aos EUA; colecionador diz que procurou a Pinacoteca e os principais museus do Brasil
"Falta espírito público por parte das instituições brasileiras, em nível federal, estadual e municipal, da elite financeira e do próprio colecionador", diz a historiadora da arte Aracy Amaral, resumindo a expressão de vários artistas e curadores que têm se manifestado, de modo intenso, pela internet, em relação à venda da coleção de arte construtiva brasileira do paulista Adolpho Leirner ao Museum of Fine Arts de Houston (EUA) -noticiada pela Folha no sábado. Amaral foi a editora da publicação "Arte Construtiva no Brasil", sobre a coleção Leirner, em 1998.
"Todos sabemos que o Leirner estava vendendo a coleção; ele ofereceu ao MAM paulista e à Pinacoteca, mas ninguém aqui se preocupa com patrimônio cultural, há uma falta de comprometimento", diz.
De Paris, a curadora Ligia Canongia tem liderado na internet um "protesto cívico" contra o que ela chama de "desastre": "A questão é o descaso público com a cultura. Em qualquer país civilizado do mundo, haveria leis de proteção contra a saída de acervos importantes de sua historia". (Leia o depoimento na íntegra.)
No site Canal Contemporâneo (www.canalcontemporaneo.art.br), o caso mereceu vários comentários indignados, entre eles da jovem artista Renata Lucas, que participou da última Bienal. A criadora do site, Patrícia Canetti, escreveu um texto intitulado "Houston, we have a problem/ Houston, nós temos um problema".
Adolpho Leirner diz que já havia colocado sua coleção à venda desde 1993. "Meu sonho era deixá-la no Brasil; conversei com todos os curadores, diretores de museus, a Milú Villela [presidente da diretoria do MAM de São Paulo e do Instituto Itaú Cultural], mas não agüentei mais. Sou a pessoa mais infeliz porque a coleção foi para fora, mas também sou a mais feliz porque ela está em Houston, em boas condições."
O colecionador relativiza os protestos afirmando que "nos últimos quatro anos, 400 obras do mesmo período da coleção saíram do Brasil, o que ninguém diz".
Marcelo Araujo, diretor da Pinacoteca do Estado, confirma ter "realizado gestões para adquirir a coleção". Entretanto, segundo ele, a venda agora concretizada atesta que "nossas elites e nossos governos não conseguem formular um mínimo projeto de formação de acervo para nossos museus".
Felipe Chaimovich, curador do MAM-SP, diz que "de fato a coleção foi oferecida, mas não conseguimos recursos suficientes para comprá-la".
Há quatro anos, segundo a Folha apurou, a colecionadora venezuelana Patricia Cisneros teria oferecido US$ 10 milhões (cerca de R$ 20,8 milhões) pela coleção. Cisneros é a mais importante colecionadora de arte brasileira no exterior e foi responsável, ao lado do curador Paulo Herkenhoff, pela introdução de Hélio Oiticica e Lygia Clark no MoMA (Nova York). Dois galeristas consultados pela Folha, que pediram para não ser identificados, estimam que a venda da coleção tenha ultrapassado US$ 15 milhões (cerca de R$ 31 milhões).
Legalmente, o governo brasileiro não pode fazer nada em relação à negociação. "A legislação do país protege aquilo que é tombado, o que não é o caso dessa coleção, e as obras até o período monárquico", diz Luiz Fernando Almeida, presidente do Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
março 20, 2007
Colecionar é uma busca, por Adolpho Leirner
Colecionar é uma busca
Trecho do texto de Adolpho Leirner escrito em 1998 e publicado no mesmo ano no livro Arte Construtiva no Brasil - Coleção Adolpho Leirner*.
A alegria de presenciar no momento atual o resgate e o reconhecimento, no exterior, dos trabalhos de Lygia Clark e Hélio Oiticica, em grandes e importantíssimas exposições itinerantes em capitais européias e americanas, infelizmente organizadas por instituições internacionais que se adiantaram ao Brasil.
Tenho preocupações com relação à nossa política cultural e, felizmente, observo uma nova ordem e interesse com relação a patrocínios e incentivos. Vejo com muita alegria, nos últimos anos, o desenvolvimento de nossas instituições culturais. Observo com reservas o patrocínio de exposições milionárias somente para a obra de artistas internacionais. Elas são necessárias e importantíssimas, mas o apoio à nossa arte deveria ser privilegiado em todos os aspectos e não situar-se numa posição da inferioridade para que, a partir de nossa casa, possamos nos respeitar e receber o reconhecimento do exterior. Observei que a programação de nossos museus chegou, nos últimos dois anos, a 70% de exposições dedicadas a artistas estrangeiros.
Não compreendo como artistas da qualidade de um Guignard e de uma Tarsila, por exemplo, não estejam presentes até hoje no Brasil inteiro, em nenhuma instituição ou sala, onde se posse ver a trajetória de suas obras em exposições permanentes. Uma política de aquisições e doações é essencial aos museus. Falta a organização de exposições temáticas, retrospectivas de artistas vivos ou mortos que, infelizmente, ainda não foram resgatados, proteger a dispersão de suas produções, um aumento substancial da nossa pequena bibliografia e a formação de catálogos raisonnés. Uma dedicação maior à arte brasileira é premente.
* AMARAL, Aracy (org.), Arte Construtiva no Brasil - Coleção Adolpho Leirner, DBA / Melhoramentos, São Paulo, 1998 - Patrocínio Lloyds Bank (sem lei de incentivo)
março 19, 2007
Houston, we have a problem... / Houston, nós temos um problema..., por Patricia Canetti
Houston, we have a problem... / Houston, nós temos um problema...
PATRICIA CANETTI
A Coleção Adolpho Leirner decolou do Brazil para aterrissar no Museu de Belas Artes de Houston e ficamos a nos perguntar o porque dela não estar pousando na Pinacoteca do Estado de São Paulo, ou no Museu de Arte Moderna de São Paulo, ou no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, ou no Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro... Enfim, porque o seu destino não foi uma instituição em terras brasileiras.
Em primeiro lugar, parece que depois de longos anos tentando vender sua coleção para alguma instituição brasileira (o colecionador não revela para quais), Adolpho Leirner, legítimo dono de sua coleção, achou que "Houston era o local mais adequado", como disse ele na matéria de sábado passado da Folha de S. Paulo. E pronto: mandou o nosso patrimônio para o espaço!
"Colecionadores compreendem que formam suas coleções não apenas para sua fruição privada, mas pelo benefício da sociedade, e por esta razão ele as mantém e preserva", diz Leirner na matéria do artdaily.org. Pena que este brilhante entendimento do que seja ser um colecionador não inclua a percepção de que a valorização de sua coleção se deu não apenas a partir de seu próprio trabalho em desenhá-la e manter seu foco, mas também a partir do trabalho de gerações de profissionais de arte brasileiros, que agora se vêem um pouco mais pobres e com a sensação de terem sido roubados.
Mas, digamos que ele tenha razão, que nenhuma instituição brasileira fosse tão ou mais adequada quanto à de Houston, como ficamos? Vamos continuar a ver outras obras e coleções irem para o espaço por falta de engajamento de nossa sociedade na questão patrimonial específica de acervos e museus? Quem se importa?
Os profissionais franceses andam estrilando com o aluguel de seu patrimônio para museus estrangeiros, com o objetivo de financiar a gestão de suas instituições culturais (Leia as matérias Museus à venda e Quando os museus viram mercadoria). Imaginem, isto para nós seria um luxo! Já pensou. Nossa sociedade e governo percebendo a importância da arte e de nossa produção artística, reformando nossas instituições para receber acervos (como manda o figurino, sem goteiras e riscos de curtos-circuitos; com segurança e seguro para todas as obras; com profissionais gabaritados para tratar das questões contemporâneas dos museus) e depois fazê-los viajar pelo mundo, gerando receita e divulgação da cultura brasileira... Só depois, com uma agenda de itinerância movimentada, poderíamos começar a reclamar, como os franceses, em relação ao absurdo que seria ver nossas obras "sofrendo" com tantas viagens.
Os franceses reclamam também de não terem a mesma tradição americana do investimento regular por parte da sociedade nas suas instituições. Lá na França, como aqui, esperamos que os governos, com os nossos suados impostos, resolvam tudo.
Os nossos governos municipais, estaduais e federal, mais à direita ou mais à esquerda, não parecem muito ligados em nossa importância. Menos ainda, estão os departamentos de marketing da maioria das empresas patrocinadoras, pois outros segmentos culturais têm muito mais apelo junto à população. Por sua vez, a nossa sociedade tampouco parece preocupada. Afinal, quantos de nós, pessoas físicas ou jurídicas, doam recursos regularmente para as instituições culturais brasileiras?
O triste fato é que perdemos uma coleção de arte muito importante e, se não modificarmos a situação atual, perderemos outras.
BRASÍLIA, NÓS TEMOS UM PROBLEMA...
(Só para manter o meu otimismo de brasileira, termino polianamente lembrando que pelo menos ganhamos a Casa Daros no Rio de Janeiro, com o maior acervo europeu de arte latino-americana.)
Patricia Canetti é artista, criadora e coordenadora do Canal Contemporâneo.
MFAH Adquire a Coleção Leirner de Arte Concreta, artdaily.org
MFAH Adquire a Coleção Leirner de Arte Concreta
Matéria originalmente publicada no artdaily.org, no dia 19 de março de 2007
HOUSTON, Texas.- O Museu de Belas Artes de Houston (MFAH) adquiriu a prestigiosa coleção Adolpho Leirner de Arte Concreta Brasileira, o Dr. Peter C. Marzio, diretor do MFAH anunciou hoje. A coleção, formada pelos melhores exemplos da abstração geométrica em pinturas, objetos, pôsteres e materiais gráficos produzidos pelos mais importantes artistas brasileiros no segundo pós-guerra, tem há muito sido considerada uma janela deslumbrante para as décadas seminais da modernização brasileira. A compra da coleção foi possibilitada por recursos provenientes do Fundo de Doações para Aquisições Caroline Wiess Law e é um presente da Fundação Caroline Wiess Law.
"Ao montar esta coleção, Adolpho Leirner criou um novo padrão de colecionamento", afirma Marzio. "A força e o impacto internacional da coleção provêm de seu altíssimo nível de foco e disciplinado discernimento ao adquirir novas peças, que vão desde os primeiros exemplos da geometria abstrata aos últimos trabalhos das vanguardas surgidas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Neste sentido, a coleção é insuperável. A adição desta coleção inspiradora ao MFAH fortalecerá a atual pesquisa sobre a contribuição de artistas latino-americanos à arte de nosso tempo. Ela representa um capítulo central na história global do Modernismo".
Embora peças individuais da coleção tenham sido incluídas em exposições coletivas ou em retrospectivas individuais de artistas na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, suas únicas exposições completas aconteceram em 1998 e 1999 nos Museus de Arte Moderna de São Paulo e do Rio de Janeiro. A primeira mostra completa nos EUA acontecerá no MFAH numa exposição denominada Dimensões da Arte Concreta no Brasil: A Coleção Adolpho Leirner. Concebida pela Dra. Mari Carmen Ramírez, curadora Wortham de Arte Latino-Americana e diretora do Centro Internacional das Artes das Américas do MFAH, a exposição será organizada com a intenção de revelar a inovação e a originalidade alcançadas pelas várias tendências concretistas brasileiras e de ilustrar suas características específicas que as distinguem de movimentos co-relatos na Europa e nos Estados Unidos. A exposição será montada no Pavilhão Upper Brown do edifício Caroline Wiess Law, que pertence ao museu e foi projetado por Mies van der Rohe, de 20 de maio a 3 de setembro, 2007. Aproximadamente 100 trabalhos, cobrindo duas décadas (1950-1965), serão apresentados na exposição. A mostra será acompanhada de duas publicações, um catálogo completo e em cores de 160 páginas, e um catálogo ampliado contendo ensaios de proeminentes críticos de arte e que acompanhará a turnê internacional de 2008-2009.
"Nas décadas de 1950 e 1960, as contribuições de artistas do eixo Rio-São Paulo iniciaram um capítulo altamente original na história internacional do Modernismo, que apenas agora tem sido inteiramente reconhecido fora do Brasil", diz Ramírez. "Eu tive o privilégio de trazer alguns exemplos da Coleção Leirner em duas das principais exposições do MFAH sobre a arte latino-americana: Utopias Invertidas: Vanguarda na América Latina, organizada em 2004 e Hélio Oiticica: O Corpo da Luz, montada este ano. Estamos entusiasmados por termos agora esta extraordinária coleção adicionada à crescente coleção de arte latino-americana do museu. A Coleção Leirner oferece uma rara oportunidade para a compreensão de certos desenvolvimentos críticos na arte brasileira que são relevantes para a história da arte de vanguarda na América Latina e no mundo".
Principais obras da Coleção - Com obras dos pioneiros da arte abstrata no Brasil, a Coleção inclui peças representativas do primeiro artista a abraçar o abstracionismo geométrico, Cícero Dias (1907-2003) e do influente professor Samson Flexor (1907-1971), bem como trabalhos de artistas e grupos de vanguarda ativos na década de 1950: o Grupo Ruptura, de São Paulo, e o Grupo Frente, do Rio de Janeiro. Entre os artistas destes grupos representados na Coleção estão Waldemar Cordeiro (1925-1973) e Mauricio Nogueira Lima (Grupo Ruptura); e os irmãos César (1939-) e Hélio Oiticica (1937-1980) e Lygia Pape (1929-2004) do Grupo Frente. A Coleção também traz uma forte representação de obras do movimento Neoconcreto, com seis importantes objetos de Lygia Clark (1920-1988). Além disso, a Coleção inclui também trabalhos de artistas importantes que abraçaram princípios construtivistas, mas se desenvolveram independentemente destes grupos, como Alfredo Volpi (1896-1988), Mira Schendel (1919-1988) e Sérgio Camargo (1930-1990).
O colecionador - Filho de imigrantes judeu-poloneses que chegaram no Brasil na década de 1930, Adolpho Leirner nasceu em 1935 na cidade de São Paulo. Em 1953 ele foi para a Inglaterra estudar engenharia e design têxtil. Durante sua estadia de quatro anos, ele se familiarizou com o legado dos movimentos construtivistas internacionais da primeira metade do século 20. Ao mesmo tempo, desenvolveu uma paixão por arquitetura e design. Ao retornar ao Brasil no final da década de 1950, Leirner focou sua atenção na arte decorativa e contemporânea brasileira. Em 1961 ele comprou a primeira obra do que mais tarde seria sua coleção singular: Em vermelho (1958) do artista Milton Dacosta (1915-1988). Naturalmente atraído pelo concretismo brasileiro, ele percebeu seu desaparecimento da atenção pública durante a década de 1960, com o florescimento de tendências figurativas como a Pop Art. Neste momento Leirner decidiu concentrar seu esforço como colecionador na abstração geométrica brasileira. Em grande parte através do contato direto com artistas vivos e marchands influentes, ele foi capaz de sistematicamente reunir obras exemplares destes movimentos fundamentais em seu país.
Como um colecionador de arte, Leirner possui tanto uma paixão por arte como um sentido de responsabilidade social. Numa bastante veiculada declaração sobre o sentido e o propósito de colecionar, retirado de seu extraordinário livro Arte concreta no Brasil: a coleção Adolpho Leirner, ele descreve seu moto: "Colecionar é manter um romance, uma paixão; é fazer descobertas num jogo de esconde-esconde, e todas essas obras fazem parte da minha vida". Ao mesmo tempo, ele compreende a responsabilidade ética que vem com o ato de colecionar:
"... colecionadores compreendem que formam suas coleções não apenas para sua fruição privada, mas pelo benefício da sociedade, e por esta razão ele as mantém e preserva". Uma referência essencial para a coleção e também para este período específico da história da arte, este livro de 363 páginas foi editado por Aracy Amaral e publicado em 1998 pela DBA Melhoramentos.
Tradução: Renato Resende
MFAH Acquires Leirner Collection of Constructive Art
HOUSTON, TX.- The Museum of Fine Arts, Houston, has acquired the celebrated Adolpho Leirner Collection of Brazilian Constructive Art, Dr. Peter C. Marzio, director of the MFAH, announced today. The collection, which consists of the finest examples of geometric abstraction in paintings, constructions, drawings, posters, and graphic materials by Brazil 's foremost artists of the post-World War II era, has long been regarded as a brilliant window into the seminal decades of Brazil 's modernization. Purchase of the collection is made possible by funds from the Caroline Wiess Law Accessions Endowment Fund and a gift from the Caroline Wiess Law Foundation.
"In building his collection, Adolpho Leirner created a new st and ard of collecting," said Marzio. "The collection's strength and international impact derives from its highly focused and disciplined accretion of works, from the earliest examples of geometric abstraction to the later avant-garde work originating in São Paulo and Rio de Janeiro . As such, the collection is unsurpassed. The addition of this inspiring collection to the MFAH will invigorate the ongoing investigation of the contributions of Latin American artists to the art of our time. It represents a key chapter in the global story of Modernism."
While individual objects from the collection have been included in group exhibitions or in individual artists' retrospectives in Europe, the United States , and Latin America, the only complete presentations were in 1998 and 1999, at São Paulo 's Museum of Modern Art and Rio de Janeiro 's Museum of Modern Art . The first comprehensive showing in the United States will be at the MFAH in an exhibition called Dimensions of Constructive Art in Brazil: The Adolpho Leirner Collection. As conceived by Dr. Mari Carmen Ramírez, the Wortham Curator of Latin American Art and director, International Center for the Arts of the Americas at the MFAH, the presentation will be organized to reveal the innovation and originality achieved by the various Brazilian constructive tendencies as well as to illustrate specific traits that separate them from related movements in Europe and the United States. The show will be in the Upper Brown Pavilion of the museum's Mies van der Rohe-designed Caroline Wiess Law Building from May 20 through September 3, 2007 . Approximately 100 pieces spanning two decades (1950-1965) will be featured in the show. The exhibition will be accompanied by two publications, a 160-page full-color catalogue, and an exp and ed catalogue with essays by leading scholars that will accompany an international tour in 2008-2009.
"In the 1950s and 1960s, the contributions of artists from the São Paulo-Rio de Janeiro axis opened up a highly original chapter in the history of international Modernism that has only now been fully been recognized outside Brazil ," said Ramírez. "It has been my privilege to highlight examples from the Leirner Collection in two of the MFAH's major presentations of Latin American art: Inverted Utopias: Avante-Garde Art in Latin America, organized in 2004, and Hélio Oiticica: The Body of Color, presented this year. We are now thrilled to have this outst and ing addition to the museum's burgeoning collection of Latin American art. The Leirner Collection offers a rare opportunity to underst and certain critical developments in Brazilian art which are also relevant to the history of avant-garde art in Latin America and elsewhere."
Highlights of the Collection - Forerunners of abstract art in Brazil , including the first artist to embrace geometric abstraction, Cícero Dias (1907-2003) and the influential teacher Samson Flexor (1907-1971) are represented, as are major works by the most cutting-edge and avant-garde artists and groups active in the 1950s: the Grupo ruptura of São Paulo , and Rio de Janeiro 's Grupo Frente. Artists from these groups include Waldemar Cordeiro (1925-1973) and Mauricio Nogueira Lima (Grupo ruptura); and the brothers César (1939-) and Hélio Oiticica (1937-1980) and Lygia Pape (1929-2004) from Grupo Frente. The collection is also strong in work from the Neo-concrete movement, with six major constructions by Lygia Clark (1920-1988). In addition, the collection features major artists who embraced constructive tenets yet worked independently of these groups, including Alfredo Volpi (1896-1988), Mira Schendel (1919-1988), and Sergio Camargo (1930-1990).
The Collector - The son of Polish Jewish immigrants who arrived in Brazil in the 1930s, Adolpho Leirner was born in 1935 in the city of São Paulo . In 1953 he went to Engl and to study textile engineering and design. During his four-year stay, he became acquainted with the legacy of the international Constructivist movements of the first half of the 20th century. At the same time, he developed a passion for architecture and design. Upon his return to Brazil in the late 1950s, Leirner focused his attention on Brazilian decorative arts and contemporary art. In 1961 he bought the first work of what would later constitute his unique collection: Em vermelho [In Red] (1958) by the artist Milton Dacosta (1915-1988). Naturally drawn to Brazilian constructivism, he noticed its disappearance from the public's attention in the 1960s, as the emergence of figure-based trends such as Pop Art flourished. At that point, Leirner decided to concentrate his collecting efforts on Brazilian geometric abstraction. Largely through his direct contact with living artists and influential dealers, he was able to systematically gather exemplary works of these key movements in his country.
As an art collector, Leirner combines both a passion for art as well as a sense of social responsibility. In a well-publicized statement about the meaning and purpose of collecting taken from his superb book, Constructive Art in Brazil: The Adolpho Leirner Collection, he describes his motto: "To collect is to nurture a love affair, a passion; it is to uncover findings in a game of search and find, all of which are part of my life." At the same time, he underscored the ethical responsibility that comes with collecting:
" collectors underst and they gather their collections not only for private fruition but for the benefit of society, and for this reason they keep and preserve them." An essential reference for the collection as well as for this specific period of art history, the 363-page volume was edited by Aracy Amaral and was published in 1998 by DBA Melhoramentos.
março 18, 2007
EUA compram coleção construtivista brasileira por Fabio Cypriano
EUA compram coleção construtivista brasileira
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de São Paulo, Ilustrada, em 17 de março de 2007.
Obras pertenciam a Adolpho Leirner; valor da negociação não foi revelado
As cerca de cem peças, entre elas "Metaesquema", de Oiticica, e "Bicho", de Lygia Clark, serão expostas em maio em Houston
A mais importante coleção de arte construtiva brasileira, que pertencia ao paulistano Adolpho Leirner, foi vendida ao Museum of Fine Arts, de Houston (EUA), anunciou ontem a assessoria da instituição.
A venda dessas obras é comparável à aquisição, pelo argentino Eduardo Constantini, do "Abaporu" de Tarsila do Amaral -que inspirou o Manifesto Antropófago-, comprado em um leilão por cerca de US$ 1,5 milhão, em 1995.
Com cerca de cem obras, realizadas entre 1950 e 1965, as peças da coleção Leirner representam um dos momentos mais importantes da produção nacional, com obras emblemáticas como "Bicho", de Lygia Clark, ou "Metaesquema", de Hélio Oiticica. Entre outros, fazem parte da coleção artistas como Volpi, Mira Schendel, Sérgio Camargo, Waldemar Cordeiro e Cícero Dias.
"Vendi ao Museu de Houston porque me pareceu o local mais adequado", disse Leirner, ontem, à Folha. O colecionador não revela o valor: "Isso é considerado sigilo por contrato".
O museu norte-americano, por meio de um departamento denominado ICAA (Centro Internacional para as Artes das Américas), tem se destacado por sua ação em relação à arte latino-americana. Atualmente, o museu exibe a exposição "Body of Color" (corpo da cor), que aborda um recorte da obra de Hélio Oiticica, e segue, em junho, para a Tate inglesa.
O ICAA está elaborando, em colaboração com o Projeto Oiticica, o catálogo raisoné do artista, além de elaborar uma compilação denominada Documentos Latino-Americanos do Século 20: Projeto de Arquivo Digital de Publicações, em fase de pesquisa.
A coleção Leirner, que foi tema de mostra do MAM-SP em 1998, será vista na íntegra em Houston a partir de 20 de maio. Sua venda atesta a crescente repercussão do construtivismo brasileiro no exterior.
