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outubro 5, 2012

Monalisa, o eterno retorno por Paula Alzugaray, Istoé

Monalisa, o eterno retorno

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da revista Istoé em 28 de setembro de 2012.

Com série de 100 Monalisas manipuladas artesanalmente, Nelson Leirner revolve a própria memória e volta ao cinema

Quadro a Quadro: Cem Monas – Nelson Leirner/ Silvia Cintra + Box 4, RJ/ até 20/10

O primeiro a corromper o maior ícone de todos os tempos foi Marcel Duchamp. Em 1919, o artista francês riscou bigode e cavanhaque sobre um cartão-postal da “Monalisa” e intitulou a intervenção “L.H.O.O.Q.” (letras que pronunciadas em francês conformam a frase “Elle a chaud au cul” e que, em tradução coloquial, quer dizer algo do gênero “Ela tem fogo no rabo”). Esta foi apenas uma das provocações do artista que mudou para sempre o estatuto da arte moderna. Depois de Duchamp, outros artistas trabalharam com a popularização da pintura de Da Vinci. Warhol nos EUA, nos anos 1970; e Nelson Leirner, em obra que representou o Brasil na Bienal de Veneza de 1999. Hoje, quase um século depois da crítica de Duchamp, a “Monalisa” tem aproximadamente 23 milhões de manipulações digitais na internet. Além de bigode, ela hoje usa óculos, fita no cabelo, gravata-borboleta, colar de pérolas, cabelo crespo, orelhas de coelha e por aí afora. Como observador arguto da cultura de massa, Leirner não poderia passar incólume por esse fenômeno que caiu na rede. Resolveu, então, “banalizar o banalizado”.

Fazer uma instalação que remete ao cinema, sem o uso da câmera. Esse foi o desafio autoimposto pelo artista ao realizar a obra “Quadro a Quadro: Cem Monas”, exposta na Silvia Cintra + Box 4, no Rio. Em seu trabalho mais recente, Leirner retorna à figura mais pop e enigmática da história da arte para revolver e reprocessar as diversas fases do próprio trabalho. A começar pelo cinema, que experimentou nos anos 1960 e 70, fazendo uso do super-8. “Pensei muito em super-8 enquanto fazia essas Monas. Eu pegava filminhos que vendiam para festas de aniversário e fazia montagens. Numa cena que a Lady Godiva estava nua no cavalo, eu cortava para o Chaplin, depois passava para o Mickey. Ia grudando com durex. Ficava muito divertido. A “Monalisa” teve para mim o efeito desses filmes, de colagem”, conta Leirner.

Assim, quadro a quadro, Leirner passeia pelos mercados populares e camelôs onde foi buscar as matérias de tantos trabalhos memoráveis.

Cem Monas e cinco livros
Essas colagens são como eternos retornos? Personagens periodicamente vão e voltam, entram e saem de cena?

Essas colagens são como eternos retornos? Personagens periodicamente vão e voltam, entram e saem de cena?

Retornos de memória, sim. Hoje eu não trabalho mais com o conceito, só com a memória. O artista está sempre colocando o conceito antes. Eu antes faço o trabalho para depois conceituar.

Então essa relação das Monalisas com o cinema apareceu depois?
Apareceu durante, no fazer. Mas antes havia o livro do Tarkovsky, que eu já tinha lido. Quando dei aula para vocês, eu só falava de Duchamp. Hoje eu tenho cinco livros de cabeceira. Esculpir o tempo, Tarkovsky. Porque o tempo é o principal mote do cinema. Depois, peguei o Pirandello, porque todo teatro do Pirandello é um jogo, e a questão do jogo me atrai muito. Depois, peguei “A Poética do Espaço”, do Bachelard, porque ele tem uma visão psicológica e antropológica do espaço. Ele fala de um outro espaço. Do espaço que está no canto, no cofre, na gaveta, no armário, naquela tua bolsa. Gosto dessa ideia de me relacionar com um espaço que não é o meu.

O espaço que não é o seu é o desconhecido. Esse também não é o espaço da arte?

Com a arte, você abre o cofre. Enquanto que, se o cofre está fechado, você sempre poderá imaginar tudo o que está lá dentro. Não é só dinheiro. Posso guardar a própria arte dentro do cofre. Pelo valor. Então, você pode pensar a arte como dinheiro, dentro do cofre. Veja bem, você roda muito mais não lendo sobre arte. Depois vem a fotografia, que eu acho que tem muita importância, hoje. Daí eu pego o Barthes, “A Câmara Clara”. Por quê? Porque acho muito bacana a percepção dele da fotografia como não fotógrafo. E no fim o Duchamp, né? O livro do Octavio Paz sobre Duchamp, “O Castelo da Pureza”. Octavio Paz escreve sobre dois gênios: Duchamp e Picasso. Picasso pelo que fez, Duchamp pelo que não fez. E eu estou no meio! Não chego nem a fazer, nem a deixar de fazer, como Duchamp. Por isso é que eu me sinto, de certa maneira, frustrado. Porque eu não atingi nem o fazer – por mais que eu faça, não sinto que a arte para mim é essa compulsão do Picasso. E Duchamp pelo que não fez: 35 anos jogando xadrez. E o xadrez que ele joga vira arte! E a vida dele se torna arte! Isso eu também não consigo fazer.

Posted by Cecília Bedê at 1:30 PM