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julho 21, 2019
À Nordeste traz as diferenças entre posição e identidade | Exposição, Metrópolis
À Nordeste traz as diferenças entre posição e identidade | Exposição, Metrópolis
Partindo da pergunta 'À Nordeste de quê', a mostra 'À Nordeste' apresenta mais de 250 obras, desde Portinari até o mundo dos memes das redes sociais. Isso para pensar na ideia do nordeste como posição e não como identidade.
Exposição "À Nordeste" mostra o mundo visto a partir dos nordestinos, tvbrasil
Uma exposição no Sesc 24 de maio em São Paulo reúne 160 artistas que estimulam uma reflexão sobre o Nordeste e o "estar à Nordeste", confira!
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Muvuca por Yuri Firmeza, Arte!Brasileiros
Muvuca por Yuri Firmeza, Arte!Brasileiros
Muvuca
Texto de Yuri Firmeza originalmente publicado na revista Arte!Brasileiros em 19 de julho de 2019.
Artista escreve sobre À Nordeste na Sala de Debate, coluna colaborativa da ARTE!Brasileiros
1.
Enosiofobia é o termo científico que se dá a quem tem medo de ter cometido uma crítica imperdoável. Parte da crítica brasileira parece ter sido acometida, de maneira epidêmica, por esta fobia. E por isso, na contramão, tanto me alegra ler o texto escrito por Bitú Cassundé, Clarissa Diniz e Marcelo Campos. Se, por um lado, o texto é endereçado para outro texto, escrito por Aracy Amaral, não é menos verdade que o texto convoca, numa dimensão política-clínica, ao debate público acerca da “história oficial” da arte brasileira.
2.
Dizem que no carnaval de Olinda estamos sempre no meio. Não tem começo e nem fim e tem “gente” em demasia. Gente em demasia pode gerar epidemia, fujamos das multidões.
3.
Prefiro pensar que corpo demais pode gerar uma alegria indomável. Tem muita gente, mergulhemos na muvuca.
4.
Parte da crítica brasileira parece não gostar de carnaval, pois que o corpo – e de maneira contígua, a escrita – foram produzidos sob a égide da razão moderna e eurocêntrica.
5.
O texto de Tadeu Chiarelli publicado na revista ArteBrasileirXs (e o “X” não se trata apenas de uma implicância com a língua, como ele aponta de maneira simplista no texto) começa descrevendo um ambiente saturado, cheio, entre outras coisas, de gente. Procura um início, pior seria procurar se “nortear”. Parece-me que o esforço encontrado para iniciar a visita à exposição, corresponde ao esforço, a “sofrência” e o melindre a escrever tal crítica.
6.
Pierre Menard, personagem de Jorge Luis Borges, copia letra por letra, palavra por palavra, linha por linha… de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. O texto de Chiarelli parece almejar o mesmo, copiar letra por letra, palavra por palavra, linha por linha… do texto da Aracy Amaral. Não o faz tão diretamente. Acometido estaria pela epidemia enosiofóbica?
7.
Alguém dirá: estamos vivendo o furor Nordeste nas artes visuais, mas é preciso pensar o Brasil como um todo. Esta frase provavelmente será enunciada por este corpo descrito no bloco 4 deste texto. A cegueira historiográfica brasileira não é uma abstração. É constituída, antes, por agentes que têm respaldos e privilégios para inserir-excluir personagens de suas narrativas.
8.
Ainda na esteira do texto do Chiarelli, lemos que a exposição está repleta de obras que pensam o Brasil como um todo. Seria esta frase uma espécie de mea culpa do sulicídio (com L mesmo) operado sistematicamente à toda produção de pensamento fora daquilo que convencionamos chamar (cada vez menos, e essa exposição aponta para isto) de eixo? Pensar o Nordeste seria restritivo demais, vamos combinar, diz ele. De fato, seria. Mas esta exposição-ocupação passa longe de cair neste lugar do ensimesmamento. Ao contrário, e de forma reiterada, boa parte das exposições em São Paulo, feitas por paulistas, em instituições supostamente brasileiras, por exemplo, estão longe de sair deste lugar.
9.
Talvez o que falte é a tal liberdade (tão clamada e tão pouco praticada como forma de vida) em correr riscos. E sobra, quiça, o receio da perda de privilégios historicamente construídos, quando uma suposta ameaça se encontra num meio (múltiplo e que não é, portanto, O Centro).
Yuri Firmeza é artista e professor
À Nordeste, Sesc 24 de Maio, São Paulo, SP - 16/05/2019 a 25/08/2019
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À Nordeste no Sesc 24 de maio propõe outra História da Arte
Coluna Ouvir Imagens de Giselle Beiguelman originalmente publicada na Rádio USP em 15 de julho de 2019.
Visitei À Nordeste, no Sesc 24 de maio e recomendo. Com curadoria de Bitu Cassundé, Clarissa Diniz e Marcelo Campos, a exposição traz no seu próprio título uma ambiguidade. Grafado com crase, À Nordeste pode ser lido como “à moda do Nordeste”. No falar, pode ser entendido como nordeste no feminino, indicando questões sobre diversidade e mais obviamente, aquilo que fica na direção nordeste. Essa ambiguidade não é casual.
A exposição parte de uma provocação do artista cearense Yuri Firmeza “A nordeste de quê?”para discutir as relações entre centralidades e periferias no Brasil e no mundo.
Uma das motivações do projeto dos curadores foi a eleição de de 2018, que acirrou um debate sobre a região, pela contraposição política que expressou configurando-se nitidamente como um foco de resistência às plataformas do então candidato Bolsonaro.
Não foram poucos os preconceitos e clichês que tomaram as redes nessa época, associando o nordeste e os nordestinos com atraso cultural atávico e terra amaldiçoada pela seca por ser território do pecado e da insurreição.
Uma outra história da arte
É uma exposição política, mas não partidária. É política no sentido de nos fazer pensar o Brasil, outras matrizes culturais e a violência da produção social de nossa história.
Para além do estopim das últimas eleições, a mostra evidencia a riqueza do Nordeste como centro irradiador de linguagens e espaço de produção simbólica e crítica, que se expressa na obra de mestres artesãos e de artistas que operam no circuito do mercado, seja no das artes visuais, seja o da música ou do cinema.
São pontos altos, para mim, os cruzamentos feitos entre obras dos mais variados repertórios, como incríveis carrancas de madeira e sua releitura em fibra de vidro por Tadeu dos Bonecos, como capacete e adereço de motocicleta.
Isso lado a lado com obras como as de Ayrson Heráclito, Tiago Sant’ana (no destaque) e Caetano Dias, e ao som do Mangue Beat de Recife, nos faz pensar que é mais que urgente pensar em uma outra História da Arte, capaz de dar conta dessa diversidade cultural, superando as oposições tradicionais entre artesanato/artefato e arte, cultura popular e cultura erudita, alta e baixa cultura e reelaborando as constelações estéticas que constituem a arte brasileira nas suas intersecções e particularidades em relação ao mundo.
Eu fico por aqui e deixo vocês com o Maracatu Atômico de Jorge Mautner e Nelson Jacobina na versão de Chico Science e Nação Zumbi.
A exposição fica em cartaz até 25 de agosto no Sesc 24, de 3a a Domingo.
Transcrição da coluna Ouvir Imagens, de Giselle Beiguelman, veiculada toda segunda-feira, às 8:00, pela Rádio USP (93,7).
Acesse a playlist com todos os áudios da coluna Ouvir Imagens na Rádio USP | Leia todas as transcrições e posts.
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Apesar de montagem confusa, “À Nordeste” aponta para questões urgentes
Coluna Conversa de Bar(r) de Tadeu Chiarelli originalmente publicada na revista Arte!Brasileiros em 10 de julho de 2019.
Com disposição para permanecer naquele espaço labiríntico, o público encontrará bons motivos para visitar a exposição
Ambiente saturado: objetos, esculturas, desenhos, gravuras, salas fechadas, vídeos, sons, gente. O primeiro movimento foi escapar daquele espaço repleto de entradas/saídas, mas com algum esforço me aproximei de um pequeno monitor em que uma moça ia dizendo em libras (com legendas em português e inglês) que eu estava no final da exposição. Mais um sinal para cair fora de uma vez? Resisti. Voltei, então, para o que seria o início da mostra (não era) e comecei a me esforçar para dar início à visita.
Exposições normalmente são produzidas para “dar a ver” algo: a obra de um ou mais artistas, objetos industrializados ou artesanais etc. “Dar a ver” é criar condições ideais ou, pelo menos, satisfatórias para que o visitante possa percorrer o espaço sem entraves, sem ser bombardeado por inúmeros estímulos. Muita informação tende a ser igual a nenhuma informação ou a informações truncadas que se prejudicam mutuamente. É o que ocorre com a mostra À Nordeste (com crase, mesmo), no Sesc 24 de Maio.
À Nordeste foi concebida para lacrar. E conseguiu, claro que conseguiu. O que a ensejou foi sublinhar (ou explicar) a diferença entre o Nordeste e o resto do Brasil, diferença esta manifesta nas últimas eleições, quando aquela região, opondo-se à tendência majoritária no país, não elegeu aquilo que acabou sendo levado para Brasília. O Nordeste ali, nessa pretendida (des)exposição, foi apresentado ao “Sul maravilha” como o seu outro. O “lado de lá”, a nossa diferença (por mais próxima de nós que ela esteja, como a própria À Nordeste revela).
E com tal propósito, À Nordeste chegou chegando na vontade de desconstruir o estabelecido, a começar com uns catiripapos na língua portuguesa, colocando crase na proposição do título, suprimindo os artigos definidores dos gêneros de determinadas palavras, substituindo-os pelo “x” (assim quiseram xs curadorxs). Pueril? Pode ser, mas se a lacração tem momentos discutíveis – a implicância com a língua, mas também os painéis em madeira “natural” me parecem um problema entre muitos outros –, À Nordeste tem momentos fortes, outros fortíssimos que justificam uma visita.
Embora nos textos publicados no folder e espalhados pela exposição, xs curadorxs não analisem uma obra sequer, para dela extraírem os postulados que jogam no visitante, À Nordeste está repleta de obras fundamentais, não para pensarmos apenas o Nordeste (o que seria restritivo demais, vamos combinar), mas para pensar o Brasil como um todo. Dentre elas, O caseiro, 2016, de Jonathas Andrade. Essa obra talvez seja o momento mais alto da (des)exposição: colocar ao lado de um antigo documentário que “flagra” Gilberto Freyre em seu cotidiano, o vídeo sobre o cotidiano de um senhor que trabalha como caseiro da antiga residência do senhor de Apipucos, e hoje museu, reafirma Andrade como um dos melhores interpretes do Brasil, de suas complexidades estruturais.
A dupla Barbara Wagner e Benjamin de Burca também amplia a força da exposição. Ela está representada na mostra por dois trabalhos de 2013: Edifício Recife – documentação fotográfica sobre esculturas em entradas de alguns edifícios do Recife – e o vídeo Faz que vai. Apesar das diferenças de suporte é notável como a dupla ressignifica criticamente o cotidiano por meio de ações que nem folclorizam e muito menos insistem em discursos visuais/textuais repletos de retórica vazia sobre questões sociais (da qual À Nordeste está repleta, diga-se).
Cristiano Lenhardt, com o vídeo Polvorosa, 2012, também empresta à exposição a importância do trabalho que vem realizando. O vídeo subverte o discurso televisivo mais vulgar trazendo para a exposição um sopro ficcional bem-humorado que também destoa da maioria das obras apresentadas.
Curiosamente, tanto Lenhardt quanto a dupla Wagner/de Burca e Jonathas Andrade são algumas das estrelas de duas das mais prestigiadas galerias mainstream do Sudeste do país (Fortes D’Aloia & Gabriel e Galeria Vermelho). A inclusão, em À Nordeste, de obras desses artistas tão significativos (não esquecer que Wagner/de Burca representa o país na edição deste ano da Bienal de Veneza), poderá parecer para alguns uma espécie de contradição da mostra que, obstinada na ênfase à diversidade nordestina, acaba apostando em nomes que, afinal, foram já devidamente adotados pelo poder hegemônico do circuito São Paulo/Rio. Ao contrário, prefiro acreditar que a integração dos trabalhos desses artistas responde a duas questões. Em primeiro lugar, são produtores de qualidade e seria indigno não os incluir na exposição pelo fato de já terem alcançado reconhecimento no “sul maravilha”. Em segundo, considero a presença deles na mostra um índice importante sobre como xs curadorxs pensam bem a complexidade do Brasil de hoje, em que divisões regionais do país são no mínimo discutíveis. O Brasil, apesar do que ainda querem alguns, é muito mais complexo do que mostram as estatísticas, as divisões regionais etc. e, neste sentido, a inclusão na mostra, não apenas das obras dos artistas citados, mas também da peça de Ton Bezerra – Signos eletronejos, 2013, um vídeo que documenta sua performance no centro de São Paulo – sublinham aspectos dessa complexidade.
Afinal, o estranhamento que causa aquele ser estranho caminhando pelo centro de São Paulo em Signos eletronejos, diz muito também sobre essa cidade que é a mais nordestina do país.
***
Pelos comentários acima, penso ter ficado clara a intenção deste texto: se o visitante insistir em permanecer no recinto da mostra, e se tiver disposição para procurar naquele espaço labiríntico e confuso, encontrará mais motivos para ficar contente por ter ido visitar À Nordeste. E, é claro, não apenas pelas obras de Lenhardt, Wagner/de Burca e Jonathas Andrade. Creio que vale a pena também prestar a atenção aos vídeos de Zahy Guajajara e Marcelo Pedroso. É certo que ambos excedem na retórica, o que não carecia. Talvez jovens demais, cometem exageros quando poderiam confiar mais na potência das imagens que concebem, mas isso pode diminuir com o passar do tempo. A pintura de Dalton Paula – Canção das abelhas, 2018 – também justifica a visita, assim como algumas joias raras dos irmãos Joaquim e Vicente do Rego Monteiro e as delicadas pinturas produzidas em 1964 por Montez Magno.
(No final saí da mostra com a sensação de que, apesar dela mesma – de todos os entraves que criou para si e para o visitante –, À Nordeste aponta para questões que precisamos pensar com urgência. Questões sobre a sociedade brasileira, sobre a arte que produzimos e, tão importante quanto, sobre como adequar satisfatoriamente o desejo de romper com o trabalho curatorial tradicional e, ao mesmo tempo, manter a inteligibilidade do que quer ser apresentado ao público).
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Um Nordeste para além de registros identitários por Bárbara Buril, Continente
Um Nordeste para além de registros identitários
Texto de Bárbara Buril originalmente publicado na revista Continente, em 3 de julho de 2019, na edição 223, julho de 2019.
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Assim como as pessoas, o Nordeste também pode ocupar muitos lugares em uma relação, porque ele não é apenas, em si mesmo, um lugar, mas também (e principalmente) uma posição. O Nordeste tem sido interpretado a partir de um outro que o inferioriza, pelos pressupostos de ser menos “produtivo” e “desenvolvido”, por falar com menor correção gramatical e polidez que o Sul e o Sudeste do Brasil, entre outros aspectos de subalternidade construídos ao longo do tempo.
Essa “identidade nordestina”, compreendida como a face deteriorada de outra face mais polida, é problematizada na exposição À Nordeste, com curadoria de Bitu Cassundé, Clarissa Diniz e Marcelo Campos, em cartaz no Sesc 24 de maio, em São Paulo, até o dia 25 de agosto. A mostra é grandiosa: conta com mais de 300 obras. Participam da exposição 160 artistas, nem todos nordestinos, nem todos brasileiros.
No entanto, não se trata de um panorama da arte feita no Nordeste, com a intenção de mostrar “isto é o Nordeste”, como se, através de um arranjo bem-delimitado pudéssemos, enfim, identificar os aspectos de uma arte propriamente nordestina. Tampouco essa mostra se forma por subtração, como se, ao excluirmos os artistas não nordestinos, pudéssemos finalmente encontrar a “alma” nordestina no cerne de trabalhos feitos apenas por nordestinos. Aqui, não somos nordestinos por subtração, para parafrasear o crítico literário Roberto Schwarz, no ensaio Nacional por subtração, através do qual busca pensar o nacional não como algo que se conquista através da subtração de elementos estrangeiros, mas justamente segundo a lógica que põe justamente em colapso as ideias de nacional e estrangeiro, original e cópia, autêntico e inautêntico.
O que essa mostra problematiza – logo no centro de São Paulo, para onde tantos nordestinos já foram em busca de alguma prosperidade, mesmo que às custas de muita submissão – é um Nordeste que é percebido não só pelos sudestinos e sulistas, mas também pelos próprios nordestinos como um espaço geográfico dotado de uma identidade específica. Comumente pensamos o Nordeste como se ele tivesse um caráter, um significado só dele, como se ele fosse uma coisa só: o Nordeste do sol imenso, de tons ocres, da terra rachada, dos corpos retirantes, da fé irracional, do misticismo monárquico, do litoral, por exemplo. Assim como fazemos com as pessoas, também nos referimos ao Nordeste como um espaço geográfico portador de uma identidade – isso porque é mais fácil organizar a realidade dessa maneira. Também é mais fácil interagir com as pessoas desse modo: como se elas portassem, de fato, uma identidade.
No entanto, nem nós, pessoas, nem o Nordeste nos submetemos tão facilmente a organizações identitárias. Nesse sentido, se é possível falar de algo que é especificamente nordestino (se é possível afirmar que há algo essencialmente nosso, humano), é o seu caráter indomável. Por isso que os curadores resolveram crasear o Nordeste, com o título À Nordeste. Porque esse espaço geográfico só poderia ser compreendido em relação; em movimento. Como acontece com a fotografia, parece que só conseguimos capturar as pessoas, e também os caracteres de um lugar, por partes.
A fotografia nos oferece uma construção apenas parcial de um instante, mas nunca a completude de um evento. Também só nos aproximamos do Nordeste capturando uma parte dele; mas isso não quer dizer que poderemos um dia compreendê-lo, se fizermos uma catalogação de tudo o que já foi feito na região. Se assim o fosse, compreenderíamos a história do mundo em uma visita ao Louvre. Mas não é assim que podemos entender as coisas.
Nesse sentido, o que encontramos na exposição À Nordeste é um conjunto amplo e diversificado de trabalhos que se referem a questões variadas, organizadas como eixos temáticos na mostra. São eles: “futuro”, “insurgências”, “(de)colonialidade”, “trabalho”, “natureza”, “cidade”, “desejo” e “linguagem”. Essa separação temática funciona apenas como caminho orientador para o visitante, uma vez que a maior parte dos trabalhos não apenas passeia por mais de um eixo, como também extrapola as categorias temáticas pensadas pelos curadores. As obras de arte escolhidas não se reduzem aos eixos especificados, tampouco sintetizam uma ideia global do que é o Nordeste. No máximo, apontam para imagens parciais da região. Imagens interpretativas sobre o Nordeste que, inclusive, concorrem entre si.
Encontramos, portanto, os pernambucanos Vicente do Rêgo Monteiro e Lula Cardoso Ayres. Do primeiro, a obra Atirador de arco (1925). Do segundo, Boiada (sem data específica, compõe série criada entre 1940 a 1950), Tatu (1940) e Lavadeiras (1951). Com eles, encontramos uma imagem particular do Nordeste, deparamo-nos com retratos de uma elite pernambucana sobre a vida no Nordeste.
No livro A invenção do Nordeste e outras artes, publicado em 1999, o historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. refere-se aos pintores Cícero Dias e Lula Cardoso Ayres, mas também à obra sociológica de Gilberto Freyre e a romances de autores como José Américo de Almeida, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz como responsáveis pela criação de um Nordeste que tem saudades de sua época de riqueza, do fausto da casa-grande, da “docilidade” da senzala, da “paz e estabilidade” do império.
“O Nordeste é gestado como o espaço da saudade dos tempos de glória, saudades do engenho, da sinhá, do sinhô, da Nega Fulô, do sertão e do sertanejo puro e natural, força telúrica da região”, escreve o historiador. É o Nordeste do passado, elaborado por uma elite rural que não encontra mais o mesmo prestígio anterior, embora ainda assuma diversos cargos políticos, como se esses fossem bens privados que devessem ser herdados pelas gerações seguintes (e as oligarquias do presente são testemunhos dessa persistência).
Por sua vez, esse Nordeste elaborado por uma elite que tem saudades de seu passado de glória rural é ironizado em trabalhos artísticos também encontrados na exposição. No vídeo O palhaço degolado (1977), por exemplo, o artista pernambucano Jomard Muniz de Britto satiriza tal visão de Nordeste. Na obra, um palhaço passeia pelo espaço da Casa da Cultura, no Recife, antigo espaço de detenção, e questiona o Nordeste cuja construção se fez na casa-grande. Diz o palhaço no vídeo, ironicamente: “Mestre Gilberto Freyre? Mestre Gilberto Freyre? Mestre Gilberto Freyre? Muito bem-situado nos trópicos! Casa-grande! Casa-grande! (…) Senzala! Senzala?”. E continua: “Casa-grande de detenção da cultura. Muito bem-situado nos trópicos. Tristes trópicos. Democracia racial? A seu modo. Morenidade, brasilidade? A seu modo. Lusotropicologia? A seu modo. Regionalismo ao mesmo tempo modernista e tradicionalista? A seu modo”.
A língua ferina do palhaço – a língua de Jomard Muniz de Britto – não poupa ninguém. E expressa: “Ai, que saudades dos quitutes e dos quindins preparados pelas sinhazinhas formosas em seus engenhos e pelas piedosas freirinhas em seus conventos. Ai, que saudades, porque o povo só se conhece e se preserva pela sua cozinha”.
O sociólogo Gilberto Freyre está na exposição novamente na obra O caseiro (2016), de Jonathas de Andrade. No trabalho, o artista alagoano põe em paralelo dois vídeos diferentes em um só vídeo: do lado esquerdo, estão trechos de O mestre de Apipucos (1959), filme dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, em que assistimos a momentos de um dia na vida de Gilberto Freyre; do lado direito, está outro vídeo, produzido pelo próprio artista, no qual assistimos ao dia a dia do caseiro que atualmente vive e trabalha na casa onde viveu Freyre.
O Nordeste da casa-grande, da “morenidade”, da “brasilidade” e da “lusotropicologia” surge na mostra como uma visão de Nordeste. Uma, entre tantas outras. A visão de um Nordeste elitista e rural, saudoso de si mesmo, é novamente questionada em ABC da cana (2014), também de Jonathas de Andrade, e Brasil S/A (2014), do pernambucano Marcelo Pedroso. Em ambas as criações, observa-se o reverso do Nordeste rural, experienciado cotidianamente por quem move, com os próprios braços, o moinho de uma economia violenta. Como ocorre ao caseiro da casa onde viveu Gilberto Freyre.
O Nordeste contemporâneo, que é herdeiro do genocídio indígena e que não usufrui do mesmo fausto de uma elite do passado, também pode ser identificado na série de fotografias Paridade (2017), da artista maranhense Gê Viana, em que se vê uma fotomontagem de imagens de indígenas que foram assassinados e descendentes de indígenas que ainda resistem.
Já a herança da cultura africana pode ser encontrada nos trabalhos dos artistas baianos Rubem Valentim e Mestre Didi, que, através de esculturas, fazem referência aos orixás das religiões afro-brasileiras.
***
A exposição revela trabalhos artísticos que sequer falam de Nordeste e que, se assim o fazem, é mais por acidente que por intenção. Esse Nordeste que se enuncia tangencialmente se mostra como um espaço geográfico, político e cultural que só pode ser compreendido em relação. Trata-se de um lugar que não se possui, porque atravessado por questões que o ultrapassam. Um território que, quando fala de si, acaba se referindo ao mundo. E que, à maneira inversa, ao falar do mundo, acaba chegando a si mesmo.
Assim, encontramo-nos com um Nordeste que se denuncia por acidente em trabalhos contemporâneos, como em Teile e Zaga (2019), vídeo encomendado pelos curadores à digital influencer pernambucana Alcione Alves. A instagramer, que produz vídeos para seu perfil nessa rede social narrando coreografias, está na mostra narrando uma coreografia de uma dupla de passistas de frevo dançando no Marco Zero do Recife, diante da Torre de cristal, de Francisco Brennand. Não se trata especificamente de um vídeo sobre o Nordeste, mas uma imagem do Nordeste que se revela nas suas gírias periféricas (“teile”, “zaga”, “laga”), nas suas manifestações corporais particulares, na sua paisagem artística e litorânea.
Nesse vídeo, assim como nas outras criações de Alcione Alves, observamos o caráter universalizante (ou, pelo menos, nacionalmente compreendido) de um humor que conquistou pessoas em vários lugares do Brasil (atualmente, ela tem 657 mil seguidores). Mostra-se um Nordeste que não é aristocrático ou rural, mas urbano, tecnológico e periférico. Um Nordeste que ri de si mesmo, ao não se colocar no lugar do oprimido. Ou que, ao menos com humor, sabe se virar com a exclusão a que está sujeito.
Um lugar que se afirma de maneira enviezada, um pouco por consequência, mas não exatamente por intenção, também está presente na obra Memelito (2019), vídeo cuja autoria é do coletivo pernambucano Saquinho de Lixo, atuante no Instagram e formado por Douglas Layme, Davi Xavier, Isabelle Strobel, Sofia de Carvalho e Aslan Cabral. O vídeo, também feito especialmente para a exposição, não tematiza o Nordeste, mas, ao falar de questões abrangentes, como a política nacional ou uma forma de vida experienciada no Brasil, acaba por revelá-lo.
Por exemplo, em Memelito, vemos pessoas caminhando em uma praia entre GIFs de tubarões, numa clara alusão à falta de balneabilidade da Praia de Boa Viagem, no Recife, por conta dos ataques de tubarões. Isso logo depois de termos assistido a um questionamento provocativo sobre por que alguns ladrões são presos e outros não, sendo estes últimos políticos de profissão. Existe uma conjunção entre elementos locais e nacionais, portanto, em memes que conquistaram o Brasil. Como o vídeo de Alcione Alves, a obra do Saquinho de Lixo também surpreende por sintetizar a entrada dos memes em espaços expositivos, comumente compreendidos como lugares dedicados à “alta cultura”.
***
Também encontramos, na exposição, criações que nos mostram uma imagem de Nordeste em que as vidas presentes carregam o peso das normas e da história. Na obra A ferida colonial ainda dói (2017), por exemplo, a artista potiguar Jota Mombaça, residente em Portugal, apresenta um documento oficial emitido pelo governo português em que se pode ver um reconhecimento de residência pelo governo. O trabalho integra um projeto homônimo mais amplo, em que Mombaça problematiza as narrativas coloniais, ao evidenciar o apagamento da memória e as feridas ainda abertas deixadas pelas invasões e domínios portugueses no Brasil.
Em outro trabalho da mesma série, que não está presente em À Nordeste, a artista escreve a frase “vocês nos devem até a alma. E, assim como nós, os nossos fantasmas estão vindo cobrar”, com sangue, no chão, ao lado do Padrão dos Descobrimentos, monumento em Lisboa em homenagem aos invasores envolvidos nos autoproclamados descobrimentos portugueses. A ida massiva de brasileiros para Portugal, em um momento no qual o Brasil se encontra em uma crise econômica (e também em uma crise de humanidade), parece revelar uma cobrança história pelos brasileiros daquilo que lhes foi retirado com a colonização: talvez um estado de bem-estar social capaz de oferecer um mínimo de segurança coletiva.
Narrativas que buscam nos mostrar aquilo que está à margem dos saberes instituídos, ou, pelo menos, que está fora da história que nos foi contada, também podem ser vistas nos trabalhos da fluminense Pêdra Costa. À frente do show de baile funk queer Solange, tô aberta! (STA!), a artista trata de assuntos como gênero, identidade, estereótipos e sexualidade através de elementos estéticos distintos e aparentemente inconciliáveis, como os bailes funks do Rio de Janeiro e a contracultura queer. No vídeo CUCETA – A cultura queer de Solangê, tô aberta!, dirigido por Cláudio Manoel, Pêdra Costa e Paulo Belzebitchy, que integram a STA!, contam em seus depoimentos sobre como o projeto em questão busca levar as pessoas a construírem uma consciência corporal mais ampla, capaz de incluir nela, por exemplo, o cu, como vemos na música Cuceta.
O tom politizado do STA! evidencia, por sua vez, um Nordeste por onde circulam questões que não se reduzem à forma de vida experienciada apenas nesse lugar. Ao questionar a heteronormatividade sexual e o binarismo de gênero, por exemplo, o STA! traz provocações que não se reduzem à “existência nordestina”, tampouco a um questionamento sobre uma determinada “identidade nordestina”. O show tem uma posição “à Nordeste”, mas não se fecha nesse lugar. Não é por acaso, portanto, que ele tenha sido apresentado, além do Brasil, em países como Bolívia, Dinamarca, Noruega, Itália, Polônia, Espanha, Alemanha, Áustria e Grécia. Porque o Nordeste não é, nem nunca foi, um território fechado em si mesmo, daí não ser possível compreendê-lo a partir de uma ideia particular de identidade regional.
Em À Nordeste, encontramo-nos com um lugar que, quando se move, chega a muitos lugares. Estes constituem uma vida cultural que põe em colapso ideias de nacional e estrangeiro, original e imitado, porque aquilo que nos é próprio tem muito de estrangeiro, porque aquilo que nos é original tem muito do imitado, e também porque, naquilo que imitamos, existe originalidade. Nesta exposição, vemos como é mesmo difícil, muito difícil, resumir uma vida cultural.
Bárbara Buril é jornalista pernambucana e doutoranda em Filosofia na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
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