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julho 19, 2013
Quem é o autor? por Raquel Cozer, Folha de S. Paulo
Quem é o autor?
Matéria de Raquel Cozer originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 17 de julho de 2013.
Sai o fetiche do livro: escritores e editores viram produtores que exploram histórias em várias plataformas e as multiplicam em obras coletivas
Alguma coisa está muito fora do padrão quando a maior livraria on-line do mundo abraça uma causa que há mais de uma década cresce às margens do mercado e à revelia de alguns de seus autores mais vendidos.
Isso aconteceu duas semanas atrás, quando a Amazon estreou a plataforma Kindle Words, pela qual fãs que gostam de criar histórias baseadas em best-sellers --a chamada "fan fiction", que reaproveita cenários e personagens de outros escritores-- podem não só fazer isso legalmente como vender suas criações.
Para criar a plataforma, a Amazon obteve licenças de séries como "Gossip Girl", de Cecily Von Ziegesar, e "Pretty Little Liars", de Sara Shepard. Com isso, tramas que chegavam a ser vistas como plágio agora podem render frutos ao fã, ao escritor que o inspirou e, é claro, à livraria.
Nesse cenário, o autor da história original deixa de ganhar especificamente pela venda de livros e sua obra vira uma marca, licenciada e multiplicada pelas mãos de vários outros escritores.
Esse é o recorte de um momento que o editor americano Richard Nash retrata no provocativo ensaio "Qual o negócio da literatura?", no mais recente número da "Serrote", revista do Instituto Moreira Salles, que será lançado em São Paulo neste domingo.
É um cenário em que autor e editor vão além dos livros para virar produtores de cultura. "A cultura do livro não é fetichismo com o texto impresso; é o movimento da ideia e do estilo na expressão de histórias", escreve Nash.
O texto põe em cheque o direito autoral --justo o que hoje garante a sobrevivência do mercado. Defende que esse direito não foi criado para proteger o autor, mas "nasceu de um interesse meramente corporativo".
O editor explica à Folha: "Uma parcela mínima de escritores faz dinheiro. O direito autoral existe para facilitar ao editor o retorno sobre seu investimento e impedir cópias do seu produto."
Isso num mundo analógico. No digital, defende Nash, "a receita não virá de fazer cópias, virá de serviços, palestras, produtos associados. São formas de gerar receita que independem do faturamento com vendas de livros."
Nesse contexto, entram iniciativas como a plataforma de "fan fiction" da Amazon, festivais literários como a Flip e romances colaborativos como "The Silent History", um aplicativo lançado há pouco no iTunes e que permite aos leitores expandir a história.
Nash, que ganhou em 2005 um prêmio de de criatividade da Associação de Editores Americanos pela editora independente Soft Skull, criou em 2011 um site que explora essas alternativas no que diz respeito ao mercado.
Com 10 mil títulos à venda, o Small Demons é uma enciclopédia de referências literárias: você acha desde uma lista de livros que abordam Bob Dylan até todos os famosos citados em "Infinite Jest", de David Foster Wallace.
FORA DA CURVA
No que diz respeito ao autor, o engenheiro de software brasileiro Silvio Meira enxerga ainda mais possibilidades.
Autor de palestra que, no Congresso do Livro Digital, em junho, lhe rendeu uma emboscada de bibliotecários (insatisfeitos com seu questionamento sobre a importância de bibliotecas físicas no futuro), Meira diz que o escritor já vive cenário multifacetado.
"Conheço dezenas de escritores, mas não conheço nenhum que viva dos livros que escreve. Alguns são colunistas, outros fazem roteiros, outros atuam em editoras", diz.
Apesar disso, no centro de tudo está o livro. "Se alguém pirateia meu livro e o lê inteiro, posso acreditar que estará interessado o suficiente para ir a alguma palestra que eu vá ministrar", exemplifica.
Para ele, os direitos autorais serão vistos no futuro como um ponto fora da curva na história da literatura.
"O autor foi criado pela prensa. Antes de Gutenberg, não existia copyright. As histórias pertenciam às comunidades. Vemos agora uma volta ao coletivo, com mixagem, apropriação de textos. O conceito de autor fica difuso".
É uma visão que editores de grandes casas ainda entendem como algo distante.
CONFIANÇA
"O livro digital ainda está na margem de 2% a 2,5% no faturamento de editoras no Brasil. Pode ser que aconteçam mudanças radicais envolvendo direitos autorais, mas só quando esse mercado for suficientemente grande", diz Pascoal Soto, da LeYa.
Tomas Pereira, da Sextante, estranha a visão de que o direito autoral interesse mais às editoras que aos autores. "Nossa atividade nasce da confiança do autor. O que pagamos a ele representa nosso maior custo de produção."
Ele concorda que quase nenhum autor vive da venda de livros, mas não vê nisso justificativa para o abandono do valor que o leitor se dispõe a pagar pelo livro. Saber por quanto tempo, no modelo que se impõe, haverá disposição para pagar por algo que se pode ter de graça, como lembra Nash, é o mistério.
Arte com ou sem galeria? por Audrey Furlaneto, O Globo
Arte com ou sem galeria?
Matéria de Audrey Furlaneto originalmente publicada no jornal O Globo em 16 de julho de 2013.
Num cenário de negócios inflados, artistas discutem a necessidade de ter representação comercial para sobreviver e questionam o ritmo acelerado imposto pelo mercado
RIO - Quando deixou a galeria que a representava, em maio passado, a artista Laura Erber, 33 anos, se via mergulhada num “modelo tedioso”: preparar mais uma série de obras para uma exposição na galeria; produzir, em seguida, outro trabalho para responder à demanda das feiras de arte; abrir seu ateliê para colecionadores; vender; fazer mais uma série de obras; produzir outro trabalho para feiras...
— A sensação que tenho é que se impôs este modelo: o artista de sucesso é o que está na galeria poderosa, circulando nas feiras de arte mais representativas, aqui e fora — lembra ela, que já fez individuais na Fundação Miró, em Barcelona, e no Museu de Arte Moderna do Rio e acaba de lançar mais um livro, o romance “Esquilos de Pavlov”. — Há uma obrigatoriedade desse ritmo de produção, e não me refiro à galeria que me representava especificamente (a carioca Mercedes Viegas). O modelo é de um ritmo muito desesperado e te leva quase a transformar seu trabalho em algo mais superficial e mais fácil. Resistir um pouco a esse modelo é fundamental até mesmo para você poder trabalhar, caso contrário torna-se uma profissão liberal como qualquer outra.
Com a recente histeria em torno do mercado de arte — e as galerias ultrafortalecidas —, o questionamento de Laura reflete uma preocupação crescente entre os artistas: é possível sobreviver e fazer circular o trabalho de arte sem estar vinculado a uma galeria comercial? A alternativa mais óbvia, das instituições (sem fins lucrativos), vive um período de enfraquecimento: são raros os salões de arte, os prêmios, as convocatórias para a criação de trabalhos que, enfim, circulem sem exatamente a necessidade de venda.
— A gente ficou muito dependente da galeria, por uma atrofia de outras instituições ou de paradigmas mesmo. No próprio imaginário do que é ser artista contemporâneo, o modelo da galeria acabou se impondo, e o que vejo é quase uma corrida maluca para chegar a esse pódio delirante. A mim, se for para cumprir um cronograma, uma trajetória totalmente pré-determinada, não interessa — completa Laura.
A questão, que vem motivando discussões em redes sociais, já foi mote de obra de arte: em sua mostra na galeria Millan, em São Paulo, o artista paulistano Rubens Mano incluiu uma placa em que se lia o texto: “Artista sem galeria é artista morto”. O carioca Arjan Martins, um sem-galeria desde o início de sua carreira, se vê como um “kamikaze”. Seu discurso soa ainda mais pessimista que os de seus pares:
— O artista sem galeria realmente fica numa situação muito difícil no momento em que tem que se mostrar, se colocar no mercado, se mostrar profissional... Entendo que o artista sem galeria, sem representação no país, é quase que um herói e quase um kamikaze. Está apostando na própria subjetividade. Se vai ganhar alguma visibilidade precoce, sorte dele. Mas é muito raro — lamenta o carioca.
Aos 53 anos (20 deles como artista plástico) e com obras em coleções como a de Gilberto Chateaubriand, Martins diz que é difícil vender obras sem a mediação de uma galeria (“Não tem fila de colecionador na porta do meu ateliê, quem dera...”). Ainda assim, o artista diz que não abriria mão de “ter paz para trabalhar” em troca de uma representação comercial.
— Quero tocar minhas pesquisas com um pouco mais de dignidade, e isso quer dizer comida na mesa, ter minhas contas pagas e uma representação um pouco mais cuidadosa. Não digo com isso que não considero o papel do galerista importante na vida de um artista. Não vejo nada de mau nisso, acho até que é uma ponta interessante. Mas são duas pontas distintas: a que produz, de forma solitária, no ateliê, e a que escoa essa produção — avalia Martins.
Com trajetória mais longa (50 anos de carreira), Carlos Vergara, 71, trabalha com um modelo, digamos, híbrido: não tem exclusividade com uma galeria específica, ou seja, qualquer uma pode negociar suas obras — e ele também.
— É possível viver sem galeria? Eu respondo: É, mas não é possível viver sem marchand. Há pessoas com escritórios de arte, que entendem do assunto e que vendem meu trabalho no Brasil todo — afirma Vergara. — Mas preciso dizer: a primeira instância do meu trabalho não é o produto, é o pensamento. Eu o troco por dinheiro, porque preciso viver. Posso, assim, fazer obras invendáveis. Estou agora mesmo trabalhando com o lixo do Museu do Açude, e isso não é, obviamente, para vender.
Vergara “profissionalizou” o próprio ateliê. É lá que ele concebe e produz novas obras, recebe amigos (entre eles, colecionadores e marchands que, eventualmente, podem comprar seus trabalhos), armazena peças e organiza exposições.
— Como tenho 50 anos de carreira, posso me dar o luxo de não ter exclusividade com ninguém e expor onde eu bem entender. Isso não quer dizer que o trabalho dos marchands e galeristas não é importante. Jean Boghici, por exemplo, é um nome fundamental na arte brasileira, por colocar no mercado algo que, a certa altura, era quase clandestino (como obras políticas dos anos 1960, entre outros). Agora, defendo que os artistas abram mais seus ateliês, para pessoas que estejam interessadas em arte de um modo geral, compradores ou não.
O galerista Márcio Botner, à frente da A Gentil Carioca, tem olhar ponderado: diz que a “galeria é apenas um dos muitos canais que a arte tem para circular”, embora reconheça que, num cenário de mercado de arte inflado, os espaços comerciais acabam por ganhar destaque em relação às instituições.
— A galeria pode ajudar a pensar ações e deslocamentos na trajetória do artista, criar relações dele com curadores, museus, colecionadores. Mas o mercado não pode ser o único legitimador da arte. Isso é muito perigoso. Sinto muita falta de ações dos próprios artistas. Sinto falta de projetos como o Orlândia* (criado por iniciativa de artistas, no início dos anos 2000, realizava exposições em casas no Rio, sem vínculo com instituições ou galerias) — lembra Botner.
O galerista diz que, por outro lado, não se pode negar a importância das feiras de arte que, talvez pelo enfraquecimento das instituições, tenham se tornado “o ponto de encontro de todas as pontas do circuito”.
— As feiras são uma pressão que o artista sofre, mas que as galerias sofrem também. A Gentil deve participar de oito neste ano. Para a ArtRio, por exemplo, nossa tendência é convocar os artistas para que produzam obras para a feira. Mas não há uma imposição e não acho que a galeria seja a única salvação — completa.
Para a curadora assistente do MAM do Rio, Marta Mestre, “a arte está inserida no mercado, e não faz sentido pensar de outra forma — ou seja, ela faz parte de um sistema de circulação e difusão”.
— E, nesse sistema, há artistas que não conseguem criar seus processos de subjetividade. Para eles, o modelo não serve — avalia ela. — Cada vez mais tenho sentido da parte de alguns artistas a vontade de inventar novas circulações, novos processos de exposição e de venda.
Marta diz que costuma procurar artistas fora do mercado para exposições, já que “a pesquisa na galeria gera uma curadoria previsível”:
— Quando o curador vai buscar fora da galeria comercial, consegue uma lufada de ar fresco.
Participante da elogiada 30ª Bienal de São Paulo, no ano passado, e finalista do prêmio Pipa deste ano, o paulista radicado no Rio Cadu, 35 anos, mantém um discurso crítico sobre a relação entre artistas e galerias. Ele próprio é representado pela Vermelho, de São Paulo, que, diz, “não está interessada apenas na venda, mas em arte, em fomentar a discussão da arte e implementar a questão do profissionalismo”.
— Não se trata de pensar a galeria como vilão e o artista como coitado. Só acho que, em alguns momentos, como aconteceu e sempre vai acontecer, há um certo desequilíbrio de poder, em que o artista tem que procurar soluções próprias para colocar seu trabalho no mundo. E eu venho de uma geração que é dessa natureza. Em alguns momentos, quando não há solução, o artista encontra a sua — defende ele.
Para Cadu, o artista deve ser “uma raposa espreitadora que, na ausência de alternativas, cria alternativas”.
— As pessoas se esquecem disso: elas estão por diversos motivos no circuito de arte. De vez em quando, por arte. A maior parte está tentando resolver carências que são periféricas à questão da arte, que têm muito mais a ver com jogos de poder do que necessariamente com a afirmação da poesia ou com a construção de uma estratégia lúdica — afirma.
Como se quisesse se lembrar do motivo que o levou à arte, Cadu passou um ano vivendo numa montanha, isolado numa cabana, de junho de 2012 até março deste ano (em Nogueira, distrito de Petrópolis). Seu desejo era, nas palavras dele,“rasgar o tule que divide vida e arte”. Fez disso sua tese de doutorado e diz que, nesse período, pôde não apenas criar objetos de arte, mas “estar em arte”:
— Você se apreende ao mundo de uma forma muito mais espreitadora. E é isso que os artistas, as galerias e todos que estão envolvidos na arte têm que entender: o artista faz o que faz para espreitar o mundo. Ele fareja o mundo para saber que os territórios estão compartilhados, que ele não está sozinho. O que eu tenho que fazer é ocupar e desocupar o território de maneira afetiva, com ternura, com doçura, e eu vejo isso cada vez menos.
* Ver e-nformes Orlândia (02/05/2001) e Nova Orlândia (15/08/2001)
Grafite de osgemeos que fazia referência a protestos é apagado, Folha de S. Paulo
Grafite de osgemeos que fazia referência a protestos é apagado
Matéria originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 19 de julho de 2013.
A dupla osgemeos teve mais um grafite apagado pela Prefeitura de São Paulo. Em três meses, foi a terceira obra de autoria dos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo --conhecidos internacionalmente por seu trabalho-- encoberta.
Desta vez, o alvo da tinta cinza foi só a parte escrita, que dizia "Vinagre é crime". O desenho foi mantido. O grafite fica no bairro Paraíso, próximo à avenida 23 de Maio.
O trabalho fora feito em junho, após a detenção de pessoas por porte de vinagre (que supostamente reduz efeitos do gás lacrimogêneo), em um protesto contra o aumento da tarifa de ônibus.
Após a intervenção, os artistas escreveram por cima um trecho da Constituição: "É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura".
O subprefeito da Sé, Marcos Barreto, disse que a ação foi um erro e que irá transferir a equipe contratada para apagar as pichações no centro.
"Houve interpretação equivocada de que a parte escrita era uma pichação. Não temos nada contra o grafite."
O Dragão e os espaços degradados por Érico Firmo, O Povo
O Dragão e os espaços degradados
Matéria de Érico Firmo originalmente publicada no jornal O Povo em 16 de julho de 2013.
A grandiloquência arquitetônica como política de Estado costuma trazer em seu bojo, mundo afora, o argumento de requalificação dos locais onde os megaequipamentos são instalados. Há aí duas premissas falsas para iludir o populacho: 1) nem é preciso colocar um mondrongo no meio de comunidades degradadas para promover a recuperação desses espaços; 2) nem é verdade que a instalação de uma estrutura gigantesca garante, por si só, a requalificação urbanística. Pode, sim, ajudar, mas se houver trabalho e estratégia direcionados com tal fim. Não há milagre. O Dragão do Mar – com ares de decrépito aos 14 anos – trouxe a promessa de recuperação daquele histórico pedaço da Praia de Iracema. A ideia era transformar aquilo ali num polo criativo. Nunca chegou a se concretizar. Boates se instalaram, mas poucas sobrevivem. Ao invés de atrair ateliês e galerias, o Dragão parece ter servido para afastá-los. O último a resistir do grupo que chegou ainda antes do centro cultural foi Zé Tarcísio. Hoje, a marca maior do entorno do que já foi chamado de segundo maior centro cultural do Brasil é a feira informal que ocupa indevidamente calçadas e rua, representa riscos aos próprios comerciantes e clientes e que, gestão após outra, a Prefeitura não consegue solucionar. A virada anunciada para a cultura está perto de completar aniversário de um ano com aparência de giro de 360º: permanece praticamente no lugar de onde saiu. Paulo Linhares deu até uma boa sacudida na programação e anunciou interessante pacote de obras – cujos resultados ainda são aguardados. Mas o mais importante é que o Dragão não existe isolado de seu contexto. Ao invés de requalificar o entorno, o centro se tornou parte da deterioração. O terceiro assassinato naqueles arredores em menos de um mês é sintoma da tragédia que é da cultura, da política e da cidade.
Construído sob polêmica e a desconfiança de estar em marcha um elefante branco, o Dragão transformou a cena cultural na virada do século, mas não resistiu ao descaso na gestão aliado ao entorno precarizado historicamente. Não é possível a falada requalificação se não houver melhora das condições de vida e moradia da população local – notadamente o Poço da Draga. Escondida atrás da antiga alfândega, a comunidade pobre só deixa de ser invisível para o conjunto da cidade quando é responsabilizada pelos crimes que ali acontecem. Jamais foi integrada à biblioteca pública ali perto. Não foi levada em conta na instalação do Dragão e até houve tentativa de removê-la na época em que se pretendia instalar um centro de eventos dentro do mar.
Enquanto os habitantes das redondezas, sobretudo em contexto de exclusão e contrastes sociais e econômicos, forem considerados pedaços apartados de megaempreendimentos, promessas de requalificação permanecerão palavras ao vento. Quanto ao Dragão, recuperar usos e espaços não basta e nem mesmo é o principal. É imperativo haver melhoria das condições de vida no local, garantir acesso a serviços públicos de qualidade e fazer com que a comunidade seja e se sinta parte.
Construir equipamento ou promover evento não é passe de mágica para requalificação urbana. A cada zona portuária de Barcelona - paradigma de soerguimento nas Olimpíadas de 1992 - há milhares de fracassos. Separados por uma avenida, hoje Caixa Cultural e Centro Dragão do Mar não constituem um todo integrado. Estão apartados pelo medo e pela deterioração. Quando e se o aquário sair, será igualmente incapaz de transformar o espaço se não houver ênfase, estratégia e trabalho nessa direção. Corre o risco de ser outro pedaço apartado num conjunto de abandono salpicado de velhas e novas joias do poder público, cercadas de miséria e degradação por todos os lados.
Artista brasileira mistura sonhos e tecnologia em obra realizada em Berlim por Marco Sanchez, Deutsche Welle
Artista brasileira mistura sonhos e tecnologia em obra realizada em Berlim
Matéria de Marco Sanchez originalmente publicada no Deutsche Welle em 2 de julho de 2013.
Em estúdio aberto, Anaisa Franco mostrou o processo de criação de sua instalação "Flutuações Oníricas". O trabalho da artista mistura robótica, arte digital e psicologia em obras que desafiam a imaginação.
O trabalho de Anaisa Franco é uma ponte entre o físico e o digital, quase como um jogo entre o corpo e a alma. A artista plástica usa conceitos da psicologia para criar esculturas e instalações que brincam com os sentimentos e com a imaginação.
Franco foi convidada para uma residência de seis meses no Zentrum für Kunst und Urbanistik (Centro para Arte e Urbanismo), em Berlim, um coletivo que desenvolve projetos e promove o intercâmbio entre artistas de todo o mundo.
Na quinta-feira passada (27/06), a artista realizou seu primeiro estúdio aberto para mostrar o projeto que vem desenvolvendo desde o início de sua residência, em fevereiro. "Esse projeto se chama "Flutuações Oníricas". Nele, eu coleto sonhos das pessoas e vou criando plataformas efêmeras. Através de animações, eu transformo esses sonhos em realidade, projetando esses sonhos [imagens] nessas plataformas", explicou Franco, em entrevista à DW Brasil.
No caso de "Flutuações Oníricas", essas plataformas de matéria efêmera são água, fumaça e bolhas de sabão. "Busco misturar materiais e criar outra visualidade, que não seja apenas uma tela", disse a artista brasileira.
Transformando sonhos em arte
"Eu primeiro desenvolvo desenhos em cima de fotografias de neve e do céu. Preciso experimentar as formas porque, para as projeções funcionarem nas plataformas propostas, elas têm que ser simples. Esse processo é um estudo do que eu vou transformar em animação", disse Franco, sobre o processo de trabalho.
"Flutuações Oníricas" é uma extensão do trabalho de Franco, no qual ela costuma investigar a relação entre os materiais físicos e digitais que compõem suas esculturas. Assim, a tecnologia tem um papel importante em explorar e traduzir como os sonhos são moldados nas mentes do ser humano.
"Você pode ver a imagem sendo desenhada através da água. Isso [por exemplo] é um sonho. Outro sonho eu represento através de pequenas bolas de água, o que torna a projeção mais abstrata. A fumaça cria uma espécie de céu, onde os sonhos são projetados", exemplificou a artista.
Para conduzir o público a uma espécie de realidade paralela, que brinca com o inconsciente, Franco quis que o espaço e o tempo fossem percebidos de forma tão passageira quanto as plataformas que criou.
No projeto interdisciplinar na Alemanha, Franco trabalhou em colaboração com os músicos Fernando Epelde (Espanha) e Paula Reis. Eles desenvolveram a trilha sonora para as obras. Cada som foi inspirado em um dos sonhos representados na exposição, que são de amigos da artista e cujos relatos foram enviados por e-mail.
"Meu objetivo é representar dez sonhos. Até agora, só fiz três. A plataforma da água e da fumaça já está resolvida, a das bolhas de sabão está em desenvolvimento", afirmou.
Físico e digital
Franco nasceu em Uberlândia (MG) e, desde 2006, desenvolve trabalhos em laboratórios de mídia, estudos artísticos e residências ao redor do mundo. Para a artista plástica, a tecnologia é uma ferramenta de expressão. Usando algo concreto, como a mecânica e a robótica, ela cria seus "sonhos digitais".
A convivência com a mãe psicóloga teve grande influência em seu trabalho. Franco usa a psicologia para investigar questões do comportamento humano. Tenta traduzir o sonho por animações digitais e por sensações criadas através das mais diferentes plataformas e tecnologias. Sua arte inclui também a pesquisa científica e o desenvolvimento de diversos materiais e técnicas.
Na instalação "Controlled Dream Machine" (2007), por exemplo, ela criou um par de pernas robóticas que sonhavam. "O digital funciona como [se fosse] a imaginação das máquinas. Sempre crio relações entre o corpo físico e a mente digital", explicou.
Depois de Berlim, "Flutuações Oníricas" deve ser exposta em uma galeria em São Paulo. "Peças como essas são comercializadas através dos desenhos ou por partes. A grande bola de água com projeção pode ser vendida. Quero arrumar uma maneira de apresentar essa instalação em festivais de luzes. Tenho uma proposta em Dubai e outra na França", disse Franco.
Outro projeto da artista é levar a obra "Reflexões Oníricas", que ela desenvolveu durante uma residência em Paris, para a fachada do prédio da Fiesp, na Avenida Paulista, centro financeiro de São Paulo. "Essa peça usa câmera e espelhos que criam projeções no rosto dos espectadores. Quero fazer isso em grande escala", projeta a artista.
