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setembro 28, 2012
Perto do coração por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Perto do coração
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 28 de setembro de 2012.
Biografia narra em detalhes vida de Matisse e conta como o artista francês criou obras revolucionárias
"Se minha história fosse contada em detalhes, deixaria espantados todos que a lessem", escreveu Henri Matisse. "Quando fui arrastado pela lama, nunca protestei. À medida que passa o tempo, cada vez mais me convenço de quanto fui injustiçado."
Um dos artistas mais revolucionários da história da arte, o francês conhecido por suas telas berrantes, carregadas de cor, passou a vida sendo alvo de ataques de seus contemporâneos, que não entendiam aonde ele queria chegar com sua obsessão.
Da fama de louco à consagração como líder da vanguarda parisiense no começo do século 20, a trajetória de Matisse está agora esmiuçada numa extensa biografia.
Hilary Spurling, a autora de "Matisse, Uma Vida", que sai agora pela Cosac Naify, passou 12 anos fazendo entrevistas e visitando todos os pontos por onde o artista passou em busca da luz de suas obras, compondo um retrato minucioso de seu trabalho.
Embora tenha quase 600 páginas, a versão brasileira do livro é a junção condensada de dois tomos originais escritos por Spurling, que considera essa a edição definitiva da obra, livre de excessos.
"Uma biografia é um retrato da pessoa, como uma pintura", diz Spurling, em entrevista à Folha. "Mas, se estiver muito carregada de detalhes, é impossível chegar à essência do personagem."
Matisse concordaria. "Quando fecho os olhos, consigo ver melhor do que com eles abertos", escreveu.
"Vejo o tema despojado de detalhes incidentais -é isso o que pinto."
Mas o artista manteve os olhos bem abertos para a luz radiante do sul da França, do Marrocos e até das ilhas do Pacífico para criar suas telas.
Nascido numa zona industrial do norte da França em 1869, Matisse morreu em 1954 aclamado como o pintor do sul, que extraiu do sol do Mediterrâneo a luminosidade de seus trabalhos mais célebres, como "Dança" e "Música".
Mas não foi uma rota sem percalços. Ele encarou a ira do pai, que discordava de sua decisão de ser artista, fugiu para Paris e acabou se decepcionando com um meio artístico incapaz de digerir a vanguarda dos impressionistas então em voga e muito menos de aceitar suas obras.
"Era como chegar a um país onde se fala outra língua", escreveu Matisse. "Achava que seria incapaz de pintar."
Essa dúvida prevaleceu ao longo de toda a carreira. Matisse se questionava o tempo todo e foi atacado por críticos da época pela "confusão deliberada" e "selvageria gratuita" de suas composições.
Em crise, chegou a pensar em se matar. "Seu corpo reagia com violência a tudo que se interpunha entre ele e sua pintura", escreveu Spurling. "E isso ocorreu desde as misteriosas dores nas costas que o afligiam na adolescência."
Matisse viveu entre o paraíso e o inferno
Artista, que criou obras estonteantes, se isolou para pintar e foi repudiado pela crítica quase toda a sua vida
Livro analisa relação conturbada do pintor com contemporâneos seus, como Picasso, Rénoir e Cézanne
Não seria exagero dizer que a obra de Henri Matisse foi construída na solidão. "O mundo todo lhe deu as costas", contou Lydia Delectorskaya, sua última mulher. "Todos se alinharam aos cubistas, e ele nunca quis se expor, demonstrar o quanto aquilo o machucou."
Matisse então fugiu para compor sua obra. Nos dois momentos chave de sua produção -os anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial, quando fez a "Dança", e o fim da vida, quando criou suas colagens de papel recortado-, o artista estava quase sempre sozinho.
Em sua biografia, Hilary Spurling revê a relação complicada do artista com seus contemporâneos, da reverência que tinha por Cézanne, "um deus para ele", e a amizade com Renoir aos atritos intensos com Picasso.
"Eles se reconheciam como rivais", diz Spurling sobre a relação entre Matisse e Picaso. "Mas as brigas fizeram com que cada um tentasse coisas que antes seriam impossíveis em seus trabalhos."
Em reação ao "Nu Azul", de Matisse, Picasso começou a pintar "Les Demoiselles d'Avignon", obra que inaugurou o movimento cubista.
Mas as aproximações não vão muito além. Matisse estava mais preocupado com a vibração das cores do que em rever conceitos de volume e espaço. Suas obras eram visões "estonteantes, ofuscantes e alegres", "um clamor que parecia berrar das paredes".
Ele pendurou na porta de seu ateliê um pequeno quadro de Cézanne e tinha o hábito de olhar para a tela do mestre pós-impressionista antes de trabalhar, uma espécie de guia visual.
Na construção de sua obra, no entanto, Matisse só teve o apoio real da mulher com quem passou quase toda a sua vida, Amélie Parayre.
Num de seus retratos mais célebres, que escandalizou Paris, ele pintou o rosto dela cortado ao meio por uma faixa verde, dividindo a tela em fortes campos de cor, quase uma síntese de seu estilo.
ESPINHA DORSAL
"Amélie era a única pessoa que acreditava nele no mundo", diz Spurling. "Ele dizia que a amava, mas que amava mais a pintura. Essa era a condição do casamento, e ela foi sua espinha dorsal."
Tanto que muito da história de Matisse está na correspondência entre eles. Em suas viagens, Matisse escrevia quase todos os dias à mulher, num estilo que sua biógrafa compara ao fluxo de consciência de Virginia Woolf.
Numa das cartas, ele descreve apaixonado a paisagem marroquina: "Quando parou a chuva, brotou da terra uma vegetação florescente", escreveu. "Todas as colinas em torno de Tânger, antes cor de pele de leão, ficaram recobertas de um verde extraordinário sob o céu turbulento, como num quadro de Delacroix."
"Ele foi um dos grandes missivistas do século 20", diz Spurling. "Ler essas cartas é como estar na pele dele, ver o mundo pelos olhos dele."
Muitas dessas visões, aliás, são recorrentes também na obra do artista. Em várias fases da vida, Matisse voltaria a alguns temas com certa insistência, quase um reflexo do que sentia no momento.
Quando se mudou para o balneário de Collioure, no sul da França, Matisse pintou uma janela aberta à luz ultracolorida, exemplo de sua "convicção de que a pintura dá acesso a outro mundo".
Mais tarde, em 1914, às vésperas da Primeira Guerra, ele volta ao tema, mas pinta um vazio negro visto pela janela, o que o poeta Louis Aragon viu como abertura para "o silêncio de um futuro negro".
São dois pontos de vista que refletem o céu e o inferno da vida real de Matisse, um artista atormentado pela incerteza e pela obsessão.
Ao final da vida, ele diria que suas telas mais alegres surgiram em momentos amargos-uma luz que vem das trevas.
MATISSE: UMA VIDA
AUTOR Hilary Spurling
TRADUTOR Claudio Marcondes
EDITORA Cosac Naify
QUANTO R$ 109 (592 págs.)
Raio-x: Henri Matisse
VIDA
Nasceu em 1869 em Le Cateau-Cambrésis, na França. Viveu e trabalhou em Paris e em Nice, e criou suas obras no Mediterrâneo, em ilhas do Pacífico e no Marrocos. Morreu em Nice, em 1954
OBRA
Ficou conhecido por obras monumentais como o tríptico "Dança", hoje no Hermitage, em São Petersburgo (Rússia). Também fez "O Ateliê Vermelho", hoje no acervo do MoMA, em NY
ESTILO
Foi enquadrado entre os fovistas por recriar nas telas a luminosidade intensa do Mediterrâneo. É considerado um dos maiores coloristas da história da arte
setembro 27, 2012
Marta elogia Bienal e diz que MinC tem interesse em resolver contas por Camila Molina, O Estado de S. Paulo
Marta elogia Bienal e diz que MinC tem interesse em resolver contas
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 26 de setembro de 2012.
Em janeiro, a entidade teve suas contas bloqueadas por questionamentos da Controladoria-Geral da União
A ministra da Cultura, Marta Suplicy, realizou nesta quarta-feira, 26, pela manhã, sua primeira visita oficial à Fundação Bienal de São Paulo para discutir o futuro da instituição. Em janeiro, a entidade teve suas contas bloqueadas por questionamentos da Controladoria-Geral da União (CGU) sobre convênios firmados pela Bienal entre 1999 e 2007. Uma liminar concedida em março pelo Tribunal Regional Federal (TRF) de São Paulo possibilitou que a instituição tivesse seus recursos desbloqueados apenas para fazer a captação orçamentária para a 30.ª edição. "Esta Bienal é considerada uma das três mais importantes do mundo. O MinC tem interesse que seus problemas sejam solucionados", disse a ministra, completando, depois, que será necessário usar uma "régua" para tratar dos problemas do passado da instituição de modo a não interferir em seu presente e futuro.
De uma maneira mais palpável, Marta Suplicy afirmou que a Fundação Bienal de São Paulo vai enviar ao MinC, na próxima semana, o resultado de uma auditoria interna e independente que a instituição realizou referente aos 13 convênios questionados. "No momento em que a auditoria chega ao MinC, a Bienal passa de inadimplente para adimplente e estamos estudando um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta)", disse a ministra.
Segundo Marta Suplicy, depois das análises das contas da instituição vai ser definido se a Bienal causou ou não danos aos cofres públicos. A ministra também citou a possibilidade de o pagamento ser feito em parcelas. "Vai ser rápido, teremos um grupo só para fazer isso", disse Marta Suplicy.
Por intermédio dos 13 convênios questionados pela CGU, que incluem atividades referentes a edições da Bienal de Veneza e da Bienal de Arquitetura, o Ministério da Cultura repassou para a Fundação Bienal de São Paulo, durante 1999 e 2007, um montante de R$ 33 milhões. A auditoria feita pela instituição comprova esse valor, mas há problemas de falta de documentação, por exemplo.
A diretoria da Bienal vê o diálogo com o MinC muito positivo para resolver o caso. "Foi uma decisão excelente para a fundação e que faz sentido. Não dá para parar a instituição enquanto se discute algo que reconhecemos também", afirmou o presidente da Fundação Bienal de São Paulo, Heitor Martins. "Acho que o esforço vai ser para que se resolva o problema em curto prazo", continua Martins, eleito presidente da instituição em 2009 e cujo mandato termina em dezembro. O objetivo da entidade é começar 2013 já como instituição adimplente para poder ser a proponente de suas atividades e captar recursos por meio da Lei Rouanet.
Depois de se reunir com membros da diretoria da instituição, a ministra Marta Suplicy fez uma visita pela 30.ª Bienal de São Paulo guiada pelo curador-geral da edição, o venezuelano Luis Pérez-Oramas.
Marta anuncia novo acordo com Bienal por Matheus Magenta, Folha de S. Paulo
Marta anuncia novo acordo com Bienal
Matéria de Matheus Magenta originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 27 de setembro de 2012.
Em visita à mostra, ministra fez seu primeiro ato político ao declarar que a fundação deve voltar a captar recursos
Fundação Bienal tem pendências de cerca de R$ 33 milhões com o MinC referentes a gestões ocorridas de 1999 a 2007
A ministra da Cultura, Marta Suplicy, declarou ontem, em visita à 30ª Bienal de São Paulo, que a Fundação Bienal poderá voltar a ser adimplente na próxima semana, o que permitirá a ela captar novos recursos incentivados.
Para isso, a fundação terá de apresentar uma auditoria sobre 13 convênios firmados com a pasta entre 1999 e 2007, que somam um total de R$ 33 milhões -uma pendência da fundação com o MinC, que considera o montante um rombo nas contas do órgão.
"A Bienal de São Paulo é considerada uma das três mais importantes do mundo. E o Ministério da Cultura tem extremo interesse que seus problemas sejam solucionados", afirmou Marta ontem no pavilhão da Bienal.
Essa medida é o primeiro ato político da ministra, que tomou posse no início do mês. Até então, Marta vinha evitando se posicionar sobre os temas polêmicos do ministério, como o caso da Bienal.
Em janeiro deste ano, o Ministério da Cultura e a Controladoria-Geral da União declararam a Fundação Bienal de São Paulo inadimplente com base em avaliação das prestações de conta referentes a esses convênios. As contas foram, então, bloqueadas, pondo em risco a realização da atual edição da mostra.
Em março, o Tribunal Regional Federal de São Paulo publicou um acórdão em que considerou que a apuração das irregularidades por parte do governo federal não poderia inviabilizar a captação de recursos e as contas da fundação.
Com a decisão anunciada ontem, assim que entregar a auditoria externa feita pela empresa Partwork, a Fundação Bienal de São Paulo poderá voltar a captar recursos e a firmar convênios com o governo federal.
Segundo Marta, um grupo foi formado dentro do ministério para analisar a auditoria. Após a análise, se discutirá se a fundação poderá voltar a captar recursos.
"É uma decisão excelente. Não queremos nos evadir da prestação de contas. Só queremos que o passado não comprometa o presente", disse Heitor Martins, presidente da Fundação Bienal.
O acordo entre o MinC e a fundação será formalizado na semana que vem por meio de um TAC (termo de ajustamento de conduta).
E só a partir da análise do MinC é que se poderá determinar qual é o valor que a fundação deverá devolver aos cofres públicos.
Em análises anteriores, a Justiça chegou a estipular um rombo nas prestações de contas de até R$ 75 milhões.
Arquiteta mineira vai assumir Iphan
A primeira mudança da gestão Marta foi anunciada ontem, com a nomeação de Jurema Machado para a presidência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Ela substitui o arquiteto Luiz Fernando de Almeida, que presidia o Iphan desde 2006 e cuja saída já estava acertada desde a gestão Ana de Hollanda. Segundo Marta, a prioridade de Jurema será conduzir o "PAC das cidades históricas". Leia mais em folha.com/no1159543.
setembro 26, 2012
Carta à Ministra Marta Suplicy da representação de segmentos culturais do CNPC
Excelentíssima Sra. Marta Suplicy
Ministra de Estado da Cultura
Presidente do Conselho Nacional de Política Cultural
Brasília, 20 de setembro de 2012.
Na qualidade de membros titulares do Conselho Nacional de Política Cultural – CNPC (2010-2012), representantes da sociedade civil, saudamos a Ministra Marta Suplicy, desejando uma gestão proficua e de grande eficácia à frente do Ministério da Cultura. Confiamos que a escolha de V.Exª para assumir a pasta da Cultura trará avanços na implementação das políticas culturais e efetividade na participação da sociedade civil por meio do CNPC, instância central na estrutura do Sistema Nacional de Cultura.
Sem representação dos setores da Cultura que constituem o Plenário desse importante Conselho, os signatários desta carta estão com o mandato findo e o processo eleitoral para a formação ou reconstituição dos Colegiados Setoriais e escolha Conselheiros do CNPC está em andamento. Como partícipes desse momento, na mobilização social e em comissões eleitorais ainda vigentes designadas pelo MinC, manifestamos aqui nossas preocupações em relação ao andamento deste processo.
Com intuito de pactuar com o MinC uma alternativa legal ao processo, sugerimos que sejam convocados por V.Exª os membros da Comissão Temática do Sistema Nacional de Cultura, composta pelos representantes da sociedade civil Charles Narloch, Dora Pankararu e Rosa Coimbra e pelos representantes do poder público Ignácio Kornowski e João Roberto Peixe. Num segundo passo, também importante para o estabelecimento e valorização desta instância de participação da sociedade junto ao MinC, sugerimos a convocação de todos os representantes dos 19 segmentos culturais representados no Conselho, sem prejuízo ao cronograma previsto para a realização dos Fóruns Nacionais Setoriais.
Respeitosamente,
Alice Viveiros – Circo
Antônio Ferreira – Cultura Afro
Charles Narloch – Artes Visuais
Dora Pankararu – Cultura Indígena
Du Oliveira – Música Erudita
Freddy Van Camp – Design
Heloísa Esser dos Reis – Arquivos
Isaac Loureiro – Culturas Populares
Ivan Ferraro – Música Popular
Jeferson Dantas Navolar – Arquitetura e Urbanismo
Luiz Alberto Cassol – Audio Visual
Marcos Olender – Patrimônio Material
Nilton Bobato – Leitura, Livro e Literatura
Patrícia Canetti – Arte Digital
Renato da Silva Moura – Artesanato
Rosa Coimbra – Dança
Virgínia Lúcia Menezes – Teatro
Washington Queiroz – Patrimônio Imaterial
Dragão do Mar, uma "refinaria da cultura" por Pedro Rocha, O Povo
Dragão do Mar, uma "refinaria da cultura"
Matéria de Pedro Rocha originalmente publicada no caderno Vida & Arte em 26 de setembro de 2012.
Novo presidente do IACC, o sociólogo Paulo Linhares fala pela primeira vez sobre seus planos para o Dragão do Mar
Há 20 dias o nome de Paulo Linhares foi confirmado pelo governador Cid Gomes como o novo presidente do Instituto de Arte e Cultura do Ceará (IACC), instituição responsável pela gestão do Dragão do Mar. O anúncio, em meio ao que se chamou de “virada cultural”, um pacote de investimentos do Governo do Estado para reorientar a política da Secretaria da Cultura, gerou grandes expectativas, principalmente em torno do nome de Linhares. Ex-secretário da cultura no governo Ciro Gomes, o sociólogo foi o idealizador do maior centro cultural do Estado, mas nunca havia gerido o equipamento, inaugurado após sua saída da Secult.
Na última segunda-feira, antes de sua primeira reunião com a nova diretoria, ele concedeu entrevista exclusiva ao Vida & Arte, quando falou sobre seus inúmeros projetos para os próximos dois anos à frente do Dragão do Mar (tempo que resta do segundo mandato de Cid). Entre as propostas, o fortalecimento da formação, da criação e da difusão cultural – os três eixos estabelecidos para sua gestão –, assim como o estreitamento da relação com os moradores do entorno do espaço. Projetos ambiciosos, como já se deve esperar de Linhares, e com verba garantida, segundo ele, pelo próprio governador. Confira abaixo, trechos dos depoimentos de Paulo ao O POVO.
Refinaria da Cultura
Eu falo brincando que o Dragão é a refinaria da cultura, porque ele tem que qualificar do ponto de vista de formação e tem que incentivar a criação, por isso que a gente tá trabalhando com a ideia de “laboratório”, onde essa a criação se dá juntamente com o processo de qualificação. E depois o Dragão tem que ter uma preocupação com a difusão. Isso aqui recebe dois milhões de pessoas por ano, pode chegar a três, quatro, principalmente se você tiver uma diversidade de públicos.
A nova formação
Nós temos um grande projeto que é a criação do Porto Iracema, que é o novo Instituto Dragão do Mar. No Porto Iracema, teremos duas vertentes, uma de formação básica e outra de laboratório. A formação básica são cursos de mais ou menos 50 horas/aula e a gente vai criar um modelo em que o aluno não faça só um, mas pelo menos cinco cursos. Se ele vai ser cinegrafista, então ele faz luz, fotografia etc., aí quando ele completar tem o básico. O Instituto Dragão do Mar me ensinou uma coisa: quando você tem gente qualificada, se cria o mercado. Vamos terminar de reformar ali a Capitania (dos Portos, prédio que está à disposição do centro cultural agora). A segunda fase são os laboratórios, que serão destinados aos profissionais que já estão no mercado. A gente selecionou as 10 principais linguagens e para cada linguagem será criado um laboratório. Música, por exemplo, a gente escolhe oito projetos musicais naquele ano e vai supervisionar e dar qualidade pra esses projetos. Então vamos trazer um diretor de cena, um diretor musical e, de comum acordo com o pessoal do projeto, produzir esse espetáculo. É uma maneira de fazer formação com criação. Projetos de um ano.
Ciclos temáticos (difusão)
O que eu sempre pensei, que era o projeto original do Dragão e que eu acho que é um certo padrão dos centros culturais do mundo, é eleger grandes ciclos temáticos de discussão. No caso específico do Dragão, nós vamos eleger trimestralmente um grande tema, que tem um diálogo com o Ceará, com o Brasil. Não vou te dizer logo os quatro, não, que perde a graça, mas o primeiro vai chamar “CEPIRA: o pop e o caldo popular”. Vai ser uma discussão em janeiro, fevereiro e março. Ceará, Piauí e Pará. Uma discussão sobre esse fluxo de cultura que se criou a partir do Ceará e que vai pro Pará no que eu chamo o “rastro do boi”, e volta pra cá também. Não é o axé baiano, nem a cultura pernambucana, é um eixo completamente diferente que vamos discutir, essa questão do brega-pop, que gerou essa onda todinha da Gabi Amarantos, Aviões do Forró... Acho que uma das tarefas dos centros culturais é dar visibilidade a esses fenômenos que são mais ou menos conceitualmente invisíveis, então vai ter ciclo de debates, exposição, shows... Esse é o primeiro.
Casa de criação
A parte de incentivo à criação tem uma dupla mão, desde os laboratórios, até a questão da programação do Dragão, que deixa de ser uma casa de recepção e passa a ser uma casa de criação. Claro que nós vamos receber exposições também, mas vamos deixar de ser uma casa passiva para ser uma casa de criação. E aí tem dois projetos interessantes. Nós vamos fazer um grande festival anual que vai se chamar “Ceará, Mostra a tua Cara”, que vai envolver toda a Praia de Iracema. Vai acontecer em janeiro, todo ano, e pretende ser um balanço anual do que aconteceu na cultura. Começa em 2014. Vai ter festival de cinema, música... Vai ser um grande movimento.
Segurança
A gente tem três projetos. Primeiro a gente tem um problema, a gente precisa trabalhar o entorno do Dragão. Quando o Dragão começou, tínhamos um projeto para que, se tivesse uma opção entre o pessoal do Poço da Draga, eles seriam privilegiados em possíveis contratações. Então a gente tem que retomar essa relação, o Dragão tem que sofrer as dores e as alegrias do Poço da Draga, tem que estar ligado com eles, tem que ter um trabalho social com o entorno, incentivar o trabalho e a participação, a vivência dessas pessoas com o Dragão. Depois a gente quer fazer um “Centro de Criação Cultural” pra esse pessoal. Não adianta a gente imaginar que vai eliminar esse pessoal por decreto. É um trabalho a longo prazo, um trabalho extremamente delicado. E a terceira coisa, a gente vai colocar aqui seria um “Batalhão de Cultura e Arte” da Polícia Militar. Queremos selecionar (os policiais) de acordo com o nível de ligação que têm com a cultura, aí a ideia é que a gente tenha em oito pontos do Dragão um casal fixo e estabelecer também um sistema de câmeras de segurança e uma central de inteligência.
Dinheiro
Já arranjei. O orçamento do Dragão hoje é de apenas 9 (milhões) para os três equipamentos. Mas já negociei dinheiro pra formação, pra programação, aquele dinheiro que foi apresentado lá (no lançamento da virada cultural). Não estou nem contando com esse dinheiro da reforma (R$ 11 milhões para integração com a Biblioteca Menezes Pimentel). Eu tenho negociado 49 milhões pra dois anos. São dois anos só (até o fim do mandando de Cid gomes). Esse dinheiro é o seguinte. Existem dois fluxos de investimentos no Dragão, tem um contrato de gestão e tem investimentos fora do contrato de gestão que o governador aprova via MAPP (Monitoramento de Ações e Projetos Prioritários). No contrato de gestão, é claro, vamos colocar o máximo, mas ele tem limites orçamentários, porque na verdade os orçamentos fixos sobem no máximo 10%, aí já vai ser uma luta. O resto vai ser via MAPP. Você cria projetos, o governador aprova e eles entram via Secretaria da Cultura. O governador já aprovou os projetos. Eu fiz uma grande discussão com ele, item por item. Aquela fase todinha em que eu não falava nada foi uma grande conversa com o governador. A preocupação número 1 dele é formação. E nesse dinheiro praticamente não existe obra, ele é quase todo é pra a cultura mesmo.
Saiba mais
Nova diretoria no IACC
Paulo Linhares trocou vários cargos da diretoria do IACC com a sua chegada. A professora de audiovisual Beth Jaguaribe assume a nova Diretoria de Formação. A jornalista Isabel Andrade passa a ser a diretora de Ação Cultural e Maninha Morais, secretária adjunta da Secult, entra na Diretoria de Planejamento e Gestão. Valéria Sales permanece na Diretoria Financeira, assim como Diana Pinheiro no comando do Centro Cultural Bom Jardim. A ex-presidente do IACC Isabel Fernandes agora comanda a gestão da Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho. Linhares ainda assume provisoriamente a curadoria do Museu de Arte Contemporânea do Dragão do Mar.
setembro 25, 2012
Mostra em SP revê evolução da fotografia britânica no século 20 por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Mostra em SP revê evolução da fotografia britânica no século 20
Exposição tem obras de grandes nomes como Cecil Beaton, Wolfgang Tillmans e Martin Parr
Dos anos 1930 até hoje, panorama de imagens documenta evolução histórica do país e suas transformações sociais
Entre 1936 e 1947, um grupo de 1.500 observadores varreu o Reino Unido fotografando os hábitos dos britânicos.
Chamado "mass observation", esse movimento serve de ponto de partida para um amplo painel da fotografia britânica que está agora numa mostra na Galeria de Arte do Sesi, em São Paulo.
Não escapam nomes mais badalados da história imagética do país, dos fru-frus do fotógrafo de moda Cecil Beaton às excentricidades inglesas capturadas pelas lentes de Martin Parr. Mas há espaço para nomes menos conhecidos, que documentaram a evolução de uma sociedade.
Enquanto os registros dos anos 1930 e 1940 ainda simulam um olhar frio e documental, a fotografia britânica também soube retratar a realidade de formas mais engajadas.
No começo do século, Bill Brandt lançou um olhar crítico à estratificação da sociedade britânica, que então se tornava mais evidente. Mais adiante, na Segunda Guerra, outros fotógrafos, como George Rodger, mostram as barricadas erguidas em Londres contra os bombardeios.
São visões que oscilam entre documento histórico e crônica social. Mas é no pós-Guerra que a fotografia do país se torna mais crítica e parece tomar gosto pelo retrato da classe média, o glamour e os modos de vestir dos mais ricos e as mudanças arquitetônicas e sociais nas cidades.
"Nos anos 1960 e 1970, fotógrafos começam a questionar a ideia de fotografia como um meio objetivo", diz Martin Caiger-Smith, um dos curadores da mostra. "São aspectos do caráter da nação que chamam a atenção, coisas estranhas e peculiares pinçadas da realidade do país."
TRANSFORMAÇÃO
Nesse momento de transição, em que a fotografia também passa a ser colorida e se torna uma ferramenta crítica nas mãos dos artistas, surgem retratos de uma juventude multiétnica, dos punks, dos neonazistas e da depressão na era Margaret Thatcher.
Chris Killip é talvez o nome mais forte da mostra nesse período de desmanche do parque industrial britânico. Suas imagens de personagens sem rumo em cenários urbanos destroçados são flagrantes do que ele enxergou como "vidas descartáveis".
Outros nomes, como James Evans, que retratou jovens negros com roupas de alta-costura em cenários suburbanos sem graça, tentam desconstruir estereótipos sobre classe social e raça no país.
Shirley Baker também testemunha o surgimento de uma Londres cosmopolita, o turbilhão de sotaques e cores que marcam a metrópole.
De olho no hedonismo dos jovens londrinos, o alemão Wolfgang Tillmans fez imagens que diluem fronteiras entre os gêneros fotográficos, alternando entre registros da vida pública e privada.
Em exercícios metonímicos, os fotógrafos Gareth McConnell e Richard Billingham retratam família e amigos como um microcosmo que ilustra os rumos da nação.
É dessa forma, com um olhar ácido sobre os ingleses em veraneio, que Martin Parr constrói sua obra -a praia como símbolo torto do país.
setembro 24, 2012
Votos de um longo caminho por Paula Alzugaray, Isto é
Votos de um longo caminho
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Isto é em 21 de setembro de 2012.
A cidade do Rio de Janeiro é desvendada e homenageada em 13 trabalhos da dupla Dias & Riedweg, em exposição panorâmica
Se partires um dia rumo a Ítaca, faz votos de que o caminho seja longo, repleto de aventuras, repleto de saber. Assim aconselha o poeta grego Constantino Kavafis ao se referir à ilha que é o destino da viagem de Ulisses, na “Odisseia”. Assim afirmam os artistas Maurício Dias e Walter Riedweg ao realizar seu mais recente trabalho, a videoinstalação “O Espelho e a Tarde” (2012). Aqui, um morador do Complexo do Alemão, no Rio, carrega um espelho por suas alamedas, ruelas e praças, seguido pela câmera.
Ao acompanhar o caminhar do personagem, multiplicado pelo reflexo do espelho e editado em três telas na instalação, vivenciamos a sensação labiríntica do traçado da favela. Há muita vontade de saber aonde o caminhante vai chegar. Mas existe apenas uma progressão evidente nesse caminho: ele começa de dia e termina de noite. Nunca para, segue sempre em processo. Como na Ítaca de Kavafis, a meta é o caminho.
Semelhante às vias e moradias do Complexo do Alemão, a construção da obra de Dias & Riedweg, é cotidiana e continuamente inacabada. Talvez por isso eles elegem o cronista João do Rio como um fio condutor entre as 13 obras expostas na mostra “Até Que a Rua nos Separe”, em cartaz no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica. “Flanar é a distinção de perambular com inteligência”, escreveu João do Rio na primeira década do século XX, sobre a “alma encantadora” das ruas do Rio de Janeiro.
“Devotionalia” (1994-2004), primeiro trabalho realizado pela dupla, é também sua primeira declaração de amor às ruas. O projeto foi constituído por um ateliê móvel que rodou a cidade em 1995, do qual participaram 600 meninos de rua. Entre eles, Sandro do Nascimento, depois de sobreviver à chacina da Candelária e antes de morrer no episódio do sequestro do ônibus 174. Nas oficinas, as crianças realizaram reproduções em cera de seus pés e mãos, e para elas dedicavam um sonho ou desejo. Esses objetos, que adquiriram o significado de ex-votos, compõem o trabalho ao lado de um videodocumentário sobre todo o processo de realização do projeto.
Em “Caminhão de Mudança”, projeto em andamento desde 2009 e permanentemente inacabado, a cidade do Rio é conectada a Bruxelas, Nova York, Lisboa, Cidade do México, Houston e Copenhague. O trabalho consiste em um caminhão que circula pelas ruas de uma cidade. Filmado, esse perambular é depois projetado em outro caminhão em trânsito em outra cidade, de modo que um é projetado dentro de outro, que é projetado dentro de outro, e assim por diante. “Esse projeto contextualiza no espaço o destino de toda imagem em movimento: ser apagada pela imagem seguinte”, afirma a dupla em texto do catálogo.
No percurso proposto pela exposição, o flanar do visitante vai dar no espaço simbólico do baile funk, acionado em duas instalações que ficam no terceiro andar da instituição. Em “Universo do Baile”, três ícones nacionais – o hino, a bandeira e a Constituição – são distorcidos a fim de apontar para os mecanismos de exclusão social. Em “Funk Staden”, Maurício Dias e Walter Riedweg reescrevem a história de canibalismo narrada por Hans Staden no século XVI, contextualizada no Morro Dona Marta, em 2007.
