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fevereiro 25, 2010
Salas de livros e páginas de exposições por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 19 de fevereiro de 2010
Salas e abismos/ Waltercio Caldas/ Cosac Naify/ R$ 120
Em “Manual da ciência Popular” (cosac Naify, 2008), publicado em 1982 e reeditado há dois anos, o artista Waltercio caldas e o crítico Paulo Sérgio duarte atualizavam questões lançadas por Walter Benjamin em “a obra de arte na Era de sua reprodutibilidade Técnica” (1936). ao tratar a relação entre o objeto de arte e sua reprodução fotográfica, indagavam sobre o fato de imagens não serem trabalhos, mas reportagens sobre trabalhos. o próprio Waltercio caldas inverteria essa ordem das coisas, ao trabalhar com livros de artista, uma modalidade de obra de arte que se aproxima dos múltiplos. Esse é o caso de “Velázquez”, lançado em 1996, com edição de 1.500 exemplares assinados pelo artista. Editado inteiramente fora de foco, o que seria uma monografia sobre o pintor espanhol é na realidade uma obra de arte em si.
O novo lançamento “Salas e abismos” conta com textos críticos de Paulo Venâncio Filho, Sônia Salztein e Paulo Sérgio duarte, mas não é catálogo, compêndio, monografia, ensaio teórico ou mesmo livro de artista (já que não é assinado). diferentemente dos anteriores, o livro que sai com projeto gráfico de Waltercio caldas pode ser considerado um “espaço expositivo”. assim, cada página corresponderia a uma sala, um quarto, um ambiente – já que o artista tende a intitular boa parte de seus trabalhos como salas, quartos, lugares. As obras são, portanto, “instaladas” em páginas duplas, sucedendo-se umas às outras como em espaços de um edifício. Participam dessa “mostra” 25 instalações, ou “salas”, datadas de 1985 a 2009. Nessa curadoria, reverberam especialmente aqueles trabalhos que se referem à linguagem artística. “a Série Negra”, por exemplo, além de, indiretamente, remeter às fases cromáticas de pintores como Picasso e Goya, faz referências explícitas a léxicos da arte: com objetos intitulados de “a Natureza-Morta” e “a Paisagem”. outros trabalhos que dissertam sobre a história da arte, seus códigos, seus gêneros são “Meio alto” (foto) e “a Série Veneza”. Se livros podem ser obras de arte, a recíproca também é verdadeira.
Como reconhecer um "Metaesquema" por Fernanda Assef, Istoé
Matéria de Fernanda Assef originalmente publicada na revista Istoé, em 8 de fevereiro de 2010
Na semana do incêndio do acervo de Hélio Oiticica, foi anunciada com algum alívio a recuperação de todos os exemplares da série "Metaesquema"
Na semana do incêndio do acervo de Hélio Oiticica, foi anunciada com algum alívio a recuperação de todos os exemplares da série “Metaesquema” (foto), armazenados com a família. Agora, segundo o Projeto Hélio Oiticica, todos os “Relevos” também serão recuperados.
A exposição “Da Estrutura ao Tempo” é uma boa oportunidade para visualizar esses dois grupos de trabalhos, já que reúne 12 “Metaesquemas”, três “Relevos Espaciais” e um “Relevo Bilateral”, garimpados de coleções particulares. Os “Metaesquemas” são a célula original da obra de Oiticica. São pinturas do final dos anos 50, definidas pelo autor como uma “obsessiva dissecação do espaço”. Representam um período de pesquisa radical, que levou o artista a invadir com a pintura o espaço tridimensional.
Na terça-feira 17, um “Metaesquema” foi vendido em leilão da Christie’s por US $ 122,5 mil, o dobro da estimativa inicial. Talvez já um efeito da destruição. Organizador da mostra, o IAC é um centro aberto à pesquisa de arte, que trabalha exemplarmente na conservação de acervos. “Percebo a necessidade de armazenar obras e documentos de forma específica.
É necessário um cuidado especial com a documentação que é composta de materiais muito frágeis e podem, facilmente, pegar fogo”, diz a galerista Raquel Arnaud, que concebeu o IAC em 1997. Além de guardar a documentação de Willys de Castro e Sergio Camargo, o centro cuida de obras dos dois artistas e de Mira Schendel e Amilcar de Castro.
O material é guardado em uma sala aprovada em detalhe pelo Iphan. “Você deve contar com espaço climatizado, monitoramento e vigilância, sistema contra incêndio customizado para obras de arte e documentos, mobiliário específico e uma equipe com dedicação integral”, diz Roberto Bertani, diretor-executivo do IAC.
Criador e criatura por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 19 de fevereiro de 2010
Eduardo Kac celebra 30 anos de carreira com um trabalho de bioarte, que mistura seu próprio material genético com a flor petúnia
O espectador desavisado, diante dos quatro “Biotopos”, estruturas de acrílico e metal que compõem a série “Espécime do Segredo sobre Descobertas Maravilhosas” (2006), exposta no Oi Futuro do Rio, poderia pensar tratar-se de pinturas abstratas, realizadas em algum momento da década de 50 do século XX. Talvez uma abstração lírica. Mas, ao saber que, em vez de feitos de tinta e pigmentos, esses trabalhos estão sendo “pintados” em tempo real por microorganismos vivos, a coisa muda de figura. Descobre-se que se está diante de um exemplar autêntico de bioarte. Seu autor, o brasileiro Eduardo Kac, professor titular do Departamento de Arte e Tecnologia do School of Art Institute de Chicago, e referência mundial na área, polemiza: “Não me vejo como um artista pesquisador, mas como um artista contemporâneo.
Da mesma forma que um pintor precisa comprar tinta para pintar, eu acesso o laboratório de engenharia genética para criar.” Com três exposições simultâneas no Brasil, esse é o momento para conhecer dois extremos de sua carreira: os primeiros anos, em que fazia performance, poesia digital e “pornopoemas”, e o novo trabalho em bioarte e arte transgênica, no qual se destacam as “Edúnias”, mistura da flor petúnia com material genético do artista. “O projeto genoma revelou que nós sempre fomos transgênicos, nosso gene vem de outros seres, como bactérias, plantas e animais.
Nesse sentido, a monstruosidade do transgênico passa a ser nossa também”, diz o criador da polêmica coelha Alba, o animal concebido em laboratório com genes fluorescentes de água-viva, em 2000. Nas “Edúnias”, exibidas no Brasil em fotografias, graças à mudança da lei sobre transgênicos no País, Kac aplicou o DNA extraído de seu sangue às veias da flor. Aqui, ele é criador e criatura. O resultado, segundo a curadora americana Christiane Paul, é um novo conceito de autorretrato. Efetivamente, Kac propõe novas formas para antigos conceitos. Esse é o caso de um dos projetos da série “Lagoglifos”, em que o artista transmite mensagens gráficas para uma constelação longínqua, que será atingida só em 2038.
Esse projeto sem materialidade física na Terra, mas em movimento no espaço, atualiza conceitos de land art que, nos anos 60, projetavam a obra de arte na paisagem natural, longe dos centros urbanos e das instituições de arte. Ainda segundo Christiane, os “Lagoglifos” são parte de um “sistema de signos criado para um alienígena”. Mas nem só cientistas e alienígenas são os interlocutores de Eduardo Kac, que afirma que sua linguagem é fundamentalmente poética. Em Belo Horizonte, uma seleção de seus poemas gráficos e sonoros, feita pelo curador Alberto Saraiva, mostra de que forma a atividade poética de Kac deixou de ser verbal para abranger muitas outras linguagens.
Novas instalações fazem de Inhotim paradigma para arte contemporânea por Fábio Cypriano, Folha de S. Paulo
Matéria de Fábio Cipryano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 25 de fevereiro de 2010.
Nove novas instalações transformaram radicalmente Inhotim, o centro de arte contemporânea criado por Bernardo Paz, em Brumadinho (Minas Gerais), em 2005. Se até então os pavilhões seguiam o modelo cubo branco, com obras que mantinham pouco diálogo com o entorno do complexo museológico -os abundantes jardins que tiveram início com o paisagismo de Burle Marx-, agora a transparência dos novos espaços propiciou uma nova perspectiva.
Esses novos locais de fato escapam do paisagismo um tanto comportado das antigas instalações para revelar a mata e a paisagem de forma fascinante.
É o caso do pavilhão criado para "De Lama Lâmina", do americano Matthew Barney, uma cúpula geodésica no estilo do arquiteto Buckminster Fuller (1895-1983). Transparente, ela acolhe o trator, peça central de seu filme, "De Lama Lâmina", gravado no Carnaval baiano de 2004, ao mesmo tempo em que faz com que ele pareça um objeto perdido na mata de tempos imemoriais.
Perto dali está o "Sound Pavilion" (pavilhão sonoro), de Doug Aitken, outro espaço transparente, no cume do terreno de Inhotim, que permite uma ampla visão das montanhas mineiras. Ele acolhe a instalação que transmite sons captados a 200 metros de profundidade, criando um ambiente sonoro que só se torna potente graças à sua localização.
Já "Beam Drop Inhotim" (jogando vigas em Inhotim), de Chris Burden, é composto por imensas vigas de ferro jogadas, como num jogo de palitos, sobre a terra, em outro cume do terreno, também permitindo que obra e contexto dividam um só espaço. Mesmo "Folly", de Valeska Soares, que está dentro de um pavilhão espelhado, justamente por sua configuração, acaba mimetizando o entorno. Criando mais raízes locais, Inhotim se torna um novo paradigma para a exibição da produção contemporânea.
Arquitetos criticam projeto do Masp Vivo por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 25 de fevereiro de 2010.
Críticos veem "fisionomia empresarial" em reforma que elimina fachada original
Após veto de projeto original, com megatorre, desenho é adaptado, tem aprovação nas esferas estadual e municipal e passa por crivo da Lei Rouanet
Não é certo ainda que o Masp Vivo terá essa casca de vidro como prevê o projeto aprovado e obtido pela Folha. No estágio inicial das obras, também fica difícil saber como será a cara final do anexo do museu, mas os croquis da reforma, com a extensão de pé-direito triplo no topo da laje original, já despertam críticas dos arquitetos.
Feito por Julio Neves, arquiteto que ficou 14 anos no comando do Masp, o projeto foi adaptado e conseguiu a aprovação dos órgãos de preservação do patrimônio histórico nas esferas estadual e municipal.
Embora não seja tombado, o Dumont-Adams precisa de aval público para passar por reformas porque fica no entorno de um bem protegido, no caso, o edifício modernista desenhado por Lina Bo Bardi nos anos 60.
Na tentativa de evitar a descaracterização da região, o projeto inicial, com a torre gigantesca, foi vetado pelo município e um novo desenho só foi aprovado em 2007. Mas arquitetos ouvidos pela Folha não veem melhoras na versão que começa a sair do papel agora.
"É uma pena que o Masp, que já teve duas sedes vanguardistas projetadas por Lina Bo Bardi, tenha de se contentar com essa arquitetura de fisionomia empresarial", diz Renato Anelli, conselheiro do Instituto Bardi, que cuida do espólio da arquiteta. "Vai na contramão do que ocorre com projetos de museu do mundo todo."
Gesto desesperado
Embora não veja como "má ideia" a construção de uma torre com mirante ao lado do museu, o crítico de arquitetura Guilherme Wisnik vê problemas nos motivos por trás da obra, que considera um "gesto desesperado de "salvar" um museu que ficou decadente, enfatizando seu lado comercial".
"É evidente que o museu se depauperou, se descaracterizou e perdeu prestígio e representatividade", diz Wisnik. "Quer dizer então que uma obra como essa não viria no sentido de coroar um processo de crescimento do museu, como nos casos do Louvre, MoMA, da Tate e do Reina Sofía."
Críticos também apontam a contradição da reforma numa cidade como São Paulo, afeita à construção de neoclássicos. Exemplo desse estilo arquitetônico, o Dumont-Adams, em vez de preservado será recoberto por uma capa de "arquitetura corporativista", nas palavras do arquiteto Paulus Magnus.
Ponto central da discórdia, essa fachada de vidro, que deve custar R$ 3,5 milhões, mas que também pode ser substituída por uma versão mais modesta, levanta outra polêmica.
Na opinião do arquiteto Álvaro Puntoni, professor da FAU-USP, o anexo em forma de torre envidraçada arrisca ofuscar o prédio horizontal de Lina Bo Bardi. "Acho que o edifício atual deveria ser preservado", diz Puntoni. "O receio é que parece que o anexo compete com o Masp, em vez de construir uma relação serena."
Mas como tudo pode na Paulista, uma avenida longe da harmonia almejada por arquitetos, há quem prefira não criticar. "É antiético dizer que o projeto é ruim", diz o arquiteto Carlos Lemos. "Se tudo fosse térreo, seria questionável, mas não é. A Paulista tem dessas coisas."
O Masp mora ao lado por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 25 de fevereiro de 2010.
Museu reforma prédio abandonado doado pela Vivo para criar anexo com pele de vidro, orçado em R$ 15 milhões
No barulho das marretadas que derrubam as velhas paredes do Dumont-Adams, um dos diretores do Masp ergue a voz. "É uma maravilha isso", diz Luiz Pereira Barreto, arquiteto que coordena a reforma do que servirá de anexo para o museu. "Quando vi esse prédio, pensei que o bom seria morar aqui."
Na avenida Paulista, ao lado do edifício desenhado por Lina Bo Bardi onde funciona o maior museu da América Latina, um velho prédio de apartamentos, abandonado há 20 anos, passa por reformas para abrigar um polêmico anexo.
Polêmico porque faz quatro anos que a empresa de telefonia Vivo doou R$ 13 milhões para que o Masp comprasse o prédio, pedindo em troca que se instalasse no topo dele uma antena gigantesca com um logotipo luminoso da marca.
Órgãos de defesa do patrimônio histórico então vetaram o mirante e Vivo e Masp travaram uma batalha na Justiça. Sem a torre, a telefônica queria de volta o dinheiro desembolsado. Em novembro passado, chegaram a um acordo.
E só em janeiro deste ano foi aprovada a captação de mais R$ 15 milhões pela Lei Rouanet para transformar o Dumont-Adams em Masp Vivo. Sem o mirante da discórdia, a empresa se contentou em batizar o espaço pelos próximos 25 anos.
No térreo, ficará uma galeria de exposições temporárias patrocinadas pela Vivo. Também vai migrar para lá a área administrativa do museu. Os sete andares acima vão abrigar uma escola de pós-graduação em museologia, história da arte e restauro que o Masp deve criar.
Acima da laje original do edifício, um cubo branco, com pé-direito de 15 metros, deve receber outras mostras. No topo de tudo, querem construir um café, que já conta com um patrocínio de R$ 2 milhões da Nestlé.
Pele de vidro
A expansão vertical acaba aumentando a altura atual do prédio, de 54 metros, para 70 metros, altura máxima permitida para construções na região da Paulista. Em sintonia com os epigões do entorno, o Dumont-Adams repaginado também vai ganhar uma "pele de vidro", nas palavras de Pereira Barreto.
"Estamos pegando um prédio deteriorado e transformando para o museu", diz o arquiteto. "Vamos ampliar, temos que usar o peso da marca do Masp."
E a Vivo também está de olho nessa marca. Já se comprometeu a doar mais R$ 3 milhões ao museu quando as obras terminarem, em 2012, para implantar mais "projetos de sinergia", como adianta Marcelo Alonso, diretor de relações institucionais da empresa telefônica.
Entre as propostas que circulam, além de afixar a placa Masp Vivo, estão um sistema de visitas guiadas por celular, mostras de arte tecnológica feita com os aparelhos e até mesmo a exposição de obras do Masp na galeria da sede da Vivo, na zona sul da cidade.
Pereira Barreto arremata, dizendo que o museu "não é só um lugar para guardar preciosidades". "Tem que ser dinâmico em todas as áreas", diz. "Queremos fazer uma coisa moderna."
fevereiro 23, 2010
Arco quer renovar sua identidade artística por Silas Martí, Folha de São Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 22 de fevereiro de 2010.
"Personalidade ibero-americana" seria saída para crise
No meio da enxurrada de críticas que vem recebendo por esta edição da Arco, a diretora da feira, Lourdes Fernández, parece se aferrar à ideia de uma "personalidade ibero-americana" para devolver o vigor perdido ao evento.
Faz quase 30 anos que a feira funciona como exposição e mercado de artistas em Madri, mas é consenso entre galeristas europeus que a Arco saiu perdendo na concorrência com a Art Basel Miami Beach, criada há oito anos.
Fernández, em meio a boatos de que pretende se demitir do cargo, aposta na representação maciça de latino-americanos como uma saída para sua feira enfraquecida. "Precisamos criar ainda uma grande personalidade", diz ela. "E essa personalidade é ibero-americana. É uma oportunidade para arte latino-americana entrar na Europa, esse deve ser o papel da Arco, mas não se cria uma coisa dessas da noite para o dia."
Mesmo com todo o esforço, galeristas e analistas de mercado acreditam que não há interesse tão forte de colecionadores espanhóis para sustentar esses novos planos. "Está havendo muita atenção das instituições, mas isso passa longe dos colecionadores", diz Alejandro Zaia, diretor da Pinta, feira de arte latina que terá uma edição em Londres em junho. "Museus servem para gerar tendências de mercado, mas não sustentam uma feira."
Paralela à Arco, a feira Just Madrid aponta outra possível saída para a crise. No lugar dos gigantescos galpões de sua concorrente tradicional, vazios em tempos de recessão, o evento que estreou neste ano concentra poucas galerias, cada uma com três artistas, num espaço mais enxuto. Também com latino-americanos como foco, acabou virando uma vitrine rápida da produção sem o desânimo de muito pavilhão para pouca obra.
Presença conceitual preenche vácuo de negócios por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 22 de fevereiro de 2010.
Ficou vazio por todo o primeiro dia da Arco o estande da Helga de Alvear, uma das maiores galerias espanholas.
Isso até que homens entraram no pavilhão carregando duas letras de madeira, formando a palavra "no" (não) em tamanho gigante. Nem Santiago Sierra, o artista por trás da ação, nem ninguém da galeria deu as caras por lá.
No espaço vizinho, a cubana Tania Bruguera mandou polir uma reprodução do letreiro que ficava na entrada do campo de concentração de Auschwitz, gerando uma chuva de faíscas sobre o símbolo nazista, aquele roubado há pouco.
Essa presença conceitual, o que uns chamam de "gordura" numa feira, foi o ponto alto da Arco. Se colecionadores andam mais tímidos, curadores não arredaram pé do pavilhão dos Solo Projects, a parte da feira na qual galerias exibem um recorte sucinto da produção de um só artista escolhido.
Enquanto pelo menos 50 galerias abandonaram o evento nos últimos dois anos, e o preço da obra mais cara despencou da casa dos 20 milhões para 1,6 milhão, os recortes individuais dispostos ali têm outro potencial. Atestam o frescor dessa produção e têm apelo direto para as instituições.
Na cena árida em que se tornou o mercado espanhol, projetos menos comerciais, como os de Sierra e Bruguera, deram carne ao esqueleto das vendas.
Descobriram a América por Silas Martí, na Folha de S. Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 22 de fevereiro de 2010.
Museus na Espanha e em Portugal investem em arte latino-americana para reler passado modernista e concretista
Nem mesmo a neve que caiu sobre Madri nos últimos dias fez a Espanha perder a cara de América Latina que tenta plasmar agora a todo custo. Enquanto a Arco, feira de arte que terminou ontem na capital espanhola, atravessa uma grave crise, o circuito de museus na península ibérica reforça outro lado da equação.
Se artistas latino-americanos ainda são presença tímida nas salas e corredores das mansões da cidade, suas obras estão em todos os museus, do Porto até Barcelona. Em busca de um nicho para chamar de seu, instituições da região competem com o resto do circuito global ancorando mostras em torno de nomes latinos.
Está em cartaz agora em Madri, no Reina Sofía, uma ampla retrospectiva do argentino León Ferrari e da brasileira Mira Schendel. Em maio, o museu abre uma grande exposição que terá obras de Flavio de Carvalho e de Lina Bo Bardi. O Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, que recebeu Cildo Meireles no ano passado, abre espaço ao peruano Armando Andrade-Tudela.
Perto dali, o Instituto Valenciano de Arte Moderna prepara uma mostra com mais de cem brasileiros como Vik Muniz, Ernesto Neto e Carlos Vergara. Parte da explicação do fenômeno está numa releitura da linguagem de artistas da região, revistos à luz das utopias modernistas e de seus desdobramentos concretos.
Enquanto curadores redescobrem esses movimentos, dão margem à fetichização dessa arte. Sem uma bienal e em plena decadência de sua maior feira, a Espanha aposta em museus para se reerguer no circuito com nomes da moda.
"Estamos loucos pela América Latina", diz Consuelo Ciscar, diretora do Instituto Valenciano de Arte Moderna. "A Espanha tem esse papel, é um ponto de representação mundial para a arte latino-americana."
No coração do país, o Reina Sofía tem como meta declarada realizar pelo menos uma grande exposição por ano com latino-americanos. "Queremos ser o museu referência para isso na Europa", afirmou Maria José Salazar, diretora de patrimônio do museu, à Folha.
Do outro lado da fronteira, Ricardo Nicolau, do Museu de Serralves, no Porto, em Portugal, afirma que está de olho em artistas emergentes do Brasil. "Há uma revisão em curso e um certo fetiche em torno dos anos 60 e 70", afirma.
Nesse ponto, museus ibéricos aproveitam a brecha das frágeis relações entre instituições latino-americanas para incrementar suas coleções e redesenhar parte da história. "Já houve esse interesse no passado, mas agora a dinâmica é outra, com uma vontade de releitura", resume Mauro Herlitzka, diretor do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires. "A Espanha quer se tornar o país chave para o reposicionamento da arte latino-americana na região."
Mas isso não quer dizer que vai conseguir. Mesmo com a euforia, há quem veja nessa movimentação uma tentativa desesperada de se reequilibrar na geopolítica aguerrida das artes visuais.
"São Paulo tem mais chance do que a Espanha de virar esse centro", diz Rodrigo Moura, curador do Instituto Inhotim. "É natural querer esse papel, mas eles não estão agora em condições de ser o centro de nada. Não é assim tão fácil."
fevereiro 22, 2010
Documentário sobre trabalho de Vik Muniz com lixo estreia em Berlim, no globo.com
Matéria originalmente publicada no globo.com em 13 de fevereiro de 2010.
Veja o trailer de 'Lixo extraordinário', premiado no Festival de Sundance.
Filme mostra um dos maiores aterros sanitários da América Latina.
O trabalho do artista plástico Vik Muniz em um dos maiores aterros sanitários do mundo - o Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro - virou um documentário que será exibido pela primeira vez neste sábado (13), no Festival de Cinema de Berlim.
Co-produzido pela O2 Filmes e pela produtora inglesa Almega Projects, o filme “Lixo extraordinário” (“Waste Land”), com direção de João Jardim, Karen Harley, Lucy Walker, venceu o prêmio do público de melhor documentário internacional no Festival de Sundance.
O documentário entra na mostra "Panorama", paralela à disputa ao Urso de Ouro. O co-diretor João Jardim e o produtor Hank Levine estarão no Festival acompanhando as sessões do longa, que também será exibido nos dias 14, 19 e 21 de fevereiro na capital alemã.
Com direção conjunta de João Jardim (“Janela da alma” e “Pro dia nascer feliz”), da cineasta Karen Harley e da documentarista inglesa Lucy Walker, produção de Hank Levine e produção executiva de Fernando Meirelles e Andrea Barata Ribeiro, “Lixo extraordinário” relata a trajetória do lixo dispensado no Jardim Gramacho, maior aterro sanitário da América Latina localizado na periferia de Duque de Caxias (RJ), até ser transformado em arte pelas mãos do artista plástico Vik Muniz e seguir para prestigiadas casas de leilões internacionais. Obras que, muitas vezes, retornam ao Rio para compor as paredes da alta sociedade carioca.
“É surpreendente encontrar tamanha beleza no meio de tanto lixo, descaso e esquecimento. O trabalho do Vik funciona como um bálsamo no meio disso”, observa a produtora executiva.
Feira tem força em espaços pequenos e conceituais por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 20 de fevereiro de 2010.
Ficou vazio por todo o primeiro dia da Arco o estande da Helga de Alvear, uma das maiores galerias espanholas. Isso até que homens entraram no pavilhão carregando duas letras de madeira, formando a palavra "no" em tamanho gigante. Nem Santiago Sierra, o artista por trás da ação, nem ninguém da galeria deu as caras por lá.
No espaço vizinho, a cubana Tania Bruguera mandou polir uma reprodução do letreiro que ficava na entrada do campo de concentração de Auschwitz, gerando uma chuva de faíscas sobre o símbolo nazista, aquele roubado há pouco.
Essa presença conceitual, o que uns chamam de "gordura" numa feira dedicada às vendas, foi o ponto alto da Arco. Se colecionadores andam mais tímidos, curadores não arredaram pé do pavilhão dos Solo Projects, parte da feira onde galerias exibem um recorte sucinto da produção de um só artista escolhido por um curador.
Enquanto pelo menos 50 galerias abandonaram o evento nos últimos dois anos e o preço da obra mais cara despencou da casa dos 20 milhões para 1,6 milhão, preço de um autorretrato de Francis Bacon, os recortes individuais dispostos ali têm outro potencial. Atestam o frescor da produção ibérica, que essa feira tenta representar por excelência, e têm apelo direto para as instituições que costumam fazer compras ali.
No resto dos mais de 200 estandes da feira, galerias não ousaram muito. Venderam o que tinham de consumo fácil: edições de fotografias, pinturas em pequeno e médio formato. A seleção de Los Angeles, cidade homenageada nesta edição, trouxe alguns medalhões da cena californiana, como John Baldessari e David Hockney, e artistas que caminham para o estrelato, como Catherine Opie e Lari Pittman, também em versões mais baratas de suas obras. Na cena árida em que se tornou o mercado espanhol, projetos menos comerciais, como os de Sierra, Bruguera e Felipe Cohen, deram carne ao esqueleto das vendas.
Espanha quer se tornar referência em arte latina por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 20 de fevereiro de 2010.
Sem bienal expressiva, e com maior feira de arte em queda, país aposta nos museus para se reerguer no circuito global
Reina Sofía compra obras e tem como meta declarada realizar ao menos uma exposição a cada ano com nomes latino-americanos
Uma lâmpada solitária que pende do teto, instalação de Felipe Cohen na Arco, ou as tranças de papel japonês que Mira Schendel faz quase desaparecer no espaço contrastam com o peso que artistas latino-americanos têm conquistado na agenda de exposições de alguns dos maiores museus espanhóis e portugueses.
Parte da explicação do fenômeno está na linguagem discreta, das utopias modernistas e seus desdobramentos concretos. Enquanto curadores redescobrem esses movimentos, também dão margem a crescente fetichização em torno desses artistas. Sem uma bienal expressiva e em plena decadência de sua maior feira de arte, a Espanha aposta nos museus para se reerguer no circuito com nomes que viraram moda.
"Estamos loucos pela América Latina", diz Consuelo Ciscar, diretora do Instituto Valenciano de Arte Moderna.
No coração do país, o Reina Sofía tem como meta declarada realizar pelo menos uma grande exposição por ano com latino-americanos. "Queremos ser o museu referência para isso na Europa", afirma Maria José Salazar, diretora de patrimônio do museu, à Folha. "Estamos levantando um fundo para isso, comprando muitas obras."
Do outro lado da fronteira, Ricardo Nicolau, do Museu de Serralves, no Porto, diz que está de olho em artistas emergentes do Brasil, não só nos consagrados. "Há uma revisão em curso e certo fetiche em torno dos anos 60 e 70. Temos modernistas desalinhados, que não correspondem ao que deveria ser o moderno."
Nesse ponto, museus ibéricos aproveitam a brecha das frágeis relações entre instituições latino-americanas para incrementar suas coleções e redesenhar parte da história. "Já houve esse interesse no passado, mas agora a dinâmica é outra, com uma vontade de releitura", resume Mauro Herlitzka, diretor do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires. "A Espanha quer se tornar o país-chave para o reposicionamento da arte na região."
Mas isso não quer dizer que vai conseguir. Mesmo com a euforia, há quem veja uma tentativa desesperada de se reequilibrar na geopolítica aguerrida das artes visuais. "São Paulo tem mais chance do que a Espanha de virar esse centro", diz Rodrigo Moura, curador do Instituto Inhotim. "É natural querer esse papel, mas eles não estão agora em condições de ser o centro de nada, não é assim tão fácil."
