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Como atiçar a brasa

 


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fevereiro 12, 2010

Certezas abaladas por Paula Alzugaray, Istoé

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 12 de fevereiro de 2010

Novos paisagistas rompem tradições e reinventam a representação da natureza

Como uma montanha que desaba sob a ação de forte erosão, a escultura “Paisagem”, de Cristiana Camargo, exposta na coletiva “Trans_Imagem”, é uma obra sintomática do momento de transição que vivemos hoje. Assistimos a um mundo em ruínas: seja nos morros que desabam sobre casas, seja na terra que se abre sob os nossos pés ou nos conceitos que extraímos do mundo. “A ideia de um mundo centrado, objetivo e organizado em uma totalidade harmônica ruiu”, afirma a artista Regina Johas, curadora de “Trans_Imagem”. O mundo idealizado pela perspectiva renascentista, que iluminou a razão ocidental por cinco séculos, começou a ser abalado no modernismo e agora busca novos paradigmas, na era da informação digital. “Paisagem” mostra, afinal, essas certezas abaladas. Cristiana construiu a palavra com pó de gesso e a fragilidade do material faz com que a obra desabe pouco a pouco. “Na medida em que a palavra se desfaz, deixa de ser signo para virar a própria paisagem”, interpreta Regina. Sobre esse tema – a paisagem e sua relação com a cultura – dissertam as obras da mostra coletiva na galeria Virgilio e a mostra individual da artista Gabriela Albergaria, na Galeria Vermelho. Se o paisagista romântico tinha uma relação contemplativa e colocava-se como observador distante (quase platônico) da cena documentada, o artista contemporâneo é um agente construtor da paisagem que desenha.

Se na paisagem tradicional o espaço era organizado em perspectiva dentro de um quadro, agora ele é retalhado, desdobrado, torcido, empilhado ou sobreposto, assumindo formas quase sempre fragmentárias. Via de regra, fragmento é a palavra-chave quando se fala em representação do espaço real. “Hoje vemos o mundo com os filtros da fragmentação”, explica Regina, ao comentar o tríptico fotográfico de Ana Mazzei. “Ao variar o ponto de vista da mesma cena, a artista coloca o espectador em uma situação instável, gerando uma ‘paisagem cinemática’.” A fragmentação também rege a pesquisa da artista portuguesa Gabriela Albergaria, que tem sua segunda individual no Brasil. A artista se serve do procedimento de recortar a cena em pequenos quadros, de forma a articular diferentes conceitos. Composto em 16 partes, em desenho e fotografia, o políptico “Tapada das Necessidades” (2009) representa duas árvores originárias de duas partes distantes do mundo plantadas em um mesmo jardim. Uma asiática e a outra europeia, ambas crescem entrelaçadas, convivendo em “tolerância”. “Sempre me interessei pela colonização das plantas em outros lugares. É possível traçar mapas geopolíticos a partir da observação de jardins”, diz Gabriela, que pesquisa em jardins de dentro e de fora da Europa como as diferentes culturas moldam a natureza. Seus trabalhos – aos quais refere-se como “ficcionais”, nunca documentais – apresentam um eterno confronto entre o estado selvagem e a natureza controlada.

Posted by Marília Sales at 6:33 PM

Hélio Oiticica e Lygia Clark por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 11 de fevereiro de 2010.

Heróis da arte dos anos 60 e 70 inspiram, com suas ideias libertárias, coletivos de artistas de Rio e Minas

Numa troca de cartas, Lygia Clark resumiu com uma frase o caráter da arte que queria fazer naqueles anos 60: "Arte agora é arte de colhões". Escrevia de Paris ao amigo Hélio Oiticica, reclamando da arte "morta" que via por lá, tão longe do que estavam tramando no Brasil.

Do Rio, Oiticica respondeu: "Hoje sou marginal ao marginal, marginal mesmo: à margem de tudo, o que me dá surpreendente liberdade de ação". Arrematava dizendo "podemos botar fogo neste continente".
Mais de 40 anos depois desses escritos, e da morte de Clark e Oiticica, nos anos 80, desponta uma geração de jovens artistas que tentam reacender a brasa dos programas ambientais e da arte participativa e a potência libertária que eles deixaram como legado.

Processados pela academia, digeridos pela crítica e alçados, enfim, à condição de gênios da arte contemporânea no circuito global, Clark e Oiticica são da estirpe de heróis dos anos 60 e 70 que impulsionam coletivos de artistas em todo o país.

Pensavam uma arte que dependesse das reações do público, que fosse além do espaço expositivo e que tivesse como motor a liberdade extrema, sem concessões. Mais do que obras, criavam ambientes, vestimentas, um caldeirão estético.

"Fazemos uma coisa que se quer para fora, para além do bidimensional, que é a discussão que o Hélio travou, a Lygia também", resume Alex Topini, do Filé de Peixe, grupo carioca surgido em 2006. "Existe uma absorção contínua de tudo que está ao redor, o mercado popular, o camelô, o transeunte."

Violando os espaços convencionais, abominados pelos neoconcretistas, o Filé de Peixe ficou conhecido pelo "Piratão", ação em que vendem cópias ilegais de clássicos da videoarte, de Yoko Ono a Andy Warhol. Questionam a galeria e o valor atrelado ao objeto de arte.

Juntos há cinco anos, os cariocas do Opavivará também reduzem valores e ritualizam as trocas. São atos no espaço público, longe do cubo branco, que aposentam o objeto em si. Inventaram uma moeda de cerâmica que pode ser trocada por tudo, de coisas dos espectadores a performances, danças.

Paisagem e ritual

Eco dos ambientes imersivos de Oiticica, como as "Cosmococas", inventaram espaços de convivência, uma espécie de moita gigante, e atos coletivos, um narguilé de 20 canudos, que só funciona quando todos são tragados ao mesmo tempo.

"É um objeto que necessita da participação do público para funcionar", diz Daniel Toledo, do Opavivará. "Acaba proporcionando um ritual, o fumo entra no corpo e faz com que alterem a relação com o mundo."
Também alteram a relação com os espaços os artistas do grupo Nuvem. Caem na estrada e procuram Brasil afora os ambientes que serão transformados em instalação. Costuraram com cordas uma fissura na terra em Goiás, como se remendassem uma falha geológica. Instalaram tubos de alumínio montanha acima, criando um canal para a circulação do vento -a passagem do ar cria uma trilha sonora para a paisagem.

No espaço urbano, o grupo mineiro Lotes Vagos negocia a ocupação temporária de terrenos baldios. Não sobra nada para chamar de obra, mas durante a ação oferecem serviços, criam um jardim, uma horta, fazem as unhas de quem aparecer por lá.

No fim, é mais uma questão de atitude do que de relações formais específicas. Nenhum desses grupos parece usar Clark e Oiticica como bandeiras para garantir sucesso. No lugar de uma apropriação banal, indevida, operam movidos por reverência e saudades de uma época que não viveram.

Distantes do conceito e próximos da vontade, artistas do Barracão Maravilha, grupo surgido no Rio, resumem em parte esse espírito. Alternam o trabalho nas próprias obras de arte com a atuação nos barracões de escolas de samba, onde ajudam a construir esculturas, adornos e alegorias carnavalescas. Estão certos de que arte e vida, mesmo em tempos de Carnaval, andam sempre juntas.

Posted by Marília Sales at 2:53 PM | Comentários (4)

Pra comemorar? por Ana Cecília Soares, Jornal Diário do Nordeste

Matéria de Ana Cecília Soares originalmente publicada no Caderno 3 do Jornal Diário do Nordeste, em 9 de fevereiro de 2010

O MAC do Dragão do Mar comemora 10 anos de atividades com a exposição "Pra Começo de Século". Altos e baixos, polêmicas e marasmos marcam sua trajetória

Em uma década de existência, o Museu de Arte Contemporânea (MAC) do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura tem escrito sua história em meio a marasmos, saltos e, claro, não poderia faltar, várias polêmicas.

Das quatro gestões vivenciadas pela instituição (dirigida duas vezes pelo artista plástico José Guedes, incluindo, a gestão atual; pela crítica de arte Luiza Interlenghi, quem iniciou o intercâmbio do museu com outras instituições de arte do país, e pelo curador Ricardo Resende), mudanças profundas sucederam em sua linha de atuação. Do projeto inicial para se tornar mais um museu de arte no Ceará, à ênfase na produção contemporânea, o MAC tem hoje foco direcionado para as artes realizadas por artistas latino-americanos.

Há de se falar, ainda, o destaque dado ao trabalho de artistas brasileiros de renome internacional, e o fato de a produção local ter sido resguardada ao segundo plano.

Paradoxos

Para José Guedes, diretor do Mac, durante esses quatro anos de sua gestão, aumentou o número de visitantes e a quantidade de obras adquiridas pelo acervo do museu (mais 900 trabalhos, segundo ele). Mas, será que isso é o suficiente para o desenvolvimento da instituição e, principalmente, para impulsionar o trabalho dos artistas cearenses?

Em conversa por telefone com Ricardo Resende, ex-diretor do MAC (2005 à 2007), na época em que assumiu o cargo, por meio de seleção realizada por edital público, o museu não funcionava como tal. De acordo com ele, não havia equipe treinada, reserva técnica e uma política de comunicação com o público e com os artistas.

"Foi um trabalho bastante árduo, tivemos de fazer o museu, realmente, existir. Começar, mesmo, pelo começo. Convidamos profissionais sérios nas áreas de museologia e artes em geral. Montamos seu acervo, quando deixei a direção em 2007, o museu já contabilizava 600 obras. Lembro que criamos um boletim eletrônico para divulgar as atividades do MAC para todo o Brasil".

Quanto a realidade do MAC hoje, Resende comenta: "Acho que o museu deixou de ter uma atuação nacional. Como responsável pelo núcleo de artes visuais da Fundação Nacional de Artes (Funarte), senti, por exemplo, a falta do MAC em no nosso edital Marcantonio Villaça para aquisição de obras. A premiação era de R$ 90 mil. Valor suficiente para se comprar trabalhos locais. Acho que enquanto houver essa política de apadrinhamento haverá limitações para arte".

Contra-argumentando o depoimento de Resende, Guedes explica que pelo MAC ser uma Organização Social (OS), ele é administrado como uma empresa privada, ligada a uma entidade pública. Daí a participação da instituição em editais de aquisição é limitada.

"Somos uma OS, o Instituto de Arte e Cultura do Ceará (IACC), que é uma associação na forma da lei, pessoa jurídica de direito privado sem fins econômicos e sem fins lucrativos, de interesse coletivo, é responsável pela administração do Dragão que presta contas à Secretaria de Cultura do Estado do Ceará (Secult). A limitação vem disso, e no caso do prêmio Marcantonio Villaça, recebemos a correspondência sobre o projeto atrasada", explica Guedes.

A exposição "Pra Começo de Século", que será inaugurada hoje, às 19h, comemora os dez anos do MAC.

Curadoria

A mostra que tem a curadoria de José Guedes, reúne 12 artistas e traça um panorama da produção contemporânea da primeira década do século XXI no Ceará, no Brasil e em outros países da América Latina.

Cada um dos artistas participantes teve sua produção deslanchada na virada do século. Eles abordam várias questões, tendo como base diversas técnicas e recursos. A exposição conta com a presença de quatro cearenses: Euzébio Zloccowick, Marina de Botas, Sabyne Cavalcanti e Weaver Lima. "Os artistas do século XXI encaram o passado mas ainda vêm os seus rostos. Sem grandes rompantes ou manifestos e com uma liberdade nunca antes vivenciada, certamente conquistada pelas posturas mais contestadoras. As grandes rupturas, bem digeridas, resultaram na expansão das linguagens", diz Guedes.
*Ana Cecília Soares é Editora também do site Reticências...crítica de arte (http://www.reticenciascritica.com/ )

Posted by Marília Sales at 1:41 PM

fevereiro 10, 2010

Mostra revela importância de Matta-Clark por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Matéria de Fábio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo, em 10 de fevereiro de 2010

A Bienal de São Paulo tem sido responsável, desde sua origem, pela atualização do público na produção contemporânea, mas, como exposição de grande porte, raramente consegue se aprofundar nas poéticas individuais. Gordon Matta-Clark foi um dos pilares da 27ª Bienal, de 2006, mas só com "Desfazer o Espaço" será possível compreender de fato toda a sua importância.

A atualidade de Matta-Clark está em discutir temas que seguem fundamentais na sociedade, como a ocupação de espaços públicos e privados, a alimentação e o pensamento ecológico por meio de obras que seguem com forte apelo visual.

Expor artistas como Matta-Clark, com muitos trabalhos que dependem em grande parte de documentação, poderiam tornar a exposição enfadonha, mas não é o que ocorre.

As curadoras Gabriela Rangel e Tatiana Cuevas, na mostra organizada pelo Museu de Arte de Lima, optaram por um correto equilíbrio entre trabalhos e projetos, obras mais teatrais com outras que demandam maior atenção. De certa forma, isso se inspira no próprio artista, que apresentava muitas de suas ações na arquitetura por meio de colagens fotográficas, tirando do registro um mero caráter documental.

A exposição traz muitas obras de Matta-Clark pouco conhecidas, como a série de desenhos "Árvore da Energia", que produz um intenso diálogo com o registro da performance "Tree Dance" (dança na árvore), de 1971, também na mostra. É nas intervenções arquitetônicas, contudo, que a mostra aponta de fato a relevância de Matta-Clark. Em Paris, Berlim e Nova York, suas ações repensaram edifícios icônicos, e seguem repercutindo nas novas gerações de artistas.

Posted by Marília Sales at 1:46 PM

O arquiteto da destruição por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 10 de fevereiro de 2010.

Americano que repudiou o urbanismo com fendas nas paredes, Matta-Clark tem retrospectiva em SP

Um rasgo na lateral de um prédio traz a brisa para dentro e revela a demolição do lado de fora. Dava para ver o esqueleto do Pompidou, em Paris, enquanto retroescavadeiras arrasavam o bairro de Les Halles.

Três anos antes de morrer, em 1978, Gordon Matta-Clark retalhou o vizinho do museu que trouxe discórdia ao centro parisiense. Fazia de seus cortes um interrogatório de estruturas urbanas. Aguçava o olhar para o fracasso da arquitetura."Ninguém sabia o que ele estava fazendo, só mais tarde viram que havia uma lógica na obra dele", lembra à Folha Jane Crawford, viúva do artista tema da retrospectiva que o Museu de Arte Moderna de São Paulo abre amanhã. "Seus amigos todos se contradizem."

Ela conheceu Matta-Clark no vernissage de uma exposição em Nova York. Moravam num SoHo pré-especulação imobiliária e boutique da Apple, um lugar com dois bares e artistas conceituais famintos, tipo Richard Serra. Viveu três anos com Matta-Clark, arquiteto de formação, filho do surrealista chileno Roberto Matta e afilhado de Marcel Duchamp.

"Pediram para fazer um projeto na galeria onde eu trabalhava", conta Crawford. "Ele quis construir um túnel subterrâneo que ligasse a galeria ao prédio do outro lado da rua, que era o banco Chase Manhattan. Não deu certo, mas a gente se deu muito bem."

Matta-Clark, aliás, não conseguiu realizar boa parte de seus projetos. Terminavam sempre num acordo com autoridades, curadores, burocratas. Mas conseguiu rachar uma casa ao meio, perfurar um prédio de escritórios em Antuérpia e mergulhar nos subterrâneos de Paris e Nova York.

Urbanismo e Freud
"Sua relação com a arquitetura era quase freudiana", resume Gabriela Rangel, curadora da mostra. "Era o fim da Guerra do Vietnã, ele promoveu uma mudança de paradigma: a cidade como paisagem política."

Enquanto o fim do conflito lastreava o foco no corpo de seus contemporâneos, a bala no braço de Chris Burden, a masturbação de Vito Acconci, Matta-Clark violava as construções. Queria denunciar utopias que fracassaram antes mesmo de existir e os absurdos da especulação imobiliária.

Em "Fake Estates", comprou lotes de terra diminutos -e inúteis- em Nova York. Eram espaços vazios espremidos entre terrenos já vendidos. Manteve as escrituras dos lotes até morrer. Sua viúva, sem dinheiro para pagar impostos sobre esses terrenos-manifesto, doou tudo ao traficante do bairro.

No MAM, esses lotes aparecem agora em fotografias ao lado das escrituras, documentos que atestam o poder de uma ação que ficou só na memória. Quase todos os cortes de Matta-Clark também foram demolidos, sobrando só vídeos e fotografias para contar a história.

"Esses documentos têm a força de um mito", diz Rangel. "Não é preciso ver a ação, só saber que foi algo contundente."

Têm mesmo poder inegável as fotografias de casas rachadas, frestas abertas à força em blocos de concreto. Mas quem andou por ali sentiu algo mais. "Quando atravessava aquele vão, de um lado para o outro da casa cortada, sabia que havia algo muito errado", lembra Crawford. "Aquele desconforto alertava mais para o perigo, fazia acelerar meu coração."

Posted by Marília Sales at 1:32 PM

fevereiro 9, 2010

Celebração ao visível por Carolina Santos, diariodepernambuco.com.br

Matéria de Carolina Santos originalmente publicada no diariodepernambuco.com.br, em 09 de fevereiro de 2010

Jeims Duarte é um artista que trabalha rápido. Em menos de 15 dias ele fez os desenhos e as instalações que compõem sua nova exposição, Crux. São trabalhos que continuam a explorar o tema urbano que marca a carreira desse artista paraibano de 34 anos. Em Crux, a urbanidade está mais presente que nunca: desenhos realistas de postes, fios, instalações de tapumes de construção.

Desenhos e instalações reunidos em Crux, nova coleção de Jeims Duarte, estão em exibição no Mamam no Pátio. Foto: Cecilia de Sa Pereira/DP/D.A Press
"A exposição é uma homenagem ao que eu vejo. Por mais banal, mais rotineiro que seja. É um reconhecimento da estima que tenho pelo que vejo no dia a dia. Uma celebração ao visível", conceitua o artista. A exposição pode ser visitada de terça a sexta-feira, das 9h às 19h; e nos sábados, das 9h às 15h, no Mamam no Pátio (Pátio de São Pedro, casa 17). Nesta semana, devido ao carnaval, só funciona até a quinta-feira e reabre na quinta seguinte.

O artista foi convidado em janeiro para montar a exposição, a primeira do ano no espaço. "A partir dali comecei a pensar no tema que eu iria trabalhar. Ea imagem de um poste não saía da minha cabeça. Um objeto tão banal, mas que eu me reconhecia nele", explica o artista. Nas paredes do Mamam no Pátio, Jeims usou corretivo, grafite, tinta, caneta e outros materiais para desenhar três postes. O primeiro, com uma base com patas, mãos e garras; o segundo, com raízes e o terceiro com tudo que faz parte de um poste jogado na base, ficando erguida apenas uma cruz. "Mas não a cruz como símbolo e sim como forma. Somente uma horizontal e uma vertical. Livre de todos os excessos", explica. A construção dos desenhos não foi programada. "Vou desenhando direto na parede. Tenho apenas uma ideia vaga do que vou fazer", diz. Um esboço de um poste, há muito guardado numa gaveta, foi emoldurado e divide a outra parede com mais três desenhos de postes. "Quis valorizar esse esboço. É como uma lembrança de que o tema estava já presente há algum tempo", afirma.

Projetos - A exposição de Jeims Duarte marca o início de uma nova dinâmica do Mamam no Pátio. "O espaço nasceu para valorizar as residências artísticas e as performances. Mas a partir deste ano vamos também abrigar a produção local", afirma Cristiane Mabel, coordenadora do local. Para este ano serão selecionados três artistas para expor e duas performances. "O processo de escolha será simplificado, através de uma análise do portfólio dos artistas", explica Mabel. O programa de residência também sofreu alterações. Dois artistas pernambucanos vão ser escolhidos para passar dois meses no Centro Dr. José Lourenço, de Fortaleza, ou na Usina Cultural Energiza, de João Pessoa. Um processo de intercâmbio que também vai trazer artistas dessas duas capitais para o Recife. O processo de seleção dos artistas deverá ser aberto após o carnaval.

Posted by Marília Sales at 2:42 PM

Exposição "Gordon Matta-Clark: desfazer o espaço" por Paula Alzugaray, Istoé

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 05 de fevereiro de 2010

Confira a entrevista com as curadoras Tatiana Cuevas e Gabriela Rangel. Mostra entra em cartaz no Museu de Arte Moderna de São Paulo a partir de 12 de fevereiro


Em que medida, ao intervir em espaços urbanos abandonados e em edifícios com identidades históricas e culturais bem definidas (como os edifícios parisienses da área do Plateau Beaubourg) a atuação de Gordon Matta-Clark é também sobre a história, ou sobre os critérios de formação da história?

Os edifícios que tiveram intervenção de Matta-Clark não tinham identidades históricas ou culturais definidas, pois eram ruínas urbanas (ou suburbanas, no caso de “Splitting” ou “Bingo”), sem atributos nem valor estético. Daí a importância de seu gesto alegórico efetuado em lugares destinados, por sua função e história, à desaparição. Por outro lado, esse gesto desmantela as noções do que se considera e se valida como histórico e a idéia de monumento. Por isso, Matta-Clark nunca considerou intervir em um edifício de Le Corbusier ou Mies van der Rohe, mas sim mostrar as camadas invisíveis de formação histórica a partir de espaços anônimos, fantasmáticos e sem memória. Um excessão foi, sem dúvida, o Muro de Berlin, onde o artista realizou uma performance, na medida em que não pode intervir na estrutura, por razões óbivas; ou “Window Blow Out”, onde literalmente atentou contra o establishment da arquitetura ao disparar contra os vidros das janelas da sede do Instituto de Arquitetura e Estudos Urbanos de Nova York. Foram trabalhos mais explicitamente políticos e, não raro, relaizados no mesmo ano de 1976.

Matta-Clark já teve suas intervenções urbanas e arquitetônicas comparadas à land art e ao dada (a influência pode ter surgido depois dele ter trabalhado como assistente de Jan Dibbets, Hans Haacke, Dennis Oppenheim, Robert Smithson, entre outros, na montagem da exposição “Earth art”, em 1969). Mas é possível pensar sua obra hoje dentro do escopo da ecologia e de causas pro-sustentabilidade?

Comparar a obra de Matta-Clark com a land art oferece um marco conceitual impreciso e confuso, pois a problemática de suas intervenções alegóricas sobre edifícios se inscreve exclusivamente ao tecido urbano (ou suburbano, no caso de Humphrey St, New Jersey e Niagara Falls) e às interações sociais que ocorrem nele. A land art, ao contrario, concentrou seus esforços em ampliar a idéia de escultura inscrevendo-a na paisagem natural, mesmo que Robert Smithson tenha notavelmente estabelecido uma importante distinção teórica entre o site e o non-site, permitindo-o fundamentar a operação de deslocamento de elementos naturais à galeria de arte ou ao museu. Esse talvez seja um elemento que une a obra de Smithson à de Matta-Clark: o deslocamento de suas extrações arquitetônicas do edifício em ruínas ao museu ou galeria de arte.

Por outro lado, as preocupações de Matta-Clark sempre apontarm para uma busca de soluções auto-sustentáveis, desde “Garbage wall”, obra feita de resíduos e dejetos, até o projeto inacabado de “Loisaida”, com o qual ele obteve a bolsa Guggenheim e que propunha o treinamento de jovens de baixos recursos de Nova York em ofícios de alvenaria e tarefas de construção, o que permitia-os fabricar suas próprias vivendas ou melhorar suas condições de vida. A consciência ecológica também pode ser encontrada em seus escritos e em suas preocupações alquímicas (“Agar-Agar”, “Glass Brick”, “Lead pieces”) ou sobre a reciclagem (“Winter garden: mushroom and wastebottle recycloning cellar”), correspondentes ao período (em que viveu em) 112 Greene St, assim como durante a gestão das idéias sobre “anarquitectura”.

Um “Garbage wall” foi exposto na 27ª Bienal de São Paulo. Mas que intenção Matta-Clark tinha com esse projeto, ou com outros como as “Basket houses”: eram objetos escultóricos para ser exibidos em espaços expositivos ou eram projetos anti-institucionais, concebidos para terem aplicação prática em contextos urbanos dos Estados Unidos ou de outros países?

“Garbage wall” é um trabalho que recupera a idéia de reciclagem e pode ser realizado em qualquer lugar, seguindo as especificações do artista. “Basket houses”, ao contrario, foi um projeto utópico, ou seja, um projeto sem lugar, não realizado e, portanto, é difícil considerá-lo nesses termos.

A exposição vai trazer à tona a dimensão teórica de Matta-Clark, exibindo meditações filosóficas do artista?

Uma parte importante do trabalho de Matta-Clark é sua relação com a escritura, equiparável de alguma forma àquela que Helio Oiticica teve com a escritura (mesmo que menos desenvolvida no caso de Matta-Clark). Não é coincidência o artista ter estudado literatura na França nos anos 60, durante um Período fundamental para sua formação. Nesse sentido, a influencia do conceitualismo surgido nos anos 60 é considerável na recuperação da escritura como instrumento de inscrição e ao mesmo tempo como vetor lingüístico.

Mesmo que Matta-Clark não tenha deixado escritos teóricos extensos, sua escritura fragmentária, quase aforística, anotada em cartões e cadernos, e suas meditações sobre os projetos que ia desenvolvendo, dão conta de sua importância na consolidação de uma poética própria. Por outro lado, os títulos irônicos que dava aos seus trabalhos (às vezes vários para uma só obra) evidenciam o peso da escritura.

E como será explorada na exposição a dimensão coletiva de seu trabalho, promovida, entre outros momentos, no restaurante “Food”, que ele abriu com amigos, em 1971, no SoHo novaiorquino e era considerado um trabalho artístico?

“Food” será apresentado dentro do contexto das investigações alquímicas de Matta-Clark. A dimensão coletiva desse projeto será mostrada através de vídeos, fotografias e documentação disponível sobre o restaurante, que serão dispostos em ordem cronológica, em relação a obras performáticas como “Tree dance”, “Open house” e “Fresh air cart”, ou mesmo à série de fotografias de “Anarquitetura”, que foram feitas coletivamente por Matta-Clark e um grupo de amigos, colocando em questão a idéia de autor. Nesse sentido, “Anarquitetura” é um conceito que Matta-Clark foi desenvolvendo através de um conjunto de opiniões residualmente formadas por um coletivo – o mesmo que colaborou em “Food” e que foi se desmembrando à medida em que o artista começou a fazer intervenções em edifícios.

Posted by Marília Sales at 2:20 PM

fevereiro 8, 2010

Visões de um anarquiteto por Paula Alzugaray, Istoé

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 05 de fevereiro de 2010

Primeira retrospectiva de Gordon Matta-Clark na América do Sul revela uma obra com consciência ecológica e soluções autossustentáveis

Quando Nova York vivia seu boom imobiliário e financeiro, fruto do crescimento econômico que consolidou os Estados Unidos como potência mundial, Gordon Matta-Clark (1943-1978) formava-se em arquitetura. Naquele final de década de 60, no entanto, o jovem arquiteto interessava-se menos por torres que escalavam os céus do que por estruturas abandonadas da periferia e por sistemas subterrâneos da cidade. Em vez de construir, seu projeto era “cortar” edifícios, ou “desfazer espaços”, como diz o título de sua exposição retrospectiva itinerante, que chega a São Paulo depois de passar por Santiago do Chile e antes de seguir para Lima. Matta-Clark interessava-se pela situação paradoxal de um contexto urbano em que conviviam modernização e abandono. Em 1971, quando Wall Street investia na construção das torres gêmeas do World Trade Center para estimular o crescimento econômico do sul da ilha, Matta-Clark documentava a miséria das pessoas que viviam na região, no filme “Fire Child”. Foi quando começou seus projetos de perfurações de edifícios condenados ao desaparecimento e a gestar suas ideias de “anarquitetura”. “Como estes edifícios existiam fora da sociedade e não se inseriam dentro dos objetivos de proteção da propriedade, estavam aí para quem quisesse. Os cães selvagens, os drogados e eu utilizamos estes espaços para resolver algum problema vital; no meu caso, a falta de um lugar de trabalho socialmente aceitável”, declarou o artista em entrevista, em 1977.

Seus primeiros cortes foram subversivos, já que não conseguia permissão oficial para projetos de intervenção urbana. Mas o artista não tardou a ter o trabalho reconhecido pelo sistema de arte internacional. Em 1975, ele foi convidado pela Bienal de Paris a cortar dois edifícios do século 17, que seriam demolidos na área do Plateau Beaubourg, próximo ao novo edifício do Centro Pompidou – que, por sinal, foi construído debaixo de muita polêmica. Hoje, as imagens documentais de “Conical Intersect” integram o acervo do museu francês, constituindo uma espécie de memória de sua pré-história. Para combater a monumentalidade da arquitetura moderna, Matta-Clark inventou o conceito do “no nument” (algo como não monumento). “As preocupações de Matta- Clark sempre apontaram para uma busca de soluções autossustentáveis, desde ‘Garbage Wall’, feita de resíduos e dejetos, até o projeto não concluído em que propunha o treinamento de jovens de baixos recursos de Nova York em ofícios de alvenaria e construção”, afirmam por e-mail as curadoras Tatiana Cuevas e Gabriela Rangel.

Em vez de aderir a programas oficiais de renovação – que previam a demolição de áreas históricas deterioradas –, o artista tinha ideias para melhorar a qualidade de vida de populações excluídas dos planos especulativos de Wall Street. Entre essas populações, incluíam-se também povos do Equador, Chile, Peru, Haiti, México e Guatemala. Filho do artista surrealista Roberto Matta, de origem chilena e residente nos EUA e na Europa, Gordon Matta-Clark conhecera o Chile ainda menino.

Posted by Marília Sales at 4:01 PM

Catálogo apresenta todas as instalações de Waltercio Caldas por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Matéria de Fábio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo, em 6 de fevereiro de 2010

Livro sobre exibição no Museu Vale, em Vila Velha (ES), organiza obras do artista compondo uma nova exposição

Catálogos de exposição costumam restringir-se apenas às obras expostas ou, no máximo, a usar outras obras como referência. Mas "Salas e Abismo" é muito mais que um catálogo normal. O livro será lançado até o fim deste mês, por ocasião da mostra de Waltercio Caldas, com o mesmo nome da publicação, no Museu Vale, em Vila Velha, no Espírito Santo.

Além de imagens das nove instalações de Caldas no museu, o catálogo apresenta todas as instalações já realizadas pelo artista, num total de 25, em importantes mostras, como a Bienal de Veneza e a Documenta de Kassel (Alemanha).

Algumas delas são inéditas no Brasil, como "Quarteto Amarelo" e "Quarteto Azul", ambas de 1999, expostas no Centro Galego de Arte Contemporânea, em Santiago de Compostela (Espanha). O livro traz ainda três textos críticos: de Paulo Venâncio Filho, curador da mostra em Vila Velha, Paulo Sérgio Duarte e Sonia Salzstein.

Caldas, num dos típicos procedimentos da arte contemporânea, costuma realizar um intenso diálogo com a história da arte, sem, contudo, gerar uma mera ilustração dessa temática.

É assim, por exemplo, que ocorre com "Maçãs Falsas" (2008), exposta na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, na qual maçãs são dispostas em mesas com vidros entre elas, multiplicando suas imagens, num debate sobre a natureza-morta como gênero da pintura.

Já na série "Veneza", exposta na Bienal de Veneza de 1997, as referências se tornam mais explícitas. Em fios metálicos, que criam formas como vasos e copos, Caldas cola pequenos apêndices com nomes de artistas como Picasso, Renoir, Duchamp e Bosch. Em seu texto, Salzstein detém-se na análise dessa mescla entre palavra e imagem: "Esse trânsito desimpedido entre "ler" e "ver", que faz pensar na provável afinidade do artista com a tradição das correspondências sinestésicas da poesia simbolista e com os jogos entre signos gráficos e visuais tão ao gosto de Mallarmé, por certo influi no modo peculiar como "bidimensionalidade" e "tridimensionalidade" se comutam livremente em seu trabalho."

Nesse trecho, pode-se perceber uma das questões centrais na obra de Caldas, que é a discussão sobre representação, muitas vezes criando, com suas instalações, simples desenhos no espaço, como ocorre em "Próximos", de 2005. No livro, as obras não seguem uma ordem cronológica, mas foram organizadas a criar uma sequência que aproxima a publicação de uma nova exposição. Catálogos assim deveriam se tornar mais comuns.

Posted by Marília Sales at 3:40 PM

Brinquedo simula mercado de arte por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 7 de fevereiro de 2010.

Galeristas ficam por último e curadora vence partida do jogo de tabuleiro que simula vendas de obras em leilões e galerias

"O jogo inteiro é baseado em sorte, não na inteligência", avalia Márcia Fortes, da Fortes Vilaça, que jogou Mercado de Arte a convite da Folha

Numa tarde ensolarada, dois curadores, duas galeristas e dois artistas se juntaram numa briga para ver quem sai ganhando no mercado de arte.

Encarnando peões coloridos num tabuleiro, onde lances de dados decidem os rumos, Márcia Fortes, sócia da Fortes Vilaça; Eliana Finkelstein, dona da galeria Vermelho; Felipe Chaimovich, curador do Museu de Arte Moderna; Fernanda Lopes, do Centro Cultural São Paulo; e os artistas Claudio Bueno e Gui Mohallem simularam a luta a convite da Folha.

Jogaram uma partida do recém-lançado Mercado de Arte, brinquedo que tenta imitar os mandos e desmandos do dinheiro sobre a criação artística.

Isso tudo numa escala reduzida, é claro. Não tem obras de Cildo Meireles, Beatriz Milhazes ou Nuno Ramos. Não tem Sotheby's ou Christie's. Muito menos o Masp ou a Pinacoteca. O jogo se ancora na figura de uma única -e quase desconhecida- artista chamada Sônia Menna Barreto, suas obras de arte e até sua produção de xícaras, pôsteres e objetos afins.

Preside sobre a sorte dos jogadores a ira ou a benevolência do banco Menna Barreto, que distribui dinheiro, determina o valor das obras e aplica multas aos que blefam nos leilões.
"Esse banco é terrível", exclama Felipe Chaimovich, a certa altura do jogo, vítima de um desfalque financeiro. Passado um tempo, já detentor de uma loja de xícaras e da tela "Cinderela", ele controla a grana: "É verdinho em cima de verdinho, é assim que se faz".

No placar final, o curador do MAM não foi bem. Escolhas duvidosas acabaram deixando Chaimovich com um patrimônio tímido e pouco dinheiro no banco, mas ainda bem à frente de sua rival Márcia Fortes.
Na vida real, ela é sócia da galeria mais poderosa do país e representa os reais e muito conhecidos Nuno Ramos, Beatriz Milhazes e Adriana Varejão, para citar alguns. No jogo, Fortes não comprou quase nada, rejeitou boa parte das obras, que achou de "estilo duvidoso", e incitou a concorrência entre os outros participantes.

"Esse jogo só vai prestar para a reavaliação de rumos", desabafa ela, em tom jocoso. "Quer um emprego como diretor de galeria de arte? Tem várias viagens internacionais, champanhe", oferece aos adversários.
Nesse momento, disputava com o artista Gui Mohallem uma tela que estava nas mãos de Eliana Finkelstein. Mohallem, jovem artista na vida real, dominava o jogo, com o maior volume de obras e dinheiro em caixa. Finkelstein, também não muito capitalizada na ficção, esperava aumentar as ofertas para decidir o destino da obra.

"A gente não pode fazer um "deal'? Você me dá sua obra e eu dou a minha, um "business'", pedia Finkelstein. "O negócio é esperar a hora em que o cara está mal de grana para comprar o que você quer", ensina.

"A Eliana está se revelando uma loba", disse Fortes, depois de perder a longa disputa. "Não é à toa que faço análise."

Artistas e banqueiros
Mas os conselhos do terapeuta não evitaram que a marchand bem-sucedida terminasse o jogo em penúltimo lugar. "O jogo inteiro é baseado em sorte, não na inteligência", avalia. "Eu sempre disse que tinha que sair desse negócio."

No fim das contas, Mohallem, artista, terminou em segundo lugar, atrás de Fernanda Lopes, curadora do CCSP. Se a ficção imita a realidade, faz sentido, já que o poder dos curadores, acima de galeristas e artistas, está mais do que consolidado no circuito global.

Não é nem preciso lembrar que Hans Ulrich Obrist, curador da Serpentine Gallery, em Londres, foi eleito número um da lista das cem pessoas mais influentes no mundo das artes plásticas pela revista "Art Review". Lopes tem menos fama, mas arrasou no tabuleiro.

Em sintonia com artistas de sua geração, acostumados com um mercado vigoroso e valores avantajados, Mohallem chegou ao fim da disputa com uma fortuna em mãos. "Quando quero falar de arte, eu ligo para um banqueiro", resume Fortes. "Quando quero falar de dinheiro, ligo para um artista."

Posted by Marília Sales at 3:33 PM | Comentários (1)

Escolha e disposição das obras revela falta de ousadia por por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Matéria de Fábio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo, em 6 de fevereiro de 2010

A exposição "Coleção sob Guarda Provisória do MAC USP" é bastante representativa do que significou o mecenato privado na última década: apenas sob decisão judicial coleções importantes, com raríssimas exceções, foram entregues a museus.

Enquanto no resto do mundo grandes colecionadores tornaram-se parceiros de museus existentes, como o empresário Eli Broad, que doou US$ 60 milhões para o Los Angeles County Museum abrigar parte de sua coleção, por aqui, e principalmente através da Lei Rouanet, continua sendo o Estado o grande provedor dos museus públicos e privados.

No entanto, a exposição "Coleção sob Guarda Provisória do MAC USP" poderia ser uma excelente oportunidade para uma entidade como o MAC -que ainda neste ano deve ocupar parte de sua nova sede, no antigo edifício do Detran- debater o papel atual do mecenato.

Nada seria mais apropriado, afinal o próprio MAC surgiu a partir da impressionante coleção particular de Ciccillo Matarazzo, além do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo, uma das estranhas histórias da arte brasileira.

Em vez disso, os curadores do MAC organizam uma exposição burocrática, que trata os três acervos recebidos (do Banco Santos, de Edemar Cid Ferreira, do megainvestidor Naji Nahas e do narcotraficante Juan Carlos Ramírez Abadía) de forma envergonhada, sem assumir, com um debate necessário, sua questionável origem.

Às vésperas de ocupar um espaço com reais condições museológicas e adequadas a seu acervo, o MAC, com essa exposição, sinaliza sua maior fraqueza: a falta total de ousadia. Esse desânimo se espelha na mostra e pode ser conferido também na seleção e na forma de disposição de suas 118 peças: cada coleção apreendida possui uma cor distinta na legenda das obras, e só.

Segundo a exposição, Nahas teria o acervo mais requintado, com modernistas de peso como os brasileiros Di Cavalcanti e Portinari, além do espanhol Joan Miró.

Mas, das mais de mil obras do Banco Santos, a impressão é que se optou pelas mais pitorescas, com algumas exceções como Cildo Meireles, Leda Catunda e Amilcar de Castro. Assim, não é de se estranhar que coleções privadas fujam dos museus públicos.

Posted by Marília Sales at 3:25 PM | Comentários (2)

Juiz diz que descobriu arte por meio de Edemar, Naji Nahas e Abadía por Fernanda Mena, Folha de S. Paulo

Matéria de Fernanda Mena originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 6 de fevereiro de 2010.

Quando entrou pela primeira vez no depósito da rua Mergenthaler, que guardava as obras da Cid Collections, de Edemar Cid Ferreira, o juiz da 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo, Fausto De Sanctis, pensou que a tela do norte-americano Frank Stella ali guardada era uma cortina.

"Até aquele momento, sabia pouco de arte. Mas quando vi aquela quantidade de quadros e esculturas, percebi que precisava me informar", lembra.

Admirado por uns, criticado por outros, o juiz faz parte de um grupo de titulares de varas especializadas em crimes financeiros, e introduziu a prática de alienação antecipada de bens de condenados.

Depois de apreender e encaminhar a museus sob guarda provisória a coleção de Edemar, considerada uma das mais importantes do hemisfério Sul, De Sanctis deu o mesmo destino às obras do investidor Naji Nahas e do megatraficante Juan Carlos Ramirez Abadía.

"No meu entendimento, lugar de obra de arte é no museu", disse o juiz à Folha.


FOLHA - O senhor gosta de arte?
FAUSTO DE SANCTIS - Eu gosto muito de arquitetura e sempre gostei de arte, apesar de nunca ter sido profundo conhecedor.

FOLHA - Seu interesse mudou após as apreensões de obras pela Justiça?
DE SANCTIS - Totalmente! O contato com diretores de museus e as explicações que me eram passadas sobre as obras e sua importância me fizeram vê-las com outros olhos. Vi uma tela de Frank Stella de 16 metros de altura e achei que fosse uma cortina. Depois que fui entender a importância dessa obra e também da coleção de fotografias, que preencheu lacunas do acervo do MAC.

FOLHA - Qual coleção apreendida mais o impressionou?
DE SANCTIS - Fiquei impressionado com os dois Boteros que o Abadía tem na Colômbia. E, obviamente, com a coleção do Banco Santos, que impressiona também pela dificuldade em administrar tudo aquilo.

FOLHA - Tem artistas preferidos?
DE SANCTIS - Esses mais modernos aí. O próprio Frank Stella e o Damien Hirst [artista britânico], que me interessou muito e cujo trabalho passei a seguir.

Posted by Marília Sales at 3:02 PM

"Não sou apegado a bens materiais", diz Edemar por Fernanda Mena, Folha de S. Paulo

Matéria de Fernanda Mena originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo, em 6 de fevereiro de 2010

Ex-banqueiro costuma visitar mostras que tragam obras de sua coleção de arte

Condenado por fraude e formação de quadrilha, ex-controlador do Banco Santos teve 12 mil obras apreendidas pela Justiça

Toda vez que vai aparar os cabelos no Jassa, o ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira tem de encarar duas esculturas do italiano Galileo Emendabili (1898-1974) que pertenceram a sua coleção, mas que hoje estão expostas na praça Luís Carlos Paraná, no Itaim Bibi, zona oeste de São Paulo.
São duas das cerca de 12 mil peças que compunham a célebre (e bilionária) coleção de arte do ex-controlador do Banco Santos.
Condenado sob acusação de fraude e formação de quadrilha, ele teve parte da coleção sequestrada pela Justiça Federal em 2005 e colocada sob guarda provisória de diversos museus de São Paulo, entre eles, o Museu de Arte Contemporânea (MAC) -que exibe 83 obras de sua coleção desde janeiro- e o Museu de Arte Sacra.
Desde que deixou a prisão, em agosto de 2006, após 89 dias encarcerado, Edemar mantém uma rotina de visitas às exposições em que figuram obras da coleção que mantém em nome da empresa Cid Collections.
"Visitei todas, menos esta de agora, porque não sabia que ela existia", disse, por telefone, à Folha. (FERNANDA MENA)

FOLHA - Como são suas idas a museus para ver obras da sua coleção?
EDEMAR CID FERREIRA - Eu sinto um prazer imenso em vê-las expostas. Primeiro porque não sou um colecionador que tem sentimento de propriedade. Segundo porque sempre quis mostrar a cultura brasileira.

FOLHA - Então não sente falta de tê-las em sua casa?
EDEMAR - Não. Não tenho saudades de nenhuma. Não sou apegado a bens materiais. Sou desprendido. Tenho apego apenas por um quadro da minha mãe, que, mesmo amadora, pintava bem. Embora essas obras sejam minhas -minhas não, das empresas que eu administrava-, desde que estejam sendo expostas, está ótimo.

FOLHA - O sr. não se importaria se as obras fossem mantidas nos museus onde estão hoje?
Edemar - Não! Mas acho que tem um aspecto jurídico: a decisão está errada porque não devo esse dinheiro que dizem que eu devo. Se elas ficarem nos museus, não tem o menor problema. Se forem a leilão, acho que as coleções de mapas, de cerâmica etc. não deveriam ser fracionadas porque elas perdem o valor do conjunto.

FOLHA - O mercado de arte serve para lavagem de dinheiro?
EDEMAR - Não vejo assim! Desde que tenha origem, recibo, não tem lavagem. Mas obra de arte, em geral, não exige recibo. Cadê o recibo? Cadê a declaração? Não se faz! Talvez venhamos a fazer por uma questão de educação fiscal. Mas essa história de lavagem de dinheiro é uma grande besteira. Nunca tinha ouvido falar disso daí. Não acho que o Naji nem o Abadía nem eu fizemos isso. O Naji é um homem "clean".

FOLHA - Por que, então, suas obras estão expostas com as deles?
EDEMAR - Acho que é um trabalho político, no sentido de mostrar que a justiça está sendo cumprida eficazmente.

Posted by Marília Sales at 2:29 PM

Mercado de arte pode lavar dinheiro ilícito por Fernanda Mena, Folha de S. Paulo

Matéria de Fernanda Mena originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo, em 6 de fevereiro de 2010

A falta de controle rigoroso nas transações de compra e venda de obras de arte é o que torna esse mercado fértil para operações de lavagem de dinheiro de origem ilícita.

Segundo o presidente do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), Antônio Gustavo Rodrigues, há uma resolução do órgão de 1999 que criou procedimentos a serem observados numa transação envolvendo bens artísticos e antiguidades. Ela determina que operações suspeitas (que envolvam dinheiro em espécie, em que o comprador resiste a ser cadastrado, em que haja pagamento com recursos vindos do exterior etc.) devam ser comunicadas ao órgão.

No ano passado, apenas duas transações de obras de arte foram apontadas ao órgão como suspeitas. Para se ter uma ideia, o setor imobiliário, no mesmo ano, comunicou 3.142 transações suspeitas; o setor de joias, 23.

"Falta essa consciência entre galeristas", diz Rodrigues. "O que muitos não sabem é que a não comunicação dessas transações pode acabar envolvendo o vendedor da obra na ação criminal como cúmplice", alerta.

Posted by Marília Sales at 2:07 PM

Arte daqui pra frente por Júlia Lopes, Opovo

Matéria de Júlia Lopes originalmente publicada no Opovo, em 8 de fevereiro de 2010

Para marcar os dez anos do Museu de Arte Contemporânea, a exposição pra começo de século abre, amanhã, reunindo artistas de diversas origens do Brasil e da América Latina

Um apanhado diverso, com muitos suportes, ideias variadas, todas sob o imenso & e por vezes mal compreendido & conceito da arte contemporânea. O que pode a arte? Abre amanhã, às 19h, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, a exposição Pra Começo de Século, com possíveis respostas. A ideia que conduziu a escolha dos 12 artistas convidados, segundo o curador e gestor do Museu, José Guedes, traça um paralelo com os 10 anos de existência do MAC, comemorados este ano: artistas ``que deslancharam nessa virada de século, que abordam muitas questões de expansão das técnicas``. E mais: ``Acredito que o recado que eles estão dando hoje vai contribuir pra construção de um alicerce pras gerações futuras``.

Dos 12, quatro são cearenses, dois vieram de São Paulo, um do Rio de Janeiro e mais um do Distrito Federal. Os últimos quatro são de países da América Latina & Paraguai, Bolívia, Uruguai e Cuba. ``Procuramos, na escolha dos artistas para essa exposição, acompanhar uma linha de trabalho que já desenvolvemos``, coloca Guedes. Ou seja: intensificar o intercâmbio com a América Latina. Ele indica, ainda, outra linha que pode sugerir uma ligação entre os trabalhos. ``Existe uma questão do desenho. Os espinhos do Euzébio Zloccowick, por exemplo, têm um desenho, expandidos para uma amplitude tridimensional``. Mas os trabalhos sempre sugerem diversas leituras. A do próprio artista, por exemplo, aponta para outro caminho.

``Você está numa sala, dentro de um museu, que é um lugar de proteção. Mas a sala toma sentido contrário: se você vacilar, pode se machucar``, conta Euzébio. Ele teve para si dois espaços do MAC, que encheu de espinhos colhidos no sertão alagoano. ``No Natal de 2009 fiz a colheita, no sítio em Major Isidoro, pequena cidade de Alagoas. E passei a trabalhar durante um mês``, detalha. O problema da desproteção é recorrente nos trabalhos do artista: estátuas de santos já foram cobertas de espinhos, gaiolas foram forradas deles.

Um processo também laborioso foi o de Sabyne Cavalcanti, que escavou uma das entradas de grama da Praça Verde do Dragão, no Projeto Acampamento. O mesmo desenho que foi cavado ficou ao lado do buraco, como uma espécie de bolo de três andares. ``Podemos pensar esta descida como um encontro entre vida e morte, é só lembrarmos, que para os Astecas, a terra é a mãe criadora, mas também aquela que se alimenta dos mortos, sendo, portanto também destruidora``, escreveu ela no blog que mantém para divulgar o projeto (www.projacampamento.blogspot.com).

Outro destaques da mostra é a boliviana Narda Alvarado, que chega a Fortaleza depois de ter exposto na única edição da Bienal Ceará América, em 2002, que aconteceu no Dragão, nos galpões da RFFSA e na Casa Boris. ``Estou trazendo trabalhos de diferentes anos, mas de um mesmo temas de ideias``, explica a artista. ``Trabalho essas ideias como matéria prima, e tento formar um todo com essas elas. Há um vídeo animação, também tem um power point e desenhos, muitos desenhos de ideias``, indica, por telefone. Ela já estava em Fortaleza para a montagem da exposição na semana passada.

Acervo
A trajetória do MAC, apesar da história recente, já conta com algumas polêmicas, altos e baixos. Ao sucesso da mostra que trouxe reproduções das obras do francês Auguste Rodin ao Ceará, em 2000, seguiu-se um período de menor visibilidade. A curadoria daquele período também estava a cargo de José Guedes, que ficou de 1999 a 2003. Com a saída dele, assume a critica de arte Luíza Interlenghi. Ela deixou o cargo em 2005, quando passa a gestão para o curador Ricardo Resende, escolhido através de um conselho curador. Ricardo dirigiu o MAC com o auxílio desse conselho, formado pelos críticos Rodrigo Moura, Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias. Naquele ano de 2005, o acervo contava com 55 obras.

Um dos projetos de Ricardo era ampliar esse acervo, parte fundamental para a existência de um museu. Em dois anos ele conseguiu transformar o número, deixando, em 2007, o Museu com 600 obras. José Guedes, numa indicação do irmão do governador, Ivo Gomes, volta a ser o gestor do Museu, saindo, portanto, Ricardo. Na época houve protestos dos artistas que pretendiam a permanência deste.

Hoje, o MAC conta com 900 obras na sua reserva técnica. Mas o número está longe de ser o ideal. O Museu de Arte Moderna de São Paulo, por exemplo, tem cerca de seis mil itens, enquanto no Museu de Arte Contemporânea da USP são quase oito mil. O número de exposições também não é animador. Segundo Guedes, nesses dez anos foram 136 mostras, 39 delas feitas em parceria ou totalmente custeadas por outras instituições, como a mostra Arte Pop, que foi feita com investimento estadual. ``O orçamento do Mac é de R$ 14 mil. Quando não é suficiente, recorremos a outras fontes``, esclarece Guedes.

Posted by Marília Sales at 1:49 PM

Sob custódia por Fernanda Mena, Folha de S. Paulo

Matéria de Fernanda Mena originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo, em 6 de fevereiro de 2010

Exposição reúne obras das coleções do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, do investidor Naji Nahas e do narcotraficante Juan Carlos Ramirez Abadía no MAC do Ibirapuera

Há 20 dias, o Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, no parque do Ibirapuera, inaugurou uma exposição inusitada sem coquetel nem divulgação. "Coleções sob Guarda Provisória" reúne as coleções que um dia decoraram mansões ou escritórios do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, do megainvestidor Naji Nahas e do narcotraficante colombiano Juan Carlos Ramirez Abadía.

É a primeira vez que o MAC reúne os três acervos em uma grande exposição: são 108 quadros e esculturas que abrangem obras de Joan Miró, de artistas brasileiros de renome, como Di Cavalcanti, Portinari, Cildo Meirelles e Amílcar de Castro, e de outros menos conhecidos.

A diretora do MAC, Lisbeth Rebollo, consegue decifrar o perfil de cada colecionador sub judice a partir das obras que recebeu: Edemar teria perfil nacional e internacional, Nahas cultivava gosto especial por arte brasileira moderna e Abadía investia apenas em arte brasileira contemporânea.

Apesar disso, segundo ela, não há uma problemática estética por trás dessa montagem. "Tanto é que elegemos um título genérico para a mostra."

Estética da lavagem
Para o juiz Fausto De Sanctis, titular da 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo, responsável pelo sequestro das obras do ex-banqueiro, do megainvestidor e do narcotraficante, qualquer lógica estética pode ser substituída por uma leitura curatorial de cunho, digamos, criminal (leia quadro ao lado).

"Essas obras de arte foram compradas com dinheiro ilícito. Elas são a concretização do crime da lavagem de dinheiro", explica De Sanctis.

O juiz, que integra um grupo de titulares de varas especializadas em crimes financeiros, entregou as coleções sob guarda provisória de sete instituições culturais de São Paulo, entre elas o MAC. A destinação permanente das coleções só pode ser dada após o término dos processos.
A exposição seria, portanto, fruto de um mercado que não preza pelo controle, tornando-se vulnerável a operações de lavagem de dinheiro.

Obras no exterior
Depois de apreender as três coleções, a Justiça Federal fez acordos de cooperação internacional para trazer ao país obras de Edemar e de Abadía encontradas, respectivamente, nos EUA e na Colômbia.
Na Colômbia, foram localizados dois quadros de Botero, avaliados em cerca de US$ 400 mil (R$ 750 mil) cada, e mais de 70 obras de latino-americanos de pouca expressão.

Nos EUA, foram encontradas cinco pinturas de propriedade da Cid Collections, empresa que administra a prestigiosa coleção de Edemar, que haviam desaparecido depois que o ex-controlador do Banco Santos passou a ser investigado por fraude e lavagem de dinheiro.

Entre elas está "Hannibal", de Jean Michel Basquiat, avaliada em US$ 8 milhões (cerca de R$ 15 milhões).
As obras estavam prontas para serem repatriadas quando uma decisão do STJ (Supremo Tribunal de Justiça) do ano passado emperrou o processo ao determinar que é o juiz responsável pelo processo de falência do Banco, Caio Marcelo de Oliveira, e não o juiz federal criminal, é quem decidirá o destino definitivo das obras.

Com isso, a coleção tende a integrar a massa falida do Banco Santos (empresa que é formada no momento da decretação de falência de uma empresa) e ir a leilão para o pagamento de credores do banco.

"Se você tem uma dívida e um Picasso, vai vendê-lo para pagar o que deve. No caso de um banco é a mesma coisa.", diz Vânio Aguiar, interventor no Banco Santos. "Existe um conflito de competência."
Ainda assim, a Advocacia Geral da União (AGU) entrou com um recurso no STF (Supremo Tribunal Federal) para que a coleção não seja integrada à massa falida do banco, permanecendo nos museus, que aguarda julgamento.

Museu x leilão
Enquanto o debate prossegue nos tribunais, no limiar entre questões jurídicas e culturais, especialistas e instituições defendem que as obras permaneçam nos museus. Um dos argumentos já utilizados pela reitoria da USP é que foram investidos até hoje mais de R$ 1 milhão com restauro, manutenção, armazenamento e exposição das peças apreendidas.

Mário Chagas, diretor do departamento de processos museais do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), órgão ligado ao Ministério da Cultura, as obras do Banco Santos "têm dimensões de interesse coletivo com função social pública". "São peças de valor cultural, histórico e artístico, algo muito mais importante que seu valor financeiro. A idéia de irem a leilão é um perigo."

Para o curador Ivo Mesquita, as obras deveriam ter acesso público garantigo. "Obra de arte é uma forma de capitalização, mas eu sou um patrimonialista e acho que obras importantes deveriam permanecer nos museus."

Posted by Marília Sales at 1:27 PM