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julho 17, 2009
A arte de dar a volta por cima por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 10 de julho de 2009.
Sophie Calle, a francesa que faz da frustração o motor de sua arte, traz ao Brasil trabalho gerado a partir de email de rompimento relação amorosa e reencontra aqui o pivô dessa história
Cuide de você/ SESC Pompéia, SP/ de 11/7 a 7/8
Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/ de 22/8 a 22/11
Em junho de 2004, depois de tomar um fora do namorado por email, a artista francesa Sophie Calle fez uma consulta no Hospital Público de Paris. A médica que a atendeu anotou que não via razão para prescrever anti-depressivos. “Você está simplesmente triste. A solução não é química”, escreveu a Dra.
Catherine Solano em uma receita médica em tom de carta pessoal. A médica finalizava com a sugestão: “Você encontrará recursos para reagir”. A reação de Sophie Calle ao fim de sua história de amor com o escritor franco-argelino Grégoire Bouillier pode ser conferida pelo público paulistano a partir de sábado, 11, na exposição “Cuide de você”. Intitulada com as últimas palavras de Bouillier, a exposição reúne as interpretações que 107 mulheres deram à carta de rompimento.
“Meus projetos nascem da frustração e da impossibilidade”, explica Sophie Calle. “Não entendi essa carta, não pude respondê-la, então pedi a outros que o fizessem por mim”. Lida e relida 107 vezes, a carta passou por uma análise literária e lingüística, por revisão gramatical, por interpretação jurídica, por leitura de tarô. Foi transformada em partitura musical, em código numérico, em passos de dança. Foi dissecada por mulheres famosas como Vitória Abril, virou picadinho nas mãos da atriz Miranda Richardson, e até comida em bico de cracatua. “Não gosto de choro. Encontrei uma forma de manter um distanciamento pedindo que outras mulheres lessem a carta utilizando seu vocabulário profissional”, conta.
As reações integram a mostra na forma de textos, fotos e vídeos. Há desde reações lacrimejantes e indignadas – as mais previsíveis -, até performances notáveis e surpreendentes – que realmente sacodem a poeira – como as da artista multimídia Laurie Anderson e da cantora Camille.
Os trabalhos de Sophie Calle nascem sempre como uma reação. “Podem vir de meu fracasso no amor ou de meu fracasso em encontrar uma idéia”. Seu primeiro projeto, “Suíte Vénitienne” (1979), em que perseguiu um homem de Paris até Veneza anotando todos os seus passos como um detetive, veio da ausência de iniciativa própria. “Eu estava tão passiva que precisava usar as pessoas como motor para minha atividade”. Em “Unfinished” (2005), sua incapacidade de lidar com imagens de câmeras de vigilância tornou-se o motor para um documentário sobre uma crise criativa que durou 15 anos levou um trabalho a permanecer inacabado.
O reencontro entre Sophie e Bouillier na Feira Literária de Paraty, no sábado 4, poderia dar a impressão de que “Cuide de você” é também um trabalho inacabado, pronto para uma possível retomada. Sophie nega. “Dez dias depois de começar o trabalho, eu tinha medo de que ele voltasse para mim. O trabalho se tornou muito mais importante do que a nossa relação. O trabalho está acabado e eu amo outra pessoa”.
Estante
Duas autobiografias e um encontro
Sophie Calle e Grégoire Bouillier dividiram uma mesa na Feira Literária de Paraty para discutir a relação em público. Por trás do debate, dois livros autobiográficos, em que a ficção empresta seu tom à realidade.
O convidado surpresa/ Grégoire Bouillier/ CosacNaify/ R$ 35
Grégoire Bouillier narra a história de uma única noite: a experiência de transformar-se em personagem de uma das obras de Sophie Calle. No dia em que a artista fez 37 anos, ele foi o convidado número 37 de sua festa de aniversário, como parte de ritual que a artista inventou para sentir-se menos só.
Histórias reais/ Sophie Calle/ Agir Editora/ R$ 34,90
Com 30 textos curtos e contundentes – com uma imagem fotográfica dedicada a cada um deles –, este primeiro livro de Sophie Calle editado no Brasil expressa bem o estilo da artista: sem sobras, nem excessos. Trata-se da narrativa de uma vida em que cada fato cotidiano é feito de uma pequena performance.
Dez verbos para Sophie Calle
A vida artística de Sophie Calle sempre foi mediada por ações reincidentes. Selecionamos dez dessas ações para ela comentar. À lista, Sophie acrescentou, no final, mais uma palavra.
Listar
Faço isso como uma maneira seca de colocar as emoções; um modo de tomar distância em relação aos fatos.
Documentar
Não sou documentarista. Documento as regras dos jogos que organizo com um propósito mais poético que jornalístico.
Ficcionalizar
Não invento histórias. Mas as histórias são sempre fictícias. Se escolho uma palavra no lugar de outra, já estou fazendo ficção.
Roteirizar (a própria vida)
Escolho um sujeito completamente arbitrário. Um homem para perseguir. Esse homem não significa nada para mim, mas ele se torna uma obsessão graças à regra do meu jogo. Quando o jogo acaba, ele está fora da minha vida. As regras são uma forma de criar emoção com controle. Em minha vida normal, não tenho esse controle.
Fotografar
Na minha primeira foto eu não vi o que fotografei. Quando estava vivendo na Califórnia, fotografei uma tumba num cemitério, onde estava escrito: “irmão, irmã”. Só me dei conta disso quando voltei à Paris e revelei a foto. Vinte anos depois, voltei ao cemitério e me dei conta de que as tumbas não continham nomes, mas vínculos familiares: “pai, mãe”; “mãe, filha”; irmão, irmã”.
Observar e ser observada
Isso foi há 30 anos atrás. Eu não persigo alguém para observá-lo desde 1979.
Vagar
Comecei a seguir pessoas porque estava perdida, não sabia para onde ir, não tinha desejo nenhum. Pensei que seguindo pessoas descobriria novos lugares. Tomei gosto por não ter de decidir nada, por deixar as pessoas decidirem por mim. Essa foi uma forma de conhecer Paris novamente.
Citar
Eu faço citações? Também não presto atenção a citações ao meu trabalho.
Colaborar
Em “Cuide de você”, quis que outras mulheres respondessem à carta por mim. Minha resposta seria a soma, o acúmulo de todas essas respostas.
Arquivar
Eu arquivo tudo. Guardo tudo, a princípio, porque tenho uma ausência patológica de memória. Leio um livro cinco vezes, fecho o livro e não me lembro o nome do personagem. Sempre fui assim, desde a escola. Arquivo tudo para me lembrar.
Ausência
A palavra que eu diria que mais fala sobre o que eu faço é “ausência”. Eu adicionaria essa palavra à minha lista. Mas não posso dizer nada sobre a ausência.
Roteiros
Game também é cultura
GAMEPLAY/ Itaú Cultural, SP / até 30/8
Não é de hoje que o game ganhou espaços expositivos de centros culturais destinados a obras de arte. Desde o início da década, os games integram mostras de arte e tecnologia, como o Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (FILE) e o evento Emoção Art.ficial. Desta vez, os jogos ganharam uma exposição exclusiva, no Itaú Cultural, com onze videogames e seis instalações.
Mesmo que alguns trabalhos se aproximem da já conhecida “game-art”, os organizadores da mostra insistem em não haver aqui a intenção de pensar o game como obra de arte. “Este não é um evento estético. Não entramos na discussão do ser ou não arte, apenas assumimos o vídeo-game como parte da cultura contemporânea e desejamos pensar o conceito da ‘gameplay’ ou ‘jogabilidade’, que nós definimos como a interação do humano com a máquina”, explica Guilherme Kujawski, gerente do núcleo de Arte e Tecnologia do Itaulab. Na seleção, há desde jogos comerciais, como o “FIFA Street 3”, em que o jogador organiza um time de craques do futebol jogando uma pelada no meio da rua, ao famoso “Mario Kart Wii”.
Uma versão do clássico da Nintendo, o jogo é um simulador de corrida com Mario Bros e seus famosos colegas.
Por outro lado, reforçam a idéia da game-art, trabalhos como “KinoArcade”, do coletivo Windows Media Players, em que o jogador entra numa espécie de fliperama para re-editar com joysticks o filme “Encouraçado Potemkin”, de Serjei Eisenstein. Ou ainda “Velvet strike”, concebida pelos artistas Marie Schleiner, Brody Condon e Joan Leandre, do qual o público não participa ativamente e é considerada, segundo os organizadores da mostra, um clássico da video-arte. Arte ou não, a mostra é um enorme sucesso de público, com filas de espera de até duas horas para interagir com as máquinas.
Fernanda Assef
Nova safra argentina por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 3 de julho de 2009.
Panorama da arte contemporânea argentina elege a figuração como principal tendência da produção atual
Argentina hoy/ Centro Cultural Banco do Brasil, SP/ 6/7 a 30/8
O pintor e engenheiro Prilidiano Pueryrredón (1823-1870) teve na Argentina importância semelhante a Almeida Júnior (1850-1899), no Brasil. Um foi pioneiro em documentar nas telas a figura do gaucho argentino, a vida nos Pampas e nas margens do Rio de La Plata; outro foi o primeiro artista plástico brasileiro a retratar o homem da roça. Pueryrredón teve enorme influência sobre o desenvolvimento da arte na Argentina e nomeou sua Escola Nacional de Bellas Artes, onde diversas gerações de artistas tiveram sua formação. O pintor foi fundamental para traçar as diretrizes que acompanhariam a produção daquele país durante todo o século 20: o figurativismo e a narratividade. Até hoje, pelo que atesta a mostra Argentina hoy, esses valores determinam uma boa parte da produção artística do país. A exposição traça um panorama da arte contemporânea argentina, mas elege a figuração como seu partido principal. Tradicionalmente, a figuração divide-se em três grandes eixos: a paisagem e o retrato e a natureza morta.
Na exposição, nota-se uma predileção especial pelas paisagens (urbanas e rurais) e pelos retratos. Como a pintura e a fotografia são os meios que dão melhor resolução à expressão da figura, é natural que eles sejam preponderantes na exposição do CCBB. Artistas como Nicola Constantino, RES e Constanza Piaggio usam a fotografia para questionar alguns pressupostos da perspectiva e da pose. Na fotografia “A Dama” (2005), RES e Constanza Piaggio re-encenam uma tela de Leonardo da Vinci, pintada entre 1483 e 1490, na tentativa de desmantelar alguns mitos gerados pela perspectiva renascentista. Em “La cena” (2008), a artista Nicola Constantino dá um tratamento erótico à uma cena muito próxima ao enquadramento tradicional de uma Santa Ceia.
Entre as figuras de Argentina hoy, encontra-se de tudo, mas muito pouco relacionado à vida da Argentina campestre, tão bem representada pelo mestre Pueryrredón. Sinal de que a produção do país abre-se para o contexto internacional, assim como acontece com a arte brasileira. Entre os 33 artistas presentes na mostra, há desde Jorge Macchi, Tomás Saraceno e Leandro Erlich, de grande projeção internacional, aos jovens talentos Ariel Cusnir e Mariana López, que ainda não fizeram 30 anos. Com obras na coleção Daros Latinamerica e individuais no PS1-MoMA de Nova York e no Museo Nacional Reina Sofia, em Madri, Erlich é considerado, mais que argentino, um artista internacional. Mesmo com a lamentável ausência de artistas de enorme representatividade como Guillermo Kuitca, Roberto Jacoby, León Ferrari e Liliana Porter, a exposição é uma ótima aproximação à uma produção que infelizmente ainda nos é desconhecida e distante.
Roteiros
Moby Dick paulistano
JOÃO LOUREIRO: BLUE JEANS/ Pinacoteca do Estado, SP /até 23/8
Melville não acreditaria. Uma baleia encalhada na Pinacoteca do Estado de São Paulo é uma ficção de tamanho peso, quase tão grande quanto a mais célebre baleia da literatura de todos os tempos. A instalação “Blue Jeans”, de João Loureiro, que ocupa praticamente todo o espaço octógono do museu é uma baleia em escala real, feita de uma tonelada de isopor e revestida com 200 metros de jeans. O tecido, segundo o artista, é fundamental porque representa a cultura de massa e contribui com sua intenção de discutir as relações entre arte e entretenimento, consumo e natureza.
“A baleia é um animal que a gente conhece mais por imagem que pela presença, o que torna ela um ser meio mítico”, explica Loureiro, que já havia trabalhado com instalações de animais em tamanho real na sua primeira individual “Zootécnico”, que esteve em exposição na Galeria Vermelho até o final de semana passado. Na Pinacoteca, “Blue Jeans” faz parte do Projeto Octógono Arte Contemporânea, em que projetos dialogam com o espaço. “Essa instalação é uma resposta direta ao espaço monumental do octógono, que permite o tamanho colossal de uma baleia. Além disso, a Pinacoteca tem uma variedade de exposições de arte contemporânea, arte tradicional, botânica, arqueologia... em fim, achei interessante dar a impressão de um museu de história natural no meio disso tudo”, diz Loureiro.
Fernanda Assef
Três vezes performance por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 26 de junho de 2009.
Mostra reúne Laura Lima, Pilar Albarracín e Regina José Galindo, três artistas que tem o corpo como forma de expressão
Corpos estranhos/ Memorial da América Latina, SP/ até 26/7/
MAC USP/ de 6/8 a 4/10
Poucas palavras têm tanto uso e aplicação quanto performance. Se na língua portuguesa, performance é o índice que avalia o desempenho – de um atleta, um profissional, uma máquina, um instrumento, um ator; o termo também consta do glossário da história da arte desde a década de 1960, referindo-se a manifestações que têm o corpo como principal forma de expressão. De lá para cá, a performance já se desdobrou em “categorias” como o happening, a aktion, o ritual, a destruction art, o acionismo, a body art, a street art, o skate art, etc etc. Com curadoria de Claudia Fazzolari, a mostra “Corpos estranhos”, em cartaz em São Paulo até outubro, reúne três artistas com diferentes utilizações do termo.
A vulnerabilidade do corpo e a crítica social são os fatores que aproximam os trabalhos da guatemalteca Regina José Galindo, da espanhola Pilar Alabarracín e da brasileira Laura Lima. Regina Galindo testa os limites do corpo como forma de denúncia social: a instalação sonora “(279) Golpes” emite o som de açoites que a artista empreendeu contra o próprio corpo; um para cada mulher assassinada num período de 6 meses, na Guatemala. No vídeo “Reconocimiento de un cuerpo”, a artista permanece nua e anestesiada sob um lençol, à mercê dos visitantes da exposição. Com a performance, faz uma menção aos desaparecidos nas ditaduras militares na América Latina.
Se Regina Galindo é a protagonista de seu trabalho, Laura Lima precisa do envolvimento do público para que sua obra se realize plenamente. A artista desenvolve esculturas “vestíveis” pelo público, mas, dessa vez, seu trabalho “Nômades” é uma belíssima coleção de máscaras penduradas na parede, que funcionam mais como pinturas do que como roupas. Mesmo que não fique evidente à primeira vista, a tortura e a história política da America Latina também são subjacentes às máscaras de Laura Lima, na medida em que elas apresentam formatos estranhos e ameaçadores, que desafiam o corpo.
Os clichês sobre a mulher espanhola, a mulher latina e a mulher árabe são o objeto da crítica de Pilar Albarracín. “Não trabalho com a dor corporal, mas com uma dor psíquica, os problemas relacionados com a imigração ilegal e as dificuldade de exportação de uma cultura a outro contexto. Me interessa, por exemplo, a forma como a cultura árabe é exportada para a Europa”, diz ela. Estereótipos hibéricos como a dança flamenca e o presunto Pata Negra estão entre seus ícones favoritos.
Saiba mais
Muito além da dança
O evento VERBO, na galeria Vermelho, em São Paulo, já é lugar cativo para os amantes e praticantes da performance, esse gênero artístico que aproxima as artes plásticas, dramáticas, musicais e audiovisuais. A 5ª edição, que acontece entre 6 e 10 de julho, reúne 50 artistas brasileiros e internacionais e promove o lançamento de duas publicações – o livro de artista “O Performer”, de Fabio Morais, e a revista “Marte #3” –; além de dois DVDs com compilações de performances de Mauricio Ianês e marco Paulo Rolla.
Roteiro
Ligue os pontos e descubra a figura
Objeto imaginado/ Centro Cultural São Paulo, SP/ até 16/8
Ver a exposição “Objeto imaginado” é como procurar carneiros no céu. Ou como jogar o jogo do “Ligue os pontos e descubra a figura”. Tome, por exemplo, as duas esculturas de Laura Husak Andreato: uma, no chão, reproduz um beiral da fachada de uma casa, com uma luminária acesa; a outra representa um degrau, feito em lajota de cerâmica. Entre os dois objetos, o vazio. Ou melhor, uma casa imaginária, talvez com grades ou cortinas na janela, talvez com a porta entreaberta. Ao lado da possível casa de Laura Andreato, outras obras apresentam espaços em branco. “Em muitas das obras aqui apresentadas, a noção de vazio aparece como a principal razão de ser do objeto”, afirma o curador Paulo Monteiro.
A exposição faz um recorrido pelas produções da década de 1970 até 2000, presentes na Coleção de Arte da Cidade de São Paulo, mas está longe de produzir um panorama da arte contemporânea brasileira.
Felizmente, o curador optou por ser excludente em vez de abrangente e, com apenas 27 obras, traça uma história bem contada dos acontecimentos artísticos dos últimos 30 anos. Em um acervo de 2.800 obras em diversas técnicas e seis coleções de arte postal com 3.500 peças, Monteiro primou pela economia e elegeu a imaterialidade como questão fundamental para a compreensão da arte contemporânea.
A mostra parte das idéias da “morte da pintura”, que ganharam força nos anos 1960 e incentivaram produções arrojadas como a performance (uma ausência lastimável na coleção e na curadoria) ou a arte postal. Entre os pioneiros da arte imaterial, há presenças notáveis, como a serigrafia “The desert”, de Antonio Dias (foto), ou os “Jornais clandestinos” (1975), em que Antônio Manuel inventa noticias chamadas jornalísticas de primeira página, como “Pintor mostra pós-arte”. O “objeto imaginado” aqui é a história do pintor que não pinta mais e entra nu no museu de arte moderna para “mostrar a coisa viva”. Entre os contemporâneos, os “objetos imaginados” da fotografia da série “Fazendo estrelas”, de Albano Afonso, são os céus estrelados das telas de Van Gogh, apenas sugeridas pela fotografia.
Um filme noir em Porto Alegre por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 19 de junho de 2009.
O cineasta Pierre Coulibeuf faz filme-instalação inspirada na arquitetura de Álvaro Siza e na pintura escura de Iberê Camargo
Dédale/ Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre/ Até 30/8
Iberê Camargo começou a pintar paisagens na década de 1940, mas os azuis profundos e os tons fechados só entrariam em sua paleta no final dos anos 1950, quando uma hérnia de disco encerrou-o dentro de casa por um longo período. A imobilidade e a convalescência, na cama, trouxeram-lhe, além das cores escuras, as lembranças da infância e a memória de um elemento que passaria a fazer parte de toda a sua obra: os carretéis que roubava da caixa de costura de sua mãe e logo viravam brinquedos. A escuridão das pinturas dos anos 1960 e a circularidade dos carretéis foram a fonte de inspiração para o artista cineasta francês Pierre Coulibeuf produzir o filme-instalação “Dédale”, em cartaz em Porto Alegre. O trabalho é um site-specific, ou seja, foi concebido e montado de acordo com a arquitetura do edifício do Instituto Iberê Camargo, projetado pelo arquiteto português Álvaro Siza. Composto por três projeções de vídeo e uma série de 12 fotografias, o filme-instalação é um encontro de três artes: a pintura de Iberê, a arquitetura de Siza e o cinema de Coulibeuf. “Tentei realmente me apropriar da arquitetura e do movimento produzido por esta extraordinária espiral. Siza propiciou-me o conceito e a estrutura do filme: o labirinto”, diz o cineasta.
O filme desenvolve, de maneira não-linear, a narrativa do mito de Dédalo, o arquiteto que construiu o labirinto para o rei Minos aprisionar o Minotauro, seu filho monstruoso. Os dois personagens fazem referência a Ariadne e Teseu, interpretados pela atriz portuguesa Vânia Rovisco e o ator brasileiro Matheus Walter. Mas um terceiro personagem, o Minotauro, pode ser reconhecido na aparição das pinturas escuras de Iberê Camargo, freqüentemente enquadradas pela câmera de Coulibeuf. “Eu me atraí particularmente pelas “pinturas escuras”, que representam para mim uma espécie de enigma. Elas aparecem como forças obscuras que assombraram o pintor”, afirma ele.
Coulibeuf é um cineasta que expõe em museus, monta seus filmes em forma de instalações com múltiplas telas, e trabalha no limite entre o cinema, a literatura e as artes visuais. O convite para trabalhar em Porto Alegre partiu do curador Gaudêncio Fidelis, como uma forma de reintroduzir a obra de Iberê no universo contemporâneo, para além de seu contexto moderno. Depois, o filme-instalação “Dédale” será adaptado para exibição no Museu de Arte Moderna de Saint-Ethienne, na França.
Roteiros
Antes tarde
DIÁLOGOS EM MOVIMENTO: VÍDEO-ARTE CUBANA CONTEMPORÂNEA/ Museu de Arte Contemporânea Dragão do Mar, Fortaleza/ de 23/6 a 13/9
Para os críticos e historiadores, o uso do vídeo com fins artísticos começou em meados dos anos 60. Mas em Cuba, principalmente por causa do difícil acesso à tecnologia com o embargo econômico, a videoarte teve sua primeira “aparição pública” apenas em 1994, no Festival de Vídeo Arte. Hoje, a intenção da mostra “Diálogos em movimento”, em Fortaleza, é fazer um apanhado geral da produção contemporânea cubana do gênero. São quinze vídeos de quinze artistas reconhecidos no cenário artístico cubano e mundial, mas em sua maior parte desconhecidos do público brasileiro.
As obras selecionados pelo curador cubano Rafael Acosta de Arriba não possuem um vínculo temático. Pelo contrário. A mostra explora temáticas e estilos bem diferentes. O nacionalismo cubano aparece em “Havana Solo”, de Juan Carlos Alom, também conhecido por seus trabalhos em fotografia experimental. O vídeo aborda a música como formadora da identidade cultural nacional. “Tiempos Modernos”, de Fernando Rodriguez, tem a ironia como fio condutor e faz uma sátira sobre a sociedade moderna. “A dream without”, de Luis Gómez, é um exercício surrealista que recria o clássico “Nosferatu” de Murnau.
Freqüentemente, os artistas têm no vídeo uma linguagem complementar a seus trabalhos em pintura e escultura. “Como não poderia deixar de acontecer, muitos códigos artísticos foram incorporados na vídeo-arte cubana, que é assumidamente híbrida. Não é possível definir com precisão características deste gênero em Cuba – como não podemos determinar o que é a vídeo-arte européia ou latino-americana – mas é possível sinalizar algumas características comuns, como, por exemplo, o diálogo com mitos da história da arte, o questionamento social, a veia poética, as referências surrealistas, a ironia”, comenta o curador. A mostra faz parte do projeto “Americanidades”, do MAC-Dragão do Mar, que procura divulgar a produção latino-americana no nordeste brasileiro.
Fernanda Assef
“Não deixo mais vocês brincarem” por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 12 de junho de 2009.
Em entrevista, Nelson Leirner diz que esta é sua exposição mais séria e repleta conceito
Ocupação Nelson Leirner/ Itaú Cultural/ até 28/6
Quando Nelson Leirner enviou seu “Porco” para o 4º Salão de Arte Contemporânea de Brasília, em 1966, fazia parte da obra – alem do porco empalhado, propriamente dito – uma peça de presunto que desapareceu no trajeto São Paulo-Brasília. Mas a suposta devoração do presunto não estava totalmente fora dos planos do artista, que naquela época dedicava sua criação à participação do público. Hoje, na revisão que fez do trabalho, o presunto está engradado e inacessível. A obra integra a “Ocupação Nelson Leirner”, novo projeto do Itaú Cultural que convida artistas veteranos, dando-lhes liberdade para ocupar o primeiro andar do edifício na av. Paulista. Leirner decidiu por fazer uma revisão contemporânea de alguns de seus clássicos. Depois do artista plástico, será a vez do diretor teatral José Celso Martínez.
A citação, especialmente a Fontana ou a Duchamp, sempre foi importante em seu trabalho. Mas como é citar-se e recriar–se a si mesmo?
A idéia é conversar comigo mesmo e mostrar para o público esse diálogo: o Nelson, de quase 50 anos atrás, sentado numa cadeira, e o Nelson hoje, de cabelo branco, barba branca. Eu fico mudando de cadeira e conversando comigo mesmo.
Você fez versões contemporâneas das obras dos anos 60?
É um dialogo entre obras com 50 anos de diferença entre si. As intenções que eu tinha não são as mesmas. Aliás, são totalmente opostas. Há 50 anos, eu propunha o interativo: o trabalho tinha que ser mexido, tocado, violentado. Hoje eu dialogo com esses trabalhos dando-lhe a impossibilidade dessa interatividade.
Realmente, é impossível interagir com obras como “Homenagem a Fontana”, que contem zíperes que não podem mais ser abertos.
Mas eu não fiz com essa intenção. Esse é o efeito do valor comercial que a obra adquiriu. O dono da obra pede, pelo amor de deus, não me deixem abrir o zíper. Então o que eu faço? Uma série de obras que mostram zíperes que não mexem. No “Porco”, você não pode saborear o Pata Negra. Originalmente, a obra tinha um presunto que foi comido. Hoje eu coloquei o presunto de tal maneira que você não pode mais comer. Na cadeira (de “Tronco com cadeira”, de 1964), você não pode sentar. É como se eu dissesse pra vocês: eu quis que vocês brincassem, mas minha vontade não foi respeitada. Agora eu não deixo mais vocês brincarem.
Mas ao substituir o presunto comum pelo Patanegra, o presunto mais caro do mercado, você não está sugerindo que nesses 50 anos “evoluímos” para um consumismo selvagem?
O próprio “Porco”, se estivesse hoje na minha mão, seria o grande item de consumo. Se me devolvessem o porco hoje, a sociedade me compraria por uma fortuna.
Por que naquela época fazia sentido declarar guerra ao sistema de galerias e instituições e hoje não mais?
Porque não existe mais esquerda e direita, não existe mais bifurcação. Hoje você anda numa linha reta, você não tem mais escolha de lado. Você é um andarilho solitário numa estrada.
Por que não temos uma discussão pública nos jornais como a que tivemos entre você e Mario Pedrosa no jornal “Correio da Manhã”, sobre o “Porco”?
Porque a discussão era provocada pelos artistas e hoje ela é provocada pelas próprias instituições, o artista não tem palavra. O artista não está mais envolvido, como estava antes.
Mas ainda temos gestos como a retirada do Cildo Meireles da 27ª Bienal em protesto à reeleição de Edemar Cid Ferreira ao conselho da Bienal.
Mas não tem mais efeito. O consumo dismistifica. Ele faz isso hoje, mas, na próxima Bienal, quando for convidado, ele pode estar lá. Pergunte-se se hoje em dia um artista pensa antes de aceitar qualquer coisa. Todo convite de instituição ou de galeria deveria ser rejeitado, se você se posicionasse. Mas aí você morreria. Duchamp já falava: trabalho sem interlocutor não existe. E a instituição virou nosso interlocutor.
Antes você ainda tinha o mail art, o outdoor, o jornal, todos outros meios para fazer o trabalho existir fora da instituição. E hoje?
Tudo é consumido. Faça um outdoor hoje, se consome. Faça uma performance, se consome. Faça o grafiti, veja o que aconteceu com o grafiteiro hoje. Já começou com Basquiat.
Mas a pixação parece que ainda não foi consumida.
Mas já está em livros, já está documentada. Você vai na livraria, já existe uma sessão especial de livros de pixação. Enorme.
Mas os pixadores que invadiram a 28ª Bienal argumentam que a única maneira da pixação entrar numa instituição de arte é através da invasão.
Até o dia que o Agnaldo Farias (curador da mostra “Ocupação: Nelson Leirner) for curador e fazer uma Bienal toda pixada. Aí os pixadores vão lá pixar. Assim como o grafiti entrou. É só ter alguém que tenha coragem de fazer a Bienal da pixação.
Com quantos gigabytes se faz uma torre
47º SALÃO DE ARTES PLASTICAS DE PERNAMBUCO - O LUGAR DISSONANTE/ Torre Malakoff, Recife / até 26/7
Em Recife, na Torre Malakoff, um dos mais antigos observatórios astronômicos das Américas, acontece a exposição de arte-tecnologia “O lugar dissonante”, parte da programação anual do 47º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco. Com curadoria de Lucas Bambozzi, esta é a segunda mostra do Salão, que no início de 2009 concedeu 21 bolsas para pesquisa e produção e 24 prêmios para pesquisas teóricas em artes visuais.
As cinco obras que integram a mostra “O lugar dissonante” enfatizam a presença e interação do público com a obra de arte. “Ouvidoria”, de Lourival Cuquinha em parceria com o Grupo Hrönir, usa a tecnologia e a interatividade para relativizar a autoria. Os artistas instalaram cinco orelhões em frente à Torre, com um aviso: “Você me cederia sua informação pela possibilidade de não pagar para emiti-la?”. A proposta é trocar ligações gratuitas pelo direito transmitir as conversas em caixas de som espalhadas numa sala escura de exposição. “O público não paz parte da obra, ele é a obra”, diz Thelmo Cristovam, do Grupo Hrönir.
Em “Suíte 4 Mobile Tags”, a artista Giselle Beiguelman também usa o telefone, mas para fazer música. Quadros com imagens de QR-code – código com informações – são interpretados por câmeras de quatro celulares usados pelo público. Essas imagens são, então, enviadas para outros aparelhos, posicionados sobre os quadros. Cada aparelho tem um ringtone especialmente composto para o ocasião. “O mais gostoso é trabalhar com a possibilidade de uma suite composta de forma aleatória e espontânea entre os quatro ringtones”, diz Giselle.
Motivação similar guiou o uruguaio Fernando Velázquez em “Your Life, Our Movie”. O visitante escreve uma palavra no computador que gera uma busca na internet. E em cada uma das três telas, colocadas lado a lado, se intercalam três imagens selecionadas de páginas do Flickr. O resultado é um filme interativo, criado coletivamente, em tempo real. Para o curador Lucas Bambozzi, “Teia” de Paulo Nenflídio simboliza o mote da exposição. “É uma obra que usa de tecnologia rudimentar e se torna instrumento de interação do público com o espaço através do som. Além disso, a imagem de teia é um símbolo da construção colaborativa”, explica.
Fernanda Assef
Como usar uma cidade por Alan Santiago, O Povo
Matéria de Alan Santiago originalmente publicada na seção Vida e Arte do O Povo, em 14 de julho de 2009.
Para espaços vazios, os artistas Louise Ganz e Breno Silva criaram uma utilidade. A exposição Ambulantes em espaços vagos traz manuais com possibilidades outras para utilizar as áreas urbanas
Primeiro passo: escolha um espaço vago na cidade. Segundo passo: transforme seu carrinho em um salão de beleza ao ar livre em poucos segundos. Caso não seja lá muito afeito ao cuidado com as unhas, escolha outro manual. Uma piscina portátil, talvez. Um equipamento de som ou ainda uma mesinha para comer na rua, quando a fome corroer as paredes do estômago. Esses kits, que ensinam a converter espaços vazios em áreas de utilidade, são reais. E são arte. Compõem a exposição Ambulantes em espaços vagos que, logo mais, às 19h30min, estará disponível, no Centro Cultural Banco do Nordeste.
O projeto inicial - surgido pelas mãos dos arquitetos e artistas plásticos Breno Silva e Louise Ganz - tem quatro anos. Nasceu em Belo Horizonte, mas veio ocupar os interstícios urbanos por aqui. Ano passado, a intervenção conversou com proprietários de terrenos sem utilidade e os tornou públicos por um tempo. Foram oito ao todo. Disso, brotou o vídeo sobre a intervenção que a exposição exibe junto com os manuais - ou kits, como prefere chamar Louise. “É uma releitura do trabalho anterior. Antes, se a gente partia a negociar com os proprietários, agora lidamos com equipamentos pra uso de espaço vago. Ainda gerando a mesma lógica, que é de ocupar com diversas funções”, reflete a artista, que possui uma palavra na manga para classificar o que vem desenvolvendo: “propositivo”.
Utilizar-se dos kits para uma vida mais, digamos, divertida. Ela mesma andando por aqui tem vontade de desdobrar uma cadeira e se resguardar do calor na sombra de uma árvore qualquer. Opção que, certamente, a dureza do calçamento não vai dar. Então, que se crie, é o que ela acredita. Com inventidade sempre.
Para ela, nossas cidades são espaços de ilegalidade. Estão aí os camelôs e comerciantes que ambulam vendendo DVDs, chaveiros, carregadores de celular que não a deixam mentir. “Mas a cidade é mais rica, no sentido de mais interessante, justamente porque tem esse uso ‘ilegal’”. Por isso é que os artistas espalham elementos de estranhamento, condenados aos espaços privados.
Entretanto, muito maior do que propor possibilidades outras de povoar as artérias de uma cidade, Louise e Breno convidam também a pensar esses vãos citadinos como quem passeia por eles. “Está acontecendo cada vez mais segregação no Brasil. Eu vejo muito em São Paulo e Belo Horizonte grandes condomínios onde há tudo lá dentro. A pessoa não precisa sair para conseguir nada. E, quando sai, anda pela cidade de carro. Não tem embate, não tem encontro. A intenção do trabalho é justamente eliminar o medo e o preconceito de que quem usa espaço público é camelô, é pobre”, critica Louise para completar, em seguida: “As cidades são inciativas das próprias pessoas, de querer mudá-las, reinventá-las, transformá-las nem que seja um cantinho de dois por dois; e provocar um desejo de atuar, de ser atuante pra gerar qualidades”.
EMAIS
- Os kits não ficarão estampados apenas nas paredes do CCBNB. Na abertura da exposição, alguns deles serão usados.
- Pouco antes de começar a Ambulantes em espaços vagos, às 18h30, haverá o lançamento do Concurso Mário Pedrosa que premia, até R$ 30 mil, textos inéditos de pesquisa sobre Arte e mundo após a crise das utopias.
Chris Marker apresenta a sua face de fotógrafo por Camila Molina, Estado de S. Paulo
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 do Estado de S. Paulo, em 17 de julho de 2009.
MIS abre a exposição Staring Back, com 200 imagens realizadas entre 1952 e 2006 pelo cineasta francês, autor de filmes como Sans Soleil, La Jetée e Cuba Si!
Cineasta, fotógrafo e escritor, o francês Chris Marker, que está para completar 88 anos, é considerado autor de uma obra inovadora no cinema, foi um "outsider da nouvelle vague", como definiu o crítico Luiz Zanin Oricchio no Estado, responsável por trabalhos com "toques de mistério" e tendo como tema recorrente a memória. Até há pouco, no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, foi apresentada uma retrospectiva de sua produção cinematográfica, incluindo filmes, vídeos e programas de televisão. Mas agora, no Museu da Imagem e do Som (MIS) é possível ver uma mostra dedicada ao lado fotógrafo de Marker, a exposição Staring Back (Com o Olhar Fixo no Passado), que reúne 200 fotografias feitas pelo francês durante 1952 e 2006.
A exposição, já apresentada em outros países, nasceu de uma simples troca de e-mails entre Bill Horrigan, diretor do Wexter Center for The Arts da Universidade de Ohio, nos EUA, e Marker, em 2006. O artista, durante a conversa, anexou algumas de suas imagens à mensagem e daí foi surgindo a ideia de se fazer uma mostra com suas fotografias, guardadas em um "enorme arquivo". Em Staring Back as obras são em preto e branco e, curiosamente, quase todas no mesmo formato, pequeno, característica que Horrigan, autor da curadoria da mostra (apesar de Marker ter feito a seleção das imagens), considera a definição de um estilo "modernista e doméstico" natural da produção fotográfica do cineasta.
É o retrato do ser humano que interessa a Marker como se pode ver na ampla exposição, um olhar "nada melodramático", ainda diz Horrigan, em que se dá destaque nas imagens aos rostos e olhos de seus retratados. "Basicamente seu foco são pessoas de todo o mundo, sejam anônimas ou não", afirma o curador, ressaltando que Marker continua ativo, apesar de sua idade, mas, ultimamente, explorando mais a mídia digital - entre sua produção recente, cartoons.
Uma grande parte da mostra é dedicada a esses retratos de rostos, nos quais estão apenas as faces no enquadramento da fotografia. São pessoas de diversos lugares do planeta, de épocas diferentes. Conhecidos ou não, todos se misturam - entre eles estão a atriz Alexandra Stewart, o compositor Michel Legrand, o cineasta Andrei Tarkovsky -, mas há também uma série relacionada a animais, principalmente aos gatos, que na "cosmologia" do autor, estão entre as "divindades dominantes e enaltecidas acima dos meros seres humanos". Um viés mais poético sobressai, ou seja, a representação simples feita por um observador que define seus trabalhos como algo fora da chamada "belas artes". Ao mesmo tempo há também fotografias tiradas de seus filmes e vídeos como La Jetée (1962), Sans Soleil (1983) e Cuba Si! (1961) - não frames da película, como frisa Horrigan, mas experimentos do artista.
Por outro lado, a exposição ainda contempla imagens de caráter diretamente documental, como os registros dos protestos políticos da marcha ao Pentágono contra a Guerra do Vietnã, em 1967. Entretanto, o curador considera que mesmo nesses casos o olhar de Marker - que afirmou que a única arma razoável contra a polícia em ato de 1962 só poderia ser uma filmadora - é político num sentido mais amplo, o que inclui a poética. Isso se reforça com a presença de excertos de textos escritos pelo francês com as imagens.
julho 14, 2009
Depois do vazio, a vez da política por Camila Molina, Estado de S. Paulo
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 do Edtado de S. Paulo, em 14 de julho de 2009.
Esse é o mote do projeto de Moacir dos Anjos, coordenador-geral da 29ª edição
O recifense Moacir dos Anjos foi anunciado ontem oficialmente como coordenador geral da 29ª Bienal de São Paulo, marcada para ser inaugurada entre o fim de setembro ou início de outubro de 2010. Ainda em Londres, onde ficou por um ano fazendo seu pós-doutorado pelo Transnational Art, Identity and Nation (Train), centro de pesquisa da universidade de artes da capital britânica, Moacir dos Anjos falou por teleconferência com a imprensa sobre o projeto curatorial da exposição, por enquanto tendo como título Há Sempre um Copo de Mar para um Homem Navegar, verso da obra Invenção de Orfeu (1952), do alagoano Jorge de Lima. Duas diretrizes principais alavancam a proposta para a mostra, destaque para o que o curador chama de "política da arte", invocando criações de cunho político; e a mistura de obras de criadores consagrados e jovens na exposição.
Moacir dos Anjos, nascido em 1963 e economista por formação, tem o perfil de curador que a Fundação Bienal São Paulo necessita neste momento de "recuperação e reafirmação" da entidade, desprestigiada por crise institucional. Com passagens por projetos de instituições de peso brasileiras, como ter feito a edição de 2007 do tradicional Panorama da Arte Brasileira do MAM de São Paulo e a cocuradoria, no mesmo ano, da bem-sucedida 6ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre - pode-se citar também que foi diretor entre 2001 e 2006 do Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (Mamam), do Recife, o escolhido, que não é um nome surpreendente, tem a capacidade de fazer uma Bienal de São Paulo que possa ser atrativa, a partir de uma "poética do encantamento", e de diálogo com a chamada "discussão atualizada" com o que se faz no exterior, ingredientes que contam para se chamar a atenção de um espectro amplo de público, especializado ou não - sua motivação é deixar o tema da arte fora do campo do hermético. "Acredito na capacidade da arte contemporânea falar das coisas próximas da vida, como, por exemplo, do corpo, dos conflitos, das dúvidas, das questões urbanas", afirma Moacir, desde os anos 90 pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco.
Como coordenador geral da 29ª Bienal, ele terá 30 dias para formatar a equipe curatorial da mostra, inclusive, os responsáveis pelo projeto educativo, arquitetônico e de design gráfico. Heitor Martins, presidente eleito da diretoria executiva da Fundação Bienal - sua posse ocorrerá no fim deste mês depois de processo de transição com a gestão anterior de Manoel Pires da Costa -, afirma que o coordenador poderá escolher entre ter equipe tríplice de curadores ou time com curadores assistentes sediados em outras localidades, mas diz que com certeza haverá a presença de pelo menos um estrangeiro entre eles, porque existe a ideia de internacionalização como parte do projeto da edição. O convite para Moacir foi feito a partir de escolha de Miguel Chaia e Justo Werlang, membros da diretoria encabeçada por Martins.
Há Sempre um Copo de Mar para um Homem Navegar não é um tema, mas título provisório que se pretende ponte para uma metáfora que enfatiza a "natureza política" das criações artísticas - sem ser ilustrativa de situações - e sua "direção utópica". "O ponto de partida é fazer a arte ter potência para ser como copo de mar, possível de se navegar apesar de toda a adversidade." Dentro desse escopo, Moacir dos Anjos, que chega esta semana ao Brasil e vai se dividir entre Recife e São Paulo, afirma que a mostra, com participação de 100 a 150 artistas e orçamento prévio de R$ 30 milhões, terá a arte brasileira como presença importante, permeando toda a exposição. "É possível dizer que será uma mostra de arte brasileira invisível", diz o coordenador, " pensar a história recente da produção nacional pelo viés que une política e estética". Uma das razões fundamentais de seu projeto curatorial é a ideia de apresentar a arte contemporânea brasileira por outro prisma, contra a classificação de que a produção nacional só foi política nos anos 60 e 70, deixando de ser depois disso.
Além do verso de Jorge de Lima, outra frase tida como referência é a do crítico Mário Pedrosa, "arte é um exercício experimental da liberdade". Como uma Bienal de arte se situa num terceiro lugar - ou terceira margem, fazendo a citação de Guimarães Rosa - entre o museu e a ebulição vazia do circuito do mercado/feiras, o experimentalismo é parte possível, necessária e obrigatória de um projeto desse tipo de mostra. Performance, vídeo e cinema terão presença forte na exposição, define o coordenador, e ocorrerão também conferências e workshops. Ao mesmo tempo, ainda não foi renovado o convênio pelo qual a Bienal de São Paulo escolhe a representação nacional brasileira na Bienal de Veneza, mas pelo projeto de gestão de Heitor Martins, Moacir dos Anjos indicará o artista ou artistas que estarão no pavilhão brasileiro do evento italiano em 2011.
Curador da Bienal quer arte política por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na seção Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo, em 14 de julho de 2009.
Evento, que deve ocorrer entre setembro e outubro de 2010, terá ainda outros cinco nomes para o projeto curatorial
"Um tema costuma constranger as obras", diz Moacir Dos Anjos, explicando que a 29ª terá uma "plataforma discursiva"
Política, sem a institucionalização de um museu ou o afã pelo novo de uma feira de arte. Em síntese, essas são as linhas gerais que vão direcionar a organização da 29ª Bienal de São Paulo, segundo o curador Moacir dos Anjos, anunciado hoje pelo presidente da Fundação Bienal, Heitor Martins, conforme a Folha havia adiantado.
De Londres, via Skype, o pernambucano Dos Anjos, 46, explicou o projeto inicial que irá conduzir a preparação da mostra, ainda sem data de abertura definida, mas que deve ocorrer em fins de setembro ou começo de outubro do próximo ano. "O Moacir é o coordenador do grupo curatorial, outros cinco nomes ainda devem ser incluídos, três deles estrangeiros. O conceito de equipe é importante para marcar um pluralismo de visões", afirmou ontem Martins, na sede da Fundação Bienal. Os demais curadores serão anunciados em agosto.
A 29ª Bienal não terá um tema específico, mas será organizada como uma "plataforma discursiva", disse Dos Anjos. "Um tema costuma constranger as obras a um ponto específico e por seu tamanho." De acordo com o projeto apresentado pelo curador, isso significa que "o aspecto central dessa plataforma será o reconhecimento do caráter ambíguo que a arte exibe desde que se viu liberta de sua função de meramente representar o mundo".
O curador trabalha a exposição com um título ainda provisório, "Há sempre um copo de mar para um homem navegar", verso do poeta alagoano Jorge de Lima. "Vamos dar ênfase à arte como produtora de uma visão de mundo que, em potência, pode transformar a realidade", disse o curador, ao explicar o caráter político da mostra.
Ao preparar o projeto da 29ª Bienal, Dos Anjos falou que teve em mente outras mostras, com as quais pretende dialogar: "Não sou ingênuo ou arrogante para achar que vou inventar a roda. A Documenta 11, de 2002, a última Bienal de Sydney, e a 24ª e 27ª Bienais de SP são as mostras que tive em mente para elaborar o projeto."
Sobre a Documenta 11, Dos Anjos ressaltou a mescla entre os vínculos estabelecidos da arte feita no presente com a produção do passado, o que deve ocorrer também na 29ª Bienal. Outro viés importante da exposição, também segundo o curador, será seu caráter experimental, que foi lembrado a partir da concepção do crítico Mário Pedrosa em sua famosa formulação "a arte é o exercício experimental da liberdade".
A produção brasileira também será fortalecida, sem ser organizada em gueto. "Pretendo romper com a leitura crítica dominante que a arte política brasileira ocorreu só nos anos 1960 e 70."
Segundo Martins, a exposição deve custar cerca de R$ 25 milhões, além de R$ 5 milhões para o setor educativo. O curador volta amanhã para Recife. Ele não terá residência permanente em São Paulo.
Moacir assume a Bienal SP, Jornal Commercio
Matéria originalmente publicada no Caderno C do Jornal do Commercio, em 14 de julho de 2009.
Fundação anunciou o crítico e curador pernambucano Moacir dos Anjos para o desafio de organizar edição de 2010
O economista e crítico pernambucano Moacir dos Anjos, 45 anos, é o curador da 29ª Bienal de Arte de São Paulo, prevista para estrear entre setembro e outubro de 2010. A mostra tem como título provisório Há sempre um copo de mar para um homem navegar, verso extraído de Invenção de Orfeu, do poeta alagoano Jorge de Lima. Ex-diretor do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam) de 2001 a 2006, ele começou sua trajetória dentro das artes na Fundação Joaquim Nabuco, na década de 90. Atualmente, está em Londres, finalizando um pós-doutorado sobre as relações entre o local-regional e o global-universal na arte contemporânea. Ele volta da capital inglesa esta semana e deve assumir o posto imediatamente. A notícia foi divulgada oficialmente ontem, pela Fundação Bienal de São Paulo, organizadora do evento.
O primeiro convite para coordenar uma das maiores exposições do mundo chega para o crítico como uma prova de fogo. A Fundação Bienal atravessa uma crise sem precedentes, que desembocou em críticas de todos os tipos para a 28ª edição da mostra – apelidada de “Bienal do Vazio”, vista por apenas 162 mil pessoas. O curador terá dois desafios simultaneamanente: produzir uma Bienal em pouco mais de um ano e estabelecer um formato viável para uma megaexposição de arte contemporânea, devolvendo-lhe a credibilidade.
META AMBICIOSA
Moacir dos Anjos participou ontem de videoconferência sobre seus planos para a Bienal de São Paulo. Ele apresentou metas ambiciosas dentro do seu empenho em resgatar a relevância da mostra “Nosso objetivo tem que ser o máximo possível, atingir um milhão de pessoas”.
Essa marca que quase foi alcançada pela edição de 2004 (917 mil visitantes), mas que desde então vem caindo (em 2006, foram 535 mil visitantes), apesar de ter se tornado gratuita há três anos. “Temos que elaborar formas de atrair o público mostrando que a Bienal não é lugar de cultura de massa, mas tampouco é elitista. A arte contemporânea tem a capacidade de falar das coisas da vida cotidiana, o que possibilita que seja entendida por todos”.
A 29ª Bienal não terá um tema, mas uma plataforma, como nas duas edições anteriores. “A intenção é enfatizar a natureza política da arte enquanto algo que possui autonomia. A plataforma pretende reafirmar a potência da arte, seu poder de reconfigurar visões de mundo”.
Para o curador, apesar da grave crise institucional na Fundação, do grande número de bienais no mundo e dos debates sobre o esgotamento do formato, há um lugar importante a ser ocupado pela Bienal de São Paulo, “não apenas por sua história, mas por ser realizada no Brasil, um dos principais centros de produção artística mundial”.
O custo previsto para a realização da 29ª Bienal é de R$ 25 milhões. Mais R$ 5 milhões serão investidos no programa de arte educação. Segundo Martins, serão necessários ainda R$ 10 milhões para custeio de despesas e saneamento de dívidas. Ele também tenciona captar recursos para reformar o prédio criado por Niemeyer.
ARTE INVISÍVEL
Dentro desse escopo, Moacir dos Anjos, que vai se dividir entre Recife e São Paulo, afirma que a mostra, com participação de 100 a 150 artistas e terá a arte brasileira como presença importante, permeando toda a exposição. “É possível dizer que será uma mostra de arte brasileira invisível”, diz o coordenador, que pretende “pensar a história recente da produção nacional pelo viés que une política e estética”.
Artistas e curadores pernambucanos que já trabalharam com Moacir dos Anjos não têm dúvidas a respeito da sua capacidade de levar o projeto adiante. Para a crítica e curadora de arte Cristiana Tejo, o título de curador da Bienal de São Paulo é um dos maiores reconhecimentos dentro da área, não apenas no Brasil, mas também no contexto internacional. “Há muitas pessoas no mundo que gostariam de ocupar esse lugar. Apesar das dificuldades que enfrenta, a Bienal é um espaço de projeção internacional para artistas e pensadores da arte”, ressalta.
Cristiana acredita que a crise em torno da Bienal não atinge tanto a mostra quanto a Fundação Bienal. “A instituição tem vários problemas de administração. O desgaste evidenciou que ela não é tão sólida quanto se pensava. Não tem raízes. Seu papel é o produtora de eventos, mas não é assim que se constrói uma bienal.” A curadora explica que uma exposição desta grandeza precisa de tempo e de verba assegurada para acontecer. Para ela, as falhas que vieram à tona na última edição tiveram o papel importante de tornar pública a crise.
A Fundação Bienal trocou várias peças-chave envolvidas na realização da exposição, inclusive o presidente da diretoria-executiva, elegendo Heitor Martins para o cargo. Graduado em administração pública pela FGV-SP, e com mestrado de administração de empresas na Universidade de Michigan, espera-se que ele consiga imprimir um perfil administrativo mais profissional. “Vejo esse mea culpa da Fundação como algo positivo. Pelo que percebi do novo presidente, acredito que ele e Moacir consigam trabalhar bem em conjunto. Um projeto curatorial é reflexo das pretensões do presidente. É preciso ter clareza da relevância dessa função”, completa Cristiana Tejo.
Pernambucanos comemoram a escolha do curador
O artista plástico José Patrício, que já participou de edições anteriores da Bienal e trabalhou com Moacir dos Anjos na Fundaj, comemora a notícia da nomeação. “Ele chega a esse cargo merecidamente, porque é um curador muito comprometido com o resultado do trabalho, não com outras questões paralelas, que às vezes atrapalham o desenvolvimento de um projeto como este. Ele tem condições de fazer um trabalho excelente”, reforça Patrício. O artista acrescenta que Moacir tem um diferencial em relação a outros curadores brasileiros: “Ele teve sua formação cultural no Recife, mas é um cidadão do mundo, com um olhar amplo. É a primeira vez que alguém cuja carreira foi construída fora do eixo Rio-São Paulo assume esse cargo”.
“Fico muito feliz, pelo reconhecimento de seu trabalho extremamente sério e competente. Moacir hoje é um nome nacional inquestionável, com trânsito internacional. Ele está altamente preparado para realizar uma Bienal”, afirma o artista plástico Gil Vicente, que participou, em 2002, da 25ª edição da Bienal. Gil não teme que a crise tire o brilho da atuação do curador pernambucano. “Se ele aceitou o convite, sabe o que vai fazer e terá condições de dar prosseguimento ao desafio de encontrar novos modelos para exposições do estilo das bienais”, pontua.
Outro artista local que comemora a indicação é Rodrigo Braga. “Moacir ajudou bastante a construir o nosso meio de arte contemporânea em Pernambuco. Ele promoveu várias boas exposições de artistas de outros Estados, e nos possibilitou adquirir esse conhecimento e proporcionou que nomes daqui participassem de exposições em outros lugares, fazendo a arte circular”, diz Rodrigo.
julho 13, 2009
Moacir dos Anjos dirige Bienal de SP por Fabio Cypriano, Folha S. Paulo
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na seção Ilustrada do jornal Folha S. Paulo, em 13 de julho de 2009.
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Crítico de artes plásticas foi escolhido diretamente pelo presidente da fundação, Heitor Martins, e será anunciado hoje
Dos Anjos deve indicar pelo menos mais dois nomes, provavelmente vindos do exterior, para trabalharem na 29ª edição, em 2010
O presidente da Bienal de São Paulo, Heitor Martins, anuncia, hoje, Moacir dos Anjos como o curador da 29ª Bienal de São Paulo, que será realizada no próximo ano, segundo apurou a Folha.
Diferentemente das últimas duas edições, que tiveram seus curadores, Lisette Lagnado (27ª) e Ivo Mesquita (28ª), escolhidos por processo seletivo, desta vez a indicação ocorreu diretamente pelo presidente.
Na entrevista coletiva marcada para hoje, na sede da Bienal, Dos Anjos não estará presente. Atualmente ele vive em Londres, onde realiza um pós-doutorado em arte transnacional, identidade e nação na Camberwell College of Arts.
Segundo a Folha apurou, o curador deverá apontar nos próximos dias, ao menos outros dois curadores para trabalhar com ele na Bienal, provavelmente nomes estrangeiros.
De acordo com Martins, o motivo da indicação sem processo seletivo foi facilitar o trabalho do curador, que terá pouco mais de um ano para organizar a exposição. O atraso na escolha, contudo, não tem a ver com o novo presidente, que foi eleito há pouco mais de dois meses, por conta da difícil situação financeira em que a fundação se encontrava.
Economista por formação, da graduação ao doutorado, Dos Anjos começou a se projetar no cenário artístico como diretor do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), de Recife. Entre 2001 e 2006, ele organizou mostras de artistas como Rosângela Rennó e Nelson Leirner.
Em 2004, ele foi curador da mostra Paralela, evento organizado pelas galerias paulistas simultâneo à Bienal de São Paulo, que chegou a ser considerado melhor que ela própria. Em 2006, ele foi curador da exposição de Cildo Meireles, na Pinacoteca do Estado, umas das mais importantes mostras do artista no país.
Já em 2007, foi um dos cocuradores da Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, além de responsável pela mostra bienal Panorama da Arte Brasileira, do MAM de São Paulo, intitulada "Contraditório", também exibida em Madri, em 2008.
Bienal de São Paulo importa modelo gaúcho de gestão por Silas Martí, Folha S. Paulo
Matéria de Silas Martíoriginalmente publicada na seção Ilustrada do jornal Folha S. Paulo, em 13 de julho de 2009.
Não causou espanto a escolha de Justo Werlang para integrar a nova diretoria da Bienal de São Paulo. O empresário e colecionador, que esteve até agora à frente da Bienal do Mercosul, entrou na chapa do novo presidente, Heitor Martins, para modernizar a gestão fraca e datada da mostra paulistana, afundada em dívidas.
Embora evite fazer críticas às gestões de Manoel Francisco Pires da Costa, que presidiu a Fundação Bienal de São Paulo até maio deste ano, Werlang reconhece que os planos do novo presidente são parecidos com o que se fazia em Porto Alegre.
"É muito difícil falar de fora, com a visão de um outsider", diz Werlang. "Objetivamente [a nova gestão paulistana] é o que nós gostávamos de praticar na Bienal do Mercosul."
Fundado em 1997, o evento em Porto Alegre teve público comparado ao da Bienal de São Paulo em suas últimas três edições, com mais de 1 milhão de visitantes em 2003. Custou em média R$ 8 milhões por edição, com maior parte dos recursos captados via Lei Rouanet, seguida de verbas do Estado do Rio Grande do Sul e de patrocinadores -o maior deles é a empresa metalúrgica Gerdau.
A edição atual da Bienal do Mercosul está orçada em R$ 7,5 milhões e terá cerca de 200 artistas. Numa comparação rasteira, a última edição da Bienal de São Paulo custou R$ 11 milhões e teve cerca de 40 nomes.
Estrutura fixa
Segundo Werlang, manter uma estrutura fixa entre uma edição e outra da mostra é parte do sucesso do evento gaúcho. Em vez de dissolver as equipes como faz a Bienal de São Paulo, a do Mercosul mantém um projeto pedagógico funcionando, além de outros setores.
"Existe uma estrutura fixa", afirma Werlang. "Em todas as áreas, há pessoas que operam durante o período todo."
Werlang também defende o processo de escolha do curador adotado na última Bienal do Mercosul, em que um concurso internacional escolheu um projeto vencedor. Em São Paulo, a nova diretoria escolheu Moacir dos Anjos para a curadoria da próxima edição, que será oficializada hoje.
O último grito por Silas Martí, Folha S. Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na seção Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo, em 13 de julho de 2009.
Ilustrada antecipa nomes de "Grito e Escuta", a próxima Bienal do Mercosul , que começa em outubro
Projeto de intervenção pública do artista brasileiro Henrique Oliveira, que fará parte da próxima edição da Bienal do Mercosul
Grito e escuta. De uma ponta a outra, quase 200 artistas estão escalados para a próxima Bienal do Mercosul, divididos entre aqueles que berram e os que absorvem o impacto.
Na véspera do anúncio oficial, marcado para amanhã em Porto Alegre, a Ilustrada antecipa os principais nomes da sétima edição da mostra, que já se consolidou como um dos maiores eventos de arte contemporânea no hemisfério Sul.
Estão escalados desde jovens em ascensão -os brasileiros Henrique Oliveira e Cadu Costa e o peruano José Carlos Martinat- a veteranos, como Anna Maria Maiolino, e artistas históricos, como Flavio de Carvalho, o belga James Ensor e o americano John Cage.
Este último serve de espinha dorsal à mostra, que começa em outubro em Porto Alegre. Suas performances e composições experimentais são um roteiro para "Grito e Escuta".
"A Bienal em geral tem um interesse por tudo o que é exploração sonora", resume a argentina Victoria Noorthoorn, curadora-geral da exposição junto do chileno Camilo Yáñez.
Tanto que até uma rádio, coordenada pela artista Lenora de Barros, está no projeto, veiculando obras e intervenções sonoras uma hora por dia. "É uma possibilidade de irradiar essa Bienal", diz Noorthoorn. "Ela vai estar no ar."
Não é a primeira vez que isso acontece. A última Trienal de Luanda, evento bem menos conhecido, programou intervenções em rádio e televisão. Questões sonoras, aliás, já estavam de volta com força total num revival do gênero no início desta década, com mostras emblemáticas em museus e galerias de Londres e Nova York.
Também se repete a estrutura da mostra. A exemplo da Bienal de Lyon e outras mostras, um time de dez artistas, no lugar de curadores, cuidou da seleção de nomes para a exposição. Entre eles, estão os brasileiros Artur Lescher, Laura Lima e Lenora de Barros, o colombiano Bernardo Ortiz e o mexicano Erick Beltrán.
É um time que reflete em parte a origem dos escolhidos. O Brasil é o país mais bem representado na lista, seguido de Argentina, Chile e Colômbia. "Sabemos que uma bienal com curadoria de artistas não é uma novidade", diz Noorthoorn. "Não temos nenhuma pretensão de originalidade."
Exposição crua
De fato, a pretensão é outra. Querem fazer o artista aparecer menos como autor e mais como agente cultural. "Não há nenhum artista homenageado, nenhuma individual", adianta Camilo Yáñez, artista e curador-geral. "São todos nomes que estão numa posição transversal, como John Cage."
"Ele marcou a queda do egocentrismo, negava a autoria em nome de uma arte social", diz Noorthoorn sobre o americano, que terá duas de suas performances refeitas na mostra. "Não é só o artista que grita, eles renunciam aqui ao capital técnico e simbólico, fazem uma exposição mais crua, sem ornamentos, retórica e acessórios."
Ajuda nessa crueza o fato de muitos dos quase 200 nomes na mostra serem estreantes em bienais, marcando um diálogo fresco com obras dos mestres.
"Queríamos uma bienal para dar valor e espaço a gente excepcional que não teve reconhecimento", admite Noorthoorn. "Se tivéssemos seguido ao máximo nossos instintos, teríamos só artistas estreantes."
Ainda em sintonia com a proposta central da Bienal do Mercosul, de exibir e contextualizar a produção latino-americana, a mostra tenta trazer à tona alguns nomes esquecidos, como o pioneiro chileno da videoarte, Juan Downey, e o compositor brasileiro Guilherme Vaz.
Artistas conhecidos em países vizinhos e pouco vistos no Brasil também têm vez. O artista e estilista argentino Sérgio De Loof, conhecido por seus desfiles-protesto, planeja um happening para a exposição.
Extrapolando o campo das artes para outras esferas, o coreógrafo brasileiro Luiz de Abreu também fará uma performance na Bienal, marca de uma vontade multidisciplinar que volta e meia contamina o campo das artes plásticas.
"Não é um interesse por sair das artes visuais, e sim postular que as artes plásticas trabalham com outras disciplinas", diz Noorthoorn. "Não sei se acreditamos tanto numa divisão entre essas disciplinas."
