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julho 9, 2009
A ascensão de um artista paulistano no Rio por Eduardo Fradkin, O Globo
Matéria de Eduardo Fradkin originalmente publicada no Segundo Caderno no jornal O Globo, em 8 de julho de 2009.
Depois de duas coletivas, Felipe Cohen estreia hoje uma individual na cidade e também cresce em São Paulo
Em 2008, quando abriu uma ampla galeria de arte na Gávea, Anita Schwartz inaugurou lá a série “Trajetórias em processo”, dedicada a promover exposições coletivas de cinco jovens artistas em ascensão, dos quais um é selecionado para uma individual no ano seguinte. O escolhido entre os cinco do ano passado foi Felipe Cohen, de 32 anos, que abre hoje sua exposição no segundo andar do prédio, enquanto o primeiro piso abriga uma nova edição de “Trajetórias”.
— Esse é um projeto que o curador Guilherme Bueno trouxe para a galeria. Queremos mostrar talentos novos, que tenham conceitos novos. Mas são artistas que já têm uma trajetória e uma linguagem estética consolidada. Não são iniciantes — diz a galerista.
De fato, o início de carreira de Cohen foi há dez anos, no Centro Cultural São Paulo, num programa que convida cinco artistas para uma coletiva feita de individuais simultâneas, em que cada um ganha uma sala. Este ano, ele participa do programa Rumos Itaú Cultural, que já passou por São Paulo, está em Curitiba e, depois, virá ao Rio.
Natural de São Paulo, o artista já expôs em outra coletiva no Rio, na galeria Box 4, mas agora ganha sua primeira individual na cidade.
— Acho que o mercado vem crescendo de um jeito profissionalizante. Você vê isso pela SP Arte, e pela participação das galerias brasileiras em feiras internacionais. Isso está ajudando a criar uma estrutura para o artista viver de seu trabalho. Era muito frequente o artista chegar aos 40 anos e ainda ter que trabalhar com outras coisas. Ainda é comum, mas hoje a chance de sobreviver do trabalho é maior pelo crescimento do mercado — opina ele, que já teve uma série de colagens formando paisagens, semelhante a uma que está em exposição na galeria Anita Schwartz, comprada pela Pinacoteca de São Paulo.
Embora tenha largado há quatro anos seu último emprego fixo, de pesquisador no banco de dados de uma associação de videoarte em São Paulo, Cohen ainda faz trabalhos como ilustrador freelancer:
— Já ilustrei livros infanto-juvenis, revistas, livros didáticos. Foi ilustrando um livro infanto-juvenil chamado “A infância de Zeus e outros mitos gregos”, há dois anos, que eu comecei a trabalhar com colagens. Então, o trabalho de ilustração acabou influenciando o outro, de arte.
As obras expostas no Rio custam entre R$5 mil e R$16 mil. Nada mau para quem hesitou em cursar Artes Plásticas.
— Fiquei em dúvida entre Arquitetura e Artes Plásticas, mas foi mais por medo de fazer Artes Plásticas do que por gosto pela Arquitetura. Fiz vestibular para ambas, mas entrei em Artes mesmo. Meus pais me apoiaram. Em São Paulo é muito comum o artista fazer arquitetura, pensando na segurança profissional, e, durante a faculdade, ver que dá para ser artista. Conheço muita gente que se formou em Arquitetura, mas foi trabalhar com Arte — conta.
A faculdade deu a Cohen a chance de ter contato com artistas experientes, que formavam o corpo docente, e embasamento teórico. Ele sabe o caminho que quer trilhar.
— A forma como a arte se fechou nela mesma é um problema. Às vezes, vai para um hermetismo estéril, deixa de ser uma resposta para o mundo e fica falando dela mesma. É a cobra comendo o próprio rabo. Não é à toa que muitas pessoas reclamam da arte contemporânea, de não conseguir entendê-la. O artista tem que tentar dar respostas à sua relação com o mundo — argumenta.
Instalação atualiza tema da anunciação com lâmpada
Admirador de Tunga, Waltércio Caldas, Giorgio Morandi e de arte pré-renascentista e renascentista, ele explica que uma obsessão em sua obra é atualizar questões simbólicas do passado em esculturas atuais. Um exemplo é a instalação “Anunciação”, que pode ser vista na Anita Schwartz.
— Ela remete às pinturas antigas com o tema da anunciação, mas o anjo é representado por uma lâmpada que desce do teto de um contêiner, e há uma taça de cristal que recebe a luz, como a Virgem. A luminosidade e o desenho da lâmpada, que se encaixa na taça, fazem com que se crie um objeto único. Parece que a lâmpada está escorrendo para o chão ou a taça está ascendendo — descreve Cohen, que compara as galerias a pequenos museus e especula que poderiam existir mais espaços dedicados à arte contemporânea, para trabalhos mais ousados e experimentais.
Artistas interpretam o espaço íntimo do devaneio e do aprisionamento por Mauro Ventura, O Globo
Matéria de Mauro Ventura originalmente publicada no Segundo Caderno no jornal O Globo, em 6 de julho de 2009.
Exposição na Laura Marsiaj mostra diferentes visões sobre o tema alcova
“Você vai ficar na saudade, minha senhora”, de Walmor Corrêa
“Timidus”, de José Rufino: a cama pela perspectiva do artista
Laura Marsiaj convidou o curador Marcelo Campos para ocupar o anexo de sua galeria, em Ipanema. Ele olhou o minúsculo espaço, de cerca de seis metros quadrados, e pensou:
— Isso aqui é uma alcova. O que fazer para potencializar um lugar tão pequeno?
A partir daí, surgiu o projeto de montar uma exposição referente ao tema. Laura gostou tanto que resolveu transferir a mostra do anexo para a galeria principal, de cerca de 50 metros quadrados.
— Uma galeria, com esse formato de um cubo branco, sem janelas, é uma espécie de alcova — diz Campos.
O resultado está em “Alcova”, exposição que será inaugurada amanhã, às 19h, com obras de 20 artistas, como Barrão, Ana Miguel, Lenora de Barros, James Kudo, Erika Verzutti, Leo Videla, Lucas Bambozzi, Márcia X, Tiago Carneiro da Cunha, Waléria Américo e Pedro Varela. Campos buscou inspiração nas casas de época brasileiras.
— E aí Machado de Assis é fundamental. Pesquisei sobre diversos ambientes em vários de seus romances. E a alcova é recorrente também na História da arte.
Originalmente, a alcova ficava em um compartimento superior da casa, disfarçado, com pé direito baixo. As mulheres podiam bordar ou se recolher, enquanto os homens recebiam visitas fora do convívio familiar. Campos trabalhou com dois aspectos de uma alcova.
— Ela tem um lado de aprisionamento, mas também tem um lado de sonho, de devaneio.
E, neste último sentido, Machado também se encaixou à perfeição.
— O quarto de um escritor é um lugar de invenção, é um espaço de criação.
As noções de liberdade e prisão se refletem nas obras. Walmor Corrêa botou um esqueleto de pássaro dentro de uma caixa de música. Daniel Murgel fez um desenho de uma gaiola dentro de uma casa. Regina Parra pintou um retrato com imagens de câmeras de segurança.
— Dá uma sensação de clausura para a pintura — diz Campos.
A maioria dos trabalhos já existia. É o caso das duas obras de Brígida Baltar. A primeira, “Canto brocado”, faz parte de uma série chamada “Passagem secreta”. É uma quina no chão, de cerca de um metro por um metro, irregular, que tem brocado com pó de tijolo da casa em que ela vivia.
— É um trabalho bem efêmero. Bota-se o pó na montagem, e, no fim da exposição, termina — detalha ela.
Pássaros na parede e máquina de escrever
Do chão para a parede. A outra obra, “Miniparede”, é feita com pequenos tijolos moldados a partir do mesmo pó.
— É uma parede para colocar numa parede. Essa sobreposição dá um estranhamento — diz Brígida.
Cuba na vitrine por Silas Martí, Folha S. Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada no Jornal Folha S. Paulo, em 9 de julho de 2009.
Apesar do futuro político incerto na ilha, mercado de arte esquenta e atrai novos colecionadores
Vista geral da décima edição da Bienal de Havana, encerrada no fim de abril; sinal dos tempos, pela primera vez em 20 anos artistas norte-americanos expuseram suas obras ao público cubano
Estão lotados e cada vez mais frequentes os voos entre Estados Unidos e Havana. Desde que Barack Obama liberou viagens de cubano-americanos à ilha e facilitou vistos para seus cidadãos, Cuba vive uma espécie de degelo pós-era Bush e tem no mercado de arte um sinal forte desses novos tempos.
Pela primeira vez em mais de 20 anos, a ilha recebeu uma exposição de artistas norte-americanos, parte da última Bienal de Havana, encerrada em abril. Atrás deles, vieram colecionadores estrangeiros que fizeram triplicar os preços das obras no mercado local e voltaram os olhos do circuito internacional para a ilha e seus artistas.
É uma guinada que jogou o país comunista, bastante isolado e com produção artística em grande parte ainda fraca e datada, no furacão do mercado global, ainda que por um instante.
Carlos Garaicoa, a dupla Los Carpinteros e Tania Bruguera, com projeção mundial tão grande quanto o valor de suas obras, são destaques de uma cena ainda tomada por arte decorativa, até ingênua, mas ajudaram a turbinar a venda de outros cubanos pelo mundo.
Seus colegas menos conhecidos, como Felipe Dulzaides e Abel Barroso, que estiveram na última Bienal de Havana, têm recebido convites para expor em Tóquio, Xangai e outros pontos distantes da ilha.
"A arte cubana já faz parte da linguagem global", diz Dulzaides, que hoje mora em San Francisco. "Muitos aqui nem têm internet, mas trabalhamos com galerias fora de Cuba", completa Barroso. "Não há colecionadores na ilha, então vendemos nossas obras para fora."
Mas é um boom ainda restrito ao mercado. No plano político, são tímidos os sinais de abertura mais ampla, como a decisão da Organização dos Estados Americanos de derrubar a restrição à entrada de Cuba no bloco, e promessas de Obama de normalizar relações com a ilha até o fim de seu mandato.
"Há um interesse renovado por arte cubana", disse à Folha Ben Rodríguez-Cubeñas, diretor do Cuban Artists Fund, em Nova York. "Temos agora uma possibilidade de restabelecer laços que se perderam."
Ele fala do governo Bush, que proibiu viagens e qualquer intercâmbio entre EUA e Cuba em 2004, rompendo com algumas exceções abertas no mandato do democrata Bill Clinton.
Na esteira desse isolamento, vem essa abertura ainda em fase embrionária. "Alguns artistas cubanos estão explodindo, os preços triplicaram", diz Sandra Levinson, do Center for Cuban Studies, em Nova York, que acompanha arte cubana há 40 anos. "A economia continua terrível, mas o mercado de arte continua de pé. É um sinal de novos tempos em Cuba."
Operações de limpeza
Ou quase. "É muito prematuro ainda para falar em grandes mudanças", diz Luis Miret, diretor da galeria La Habana, a mais importante de Cuba, à Folha. "Mas existe mesmo grande interesse por arte cubana."
"É uma produção que não se mede em preços", relativiza Sandra Ceballos, artista e dona da galeria Espacio Aglutinador, em Havana. "Essa produção contemporânea é fulminante, bate de frente e é cara porque é uma forma de arte visceral."
Tão fulminante e visceral que continua enfrentando censura. Se os tempos mudaram para o mercado, ainda é comum o cancelamento de exposições na ilha e perseguição a artistas. Ceballos teve mostras fechadas no ano passado, lembra outras três coletivas censuradas e diz ter sido alvo de uma circular do governo, com "acusações pessoais insustentadas".
"Não há liberdade de expressão em Cuba", diz ela. "Só operações de limpeza ante a opinião pública internacional."
"Arte serve para criar utopias possíveis"
Tania Bruguera brincou de roleta russa na abertura da Bienal de Veneza há um mês. Era um tiro em falso a cada página do manifesto que leu para poucos convidados, sem nada registrar. Também levou policiais a cavalo para dentro da Tate, em Londres. Em Havana, causou mais impacto quando deu um minuto ao microfone a cada pessoa que subisse ao pódio.
"Era uma ideia simples: dar ao público um minuto sem censura", lembra. "A arte funciona para criar utopias possíveis; essa deve ser a função do artista em qualquer lugar, mas em Cuba isso tem outro significado."
No caso, sua utopia possível era esse um minuto fugaz de liberdade de expressão. E esses minutos foram seguidos de um comunicado oficial da Bienal de Havana, que repudiou a forma como manifestantes se apropriaram da performance para veicular mensagens políticas. Era a resposta que ela precisava para concluir o trabalho.
Bruguera, que participa de um encontro em Porto Alegre, parte da Bienal do Mercosul, no fim do mês, é uma das artistas cubanas com maior projeção internacional. Suas performances falam quase sempre de um estado de exceção, criando um confronto entre uma normalidade opressora e alguns poucos e breves lampejos de paz.
"A censura faz parte da obra", diz Bruguera. "Se um artista faz bem o seu trabalho, perturba o poder econômico, a política."
Ela reconhece que na raiz de tudo está o isolamento da ilha onde nasceu, um cotidiano que para o resto do mundo aparece como anomalia. "Tento enxergar os absurdos, limites e propor outros mundos possíveis."
Sua obra vira espécie de termômetro do sentimento cubano. "Falo da passividade do povo, esse instinto de rebanho, de nunca se rebelar", afirma. "As pessoas em Cuba pensam uma coisa e dizem outra, por medo, por precaução. Misturam suas crenças e descrenças."
Tentando desfazer a confusão, Bruguera fundou em Havana a Cátedra de Conducta, escola de arte radical, que treinou artistas políticos e recebeu convidados estrangeiros pela primeira vez na ilha. Conta que isso só foi possível por causa de seu reconhecimento mundial.
"Se você consegue trazer prestígio para a ilha, acaba sendo mais valorizada pelo regime, mesmo que suas mensagens sejam contra eles", afirma. "Isso me deu liberdade para fazer coisas um pouco mais loucas, atrevidas. Se faço algo que não entendem, estou aprovada."
Mas não podiam não entender sua última performance na ilha. Uma pomba branca foi treinada para pousar no ombro de cada um que discursou ao microfone, repetindo uma célebre imagem de Fidel Castro e invertendo, num único gesto, as relações de poder em Cuba.
"O mais importante agora para Cuba é definir sua imagem", diz Bruguera. "A imagem de nós que existe há mais de 50 anos não mudou e acho que uma mudança só é possível se existir uma nova, que ainda precisamos cristalizar." (SM)
"A arte funciona para criar utopias possíveis; essa deve ser a função do artista em qualquer lugar, mas em Cuba isso tem outro significado. As pessoas em Cuba pensam uma coisa e dizem outra, por medo, por precaução"
"A censura faz parte da obra. Se um artista faz bem o seu trabalho, perturba o poder econômico, a política"
Tania Bruguera, artista plástica
Argentinos sabem fazer figuração por Camila Molina, O Estado S. Paulo
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 no jornal O Estado S. Paulo, em 7 de julho de 2009.
Mostra reúne a pouco conhecida produção contemporânea da Argentina
Tão perto e um pouco longe. O curador carioca Franklin Espath Pedroso garante que os argentinos conhecem mais de arte brasileira do que o contrário - apesar de vizinhos, temos contato apenas com alguns ?artistas pingados? da Argentina, entre eles, Jorge Macchi, Leandro Erlich e Tomás Saraceno, que volta e outra expõem aqui e são criadores de renome internacional. Por isso, a exposição Argentina Hoy (Argentina Hoje), que acaba de ser inaugurada no Centro Cultural Banco do Brasil, tem justamente como mote apresentar, primeiro em São Paulo e depois no Rio, um panorama da arte contemporânea dos criadores argentinos por meio das obras de 33 artistas. A mostra é de uma visada aberta e livre, dando espaço de respiro para cada trabalho.
Uma característica desponta ao ver a reunião das obras argentinas, a presença da figuração, vertente que não é surpreendente porque está em confluência com as criações de todo o mundo. É o dado figurativo que reúne os trabalhos da mostra, mais do que uma vontade de se criar um espaço para a procura de um diagnóstico de tendências da arte daquele país - apesar de a fotografia predominar. "A exposição tem duas vertentes, uma que trata do tema da cidade; a outra, das criações de mundos próprios, imaginários", diz Pedroso, que divide a curadoria da exposição com a argentina Adriana Rosenberg.
Jorge Macchi, que em sua poética inteligente extrai de signos simples do cotidiano os motivos de suas obras, já afirmou ao Estado que a entrada para as obras deve se dar pela porta visual - uma imagem figurativa - e não pela armadilha do "deciframento de uma ideia", esse talvez um mote pensado por seus conterrâneos. É curioso perceber na exposição que a opção pela figuração na arte contemporânea argentina vem junto da constância de uma poética que carrega algo político entremeado, sendo essa ação por vezes mais delicada e intimista e por vezes mais explícita - como no vídeo de Ana Gallardo, no qual a artista, desalojada de sua casa em plena crise econômica, carrega seus pertences numa bicicleta como uma catadora de papel, ou nas pinturas excessivas de animais mortos de Mariana López. "A atmosfera política controversa da Argentina não poderia deixar de entrar nos trabalhos dos artistas", afirma o curador. A figuração, portanto, é maneira de marcar alguma posição.
Dentro dela, mesmo quando a vertente é a do mundo imaginário, não se trata de escapismo, pelo contrário. No cofre do CCBB, por exemplo, Marina De Caro apresenta a instalação Entre Parêntesis, um espaço rosa, com desenhos feitos a pastel, que tem um tapete fofo de tecido no chão, só que com figuras humanas costuradas em si. Uma atmosfera delicada se faz dentro desse lugar imaginário, como se tudo estivesse em "um contínuo", "sem um limite", como diz a artista, completando que se trata de uma obra sobre o tema da imigração. "Quis criar um espaço que remetesse à ideia de se ter saído de um lugar para ir a outro, que vai chegar, sem que se deixe uma memória de lado", afirma ainda Marina. Erlich também faz uma menção política com sua instalação no primeiro piso, um jogo de espelhos e janelas que promove a ilusão de presença e ausência; e Silvia Rivas com videoinstalação trata de forma poética sobre a urgência.
Outra característica argentina que se percebe é uma recorrência de citações à história da arte. Nesse caso, chama a atenção, na entrada do CCBB, a pintura feita in loco por Leila Tschopp, O Contexto sou Eu, a criação de uma paisagem arquitetônica de jogo de perspectivas que remete à obra metafísica de Giorgio De Chirico. Ainda nessa vertente, as fotografias encenadas de RES y Constanza Piaggio e de Nicola Costantino.
Argentinos focalizam suas margens por Silas Martí, Folha S. Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha S. Paulo, em 7 de julho de 2009.
Artistas portenhos enfatizam aspectos periféricos em obras de exposição que tenta traçar um panorama atual do país
Mostra coletiva "Argentina Hoy" reúne 63 trabalhos de mais de 30 artistas no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo a partir de hoje
É feita de desvios a nova arte argentina. Na casa de espelhos de Leandro Erlich, quem olha pela janela vê outro reflexo no lugar do próprio rosto. No filme de Jorge Macchi, os créditos do final substituem o enredo. "Ponho o acento no marginal, já que o fim do filme é quando a trama já se resolveu, o público se levanta e vai embora", diz Macchi, sobre um vídeo em que mostra créditos de um filme fora de foco e uma orquestra que acompanha os letreiros. "O marginal aqui se transforma em protagonista." Juntos numa coletiva aberta hoje pelo Centro Cultural Banco do Brasil, artistas portenhos já conhecidos, como Macchi e Erlich, e nomes jovens de Buenos Aires sustentam essa noção de desvio intencional do assunto, uma arte mais sobre bordas e contornos do que sobre lugares e momentos privilegiados. Erlich constrói dentro do museu uma casa de paredes espelhadas e arma um jogo para distorcer os reflexos. "A arquitetura é o eixo da obra até certo ponto", afirma ele. "Mas o que me interessa é a construção despojada de suas funções."
Arquitetura pelo avesso
Seguem esse princípio as fotos de Ernesto Ballesteros, que cobre com pontos negros os focos de luz de Puerto Madero e outras zonas de Buenos Aires. É sua tentativa de desviar a atenção para ausências no espaço e desfazer ao mesmo tempo o espetáculo da especulação imobiliária. No lugar de paisagens luminosas, surge a arquitetura ultrajada, pelo avesso. E no lugar da mancha gráfica, Tomás Espina usa buracos para ilustrar uma cena de batalha. Ele desenha com pólvora sobre tela e faz explodir os traços, deixando impressos só os rastros de fogo para contar a história. Num exercício que lembra a arte povera, movimento italiano dos anos 70, e sua precariedade material, Espina esconde o assunto do quadro, preferindo uma exacerbação do imediatismo à nitidez, ou o barulho do disparo ao alvo da bala. Também busca força nos resíduos da ação as fotos de Marcos López. Num cenário kitsch -cor-de-rosa e decorado com pinturas de cenas rurais e marítimas- um casal de homens em pijamas de cetim posa de mãos dadas. Lá atrás, um pastor alemão vigia a cena. "Passo longe da ideia de instante decisivo das fotos de Henri Cartier-Bresson e monto toda a cena", diz López. "Minhas fotos se alimentam de um imaginário vital e selvagem." Importa menos o retratado e mais as circunstâncias. Nessa narrativa interrompida ou sugerida, não sobra espaço para o real, e a fotografia digital, suporte que desponta agora na cena argentina, surge como forte estratégia de construção.
Rio terá museu em sua zona portuária por Silas Martí, Folha S. Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha S. Paulo, em 7 de julho de 2009.
Futura Pinacoteca do Rio vai ocupar palácio em estilo eclético na praça Mauá
Nova instituição, parceria da prefeitura com Fundação Roberto Marinho, não terá acervo fixo e vai expor obras de coleções privadas do Rio
O antigo edifício D. João 6º, na praça Mauá, zona portuária do Rio, será convertido em museu. Até agora chamado de Pinacoteca do Rio, sairá de uma parceria entre a Fundação Roberto Marinho e a prefeitura.
Depois de uma disputa pela posse do prédio, que pertencia ao ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira e passou para a Docas, autoridade portuária do Rio, o palacete acaba de ser desapropriado pela prefeitura e deverá ser restaurado -dentro do projeto municipal de revitalização do cais do porto- para abrigar o futuro museu, com inauguração prevista para 2011.
Ainda não há detalhes das intervenções no espaço e nenhum arquiteto foi escalado para cuidar da reforma. Segundo o Instituto Pereira Passos, órgão de planejamento municipal do Rio, será uma adaptação de R$ 25 milhões -R$ 15 milhões para restaurar o prédio que ficou abandonado e R$ 10 milhões para instalar o museu.
Os recursos devem vir da prefeitura, que estuda parcerias com a iniciativa privada. Segundo o prefeito Eduardo Paes, o município também tem condições de arcar com o custo total das obras no palacete.
Será o primeiro museu carioca gerido por organização social, modelo recém-aprovado no Rio e já usado em museus de São Paulo, como a Pinacoteca do Estado. Nesse tipo de gestão, o museu recebe uma dotação orçamentária fixa do poder público, mas toma as próprias decisões internas, como contratações, gastos e outras medidas.
No caso, a Fundação Roberto Marinho fica encarregada de ocupar o museu e definir suas exposições. A princípio, a Pinacoteca do Rio não terá acervo fixo e fará mostras temporárias com obras emprestadas de coleções privadas do Rio.
"A gente chama de pinacoteca em rede, porque vai conectar colecionadores", diz Hugo Barreto, secretário-geral da fundação. Segundo a Folha apurou, devem integrar as mostras do espaço obras dos colecionadores João Sattamini, Gilberto Chateaubriand, Ronaldo Cezar Coelho, entre outros.
Barreto e o curador Paulo Herkenhoff, que presta consultoria ao novo museu, reconhecem que será um desafio organizar uma instituição sem acervo fixo, que pode implicar uma falta de identidade para o espaço, mas veem o museu mais como articulador do que depositário de uma coleção.
"Não estamos pedindo que ninguém esquarteje sua coleção para doar para a gente", diz Barreto. "A gente não pretende ser proprietário ou comodatário de nenhum acervo."
"Serão exposições sempre temporárias, porque a ideia é movimentar coleções", afirma Herkenhoff. "Uma das intenções desse projeto é fortalecer o colecionismo." Por esse mesmo motivo, o curador discorda do nome até agora dado ao museu, já que pinacoteca se refere a uma coleção de pinturas.
"O perfil, a vocação e a missão desse museu ainda estão por serem discutidos publicamente", conclui Herkenhoff.
julho 8, 2009
Arte e cidade (II) por Ricardo Tamm
Mais uma vez recebemos a notícia de que o governo do estado do Rio de Janeiro encomendou uma estátua-homenagem para ser instalada na cidade. Decisão do próprio governador, encomendada a um artista escolhido por critério desconhecido, com o auxílio, na determinação da pose da estátua, da secretária de Turismo, Esporte e Lazer.
O trecho acima bastaria para exemplificar como vem sendo desconsiderado e maltratado o espaço público da cidade na atual administração. Mas o caso não é isolado. O mesmo governo anunciou, há pouco mais de uma semana, estar negociando com um pintor-galerista de São Paulo uma ilustração tridimensional em homenagem à garota de Ipanema para o bairro. E a prefeitura anunciou a forma do novo prédio-marco da revitalização da zona portuária da cidade como uma vela náutica, à maneira de Dubai (segundo a notícia), em uma proposta sem outra justificativa (ou autoria) que não o gosto do prefeito.
Olhando um pouco para trás podemos constatar que as coisas não têm sido muito diferentes já há algum tempo. Dezenas de peças vêm sendo instaladas no espaço público da cidade há mais de uma década, fruto de encomenda ou de doação (patrocinada por leis de renúncia fiscal para a cultura), mediada pela Fundação Parques e Jardins do município – cuja direção declarou não estar apta a avaliar propostas de ocupação pública senão tecnicamente, isto é, se o local suporta o peso da peça e se não há prejuízo à circulação. Não há consideração estética envolvida[1].
Triste cenário para uma cidade considerada das mais belas do mundo por sua paisagem natural. É claro que a cidade cresce e demanda novas obras, podendo ganhar esteticamente com obras de arte apropriadamente dispostas em seus espaços públicos; e prestar homenagem a personagens importantes da nossa cultura, além de louvável, é fundamental para valorizar a sua obra, e a própria cultura, mas é preciso discutir a melhor forma de fazê-lo.
Em um país onde o acesso à literatura, às artes visuais, ou à música (fora os sucessos das rádios) é tão limitado, estátuas em bronze e tamanho natural de escritores e músicos não contribuem muito para a difusão da cultura. Respeitando a importância de obras e homenageados, não seria melhor editar, gravar, distribuir e promover essas obras nas escolas do município? Ou, então, fomentar a literatura com bibliotecas, e acervos, em nome de escritores e jornalistas; salas de música, com instrumentos, em nome de músicos; ateliês, com materiais, em nome de artistas? Valorizar, promover e difundir uma prática entre as novas gerações em nome de um artista, um profissional de destaque em sua área é prestar-lhe a mais relevante das homenagens; congelar-lhe a figura em bronze no meio da cidade torna apenas a sua imagem – não a sua obra – reconhecida. E, mesmo elegendo como forma de homenagem a instalação de obras de arte no espaço público, por que não promover então concorrências públicas, capazes de estimular escultores e artistas a criarem novas formas de expressão sobre o que, ou quem se pretende homenagear?
O Rio de Janeiro não merece que a responsabilidade estética sobre o seu espaço público esteja submetida apenas ao gosto do governador e do prefeito, secundados por secretarias e fundações de turismo, esporte, lazer, parques e jardins, sem que haja qualquer instância artística (pessoa, órgão, secretaria, ou fundação) envolvida. A situação das obras de arte instaladas na cidade deveria passar por uma avaliação, caso a caso – da obra e do espaço ocupado –, segundo critérios estéticos justificados, por profissionais competentes e responsáveis (sem interesse direto nos casos analisados).
O que poderia justificar a arbitrariedade com que tem sido tratada esta questão seria, ou a desconsideração da estética urbana como um problema de menor relevância, coisa que qualquer um poderia resolver, ou a convicção de que estariam eles mesmos, governantes, habilitados para decidir o que deve compor e marcar publicamente a cidade. Desconsideram assim a relevância destes atos, vitais para a imagem da cidade, e que deveriam ser correspondentemente tratados, mas que têm respondido antes ao gosto dos próprios governantes, do que aos interesses da população.
Os administradores desta cidade têm tratado o espaço público carioca como o seu quintal – de um palácio que habitam temporariamente. E talvez seja esta a razão (temporal) da sua necessidade de marcar esteticamente a cidade, uma tentativa de perenizar-se, querendo reconhecer-se nela como em um espelho público de sua vontade pessoal.
A vaidade político-administrativa do governante está na grande obra, com a sua marca e a sua cara. Tendo em vista a execução dessa obra é que ele vai cercar-se de especialistas nas diversas áreas da administração pública, como auxiliares nas respectivas ações e políticas setoriais. Exceto, como temos visto por aqui, quanto à estética da cidade. Aí o diletantismo dos ocupantes do cargo tem prevalecido, sem que qualquer justificativa tenha sido considerada necessária.
Em uma cidade onde a arte não é reconhecida como uma área cujo saber e conhecimento demandam experiência teórica e prática específica, e a estética da obra de arte pública está submetida ao gosto dos governantes locais, não se pode esperar muita coisa. E a manutenção deste estado de coisas é danosa para a cidade e os seus habitantes. Enquanto há uma infinidade de formas de arte pública, modernas e contemporâneas, presente em diversas cidades do mundo (esculturas e instalações em pedra, madeira, aço, borracha, sonoras, luminosas, táteis, interativas, etc.), permanecemos, por aqui, congelados na homenagem em bronze à semelhança do homenageado. Como obras de arte em outros meios e materiais não fazem parte da informação estética dos nossos administradores, continuamos nos moldes em escala 1:1. Até quando?
Ricardo Tamm
Artista plástico e professor
[1] Às vésperas das penúltimas eleições municipais, em 2004, a prefeitura convocou uma comissão para a avaliação dessas ocupações, que ela mesma vinha encomendando e aceitando, e que não resultou em nada, isto é, não houve qualquer conseqüência, exceto a reeleição.
Recordar é viver
Leia também as matérias, emeios e comentários sobre este tema publicados aqui no Como atiçar a brasa em 2004.
Cartas de Ricardo Tamm publicadas em 9 de maio de 2004.
Emeio enviado por Patricia Canetti para os jornais O Globo e Jornal do Brasil em 20 de maio de 2004.
A arte da discórdia
Pedido de remoção das esculturas de Marli Mazeredo do espaço urbano divide a opinião dos cariocas
Texto de Gilberto de Abreu, publicado originalmente no Caderno B do Jornal do Brasil no dia 4 de agosto de 2004.
Arte revogada
Comissão criada pela Secretaria das Culturas para preservação da paisagem urbana da cidade pede a remoção das 14 esculturas de Marli Mazeredo do espaço público carioca
Texto de Gilberto de Abreu, publicado originalmente no Caderno B do Jornal do Brasil no dia 4 de agosto de 2004.
julho 7, 2009
Natureza inventada por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Revista Istoé, em 10 de junho de 2009.
O fantástico, o exuberante e o monstruoso se combinam na obra de Janaina Tschäpe
Janaina Tschäpe é, como seu nome já aponta, meio brasileira, meio alemã. Nascida em Munique, viveu no Brasil até os 11 anos, parte deles no município de Bocaina de Minas, região montanhosa de matas e cachoeiras no sul do Estado de Minas Gerais. Talvez seja a partir desse contato inicial com a natureza brasileira que brotem as formas orgânicas, exuberantes e misteriosas que povoam suas fotografias, pinturas, desenhos e videoinstalações. Ou, ainda, do encontro entre os contos de fadas do Hemisfério Norte e as lendas afro-brasileiras é que venham a surgir suas criaturas maravilhosas e monstruosas, atualmente em duas exposições individuais, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
As praias, cachoeiras e matas fechadas são os cenários de Janaina. As quatro telas a óleo e as duas aquarelas em grande formato, em exibição na individual no Galpão Fortes Vilaça, parecem ser fruto de um longo processo de conversas e de convivência entre uma natureza real e um mundo interno e imaginário. As telas apresentam paletas que tendem para o verde, o violeta, o rosa e o azul, e foram pintadas ao longo dos últimos quatro meses, no ateliê que a artista mantém no Jardim Botânico, no Rio. No mesmo jardim, Janaina elaborou, em 2005, a série fotográfica "Melantrópicos", em que figuras femininas arrastam-se sobre pedras, troncos e musgos, carregando membros, tentáculos gigantes e outras próteses. Inspirada pela floresta tropical, criou também uma enciclopédia pessoal de plantas, na série "Botânica", em que fotografou pequenas esculturas feitas de massa de modelar.
Nas séries de vídeos e fotografias "After the Rain" (2003), "Melantrópicos" (2004), e "The Sea and the Mountain" (2004), em exposição na Galeria Laura Alvim, no Rio, os reinos vegetal, animal e mineral somam-se à natureza humana, criando situações em algum lugar entre a fábula e a ficção científica.
Circuitos no mundo
Brasileiros criam mundos em Veneza
53ª Bienal de Veneza - Fazer mu ndos/ Giardini e Arsenale, Veneza, Itália/ de 7/6 a 22/11
Há pelo menos 40 anos, desde que Cildo Meireles sequestrou a garrafa de Coca-Cola para fazer dela suporte de estratégia de guerrilha cultural, inscrevendo-lhe a frase "Yankees go home" e devolvendo-a à circulação, diversos artistas invadem espaços alheios a museus e galerias, esquivando- se às expectativas do mercado de arte. Mas muita coisa mudou e hoje são as instituições de arte que incentivam e abrem suas portas para os "formatos não convencionais". Da Documenta 12, em 2007, participou o chefe de cozinha catalão Ferran Adrià. Nesta edição da Bienal de Veneza, entre os convidados da 53ª Exposição Internacional - Fazer Mundos destaca-se o músico Arto Lindsay, apresentando a parada musical e performática "Multinatural (Blackout)". Nascido nos Estados Unidos, criado no Brasil, residente em Nova York durante décadas e hoje radicado no Rio de Janeiro, Lindsay está entre os cinco brasileiros convidados pelo curador sueco Daniel Birnbaum e pelo cocurador alemão Johan Volz para a principal mostra de Veneza.
Cildo Meireles participa de "Fazer Mundos" com uma instalação inédita intitulada "Pling Pling", que joga com a percepção visual das cores primárias em relação às secundárias. A instalação é formada por seis salas cromáticas que contêm seis monitores de tevê exibindo a cor oposta àquela que pinta o ambiente. A artista paulista Renata Lucas, especialista em intervenções urbanas e arquitetônicas, inseriu uma autoestrada sob o solo da alameda que liga os Giardini ao Arsenale. "É uma espécie de arqueologia ao contrário, onde o que se encontra nas camadas subjacentes de uma cidade antiga como Veneza é o futuro", descreve. Sara Ramo, nascida em Madri e residente entre Belo Horizonte e Paris, apresenta duas videoinstalações e um trabalho inédito montado em uma pequena casa do Giardino delle Vergini, "A Casa de Hansel e Gretel". Já a carioca Lygia Pape (1927-2004) é considerada uma das referências históricas da exposição, ao lado de Gordon Matta- Clark e Yoko Ono, e terá remontada sua instalação "Ttéia 1".
As vantagens de ser mulher por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Revista Istoé, em 3 de junho de 2009.
Centro Pompidou quer afirmar seu engajamento com as artistas do sexo feminino em exposição de 200 artistas de seu acervo
Elles@centrepompidou/ Centre Pompidou, Paris/ a partir de 27/5
Não deixa de ser interessante ver uma exposição dedicada ao sexo feminino sem que a data de inauguração coincida com o dia da mulher. Por outro lado, a grande bandeira levantada pelas mulheres que se dedicam à arte – sempre, ou pelo menos desde a década de 1960 - foi por um reconhecimento profissional como artistas, e não como “artistas mulheres”. Por esse motivo, a exposição Elles@centrepompidou, em Paris, levanta bastante poeira. Com aproximadamente 500 obras de 200 artistas da coleção do Museu Nacional de Arte Moderna, a exposição quer contar a história da arte dos séculos 20 e 21 a partir da produção feminina, demarcando uma reação a escolhas de outras coleções, como a do Louvre e a do Musée d’Orsay que, segundo a curadora Camille Morineau, “não apresentam eux que homens, ou quase”.
Ao instaurar a produção de contornos feministas como o primeiro capítulo dessa história, o Centro Pompidou pretende afirmar seu “engajamento”.”Por que est-il si mal vu de faire un geste pouvant être interpreté comme ‘feministe’, dans un pays aú la parité dês hommes e dês femmes, si elle esr proclamée comme un necessite, est loin d’être atteinte?”, defende-se a curadora. No percurso temático e cronológico da exposição, abrem a sessão de arte contemporânea artistas como Shirin Neshat, Gina Pane, Ghazel, Sanja Ivekovik, Sophie Demeueter (?), Sandra Vasquez de la Horra e o grupo Guerrilla Girls, com seu outdoor sobre as vantagens de ser uma artista mulher. Entre elas, está o fato de que “não importa que tipo de trabalho você faça, será sempre rotulada de feminina”.
A artista carioca Anna Bella Geiger, que tem duas instalações fotográficas na coleção do Mnam, está instalada na sessão dedicada aos “Trabalhos com a palavra”. No mesmo módulo, a artista francesa Dominique Gonzáles-Foerster, residente entre Paris e o Rio de Janeiro, apresenta a vídeo-instalação Short histories, composta por vídeos realizados em Taipei, no jardim francies da Gloria, no Rio de Janeiro, e na marquise do Parque Ibirapuera, em São Paulo. Para quebrar o coro feminista, são histórias dedicadas aos escritores Henrique Vila-Matas, Roberto Bolaño e W.G. Sebald.
Sub-dividida em cinco sessões, a mostra oferece bons motivos de reflexão, como as salas dedicadas aos “slogans do corpo”, com Cindy Sherman, Marina Abramovic, Louise Bourgeois, Joan Jonas, Ana Mendieta, entre outras heroínas da emancipação do corpo através da arte. Mas a curadoria também tem momentos extremamente problemáticos e formalistas, como quando aproxima, em uma mesma sala, trabalhos com bordados e costuras, evocando a imagem arquetípica da Penélope tecendo à espera de Ulisses. Ou mesmo quando na sessão “Retratos de família”, faz uma seleção de obras que representam o titulo de maneira completamente literal.
Como saldo, fica a dúvida se, como afirma o pôster do Guerilla Girls, as participante de elles@centrepompidou não estariam aqui se beneficiando da vantagem de “serem incluídas em versões revisadas da história da arte”.
Fábulas caseiras por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Revista Istoé, em 27 de maio de 2009.
Artistas habitam casas históricas e constroem exposições a partir da vivência de seus espaços e memórias
JOHN'S HOUSE - PATRÍCIA OSSES / Galeria Leme, SP/ até 20/6
INVISÍVEIS - JOÃO MODÉ / Fundação Eva Klabin, RJ/ de 24/5 a 25/6
DÉCOR - NINO CAIS / Galeria Virgílio, SP/ até 6/6
Para o dramaturgo John Osborne (1929-1994), o jardim e a natureza circundante de sua casa compunham a paisagem mais bela de toda a Inglaterra. O bosque de Shropshire e a casa do século 18 – que teve o escritor britânico como seu último morador e estava fechada há cinco anos – foram habitados pela artista chilena Patrícia Osses. A artista foi bolsista da Arvon Foundation, que oferece residências de criação literária a escritores. A partir de sua vivência do local e do estudo da obra do autor de Look back in anger (1956), marco do teatro moderno britânico, ela ocupou a casa abandonada construindo situações fictícias: fotografou seus espaços vazios através do reflexo de um espelho côncavo e passeou pelos cômodos e pelas trilhas dos bosques deixando no caminho um rastro de 50 metros de seda violeta. A vivência da casa gerou três ensaios fotográficos e um vídeo que hoje estão expostos na galeria Leme, em São Paulo.
O artista João Modé teve uma experiência similar à de Patrícia Osses, ao habitar a casa em que a colecionadora carioca Eva Klabin morou durante trinta anos, na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. Artista convidado do Projeto Respiração – que propõe a artistas contemporâneos a produção de obras ou intervenções a partir do contato com a coleção guardada na casa-museu de Eva Klabin –, Modé morou em um dos sótãos que estavam fora do circuito de visitação. “Nesse lugar, João Modé se permitiu conviver com a ambiência da casa para se deixar levar pelo seu imaginário e descobrir novas paisagens físicas e mentais. Trouxe de volta os sons, os discos que ela escutava; os aromas, seu perfume predileto (Joy, de Jean Patou) e sua flor predileta (antúrio). Experimentou o que é viver na penumbra, já que Eva Klabin trocava o dia pela noite”, conta o curador Márcio Doctors. Além disso, em sua intervenção Invisíveis, o artista destacou todos os objetos duplos encontrados na casa, evidenciando o espelhamento como um dos hábitos de Eva Klabin.
Já a exposição Décor, de Nino Cais, não resgata a memória de uma casa específica, mas trabalha com a idéia da casa como um fruto da imaginação. Ele divide a Galeria Virgílio, em São Paulo, em três ambientes: quarto, sala e jardim. Na sala, revestida de papel floral, estão expostas fotografias em que o artista se relaciona física e afetivamente com alguns objetos domésticos: flores, cabaças, cestos, esponjas. Em operações de transmutação, incorpora objetos de decoração. “A sala dos fundos, mais intimista, simula um quarto, escritório ou gabinete, onde ficam em exposição trabalhos em papel: desenhos e colagens mais delicados, alem de fotos que mostram o artista concentrado, equilibrando-se sobre objetos de vidro”, diz a curadora Thaís Rivitti. Nesse ambiente de vistas de interiores, a televisão é a janela para o mundo. E o jardim da casa imaginária de Nino Cais é a paisagem de um encarte de vendas imobiliárias.
Colaborou Fernanda Assef
Circuitos no mundo
A performance da bruxa
À contre-corps – oeuvre de dévoration/ 49 Nord 6 Est – Frac Lorraire, Metz, França/ até 20/9
Última parada antes da Bienal de Veneza, onde realizará uma obra inédita, o artista carioca Cildo Meireles esteve semana passada na cidade de Metz, leste da França, instalando sua obra La bruja (1979-1981), parte da exposição À contre-corps – oeuvre de dévoration. Mesmo que desde os anos 1960 tenha experimentado com os mais diversos materiais e estratégias, Cildo Meireles nunca foi reconhecido como um artista da performance, já que essa modalidade artística prevê o corpo como o foco da ação. Mas sua passagem por Metz altera sensivelmente essa condição. Independente de ser realizada diante de um público ou não, uma performance pode ser definida como uma obra artística em que combinam-se o gesto e a intenção de ocupação de um espaço (às vezes de forma improvisada). E isto é, precisamente, o que acontece na instalação da obra La bruja no espaço 49 Nord 6 Est - Frac Lorraine, em Metz.
Cildo Meireles não fez sua instalação em público, mas deixou os rastros de sua exploração do espaço tortuoso e labiríntico do edifício medieval onde está situado o 49 Nord 6 Est – Frac Lorraine. Pronunciando-se sobre o muro da fachada, invadindo tubulações, preenchendo o pátio interno, subindo as escadas da torre, perseguimos os 4 mil quilômetros de barbantes negros, antes que esse percurso termine inesperadamente em uma vassoira encostada à parede, ao fundo da grande sala de exposição. Esta montagem de La bruja pode ser interpretada como um acontecimento performático, já que dá-se de maneira imprevista, ocupando o prédio como um corpo vivo.
Segundo a curadora Béatrice Josse, a exposição foi construída em torno do trabalho de Cildo Meireles, que cerca-se de três obras de duas outras artistas brasileiras. Canibalismo e Baba antropofágica são registros fotográficos de performances realizadas por Lygia Clark, com a participação de estudantes da Sourbonne, em Paris, em 1973, e In-out antropofagia, é um vídeo de Anna Maria Maiolino, de 1973, que pertence à coleção do Fundo Regional de Arte Contemporânea (Frac). Alem de circundar Cildo, a mostra articula-se também em torno do Manifesto Antropofágico (1928), de Oswald de Andrade. Mas atrás dos barbantes da bruxa brasileira, escondem-se outras tradições locais: uma escolha do Frac Lorraine por privilegiar uma arte feminina ou feminista – e também por obras “imateriais” - e a presença sugerida de Joana d’Arc, heroína da região de Lorraine.
