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Como atiçar a brasa

 


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maio 14, 2009

Cidades pelo avesso por Mario Gioia, Folha S. Paulo

Matéria de Mario Gioia originalmente publicada na seção Ilustrada do jornal Folha S. Paulo, em 14 de maio de 2009.

Com retratos incomuns de grandes metrópoles, o paulista Mauro Restiffe é destaque da Photoespaña, importante mostra fotográfica internacional

"Mauro Restiffe não é um fotógrafo de arquitetura ou de paisagens." A avaliação do crítico de arte e curador Rodrigo Moura pode causar um estranhamento inicial a respeito da obra do artista paulista, conhecido por retratar cidades diversas como Istambul, Nova York, Brasília e São Paulo, mas vai ao encontro do que Restiffe pretende: inverter expectativas.

Moura assina a curadoria e o texto do catálogo da exposição "Mirante", uma das principais dentro do Photoespaña 2009, um dos mais importantes eventos fotográficos do mundo, que começa em junho em Madri (no dia 3) e outras três cidades.

Reunindo 40 imagens, é a primeira mostra de fôlego sobre a obra de Restiffe, 39, que teve importantes passagens em exposições de prestígio -a Bienal de São Paulo, em 2006, e a Bienal de Taipé, em Taiwan, no mesmo ano-, mas nunca havia ganhado uma individual de grande porte.

O artista vai levar para a Casa das Américas, em Madri, duas séries inéditas de fotografias. Uma retrata a multidão que tomou conta da arborizada e organizada Washington, durante a posse do novo presidente dos EUA, Barack Obama, em janeiro passado. A outra foi feita em Portugal no ano passado.
Junto dos registros inéditos, serão expostas séries sobre outras cidades percorridas pela lente da Leica do artista, já vistas por aqui em outras mostras.

"Embora tenha uma gama de assuntos bastante ampla, a sua obra voltou seu interesse nesta última década para a cidade. Trata-se de um tema bastante comum à história da fotografia e que o artista consegue renovar de maneira única e pessoal", avalia Moura, 34, curador do Instituto Inhotim (MG) e da última "Paralela", no ano passado, em São Paulo.

"Acho que a reunião dos trabalhos têm duas linhas. Uma delas é a reflexão sobre a própria fotografia, uma investigação formal", afirma Restiffe. "A outra é a captação das massas, das multidões, no que podemos chamar de arenas."

No entanto, Restiffe não segue a linha fotojornalista ou documental. A posse de Obama, por exemplo, tem diversas fotografias imperfeitas, com borrões produzidos pela entrada de luz quando fotografava. A multidão muitas vezes é observada de costas e não há retratos expressivos nem detalhes de personagens. E o próprio Obama não é visto.

"Assim como na série feita na posse de Lula ["Empossamento", em 2003], essas figuras mais emblemáticas não me interessam. O que enfoco é o anônimo e sua inserção nessas grandes manifestações", conta o artista. "Também não busco a perfeição técnica, incorporo o acidente. É um erro assumido."

Restiffe levará à Espanha imagens paulistanas que podem ser vistas na mostra "À Procura de um Olhar", em cartaz na Pinacoteca do Estado, em São Paulo (pça. da Luz, 2, tel. 0/xx/11/3324-1000).

É uma cidade de tom pouco turístico, vista por meio de imagens que trazem viadutos e praças em estado de abandono, figuras andando a ermo e um estado geral de degradação.

"O fato de eu morar aqui poderia modificar meu trabalho. Mas acho que as imagens de São Paulo dialogam com a desolação presente em outras séries. É o retrato de um projeto de modernidade que não deu certo", afirma ele.

Mais brasileiros
Além de Restiffe, o Photoespaña 2009 terá uma mostra individual da hispano-brasileira Sara Ramo (que também estará na Bienal de Veneza, no mês que vem). A artista Rosângela Rennó e o galerista Eduardo Brandão, da Vermelho, também são convidados do evento, cujo tema é o cotidiano.

"Mauro e Sara são dois artistas muito diferentes, mas com trabalhos de muita qualidade, que sigo há alguns anos. Mauro está mais vinculado ao campo específico da fotografia. Já Sara tem uma forma sensível e espontânea do fazer artístico", diz à Folha o curador do Photoespaña, Sergio Mah, 39.

Posted by Ana Maria Maia at 5:17 PM

Afinal, o que constitui o Panorama da Arte Brasileira? por Patricia Canetti

PauloMeira_OMarcoAmador_SessaoCursos.jpg
Paulo Meira, Da série O Marco Amador - Sessão Cursos, óleo sobre tela, 2008 - Primeira obra doada ao Canal Contemporâneo


Afinal, o que constitui o Panorama da Arte Brasileira?

PATRICIA CANETTI

A discussão no blog Como atiçar a brasa sobre o Panorama da Arte Brasileira vetado a artistas brasileiros rendeu uma segunda matéria de Fabio Cypriano na Folha de São Paulo em 4 de maio. A matéria, que resume a discussão a um 'ataque' ao conceito da curadoria de Adriano Pedrosa, apresenta algumas opiniões favoráveis e termina dizendo que "a polêmica está ajudando o curador a redefinir sua própria exposição".

Deixando esta discussão de lado, a nova matéria da Ilustrada levanta outra questão: as relações de nosso mercado de trabalho.

Uma discussão calorosa com 80 comentários, em sua maioria postada por artistas, levantando as mais diversas questões em relação à curadoria, que exclui a participação de artistas brasileiros do Panorama da Arte Brasileira, não foi suficiente para o curador ou algum representante da instituição entrar na discussão. Adriano se limita a comentar na nova matéria:

"Sabia que a proposta geraria polêmica, e o formato de blog propicia reações violentas. Como a curadoria é uma prática que exclui muito mais do que inclui, pois o conjunto incluso é sempre infinitamente menor do que o excluído, quanto mais reputada a mostra curada, maior o número de potencialmente frustrados ou irados em relação a ela".

Parece que o curador quis radicalizar a função de excluir e, desta vez, simplificou o trabalho e excluiu a todos... Mas o ponto que considero importante em sua fala é quando ele se refere ao Panorama como sendo uma mostra reputada. Mas, quem a tornou uma mostra reputada? A instituição que a criou, os curadores que trabalharam suas versões anteriores, os artistas que apresentaram suas obras mais recentes em cada uma das edições ou ainda as galerias dos artistas e suas ações comerciais paralelas? Este é um belo exemplo de um trabalho fruto de um sistema, aonde todas as funções importam para chegar a um resultado. Qualquer um destes agentes trabalhando de maneira insatisfatória é capaz de prejudicar o resultado final de um projeto; esta é a natureza dos sistemas.

Mas, se o nosso sistema dispõe de funções hierárquicas para funcionar, não deveríamos confundi-las com a importância de seus produtos para o sistema. Afinal, se os artistas brasileiros cruzarem os braços, instituições, galerias, críticos e curadores terão realmente que trabalhar com arte brasileira feita por estrangeiros (enquanto público e patrocinadores concordarem) ou, simplesmente, mudar de profissão.

Levando-se em conta que a exposição em questão não foi inventada agora, sendo ela fruto de uma genealogia pré-existente, e que os artistas brasileiros, que nela trabalharam ao longo de trinta edições do Panorama da Arte Brasileira (mesmo sem remuneração, como é da praxe da maioria das exposições neste país), ainda não cruzaram os braços, não seria minimamente desejável que esta discussão fosse acolhida pela instituição e pelo curador?

Este episódio só reforça a nossa incapacidade de pensar e agir coletivamente tanto em relação ao crescimento quanto à sustentabilidade (na direção do futuro e de novas gerações) de nosso mercado de trabalho. É mais fácil deixarmos a Bienal de São Paulo falir, museus perderem o rumo, não lutarmos por políticas públicas ou por representações fortes frente a governos e patrocinadores. Somos um segmento fragilizado e vulnerável neste sentido, por sermos mestres apenas em ações individuais e individualistas.

Termino o texto lembrando-me de uma terrível discussão que tive uma vez com duas curadoras. O motivo da discussão: elas não viam problema algum em participar de comissões de seleção e premiação de editais que não remuneram as participações de artistas e ainda cobram que eles sejam responsáveis pelos custos de produção. Na verdade, essas curadoras nem se quer se preocupavam em ler os regulamentos desses editais, porque diziam não ter nada a ver com isso... Será?

Patricia Canetti
Artista e criadora do Canal Contemporâneo

Posted by Patricia Canetti at 1:13 PM | Comentários (4)

maio 12, 2009

Fotógrafo Martin Parr faz workshop e palestra em SP

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 do jornal Estado S. Paulo, em 11 de maio de 2009.

Famoso por seu estilo irreverente, britânico está no Brasil para lançamento de festival de fotografia

Conhecido por suas imagens irreverentes e bem-humoradas do cotidiano, o fotógrafo britânico Martin Parr proclama sua verdade: "A realidade é muito engraçada." Valendo-se dessa premissa, Parr vai tirar algumas horas do dia de hoje para fotografar o que encontrar pela frente na Avenida Paulista, em São Paulo. Escolheu o rush do horário de almoço.

Parr é um dos nomes celebrados da fotografia contemporânea, vencedor de muitos prêmios e membro, desde 1994, da cultuada agência Magnum - criada há mais de 60 anos por Henri Cartier-Bresson, Robert Capa, David 'Chim' Seymour e George Rodger (há um brasileiro no time atual: Miguel Rio Branco). Mas esse britânico não é propriamente um fotojornalista. Como gosta de dizer, é uma "testemunha do mundo" ao captar - em átimos - os flagrantes do nosso tempo, travestindo-os de cenas irreais, ou seja, de ficção. Sim, todas as suas imagens são retiradas da realidade mesmo, e de lugares bem diversos. É um olhar esperto o olhar de Martin Parr.

Esta não é a primeira vez que ele, nascido em Epsom, em 1952, vem ao Brasil. "Já estive umas cinco, seis vez antes, a primeira delas, há uns 15 anos", conta. As fotos na Paulista fazem parte do workshop que realiza hoje e é fechado para 12 fotógrafos. Amanhã, a partir das 19h30, dará uma palestra gratuita no Museu da Imagem e do Som (MIS). Nos dois eventos, mas, principalmente, no encontro com o público amanhã, em que ele será entrevistado pelos jovens membros do coletivo fotográfico Garapa (Leo Caobelli, Rodrigo Marcondes e Paulo Fehlauer), Martin Parr falará de sua carreira e de sua maneira de tratar a fotografia. Para quem não puder ir ao MIS, a palestra terá transmissão simultânea pelo site www.garapa.org. Uma recomendação, do próprio Parr, é a de que não lhe perguntem o que ele sabe ou acha da fotografia brasileira. "Não posso responder, não conheço muito", diz Parr. "Essa pergunta é um sinal de insegurança. Ninguém pergunta o que se acha da fotografia americana, por exemplo", completa, em poucas palavras.

O fotógrafo britânico trabalha em várias vertentes ao mesmo tempo. Edita livros, faz filmes, trabalha para o ramo da publicidade, faz curadorias, etc - e também é um grande colecionador de livros de fotografia de todo o mundo. Essa característica ágil se reflete em suas fotos. Ele criou um estilo em que suas imagens, "à primeira vista, parecem exageradas ou grotescas". Isso pode se explicar pelo modo como ele utiliza a cor e também pela inusual escolha de perspectiva, como descreve o curador alemão Thomas Weski, completando que, por trás do humor, há também muita crítica aos valores da nossa época.

Unindo o útil ao agradável, o empresário Luiz Marinho aproveitou que Parr viria a São Paulo para participar do projeto Fotolivro Latino Americano e promoveu duas atividades em torno do britânico: o workshop de hoje, com vagas que foram vendidas, cada uma, por R$ 1,6 mil (entre os "alunos" está Bob Wolfenson), e a palestra de amanhã no MIS. Os dois eventos, como conta Marinho, marcam o lançamento do SP Photo Fest, novo festival de fotografia que ocorrerá de 17 a 20 de setembro no MIS.

"Desliguei-me do (festival) Paraty in Foco no fim do ano passado, mas, dirigindo-o por quatro anos, percebi que eventos desse porte acabam por funcionar apenas durante seus poucos dias de realização, o que é uma pena", afirma Marinho, agora diretor executivo do SP Photo Fest. Segundo ele, a Secretaria de Estado da Cultura apoia o novo festival (ainda nem inscrito nas leis de incentivo) não financeiramente, mas cedendo o espaço do MIS. Marinho adianta também próximas atividades, confirmadas, como parte do festival: uma oficina, dia 13 de junho, com o fotógrafo Pedro Martinelli, e workshop e palestra, em setembro, com o fotojornalista checo-americano Antonin Kratochvil, fundador da Agência VII.

Posted by Ana Maria Maia at 3:56 PM

Flores, corpos e luz, pelas lentes de Mapplethorpe por Camila Molina, Estado S. Paulo

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 do jornal Estado S. Paulo, em 11 de maio de 2009.

A composição é vital nas mais de 30 imagens criadas entre 1979 e 1989, que celebram a leveza e o purismo das formas

Corpos e flores são dois temas que o americano Robert Mapplethorpe (1946-1989) tomou como os motes máximos para explorar uma relação, por assim dizer, escultórica da luz na fotografia em preto e branco. Deixando de lado o viés polêmico de sua carreira - os retratos que ele fez de teor sexual e que em exposições em todo mundo já levaram a debates fervorosos e até a censura -, vê-se em suas fotografias uma rigidez constante quando a questão é a composição. "É a luz que investiga as superfícies", diz Alexandre Gabriel, diretor da Galeria Fortes Vilaça, onde será inaugurada nesta quinta-feira para convidados e na sexta para o público uma mostra com mais de 30 fotografias do celebrado Mapplethorpe, realizadas entre 1979 e 1989 e todas em torno dos corpos e das flores.

Esta é a segunda vez que a galeria paulistana expõe obras do fotógrafo graças à parceria firmada com a Fundação Robert Mapplethorpe, criada nos EUA por ele mesmo, em 1988, antes de morrer, vítima da aids. Ele imprimiu uma grande quantidade de um conjunto amplo de suas fotografias para que fossem comercializadas depois de sua morte e a renda destinada ao tratamento da aids - as tiragens das imagens são de 5, 10 e 15 exemplares. A primeira mostra na Galeria Fortes Vilaça ocorreu em 2005 e teve curadoria do artista brasileiro Vik Muniz, que escolheu do acervo da fundação 50 imagens feitas entre 1975 e 1989, privilegiando um caráter inusual da produção de Mapplethorpe, como fotografias de paisagens e de interiores de casas - mas todas elas de uma composição minimalista, de formas em destaque em detrimento do tema. Agora, nesta nova exposição, também a seleção feita pela Fortes Vilaça não traz nenhuma das obras da produção mais radical de Mapplethorpe - fica em evidência a leveza ou o purismo das formas, obsessão na carreira do americano que teve, na base de sua formação, a pintura e a escultura, desenvolvidas em cursos no Pratt Institute de Nova York.

Como conta Alexandre Gabriel, a inspiração para se fazer esta atual mostra em São Paulo foi a de coincidir com o tema da exposição Perfection in Form, que será inaugurada no dia 26 na Academia de Belas Artes de Florença, na Itália. "Lá estarão as fotografias de Mapplethorpe entre as esculturas de Michelangelo", diz Gabriel. E também as imagens que o fotógrafo realizou das obras do artista italiano na galeria onde está a famosa escultura do Davi. "É uma relação direta com a escultura", diz ainda o diretor da galeria.

Na Fortes Vilaça, as fotografias que têm como tema os corpos são maioria, mas, eles nunca aparecem inteiros - e, muitas vezes, nem aparecem rostos dos retratados. Das celebridades e personalidades do underground nova-iorquino que Mapplethorpe tanto registrou estão apenas um retrato da cantora e compositora Patti Smith (de costas, em meio a véus) e outro da fisiculturista Lisa Lyon - as duas foram amplamente clicadas pelo artista em sua vida.

As imagens, quando não de flores ou de detalhes de plantas, na maioria enfocam partes do corpo como mãos, pés e mamilos. Na montagem, elas estarão expostas entremeadas pelas de temas florais. "São aproximações fáceis entre as imagens, em diálogo lado a lado, como a da flor copo de leite, tema famoso na obra de Mapplethorpe, com a de um torso masculino", acrescenta Gabriel.

Serviço
Mapplethorpe. Galeria Fortes Vilaça. R. Frad. Coutinho, 1.500, 3097-0384. 10/19 h (sáb. até 17h; fecha 2.ª e dom.). Até 20/6. Abre 5ª, 19h

Posted by Ana Maria Maia at 3:46 PM

O modernismo segundo Peter Gay por Antonio Gonçalves Filho, Estado S. Paulo

Matéria de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicada no Caderno 2 do jornal Estado S. Paulo, em 10 de maio de 2009.

Autor reacende debate ao defender em seu novo livro que o 'fascínio da heresia', e não a ideologia, uniu os modernistas

O historiador judeu de origem alemã Peter Gay, hoje com 86 anos, tinha pouco mais de 10 quando escapou da Alemanha de Hitler, em 1933. Estabelecido nos Estados Unidos, dedicou sua vida a pesquisar a história que deixou para trás, produzindo estudos e biografias de personagens da cultura europeia, dos quais os mais célebres são um ensaio sobre o panorama artístico na República de Weimar e uma biografia de Freud. No entanto, seu mais recente livro, Modernismo (Companhia das Letras, tradução de Denise Bottman, 578 págs., R$ 64) dividiu os críticos, como atestam os textos publicados na página ao lado, do crítico e curador Teixeira Coelho e do historiador Francisco Alembert.

Acusado de eurocentrismo - por ter eleito apenas artistas, escritores, dramaturgos e músicos modernistas europeus, omitindo americanos e latinos - Gay defendeu-se antecipadamente das críticas que viria a receber escrevendo, no prefácio, que seu livro não é um estudo sobre o nascimento, crescimento e declínio do modernismo. Esta seria, segundo o historiador, tarefa impensável para um único volume - daí a ausência de grandes romancistas como Faulkner e Saul Bellow ou pintores como Willem De Kooning e Francis Bacon.

Numa história geral, teria de acomodar todo mundo. Em sua história particular, ele buscou apenas os traços comuns aos modernistas, dissociando-se da ideologia de seus contemplados, sejam eles o Nobel de Literatura Knut Hamsun, simpatizante do fascismo, ou o dramaturgo antifeminista August Strindberg, passando pelo ultracatólico poeta T.S. Eliot e outros pilares do modernismo associados a regimes totalitários (o futurista Marinetti, por exemplo). Gay defende que o liberalismo é o princípio fundamental do modernismo e faz de sua lista uma declaração de princípios, provando que a modernidade não é a pátria da democracia. Ao contrário. É o paraíso de autocratas como Picasso, bancados pelos burgueses sobre os quais destilou seu ódio.

Embora diga que não se arriscou a oferecer uma leitura psicanalítica do modernismo, o historiador, ao falar de Kafka, vai além de Freud e transfere para a arena da psicanálise a discussão sobre a obra do escritor. Seu diagnóstico: o autor de A Metamorfose era um edipiano desajustado, vítima do desamparo moderno provocado pela tirania do pai - celestial ou biológico. O fato de Kafka ser judeu e de tantos outros criadores judeus terem influenciado o modernismo poderia, então, conduzir a outras interpretações igualmente polêmicas? Gay é mais cauteloso nesse terreno minado, lembrando que não existe tal coisa chamada de "gosto judeu". Judeus ricos compravam tanto os acadêmicos dos salões como Picassos e resistiram às inovações de Schoenberg quase tanto como evitavam a revolucionária arquitetura da Bauhaus.

A rebelião modernista, ainda segundo Gay, tampouco foi esquerdista, embora tenha sido uma resposta ao mundo burguês. Regimes totalitários, defende, foram sempre hostis ao modernismo, do nazista - e a exposição Arte Degenerada, de 1937, é prova incontestável - ao comunista. Com relação ao último, ele dá um jeito de contornar o incontornável, omitindo o nome do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Gay discorda do crítico, também marxista, Georg Lukács, que decretou 1848 o ano da morte da ideologia burguesa. Lukács disse que a burguesia francesa não mais desempenharia um papel na progressista peça da modernidade. Gay diz o contrário: a primeira qualidade dos modernos é o que chama de "fascínio pela heresia". Artistas de origem burguesa provocam outros burgueses escandalizáveis e são por eles financiados. Não haveria, segundo ele, uma única ideologia política capaz de bancar ou explicar o modernismo.

Seja como for, Gay admite o ano da publicação do Manifesto Comunista - 1848 - como um marco, escalando o poeta francês Charles Baudelaire como o primeiro herói do modernismo. Alvo preferencial do ódio burguês, Baudelaire foi o herético encarregado de provocar a sociedade francesa, ao desprezar a poesia tradicional e expor suas taras sexuais em poemas profanos. O "subproduto degenerado" do modernismo, no entanto, teve ancestrais ilustres - o protomodernista Diderot, cita Gay, descartando a localização histórica do modernismo, que, segundo o mesmo, não acabou. Para provocar, ele diz que não sabe o que é pós-modernismo e conclui o livro chamando de "moderno" o "herético" arquiteto Frank Gehry. O que Bilbao pode fazer pelo modernismo? Nem Gay sabe. Diz que é historiador, não profeta - mas não hesita em culpar Duchamp por ter destruído a ideia de modernismo, ao afirmar que tudo pode ser arte, sonho que a arte pop, segundo ele, converteu em realidade.

Para Gay, o declínio do modernismo começou quando o público aceitou a provocação dos artistas pop - Warhol, em particular, por ter eleito tantos ícones do consumo como arte. Até então, a arte exigia uma sensibilidade mais "educada" (ou elitista), argumenta. Após Andy Warhol, vale tudo.

Posted by Ana Maria Maia at 3:35 PM

maio 11, 2009

Cartas-bomba por Paul Starr e Steven Johnson, Folha S. Paulo

Fragmentos de troca de cartas entre Paul Starr e Steven Johnson originalmente publicados no Caderno Mais! da Folha de São Paulo, em 10 de maio de 2009.

Em troca de mensagens, Steven Johnson defende a web como espaço de ampliação da cidadania, enquanto Paul Starr diz que mídia impressa é central para o combate à corrupção e para a sobrevivência da democracia

(...)

16 de abril de 2009

Caro Paul,

É verdade que sou otimista quanto às possibilidades de longo prazo do jornalismo, mas a última coisa que quero fazer é incentivar a "inação". O objetivo todo de meu argumento é sugerir um futuro otimista e inspirar as pessoas a construí-lo. Você quer ação para preservar um modelo de jornalismo de jornais que nos serviu bem durante um século. Eu acho que podemos construir algo melhor.

Você fala das forças de longo prazo que se alinharam contra os jornais. Elas são reais. Mas você passa por cima de muitas das forças compensatórias --políticas, econômicas e tecnológicas-- que beneficiam o jornalismo e também a cultura cívica que o cerca.

Hoje vemos novas e vastas eficiências na distribuição, graças à passagem da imprensa impressa à digital. Existem oportunidades inusitadas de participação na criação, curadoria e discussão das notícias. O acesso às informações governamentais se tornou mais fácil, graças em parte a iniciativas de transparência como as tomadas pela administração Obama.

Enquanto isso, novos sites --incluindo um que eu criei, Outside.in-- permitem aos cidadãos tratar de questões "hiperlocais" ao nível de quarteirões e bairros das cidades, coisas que os jornais de cidades jamais poderiam alcançar.

Tudo isso vem acompanhado da capacidade de agregar muitas vozes diferentes num único site, sem pagar pelos custos de criação desse conteúdo. E não se esqueça dos US$ 10 bilhões de publicidade local que virão on-line nos próximos cinco anos.

Mas não falemos das tendências de longo prazo. Falemos sobre o que está acontecendo agora mesmo em minha cidade natal, Brooklyn.

Você fala do declínio da cobertura jornalística do governo estadual em Nova Jersey. Nos últimos três anos, a questão cívica dominante em Brooklyn tem sido a polêmica em torno de um grande projeto de reurbanização, o Atlantic Yards.

No Outside.in, a página dedicada ao Atlantic Yards reúne notícias, reportagens, comentários e bate-papo. Nos últimos cinco dias saíram 30 artigos. A edição impressa do "New York Times" publicou exatamente uma matéria nos últimos 30 dias mencionando o assunto.

Quão mais rica será a cobertura de uma questão pública importante como o Atlantic Yards nos próximos cinco anos? Como você diz, é arriscado dar um palpite, então imaginemos um futuro baseado inteiramente em empreendimentos e sites já existentes.

Eis o que eu acho que existirá. Grandes bloggers, como o blog imobiliário do Brooklyn Brownstoner, vão apresentar notícias pela primeira vez, comentar acontecimentos e até ganhar dinheiro. Plataformas de dados como Everyblock vão informar as pessoas sobre novos empreendimentos imobiliários. Pessoas e sites com paixão por trazer fatos escusos à tona --como o corajoso blog Atlantic Yards Report-- vão comparecer a todas as audiências públicas para formular perguntas difíceis e vão postar na internet transcrições das audiências, com comentários adicionais. Amadores locais vão vasculhar documentos públicos em busca de detalhes reveladores, e pais presentes às audiências escreverão em blogs sobre o impacto sobre escolas específicas à sombra do projeto. E sites como o Outside.in vão circular as observações deles a leitores que vivem nessa zona escolar, enquanto novas organizações beneficentes como a Spot.us vão financiar artigos investigativos sobre o histórico passado das empresas envolvidas na construção.

Se forem espertos, jornais de Nova York como o "Times" e o "Post" vão aproveitar essa cobertura, compartilhá-la com seus leitores, usá-la para vender anúncios locais e às vezes colocar um de seus repórteres treinados para desenvolver artigos novos.

Estes últimos, por sua vez, acrescentarão valor enorme à cadeia de informação, e o ciclo inteiro recomeçará.

Sim, é verdade que no final desse processo haverá menos jornalistas oficiais de jornais cobrindo acontecimentos como o Atlantic Yards. Mas haverá um declínio correspondente no engajamento cívico público? Não acredito. Você fala sobre o velho sistema dos jornais aumentar o engajamento em parte porque as pessoas tropeçavam na primeira página a caminho das páginas de quadrinhos. Eu nem sequer aceito essa premissa. Desconfio que a web vai mostrar-se muito mais afortunada que os jornais impressos. Mas, mesmo que não o seja, qual sociedade lhe parece incluir mais participação cívica? Uma em que o noticiário é controlado por uma pequena minoria e onde as interações cívicas das pessoas acontecem como leitura feita a caminho da seção de esportes? Ou uma em que milhares de pessoas comuns participam ativamente na criação do próprio noticiário?

Steven


17 de abril de 2009

Prezado Steven,

Que tal olharmos mais de perto a seu negócio, o Outside.in, e ver se funciona como substituto do jornalismo profissional.

Vejo que, quando você lançou o Outside.in, em outubro de 2006, empregou o mesmo exemplo do projeto Atlantic Yards. Dois anos e meio já se passaram desde então, e tenho certeza de que você já deve ter outro. Mas qualquer pessoa que navegue por seu site verá que ele não faz reportagem investigativa. Pelo que pude apreender, ele não faz nenhum trabalho de reportagem próprio. Ele agrega o que aparece em outros lugares. Não parece haver qualquer critério de relevância ou importância. E, se o que aparece em outros lugares é lixo, o site ajuda a difundir esse lixo, porque, por sua própria natureza, um site de notícias automatizado não possui aquilo que tem todo bom editor: um detector de lixo.

Você se refere a um blog chamado Atlantic Yards Report como uma das fontes chaves das notícias sobre o Brooklyn publicadas no Outside.in.

Chequei essa informação com o editor do Report, Norman Oder. Eis o que ele disse em resposta à pergunta de se o Outside.in faz qualquer trabalho de reportagem ou exerce qualquer seleção editorial: "O Outside.in não 'cobre' o Atlantic Yards e, a meu ver, não exerce virtualmente nenhum impacto sobre a discussão local. Ele apenas agrega uma multidão de cobertura noticiosa e de blogs, pegando carona especialmente no meu blog e no portal NoLandGrab.org".

É claro que você não paga Oder ou qualquer outra pessoa pelo uso de seu trabalho. Isso pode ser um bom modelo econômico. Mas, se é um modelo para resolver os problemas do jornalismo, isso é outra história.

Vamos também olhar mais de perto o discurso que você vem usando para colocar-se como corajoso defensor da inovação. Você diz que eu "quero agir para preservar um modelo de jornalismo impresso".

Mas, como deixei claro num artigo recente, "Adeus à Era dos Jornais" [publicado em 4/3 na "New Republic"], precisamos buscar novas formas de jornalismo adaptadas às exigências de um ambiente digital, aproveitando plenamente as vantagens deste. O problema é que o tipo de inovação que você está promovendo não responde com eficácia ao problema triplo que mencionei: financiar o jornalismo de serviço público, engajar o público e gerar responsabilidade política.

Sites como o seu, que tiram notícias, comentários --e lucros-- da web dependem inteiramente de que outros paguem pelo trabalho original de reportagem. Alguns blogueiros podem dar furos jornalísticos ocasionais, mas fazer de conta que eles possuem as capacidades de um grande jornal metropolitano é enganoso.

Um site que tira notícias de outros lugares pode ampliar o público do material que coleta, mas, se existe algum efeito de engajar o público, isso acontece porque outros estão fazendo o trabalho. Engajar o público requer que se identifiquem os acontecimentos e apontem seu sentido, e não apenas que se reproduzam informações (e desinformações) isoladas.

Finalmente, criar responsabilidade política efetiva requer um poder compensatório da imprensa que um site que tira notícias de outras fontes não terá. Quando falei de jornais reduzindo sua produção e da incapacidade de o jornalismo on-line preencher essa brecha, eu estava me referindo à cobertura do governo estadual em Nova Jersey. Isso é verdade, e se aplica também à cobertura dos governos de outros Estados.

Nada do que você disse propõe soluções para essa diminuição da cobertura jornalística e suas implicações para a responsabilidade política, e seu site com certeza não é uma solução --você não pode agregar artigos que não estão sendo escritos.

Para resolver esse problema serão necessários novos investimentos em jornalismo por parte de organizações sem fins lucrativos, novos modelos econômicos que financiem o jornalismo e novas políticas públicas que permitam a organizações noticiosas captar uma parte maior da receita do bem público que produzem.

E, já que estamos falando em receita, que tal pagar a Norman Oder e outros pelo trabalho que você vem divulgando como se fosse a contribuição de seu próprio site ao debate público?

Paul

(...)

Posted by Ana Maria Maia at 7:44 PM

Como mudar de fato o financiamento à cultura por Sharon Hess, Folha S. Paulo

Matéria de Sharon Hess* originalmente publicada na seção Tendências/Debates do jornal Folha S. Paulo, em 4 de maio de 2009.

Com mudanças nas leis de incentivo, alguns de fato vão perder, mas a cultura e os princípios republicanos serão fortalecidos

Em recente manifesto, profissionais de teatro de São Paulo exigiram do Ministério da Cultura o fim da renúncia fiscal e a implantação de um fundo de financiamento direto com recursos orçamentários, regras democráticas e regido por política cultural.

Os manifestantes vivenciam, desde 2002, a Lei de Fomento ao Teatro, na cidade de São Paulo, que, a exemplo do Fumproarte (Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre), na cultura, e da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), na ciência e tecnologia, comprova ser possível o financiamento público direto no Brasil como alternativa às leis de incentivo fiscal.

Predominantes no país, as leis de incentivo contrariam princípios republicanos ao transferir para empresas a tarefa de definir, com base em critérios privados, individuais e não necessariamente qualificados, quais projetos culturais receberão recursos públicos. O que é saudável e desejável quando o dinheiro é de fato das empresas configura-se aqui como anomalia. O Brasil carece de um modelo de financiamento à cultura de alcance público. Um modelo efetivo de financiamento direto.

O projeto de lei do Ministério da Cultura, em consulta pública, não soluciona as incongruências do modelo atual ao manter os incentivos fiscais e não abordar a mais irracional das leis de incentivo, a Lei do Audiovisual, que remunera empresas pela alocação de recursos públicos.

Sem tocar nas questões de base, a nova lei, se implementada, será mais do mesmo, salvo um aspecto: o fortalecimento proposto do Fundo Nacional de Cultura (FNC), de financiamento direto, que opera desde 1991 com recursos ínfimos e sem regras claras. A efetividade desse mecanismo, porém, depende de uma política cultural e de recursos expressivos e contínuos.

A formulação da política é primordial para reger a destinação dos recursos do FNC, orientando a definição de critérios claros e transparentes para a seleção dos beneficiados e otimizando a alocação dos recursos para atender ao interesse público, afastando também o temido dirigismo cultural.

A política é também necessária para a obtenção de recursos para o fundo. O conflito distributivo do Orçamento exige racionalidade maior que a fundamentação na sugestão da Unesco de 1% para a cultura. Exige responder: recursos para que e para quem?

A resposta virá de uma estratégia para a cultura. A transferência da incumbência sobre os recursos públicos às empresas tem isentado o ministério dessa resposta há 18 anos. É fato que a atual gestão avançou com o Plano Nacional de Cultura e definição de prioridades, mas, para o conflito distributivo, além de priorizar objetivos de acesso ou diversidade, é preciso planejar como estes serão atingidos, com quais ações, critérios, prazos, retornos e indicadores. Disso ainda não há sinal.

Ainda para a obtenção de recursos para o FNC, o ministério deve reconhecer que o atual R$ 1,3 bilhão abatido do Importo de Renda de empresas que se beneficiam das leis Rouanet e do audiovisual faz, sim, parte da conta da cultura e hoje provém de apenas 5% das 400 mil empresas que podem usar o incentivo. Se mais empresas passarem a adotá-lo, a renúncia poderá atingir muito além do atual valor.

Sob a ótica do conflito distributivo, difícil imaginar que o Tesouro, nessas condições, libere novos e expressivos recursos para o FNC.

Se o ministério estiver convencido de que o financiamento direto é o mais adequado, deve propor a transferência gradual ao FNC dos recursos incentivados que hoje não entram nos cofres públicos, definindo tetos anuais decrescentes para a renúncia fiscal. Garantirá assim o controle sobre o montante de recursos públicos para a cultura e a transição entre os modelos com a acomodação dos atuais beneficiados.

É certo que, mesmo de forma gradual, os financiados pelos incentivos fiscais serão contrários à mudança, como já vêm demonstrando desde a publicação do projeto de lei.

Cabe ao próprio meio cultural refletir e defender o investimento público efetivo, como fizeram os profissionais de teatro. Cabe também aos gestores públicos enfrentar posições divergentes em nome do interesse público.

Novamente, uma estratégia para a cultura ajudaria o ministério a demonstrar que alguns de fato vão perder, porque não estão alinhados à política estabelecida, mas que a cultura e os princípios republicanos, certamente, serão fortalecidos.

*Sharon Hess, 34, bacharel em administração de empresas, é diretora da Articultura. Fez mestrado em gestão e políticas culturais na City University de Londres (Inglaterra), com tese sobre modelos de financiamento à cultura para o Brasil.

Posted by Ana Maria Maia at 4:46 PM