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maio 20, 2009
Bourriaud analisa artes plásticas sem temor nem preconceito por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Bourriaud analisa artes plásticas sem temor nem preconceito
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada no Jornal Folha de S. Paulo, em 16 de maio de 2009.
Crítica/"Estética Relacional" e "Pós-Produção"
Obras fundamentais sobre a produção contemporânea, no entanto, chegam atrasadas ao país
Finalmente, dois livros fundamentais sobre a produção contemporânea em artes plásticas são publicados no Brasil: "Estética Relacional", de 1998, e "Pós-Produção", de 2004, ambos do crítico e curador francês Nicolas Bourriaud.
O primeiro, já um clássico, é dos poucos livros que olha a produção dos anos 90 sem preconceito, por alguém que acompanhou de perto toda uma geração, especialmente como curador, e conseguiu traçar linhas comuns. No geral, livros com tal ambição estão mais ocupados em detratar a arte contemporânea em vez de compreendê-la.
Em 1998, Bourriaud partiu de um grupo de artistas, hoje quase todos estrelas de grandes mostras ou bienais, como Dominique Gonzalez-Foerster, Pierre Huyghe, Rirkrit Tiravanija e Maurizio Cattelan, e percebeu que, em todos, a ideia de arte como um campo de trocas é comum. Com isso, o crítico francês chegou à definição da estética relacional como "uma arte que toma como horizonte teórico a esfera das relações humanas e seu contexto social mais do que a afirmação de um espaço simbólico autônomo e privado".
Tal conceituação amparou-se ainda na produção de artistas que se tornaram referência nos anos 90, como o cubano Felix Gonzalez-Torres, e os americanos Gordon Matta-Clark e Dan Graham, entre outros.
Não à toa Bourriaud foi um dos conferencistas da 27ª Bienal de São Paulo, "Como Viver Junto", de 2006, que exibiu vários dos artistas abordados em "Estética Relacional". Centrada nas ideias de Hélio Oiticica, contudo, a própria Bienal tornou clara uma das deficiências centrais da produção de Bourriaud -seu total desconhecimento da obra de Oiticica, um precursor da arte como estado de encontro, um dos pilares da estética relacional.
Já o livro "Pós-Produção", mais recente, continua o raciocínio de "Estética Relacional" sob nova ótica. Enquanto no primeiro volume o foco está no aspecto de convivência e interação da arte contemporânea, o segundo trata das formas de saber que constituem essa produção, especialmente aquelas vinculadas à estrutura em rede da internet, que geram um infinito campo de pesquisa para os artistas.
Reorganizar elementos
Assim, as práticas contemporâneas não estariam mais preocupadas com a ideia de original, singular, e sim em como reorganizar elementos já existentes, dando a eles novos sentidos, o que, obviamente, tem uma relação forte com os "ready-mades" de Marcel Duchamp, cuja "virtude primordial", segundo o autor, é o estabelecimento de "uma equivalência entre escolher e fabricar, entre consumir e produzir".
Esse procedimento pós-produtivo, então, seria a marca fundamental do processo de produção contemporâneo. Essas ideias de Bourriaud, contudo, já fazem parte da recente historiografia da arte contemporânea e influenciaram a organização de várias mostras pelo mundo. Aqui elas chegam um tanto atrasadas.
Tanto que, há duas semanas, o próprio Bourriaud encerrou sua curadoria na Trienal da Tate, denominada "Altermodern", criando aí uma nova forma de pensar a produção contemporânea.
Não há dúvida de que Bourriaud é dos poucos que não têm medo de pensar a arte hoje. A questão é que ele transforma sua reflexão na mesma velocidade das estações de moda o que, afinal, é mesmo um sintoma desses tempos.
ESTÉTICA RELACIONAL e PÓS-PRODUÇÃO
Autor: Nicolas Bourriaud
Tradução: Denise Bottmann
Editora: Martins
Quanto: R$ 25,50 ("Estética Relacional", 152 págs.) e R$ 19,80 ("Pós-Produção", 112 págs.)
Avaliação: ótimo (ambos)
Mesmo com crise, SP Arte chega maior à 5ª edição por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Mesmo com crise, SP Arte chega maior à 5ª edição
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada no Jornal Folha de S. Paulo, em 13 de maio de 2009.
Feira paulistana aberta hoje no pavilhão da Bienal terá a participação de 80 galerias, entre brasileiras e estrangeiras
"Nós surgimos numa fase de crescimento do mercado e nadamos de braçada, mas a situação hoje não é difícil", diz diretora Fernanda Feitosa
Acompanhando o surto na ascensão dos preços na arte contemporânea pré-colapso financeiro, a feira SP Arte, que é inaugurada hoje à noite para convidados, dobrou de tamanho em seus cinco anos de existência: de 40 galerias chegou agora a 80.
E a crise? "Nós surgimos numa fase de crescimento do mercado e nadamos de braçada, mas a situação hoje não é difícil, pois a crise está chegando aqui menos acelerada do que na Europa e o cenário que temos hoje é o que estávamos acostumados, antes é que era uma exceção", diz Fernanda Feitosa, 42, diretora geral do evento.
No entanto, assim como no cenário internacional, Feitosa acredita que existe uma nova postura no circuito das artes: "Quando há excesso de dinheiro, as pessoas são menos seletivas, mas agora as compras são mais conscientes, a qualidade irá ter mais importância e as galerias sabem disso."
Como exemplo, a diretora aponta para o estande da galeria mineira Celma Albuquerque. "Olha lá, em vez de encher o espaço com pequenos trabalhos, eles apresentam apenas uma instalação do José Bento, o que é uma aposta bacana", diz Feitosa. A instalação é composta pela série "Viagem de Balão", com nove fotografias, o vídeo "Verdades e Mentiras" e a escultura "Ócio".
Outro destaque da feira é um "Bicho", de Lygia Clark, realizado em 1984 e que, segundo Luiz de Paula Séve, da Galeria de Arte Ipanema, que comercializa a obra, é o maior já feito pela artista e tem seu preço em torno de US$ 1 milhão. Nesse ano, contudo, com um espaço para jovens galerias, como Polinésia, Emma Thomas e Mezanino, há maior variedade de preços.
Assim como no ano passado, esta edição da SP Arte também irá patrocinar a compra de algumas peças na feira para instituições brasileiras.
O Iguatemi dará R$ 30 mil para a Pinacoteca do Estado e para o Museu de Arte Moderna do Rio, na contrapartida que cada uma coloque mais R$ 10 mil para aquisição, enquanto a própria feira irá doar uma peça para o MAM paulista.
Já o Banco do Espírito Santo também doará um trabalho para a Pinacoteca. As aquisições devem ser anunciadas hoje.
Já o programa com debates, que sempre ocorre paralelamente ao evento, acontece, desta vez, na quinta e na sexta, no auditório do MAM, e terá a presença, entre outros, da curadora do Centro Georges Pompidou, Emma Lavigne.
Assunto comentado em burburinho na feira é a candidatura de Heitor Martins, casado com Feitosa, à presidência da Fundação Bienal de São Paulo. "Isso é um assunto dele, é ele quem vai decidir o que fazer, nós temos muito independência um do outro", diz a diretora, que já tem agendada a feira no espaço da Bienal até 2015.
maio 19, 2009
Modernismo precário, por Marcelo Coelho, Folha S. Paulo
Matéria de Marcelo Coelho originalmente publicada no Caderno Mais do Jornal Folha S. Paulo, em 10 de maio de 2009.
Banal e mal pensada, obra do historiador Peter Gay decepciona ao tratar do movimento que influenciou decisivamente a cultura ocidental no século 20
Conhecido por sua biografia de Freud ["Freud - Uma Vida para o Nosso Tempo", Companhia das Letras], e seus grandes painéis sobre o Iluminismo e sobre a "experiência burguesa" no século 19, o historiador Peter Gay dedica as mais de quinhentas páginas deste livro (com mais de 80 notas, bibliografia e índice remissivo) ao modernismo -ou, como diz o subtítulo, ao "fascínio da heresia, de Baudelaire a Beckett".
O resultado é dos mais decepcionantes. Trata-se de um livro mal pensado em sua arquitetura, frágil na conceituação, com vários erros de acabamento e incolor, quando não banal, na sua escrita. O maior erro de Peter Gay é tratar cada arte -pintura, cinema, música- em capítulos separados. Poucas coisas são mais características da arte moderna do que a criação de movimentos estéticos (o surrealismo, o expressionismo) nos quais pintores, músicos e poetas compartilhavam de um projeto comum.
A estrutura escolhida pelo autor termina levando a um ziguezague cronológico que, abrangendo um período de 150 anos, não só se torna trabalhoso para o leitor, como também leva a algumas repetições na exposição.
Pior: tratando-se de um livro claramente introdutório, destinado, por exemplo, a quem nunca ouviu falar da palavra "móbile" ou desconhece o enredo de "Luzes da Cidade" [1931], de Chaplin, a falta de uma explicação coerente do que significaram os diversos "ismos" da arte moderna haverá de ser sentida pelo leitor.
É que, no fundo, a preocupação de Peter Gay não incide sobre os aspectos da linguagem, do programa estético, das inovações formais propostas pelos diversos artistas e correntes do século 20.
Pela bibliografia comentada que consta ao final do livro, vê-se que Peter Gay é, antes de tudo, um leitor de estudos biográficos, aparentando ignorar a imensa quantidade de textos teóricos já escritos sobre a arte moderna e mesmo algumas introduções didáticas ao tema que superam de longe o livro que ele acabou escrevendo.
Tornam-se quase vergonhosos, assim, os trechos que Peter Gay dedica ao "modernismo" de Orson Welles. O autor oferece um convencional resumo de "Cidadão Kane" [1941], sem dar atenção às ousadias de linguagem do filme.
Inscreve, ademais, os filmes de Chaplin na rubrica "modernismo". Mas este é um caso evidente em que o cinema foi antes fonte de inspiração para a vanguarda do que seu autêntico representante.
Se quisesse dar uma ideia mais precisa do modernismo no cinema, Gay poderia ter citado, por exemplo, "Um Cão Andaluz" [1928] de [Luis] Buñuel, ou "Um Homem com uma Câmera" [1929], de Dziga Vertov.
Naturalmente, apontar omissões em um livro panorâmico desse tipo pode parecer covardia.
Mas é difícil não reagir com espanto a um estudo sobre modernismo que mal toca em nomes como Apollinaire e Maiakóvski, na poesia, Pirandello e Brecht, no teatro, e Isadora Duncan, na dança, enquanto discorre longamente (privilegiando sempre a biografia) sobre Knut Hamsun e Gabriel García Márquez.
"Modernismo" é falho, ademais, no breve capítulo encarregado de contextualizar historicamente a arte moderna. Concentra-se nos fenômenos mais evidentes (a urbanização, o transporte ferroviário, a Primeira Guerra), sem retratar as revoluções científicas e filosóficas da época. Einstein e Bergson, Chklovski e Spengler, Mach e Husserl estão fora de seu ângulo de visão.
Freud, com certeza, é invocado. Pobremente: o autor identifica sinais de complexo de Édipo em Kafka e Strindberg.
Tem-se uma impressão de ainda maior amadorismo quando Peter Gay se refere às influências recebidas pelo "modernista" (?) Jean-Paul Sartre em sua filosofia. Resumiam-se, segundo o autor, "aos velhos escritos do teólogo dinamarquês Soren Kierkegaard".
Nada de Husserl e Heidegger, portanto, nesse autor que, depois de 1941, teria (erro de Peter Gay) se engajado na Resistência.
Pequenos erros desse tipo aparecem com irritante frequência. Confunde-se dodecafonismo com serialismo. O compositor russo Scriabin teria inventado "novas tonalidades". A famosa estreia da "Sagração da Primavera", de Stravinski, foi em 1913, e não em 1911, como assevera a pág. 25.
Mesmo as ilustrações do livro representam desserviço ao leitor. Uma foto do Museu Guggenheim de Bilbao traz junto, ostensivo na fachada, um filhote de cachorro gigantesco, obra do escultor Jeff Koons, que, na ausência de qualquer esclarecimento na legenda, pode ser confundida com a arquitetura do edifício.
A banalidade das legendas é, aliás, um capítulo à parte. Sob a reprodução de um quadro de Gustave Caillebotte, lemos: "Este óleo enorme é provavelmente sua tela mais famosa".
Uma foto de Samuel Beckett nos informa que sua obra, "décadas depois, permanece altamente controvertida".
Mais banalidades? Disso o livro está repleto. "Em suma, o que os teatrólogos do absurdo tinham em comum era o desafio de todas as convenções consagradas que o teatro usou irrestritamente ao longo dos séculos". Como se [o escritor francês] Victor Hugo não tivesse desafiado todas elas, antigas também, em 1830...
Sobre Marcel Duchamp, lemos que "uma coisa é certa: Duchamp estava absolutamente distante das convenções estéticas vigentes e adorava a originalidade".
O tom se torna piegas ao tratar de Franz Kafka: "Por mais que gostasse de escrever, porém, a escrita não tinha força suficiente para salvá-lo de si mesmo".
O que ler para entender o movimento
Quem quiser salvar-se de Peter Gay pode tentar muitos outros livros sobre o período. Modris Eksteins ("A Sagração da Primavera") e Roger Shattuck ("The Banquet Years") oferecem um retrato histórico vivo e integrado dos anos iniciais do modernismo. Perry Anderson, em "As Origens da Pós-Modernidade" [Jorge Zahar], traça hipóteses sociológicas sobre a arte moderna que Peter Gay não leva em conta e refina um conceito crítico que está ausente de seu livro recém-lançado.
Sobre a história da música no século 20, outro lançamento da editora, "O Resto é Ruído" [de Alex Rox], é um guia delicioso, preciso e brilhantemente escrito.
Sem contar o didático "O Castelo de Axel", de Edmund Wilson, os livros de Hugo Friedrich ("Estrutura da Lírica Moderna") e Marcel Raymond ("De Baudelaire ao Surrealismo") são belos guias para a literatura do século 20.
O ilustradíssimo livro de Giulio Carlo Argan ["Arte Moderna", Cia. das Letras], e os quatro volumes da Open University sobre pintura moderna ["Arte Moderna - Práticas e Debates", Cosac Naify], valem tudo o que Peter Gay poderia imaginar em termos de história das artes plásticas, se a fada do talento crítico o tivesse abençoado antes de escrever um livro tão infeliz. (MC)
