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fevereiro 19, 2009
Desejo de reencontro por Tatiana Py Dutra, Zero Hora
Matéria de Tatiana Py Dutra originalmente publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora, em 19 de fevereiro de 2009
Carlos Vergara, artista que está com grande exposição em Porto Alegre, fala sobre Santa Maria, cidade onde nasceu e à qual não voltou mais
Santa Maria está de olho em um artista que nasceu lá, que construiu uma carreira admirável, de projeção nacional, mas que nunca voltou a sua própria cidade. Trata-se de Carlos Vergara, 67 anos, gaúcho radicado no Rio de Janeiro, atualmente em cartaz no Margs, em Porto Alegre, com a exposição Sagrado Coração, que tem como ponto de partida as ruínas de São Miguel das Missões.
O secretário de Cultura de Santa Maria, o artista plástico Titi Roth, diz que entrará em contato com Carlos Vergara para convidá-lo a expôr na cidade o mais breve possível. O plano é que as obras dos grandes artistas da região (além de Vergara, Carlos Scliar e Iberê Camargo) sejam expostas no Museu de Arte de Santa Maria (Masm). Para que isso aconteça, Roth quer fechar uma parceria com o Margs. Ele fala com entusiasmo da obra de Vergara:
– Ele tem uma pintura extremamente vigorosa e contemporânea. Há toda uma trajetória de brasilidade na cor, nos elementos que ele usa. É uma produção representativa de nossos valores.
Apesar de jamais ter morado no Estado, Vergara colocou o Rio Grande em seu mapa-múndi artístico na mostra Sagrado Coração, um olhar do artista sobre as ruínas de São Miguel das Missões, em cartaz no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs). Em uma das idas às reduções jesuíticas, no ano passado, o artista sobrevoou sua terra natal e sentiu uma certa nostalgia.
– A Santa Maria, não voltei não por falta de curiosidade, mas de oportunidade – diz. – Iberê Camargo (pintor gaúcho que foi professor de Vergara), que tinha uma relação grande com Santa Maria, tentou mesmo fazer uma exposição minha lá. É uma coisa que ainda está para acontecer. Tomara que aconteça logo.
Carlos Vergara deu entrevista, de seu estúdio em Santa Teresa, no Rio, por telefone. Na oportunidade, vibrava com a expectativa de desfilar no bloco carnavalesco Cariocas do Mundo, formado só por pessoas que vivem no Rio de Janeiro mas que não nasceram lá.
– Já tem até uma ambulância contratada. Pode ser a última entrevista – riu o artista, de 67 anos.
“Quero pisar no chão onde eu nasci”, diz Vergara.
“Diga aí para os nossos conterrâneos, que espero ter oportunidade de fazer alguma coisa em Santa Maria, uma exposição, alguma obra. Soube de dois lugares que me interessariam muito. Um é a velha estação férrea. Talvez eu pudesse fazer uma coisa que não fosse pieguice de novela (risos). Outra são umas águas paradas que Iberê pintou, em 1939 ou 1940, e que ficam na região de Santa Maria. Me interessaria muito visitar esses locais e retrabalhar com olhos contemporâneos uma coisa que ele pintou na época em que eu estava nascendo. Só estou esperando um convite para visitar a cidade, da universidade, da prefeitura. Se me chamarem, eu vou. Sobrevoei Santa Maria, na última vez que fui a São Miguel, ano passado. Mas quero pisar no chão, olhar as colinas, andar, e de repente, descobrir em qual maternidade eu nasci. Quero revisitar os alfarrábios da minha velha certidão de nascimento.”
Ruas de concreto por Henrique Araújo, O Povo
Matéria de Henrique Araújo originalmente publicada na sessão Vida e Arte do jornal O Povo, em 19 de fevereiro de 2009.
A exposição Certos Lugares, do artista plástico Murilo Maia, apresenta trinta imagens de ruas, marquises, muros e grades de ferro. As imagens flagram a indisciplina involuntária de uma cidade quase invisível
Das trinta imagens expostas pelo artista plástico Murilo Maia no Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, uma deve chamar mais atenção que as demais. O muro tem exatamente 5,8 metros de comprimento por 2,1 de altura. Sua extensão é percorrida por tijolos e arames farpados sobrepostos, numa mistura de elementos essencialmente ligados ao medo. O tamanho da foto é natural. Representa o mesmo paredão visto por Murilo enquanto passava de ônibus na BR-116. O muro integra a exposição Certos lugares, aberta no MAC na última quinta-feira.
Dividida em quatro ambiências, a primeira exposição individual de Murilo apresenta imagens de uma Fortaleza cujos muros, gradis, calçadas e telhados dividem espaço com elementos diversos. Por exemplo: na calçada, o poste aperta-se contra um tronco de árvore. Em menos de um metro quadrado, convivem. Na avenida Aguanambi, um muro caiado engoliu um poste, que se tornou parte de sua constituição. Na Praia de Iracema, em frente ao Estoril, uma árvore de caule retorcido é escorada por dois troncos. Para sobreviver, ela carece do suporte, que lhe é totalmente estranho. Um último exemplo: numa rua qualquer da cidade, uma casa era guardada por um portão de ferro vazado. Meses ou anos depois, uma placa de ferro foi acrescida do anteparo, tornando-o chapado. Quem está dentro de casa não pode ver quem passa e vice-versa.
Que Fortaleza - lugar cujo nome denota símbolos de ambigüidade -, pode ser vista em Certos lugares? “Tempo. Tensão urbana. Violência. Tem o acaso e a temporalidade”, explica Murilo. Aquarelas, Simbioses, Possuídos e Diaslongos são os escaninhos que recebem as imagens da cidade. Aquarelas traz infiltrações em paredes. Fotografadas e expostas, elas viram objeto de apreciação, um tipo especial de arte. O tempo é o artífice dessas obras. Simbioses apresenta “a vida que, junta, tem relações positivas e negativas”. Uma palmeira atravessando o gradil de um condomínio fechado, uma goiabeira sustentada por uma raiz antinatural. Em Possuídos, o inusitado. Debaixo do telhado, não há nada. A marquise não guarda nada. É como se o corpo humano tivesse um órgão cujo funcionamento é nulo. Diaslongos é isolamento. Uma página em branco riscada de uma ponta a outra por uma única palavra: dia.
Assim, Certos lugares é dedicada “a uma cidade de coisas que passam despercebidas, de coisas lentas, de segurança, mas também a algo mais poético”. Infiltrações assumem formas inesperadas na parede, ganham contornos monocromáticos, jogam com texturas e desenhos. “Na cidade, uma coisa negativa pode, de repente, ganhar um outro contexto.” No MAC, a visão das fotos sugere indisciplina. A indisciplina das formas que não respeitam a vocação organizativa dos homens. A indisciplina dos marginalizados, expressa nos portões que se reforçam com placas de ferro. Nesse esteio, Murilo receita a indisciplina do olhar. Que Fortaleza pode ser vista na exposição? Os movimentos da cidade, de expansão e retração; as relações de poder; as trocas simbólicas, materiais e imateriais.
As trinta imagens reunidas por Murilo estão repletas de potencialidade. Ainda que o suporte da fotografia apenas funcione como mero registro (“Eu não faço nenhum tipo de manipulação na foto”) e o conjunto das obras não contenha tantos elementos que apontem para algum tipo de alteração dessa ordem impositiva, os trabalhos funcionam muito bem como convite. Um convite para ver a cidade com olhos de indisciplina.
SERVIÇO
Exposição Certos Lugares, do artista plástico Murilo Maia. Aberta no último dia 12 de fevereiro, a exposição segue até o dia 30 de março, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Horários para visitação: de terça a quinta, das 9h às 19h (acesso até 18h30min); de sexta a domingo, das 14h às 21h (acesso até 20h30min). Ingressos: R$2,00 / R$1,00. Aos domingos o acesso é livre. Outras informações nos telefones 3488 8600 ou 8608 8624.
Aquarelas de Samson Flexor, pioneiro do abstracionismo, mostram sua faceta mais informal por Suzana Velasco, O Globo
Matéria originalmente publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo, em 17 de fevereiro de 2009.
RIO - O teste para se entrar no Ateliê Abstração, fundado em 1951 por Samson Flexor (1907-1971), em São Paulo, era desenhar um violão com régua e esquadro. Um dos pioneiros do abstracionismo no Brasil, Flexor é conhecido pelo cálculo e pela ordenação em suas pinturas, mas no fim da vida, nos anos 1960, libertou seus traços da rigidez geométrica. É essa faceta mais solta que o Instituto Moreira Salles (IMS) exibe a partir desta quarta-feira (18-02) para o público, nas 98 obras da exposição "Aquarelas e desenhos".
- O Flexor é muito conhecido na história da pintura, sobretudo por sua produção dos anos 1950. Ele criou uma obra geométrica calculada, com projetos para a tela final. Agora, mostramos as aquarelas dos anos 1960, que já são mais livres. Algumas têm autonomia, e outras são esboços para pinturas a óleo, mas a geometria não é mais o foco - afirma a coordenadora do setor de artes visuais do instituto, Heloisa Espada.
Com curadoria da equipe do IMS, a mostra tem como base uma exposição que, em 2007 e 2008, percorreu países europeus que fizeram parte da trajetória de Flexor, passando depois por São Paulo. Nascido onde hoje é Chisinau, capital da Moldávia, Flexor se radicou no Brasil em 1948, vindo de Paris, onde fora um dos fundadores do grupo Surindépendants, cujo lema era "independência e disciplina".
Referências às formas da natureza
Na capital paulista, Flexor levou a bandeira a sério e se tornou um abstracionista independente, pessoal, batendo de frente com os concretistas de São Paulo. Foi no Brasil que o artista acentuou seu afastamento da representação, para se tornar um dos pioneiros no país da pintura abstracionista, que já se esboçava em suas obras do início dos anos 1940, quando ainda vivia na França. No fim da década de 1950, toda marcada pela abstração, ele já caminhava em direção a formas mais orgânicas, que, como se vê na exposição, acabaram levando-o de volta à figuração, ainda que de modo completamente diferente daquele do início de seu percurso artístico. Aos poucos, ele vai se aproximando do corpo humano, criando seres meio robóticos, meio desajeitados, com uma certa fragilidade - diz Heloisa.
Essa aproximação é evidente, na exposição, nas aquarelas da série "Bípedes", esboços para telas a óleo exibidas na Bienal de São Paulo de 1967. Segundo a curadora, mesmo antes dessa volta mais explícita à figuração, podem ser encontrados resquícios de elementos figurativos em algumas pinturas que, aparentemente, são completamente abstratas.
- A exposição mostra que, embora Flexor tenha ido à abstração, continuou olhando para a natureza. Suas obras sempre têm referência às formas naturais, seja na paisagem ou corpo - afirma Heloisa, que ressalta, nesse processo, a série de desenhos "Paisagem de Poços de Caldas". - Ele vai abstraindo a partir da observação da natureza e, aos poucos, se aproxima da forma geométrica, saindo da aparência das coisas e as depurando até chegar somente às suas linhas. É um processo bem kandinskyano.
Além de retornos à figuração, a obra de Flexor é marcada por transições e combinações entre o racionalismo geométrico e a abstração mais informal. Em paralelo ao lado lírico de suas aquarelas, que compõem a maior parte da exposição, o público poderá ver o rigor geométrico nos desenhos do artista, em lápis sobre papel.
- Na sala dos desenhos, mostramos um pouco do processo de trabalho de Flexor - diz a curadora. - Vemos que, nos esboços de retratos para pinturas a óleo, a geometria é a estrutura da obra. Os rostos são traçados e compostos a partir de uma geometria rígida e equilibrada.
Instituto Moreira Salles. Rua Marquês de São Vicente 476, Gávea. Tel: 3284-7400. Ter a dom, das 13h às 20h.
fevereiro 17, 2009
Para diretor do CCSP, decisão é resultado de diálogo e reflexão por Silas Martí, Folha de S.Paulo
Matéria originalmente publicada na sessão Ilustrada do jornal Folha de São Paulo, em 13 de fevereiro de 2009.
Procurado pela reportagem para comentar a retirada da obra do artista João Loureiro, o diretor do Centro Cultural São Paulo, Martin Grossmann, enviou um texto em que defende que a decisão "foi resultado de um processo de diálogo, transparente, e de reflexão acerca não só da arte, mas da prática cultural institucional".
Leia a íntegra a seguir:
"Centros culturais não são museus, são equipamentos culturais plurais. O Centro Cultural São Paulo não é qualquer centro cultural: seu projeto, sua arquitetura, sua atuação na cidade e seu uso diferem substancialmente de outros espaços semelhantes. É, talvez, o espaço cultural mais democrático da cidade.
Mais do que receber público, abriga usuários que se apropriam de seus ambientes, criam pertencimento com o local, participam ativamente. Uma verdadeira multidão (em média, 2.000 pessoas por dia) ocupa de maneira diversa as dependências de sua arquitetura aberta e transparente que estimula o livre acesso ao conhecimento e à cultura.
Mas não é só: há também um grupo de usuários formado por cerca de 450 funcionários, responsáveis por um equipamento público de 46 mil metros quadrados. De 2007 a 2008, operacionalizamos e finalizamos um processo de reforma administrativa cujo planejamento foi iniciado na gestão à frente do centro cultural do atual secretário de cultura do município, Carlos Augusto Calil (2001 a 2004).
Essa nova estrutura administrativa possibilitou, entre outros ganhos: a integração das cinco bibliotecas em torno da praça das bibliotecas; a inclusão do deficiente visual nesse ambiente com a transferência para o local da biblioteca Louis Braille; um programa modelar de acessibilidade; novas formas de mediação cultural e educativa; o primeiro serviço Wi-Fi gratuito em um equipamento cultural público; a integração da programação artística e cultural; a integração técnica dos quatro acervos (Coleção de Arte da Cidade, Arquivo Multimeios, Discoteca Oneyda Alvarenga e Missão de Pesquisas Folclóricas), bem como a implantação de um novo espaço administrativo que hoje abriga por volta de 200 funcionários.
Foi este novo espaço de trabalho que o artista João Loureiro escolheu para realizar sua obra site-specific. O convite para idealizar uma obra inédita em diálogo com as particularidades físicas, conceituais, funcionais e discursivas do centro cultural visava uma maior cumplicidade e interação entre os artistas e a instituição.
Ocorre que, por se tratar de uma obra que comenta criticamente aspectos da prática institucional, acabou provocando, nesse contexto (fora dos espaços de exposições considerados como neutros), uma série de reações ligadas ao seu conteúdo e intencionalidade.
Nomear de "fantasma" o espaço administrativo no momento em que toda a equipe vem trabalhando incansavelmente para sua revitalização, investindo todos os esforços na qualificação e expansão de sua programação e atendimento ao público, provocou uma reação adversa no seio da instituição.
Entendemos que a retirada antecipada da obra foi resultado de um processo de diálogo, transparente, e de reflexão acerca não só da arte, mas da prática cultural institucional. A obra correspondeu à proposta da curadoria e, esperamos, às intenções do artista, cumprindo assim seu propósito. A instituição também cumpriu seu papel garantindo a produção e exposição da obra, até o limite aqui exposto."
CCSP retira obra após reclamações de funcionários por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na sessão Ilustrada do jornal Folha de S.Paulo, em 13 de fevereiro de 2009.
Servidora mandou carta à prefeitura reclamando de fotografia que retrata trabalhadores como fantasmas
Obra do artista João Loureiro foi produzida e financiada pelo CCSP, ficou exposta por 2 meses e, depois, retirada pela direção
Depois de reclamações de funcionários, que se disseram ofendidos pelo artista, a direção do Centro Cultural São Paulo decidiu retirar de uma mostra uma obra de arte que ficaria em cartaz até 29 de março. A fotografia "O Fantasma", de João Loureiro, retrata pessoas e objetos de trabalho cobertos com lençóis brancos no setor administrativo do CCSP, onde ficou exposta até o dia 2 deste mês, quando foi retirada.
"A gente tem uma imagem de fantasma lá fora, mas trabalha muito, rala muito", disse à Folha Rogéria Massula, 51, funcionária do CCSP que mandou uma carta à ouvidoria da prefeitura pedindo que fosse retirada a obra de Loureiro. "Achei de mau gosto, porque era a minha mesa de trabalho ali, com olhinho, boquinha. Por mais que eu queira, não dá para desconsiderar que é uma afronta contra os funcionários."
Antes mesmo do início da mostra, em 29 de novembro do ano passado, funcionários haviam reclamado à direção do CCSP, irritados com o teor da fotografia. Na abertura da exposição, tanto o diretor da instituição, Martin Grossmann, quanto a curadora de artes visuais, Carla Zaccagnini, optaram por expor a obra.
"Houve resistência dos funcionários à obra, e isso foi virando uma bola de neve", conta Loureiro, 36, que diz não considerar o episódio um caso de censura, embora discorde da remoção da obra. Segundo ele, que teve R$ 8.000 do CCSP para produzir a foto, alguns funcionários foram trabalhar vestidos de branco em protesto.
A curadora e o diretor do CCSP negam que houve censura. "Acho que se trataria de censura se a obra não tivesse sido realizada ou tivesse sofrido alterações por exigências externas ao trabalho. Neste caso, a obra foi realizada de acordo com o projeto do artista e esteve exposta no local por ele escolhido", diz Zaccagnini, 35.
A curadora deixará seu cargo no CCSP no mês que vem, mas nega que seja por causa do episódio. "A minha saída, que está sendo negociada de forma a não prejudicar o projeto institucional, não tem nada de represália", afirma a curadora.
Pressão externa
O secretário municipal da Cultura, Carlos Augusto Calil, que já dirigiu o CCSP e nomeou Martin Grossmann para a posição, confirmou, por meio de sua assessoria, que foi procurado por funcionários do CCSP.
O diretor da instituição, a curadora de artes visuais e funcionários ouvidos pela Folha negam, no entanto, que tenha havido qualquer interferência por parte do secretário da Cultura ou da prefeitura. "Não houve nenhuma pressão por parte da ouvidoria da prefeitura, tampouco da Secretaria da Cultura", afirmou Grossmann, 48.
"Não havia nenhuma posição da Secretaria da Cultura nem da ouvidoria com relação ao conteúdo da carta", diz Zaccagnini. "Foi por meio de uma longa discussão interna, iniciada ainda durante o processo de produção da obra [de Loureiro], que se chegou à decisão."
Diário, livro e abandono por Eduardo Jorge, Diário Catarinense
Matéria de Eduardo Jorge* originalmente publicada no caderno Cultura do Diário Catarinense, em 31 de janeiro de 2009.
O relato íntimo das anotações pessoais do artista Yuri Firmeza ganha as páginas do jornal e inventa a cidade
Querido Diário, – É assim que geralmente se inicia uma conversa íntima consigo mesmo e com a escrita. A pergunta em torno do íntimo e de um segredo vem junto de uma outra própria ao diário: como passar o íntimo, sobretudo um segredo, pelo gesto da escrita? Uma escrita presume um terceiro, mesmo que este ainda não se faça presente. O pensador francês Maurice Blanchot, em O livro por vir, estudou o caso curioso de um escritor chamado Joubert. Ele não escreveu nenhum livro. E, se ele não escreveu nenhum livro, pode ser chamado de escritor? Joubert, mesmo que nunca tenha escrito um livro, passou a vida se preparando para escrever um. Blanchot se ateve em seus estudos justamente ao que o escritor chamou de Carnês, cujo subtítulo era Diário íntimo de Joubert. E o que o pensador francês traça como um dos leitores-críticos destes carnês é que o Diário de Joubert, mesmo apoiado no seu dia-a-dia, não é um reflexo de seus dias, e, sim, aponta para algo diverso.
A pergunta insiste: o que significa escrever um diário? E, sem uma resposta imediata por mais simples que seja, entramos nas perguntas contidas no próprio diário de Joubert, especificamente no que ele escreveu no dia 22 de outubro de 1799: "Mas, de fato, que arte é a minha? Que fim ela se propõe? O que ela produz? O que faz com que ela nasça e exista? O que pretendo e quero fazer ao exercê-la? Será escrever e assegurar-me de ser lido? Única ambição de tanta gente! Será isso o que desejo?... É o que devo examinar atentamente, longamente, e até que eu o saiba". Joubert tinha 45 anos quando escreveu este fragmento.
Outro diarista compulsivo era o dramaturgo alemão Bertold Brecht. Seus Diários de Trabalho (Arbeitsjournal), alguns publicados no Brasil, possuem, de fato, muitas informações visuais e textuais do que se passava no mundo ao qual Brecht viveu. Seus diários, a grande maioria escrita em situação de exílio, são, também, relatos de um viajante que viveu perseguido, como o que foi escrito em 17/4/1940: "Para a Finlândia de navio, deixando para trás móveis, livros, etc." Ou, de vez em quando, o encontro com outros exilados, como o filósofo alemão Walter Benjamin, escrito em 25/7/1938: "Benjamin está aqui. Está escrevendo um ensaio sobre Baudelaire. Há boas ideias no texto." O dramaturgo alemão, dentro de seu vasto material dos diários, ainda escreve em 20/10/1942, agora nos Estados Unidos: "Uma coisa que gosto de fazer é aguar o jardim." Somos terceiros a ler estas anotações. Fazendo desta escrita confessional, que se comporta dentro dos diários, algo público, mesmo que pesquisadores e editoras já tenham feito uma mediação. E, além de Joubert e Brecht, diversos escritores tiveram publicados seus diários. A vontade de conhecer um segredo, de desvendá-lo, de entrar no espaço íntimo do outro é algo que faz parte da natureza humana? Ler um diário íntimo é o momento no qual a leitura pode ser considerada um ato de violação?
Mais perguntas e outro desvio. Durante o ano passado, o Museu da Pampulha realizou mais uma edição do seu programa para artistas residentes chamado de Bolsa Pampulha. Dentre os artistas selecionados, um deles, Yuri Firmeza, ocupou as páginas do jornal Estado de Minas durante cinco meses, com uma proposta de escrita que concluía seu trabalho em Belo Horizonte com um diário. Na pequena edição de Ecdise, título do livro, as datas, as do jornal e as do diário, se misturam para que o artista desenhe e se desenhe na cidade, como no texto de 9/8/2008, publicado no Estado de Minas: "Pensar minha estada na cidade como sendo a minha intervenção no espaço público. Criar esse espaço por meio, justamente, das relações que invento com 'a cidade'. Chegar a Belo Horizonte, amassar e moldar pão de queijo com a Anita, conversar sobre os mexilhões dourados com a bióloga Mônica Campos, dialogar com os motoristas de táxi na tentativa de entender o fluxo da capital, ir ao festival de cinema de Tiradentes, conversar com os travestis da Afonso Pena à procura de alguma Yuri, aprender a tocar flauta, ir a Patos de Minas, conversar sobre meus trabalhos com os alunos da Escola Guignard, escrever diário, andar com mapa no bolso, dar oficinas, seguir carteiros, ir a Lagoa Santa, ziguezaguear no Opala do Pablo, ir às reuniões de condomínio, fazer performances, comer doce de leite, ir ao museu, fazer piquenique no Parque das Mangabeiras, encontrar-me com os outros bolsistas, ir a Ouro Preto, conhecer pessoas na rua, desenhar a cidade, desenhar na cidade, desenhar-me na cidade."
O desafio para Yuri Firmeza, como um artista-residente-viajante, é abrir o mapa de Belo Horizonte e, ao olhar para suas linhas e cores, sair desses contornos para entrar na cidade, na vida de vários moradores, na conversa, na convivência diária. O Diário de Yuri, lançado no final do ano passado, quando os artistas residentes do Museu da Pampulha concluíram o seu período de estada, não tem todas as datas fixas e está intercalado com páginas do jornal, justamente uma seleta de seus textos publicados. Yuri levou o jornal, logo, o público, para dentro do diário, o espaço íntimo – Brecht também o fez à sua maneira. Divisão, esta, constantemente alterada, rasurada, a cada dia impossível de conter, como se pode ler na anotação sem data do diário de Yuri: "Hoje tentei conter algumas coisas. Elas me transbordaram."
O desafio para Yuri (e não só para ele) é justamente fazer da vida um diário com muitos encontros casuais. Como a fez, também, Brecht, cuja anotação de 2/8/1945 registra um desses encontros: "Encontro Schönberg à porta de uma drugstore. Ele se queixa de suas enfermidades e da legislação dos direitos autorais, já que seu filho deixará de receber esses direitos ao completar 28 anos." Fazer um diário que inclua bons encontros, conversas, é um gesto político, como também foi a escrita de Joubert, sem deixar um único livro, como ele próprio escreveu: "Não acabamos quando paramos ou quando declaramos ter terminado." Ou na conversa do Diário do Yuri, que, junto com Joubert e Brecht, nos convida a pensar os prolongamentos do gesto da escrita, seu próprio abandono:
"– O que vai fazer quando as folhas acabarem? – perguntou o Diário.
– Vou continuar fazendo, só que sem as folhas – respondeu".
* Poeta, autor do Caderno do Estudante de Luz (Lumme Editor) e San Pedro (edição do autor). Mestrando em Teoria da Literatura na UFMG
Bloco de artistas no Pátio de São Pedro por Olívia Mindêlo, Jornal do Commercio
Matéria de Olívia Mindêlo originalmente publicada no Caderno C do Jornal do Commercio, em 17 de fevereiro de 2009.
Mostra Comissão de frente é a prévia de 11 artistas que invadem, de hoje a quinta-feira, o Centro de Formação em Artes Visuais
A arte contemporânea quer ser popular. Essa é a proposta da mostra coletiva Comissão de frente, que invade o ruge-ruge do Pátio de São Pedro a partir de hoje, com um time de 11 artistas. O intuito é fazer parar os transeuntes que circularem pelo Centro nesses dias de semana pré-carnavalesca, procurando interagir com o fervor da maior festa da cidade em pleno vuco-vuco.
O apelo se divide entre o aspecto conceitual, visual e festivo, já que até quinta-feira rola por lá saída de bloco (É Tudo Artista), banho de espuma, Bazar da Monga e até orquestra de frevo. A arte, na verdade, é puro pretexto. Hoje mesmo, a “exposição mista carnavalesca recreativa contemporânea” faz dois abre-alas: um pela manhã, a partir das 10h, e outro à noite, às 20h, com pocket show da banda Saltos Ornamentais, formada por integrantes do coletivo TV Primavera.
“Existe uma arbitrariedade na arte contemporânea de se distanciar das manifestações populares. É uma tentativa de elitizar, mas nós vimos que é uma besteira não interagir com o Carnaval. A cidade bomba de gente que nunca vem no restante do ano nesta época, então vamos aproveitar”, justifica Aslan Cabral, um dos artistas e organizadores da iniciativa, ao lado de Bruno Faria.
Eles se somam a mais nove artistas – Bruna Rafaela, Cristiano Lenhardt, Derlon Almeida, Augusto Ferrer, Jonathas de Andrade, Maurício Castro, Mozart Santos, Marcelo Solá e Yuri Firmeza. Estes dois últimos são de Goiás e do Ceará, respectivamente. De Solá pode ser revisto a versão pop do Preto Velho em cartazes lambe-lambe, apresentados no ano passado no Mamam no Pátio, ao lado da casa do Centro de Formação em Artes Visuais (CFAV), onde a mostra coletiva fica em cartaz durante esses dias. De Firmeza, foi enviado um livro de artista.
Bruna Rafaela distribui corações, no trabalho Dois mil in love – o amor está no ar. Bruno Faria exibe vídeo inédito em que brinca com a imagem do Recife passada pela Empetur. Christiano Lenhardt também mostra vídeo inédito. Aslan Cabral recepciona o visitante com um “parangolé” de pinturas sobre acetato com adereços carnavalescos. Ferrer leva suas esculturas em ferro. Mozart Santos apresenta desenhos. Jonathas de Andrade, um mural de lambe-lambe com foto aérea do Recife. Derlon, suas pinturas “gravurais” sobre papel. Por fim, Maurício Castro leva sua nova “máquina” de banho de espuma para animar a saída do bloco É Tudo Artista na quinta, às 17h.
» Comissão de frente, de hoje (17/02) a quinta (19/02), no CFAV – Pátio de São Pedro, Bairro de São José, casa 11, Recife - PE. Entrada franca
fevereiro 16, 2009
Só pedindo socorro por Suzana Velasco, O Globo
Matéria de Suzana Velasco originalmente publicada no Segundo Caderno de O Globo, em 15 de fevereiro de 2009.
Importantes museus do Rio não estão bem preparados para receber turistas
Um estrangeiro chega a um museu no Rio e é recebido com boa vontade por um funcionário na recepção, que em geral fala inglês. O visitante chega sem saber o que vai encontrar ali — até procurou se informar no site, mas não há versões em outras línguas — e continua assim, meio perdido: não há folhetos explicativos sobre as mostras, mapas do museu, audioguias. O funcionário diz que ele poderá encontrar informações no interior da instituição, mas os textos das exposições nem sempre estão traduzidos para o inglês. E, dentro do museu, a sinalização é precária. Ele sai frustrado por sentir que poderia ter aproveitado muito mais sua visita.
— Gostaria de ter mais controle sobre a informação. O mais importante seria ter uma noção geral de que exposições o museu oferece, para eu poder escolher aonde ir, com um mapa para saber como acessar o local — afirma o arquiteto alemão Henning Pöpel.
O GLOBO acompanhou a visita do estrangeiro a cinco importantes museus, no Rio e em Niterói: Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), Museu de Arte Moderna (MAM), Museu Histórico Nacional (MHN), Museu da República e Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC). Alternando pontos positivos e negativos, todos eles pecam num aspecto fundamental: a falta de informações básicas sobre a instituição, mesmo em português. É um cenário desanimador, no ano em que o tema da Semana Nacional de Museus, de 17 a 23 de maio, será “Museus e turismo”.
Verbas ainda não foram utilizadas
Seis meses depois de terem recebido recursos do Programa de Qualificação de Museus para o Turismo, do Ministério da Cultura (MinC), MNBA, MHN e Museu da República ainda não executaram seus projetos. O MNBA, cujas exposições não têm textos em inglês, recebeu R$457.610,22 para adquirir audioguias e folhetos trilíngues (português, inglês e espanhol), com informações sobre as coleções permanentes. A diretora do museu, Mônica Xexéo, acredita que esses produtos estarão prontos em abril e suprirão as necessidades dos turistas, mas sabe que precisará de mais recursos para renovar periodicamente os informativos:
— Este ano vou enviar um projeto para a manutenção dos folhetos.
Os turistas, brasileiros ou estrangeiros, e mesmo quem nunca visitou o museu, não têm orientação para saber o que há para ser visto. Esse é o mesmo problema do Museu Histórico Nacional, que na última semana não tinha qualquer impresso informativo na recepção, nem funcionários bilíngues. Segundo a diretora do MHN, Vera Tostes, os folhetos do museu se esgotaram com o aumento excepcional do número de visitantes, devido à mostra “O corpo humano”.
— Normalmente temos folhetos bilíngues, mas passamos a receber quase 300 mil visitantes por mês, por isso eles acabaram — diz Vera.
A diretora afirma que, com os R$202.331,98 dados pelo MinC, providencia audioguias em português, inglês, espanhol e francês, além de um guia especial para surdos-mudos, com previsão para abril. O museu é o único dos cinco que tem uma versão de seu site em inglês, mas nem todos os textos das mostras têm versões em língua estrangeira. Além disso, como o MHN fica num casarão histórico, que não foi construído para ser um museu, ele precisaria de uma sinalização interna eficiente. Porém, o visitante que desconhece o espaço se perde dentro dele.
— O museu tem ótimas exposições, como a de moedas internacionais, mas eu não tinha idéia do que estava exposto e não podia decidir o que queria visitar. Tive que ficar procurando pelas exposições. Saí com a sensação de que havia muito mais para ver — diz o alemão.
Administradores ignoram falhas
O estrangeiro teve o mesmo problema no MNBA e no Museu da República, também instalados em edifícios históricos e sem boa sinalização. No Museu da República, guardas tiveram que orientá-lo sobre o percurso de visitação através de mímicas. Além disso, as obras da mostra de arte contemporânea “Nós” estão misturadas às peças históricas, sem uma explicação para o turista. O museu, que recebeu R$161.219,51 do MinC, informa que haverá audioguias bilíngues este ano, sem data prevista. A direção ainda alega que o museu tem folhetos em português, inglês, e espanhol. Na visita do estrangeiro, porém, um funcionário disse que todas as informações em inglês ficavam no interior das salas.
— Você deve ter chegado num momento em que novos folhetos estavam sendo feitos — diz Débora Reina, assessora técnica do museu.
As mímicas também foram necessárias no MAC. O museu é o único com folhetos bilíngues, tem um funcionário que fala inglês na recepção e textos em inglês sobre sua mostra principal. Dentro do museu, porém, os monitores, universitários que supostamente deveriam falar inglês ou francês, não conseguiram se comunicar nessas línguas.
— Quando cheguei ao museu, em 2003, contratamos universitários com a condição de que eles falassem inglês ou francês porque a comunicação é muito importante. Saí do museu em 2005 e voltei agora. Achei que essa condição estivesse vigente. Você me pegou de surpresa — espanta-se Telma Lasmar, coordenadora executiva do MAC, que, por ser um museu da prefeitura, teve sua direção alterada com a mudança de administração.
O diretor do MAM, Reynaldo Roels, também foi pego de surpresa ao ser informado de que não havia folhetos com a programação do museu, nem mesmo em português.
— Você deve ter chegado na hora em que os folhetos estavam sendo substituídos — disse. — Nossa sinalização é toda bilíngue. A gente encara o fato óbvio de que o inglês serve como apoio mínimo para parte do nosso público, que, como em todos os museus do mundo, é de turistas.
Apesar de haver sinais em português e inglês, o museu não reúne informações sobre o que pode ser encontrado em seu edifício. Parte do público que vem lotando a mostra temporária de Vik Muniz fica sem saber que, ali em cima, no terceiro andar, existe uma exposição permanente com a coleção de Gilberto Chateaubriand, com obras-primas da arte moderna brasileira.
Roels diz que está providenciando informativos bilíngues com um mapa do MAM. Mas o diretor não considera que os audioguias sejam prioritários porque acredita que eles desviam o visitante do foco principal de um museu, a obra de arte. Segundo ele, o estrangeiro pode recorrer a um monitor se precisar de informações:
— Há uma pessoa que fala inglês e francês na exposição permanente. É só pedir socorro.
