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fevereiro 13, 2009
Construções de Niemeyer no centro de SP recebem galeria de arte africana, por Silas Martí, Folha de S.Paulo
Matéria de Silas Martí, originalmente publicada na sessão Ilustrada do jornal Folha de S.Paulo, no dia 4 de fevereiro de 2009
No volume máximo, o pagode grita nos alto-falantes das lojas. No chão em frente ao prédio, alguns sem-teto tentam dormir. Mas bem pouco do som nervoso do centro vaza para dentro do mais novo cubo branco de São Paulo, a imaculada Soso Arte Contemporânea Africana, galeria que será inaugurada amanhã no segundo andar do edifício Seguradoras.
Foi neste prédio quase esquecido de Oscar Niemeyer, na avenida São João, a alguns metros do vale do Anhangabaú, que se instalou a primeira galeria de arte africana do país.
"Mesmo que haja gente dormindo na rua, há segurança aqui", diz Mário de Almeida, empresário hoteleiro angolano, dono da Soso. "Este é o centro de uma das maiores cidades do mundo, e o centro de uma das maiores metrópoles do mundo não pode ser decadente."
Deslumbrado, Almeida conta à Folha que decidiu comprar o segundo andar do Seguradoras quando soube que era um projeto de Niemeyer, pelo qual diz ter pago R$ 300 mil. Desembolsou mais R$ 1,5 milhão para comprar o antigo Hotel Central, projeto de Ramos de Azevedo, do outro lado do calçadão da avenida São João.
"As pessoas querem prédios com assinatura", afirma o secretário municipal da Cultura, Carlos Augusto Calil, que está tocando agora um projeto de revitalização da área, a chamada "praça das artes", orçado em R$ 100 milhões. "Essas iniciativas espontâneas de empresários nos sinalizam que há uma demanda de parte da sociedade por prédios de qualidade."
Cada um dos 40 quartos do antigo hotel de Ramos de Azevedo vai receber artistas africanos para residências a partir de agora, sendo que em maio cada apartamento abrigará uma instalação, parte de uma grande mostra que integra o calendário da próxima Trienal de Luanda, marcada para 2010.
A reforma do hotel, que deve ser concluída em 2011, está orçada por Almeida em cerca de R$ 11,6 milhões - valor que deve vir do próprio bolso, mas terá parte captada por leis de incentivo e créditos do BNDES.
"Eu já fiz isso em Angola, investir numa área decadente, que depois vira motor do desenvolvimento", diz Almeida. "Eu tenho um complexo em Luanda que era uma construção do século 18, um armazém destelhado, que hoje virou um grande espaço de lazer."
Almeida, casado com a filha do cantor Djavan, não descarta também a possibilidade de sua atual residência artística virar hotel de luxo no futuro, algo na linha dos "concept hotels" que pipocam pelo mundo, sendo que "cada quarto será uma possível instalação de arte".
No lado artístico da jogada, Almeida também não faz feio. Tem o apoio do artista e curador angolano Fernando Alvim, responsável pelo primeiro pavilhão africano na Bienal de Veneza, em 2007, e também mentor da Trienal de Luanda.
"Venho de uma situação particular em Angola, em que artistas têm de ser curadores, críticos e galeristas ao mesmo tempo, porque não temos os sistemas da arte", conta Alvim. "Por isso consideramos o artista o epicentro de um fenômeno cultural e criamos um movimento cultural para tentar legitimar a arte africana."
Alvim é também vice-presidente da Fundação Sindika Dokolo, por trás da maior coleção de arte contemporânea africana do mundo, com mais de 3.000 peças, e em parte responsável pelos gastos dos artistas angolanos que participam da nova residência paulistana, grande aposta da fundação.
"É importante uma galeria que mostra um pouco da África, mas com uma versão da história contada por nós mesmos", diz Alvim. "Queremos o comando da nossa própria história, já que ninguém sabe mais disso do que nós mesmos."
São Paulo acaba surgindo então como vitrine da produção contemporânea africana e contraponto a Veneza, que, nas palavras de Alvim, "já morreu".
São Paulo acaba surgindo então como vitrine da produção contemporânea africana e contraponto a Veneza, que, nas palavras de Alvim, "já morreu".
"No pavilhão africano, pusemos líderes políticos que lutaram pelo fim do preconceito, porque achamos que Veneza era preconceituosa", afirma Alvim. "Foram 112 anos sem arte africana, e ainda fomos submetidos a um júri mais incompetente do que nós. Não é preciso passar por Veneza para fazer arte contemporânea.
fevereiro 11, 2009
Índia é país convidado da feira de arte Arco, em Madri, por Silas Martí, Folha de São Paulo
Matéria de Silas Martí,originalmente publicada na sessão Ilustrada da Folha de São Paulo, no dia 11 de fevereiro de 2009
Nem a crise intimida o mais novo gigante da cena artística mundial. Se a última década viu despontarem no circuito as chinesas Pequim e Xangai, que conseguiram criar bienais etrienais para acompanhar o boom econômico de suas galerias, é a vez de Mumbai e Nova Déli fincarem um pé na arte contemporânea internacional.
A Índia, que realizou sua primeira feira de arte no ano passado, o India Art Summit, hoje é tema de três grandes exposições coletivas no Instituto Valenciano de Arte Moderno, em Valencia, no Mori Art Museum, em Tóquio, e na Serpentine Gallery, em Londres, além de ser o país convidado da Arco, uma das mais tradicionais feiras de arte no mundo, que começa hoje em Madri --em 2008, o Brasil ocupou o lugar agora reservado a seu vizinho entre os Brics.
"Temos um país emergente em todos os sentidos", resume a diretora da Arco, Lourdes Fernández, 47, à Folha. "A decisão de convidar a Índia foi tomada antes da crise financeira, mas é um mercado emergente, que sofreu muito menos."
Enquanto o Brasil, que já tinha forte presença no cenário internacional, levou 30 galerias à Arco no ano passado, a Índia participa com 13 neste ano. "O Brasil é muito mais próximo do Ocidente, mas a Índia era totalmente desconhecida até agora", justifica Fernández.
Do zero, o país galgou rápido algumas posições na escala global. Segundo os organizadores do India Art Summit, a primeira feira de arte na história do país, que levou 10 mil pessoas a Nova Déli, leilões de arte contemporânea na Índia cresceram de US$ 5 milhões faturados em 2003 para US$ 150 milhões no ano passado, ou seja, quase 30 vezes mais.
"É como surfar uma grande onda, por isso criamos uma plataforma profissional para mostrar arte indiana", afirma a diretora do India Art Summit, Neha Kirpal, 28, que estará em Madri nesta semana para falar sobre o mercado de seu país. "É um momento em que nossos artistas estão se globalizando."
Em fotografias e vídeos --suportes preferidos de uma geração que vive da tecnologia desde a independência do país--, esses artistas retratam o movimento acelerado em boa parte de suas obras: as transformações por que passa o país, as grandes paisagens urbanas e o desenvolvimento econômico.
"Esse interesse pela arte indiana tem muito mais a ver com a abertura econômica. É tudo impulsionado pelo crescimento pré-recessão", afirma Amar Kanwar, 45, um dos artistas mais relevantes da cena contemporânea indiana, agora em cartaz na Serpentine. "Só fico feliz que consegui mostrar meu trabalho na Documenta [em Kassel, na Alemanha] antes de virar o sabor do mês."
Kanwar e outros, de fato, acabam mostrando mais suas obras no exterior do que no próprio país, ainda às voltas com a censura extraoficial. Além de Kanwar, não participaram do India Art Summit, por exemplo, alguns dos artistas mais relevantes da arte indiana, como o grupo Raqs Media Collective, Nalini Malani, Tejal Shah e M.F. Husain.
"É verdade que Husain teve de se exilar por causa da censura do seu trabalho na Índia", admite Hans Ulrich Obrist, 41, curador da Serpentine Gallery, que convidou o pintor para a mostra no museu londrino.
Os mesmos nomes que faltaram no India Art Summit estão hoje na Serpentine e no Mori Art Museum, lugares que não se acanham ao receber obras sobre sexo e religião --temas recorrentes na produção desses artistas e vetados por instituições indianas, a maioria delas sob controle do governo.
Outro exemplo contundente é Anish Kapoor, possivelmente o artista indiano mais conhecido no mundo, que se acostumou a viver fora do país para fazer seus trabalhos.
Contradições profundas
"Existe censura, mas ela não é oficial. Só não exibem obras sobre sexo ou ateísmo", afirma a artista Tejal Shah, 30, também na mostra da Serpentine. "É um país de contradições profundas: enquanto constrangem minorias, a homossexualidade é ilegal e não há acesso a nada, subsidiam a construção de multiplex de cinema."
São as mesmas contradições que aparecem nos vídeos do Raqs Media Collective. Eles misturam numa sala especial da Serpentine ícones tradicionais da cultura do país e registros de mazelas ontemporâneas. "São relatos da vida no subcontinente, que lidam com a violência, a tentativa de manter certas culturas", descreve Jeebesh Bagchi, 44, um dos artistas do grupo criado em 1992.
"Houve tantas mudanças e um desenvolvimento tão rápido, que a memória fica ameaçada, como um caso de amnésia", diz Obrist, que enxerga "uma tensão muito interessante entre a tradição e a modernidade na Índia hoje."
Artes Visuais - Situação de risco, por Nahima Maciel, Correio Brasiliense
Matéria de Nahima Maciel, originalmente publicada no jornal Correio Brasiliense, no dia 10 de fevereiro de 2009
Demissão de Bené Fonteles, curador do Museu de Arte de Brasília, traz novamente à tona a crise da instituição, fechada e sem a reforma de que tanto precisa
Decepcionado com a impossibilidade de reformar e revitalizar o Museu de Arte de Brasília (MAB), o curador Bené Fonteles pediu demissão do cargo ocupado desde maio de 2007. Interditado pela Promotoria de Defesa do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural (Prodema) desde junho do mesmo ano por causa das instalações inadequadas, o MAB teve o acervo transferido para o Museu Nacional da República, na Esplanada dos Ministérios, e a promessa de reforma por parte da Secretaria de Cultura do DF adiada sem prazo de início. "Não há política do GDF para museu, isso todo mundo sabe, tanto para o Museu Nacional quanto para o Museu Vivo da Memória Candanga. Não houve vontade política e cultural para que o MAB fosse restaurado. Me sinto curador de um museu que não existe", desabafa Fonteles.
Silvestre Gorgulho, secretário de Cultura, explica que o prédio ocupado pelo MAB ao lado do condomínio Lake Side e da Concha Acústica nunca foi apropriado para um museu e que ainda há dúvidas sobre o destino da instituição. "O projeto para o MAB virar museu é muito bonito, mas custa R$ 6 milhões. O projeto está pronto, já conversei com a Secretaria de Obras. Mas quero fazer uma comissão para ver se é melhor fazer mesmo o MAB ou pegar o acervo e jogar no Museu Nacional. Não sou eu quem vai decidir isso", avisa Gorgulho.
Em 2008, um pedido de Fonteles a Gilberto Gil, então ministro da Cultura, garantiu repasse de R$ 300 mil do Ministério da Cultura (MinC) para a secretaria do GDF. O dinheiro deveria ser destinado a uma série de nove projetos, que incluíam aquisição de molduras, restauro de obras e aparelhamento técnico. Fonteles diz que o valor foi repassado para a Secretaria de Cultura, mas as licitações para a tomada de preços das empresas que executariam as obras nunca foram adiante. "Nos disseram que o dinheiro foi aplicado. Era a informação que tinha do secretário", afirma o ex-curador. No entanto, Silvestre Gorgulho garante que o dinheiro nunca entrou na conta do órgão. "Sei que houve essa intenção. Não foi repassado. Foi pedido, anunciado, mas não repassado. Devem ter prometido de boca porque não entrou dinheiro de MinC nem de Iphan. Não assinei nenhum convênio", afiança Gorgulho.
Segundo Eneida Braga Rocha, gerente de articulação e fomento do Departamento de Museus do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o recurso foi liberado, mas nunca foi executado. "Foi repassado no fim de 2007 para execução em 2008. Acompanhei duas reuniões no primeiro semestre e estava esperando a execução, mas eles tinham dificuldade de abrir uma licitação para contratar a empresa", ela conta. Para utilizar o recurso, a Secretaria de Cultura precisaria submeter o projeto à avaliação da consultoria jurídica do Iphan até 31 de dezembro. "Senão perdem o dinheiro, que seria devolvido ao tesouro nacional", explica Eneida.
Durante os quase três anos em que ocupou o cargo, o curador procurou fazer o acervo circular por galerias da cidade. Na carta de demissão, ele lembra que promoveu 17 exposições, a maioria como parte do projeto MABMóbile, para que as obras não ficassem longe dos olhos do público. "O acervo está guardado de forma gravíssima, uma obra de arte não pode ficar mais de três meses em plástico bolha e algumas estão lá há um ano e meio", lamenta. "A secretaria não tem estrutura para manter museu nenhum, não tem museólogo, técnico, conservador, lugar para manter o acervo, uma coisa surrealista. Nunca tinha me visto nessa situação, é muita omissão do Estado."
Para dar um rumo ao MAB, Silvestre Gorgulho pretende criar uma comissão de estudos destinada a decidir o futuro do museu. Os integrantes já foram convidados e, de acordo com o secretário, são Ione de Carvalho, atual subsecretária de políticas culturais, Glênio Lima, diretor do MAB, Ana Frade, museóloga do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico (Depha), e Laís Scuotto, fundadora do Museu dos Correios. "Em duas reuniões, eles encontram uma solução e eu implemento", garante.
Principais problemas
- Reserva técnica não possuía móveis adequados e climatização, além de não ter portas adequadas para garantir a segurança das obras.
- Vazamentos no teto ameaçavam a segurança das obras.
- O acervo está guardado na reserva técnica do Museu Nacional da República, que também não tem mobiliário adequado.
- O quadro de funcionários do museu não prevê museólogo, restaurador nem curador. O cargo de Bené Fonteles era, na verdade, de gerente.
- O acervo conta com 1.300 obras, em grande parte peças representativas da transição da arte moderna para a contemporânea.
Territórios em exploração, por Paula Alzugaray, Revista Isto É
Matéria de Paula Alzugaray, originalmente publicada na Revista Isto É edição 2047, no dia 4 de fevereiro de 2009
Artistas se convertem em expedicionários para detectar e documentar efeitos da globalização na Antártida e na Espanha
Habituados à abordagem científica e etnográfica que grande parte dos documentários televisivos dedica aos territórios distantes, experimentamos uma sensação nova ao visualizar a Antártida sob a ótica de artistas plásticos. A convite do Espaço Cultural Oi Futuro, um grupo de 15 artistas de nove países embarcou em "missão artística" ao continente gelado e agora apresenta as fotografias e videoinstalações resultantes em Intempérie - fenômenos estéticos da mudança climática e da Antártida. Mesmo que o enfoque não seja científico, todos os trabalhos se mostram sensíveis aos efeitos da globalização na ecologia mundial e, nesse sentido, guardam uma relação com a missão original do documentário: testemunhar e informar.
Mas, em vez de ouvir um narrador afirmar que a Antártida é a região mais seca e fria do planeta - com ventos de até 333 km/h -, somos introduzidos às variações climáticas do continente austral em abordagens menos objetivas. Pressentimos seus ventos glaciais na performance de tecidos esvoaçantes realizada por Andrea Juan, observamos sua luminosidade instável através da janela de Simon Faithfull e presenciamos a urgência do degelo no vídeo de Phil Dadson. Se em Intempérie o intuito é, segundo os curadores Alfons Hug e Alberto Saraiva, refletir sobre "o ponto zero da cultura", na exposição Espanhas/Spains, na Caixa Cultural, em São Paulo, o fotógrafo Leonardo Kossoy investe na diversidade cultural.
Sem deixar de perseguir alguns estereótipos hispânicos, como touros, pentes, cartazes de filmes de Almodóvar ou procissões de nazarenos, a série surpreende quando localiza uma Espanha insólita e interiorizada, por exemplo na imagem de uma mulher assistindo a uma tourada na tevê da cozinha. As fotografi as de Kossoy indicam que há culturas de vários povos dentro da cultura espanhola: árabes, africanos, sul-americanos, portugueses. Mas afi rmam também que a Espanha existe fora de seu território geográfi co: em uma saia de babados dentro de uma vitrine de loja em Nova York. Em geral bastante povoadas, as fotos de Kossoy apontam para a densidade cultural.
Já a Antártida, em sua imensidão desértica - com 28 vezes a superfície da Espanha -, é um espaço de investigação científi ca e cooperação internacional, que reúne pesquisadores de 30 países. Essa presença do mundo no Polo Sul é evidente nas fotografi as que o brasileiro Caio Reisewitz fez da estação científi ca da Rússia.
Circuitos no mundo
Passagem para a Índia
Índia moderna/ Instituto Valenciano de arte moderno (Ivam), Espanha/ até 15/2
Todos os olhos voltam-se para a Índia. coqueluche do momento no mercado de arte internacional, o país será homenageado na feira de arte contemporânea arco 09, que acontece entre 11 e 16 de fevereiro, em madri, e é representado em Índia moderna, uma grande exposição no Instituto Valenciano de arte moderno.
A Índia é a bola da vez no mundo da arte por dois motivos. o primeiro é econômico: com o crescimento espetacular dos últimos anos, o país é cotado como potência emergente. o segundo atrativo, definitivo, é seu irresistível apelo exótico, que em outros tempos atraiu desde generais britânicos até músicos psicodélicos. agora, seu poder de atração não está tanto na espiritualidade, mas em sua complexidade e diversidade.
O que torna a Índia sedutora aos olhos do mundo é uma cultura urbana mais que híbrida, caótica, que integra "Bollywood" - plágio assumido e declarado do cinema hollywoodiano - com a ioga, a filosofia oriental, a tecnologia da informática, os conflitos étnicos e a perspectiva nada animadora de, em 2020, ser o pais mais populoso do planeta. todos esses aspectos estão explorados pelo Ivam, que, num percurso de 500 obras realizadas por mais de 100 artistas nos últimos dois séculos, mostra de que forma a Índia deixou de lado o nacionalismo e tornou obsoleta a ideia de cultura como patrimônio.
Mas, enquanto canibaliza o mundo, a Índia também é consumida com voracidade. seja na novela das nove brasileira, seja pelo maior colecionador de arte britânico, charles saatchi, que apresenta até 15/3 na saatchi Gallery, em londres, a mostra the empire strikes back: Indian art today.
Brasileiros veem feira da Arco como vitrine, por Mario Gioia, Folha de S.Paulo
Matéria de Mario Gioia,originalmente publicada na sessão Ilustrada da Folha Online, no dia 11 de fevereiro de 2009
A participação brasileira na Arco 2009 está bem mais econômica que no ano anterior, quando o Brasil foi o país convidado, mas os galeristas que participarão da feira espanhola veem uma boa oportunidade para vendas a instituições. Mesmo com a crise financeira, acreditam que o evento continua a ser uma boa vitrine da produção nacional para curadores, críticos e diretores de museus internacionais.
"A expectativa de venda não é das maiores, mas não posso só pensar no dinheiro que vou ganhar. Uma feira não serve só para isso. O mundo da arte passa por Madri nesses dias. A Arco continua a ser uma boa chance para apresentar artistas", diz Eduardo Leme, dono da paulistana galeria Leme.
Além da Leme, participam as galerias Dan, Nara Roesler, Vermelho, Raquel Arnaud, Novembro e Gentil Carioca.
Tradicionais participantes da Arco, como as paulistanas Casa Triângulo e Baró Cruz, ficaram ausentes dessa edição. "Neste ano, só vou visitá-la. Com o panorama pessimista, decidi não participar", diz Maria Baró, uma das sócias da Baró Cruz.
Cena contemporânea
Para a edição deste ano, a Leme investe em nomes emergentes, como o paulista Marcelo Moscheta. Também se destacam artistas já com certo trânsito no exterior, como a peruana radicada na Espanha Sandra Gamarra e o britânico David Batchelor.
A Nara Roesler leva ao evento um staff mais consagrado, com artistas como Abraham Palatnik, representante histórico da arte cinética no país, o cineasta e artista mineiro Cao Guimarães, 44, e o engajado Antonio Manuel, 61, português que chegou ao Rio em 1953.
A Raquel Arnaud apresenta nomes prestigiados, como Carmela Gross, Cassio Michalany e Iole de Freitas. E a Dan investe no filão da arte construtiva, exibindo obras de nomes como Almir Mavignier, brasileiro que participou do concretismo e mora na Alemanha.
Há ainda obras do jovem mineiro Matheus Rocha Pitta (pela Novembro) e a instalação do argentino radicado em SP Nicolás Robbio (pela Vermelho).
fevereiro 9, 2009
Livro mapeia produção contemporânea de arte; leia capítulo, Folha de S. Paulo
Matéria originalmente publicada na sessão Cotidiano da Folha Online, no dia 27 de janeiro de 2009
O livro "Arte Brasileira Hoje" , volume da coleção "Folha Explica", da "Publifolha", traça o perfil de 26 artistas contemporâneos brasileiros e explica tudo o que você precisa saber para entender pinturas, esculturas, desenhos e gravuras contemporâneas.
Assinada por Agnaldo Farias, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos (USP), a obra lida com o tema em diversas frentes profissionais. Destacam-se os textos que aliam a objetividade histórica à análise técnica de obras, tais como aqueles sobre Leda Catunda, Carmela Gross, Ivens Machado e Lygia Pape.
Além de lecionar no curso de arquitetura e urbanismo, Farias foi também curador da representação brasileira na 25ª Bienal de São Paulo.
Como o nome indica, a série "Folha Explica" ambiciona explicar os assuntos tratados e fazê-lo em um contexto brasileiro: cada livro oferece ao leitor condições não só para que fique bem informado, mas para que possa refletir sobre o tema, de uma perspectiva atual e consciente das circunstâncias do país.
O primeiro capítulo pode ser lido abaixo.
Pequeno guia para os perplexos
Este livro, exclusivamente dedicado a um mapeamento da arte contemporânea brasileira, destina-se àqueles que ficam perplexos com muito daquilo que hoje se faz em nome da arte. Por exemplo: aqueles que, dotados de boa vontade, disposição física e sapatos confortáveis, se põem a peregrinar pelos vastos espaços onde acontece a Bienal de São Paulo e lá submergem em meio às instalações, performances, vídeos, obras de fatura conceitual, trabalhos que no geral lhes soam incompreensíveis, inescrutáveis; sucumbem, sobretudo, aqueles que para lá se encaminham tendo em mente que arte é coisa que acontece na forma de pinturas, esculturas, desenhos e gravuras.
O livro é especialmente dedicado àqueles que trocam o que pode haver de estimulante na inquietude e no desconcerto proveniente da incompreensão de algo pela sensação de estarem sendo enganados ou mesmo insultados por ele. A esses a lembrança de que não se deve cobrar transparência de um livro escrito em língua que se desconhece ou não se domina. Por que então cobrar isso da arte, se arte é expressão em toda a sua potência - além da forma e significado da expressão que se emprega cotidianamente, além da realidade que nos é ofertada a cada dia, cujos limites se fecham antes de até onde pode ir a imaginação?
Para começo de conversa, uma obra de Tunga
A fotografia traz o artista sobre uma rocha fustigada pelo mar. De costas para nós, de frente para a água, ele está descalço sobre o chão de pedra corroído, com a barra da calça e as mangas da camisa enroladas, com o corpo retesado e o braço esquerdo deslocado de modo a compensar o esforço que o outro braço está fazendo: sobre sua cabeça, tomando o próprio corpo como eixo, ele gira vigorosamente outra cabeça; uma cabeça cujos longos cabelos ele está agarrando pelas pontas, aparentemente para lançá-la mar adentro o mais longe possível. A cabeça que ele está girando é a sua própria. De acordo com a seqüência de fotos e com o texto que as acompanha - fotos e texto que, juntos, compõem o trabalho Semeando Sereias, de 1987 -,1 ele encontrou a cabeça quando esta boiava numa poça de água criada por uma cavidade na rocha. O texto confirma o arremesso da cabeça ao mar. E descreve como ela ficou batendo nas pedras por causa dos cabelos emaranhados em sargaços e mariscos; e como o narrador tentou desembaraçá-la e, empenhado nisso, esbarrou em novas surpresas.
O nome do autor desse trabalho é Tunga. Ele, assim como vários de seus colegas brasileiros, passa grande parte do ano viajando, realizando exposições aqui e lá fora, alvo de ensaios, de críticas e até de chilreantes crônicas sociais, numa rotina que contrasta com os tempos heróicos, de há bem pouco, quando ser artista plástico no Brasil era invariavelmente empresa árdua, de reconhecimento e rendimento quase nulos, sem o direito trivial de uma conta em banco (que para isso era necessário renda regular), no geral com a vida somente aplainada pela ventura de um bom berço ou por colocar seu talento a serviço da ornamentação das casas burguesas ou mesmo do poder estabelecido. Não que hoje seja um mar de rosas, mas qualquer grande exposição internacional, e os curadores em sua peregrinação pelo mundo à cata de valores, já incorporou a arte brasileira e o Brasil como parada obrigatória. E, quando a imprensa periódica cuida em divulgar os altissonantes valores das Bienais de São Paulo (entre outras mostras temporárias), vê-se logo que pensar em arte hoje significa pensar num negócio rentável, seja do ponto de vista do capital financeiro, seja do ponto de vista do capital simbólico.
Embora tratada como um produto em alta crescente no meio internacional, em nosso país a arte contemporânea brasileira é ainda vista com reservas por um público forquilhado entre a curiosidade e a irritação causada pela dificuldade em compreendê-la.
Semeando Sereias é um exemplo suficientemente intrigante: o que dizer do artista que arremessa sua cabeça ao mar? Em vez do cotidiano contabilizado e confortável, do comércio habitual de mercadorias, atitudes e pequenos sonhos, o espaço em que o artista age fica na fronteira que separa do chão firme, ainda que dilacerado, o mar, a parte móvel do mundo, ilimitada e insondável. Lugar de onde ele volta portando objetos, imagens, textos, à primeira vista incompreensíveis. Com sua pletora de significados, a imagem retirada de Semeando Sereias alinha-se com a experimentação realizada sobre a mistura de narrativas e materiais diversos que move a arte que se produz hoje. E, nesse sentido, a trajetória de Tunga é exemplar - razão pela qual ele é o primeiro artista a ser apresentado neste livro.
Desde o início, no começo dos anos 70, Tunga vem promovendo o "contágio mútuo" (o termo é dele) de coisas díspares. Ainda que aparentemente fechadas e irredutíveis, as coisas - entre elas, nós - podem comunicar-se umas com as outras; até mesmo metamorfosear-se umas nas outras, como no vídeo Nervo de Prata (de Arthur Omar, 1987), em cujas últimas imagens se embaralham um túnel e um sapo que vai sendo devorado por uma serpente. O olho do espectador, por sua vez devorador de imagens, engole um túnel contínuo e posteriormente assiste à engolição de um animal pelo outro.
São inúmeros os materiais de que o artista faz uso, e imenso o recurso a todas as expressões artísticas, da literatura à música e até às disciplinas científicas. Para Tunga, tudo vale, tudo interessa. Desde a matéria mais opaca e densa até aquela intangível - como o charuto e sua fumaça (Barroco de Lírios, 1995), a qual, segundo o artista, é parte indissociável do objeto, num caso em que a continuação da matéria acontece em volutas de ar.
É freqüente que um trabalho de Tunga solicite que se saiba como ele se relaciona com suas outras obras. Nem pintura, nem escultura, nem nenhuma das modalidades expressivas convencionais - onde, enfim, encaixar esse trabalho de Tunga e os à primeira vista inclassificáveis trabalhos de Waltercio Caldas, Artur Barrio e José Resende, entre tantos outros de que este livro irá tratar, trabalhos com os quais deparamos em galerias, museus e bienais dedicados à arte contemporânea?
Arte Contemporânea - Notas sobre uma noção
Primeiro foi o futurismo, e hoje o senso comum identifica "moderno" como sinônimo do que há de mais novo, o mais atual ou mais contemporâneo. Mas, no que se refere a arte, moderno é uma coisa, e contemporâneo, outra. Moderno é o nome de um movimento com características particulares que nasceu na Europa, com variados desdobramentos por quase todos os países do Ocidente, e que entrou em crise a partir da década de 1950. A partir daí, foi sendo substituído por um conjunto de manifestações que, cada qual dotada de peculiaridades, foram, na falta de um nome melhor, reunidas sob a etiqueta simples e genérica de arte contemporânea.
Embora escorado no senso comum, quando aplicado à arte o termo contemporâneo vai além de simplesmente designar o que vem sendo feito agora. Em primeiro lugar, convém observar que nem tudo que anda sendo feito no campo da arte é contemporâneo; do mesmo modo, será prudente alertar que a arte contemporânea não é prerrogativa de gente jovem. Salvo exceções, os jovens artistas possuem trajetórias de início irregular, incapazes de propor um conjunto homogêneo de problemas e enigmas consistentes.
Assim como vamos em direção ao passado movidos por indagações feitas agora, no presente, faz sentido argumentar que é contemporânea toda e qualquer manifestação artística que ressoa em nós. De acordo com esse raciocínio, seria contemporânea tanto uma instalação dos anos 90 do iconoclasta artista carioca Artur Barrio ou uma obra do compositor e maestro francês Pierre Boulez, quanto Las Meninas, a célebre pintura de Diego Velázquez, do século 17, ou uma sinfonia de Mozart, do século 18. Se o argumento é legítimo, por outro lado encontra lá suas insuficiências, notadamente no presente caso, quando se pretende apresentar as novidades ocorridas não tanto no âmbito da recepção por parte do público, que pode sensibilizar-se com uma pintura rupestre, uma estatueta grega do século 5 a.C. etc., quanto no da produção artística propriamente dita. Nesse sentido, é forçoso reconhecer que há um abismo entre Mozart e Boulez, entre Las Meninas e uma instalação do Barrio --em particular uma apresentada recentemente em exposição realizada no Paço das Artes, em São Paulo, com muito pó de café espargido pelo chão, textos garatujados nas paredes, cheiro de urina e dos peixes ressecados pelas pilhas de sal grosso.
Cada obra de arte é em si mesma um sinal de descontentamento. Todo artista, diversamente do comportamento-padrão, em vez de simplesmente satisfazer-se com as obras já existentes, de ficar extasiado pela leitura de um livro, pela contemplação de uma pintura ou pela audição de uma música, prefere ir além: prefere produzir mais um livro ou pintura ou obra musical. Sintoma de uma insatisfação, cada obra de arte traz embutida uma crítica à própria noção de arte e pode mesmo modificar aquilo que entendemos por arte.
Uma vez que o contemporâneo deita suas raízes no período moderno que lhe é imediatamente anterior, sua definição passa necessariamente pela definição desse movimento, o que aqui só poderá será feito em termos simplificados.
Empreendimento temerário, ainda assim
O tema é vasto, e os debates sobre ele seguem caudalosos. Mas, de um modo geral, situa-se o início da arte moderna em meados do século 19, com o realismo de Gustave Courbet, anunciado por ele em 1847, e o impressionismo que o seguiu. A partir daí, a arte paulatinamente se afastou de seus cânones renascentistas, do compromisso de uma representação fidedigna do mundo, com as pinturas e esculturas se ocupando não em fabricar duplos da realidade, mas em afirmar suas próprias realidades. A bidimensionalidade das primeiras, a concretude de seus planos e cores seriam sua nova razão de ser, do mesmo modo que a tridimensionalidade das segundas abandonou a ilustração de temas --o elogio de um herói, a encenação de uma passagem mítica etc.- para encerrar-se numa discussão sobre sua materialidade, sobre o gesto que a formalizou, as peculiaridades de sua volumetria etc.
O desembocar na abstração foi o corolário desse processo de tematização de seus próprios elementos constitutivos, com a arte dando as costas para qualquer relação de ilustração do mundo. Coerente com esse vetor, a persistência das vanguardas em buscar o novo sublinha o desejo dos artistas de manter a experiência estética como fim em si mesmo, longe, como salientou o artista russo Kasimir Malevich em seu Manifesto Suprematista, de 1913, da clássica subserviência à religião ou ao Estado2.
A arte contemporânea nasce como resposta ao esgotamento desse ensimesmamento da arte, com as modalidades canônicas - pintura e escultura - explorando-se, investigando suas naturezas até o avesso. Entre os índices - e são tantos! - desse esgotamento, figuram desde o retorno de questões e fórmulas antes vistas como ultrapassadas -a pintura e a escultura figurativas, de conteúdo político, mitológico etc. - até o florescimento de expressões híbridas, quando não inteiramente novas, como as obras que oscilavam entre a pintura e a escultura, os happenings e as performances; as obras que exigiam a participação do público; as instalações; a arte ambiental etc.
Arte Contemporânea no Brasil
Um livro como este, de dimensões reduzidas e com a intenção de tratar da arte contemporânea no Brasil, deve proclamar logo de saída seu inacabamento. Esse fracasso que com algum descaro se anuncia deriva do fato de a arte contemporânea ser, por definição, algo em processo; algo que, mesmo na qualidade de desdobramento de influentes genealogias, não se limita a reproduzi-las com subserviência. Ao contrário, nega-as expandindo seus limites ou confrontando seus princípios normativos; assume caminhos e formas que elas não prescreveram ou que o fizeram como um impedimento.
Tratar da arte contemporânea no Brasil implica tratar de um universo amplo, embora não tanto quanto o da cena internacional. Fenômeno que se explica não só pela pouca quantidade de artistas, mas também porque o estágio atual da produção artística, embora sirva-se de temáticas, instrumentos e preocupações provenientes de fora, depende em essência do que já aconteceu por aqui, das sendas abertas pelos artistas que vieram anteriormente e que transpuseram os modelos da arte européia para nosso meio, por meio de obras que lograram ressoar na arte produzida localmente. Não foram tantos -Tarsila do Amaral, Cândido Portinari, Vítor Brecheret, Lasar Segall, Di Cavalcanti, Alberto Guignard, Oswaldo Goeldi, Livio Abramo, Iberê Camargo, Sérgio Camargo, Milton Dacosta, Alfredo Volpi, Lygia Clark, Hélio Oiticica, Mira Schendel a lista, não tão grande, prossegue - e até os anos 50 eram como fenômenos isolados, que diante de um meio artístico ainda por ser construído, com poucas obras e raros debates de alto nível, tiraram de si mesmos os parâmetros que balizaram a construção de suas obras. De fato, só a partir da passagem dos 50 para os 60, com as discussões em volta do expressionismo abstrato e sobretudo com o abstracionismo geométrico (concretismo e neoconcretismo), obteve-se a emancipação de nossa inteligência plástica e constituiu-se um solo que, com o tempo, se mostraria grandemente fértil.
No Brasil, sob a genérica etiqueta de arte contemporânea, convivem artistas das mais variadas gerações, responsáveis por obras que vão desde as de raiz eminentemente moderna até as que rompem com esses cânones. Ao primeiro caso pertencem obras de artistas cujas trajetórias tiveram seu ponto de partida nos anos 50 e 60 e que ainda se mantêm perfilados e lavrando sob os mesmos princípios de então, embora expandindo-os, demonstrando que arte não confina com moda. Esse é o caso de Amilcar de Castro, Tomie Ohtake, Franz Weismann, Eduardo Sued, Gilvan Samico, Arcângelo Ianelli, Franz Krajberg, Flavio Shiró e mais alguns poucos. Artistas cuja consagração não rima com cristalização, embora sua raiz moderna sugira que eles não sejam tratados neste livro.
Incluiremos, sim, os artistas que iniciaram suas trajetórias a partir dos anos 60, a maioria na passagem para os anos 70 e ao longo destes, quando produzir arte significava operar na expansão do objeto artístico, seja pela apropriação de coisas e imagens extraídas do cotidiano, seja por radicalizações cada vez maiores, traduzidas em obras mais complexas do ponto de vista conceitual, mais interessadas no plano intelectual dos espectadores do que em suas retinas. Durante esses anos, a arte apostou numa relação mais próxima com o público, e para isso foi estratégico o revigoramento do binômio arte-política. A arte estava duplamente preocupada em efetuar a crítica de um país que se urbanizava avassaladoramente e em romper o amordaçamento coletivo da expressão promovido pela ditadura militar, instituída por meio de um golpe em 1964. Foi em nome disso que as obras abertas à manipulação chegaram aos museus e galerias junto com a busca de lugares alternativos e de outros materiais e suportes expressivos: um fluxo de novidades que punham em xeque a natureza e o papel da arte, de seu circuito, do aparato institucional que a legitimava e a veiculava.
Sob o signo da arte contemporânea, estão também os artistas surgidos nos anos 80, que ficaram conhecidos pela retomada - ainda que em outra chave - das formas tradicionais de expressão, com destaque à pintura, o que, tanto na forma quanto no conteúdo, era índice de um relacionamento com o grande inimigo da modernidade: o passado.
Finalmente, estão os artistas da década de 90, encerrada há pouco, cujas obras em construção confirmam a sensação de uma crise aguda ou mesmo do fim da arte moderna. Obras que se opõem ao projeto de uma linguagem universal e da busca metódica da novidade pela ruptura, que irrompem numa miríade de poéticas originárias das mais diversas matrizes: das que mergulham em referências históricas e pessoais àquelas que parodiam a própria arte e o círculo na qual ela está enredada; das que criticam a idéia de autonomia da arte, preferindo abandonar os suportes convencionais - pintura, escultura etc. - em favor de manifestações híbridas, àquelas que descartam as respeitáveis heranças do neoconcretismo, buscando outras fontes, do barroco mineiro à arte popular, do debate sobre o problema da imagem na vida atual à especulação sobre o corpo e suas pulsões etc.
A Arte Contemporânea entendida como arquipélago
Diversamente do período moderno, com suas correntes e tendências artísticas organizadas em grupos como as vanguardas construtivas, os futuristas, dadaístas, surrealistas e outros, autores de manifestos, fundadores de revistas e até escolas, a arte contemporânea no Brasil, como já foi dito, embora possuindo suas matrizes, avança num número tal de direções e é constituída por obras tão singulares que, tudo considerado, ela sugere um arquipélago. A imagem é boa porque foge do reducionismo das grandes etiquetas, que, ao valorizarem as semelhanças entre as obras de alguns artistas, não atentam convenientemente para as diferenças entre elas. Outros argumentos a favor dessa imagem: em primeiro lugar, a descontinuidade que ela sugere, o que contraria a idéia de que seu desenvolvimento se dá linearmente, com cada obra se apresentando como um desdobramento da anterior; e, em segundo lugar, porque com ela nos afastamos da pretensão de um levantamento total de nosso problema, inviável pela extensão que ele assumiria, incompatível com a proposta deste livro.
Um arquipélago porque cada boa obra engendra uma ilha, com topografia, atmosfera e vegetação particulares, eventualmente semelhante a outra ilha, mas sem confundir-se com ela. Percorrê-la com cuidado equivale a vivenciá-la, perceber o que só ela oferece.
Para melhor levar adiante esse princípio de valorização da obra, o mais adequado será apresentar ao leitor análises de um ou mais trabalhos realizados por cada um dos artistas aqui apresentados. As obras serão comentadas por ordem alfabética de autor. Procedendo desse modo, renovo a lição do poeta Mário Quintana, que, quando indagado sobre o que se deveria ler para compreender Shakespeare, bradou incontinenti: Shakespeare!
Por último, o leitor deverá considerar que este livro corresponde apenas a um mapeamento. Cabe alertá-lo para o fato de que o arquipélago formado por nossa produção é tão rico que seria fácil mapeá-lo a partir de outras obras.
1 -Tunga, Tunga - Barroco de Lírios. São Paulo: Cosac & Naify, 1997.
2 - Em H.B. Chipp, Teorias da Arte Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
"Folha Explica - Arte Brasileira Hoje"
Autor: Agnaldo Farias
Editora: Publifolha
Páginas: 128
Quanto: R$ 18,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha
Justiça condena quatro por furto de obras do Masp, Folha Online
Matéria originalmente publicada na sessão Cotidiano do jornal Folha Online, no dia 6 de fevereiro de 2009
Quatro acusados de envolvimento no furto ocorrido no Masp (Museu de Arte de São Paulo) em 20 de dezembro de 2007 foram condenados na última quarta-feira. A decisão, divulgada nesta sexta pelo Tribunal de Justiça, é do juiz Marcello Ovídio Lopes Guimarães, da 18ª Vara Criminal.
Na ação, os criminosos levaram duas das mais importantes obras do acervo do Masp: "Retrato de Suzane Bloch", de Pablo Picasso, e "O Lavrador de Café", de Cândido Portinari.
O furto expôs a fragilidade da segurança do museu. Não havia alarme, sensor ou seguro para as obras. Após o assalto, o Masp ganhou um novo sistema de segurança.
A Polícia Civil localizou os quadros após sete dias de investigação. As obras foram encontradas em uma casa em Ferraz de Vasconcelos (Grande São Paulo). Foram presos Francisco Laerton Lopes de Lima, Robson de Jesus Jordão, Alexsandro Bezerra da Silva e Moisés Manuel de Lima Sobrinho.
Condenação
Segundo a Justiça, antes de levar as obras, o grupo tentou outros dois furtos - em 29 de outubro e em 18 de dezembro de 2007.
De acordo com a decisão, os condenados foram "procurados por pessoas com interesse nas obras de arte de enorme valor, que somente possuem mercado de venda em outro país".
A pena mais alta foi aplicada a Robson, condenado a nove anos e seis meses de reclusão; Francisco foi condenado a oito anos e um mês de reclusão; Moisés a seis anos e cinco meses e Alexsandro a três anos de reclusão, conforme a participação de cada um no furto. Cabe recurso.
Moisés, Francisco e Robson deverão cumprir pena em regime inicialmente fechado e não poderão recorrer em liberdade. Alexsandro cumpre pena em regime inicialmente semiaberto.
Processo
Segundo o processo, em interrogatório, Moisés confessou envolvimento no crime e informou ter entrado no museu com outras duas pessoas.
Robson negou participação no caso, mas disse ter ido ao Masp em outra ocasião para observar a sala do cofre. Em inquérito policial, afirma o documento, ele confirmou envolvimento na tentativa de roubo ocorrida dois meses antes no local e admitiu ter levado os quadros para uma casa em Ferraz de Vasconcelos.
À Justiça Alexsandro negou participação no caso. Disse conhecer Robson e confirmou que os quadros furtados estiveram em sua casa. No entanto, disse que cedeu a casa dos pais, que já morreram, a um conhecido de Robson.
Francisco negou à Justiça e à polícia envolvimento no caso.
Tentativa de invasão
Em janeiro, a juíza Cristina Escher Fanucchi condenou Robson por uma tentativa de invasão ao Masp, ocorrida em outubro de 2007. Ele foi condenado a seis anos e cinco meses de prisão.
Na ocasião, Francisco, também acusado, foi absolvido por falta de provas.
