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junho 9, 2013

Na era do consumismo, Bienal de Veneza aponta para o espiritual na arte por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Na era do consumismo, Bienal de Veneza aponta para o espiritual na arte

Crítica de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 4 de junho de 2013.

"O Palácio Enciclopédico", exposição internacional da 55ª Bienal de Arte de Veneza, aberta no último sábado, faz jus ao seu título.

Assim como um livro organizado para reunir o máximo de conhecimento possível, a mostra, com curadoria de Massimiliano Gioni, inclui uma vasta produção criativa, boa parte feita por não artistas ou por aqueles à margem do mercado.

Com isso, Veneza aproxima-se da edição mais recente da Bienal de São Paulo, organizada por Luiz Pérez-Oramas em 2012, que teve como eixo central o interno de uma clínica psiquiátrica, Arthur Bispo do Rosário (1910-1989), que também está na seleção de Gioni.

Tanto a mostra italiana como a brasileira apontam para uma leitura da arte expansiva, ou seja, uma produção originalmente não voltada a museus e galerias.

Em Veneza, esse é o caso de figuras como o fotógrafo norte-americano Morton Bartlett (1909-1992), que, somente após sua morte, descobriu-se ser criador de bonecas com as quais convivia como se fossem sua família.

Bartlett é o que se pode chamar de "artista nas horas vagas", assim como outro expoente da mostra, o também norte-americano Achilles G. Rizzoli (1896-1981). Técnico de desenho arquitetônico, à noite ele criava projetos fantasiosos e exuberantes.

Gioni, contudo, apresenta ainda a vertente espiritualizada de uma produção baseada em práticas inusitadas, como a partir de um transe. É o que fazia Hilma af Klint (1862-1944) ao pintar como médium de espíritos.

Esse segmento espiritual é amplo e domina o início da exposição, no Palazzo Centrale, umas das duas sedes da Bienal de Veneza.

Lá, a primeira obra é "O Livro Vermelho", de Carl Gustav Jung (1875-1961), impressionante coleção de ilustrações do psiquiatra, apenas recentemente tornada pública.

Outro destaque da Bienal é uma curadoria de Cindy Sherman: uma exposição dentro da exposição.

De certa forma, ela sintetiza o conceito enciclopédico de Gioni, só que, nesse conjunto, a partir de como imagens representam o corpo --questão central na obra da própria Sherman.

Em sua seleção, ela reúne obras de 30 artistas, além de ex-votos do santuário de Romituzzo, um convento italiano do século 14, e panos pintados por prisioneiros mexicanos.

Ao final, a Bienal de Veneza, que fica em cartaz até 24 de novembro, evidencia a retomada de questões espirituais ou mesmo irracionais na arte, uma temática essencial na era do consumismo globalizado.

Essa questão poderia apontar para um certo escapismo, com a ausência de questões políticas sobre a cena atual, mas Gioni tampouco deixou de lado essa preocupação na seleção de artistas mais contemporâneos, como na obra do alemão Harun Farocki, "Transmission", sobre a criação de objetos sagrados na atualidade.

Se a curadoria da mostra internacional foi mais consistente do que nos anos anteriores, os pavilhões nacionais continuam mantendo grande discrepância.

Há exemplos de alto nível, caso da Espanha, com Lara Almarcegui, França, com Anri Sala, e Turquia, com Ali Kazma, enquanto alguns são constrangedores, caso de Argentina, Venezuela e Tailândia.

O Brasil, na seleção de Oramas, esteve aquém de sua própria Bienal, independente do fiasco institucional de o pavilhão ser inaugurado inacabado. Está na hora de se repensar se o curador da Bienal de São Paulo deve escolher também a representação nacional em Veneza.

55ª BIENAL DE VENEZA
AVALIAÇÃO bom

Posted by Patricia Canetti at 7:24 PM