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agosto 8, 2012

Nova York em chamas por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Nova York em chamas

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 8 de agosto de 2012.

Em agosto de 1964, Andy Warhol, artista morto aos 58, em 1987, plantou uma câmera Auricon numa janela do Rockefeller Center em Nova York com vista para o edifício Empire State. Gravou durante oito horas e emendou os rolos de filme na ordem exata de sua exposição.

Nesse marasmo em que a imagem em movimento mais parece congelada, estava fundido um ícone a outro -Warhol e a cidade onde fez fama e fortuna, o epicentro global das artes visuais na virada dos anos 60 para os anos 70.

Sai nesta semana pela Cosac Naify um livro em que Arthur Danto, um dos maiores especialistas na obra do artista pop, explica por que Warhol virou o mito que virou.

Na esteira do lançamento, surge também "City Boy", autobiografia do escritor Edmund White, que faz uma radiografia artística e sexual da Nova York da mesma época.

Um terceiro volume, lançado nos Estados Unidos, conta em detalhes o levante de artistas que transformaram o SoHo pós-industrial, esvaziado e decadente, em usina potente de criação artística.

Juntos, os três títulos mostram como Nova York informou e definiu a produção de artistas que ajudaram a construir a arte contemporânea da segunda metade do século 20, com reverberações que se estendem aos tempos atuais.

Nascido em Pittsburgh, Warhol sabia que, para entrar para o jet set, precisava estar em Manhattan no momento em que a cidade virou ímã das mentes mais brilhantes do Ocidente e também de vastas fortunas que aportavam na ilha para financiar tempos de excessos nas festas, na arte, nas drogas e no sexo.

Mas Warhol, maior nome da arte pop, sabia que se houvesse uma revolução visual ela partiria não da abstração nervosa dos expressionistas então em voga, como Jackson Pollock, mas da simplicidade e aparente inocência de latas de sopa e caixas de sabão.

"Até Warhol, as pinturas americanas falavam de beleza: jardins, jovens meninas e afins", diz Danto, em entrevista à Folha. "Mas Andy tem um realismo que o torna maior do que todos. Não está no estilo, mas no assunto."

"Warhol andava em busca da essência das coisas", escreve o autor. "Ele tinha ampliado o conceito de artista para uma pessoa que não limita seu produto a um meio em particular. Isso não aconteceria com nenhum outro artista dos Estados Unidos."

"NY era um ferro-velho com aspirações artísticas"

Enquanto Andy Warhol ascendia à fama, artistas migravam para o SoHo

Livros recém-lançados mostram evolução da vanguarda artística em Manhattan até a formação do mercado

Quando Andy Warhol já tinha pintado suas latas de sopa Campbell's e copiado as caixas de sabão Brillo, estava entre os loucos da Factory, o ateliê na rua 47 que um dia decidiram pintar de prata.

"Tinta prateada combinava com a cultura jovem dos seus frequentadores, com a música que dançavam, com o tipo de drogas que usavam, com sua promiscuidade ou ansiedade sexual", escreveu Arthur Danto em seu livro.

Warhol dizia que "a cor prata era o futuro -os astronautas vestiam roupas prateadas- e também era o passado-, a cor metálica das telas de cinema e as atrizes de Hollywood fotografadas em seus cenários prateados".

Quase uma década mais tarde e umas 40 quadras ao sul dali, outra cor, também metálica e menos brilhante, dominava o cenário que suplantaria o glamour fajuto das estripulias da Factory.

"Nova York nos anos 1970 era um depósito de ferro-velho com sérias aspirações artísticas", resume Edmund White em seu "City Boy". "Ninguém abaixo da rua 14 jamais usava gravata ou qualquer outra coisa além de camiseta rasgada, calças jeans sujas e uns tênis ou botas de caubói."

Nessa terra despojada, Gordon Matta-Clark, artista que morreu aos 35, em 1978, resistiu à ideia de arte no cubo branco das galerias, cenário então dominado pelos artistas pop como Warhol, e plantou uma cerejeira no porão de uma fábrica abandonada, o hoje mítico número 112 da rua Greene, no SoHo.

Sua árvore, mesmo no subsolo, floresceu em pleno inverno, símbolo de um movimento que nascia ali, uma escola pautada pela performance, a mistura de disciplinas artísticas e uma ocupação do sul de Manhattan por artistas que viam nas fábricas desativadas da região amplos ateliês com aluguéis baratos.

"Foi como uma tempestade", diz Jessamyn Fiore, enteada de Matta-Clark que narra em "112 Greene Street", recém-lançado nos Estados Unidos, a história do endereço que mudou a geografia plástica de Manhattan.

"Esses artistas queriam fazer obras políticas engajadas, que pensassem o estado da cidade, usando materiais descartados, peças cruas."

LASCÍVIA E VOYEURISMO

Mas, além da política, da cerejeira e de uma ilha que se redesenhava em termos imobiliários, a Nova York de Warhol e Matta-Clark era o terreno do auge dos direitos civis, das mulheres, dos negros e dos gays. Também era um cenário de protesto contra a guerra dos EUA no Vietnã.

Era um clima que favorecia a liberdade sexual. Warhol não escondia sua homossexualidade também por saber que as outras grandes estrelas da arte pop, como Jasper Johns, Cy Twombly e Robert Rauschenberg, jogavam nesse mesmo time.

"Essa foi a era dourada da promiscuidade, o período antes da Aids em que as pessoas não tinham medo de transar", lembra White. "Foi a época da emancipação e de um florescimento da arte."

Danto enxerga com clareza essa liberdade sexual na obra de Warhol. "Andy também tinha um lado lascivo, certo voyeurismo tolo", escreve o autor. "É um desejo de ver e tirar fotografias do pênis, dos peitos dos outros."

ARTE DO BUSINESS

Mais para o fim dos anos 1970, tanto Warhol quanto os revolucionários do SoHo começaram a entrar de vez para o mercado da arte como ele se estrutura hoje, e esse furor da Factory e da rua Greene foi dissipando até arte virar o que Warhol, sucinto, classificou como "business art".

Encerrado seu ciclo de vanguarda, Warhol termina pintando cifrões de dólares, que, ironia ou não, foram um fracasso de vendas. (silas martí)

ANDY WARHOL
AUTOR Arthur C. Danto
TRADUÇÃO Vera Pereira
EDITORA Cosac Naify
QUANTO R$ 49 (224 págs.)

CITY BOY
AUTOR Edmund White
TRADUÇÃO José Rubens Siqueira
EDITORA Benvirá
QUANTO R$ 34,90 (336 págs.)

112 GREENE STREET
AUTOR Jessamyn Fiore
EDITORA DAP-Distributed Art
QUANTO R$ 142,10 (192 págs.)

Posted by Cecília Bedê at 9:43 AM