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agosto 6, 2012

Bienal terá brancura íntima de Absalon por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Bienal terá brancura íntima de Absalon

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 5 de agosto de 2012.

Com 'manifesto da solidão', ex-soldado israelense radicado em Paris é um dos nomes centrais da próxima edição

Obra de artista que morreu anônimo aos 28 anos mistura ações performáticas, vídeo, arquitetura e escultura

Quando Absalon chegou a Paris e foi morar na rue du Temple em 1987, a primeira coisa que fez foi pintar tudo de branco -chão, teto e paredes-, como se expurgasse qualquer traço do passado.

Na capital francesa, Absalon matou sua identidade antiga. Eshel Meir, soldado israelense que desertou alegando loucura, virou Absalon, artista que teve ascensão meteórica na cena parisiense até sua morte por complicações decorrentes do vírus da Aids em 1993, aos 28 anos.

Numa brevíssima carreira, Absalon -nome que adotou em homenagem ao filho rebelde do rei Davi, que foi à guerra contra o próprio pai- criou um repertório de formas que estarreceu os críticos.

Era uma mistura de arquitetura moderna com escultura minimalista e performance, o embate visceral do corpo contra formas construídas, tudo sempre branco.

"Ele quis começar do zero em Paris", conta Susanne Pfeffer, pesquisadora da obra do artista que realizou uma aclamada retrospectiva dedicada a ele em Berlim. "Tudo se reduz a uma linguagem de formas geométricas, até que seu corpo começa a entrar nisso. Ele tinha muita energia, mas sua obra é mínima."

Tão mínima, branca e imaculada, que Absalon também ficou de fora do radar. É quase impossível encontrar registros de suas ações ou ver obras desse artista que desapareceu sem deixar herdeiros, longe de sua família em Israel, que mal acompanhou o que construiu em Paris.

REPARAÇÃO

Na próxima Bienal de São Paulo, em setembro, essa lacuna histórica será reparada em certo grau, com a vinda ao país de um amplo conjunto de suas obras. A maior parte delas passou pelo museu Boijmans Van Beuningen, em Roterdã, onde a reportagem visitou a mostra.

No conjunto estarão três de suas chamadas células, habitações que ele construiu para uma única pessoa, destinadas a um lugar no centro de metrópoles como Nova York, Paris ou Frankfurt. São espaços autossuficientes, inspirados no vocabulário modernista de Le Corbusier.

"Essas obras realizadas no final do século 20 também falam do fim das ilusões modernas, do fim das utopias românticas", analisa Luis Pérez-Oramas, curador da Bienal. "Elas abordam a intimidade existencial do homem moderno, são um manifesto potente da solidão, de defesa ante um mundo que perdeu a noção de privacidade."

No pavilhão da Bienal, desenhado por Oscar Niemeyer, sua obra de curvas e ângulos modernos terá outra leitura, um embate direto com o país de Lygia Clark e Hélio Oiticica, artistas que também construíram ambientes penetráveis, obras imersivas como solução quase terapêutica.

"É como se esses recintos brancos fossem também espaço de luto", compara Pérez-Oramas. "São como os 'Abrigos Poéticos' de Lygia Clark, que podem ser habitados. Trazer Absalon ao Brasil é buscar outro campo de ressonância para sua obra."

INDIVIDUALIDADE

Mais do que instalações, suas células de habitação eram proposições para a vida solitária, um convite ao isolamento como antídoto à loucura da vida na cidade.

"Ele está interessado em sobreviver como indivíduo na sociedade, como manter a individualidade", diz Pfeffer.

Mas Absalon também entende a angústia dessa solidão. Outra vertente de sua obra parece ser uma resposta do corpo às construções que passou a vida arquitetando, como cenários que podem levar tanto à paz quanto à mais aguda insanidade.

Nos vídeos que fez, Absalon digladia com esses ambientes. Ele aparece gritando até perder a voz, de camisa branca contra um fundo branco, numa de suas performances mais conhecidas.

Ele também aparece lutando contra o vazio num vídeo que estará na Bienal, um exercício solitário de esforço físico e exaustão contra o nada. "A arquitetura vai virando corpo, e o corpo vai virando arquitetura", diz Pfeffer. "Esses trabalhos são brutais."

Da mesma forma que faz esculturas a partir das estratégias da arquitetura moderna, Absalon enxerga a vida dentro desses espaços como um elenco restrito de comportamentos, uma lista de atividades coagidas pelo espaço.

Esse repertório é explorado de cabo a rabo em "Solutions", vídeo que estará na Bienal em que o artista tenta executar sozinho todas as ações possíveis entre quatro paredes. Ele toma banho, fuma, dorme e se masturba. Faz tudo em silêncio, vestido de branco contra fundo branco.

Posted by Cecília Bedê at 4:01 PM