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julho 11, 2011

Negócios de família por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Negócios de família

Matéria de Silas Martí originlmente publicada no caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 9 de julho de 2011.

Embalados pela valorização de Lygia Clark, Hélio Oiticica e Leonilson, herdeiros dos artistas se dividem entre cuidados com a memória e lucro sobre o espólio

No dia 8 de novembro de 1968, Lygia Clark fez um desabafo numa página de seu diário. "Estou fodida, meio desesperada", escreveu a artista. "Terei de mudar desse apartamento que adoro porque é caríssimo para mim."

Mais de 40 anos depois, em junho passado, uma escultura sua foi vendida na Suíça pelo maior valor já pago pela obra de um brasileiro, R$ 4,1 milhões. Outro sinal de tempos que mudaram: suas netas abriram uma butique em Botafogo, no Rio, nada longe de onde ela morava, para celebrar sua memória.

Foi na Clark Art Center há uma semana que, com cervejas e canapés vendidos na entrada, cerca de cem pessoas se espremeram entre objetos de design para ver o músico Jards Macalé, amigo de Lygia, ser alvo de uma reedição da performance "Baba Antropofágica", de 1973.

De cueca, ele se deitou no meio do salão para ser coberto num emaranhado de fios coloridos desenrolados de carretéis enfiados na boca de cada um dos participantes -essa foi a primeira reedição do ato desde os anos 1970.

"Cada vez que você faz uma ação, sente uma coisa diferente, meio boba", refletiu Alessandra Clark, mulher loira, alta e de sandálias de strass, neta da artista e designer por trás da loja Clark Art Center. "É meio engraçado."

Horas depois, Macalé estava coberto numa grossa trama de tecido, enredado numa confusão de cores. É um quadro que ilustra a atual posição de herdeiros de artistas como Clark, hoje responsáveis por seu espólio, enrolados com a valorização desenfreada das obras e com a crescente importância da arte brasileira na cena global.

No caso específico dos Clark, as netas, que fazem questão de frisar que não são herdeiras diretas, detêm um monopólio extraoficial sobre os direitos das ações performáticas da avó. "Caminhando", uma dessas ações, ficou de fora da última Bienal de São Paulo por entraves incontornáveis na negociação.

Mas, na loja de Botafogo, o calendário está garantido até o fim deste ano, com performances agendadas para o primeiro sábado de cada mês. São apresentadas sempre com a introdução de um crítico e costumam ter como participantes amigos da artista que estavam presentes no ato original.

Fora dos dias de festa, é possível pesquisar textos e documentos históricos da artista com hora marcada no andar de cima. Não custa nada, mas não é permitido ver a reserva técnica onde ficam obras da coleção da família.

ACERVOS À VENDA
Amigo, colega de geração e confidente de Clark, Hélio Oiticica, que morreu em 1980, tem seu espólio em recuperação numa casa do Jardim Botânico. Depois que um incêndio consumiu 30% das obras há dois anos, a família tenta restabelecer a ordem.

Recém-chegados da retrospectiva do artista que passou por São Paulo, pelo Rio e por Belém, trabalhos originais e réplicas estão amontoados na reserva técnica apertada, agora com sistema de incêndio adequado e controle de umidade do ar.

César Oiticica Filho, sobrinho do artista, está preparando um documentário sobre a obra do tio, embalado pelo hype em torno dele e na esteira da abertura de um pavilhão dedicado às "Cosmococas" no Instituto Inhotim, paraíso mineiro das artes plásticas, no ano passado.

"No começo, vendemos muitas obras para manter o projeto, mas o valor era mais baixo", lembra Oiticica Filho. "Hoje a gente consegue vender até ambientes e penetráveis inteiros, uma política da qual não sou muito fã, mas que é algo importante."

Ou necessário. Em São Paulo, o Projeto Leonilson, que gerencia o espólio de José Leonilson, morto em 1993 e hoje em vias de forte valorização, confessa que vira e mexe reedita e vende obras dele para se sustentar.

São gravuras e pequenas esculturas em bronze produzidas às centenas para dar cabo das despesas mensais de R$ 20 mil da associação.

Espremidas no segundo piso de um sobrado na Vila Mariana, cerca de 1.500 obras de Leonilson correm perigo. "Tem uma falta de segurança total, não tem equipamento de incêndio, não tem alarme nem nada", conta Nicinha Dias, irmã do artista, que gerencia o espaço.

"Segundo minha mãe, Deus protege, mas, às vezes, Deus pode cochilar, não é?"

Posted by Alice Dalgalarrondo at 1:12 PM