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junho 23, 2005

Intriga no Sérgio Porto, por Ana Wambier

Intriga no Sérgio Porto

Matéria de Ana Wambier publicada originalmente no jornal O Globo, na capa do Segundo Caderno de quinta-feira, 23 de junho de 2005

Uma polêmica está rondando o Espaço Cultural Sérgio Porto. A causa da querela é a troca inesperada de comando na curadoria das galerias de arte da instituição. O novo responsável, Luís Cancel, indicado pelo secretário das Culturas, Ricardo Macieira, anulou uma seleção do júri anterior, que já tinha chegado a um resultado com os nomes dos artistas que participariam de exposições ao longo deste ano no Sérgio Porto. A decisão de fazer uma substituição como essa no fim de todo o processo curatorial está causando indignação de parte da classe artística.

As galerias do Sérgio Porto são disputadas porque funcionam como um pequeno salão carioca: todo ano, artistas novos na cena contemporânea das artes plásticas são apresentados ao público em exposições individuais ou coletivas. Embora a polêmica em torno da programação de 2005 tenha sido inflamada agora, ela começou em fevereiro, com a nomeação de Cancel.

Dois meses antes, em dezembro de 2004, a diretora da Divisão de Artes Visuais do RioArte, Cláudia Saldanha, fez um convite à artista plástica Anna Bella Geiger e ao crítico de arte Fernando Cocchiarale para que os três juntos fizessem a seleção e curadoria dos portfólios enviados pelos artistas.

Primeira seleção tinha 49 artistas

Dos quase 200 inscritos, o trio escolheu 49 projetos. Depois de godo o trabalho feito, um decreto de Ricardo Macieira nomeou Luís Cancel como o novo responsável pela curadoria. Sem que Anna Bella Geiger ou Fernando Cocchiarale fossem comunicados, uma nova seleção começou a ser formada. E os pró-labores dos dois não foram pagos pela prefeitura.

Ao assumir o cargo, Cancel anulou a ata do resultado anterior e avaliou ele mesmo os trabalhos inscritos, escolhendo outros artistas para compor as galerias. Desta vez, foram pinçados apenas 13 artistas.

— Nós fomos convidados para fazer o trabalho. Depois de tudo, ninguém nos procurou para dar uma explicação do que estava acontecendo. Não somos mais crianças para sermos tratados assim. Pelo que me informaram, na nova lista constam pessoas que não apresentaram portfólio, foram convidados por fora. Não sei que critérios foram tomados. Mudaram as regras. Mas não compete a mim julgá-las — disse Anna Bella.

O secretário Ricardo Macieira, falando sempre na terceira pessoa, explicou que sua decisão buscava transparência no processo.

— Ninguém entende mais do sistema do Sérgio Porto do que o secretário Ricardo Macieira, que está há 12 anos no comando da cultura nesta cidade — disse ele de si mesmo. — Eles disseram que não receberam o pró-labore? Cadê o contrato? Eu desconheço.


O secretário disse ter escolhido Cancel porque quer mudar o modelo de seleção do Sérgio Porto para uma fórmula mais democrática.

— No próximo ano, o Cancel deverá escolher de cinco a seis pessoas para fazer a curadoria, com o resultado divulgado no Diário Oficial. Neste ano ele fez sozinho porque está na transição. Antes, tinha uma suposta transparência. Eu decidi fazer essa troca porque tenho pavor de "panelinhas". Tinha muita gente que ia me procurar para reclamar da maneira como as coisas eram feitas antes — defendeu o secretário, que, apesar das mudanças, manteve Cláudia Saldanha em seu cargo. À frente da Diretoria de Artes Visuais do RioArte, ela é a responsável oficial pelo processo de seleção do Sérgio Porto.

As galerias de 2005 abrem no fim do mês com as exposições de Chico Cunha (do Rio) e Miguel Trelles (de Nova York). Nenhum deles havia enviado portfólio para o Sérgio Porto, mas foram convidados por Cancel, que manteve, na programação de 2005, seis artistas da lista de Anna Bella e Cocchiarale: Alexandre Monteiro, Marcelo Moscheta, Isabel Löfgren, Albano Afonso, Mauro Espíndola e Cézar Migliorin.

Indignados, os artistas começaram a manifestar suas opiniões num fórum pela internet e chegaram a sugerir uma anulação judicial da nova seleção.

— Não houve oficialmente um edital público, mas uma manifestação de vontade por parte da Cláudia Saldanha em avaliar junto com a Anna Bella e o Cocchiarale os portfólios enviados. Mesmo que não tenha saído publicado em Diário Oficial, é uma manifestação de caráter oficioso na medida em que está sendo feita publicamente pela diretora de um órgão público. Eu acho é que o Sérgio Porto queimou o filme — disse a artista plástica Cláudia Hersz.

Segundo Cláudia Saldanha, sua situação foi a mais difícil, uma vez que ficou entre a decisão da prefeitura e a indignação dos artistas.

— Óbvio que não me sinto confortável tendo iniciado um processo e não ter podido concluí-lo. Mas tem que se entender que este é um cargo político, o de curadoria, sujeito a esse tipo de mudança a qualquer momento. Mas a maneira como tudo foi feito é meio... Isso poderia ter sido evitado, poderia ter sido feito com mais antecedência — disse Cláudia Saldanha.

Ernesto Neto faz manifesto

As mudanças também provocaram artistas que nada tinham a ver com o processo de seleção do Sérgio Porto, como Ernesto Neto, que chegou a escrever um manifesto em repúdio às decisões da prefeitura.

— O grande problema nacional é a fragilidade institucional. O fato de uma comissão ter o seu trabalho abortado e jovens artistas terem seu "sonho" dissolvido já é lamentável. Mas o que acontece é que, amanhã, quando a prefeitura lançar um novo edital, qual será a credibilidade que ela vai ter, que jovem artista sério vai ter confiança e se dedicar a desenvolver um projeto para submeter à prefeitura? A irresponsabilidade do ato autoritário começa a destruir uma obra institucional — escreveu Neto em um documento que tornou público na internet.

No meio de toda a discussão, chegou-se a levantar a suspeita de que Cancel, que é marido de Regina Miranda, diretora do Centro Coreográfico da prefeitura, teria sido indicado ao cargo por questões políticas. O que o secretário nega.

— Ele foi convidado pela qualidade de seu currículo. É um profissional competentíssimo que já trabalhou nas melhores instituições internacionais — diz Macieira, sem se lembrar dos nomes de tais instituições. — Se fosse uma escolha política, já o teria colocado em 2000.

Embora Macieira não se lembre de memória, Cancel tem, efetivamente, um currículo chamativo. Nova-iorquino de origem porto-riquenha, ele foi secretário de Cultura de Nova York, entre 1991 e 1994. Em 2002, atuou como consultor internacional do Museu de Arte Moderna do Rio.

Artistas recusados falam em deselegância

Com apenas 25 anos, Cancel trabalhou como diretor-executivo do Museu do Bronx, onde ficou por 13 anos. Também foi diretor da Cayman Gallery, uma galeria especializada em arte latino-americana no SoHo. Formou-se em artes plásticas no Pratt Institute (Nova York), e estudou no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Além disso, tem mestrado em administração de museus pela Universidade de Nova York e em administração pública por Harvard.

Artistas são recusados em e-mail público

Independentemente do currículo, um pequeno detalhe ajudou a piorar a disposição dos artistas a entender o que estava se passando no Sérgio Porto. A secretária de Cancel enviou, a todos os 163 artistas que tiveram o trabalho recusado na segunda seleção, uma correspondência eletrônica explicando as razões para a rejeição dos seus respectivos trabalhos, o que foi considerado deselegante.

— Tudo o que aconteceu resume uma situação de falta de moral e ética que estamos vivendo nesta cidade e neste país como um todo. Se não fizermos algo pelo menos com relação ao nosso próprio meio de trabalho, ficará cada vez mais difícil viver por aqui. Acredito ser essa uma obrigação de todo cidadão: exigir ética e transparência das instituições públicas. Não falo isso por recalque. Estou em outras duas exposições no Paço Imperial e no Paço das Artes. Falo por civilidade — disse a artista Ana Holck, uma das que haviam sido selecionadas por Anna Bella e Cocchiarale, mas que acabou não fazendo parte da nova seleção de Cancel.

Posted by João Domingues at 1:03 PM | Comentários(1)
Comments

Deus me acuda cada vez mais tenho nojo das panelinhas que se consideram os deuses da arte.

E so trabalham com jogo de interesses

Posted by: Eliane at agosto 30, 2006 8:53 PM
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