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Como atiçar a brasa

 


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maio 5, 2020

CORONAVÍRUS Brasil enfrenta duplo apocalipse com Bolsonaro e coronavírus, reflete Nuno Ramos, Folha de S. Paulo

CORONAVÍRUS Brasil enfrenta duplo apocalipse com Bolsonaro e coronavírus, reflete Nuno Ramos

Artigo de Nuno Ramos originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo em 3 de maio de 2020.

Para artista e escritor, impulso destrutivo do bolsonarismo torna urgente a politização da pandemia

[RESUMO] Revisitando a festa de seus 60 anos no início de março, em momento que já parece muito distante, artista e escritor, neste texto caleidoscópico, reflete sobre o bolsonarismo e a sobreposição do tempo da política e da pandemia no Brasil. Enfrentamos um duplo apocalipse ainda mais assustador por não sabermos se já se instaurou ou está por vir.

*

Neste 5 de março, fiz 60 anos. Depois de muito tempo sem comemorar, dei uma festa consideravelmente grande no quintal aqui de casa, de onde escrevo este texto. Foi uma espécie de Baile da Ilha Fiscal particular.
 
Por um triz, não me tornei patrocinador de uma fonte trágica de contaminação. As fotos e os vídeos que ainda me mandam, com todo mundo abraçado, dividindo um copo, parecem de outra era ou planeta.

Que eu tenha entrado nesta categoria oficial, “idoso”, em sincronia perfeita com o fechamento epidêmico, é uma dessas ironias que trazem consigo todo o resto do pacote. Uma casa isolada em meio a uma pandemia tem mesmo um quê de asilo de velhinhos.

No entanto, há um duplo apocalipse rugindo lá fora. A hora em que inevitavelmente coincidiriam, em que o primeiro (o bolsonarismo) se renderia ao segundo (o vírus), unificando o horror, parece não chegar nunca, num sequestro permanente de significados públicos em que os motivos individuais (o “idoso” a que passo a pertencer) perdem qualquer relevância.

Mais: será mesmo que a grande cisão (esta que o baile anunciaria) já chegou ou estará ainda por vir? Qual degrau exatamente de nossa peculiar descida aos infernos alcançamos até aqui?

*

Há um sentimento constante que me acompanha por todo o labirinto da casa —a raiva. Estou exausto de raiva.

A lenta e inexorável naturalização do absurdo em que a vida política brasileira se transformou, ao menos desde o impeachment de Dilma Rousseff, com um duplo twist carpado a partir da eleição de Bolsonaro, chegou, finalmente, à minha mais profunda intimidade. É no corpo, não na mente, que a sinto.

Sob o comando, e a ameaça, de dona Macroeconomia, essa rainha da “Alice no País das Maravilhas” mandando cortar todas as cabeças que vê pela frente, fomos emparedados a ponto de aceitar que um ser que limpa o nariz e em seguida estende a mão à população, durante a mais violenta pandemia desde a gripe espanhola, seja nosso presidente.

Além de dona Macro, foi também uma estranha balança, que punha este... —como chamá-lo?— numa ponta, e Lula ou o PT ou a esquerda ou o populismo ou “Moby Dick” ou o que fosse na outra, como se mensuráveis por um só mecanismo.

O que se naturalizou aqui foi a anomalia completa de uma das extremidades, o bolsonarismo, como parte do jogo. Não era.
 
Não foram apenas financiamento corrupto da vida pública nem irresponsabilidade fiscal —que teriam derrubado um presidente, mas não o próprio sistema democrático, entronizando seu pior inimigo— que nos trouxeram até aqui.

Fomos também vítimas de uma rainha criminosa-serial (“Cortem a cabeça dele!”), a quem ninguém lembrou de dizer que era, ela mesma, uma entre as demais cartas do baralho (como fizeram Alice e a atual pandemia), e da apropriação indébita de um instrumento arquetípico de justiça —uma balança abstrata, pendurada por toda parte, equalizando o que não podia ser equalizado.

*

Agora, aguente. Passeio entre o sentimento cosmopolita-viral que nos une a todo o planeta e a mediocridade provinciana, encarnada num maluco.

De um lado, o sofrimento italiano, por exemplo, me oferece um lugar. Gilberto Gil cantando “Volare” com a netinha. Pertenço àquilo. De outro, o rosto odioso num pronunciamento que não quer dizer nada, pois será desmentido daqui a duas horas em algum Twitter.

Tenho nojo até da contração facial, ela mesma autoritária. Entre a expansão piedosa, planetária, e a contração raivosa, local e claustrofóbica, tento acertar meu passo.

*

Em primeiro lugar, como chamá-lo? Não quero brindá-lo com o pronome das eleições —ele, não—, que me parece quase nobre.

Sou da época em que um locutor radiofônico usava esse mesmo pronome quando Pelé pegava na bola: ele.

Como chamá-lo, então? Tirano? Imbecil? Genocida? Há uma casualidade em seu percurso que a facada, mais do que qualquer outro episódio, encarna —este poderia-não-ser-assim enfumaça seu contorno e torna difícil a nomeação.

O pesadelo de tê-lo por presidente continua inacreditável: como nomear aquilo em que não se acredita?

*

Que Bolsonaro quer o poder parece óbvio. Afinal, fala em reeleição desde o segundo dia de mandato e pensa num golpe desde o primeiro, chegando a implorar por cenas de rua, à la Chile, para promovê-lo.

Porém, tenho que confessar minha dificuldade em entender para que quer o poder. Não consigo organizar direito isso em minha cabeça. Para que o capitalismo mais descontrolado impere, os ricos fiquem ainda mais ricos e os direitos dos deserdados desapareçam de vez?

Com certeza, mas é preciso confessar que haveria formas mais precisas e econômicas de fazê-lo. O próprio vírus lhe ofereceu uma oportunidade de acesso a grupos que lhe renderiam um verdadeiro passe livre, imperial e reformista. Escolheu, no entanto, apostar exclusivamente em seu próprio grupo identitário, perdendo os demais.

Para promover, então, o retorno de valores arcaicos ou tradicionais (família, religião)? Porém, não há nada tradicional num incendiário de quartéis ou num defensor do estupro, muito menos naqueles que o cercam.

Sua ideia de poder parece, antes de mais nada, a de sacanear e agredir alguém, um inimigo verdadeiro ou imaginário —ou o primeiro que passar. É assim que o bolsonarismo entende o mundo: alguém precisa urgentemente sofrer, perder, apanhar. Ser caluniado. Morto.

Há algo pré ou pós político aqui (ou, se se quiser, num sentido mais antropológico, de essencialmente político) —a simples potência de agressão, isolada e disfuncional, perturbando a todos o tempo todo, pensando apenas na própria reprodução e ameaçando por dentro os projetos que veicula.

Difícil formular isso, trazer esse bicho às palavras. Levado até o fim, deixará de pé um único e último otário, o próprio Mito, os olhos voltados para trás, como o anjo de Benjamin, mas, ao contrário dele, rindo da merda que fez.

*

Tentei o Hermógenes. Não é o Hermógenes.

*

O tempo da pandemia, entre nós, é o tempo mesmo da política. São idênticos. Claro que há, em qualquer país, contágio entre as duas coisas, mas aqui sobrepõem-se à perfeição.

Pois é próprio de um impulso como o do bolsonarismo entrar nas coisas o tempo todo e sempre pelo revés, pelo ralo, pelo incêndio, pelo tornar pior e mais violento. Não há hiato, não há pausa, e a identidade em seu sentido mais pobre, o permanecer assim, o reaparecer igual, é seu núcleo.

Ao invés de despolitizar o vírus, portanto, será preciso, de nosso lado, politizá-lo loucamente. E não é para fazer isso depois, quando a quarentena terminar (essa miragem). É agora. A luta mais chocante está acontecendo neste exato momento —pessoas são mandadas à morte.

Esses grandes sacanas, esse combo de ressentimento popular com sadismo de elite, não para nem vai parar nunca. Sofrem, como os zumbis dos filmes B, de uma fome que não pode ser saciada.

Nós é que temos de pará-los, mesmo fechados em casa. Nossa quarentena não deve ter nada de doméstica. Não pode ser feita de minisséries, leituras de Proust, cuidados com orquídeas. Nossa varanda deve se transformar, não sei como, numa arena pública.

*

Como reagir a tamanha falta de vergonha, que começa por chamar esse mico de Mito? Seria um Trickster, então, uma dessas divindades perversas, um Hermes ou Loki, que pousou em Brasília?

Claro que não. Pois não há uma “inteligência astuciosa” aqui, uma Métis grega —apenas a luz branca da violência iluminando a triste cena que ela mesma cria.

Pois o patrimônio político de Bolsonaro não é propriamente político, é a violência estrita. Sua entronização, no limite, vem do crescimento progressivo, até 63 mil por ano, dos mortos por assassinatos que assombraram, por mais de duas décadas, os governos democráticos, sem que nada fosse feito. São esses mortos que se cansaram de nós, ligaram o foda-se e entronizaram seu próprio carrasco.

Nesse sentido, há muito mais, e muito menos, em Bolsonaro que a execução extremada e desvergonhada do projeto da direita mais perversa (flexibilização radical dos direitos trabalhistas, culpabilização e abandono permanente dos excluídos à própria sorte etc.).

Isso tudo ocorre, e em níveis altíssimos, pois não se perderia uma oportunidade dessas. É preciso reconhecer, porém, que Bolsonaro também confunde esse projeto e que jogou fora a oportunidade de maximizá-lo ainda mais.

*

Até a pandemia, creio que o país se dividia em três fatias: 1) os bolsonaristas, para quem o mundo inteiro se resume a: a) bolsonaristas, b) comunistas, c) corruptos; 2) os naturalistas, para quem o bolsonarismo seria administrável, em especial se dona Macroeconomia nos encarasse com simpatia; 3) os catastrofistas (e eu entre eles), para quem a destruição universal e minuciosa que o bolsonarismo pressupõe seria sempre impossível de pagar.

Bem, ainda que levemente declinante, o primeiro grupo mantém-se estável, independentemente do que o presidente faça. O segundo, depois da pandemia, é que vai migrando velozmente para o terceiro grupo. Alguma coisa meio estranha no jeito dos zumbis andarem parece afinal ter chamado a atenção dos súditos da rainha Macro.

O bolsonarismo simplesmente não funciona. Tem dificuldade para amarrar o sapato, chamar um táxi, assinar o nome. Que dirá de organizar uma prova do Enem. Seu barato, de fato, não é funcionar, mas destruir, caluniar, mentir. Não dá para contar com ele.

Assim, bastava que naturalistas e catastrofistas negociassem suas versões de nossa história recente e mandassem essa excrescência para seu devido lugar —aqueles 20% de fascistas estridentes que nunca alcançam o centro do poder.

Confesso que acreditei, durante as últimas eleições, que isso fosse possível (e não foi). Além do mais, exatamente porque essa excrescência alcançou o poder, o antigo país não está mais disponível. Foi profunda e irrevogavelmente transformado pelos 16 meses de bolsonarismo.

A mitologia de dois gêmeos inimigos (PSDB e PT), servidos por um primo cruzado tosco (PMDB) e lutando para negar a mútua identidade, já não serve. Perdemos seus defeitos, mas, também, e principalmente, suas virtudes.

Pois há um patrimônio unificado da Nova República, de Itamar a Dilma, que estamos passivamente deixando rifar, já que ninguém o reivindica em sua totalidade —o SUS, a universalização do ensino, a estabilização da moeda, o Bolsa Família, o acesso de etnias minoritárias ao ensino superior, a potencialização do Sistema S, a demarcação de terras indígenas.

Todos com problemas em escala atlântica, mas incrivelmente generosos. Todos dependentes de instituições intermediárias, famosas ou anônimas, como um halo de bondade que mantém o país de pé, e que o bolsonarismo vai cuidadosamente aniquilando. Há algo comum a esse patrimônio que, por isso mesmo, ninguém chama a si.

Pois é difícil vencer a pergunta fatal, que divide irremediavelmente os dois grupos: como pudemos chegar a uma barbaridade dessas? Difícil ignorar a potência deste ato expiatório —culpar— e simplesmente seguir adiante, colher os destroços pelo chão e reconstruir o país.

Essa resposta teremos de dar, antes de entrar em qualquer palco: vamos para o pau expiatório (como faz Ciro Gomes) ou, diante de uma emergência viral-política muito maior, dormir com o antigo inimigo (mas não com o atual)?

*

“Que país é este?” ou “Brasil, mostra a tua cara” era o que a gente ouvia muitas vezes numa pista de dança, nos anos 80, quando eu tinha 20 anos.

Hoje, no quintal da minha quarentena, o país chega a mim sob a forma exclusiva da distância e do longínquo, na vaga textura de um grito batendo contra o arrimo do muro. É deste lugar em suspenso, sem poder sair de casa, que recuso, por falsa, a cara que ele me mostra, faz mesmo questão de mostrar, sem vergonha nenhuma.

Algo daqueles quadros de De Chirico, com suas locomotivas perdidas numa espacialidade enorme, vem à minha memória. O “como é doce a perspectiva!”, com que Paolo Uccello se referia à espacialidade renascentista, aparece aqui transformado num esquema vazio de onde qualquer movimento foi excluído e em que os passos humanos, se ensaiados, perderiam toda a potência.

É o oposto exato do futurismo de Marinetti, aquele entusiasmo cinético que leva, no entanto, à guerra. O mundo de De Chirico é um “mundo sem nós” —por sua fumaça imóvel é mais difícil o fascismo entrar.

Porém, esse eco que bate no muro, onde procuro alguma coisa que faça sentido, será atropelado em breve pela gritaria da TV, do UOL, da frase aflita, da boataria. Por isso sei que devo me orgulhar do que não sei, e essa frase é mais preciosa para mim do que sua banalidade socrática.

Ainda que em regime de urgência, devemos ter paciência com nossa dificuldade de formulação. Quem interpreta o Brasil hoje, e com boçalidade inédita, são os próprios zumbis. Têm explicação para tudo. O atirador da Virgínia manipula melhor que ninguém o código Brasil, que lhe serve de fundo a todas as brutalidades.

Há um maoísmo às avessas nessa gente, começando tudo do zero. Pois a eles basta inverter. Vivem de um parasitismo por inversão, mas ainda simétrico, sem criação nenhuma. “A escravidão fez bem aos povos escravizados”, por exemplo.

Precisamos, em contraposição, honrar certo silêncio, levar a sério estes amuletos da empatia linguística: talvez, veja bem, você não acha que etc. Os índios da América do Norte referiam-se aos brancos como “uma espécie zoológica que faz uso imoderado da fala” (Lévi-Strauss, “A Oleira Ciumenta”). Os bolsonaristas são herdeiros desses invasores falastrões. Hoje, a estridência é bolsonarista.

*

Se algo em nossa cultura “pegou” o bolsonarismo e adjacências terá sido o cinema marginal, 50 anos atrás, na virada das décadas de 60 e 70 —um período de nosso cinema, no entanto, essencialmente estridente.

A falta de horizonte explicitamente político (ao contrário do pai fundador, Glauber Rocha); o consumo como dejeto, quase lixo; a tensão e a duração de cada plano, como se o filme acabasse a cada vez que um plano termina; a coincidência meio documental do tempo do plano com o tempo do real; a violência como forma genérica do filme —tudo isso foi compondo um corpo de resistência inconfundível.

Se as personagens giram e giram numa loquacidade sem fim é porque o chão coletivo, político, simbólico, o que seja, dissolveu-se debaixo delas com o golpe dentro do golpe (o AI-5) e também com o milagre econômico. Gritam o próprio nome para que não derretam à nossa frente. Presas num autocircuito de gestos, vestuário, frases, alcançam uma continuidade que lhes falta historicamente.

“Eu fracassei.... tinha de avacalhar”; “A solução para o Brasil é o extermínio, o extermínio total”, diz o Bandido da Luz Vermelha. Tudo foi traído, e ainda num clima nacional megalômano (com dona Macroeconomia uivando: “Milagre! Milagre!”). Matar a família (“Matou a Família e Foi ao Cinema”); compartilhar a mulher (“A Mulher de Todos”); fundir o consumo ao crime (“O Bandido da Luz Vermelha”); a própria tortura (“Hitler Terceiro Mundo”) —todos os valores foram examinados, devastados, parodiados, furados com faca e muito, muito sangue.

São filmes que tomam, assim, essa virada de década pelo que de fato era: uma (sedutora) fraude. A partir dessa fresta, o cinema marginal liberou sua energia empoçada, superando contradições entre a alta e a baixa cultura, o feminino e o masculino, o profundo e o superficial, o irresponsável e o político, em termos diferentes do que tinha feito o tropicalismo. Em termos inegociáveis.

É esse o tônus que volta a nós, agora. Como representar esse bando de abutres, ou mesmo diante deles? Por essa fresta, respondem esses filmes, e somente por ela, nos termos do nosso próprio contrato, é que o real poderá um dia nos recompensar.

Com Luiz Gonzaga, por exemplo, cantando “Boca de Forno” no alto do morro (“Sem Essa, Aranha”, 1970), num “travelling” interminável. Será que o cinema brasileiro alguma vez filmou tamanha realeza e alegria?

*

Alonguei-me ao evocar o cinema marginal, talvez porque nessa evocação haja algo paradoxalmente tranquilizador: para ele, o apocalipse já tinha se instaurado. Havia um chão “negativo” diante de si, dado pelo AI-5, a fossa mais profunda do inferno de 64, e pelo milagre econômico, este aliciador dos condenados.

E nós? Já atingimos o fundo? Pois, para tornar mais pessimista um mote lindo de Arnaldo Antunes, o real resiste, sim, mas também do lado de lá. Até onde vai o bolsonarismo?

No caso do primeiro apocalipse, a pandemia, há alguns termos fixos que organizam a cena—isolamento social, número de mortos etc. Porém, o que dizer deste nosso segundo apocalipse, exclusivo e particular? Tanques ocuparão as ruas? Haverá impeachment? Veremos F-10s a toda velocidade disparando arminhas e armonas contra os prédios de Higienópolis? Coveiros em greve? Milicianos impondo quarentena? Estamos durante, antes ou depois do nosso destino?

*

Li na internet a seguinte pergunta: como um fascista mente?

Bem, ele não mente —desmente. Ele nega o que disse e nos acusa de tê-lo dito por ele. Ele cria uma câmara de ecos em que a energia do que disse, do seu “ato” verbal, já se perdeu, e é nessa perda mesma que ele investe.

Um fascista mente sem gramática, não por ignorância (errar a gramática não é nunca um problema), mas porque precisa de uma dispersão linguística que beire o ininteligível e onde, embora o sentido do que diz seja claro (por exemplo, “dar um golpe”), o contrário também estará dito, numa frasezinha lateral e aparentemente sem sentido, para que possa ser resgatada, caso necessário. Mais do que de falsidade, a mentira fascista é um caso de covardia.

Lembro de um trecho de um ensaio famoso de Lévi-Strauss (“Introdução à Obra de Marcel Mauss”), em que ele afirma que a linguagem teria nascido de uma só vez —haveria, por isso, e para sempre, um excedente do significante sobre o significado (mais possibilidades de significação do que significados efetivamente adquiridos), numa “servidão de todo pensamento finito mas garantia de toda arte, poesia, invenção mítica”. A mentira fascista é o contrário disso. É o aprisionamento desse significante numa câmara onde, como pássaros batendo contra o vidro, os significados repetem-se sem parar, até deixá-lo exausto, em choque.

*

Há uma figura mítica, telúrica, que atravessa as mais diversas culturas —o anão sem ânus, espécie de titã da retenção. Defecar é, em alguma medida, separar-se de si, e é isso o que essa figura problematiza.

Embora liberadora do grotesco, a energia do bolsonarismo vem dessa mesma região. Pois esse festim espalhafatoso esconde, como mostra a comparação com o cinema marginal, o seu avesso. É para reter, prender, conter, sob um escombro qualquer de autoridade, que ele veio ao mundo.

Que Bolsonaro não tenha mostrado seu sangue depois da facada, apenas seus dejetos intestinais, é prova desse pertencimento. Foi ao revelar publicamente, num saquinho de colostomia, a matéria de que é feito, que Bolsonaro, fugindo aos debates televisivos (a um tipo qualquer de logos, digamos), firmou-se país afora. A facada trouxe à luz o que não conseguia sair por falta de ânus. Não o sangue vermelho dos mártires, mas o marrom de um dejeto intestinal. Bolsonaro é um anão sem ânus.

SENTEM-SE E NEGOCIEM
À vontade, velhas raposas prateadas.

Vamos emparedá-las num

[palácio esplêndido

Com comida, vinho, boas camas e fogo

[...]

Aqui fora, no frio, esperaremos nós,

O exército dos mortos em vão,

Nós do Marne e de Montecassino,

De Treblinka, de Dresden e Hiroshima.

[...]

Ai de vocês se saírem em desacordo:

Serão esmagados pelo nosso abraço.

Somos invencíveis porque vencidos.

Invulneráveis porque já extintos:

Nós rimos de seus mísseis.

Sentem-se e negociem

Até que suas línguas sequem:

Se persistirem o dano e a vergonha

Nós as afogaremos em nossa podridão.

*

O poema é de Primo Levi (utilizei a tradução de Maurício Santana Dias, em “Mil Sóis”, ed. Todavia, 2019). Diante do que parece uma negociação política (um tratado de limitação de armas atômicas?), Levi convoca os mortos. São eles que oferecem aos negociadores cama, comida, calor. São eles também que mostram paciência, como simpáticos tutores.

O pressuposto do poema é que os vivos, nesse caso os políticos, estão inteiramente em suas mãos. São aqueles “invencíveis porque vencidos / invulneráveis porque já extintos” que dão as cartas. Mas se algo sair errado... tomem cuidado conosco... serão esmagados por nosso abraço.

Chegou a hora de o Brasil convocar seus mortos. Não os mais famosos, as pessoas exemplares, os santos, as figuras históricas, aqueles cujas biografias são lembradas nos jornais, em nomes de rua. Involuntariamente, esses já pertencem, estátuas de bronze em plintos de pedra, ao fio de horrores que nos trouxe até aqui.

Precisamos dos mortos anônimos, recentes, mandados por seu presidente aos hospitais sem leito, para que morram afogados numa maca. Precisamos de cada criança levada por uma bala perdida, a quem ninguém lembrou de explicar o que quer dizer essa palavra, perdida. Precisamos de cada cabecinha sob a mira oficial de um fuzil. Precisamos dos mortos por motivo fútil —por um desconhecido, um vizinho, um rival no trânsito, um ex-amigo, um parente, a quem pareceu tão “natural” fazer isso.
 
A banalidade que alcançamos agora não é a do mal, mas a da morte mesma. Precisamos da indiazinha contaminada pelo vírus que o pregador trouxe na Bíblia. E se não nos comportarmos à altura, se não fizermos o que devemos fazer (e com certeza não estamos fazendo), que venha o abraço de podridão dessa gente.

Nuno Ramos, artista plástico e escritor, é autor de ‘Ensaio Geral’ e ‘O Mau Vidraceiro’, entre outros livros.

Posted by Patricia Canetti at 1:56 PM

maio 4, 2020

Galerias se unem contra a feira SP-Arte para reaver dinheiro de edição cancelada por Clara Balbi, Folha de S. Paulo

Galerias se unem contra a feira SP-Arte para reaver dinheiro de edição cancelada

Matéria de Clara Balbi originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 30 de abril de 2020.

Evento acusado de recusar negociações anunciou que ficaria com parte dos valores pagos, mas afirma estar dialogando

Cerca de 80 das 159 galerias de arte e design que participariam da SP-Arte neste ano se uniram para exigir a devolução de seus investimentos na feira, suspensa por causa da pandemia do novo coronavírus.

Em comunicado enviado no início do mês, a SP-Arte tinha informado que só devolveria aos expositores um terço da quantia que eles deviam –os outros dois terços seriam usados para pagar pela montagem do evento, em curso quando ele foi cancelado, e para adiantar o aluguel de um estande no ano que vem, respectivamente.

Uma participação na feira começa nos R$ 50 mil e pode ultrapassar os R$ 100 mil. Na avaliação dos galeristas, dois terços de quantias dessa grandeza podem significar a sobrevivência ou não de muitas casas durante a pandemia, em especial daquelas menores.
 
Além disso, eles dizem que, num cenário de incerteza como o atual, não faz sentido oferecer como compensação um desconto numa feira futura. "As pessoas não sabem se vai ter feira ou se estarão vivos no ano que vem", diz Paulo Kuczynski, do escritório de arte de mesmo nome.

As negociações com a SP-Arte são conduzidas por duas entidades de classe, a Abact, Associação Brasileira de Arte Contemporânea, e a Agab, Associação de Galerias de Arte do Brasil. Presidente da primeira, Luciana Brito conta que as conversas começaram há exatas três semanas, assim que a notificação da SP-Arte chegou.
 
Então, elas tinham oferecido que apenas as casas mais robustas tivessem uma parte do investimento retido. Enquanto espaços menores, considerados mais vulneráveis à crise do coronavírus, seriam eximidos de qualquer pagamento, os de arte contemporânea e do mercado secundário, que lida com trabalhos vindos de coleções anteriores, pagariam 5% e 10%, nesta ordem.

Diante da recusa da SP-Arte de avançar nas negociações, no entanto, a proposta caiu. Agora, segundo Brito, a conversa foi assumida por advogados.

Diretor da Agab, Ulisses Cohn afirma que o imbróglio gira em torno de uma questão conceitual. Enquanto a feira enxerga as galerias como sócios que, portanto, teriam que tomar parte no prejuízo, elas, por sua vez, alegam que são clientes de uma empresa independente.

Outros galeristas criticam ainda a forma como a SP-Arte tem conduzido a situação. Além da falta de transparência em relação a valores —alguns expositores afirmam desconhecer, por exemplo, o tamanho do prejuízo ocasionado pelo cancelamento—, sua diretora, Fernanda Feitosa, é vista como intransigente, irredutível.

Em nota, Feitosa afirmou que os números que concernem ao cancelamento foram expostos às entidades Abact e Agab. Também disse que a qualificação de sua conduta como inflexível "não procede", e lista as quatro reuniões realizadas entre as partes, além de contatos nesta semana como prova disso. "O tema é complexo e requer múltiplas interações tanto nossas como de nossos assessores."

Enquanto isso, um galerista que preferiu não se identificar afirmou que a diretora da SP-Arte está negociando individualmente com espaços menores e oferecendo devolver parte do dinheiro deles de volta. A estratégia é vista por ele como desleal com o restante da classe, que negocia como um bloco.

Sobre a acusação, Feitosa respondeu que, em respeito ao pedido de certos galeristas e das associações, os diálogos estão se dando com os interlocutores das entidades. Mas, continua, "não irei me omitir de conversar com clientes e amigos quando procurada, como é muito comum", embora ressalte que nenhuma dessas conversas constitui um processo de negociação.

"Desde que criamos a SP-Arte, sempre balizamos nossas condutas e ações dentro da absoluta legalidade, e não seria nesse momento extremo de crise, que afeta a todos, que nos afastaríamos desses valores", afirma a diretora em nota.

"Reforço que tendo em vista nosso comprometimento com nossos clientes e com o setor, estamos dispostos e engajados para discutir formas de composição para mitigar os prejuízos de todas as partes, continuamos nessa incessante busca de uma alternativa que vise conciliar os interesses de todos, principalmente os mais vulneráveis, que sofrem com esse momento tão duro e que atinge a sociedade como um todo."

"É uma coisa arbitrária o que ela está fazendo. Todas as feiras do mundo assumiram as perdas e devolveram o dinheiro", diz Luisa Strina, uma das mais poderosas do mercado de arte nacional. Ela menciona a Art Basel que, em nota enviado no início da semana, garantiu que devolveria o dinheiro dos expositores integralmente caso nenhuma de suas feiras deste ano venha a acontecer.

"O que a feira está deixando de perceber é que, ao não retornar esse dinheiro, ela põe em risco não apenas a sobrevivência desta ou daquela galeria, mas de toda uma cadeia alimentar que vai de vendedores a artistas", afirma Thiago Gomide, da Bergamin & Gomide. "Por mais que a feira esteja numa situação difícil, ela precisa pensar no setor como um todo. Porque pode ser que no ano que vem não haja mais cem galerias, mas só 60."

"Infelizmente, parece não haver a compreensão de que uma feira só existe em função das galerias", diz Karla Osorio, da galeria de mesmo nome, em Brasília. "Nesses 15 anos de existência, a SP-Arte conseguiu uma coisa impensável, que foi a união do setor. A pena é que seja contra ela. Nossa esperança é de que isso seja percebido a tempo de ser resolvido em benefício de todo o setor."

É a esperança também daqueles à frente das negociações, os presidentes da Abact e da Agab, que afirmam querer que ela continue como um dos pilares do cenário artístico do país. Brito diz inclusive que anseia por uma resolução do conflito já na semana que vem.

Caso o embate se estenda, no entanto, profissionais do setor temem que ele prejudique o clima da próxima feira, contaminando tanto a vontade dos galeristas de construir estandes vistosos quanto o apetite dos colecionadores.

Sem falar que, por causa da crise do coronavírus, é possível que a feira já saia esvaziada no ano que vem. Luisa Strina, por exemplo, afirma que diminuirá de oito para dois o número de eventos do tipo de que participará. "Eu vou fazer a Art Basel e outra feira onde sou bem tratada."

Posted by Patricia Canetti at 4:44 PM

Projetos lançados durante a pandemia bagunçam a lógica do mercado de arte, Folha de S. Paulo

Projetos lançados durante a pandemia bagunçam a lógica do mercado de arte

Matéria originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 1 de maio de 2020.

Iniciativas como 300 Desenhos e Quarantine promovem compras às cegas para ajudar artistas e organizações

Um mês e meio de pandemia bastou para o campo das artes criar uma série de iniciativas inovadoras, que buscam não só fortalecer o próprio setor como as comunidades mais vulneráveis à Covid-19.

Só nesta sexta (1º), foram lançadas duas delas.

A primeira é a 300 Desenhos, que convidou 300 artistas a doarem um desenho em formato de uma folha A4 cada um. Ao misturar nomes iniciantes e consagrados —participam Adriana Varejão, Ernesto Neto e Jac Leirner, por exemplo— ele anula as regras tradicionais do mercado de arte, em que o preço dos trabalhos depende fortemente do nível do reconhecimento do artista.

Afinal, por ali, todas as obras têm um valor único, R$ 1.000, muito abaixo do que costumam custar peças de medalhões como os já mencionados. Ao mesmo tempo, é impossível selecionar o desenho a ser comprado. A escolha é aleatória, realizada por um algoritmo.

A campanha vai até o dia 10 de maio, e o dinheiro arrecadado será doado a três organizações, a Apib, Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a ​Habitat Brasil, de construção e melhoria de residências, e a Cufa, a Central Única das Favelas, que atua em comunidades e periferias de todo o país.

O segundo projeto é o Partilha, mais voltado para o mercado de arte. Nele, 17 galerias lançam uma seleção de obras vendidas em condições especiais —a cada aquisição no mês de maio, o comprador ganhará um crédito de igual valor para novas aquisições de outros artistas da mesma galeria.
 
São elas a Aura, a B_arco, a C.Galeria, a Casanova, a Desapê, a Eduardo Fernandes, a Janaina Torres, a Karla Osorio, a Mamute, a Mapa, a Lume, a OMA, a Periscópio, a Sé, a Soma e a Ybakatu.

Por agora, o objetivo é manter os profissionais que atuam no setor —que vão de artistas a montadores, fotógrafos e técnicos— ativos. O projeto também diz que doará recursos para instituições filantrópicas como Casa Chama, Lá da Favelinha, Lanchonete, Por Nossa Conta e Salvando Vidas.

Lançado já há alguns dias, o Quarantine, pensado pelas artistas Lais Myrrha e Marilá Dardot, pela crítica Cristiana Tejo e por Julia Morelli, fundadora da plataforma 55SP, tem uma lógica parecida com a do 300 Desenhos.

A iniciativa convidou mais de 40 artistas em diferentes momentos da carreira para colaborar com trabalhos —há desde bastiões da arte contemporânea nacional, como Lenora de Barros e Paulo Bruscky, a artistas jovens, menos conhecidos.

As obras, que custam R$ 5.000 cada uma, são compradas às cegas, escolhidas a partir do título e do autor. Então, são enviadas digitalmente e baixadas, impressas ou executadas pelos próprios compradores. A cada venda, o dinheiro é distribuído de forma igualitária entre os participantes e partilhado com uma organização civil que atende artistas transgênero e travesti, a mesma Casa Chama apoiada pelo Partilha.

300 DESENHOS
Quando A partir de sexta (1º). Até 15/5
Preço R$ 1.000
300desenhos.art

PARTILHA
Quando Até 31/5
www.instagram.com/p.art.ilha

QUARANTINE
Preço R$ 5.000
www.55sp.art/quarantine

Posted by Patricia Canetti at 4:37 PM

Galerias e artistas se unem em ações virtuais e colaborativas durante a quarentena por Júlia Corrêa, Estado de S. Paulo

Galerias e artistas se unem em ações virtuais e colaborativas durante a quarentena

Matéria de Júlia Corrêa originalmente publicada no jornal Estado de S. Paulo em 1 de maio de 2020.

Iniciativas de galerias e artistas buscam alternativas para enfrentar as dificuldades impostas pela pandemia

Desde que o coronavírus avançou no Brasil, instituições de arte tiveram de se reinventar e intensificar estratégias digitais. Diante desse cenário, as galerias, cuja lógica difere da dos museus, por dependerem principalmente da venda de obras, têm se desdobrado para conseguir manter a fidelidade do público, garantir a sua sustentabilidade financeira e até mesmo ajudar no combate à pandemia.

Muitas delas têm unido forças em diferentes projetos que estão sendo lançados nos últimos dias. É o caso da P.art.ilha, rede de artistas, galerias e agentes culturais de todo o País, que se juntaram para sensibilizar colecionadores e atrair novos públicos por meio de iniciativas online coordenadas. As 17 galerias participantes são conhecidas por apostarem em projetos artísticos inovadores e experimentais. Entre as de São Paulo, estão nomes como Aura, B_arco, Janaina Torres, Lume e Sé.

A primeira ação será lançada nesta sexta-feira, 1º de maio, e envolve a divulgação de uma seleção de obras de arte, de nomes como Matheus Chiaratti, Andrey Zignnatto, Osvaldo Gaia e Vania Toledo, que serão vendidas com condições especiais. Cada aquisição realizada no mês de maio garante ao comprador um crédito de igual valor para adquirir obras de outros artistas da mesma galeria. Além de estimular a cadeia criativa, a proposta também tem viés beneficente: parte dos recursos será destinada a instituições sociais como a Salvando Vidas e a Por Nossa Conta, de São Paulo, e a Lá da Favelinha, de Belo Horizonte. As informações serão divulgadas na página do Instagram @p.art.ilha.

Na avaliação de Bruna Bailune, fundadora da galeria Aura e uma das idealizadoras da rede, as transformações do momento podem vir para o bem. Apesar da redução de vendas provocada pela pandemia, ela vê o cenário com otimismo, pois trouxe uma conexão inédita entre galeristas e artistas. “Os grupos que estão surgindo são um indício de que talvez o nosso modo de fazer as coisas não vinha sendo o melhor e de que podemos repensá-lo juntos. No dia a dia, ficamos dispersos, fixados em buscar as nossas próprias metas. Nosso sistema já estava com muitas falhas, e agora é hora de todo mundo olhar com atenção para sairmos mais forte dessa”, reflete ela.

Criatividade em isolamento. Uma iniciativa semelhante foi idealizada pelas artistas Lais Myrrha e Marilá Dardot, pela curadora Cristiana Tejo e por Julia Morelli, fundadora da plataforma 55 SP. Trata-se do Projeto Quarantine, lançado em 13 de abril. Marilá e Cristiana moram em Portugal e estavam no Brasil em março, até poucos dias antes do início da quarentena, quando visitaram a exposição de Hudinilson Jr., então em cartaz na Pinacoteca. No retorno, inspiradas pela “arte postal” do artista, elas tiveram a ideia de criar o projeto, adaptando o conceito para o modelo virtual.

A partir dessa proposta, 45 criadores de diferentes regiões do País foram convidados a produzir obras durante o período de confinamento, com os materiais e instrumentos que tinham disponíveis. Entre desenhos, gravuras digitais, vídeos e fotografias, a ideia é que elas possam ser enviadas digitalmente, considerando também as condições de isolamento do comprador, que recebe instruções de como executá-las.

De nomes como Ana Lira, Daniel Lie, Guto Lacaz, Janaina Wagner e Romy Pocztaruk, os trabalhos são vendidos pelo mesmo valor (R$ 5 mil), que, depois, é dividido igualmente entre todos. Uma cota ainda é revertida para o fundo emergencial da Casa Chama, também contemplado pela P.art.ilha. As obras estão à venda na plataforma 55SP (55sp.art/quarantine).

“É um experimento artístico. A diferença é que é um gesto coletivo, igualitário e distributivo para este momento de pandemia”, explica Julia Morelli, que, assim como Bruna, considera que é uma boa hora de repensar os modelos tradicionais do mercado de arte. “Foi muito gratificante reunir todos os artistas rapidamente, eles foram muito receptivos. Agora, já há outros pedindo para participar e estamos pensando até em novos formatos”, conta Julia.

Focada exclusivamente na filantropia, há ainda a campanha Arte Contra a Covid-19, que reúne as consagradas galerias A Gentil Carioca, Almeida & Dale, Fortes d’Aloia & Gabriel, Kogan Amaro, Leme, Luisa Strina, Luciana Brito, Mendes Wood DM e Millan. Para essa iniciativa, artistas e galeristas doaram obras para serem comercializadas com valor reduzido em 25%. O montante arrecadado será doado integralmente a instituições sociais como a Associação Civil Ânima e a Associação Cultural Lanchonete Lanchonete.

Estratégias online. Mostras virtuais, lives com artistas e podcasts estão entre as apostas das galerias de arte, incluindo aquelas que não integram essas redes colaborativas. É o caso da Galeria Almeida Prado. “Decidi fechar temporariamente a galeria assim que se confirmaram os primeiros casos no Brasil. Ficaria muito arriscado continuar trabalhando, principalmente nos fins de semana, quando o fluxo de turistas é sempre maior”, relata o galerista Fábio Almeida Prado.

Duas exposições estavam previstas para ocorrer no local no primeiro semestre. Uma delas seria de Lêda Watson, especialista em gravuras em metal. Como a artista já tem mais idade, a realização da mostra agora é incerta. “Saúde em primeiro lugar”, diz o galerista. A outra mostra seria uma coletiva com artistas ligados à arte urbana. “O tema ainda não tinha sido definido, mas agora ficou fácil saber qual será”, diz Fábio, referindo-se, claro, à pandemia.

Enquanto não é possível estabelecer novas datas para essas exposições, ele convidou artistas que representa, como Clarice Gonçalves e Marcelo Jorge, para apresentarem seus ateliês pela internet, mostrando como a quarentena influencia seus processos criativos. A ideia é que eles ainda reforcem com o público dicas de prevenção contra o coronavírus.

Em uma ação semelhante, a Galeria Kogan Amaro convida os artistas com os quais trabalha para assumirem, por um dia, a sua conta no Instagram. Neste fim de semana, são os próprios galeristas que vão interagir com o público. No sábado, 2 de maio, a colecionadora e pianista Ksenia Kogan Amaro faz uma live de sua casa, onde também apresenta um concerto. No domingo, é a vez de seu marido e sócio, o artista empresário Marcos Amaro, assumir a rede.

Antes mesmo da quarentena, a Millan criou uma série de podcasts, disponíveis no Spotify, em que artistas como Paulo Pasta e Rodrigo Andrade falam sobre seus processos criativos. Com o avanço do vírus, a galeria também passou a promover conversas dos artistas com o público. Na próxima terça-feira, 5 de maio, às 17h, David Almeida participa de uma live para falar sobre a sua produção.

Em março, pouco antes do início da quarentena, a Fortes D’Aloia & Gabriel havia inaugurado uma exposição de Lucia Laguna. Agora, é possível conferir as obras da artista carioca por meio de uma visita virtual disponível no site da galeria, onde há também um vídeo em que ela conversa com o curador Victor Gorgulho.

Já a Luciana Brito Galeria acaba de lançar em seu site uma plataforma dedicada à videoarte. Com o nome LB/Festival de Vídeo Online, a iniciativa contará com um novo trabalho a cada semana. Já é possível assistir, por exemplo, ao vídeo Corda, produzido pelo artista mineiro Pablo Lobato.

Reflexões sobre o futuro do mercado da arte também pautam algumas dessas iniciativas online. Desde o início da pandemia, a Aura tem promovido uma série de cursos online, em que são debatidos temas como o colecionismo e a arte-educação. Além disso, a galeria levou para o meio virtual o encontro Happy Aura, em que diferentes agentes do campo das artes têm discutido, em clima descontraído, o contexto atual. Gratuito, o evento ocorre todas as sextas-feiras, às 18h, pela plataforma Zoom.

Na última semana, a Associação Brasileira de Arte Contemporânea (ABACT) ainda lançou o podcast Arte Contemporânea: da casca ao caroço, com episódios quinzenais, disponíveis nas plataformas Spotify, Apple Podcasts e Google Podcasts. O primeiro deles reúne a artista Mariana Palma e a diretora da galeria Casa Triângulo, Camila Siqueira, em uma conversa sobre como a indústria de arte contemporânea tem se reinventado no ambiente digital e sobre a importância da arte em momentos difíceis – como o atual.

Posted by Patricia Canetti at 4:28 PM

União e crise na arte: como fica o comércio de obras durante a pandemia por Tatiane de Assis, Veja São Paulo

União e crise na arte: como fica o comércio de obras durante a pandemia

Matéria de Tatiane de Assis originalmente publicada na revista Veja São Paulo em 1 de maio de 2020.

Menos feiras, mais transparência na política de preços e reunião inédita de artistas e galeristas: como a pandemia impacta a produção e o comércio de obras

Lucas Dupin, de 34 anos, vive de arte desde 2017. Pai da recém-nascida Catarina, fruto da relação com a companheira, Ludmilla Ramalho, também artista visual, ele cumpre a quarentena em família em Belo Horizonte. Os planos de viver o primeiro ano da bebê em Minas Gerais e depois retornar à capital paulistana estão em suspenso. “Estou bancando as nossas despesas graças ao pagamento adiantado de uma obra comissionada”, explica o mineiro, cujos trabalhos custam, em média, 9 000 reais. Para fechar as contas, ele também dá orientação a profissionais em começo de carreira — atividade que foi interrompida devido à pandemia e rendeu um baque no orçamento. Um possível respiro para Dupin pode vir do movimento p.art.ilha, de dezessete pequenas e médias galerias, incluindo a Lume (SP) e a Periscópio (MG), que o representam.

A primeira ação do grupo tem início nesta sexta (1º) e é um incentivo para os colecionadores agirem. Nesse primeiro mês, quem comprar uma obra receberá um crédito de igual valor para escolher outra peça da mesma galeria, porém de outro artista. No fim, o montante arrecadado será dividido proporcionalmente entre os artistas e a galeria. “Cada um dos membros selecionou um conjunto de obras que vai ser apresentado preferencialmente nos sites. No perfil @p.art.ilha, no Instagram, será possível ter um panorama”, detalha Thomaz Pacheco, da OMA Galeria, outra integrante da agremiação, que fará também doações a entidades sociais. “O impacto é no fluxo de caixa. Temos um respiro muito curto para seguir adiante. Se a quarentena durar quatro, seis meses, nossa reserva será consumida e teremos de fechar as portas”, afirma Pacheco.

Ainda na esteira da pandemia, as pequenas galerias tentam reverter a proposta da SP-Arte. Ao cancelar a edição deste ano, a feira pretende reter um terço do que foi pago pelos participantes. Da soma restante, metade seria devolvida e a outra parte ficaria como crédito para a feira de 2021. Afora os imbróglios circunstanciais, um novo rearranjo no mercado deve passar pela mudança de antigos hábitos, como o de “esconder” os preços. “Não mostrar o valor de uma obra não faz sentido. Experiências internacionais de sucesso, a exemplo da plataforma da (galeria americana) David Zwirner, já têm revisto isso”, afirma a pesquisadora independente Vivian Gandelsman, que mantém o projeto ArtLoad. “O colecionador não pode ser visto como mero cliente, ele é um ator social importante no circuito, que pode ajudar na manutenção de galerias e no fomento da produção.” Na mesma sintonia, a veterana galerista Luisa Strina acredita em mais transformação. “Não sou vidente, mas acho que vamos voltar ao que era o mercado nos anos 70, quando fazíamos no máximo duas feiras. Os artistas também produziam menos, porque não era essa correria”, diz Luisa. A volta ao passado, porém, está longe da nostalgia romântica, na sua visão. “Tudo vai encolher, o mundo inteiro vai ficar mais pobre.”

Posted by Patricia Canetti at 4:19 PM