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abril 6, 2017
Sem excepcionalidade, mostra no MAC reúne clichês sobre paisagens por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Sem excepcionalidade, mostra no MAC reúne clichês sobre paisagens
Crítica de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 4 de abril de 2017.
Promiscuidade. É difícil outra palavra para descrever a mostra "Os Desígnios da Arte Contemporânea no Brasil", em cartaz no Museu de Arte Contemporânea da USP.
Como exposição, ela segue um padrão básico, corrente e aceitável, de apresentar um grupo de artistas de gerações distintas, que em geral trabalham com pintura e estão reunidos a partir de um tema.
No caso dessa mostra, eles foram instados a retratar paisagens brasileiras, o que faz surgir na exposição referências aos clichês do Rio de Janeiro, como o Corcovado ou Copacabana, ou às cataratas do Iguaçu, entre outros.
Estão na mostra artistas que já participaram da Bienal de São Paulo, como Tatiana Blass, para quem a pintura não surge como principal meio, ou Fernando Lindote, que começou como cartunista e migrou para a pintura, ou então nomes em ascensão, como Rodrigo Bivar, reconhecido pela pintura. No total, são nove artistas.
Se fosse apenas isso, seria uma mostra sem excepcionalidades, apesar do título pretensioso. Contudo, é na legenda das obras que se percebe uma questão ética que de fato merece ser explorada, já que o MAC não só é um museu universitário, mas de caráter público.
Segundo o Ministério da Cultura, a mostra tem R$ 500 mil de apoio de um único patrocinador, o banco Toyota. Ora, as etiquetas informam que o próprio banco é o proprietário de obras de quase todos os artistas; as demais pertencem aos próprios artistas, às suas galerias ou ao curador da mostra, José Antônio Marton.
Por que então a exposição custa tanto, já que o MAC-USP não cobra para expor?
Mas esse não é o principal problema, e sim, o visível conflito de interesses que parte já do curador, de inserir um trabalho seu em uma mostra.
Exposição em instituições como o MAC agregam valor à obra e o curador basicamente está usando o museu para valorizar seu acervo.
Pior, contudo, é que a mostra, que terá também catálogo, segundo o site do governo, tem parte da suposta coleção do patrocinador em exposição. Ou seja, é dinheiro público em um museu público servindo a fins privados.
É de estranhar que o museu desloque uma curadora para acompanhar essa mostra criada fora da instituição, no caso Ana Magalhães, e toda essa rede de interesses não tenha sido constatada. Para um museu universitário, que deve ter a pesquisa em seu cerne, é uma falha grave.
OS DESÍGNIOS DA ARTE CONTEMPORÂNEA NO BRASIL
QUANDO ter., das 10h às 21h; qua. a dom., das 10h às 18h
ONDE MAC-USP (av. Pedro Álvares Cabral, 1.301, tel. 2648-0254)
QUANTO: Grátis
Decisão da SP-Arte por extinguir o setor dedicado às revistas de arte se contrapõe a tendência mundial e à tese de diretor da Sotheby’s por Paula Alzugaray, Select
Decisão da SP-Arte por extinguir o setor dedicado às revistas de arte se contrapõe a tendência mundial e à tese de diretor da Sotheby’s
Artigo de Paula Alzugaray originalmente publicado na revista Select em 31 de março de 2017.
Na palestra de abertura do simpósio Galerias em Debate – Mudanças e Oportunidades, organizado pelo Projeto Latitude, em 27 e 28/3, São Paulo, Jonathan T. D. Neil, diretor global de desenvolvimento comercial da Sotheby’s Institute of Art, construiu uma defesa contundente – e surpreendente – da centralidade da internet e da imprensa no sistema da arte.
Neil discorreu sobre as diferenças entre as experiências 3D e 2D – aquelas que, para se realizarem pressupõem a presença física do sujeito, e aquelas que podem ser vivenciadas a partir de material impresso ou telas. O palestrante foi enfático ao afirmar que a experiência estética contemporânea independe do contato presencial. “O ponto é: eu não preciso estar lá. Eu só preciso ver isso na tela para entender o que se passa ali”, disse ele, diante da imagem de obra de Gabriel Orozco, realizada na galeria Kurimanzutto, no México.
O título da palestra – O papel das galerias no atual e futuro sistema das artes – anunciava a defesa das galerias como a engrenagem econômica e intelectual do ambiente da arte. Mas o que se revelou, de fato, foi a valorização da experiência bidimensional da arte – o mundo dos discursos e das telas –, defendido como modelo para o futuro sistema artístico mundial.
“Pense no modelo das agências. Pense nos modelos de realidade virtual que estão aparecendo. Nós não chamamos eles de ‘galerias’”, afirmou. “Temos cada vez mais artistas pensando exclusivamente para esse ambiente. Artistas são os inovadores originais. O espaço digital terá que acompanhar o que os artistas fazem”, completou.
O destaque que Neil deu ao discurso da arte – isto é, a escrita, a reflexão e o debate sobre a obra de arte – impactam diretamente sobre o papel da publicação de arte (digital ou impressa) hoje.
A opinião é nitidamente compartilhada por feiras de arte como Frieze e ARCO, na medida em que ampliam seus espaços dedicados às publicações. Há poucos anos a Frieze London e a Frieze New York criaram o Reading Room, que promove eventos de 30 minutos – entre diálogos, colóquios e mesas-redondas –, dando ao visitante a oportunidade de interagir com críticos, formadores de opinião e outros profissionais do campo da arte.
Na contramão desse movimento, a SP-Arte, que anunciou este ano a intensificação de ações fora do escopo direto comercial – especialmente a curadoria –, deliberadamente relegou a importância da experiência 2D, extinguindo o setor editorial de revistas.
