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abril 1, 2017
Americanos 'vestem' obra icônica da brasileira Lygia Pape pelas ruas de NY por Ricardo Senra, BBC Brasil
Americanos 'vestem' obra icônica da brasileira Lygia Pape pelas ruas de NY
Matéria de Ricardo Senra originalmente publicada no jornal BBC Brasil em 29 de março de 2017.
Smartphones, selfies e um cenário mais cinza que o de uma favela no Rio de Janeiro em 1968 separam a primeira edição de Divisor, performance criada pela artista multimídia Lygia Pape, e sua mais nova versão, registrada no último sábado em Nova York.
Lygia Pape - A Multitude of Forms, The Met Breuer, New York, EUA - 21/03/2017 a 23/07/2017
Imersos em um lençol imitando uma tela branca de 30 por 30 metros, dezenas de rostos de todas as idades sorriem, brincam e circulam juntos, numa experiência coletiva que implode o muro que tradicionalmente separa artista, obra e espectador.
A reedição da performance é parte da exposição Lygia Pape: A multitude of Forms ("Uma multidão de formas", em tradução literal), primeira grande retrospectiva da artista nos EUA, no museu Met Breuer, "braço" do Metropolitan de Nova York dedicado a arte contemporânea.
"No começo, ninguém sabia direito o que era, porque uma coisa é ver foto e filmagem, e outra é experimentar ao vivo", disse à BBC Brasil Paula Pape, filha da artista, que foi a Nova York acompanhar a performance.
"Mas quando começaram a andar e entraram na 5ª avenida, as pessoas realmente começaram a entender como funciona aquilo, aquele conjunto onde é preciso negociar entre si para fazer curvas e entrar em acordos e em sintonia para seguir a mesma direção harmonicamente."
Escultura social
Colega de Hélio Oiticica, Lygia Clark e Ferreira Gullar, Lygia Pape, é uma das representantes de um importante momento de ruptura nas artes brasileiras.
No início dos anos 1960, artistas que não se sentiam mais representados pelos quadros e esculturas da arte tradicional decidiram misturar os espaços antes dedicados a artista e observador.
Assim nasciam, por exemplo, os parangolés de Oiticica - uma espécie de capa que só mostrava seu desenho e forma quando vestida por alguém em movimento, dançando.
No mesmo contexto surgiu o Divisor, também classificado por Lygia como "escultura social" e agora reeditado nos Estados Unidos.
A performance foi realizada por Pape pela primeira vez em uma favela do Rio de Janeiro. Em entrevista à filha Cristina, em 2002, a artista descreveu o acontecimento:
"Divisor, quando eu fiz, foi muito interessante. No final da minha rua, que é sem saída, há um rio, uma pequena ladeira e havia uma favelinha. Eu fiz o primeiro e não sabia muito bem como ia mostrar para as pessoas, então eu o abri na ladeira, espalhei pelo chão, que não tinha objetos interferentes. Ficou muito bonito com a projeção da mata sobre ele. Aos poucos as crianças da favela começaram a pular em cima do pano, escorregar sobre ele, acharam uma brincadeira fantástica até que um levantou uma ponta do pano e descobriu uma fenda, enfiou a cabeça nela e imediatamente a criançada toda fez isso. E começaram a descer a ladeira, todos enfiados, com as cabecinhas dentro do divisor."
Pape morreu em 2004, depois de apresentar a obra na China, na Espanha e em diferentes cidades brasileiras.
Nos Estados Unidos, a última performance Divisor foi realizada no início dos anos 2000 - "mas era um divisor muito pequenininho", lembra Paula Pape.
Reedição?
A obra atravessou oito quadras no coração de Nova York, entre o Met Breuer e o Metropolitan Museum of Art.
"O sentimento foi muito forte. Eram 60 pessoas ou mais, entre estudantes, professores, gente ligada a arte e gente que não tinha nada a ver com arte, todos unidos", diz Paula Pape, sobre a experiência do último sábado.
"Todos são um só no Divisor. As pessoas se esquecem quem são e se levam pelo coletivo."
Pelo caminho, alguns curiosos se aproximavam para tentar encaixar suas cabeças em fendas sobressalentes, enquanto outras filmavam e fotografavam a performance sem muita certeza sobre o que acontecia.
"Talvez façamos de novo até o fim da exposição", diz Paula Pape com suspense. "O museu ficou muito satisfeito."
A exposição do Met Bouer reúne fotos, vídeos, esculturas, fotos e instalações da artista, nascida em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro.
Lygia Pape: A multitude of Forms segue em cartaz em Nova York até 23 de junho.
A verdadeira escolha livre de Lygia Pape por J.P. Cuenca, The Intercept_Brasil
A verdadeira escolha livre de Lygia Pape
Artigo de J.P. Cuenca originalmente publicado no The Intercept_Brasil em 28 de março de 2017.
Lygia Pape - A Multitude of Forms, The Met Breuer, New York, EUA - 21/03/2017 a 23/07/2017
SE PARA UM turista desavisado visitar a primeira retrospectiva de Lygia Pape nos EUA é uma baita odisséia estética, para um brasileiro trata-se de experiência arrebatadora. Especialmente em tempos de retrocesso democrático.
Lygia desenvolveu grande parte de sua obra durante a ditadura militar e é um raro caso de artista que foi preso e torturado pelo regime – ela passou três semanas no DOI-CODI em 1973. Com liberdade e inteligência, continuou criticando as instituições – do Estado, do mercado e da arte – ainda que muitas vezes de forma “indireta, revolucionária porque inventora”.
Deixou uma obra monumental. Das experiências neoconcretas à descoberta de uma linguagem própria, extrapolando o objeto, a artista uniu política, humor e poesia como nunca antes – ou depois. Essa obra mutante entre gravura, instalação, fotografia, performance e vídeo (“Multidão de Formas” é o nome da exposição no Met Breuer) cria uma interface complexa que nos ajuda a ‘desver’ para depois reaprender a ‘ver’ o Brasil, forjando um espelho muito raro. Cada vez mais raro, não apenas na arte brasileira.
Costumo pensar que o maior motivo para o Brasil ter a impressionante produção artística que tem é porque nascemos num país infernal. Se a arte surge como resposta às contradições da sociedade, aqui elas evidentemente não faltam. E aí, ironicamente, minha absoluta ausência de orgulho pela nacionalidade – uma contingência e um acaso, normalmente constrangedor – transforma-se em desavergonhado pacheequismo. Eu me ufano, apenas, pela arte brasileira. Não é pouco.
É curioso que o ponto central da resenha publicada no New York Times seja justamente esse: “O que você faz quando o Estado quebra e o sonho de um futuro melhor morre? Como a sua arte muda quando pioram as circunstâncias sociais? (…) Novos tempos chamam por uma nova arte de intervenção pública, ação comunitária e investigação antropológica, sem medo de assumir riscos”.
A fusão entre arte e vida proposta pela artista é evidente exemplo, não só para artistas brasileiros, mas para os gringos daqui em tempos trumpianos, sugere a crítica do Times. Não apenas por isso, eu acrescentaria.
O reconhecimento das ruas por onde andamos é central na produção de Lygia, principalmente a partir dos anos 70, quando incorpora cada vez mais a cidade aos seus trabalhos. O timing da exposição é perfeito também por esse motivo: a “retomada” ou “ressignificação” do espaço urbano é tema de qualquer mesa de artistas brancos culpados em Nova Iorque, cidade vítima de um brutal processo de gentrificação que expulsa pobres e minorias de seus bairros para transformá-los em versões desidratadas de Berlim – uma Berlim que não existe mais, diga-se – para o consumo de filhinhos de papai do mundo inteiro.
Mas há algo nessa exposição que nos ultrapassa por completo, junto com qualquer contexto. As experiências de Pape ganham dimensões cosmogônicas na grande sala escura onde estão suas ‘Ttéias‘, esculturas rarefeitas de fios dourados e luz, onde nossos sentidos atropelam qualquer tentativa de racionalização. Como no “Manifesto curto” (1964) de Stanley Brouwn, aqui já não há mais ‘arte’ e nem uma sala dentro de um museu, mas sim apenas “cor, luz, espaço, tempo, som e movimento”.
Se lembrarmos que no corredor oposto a sala está o monumental “Livro do Tempo”, dá para acreditar que a síntese formal que Lygia propõe a coloca em qualquer lista de artistas fundamentais do século XX – penso grosseiramente que Mondrian e Beuys, por exemplo, parecem ingênuos aqui.
Há uma resposta célebre de Lenin a críticos mencheviques em 1922 em que ele diz: “A escolha verdadeiramente livre é aquela na qual eu não escolho apenas entre opções dentro de um conjunto prévio de coordenadas, mas aquela onde decido mudar o próprio conjunto de coordenadas”. Ao ver-se diante dessas obras, dá para acreditar que Lygia Pape fez ‘a verdadeira escolha livre’. É raro poder dizer o mesmo de outro artista.
