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Como atiçar a brasa

 


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setembro 8, 2016

Bienal de São Paulo aborda barbárie com obras sutis por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Bienal de São Paulo aborda barbárie com obras sutis

Crítica de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 7 de setembro de 2016.

Incerteza Viva, a 32ª edição da Bienal de São Paulo, com curadoria de Jochen Volz, Gabi Ngcobo, Júlia Rebouças, Lars Bang Larsen e Sofia Olascoaga, é uma exposição delicada em um momento de conflito. Essa condição é vista logo na entrada, onde está disposta a obra de Frans Krajcberg: troncos, raízes e pedaços de madeira calcinadas são transformados pelo artista em totens que lembram a destruição, mas são também estruturas de uma nova ordem possível.

Mesmo ao abordar questões dramáticas como racismo, catástrofes ambientais ou genocídio indígena, esta é uma Bienal silenciosa, que se percebe em atitudes discretas. Ao lado da obra de Krajcberg, Bené Fonteles constrói uma oca, um lugar de encontros e de diálogo, que contrasta com a escala fria e agigantada do pavilhão.

Lá, onde pequenos altares homenageiam outros artistas, como Rubem Valentim, e militantes sociais, como Davi Kopenawa, entre outros, uma programação semanal produzirá debates em pequena escala.
Logo à frente, o filme "O Peixe", de Jonathas de Andrade, apresenta pescadores que abraçam suas presas após capturá-las, construindo um ritual de ternura e solidariedade frente à morte.

Quando pessoas celebram publicamente que uma jovem que perde um olho por violência policial mereceria perder o outro, obras como "O Peixe" ganham poder de manifesto: não há vítima que não mereça solidariedade.

A necessidade do respeito se amplia na obra "Espelho de Som", de Eduardo Navarro, composta por um instrumento que sai do pavilhão para chegar até a copa de uma palmeira, apontando para a necessidade de escuta da natureza.

Assim, "Incerteza Viva" constitui-se como uma mostra que evita o espetáculo ao tratar da barbárie. A única obra agigantada é "Dois Pesos, Duas Medidas", de Lais Myrrha, composta por duas torres no vão central do pavilhão: uma de materiais orgânicos, outra de elementos de construção civil.

Novamente, contudo, uma obra da Bienal apresenta um encontro entre dois universos opostos, mas sem confronto.

Não se trata, no entanto, de uma Bienal pacificadora, mas de uma espécie de lente de aumento que busca revelar processos, como a projeção de luz branca sobre a rampa "White Museum", obra de Rosa Barba. Nela, percebe-se que produzir imagens pode ser hoje um ato desnecessário: é preciso apenas iluminar por onde se caminha.

Essa sutileza em se aproximar de questões cotidianas se repete ao longo da mostra. Há a apologia ao lazer quando o trabalho domina todas as relações no poético filme "Gozolândia", de Priscila Fernandes, que retrata os frequentadores do parque Ibirapuera.

Há também a ironia do hilário "Uma História do Humor", de Gabriel Abrantes, filme que trata do amor de uma índia com um robô sem corpo.

Mesmo ao abordar a violência de Estado, Ebony G. Patterson cria tapetes multicoloridos e brilhantes, que apenas quando observados atentamente revelam cenas de opressão social.

Discretas também são as obras de Pierre Huyghe e Francis Alÿs. O primeiro exibe um filme com imagens microscópicas de insetos presos há milhões de anos em um pedaço de âmbar e uma sala contigua com centenas de moscas, contrapondo passado e futuro.

Já Alÿs apresenta pequenas pinturas expostas em paredes envidraçadas, já que há imagens em ambos os lados das telas, e uma animação desses jogos recorrentes no centro da cidade, com três copos e uma bola.
Aí, novamente surge a imagem de pequenos gestos, tão recorrentes ao longo da mostra. Mesmo que na abertura da Bienal artistas tenham se manifestado contra o golpe, suas obras se apresentam menos militantes, mas não por isso menos sensíveis a processos de desmonte social.

Contudo, para uma mostra tão sensível, soa desmedido e de mau gosto o logo de um dos patrocinadores estampados em todo o mobiliário espalhado pelo pavilhão. Patrocínio é essencial, mas uma marca não pode ser a imagem mais recorrente de uma exposição.

EVENTO DURARÁ TRÊS MESES

Com entrada gratuita, a 32ª Bienal de São Paulo, cujo tema é "Incerteza Viva", começa nesta quarta-feira (7) e fica em cartaz por mais de três meses, até 11/12. O pavilhão Ciccillo Matarazzo, dentro do parque Ibirapuera (zona sul de SP), fica aberto aos visitantes das 9h às 19h (terças, quartas, sextas e domingos); e das 9h às 22h (quintas e sábados).

Programação completa no site.

Posted by Patricia Canetti at 9:13 PM

32nd Bienal de São Paulo by Dan Fox, Frieze

32nd Bienal de São Paulo

Artigo de Dan Fox originalmente publicado na Frieze em 6 de setembro de 2016.

First impressions of the biennial which focuses on the uncertainty of today’s world

These days there are many people certain about how the world should run. Donald and his Trumps. The Brexit blowhards. The King Canutes of climate change, deluding themselves they can command global sea levels to drop. Their certainty festers in fear and resentment. Or, as W.B. Yeats put it: ‘The best lack all conviction, while the worst / Are full of passionate intensity.’ The curators of the 32nd Bienal de São Paulo appear to be with Yeats, and have a long shopping list of doubts. Titling their exhibition ‘Incerteza Viva’ (Live Uncertainty), they hold that ‘in order to confront the big questions of our time objectively, such as global warming and its impact on our habitats, the extinction of species and the loss of biological and cultural diversity, rising economic and political instability, injustice in the distribution of the earth’s natural resources, global migration and the frightening spread of xenophobia, it is necessary to detail uncertainty from fear.’ I’m certainly worried sick just thinking about it.

Art is a field in which uncertainty is welcome. Ambiguity, chance, and improvisation are all valued qualities in the creative process. A willingness to stumble through the dark is vital for artists to make leaps of imagination, or develop idiosyncratic approaches to research. Even the simple choice to work in collaboration with other creative minds is a decision to embrace the unknown. Jochen Volz, together with co-curators Gabi Ngcobo, Júlia Rebouças, Lars Bang Larsen and Sofar Olascoaga, have put together an engaging, modest, polyphonic biennial that aims to map these principals onto politics and society. Like any leap into the unknown, it sometimes comes a cropper – there are passages in the show that evanesce into mystic abstraction, or would be more at home as didactic exhibits in a natural history museum – but ‘Incerteza Viva’ also stamps the mind with stark, indelible images of social upheaval and ecological brinksmanship. Featuring 84 artists and artist groups, largely from Latin America, it’s a biennial that avoids the usual marquee names, favouring younger or lesser-known participants. It’s a show in which you’ll see a lot of earth, fungi, insects, handmade objects, anthropological dabbling in rural areas or small towns. It’s a biennial for when the lights go out, the server farms crash, and your aluminium-cased laptop is good for nothing other than patching a leaky hole in the roof.

Even if this biennial worries itself with end-of-the-world undertones, it manages to avoid the political nostalgia trap that has made so many large exhibitions in recent years so interminable. You know the kind of show: vitrine after vitrine of archival photographs recording an ‘action’ in some German kunsthalle circa 1972, its insurgent significance explained to death by the curators with all the seditious excitement of taking Ambien in order to watch paint dry. Viewing shows such as those in the relative comfort of the West was always a queasy, self-congratulatory experience, even before financial meltdown, the refugee crisis and the rapidly accelerating demise of our planet. But today, the sense that political systems the world over are fucked has never – at least for Westerners from the northern hemisphere such as me – been so palpable. Biennials drenched in the terminology of ‘subversion’, ‘interrogation’, ‘revolution’, ‘boundary breaking’ and ‘rebellion’ but with none of the realpolitik, just look like play-acting when things start to actually get real – when you really can be beaten up for subversion or interrogated and thrown in jail because of your work. (Just look at the numbers of journalists and artists who have been arrested in Turkey following the recent failed coup.) The day before this year’s São Paulo Bienal opened, a reported 50,000 people marched through the streets of the city in protest at the impeachment of ex-president Dilma Rousseff and her replacement by the conservative Michel Temer. During the press preview of the show, in an act of collective protest organized by the group Opavivará, participating artists wore black-and-white T-shirts demanding Temer stand down and for elections to be held. Politics and the São Paulo Bienal have long been intertwined, but the politics are squeezing harder than ever before.

An extended review of the biennial will appear in the November/December issue of frieze. In the meantime, here are five of my highlights, given to you with the caveat that to be a critic, you’re always living with the uncertainty that any of your opinions will be worth anything at all:

Jonathas de Andrade, O peixe (The Fish) (2016)
‘Incerteza Viva’ features a number of works influenced by ethnographic documentary film, and depicting indigenous peoples. The ethics of this cinema have been contested for decades, and any artist taking it on today has to know what thorny debates about representation they’re getting themselves into. Jonathas De Andrade’s new film, O peixe (The Fish), is filmed in the state of Algoas, in the northeast of Brazil, and depicts local fishermen at work. He shows them catching the fish, then caressing them in their arms, gently stroking the creature’s scales as they asphyxiate. The images are disturbing, and the film’s atmosphere suggests that this is a traditional ritual, a primitivist fantasy of fishermen honouring the symbiotic relationship between humans and nature. Yet all is not as it seems, and De Andrade builds tension between those scenes that are pure documentary, and those in which a fiction is playing out, in which the erotic gaze of De Andrade’s camera ovewhelms the factual record of death.

Eduardo Navarro, Sound Mirror (2016)
A wooden stool is placed next to one of the tall glass walls in Oscar Niemeyer’s biennial pavilion. A brass tube, at roughly ear height if you’re sitting on the stool, snakes out through the window and flowers into a giant ear trumpet, or Victrola horn, pointing into the leaves of a tall palm tree. Speak to the tree or listen to it –you never know what you might learn.

Ruth Ewan, Back to the Fields (2015–16)
Many projects in this year’s biennial look to nature for models of survival and organization. (What could be more anthropocenic than plundering the natural world for ideas as well as resources?) In Back to the Fields, Ruth Ewan speculates how human agriculture might alter if we changed our systems of marking time. She takes the French Republican Calendar, imposed during the tumultuous revolutionary years in France from 1793 to 1805, and uses it to map out a year-long cycle, divided into four quarters, on wooden platforms. Each month – from Vendemiaire, at the autumn equinox (what we call September), through to Fructidor (mid-to-late August) – is divided into three ten-day weeks, and each day is assigned a plant or object, carefully catalogued and arranged by Ewan on the platforms. (The 5th of Thermidore, for instance, is a fearsome-looking ram’s skull.)

Back to the Fields looks a little like an occult game to be played in a gardening shop, but it’s a reminder of the arbitrary values we place on plants, animals and the passing of each day.

Bárbara Wagner & Benjamin de Burca, Estás vendo coisas (You Are Seeing Things) (2016)
Estás vendo coisas (You Are Seeing Things) is shot in Recife, and depicts the making of videos for the city’s brega music scene. Wagner and De Burca’s film depicts a complex subculture: one that’s characterized by wild fashions, escapist dreams, and chauvinist attitudes. This portrait of a scene switches between fantasy and documentary, along the way suggesting how brega provides an identity for the performers, a respite from the economic realities of their lives in northeast Brazil.

Dineo Seshee Bopape, :indeed it may very well be the ________ itself (2016)
A set of dark, heavy, compressed soil blocks is arranged in loose groupings. Embedded in shallow depressions on top of the blocks – echoes of African Morabaraba and Diketo games – are gold leaves, flower petals, herbs, and ceramic casts made with a fist. It’s a simple yet affecting meditation on the occupation of land and displacement from it, of memory and earth, and the precarious relationship that communities have to the ground beneath our feet.

Also noted:

Lais Myrrha, Dois pesos, duas medidas (Double Standards), 2016 (you can’t miss them – two giant towers rising through the floors of the pavilion); Pierre Huyghe, De-Extinction, 2016, (without giving too much away, I’ll be curious to know how bad the fly problem gets inside the biennial pavilion during the course of the show); Hito Steyerl, Hell Yeah Fuck We Die, 2016 (features a soundtrack by Kassem Mosse, and wild footage of disaster relief robots in experimental development); Luiz Roque, HEAVEN, 2016 (an intriguing sci-fi short); Maryam Jafri, Product Recall: An Index of Innovation, 2014–15 (ever wondered what happened to Pepsi-Cola in bottles for babies? Now’s your chance); Vivian Caccuri, TabomBass, 2016 (a bass-heavy sound-system, developed out of research into the Brazilian diaspora to Ghana, and made in collaboration with musicians in Accra); Wilma Martins, works from the series ​Cotidiano (Everyday), 1983 (a quiet, elegant and disquietingly surreal set of paintings and drawings set in domestic environments: buffalo charging across the plains of a bedspread, for example, or a wild forest growing from the needle of a sewing machine); Wladimir Dias-Pino, Enciclopédia Visual Brasileira (Brazilian Visual Encyclopedia), 1970–2016 (an eye-popping selection of images by the 89-year old artist, poet, graphic designer and window dresser).

Posted by Patricia Canetti at 9:00 PM

setembro 5, 2016

Protesto contra Temer marca abertura da Bienal de SP para a imprensa por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Protesto contra Temer marca abertura da Bienal de SP para a imprensa

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 5 de setembro de 2016.

Um protesto de artistas contra o presidente Michel Temer marcou a entrevista coletiva dos curadores da Bienal de São Paulo na manhã desta segunda.

Depois que os responsáveis pela 32ª edição da mostra, que será aberta ao público nesta quarta, terminaram a apresentação, um grupo de artistas da mostra liderados por membros do coletivo Opavivará marcharam até a frente da mesa dos curadores gritando "fora, Temer" e "golpistas, fascistas não passarão".

O artista Amilcar Packer lembrou que 26 pessoas haviam sido presas numa manifestação nos últimos dias na cidade. O ato durou cerca de cinco minutos e foi aplaudido por grande parte dos jornalistas que acompanhavam a entrevista coletiva.

Mesmo os curadores da mostra, incluindo o chefe da equipe, o alemão Jochen Volz, lembraram a tensão política em suas falas. "Em seu discurso de posse, Michel Temer disse que havia acabado a incerteza, mas nós queremos falar da incerteza sim", disse Volz, aludindo ao título desta edição da mostra, "Incerteza Viva".

Dentro do pavilhão, os artistas circulavam usando camisetas com os dizeres "quero votar para presidente", "direjas já", "fora Temer", entre outros. Elas foram produzidas pelo Aparelhamento, coletivo que se formou em torno da ocupação da sede paulistana da Funarte, desfeita em julho.

Além dos artistas da mostra, alguns críticos estrangeiros circulavam com as camisetas pretas e brancas criadas para o ato.

Posted by Patricia Canetti at 7:44 PM

Bienal começa na quarta com maior presença feminina e apelo ecológico por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Bienal começa na quarta com maior presença feminina e apelo ecológico

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 4 de setembro de 2016.

"Hell, yeah, we, fuck, die." Juntas, essas palavras em inglês – inferno, sim, nós, fode, morre – formam uma frase quase perfeita, com sujeito e predicado. No segundo andar do pavilhão da Bienal de São Paulo, escritas com letras de acrílico e concreto, elas formam um outdoor às avessas, um verso que resume –gritando – a paisagem sonora atual.

Hito Steyerl, artista alemã que está entre os 81 nomes escalados para a mostra que começa agora, estudou as letras de músicas no topo das paradas na última década e concluiu que esses termos são os que mais se repetem, indicando uma propensão à violência e ao sexo, ou às duas coisas ao mesmo tempo, seguidas de morte.

"Há muitas camadas, mas a violência está em todos os lugares", diz a artista. "Já não pisamos mais em terra firme. Estamos nadando num dilúvio."

Tempestades, reais ou metafóricas, também orientam grande parte das obras da mostra, mas a forma de narrar o caos passa em grande parte por um filtro feminino – a 32ª edição do evento paulistano tem mais de metade de seu elenco formado por mulheres, o maior número de todos os tempos. E elas têm os olhos vidrados num mundo em colapso, alvo de catástrofes insuspeitadas que ganham vulto no horizonte.

"De um segundo para o outro, tudo vira um inferno", diz Jochen Volz, o alemão à frente da exposição, diante de um vídeo da americana Rachel Rose, no térreo do pavilhão. Na tela, um dia de sol na praia se transforma de repente numa chuva de granizo, e banhistas correm em busca de abrigo.

Ela intercala essas imagens a outras do arquiteto Philip Johnson explicando como sua famosa casa toda de vidro foi construída nos Estados Unidos seguindo as dimensões do corpo humano. O prédio transparente do filme ecoa o pavilhão de Oscar Niemeyer no Ibirapuera, numa quase fusão entre a obra e seu ambiente.

Mas o contrário é mais recorrente. Nesta Bienal, arquiteturas feitas de terra, com formas orgânicas, entram em choque com a limpeza austera do modernismo brasileiro.

Essa dicotomia toma dimensões monumentais no vão central do pavilhão, onde Lais Myrrha ergueu duas torres imensas, uma de tijolos e vergalhões de ferro e outra de terra batida e palha, contrastando métodos de construção dos índios e caboclos com a arquitetura urbana.

Outros artistas também tocam nesse ponto, espalhando os marrons e ocres do barro e da lama pelo piso de concreto de Niemeyer. Logo na entrada, Bené Fonteles construiu uma oca que abraça as colunas do pavilhão, Frans Krajcberg criou uma floresta de esculturas de galhos retorcidos e a britânica Ruth Ewan montou um calendário usando plantas e verduras.

Mais adiante, a portuguesa Carla Filipe fez uma horta, a peruana Rita Ponce de León criou um labirinto de barro, os lituanos Nomeda & Gediminas Urbonas cultivam cogumelos em estufas, a finlandesa Pia Lindman construiu uma cabana de barro e a australiana Susan Jacobs projeta imagens em placas de vidro espetadas na terra.

Vistas uma atrás da outra, essas obras pisam e repisam um mantra ecológico, dando a sensação de caminhar entre jardins de plantas estranhas.

"Esse formato de ameba que escolhi é como um micróbio invadindo esse espaço modernista", diz Lindman, descalça, os cabelos presos em maria-chiquinha, diante de sua oca. "É um intruso que toma sua energia das plantas."

BORBOLETAS E TIROS

Menos hippie, o camaronês Em'kal Eyongakpa também partiu do mundo vegetal para criar uma instalação poderosa. Sons de uma floresta africana inundam uma sala escura, de um banho de chuva a saraivadas de balas e o ronco feroz de serras elétricas.

"Você sente que nesse ecossistema os humanos são estrangeiros", diz Eyongakpa. "É a beleza e a violência, algo entre a catástrofe e o equilíbrio, borboletas e tiros."

Jonathas de Andrade também se equilibra no fio da navalha entre a ternura e a agonia. Em seu mais novo filme, que estreia na Bienal, ele mostra um estranho – e fictício – ritual de pescadores que abraçam os peixes logo depois que são fisgados. Seus enquadramentos fechados contrastam a pele queimada de sol desses homens com as escamas lustrosas e os últimos suspiros dos bichos, que morrem no afago.

"Isso toca num estereótipo romântico", diz Andrade. "Mas a imagem é muito forte."

Imagens fortes, aliás, não faltam ali. À distância, as lápides enfileiradas no chão pelo neozelandês Luke Willis Thompson lembram uma escultura minimalista, mas, na verdade, vieram de túmulos reais de um cemitério de escravos de uma ilha do Pacífico.

Na maré alta, as sepulturas se desfizeram, deixando como pegada só os fragmentos de pedra soltos e agora levados ao pavilhão. "Queria construir um cemitério móvel, à deriva", diz o artista. "É ao mesmo tempo algo belo e traumático."

Não muito longe das lápides, Vivian Caccuri construiu o que chama de "altar para o grave". São caixas de som que tocam só as frequências graves de composições, chacoalhando o pavilhão de hora em hora, como sinos de igreja.

"Treme tudo", diz Caccuri, que se inspirou na música pop de Gana para criar a obra –suas caixas de som, aliás, vão tocar composições de DJs do país, que adaptaram canções para seu sistema estrondoso.

Da histeria sonora à visual, Bárbara Wagner investiga os códigos por trás da construção da música brega do Recife num novo filme. Enquanto tempestades varrem o mundo, ela mergulha numa reflexão sobre a lógica de impacto e espanto que serve de pilar dessa nova identidade regional, lembrando que a cultura, a exemplo do que faz Hito Steyerl, é também uma terra em transe.

Posted by Patricia Canetti at 7:37 PM