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março 12, 2014
Castelos de areia por Paula Alzugaray, IstoÉ
Castelos de areia
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista IstoÉ em 28 de fevereiro de 2014.
Com trabalhos de artistas brasileiros e estrangeiros, exposição coletiva evoca contrastes entre ordem e caos
Roesler Hotel #25: Dispositivos para um mundo (im)possível, Galeria Nara Roesler, SP, até 15/3
Acesse a matéria na IstoÉ para ver as fotos de Paula Alzugaray
O que Brasília, Marienbad e Berlim têm em comum? Categoricamente, não muito, mas essas três localidades se cruzam na exposição “Dispositivos para um Mundo (Im)Possível”. Pense em 1989, na queda do muro, no ápice da crise das utopias e no artista brasileiro Leonilson interessado no alcance político da arte. Estamos chegando perto. Se esses três lugares fossem associados a palavras, chegaríamos a utopia, ilusão, desconstrução. São precisamente esses três conceitos que dão sustentação à curadoria de Luisa Duarte, na Galeria Nara Roesler, em São Paulo.
Brasília, a cidade utópica projetada como obra de arte, é reinterpretada nesta exposição nas obras de Laercio Redondo e de Clarissa Tossin. A instalação “Restauro – Lembrança de Brasília” (2009), de Redondo, reproduz um dos painéis de azulejos criados por Athos Bulcão na capital federal. “O que poucos lembram é que a arte participativa brasileira começa em Brasília nos azulejos de Athos Bulcão”, diz o artista, que descobriu em pesquisa que os desenhos dos murais de Bulcão eram decididos pelos operários responsáveis por sua instalação, e não por ele.
Marienbad, a localidade fictícia do filme de Alain Resnais que remete à ilha de ilusões e simulacros do romance “A Invenção de Morel”, de Bioy Casares, é evocada em fotografia do artista argentino Jorge Macchi. A imagem mostra a imitação de um fragmento dos jardins de Versailles em um terreno na periferia de Paris. O resultado é uma espécie de miragem, posicionada entre obras e ruínas. A mesma dimensão ficcional de Marienbad pode ser encontrada no vídeo “Everything is Going To Be All Right”, do holandês Guido van der Werve, que registra um homem caminhando diante de um navio encalhado no gelo.
Finalmente, Berlim, como símbolo da desmontagem, da desconstrução e da reorientação dos paradigmas de ordem mundial, está presente em toda a mostra. Está nas fotografias que Carlos Garaicoa tirou das ruínas urbanas de Havana, está na série de desenhos apagados de Carlos Bunga, está na instalação “Pódio para Ninguém” (2010), de Lais Myrrha – um pódio feito de pó de cimento prensado –, e está na aquarela “Leo Can’t Change the World” (1989), pintada por Leonilson no ano da queda do muro.
Outro nexo comum à maioria dos trabalhos da mostra são os tons em branco e preto. O branco do mármore da arquitetura de Brasília, no vídeo de Clarissa Tossin, contrastado com o preto do carvão dos azulejos de Laercio Redondo, resulta no cinza do cimento, das pedras e do arame, que dão forma aos trabalhos de André Komatsu, Nicolás Robbio, Antonio Dias e Lucia Koch. Dessa orquestração de tons melancólicos resultam os humores niilistas da curadoria de Luisa Duarte.
Mercado de arte cresce e supera a crise de 2008 por Audrey Furlaneto, O Globo
Mercado de arte cresce e supera a crise de 2008
Matéria de Audrey Furlaneto originalmente publicada no jornal O Globo em 12 de março de 2014.
Setor cresceu 8% em relação a 2012
Vendas milionárias nos EUA foi o principal fator, segundo pesquisa da feira Tefaf
RIO - Mais tradicional feira de arte antiga do mundo, a Tefaf, em Maastricht, na Holanda, divulgará nesta sexta-feira os dados de sua pesquisa anual sobre o setor. Os números, antecipados pelo GLOBO, revelam que as vendas de obras de arte e antiguidades no mundo somaram € 47,4 bilhões — o equivalente a cerca de R$ 154 bilhões, ou 8% a mais do que no ano anterior.
O estudo, encomendado pela European Fine Art Foundation (Fundação Europeia de Belas Artes), será apresentado durante a Tefaf, que será aberta ao público nesta sexta. Segundo a pesquisa, o setor cresceu tanto que se aproximou de seu recorde histórico, alcançado em 2007, quando chegou aos € 48 bilhões (em vendas de obras no mundo todo).
Coordenadora do estudo, a pesquisadora Clare McAndrew, formada em Economia da Cultura e especializada no mercado de artes, enfatiza o fato de o setor estar voltando aos patamares atingidos antes de 2008, ano que marcou a recessão econômica mundial. Ela apresentará as conclusões do estudo na própria sexta.
Brasil tem apenas 1% dos negócios
A pesquisadora afirma que os negócios foram alavancados não pelos mercados emergentes, com seus novos milionários colecionadores de arte. Os Estados Unidos são, outra vez, os responsáveis por impulsionar os negócios: as vendas de arte no país cresceram 25% em relação a 2012, e o país responde por cerca de 38% de todas as vendas da área.
A China, que chegou a passar os americanos em 2011, recuou bruscamente, segundo o estudo, e sua participação no mercado global em 2013 ficou em 24%, embora o país ainda seja, entre os mercados ditos recentes, o mais aquecido.
Apesar do alardeado boom, o setor no Brasil tem parcela ínfima no montante global: o país representa apenas 1% dos negócios, percentual que se manteve idêntico de 2012 para 2013. Segundo a pesquisa, os 200 maiores colecionadores do mundo estão nos EUA — país que concentrou, em 2013, 49% dos compradores de arte. O Brasil, por outro lado, tem só 1% do total de colecionadores.
O estudo se concentra nos EUA e na China. O primeiro somou € 18 bilhões (R$ 58,5 bilhões) em vendas de arte no ano passado, enquanto o segundo fechou o ano com € 11,5 bilhões (R$ 37,4 bilhões). Mas, como ressalta a pesquisa, os chineses têm um problema grave nos leilões de arte: as vendas nem sempre se confirmam — apenas 56% dos lotes vendidos são pagos no prazo de seis meses.
Governo escolhe pessoas de perfil moderado para avaliar obras de arte por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Governo escolhe pessoas de perfil moderado para avaliar obras de arte
Matéria do crítico Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 6 de março de 2014.
Os 13 representantes da sociedade civil que irão compor o Conselho do Patrimônio Museológico, aprovados pela ministra da Cultura, Marta Suplicy, representam um grupo de perfil moderado, que deve diminuir as tensões provocadas pelo decreto 8.124.
O decreto prevê a possibilidade de declarar de interesse público obras de arte de coleções privadas. Segundo o documento, obras privadas, uma vez declaradas de interesse público, passariam a ser monitoradas pelo governo.
A Folha obteve com exclusividade a lista dos 13 representantes da sociedade civil, indicados pelo presidente do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), Ângelo Oswaldo, à ministra. A portaria com a lista deve ser publicada nesta sexta-feira (7).
Entre os integrantes estão o secretário de Estado da Cultura de São Paulo, Marcelo Mattos Araújo, o banqueiro e colecionador José Olympio Pereira, a colecionadora e diretora de museu Angela Gutierrez e os curadores Fabio Magalhães e Paulo Herkenhoff.
"São eles que vão colocar em prática e aprovar as normas para a declaração de interesse público", disse o presidente do Ibram.
Desde que a portaria foi publicada, em outubro passado, Oswaldo se viu no centro de uma polêmica –colecionadores e galeristas viram o novo instrumento como uma forma de apropriação indevida.
A questão ganhou tanta animosidade que colecionadores estão deixando de emprestar obras para exposições como forma de retaliar e pressionar o governo. O curador do Museu de Arte Moderna de Nova York, Luis Pérez-Oramas, por exemplo, está tendo dificuldade em obter obras de Lygia Clark para uma retrospectiva da artista, por conta da situação.
Oswaldo diz que "não pretende alterar o decreto" e dá a entender que, com o conselho que agora tomará posse, os medos serão dissipados. A turbulência, porém, ainda não está afastada: a Ordem dos Advogados do Brasil estuda a possibilidade de questionar a legalidade do decreto.
"Os nomes são ótimos, agregadores e de grande respeito, mas o decreto continua sendo um problema", diz a galerista Eliana Finkelstein, da Associação Brasileira de Arte Contemporânea.
Além dos 13 indicados pela ministra, o conselho é composto ainda por oito membros, representantes de entidades ligadas à cultura –algumas governamentais, como o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Pessoas da sociedade civil que irão compor o Conselho de Patrimônio Museológico:
Angela Gutierrez
Colecionadora e presidente do Instituto Cultural Flávio Gutierrez
Antônio Carlos Motta de Lima
Professor doutor de Antropologia na Universidade Federal de Pernambuco
Fábio Luiz Pereira de Magalhães
Curador, ex-diretor da Pinacoteca de São Paulo
Gaudêncio Fidélis
Curador, diretor do MARGS (Museu de Arte do Rio Grande do Sul)
João Cândido Portinari
Filho de Cândido Portinari, professor e diretor do Projeto Portinari
João Maurício Ottoni Wanderley de Araujo Pinho
Colecionador e ex-diretor do MAM do Rio
José Olympio Pereira
Banqueiro e colecionador
Leonel Kaz
Curador
Marcelo Mattos Araújo
Secretário de Estado da Cultura de São Paulo
Maria Célia Moura Santos
Museóloga
Modesto Carvalhosa
Jurista
Paulo Herkenhoff
Curador e diretor do Museu de Arte do Rio
Ronaldo Barbosa
Diretor do Museu do Vale do Rio Doce
Feira americana se reinventa com foco nos emergentes por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Feira americana se reinventa com foco nos emergentes
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 10 de março de 2014.
Num cenário cada vez mais saturado, a Armory Show, mais tradicional feira nova-iorquina, vem tentando se reinventar. Desde que assumiu o comando do evento há três anos, Noah Horowitz conta que seu objetivo é "repensar e energizar" tudo.
E a estratégia que encontrou foi apelar para os mercados emergentes, tendo já destacado galerias latino-americanas em edições passadas e, neste ano, criando uma ala só para a China.
"Todo o cenário tem passado por abalos sísmicos, as mudanças são enormes", diz Horowitz. "O número de feiras e bienais aumentou tanto que há muito mais ruído."
No caso do Brasil, a edição da feira que terminou ontem foi uma tentativa de limpar o caos e estabelecer alguns nomes que devem estar na lista de todo colecionador.
Luciana Brito, galerista paulistana que está no comitê de seleção da Armory, levou obras do concretista Waldemar Cordeiro. A Bergamin, também de São Paulo, destacou alguns trabalhos raros de Lygia Clark e Mira Schendel, enquanto a Raquel Arnaud apostou em Sérgio Camargo.
Essa foi uma das maiores representações brasileiras na feira, mas também chamou a atenção o fato de galerias estrangeiras também terem escolhido brasileiros como carros-chefe de suas seleções.
Depois de fechar exclusividade na representação de Lygia Clark, a casa britânica Alison Jacques levou à Armory uma instalação inédita da mais nova integrante de seu time --Fernanda Gomes.
"Não sei dizer por que a obra dela tem se tornado mais relevante agora", diz Charlotte Marra, diretora da Alison Jacques. "Mas achamos que esse seria o melhor momento para mostrar isso em Nova York. Estão percebendo a habilidade dela em trabalhar com texturas e sutilezas."
Obra de Lygia Clark está à venda por US$ 1,5 milhão em feira de arte em NY por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Obra de Lygia Clark está à venda por US$ 1,5 milhão em feira de arte em NY
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 6 de março de 2014.
Obra mais cara de um artista brasileiro na Armory Show, a mais tradicional feira de arte de Nova York em cartaz até domingo, "Livro Sensorial", peça criada por Lygia Clark em 1966, está à venda por US$ 1,5 milhão.
"É uma obra raríssima dela", diz Thiago Gomide, da galeria Bergamin, de São Paulo, que pôs o trabalho à venda. "Já tivemos muitos interessados por essa peça, colecionadores importantes."
Além da obra de Clark, que ainda não foi vendida, há um trabalho do concretista Waldemar Cordeiro, uma peça de sua série "Popcretos", em que misturou fragmentos de objetos em composições abstratas, à venda por US$ 1 milhão no estande da galeria paulistana Luciana Brito.
Outra peça brasileira que está entre as mais caras da Armory é uma escultura em madeira de Sergio Camargo com etiqueta de US$ 500 mil na galeria Raquel Arnaud. Por enquanto, nem a obra de Cordeiro nem o relevo de Camargo encontraram compradores.
Obras de brasileiros são vendidas nas primeiras horas de feira em NY por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Obras de brasileiros são vendidas nas primeiras horas de feira em NY
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 5 de março de 2014.
Nas primeiras duas horas do Armory Show, a mais tradicional feira de arte de Nova York, obras de brasileiros como Mira Schendel, Abraham Palatnik, Artur Lescher, Sérgio Sister e Vik Muniz já foram vendidas.
À venda no estande das galerias Nara Roesler e Bergamin, duas das seis casas brasileiras na feira, as peças valendo entre US$ 30 mil e US$ 300 mil foram arrematadas ainda durante a abertura da Armory para convidados, na tarde desta quarta (5).
No estande da paulistana Baró, obras de US$ 14 mil do artista mexicano Morris, que participou da última Bienal de São Paulo, também haviam sido vendidas.
Esse é um momento de transição para o Armory Show. A feira que começou em 1999 passou por um período de decadência, trocou de diretor e agora tenta se restabelecer com a recuperação da economia norte-americana e diante da concorrência acirrada com a franquia nova-iorquina da feira britânica Frieze, que acontece em maio.
"Enquanto a Frieze é mais 'avant-garde', a Armory é mais tradicional", diz Fabíola Ceni, diretora de vendas da Nara Roesler, à Folha. "Com a recuperação da economia aqui, há espaço para duas feiras em Nova York."
Luciana Brito, galerista brasileira que está no comitê de seleção da Armory e tem um dos maiores espaços na feira este ano, não parava um minuto, emendando conversas com curadores e colecionadores.
Seu estande tem obras clássicas de Waldemar Cordeiro, pioneiro do concretismo paulista. Muitas delas estavam na retrospectiva dedicada à obra do artista no Itaú Cultural no ano passado.
