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março 7, 2014

O sol negro da melancolia por Mario Sergio Conti, O Globo

O sol negro da melancolia

Artigo de Mario Sergio Conti originalmente publicado no jornal O Globo em 6 de março de 2014.

‘A calma dos dias’, livro de Rodrigo Naves, mistura ensaios sobre a cena contemporânea — reality shows, Gisele Bündchen, Michael Jackson — com pequenas ficções, perfis e obituários de artistas e amigos, análises de obras e indagações filosóficas

Rodrigo Naves, ficcionista e crítico de artes plásticas, se perdeu ao andar de carro pela cidade de Santos. Buscou placas que o orientassem na barulhenta algaravia de seres, coisas e fumaça. Topou com uma que dizia: Lar das Moças Cegas. “Um retiro de paz e silêncio pousou sobre a tarde agitada”, escreveu ele a respeito da visão. As palavras obsoletas, o mundo de noite e calma ao qual a placa remetia, o tiraram de súbito do presente da cidade vibrante e confusa. Lares não há mais. Moças tampouco. E os cegos tornaram-se há tempos deficientes visuais.

O Lar das Moças Cegas não lhe inspirou pena. Imaginou que moravam ali jovens operosas. Elas recolheriam apostas na lotérica à direita da fachada. Organizariam as terapias ocupacionais anunciadas numa faixa de pano. Empenhadas no bem-estar de seus semelhantes, as ceguinhas viviam do seu trabalho. Nas horas de folga talvez conversassem, costurassem, ouvissem música. “Com a delicadeza de quem precisou aguçar os sentidos, cuidavam para não invadir territórios alheios”, prossegue Naves em “A calma dos dias”, que a Companhia dos Livros acaba de publicar.

O Lar existe, e a descrição no livro lhe é fiel. Quanto ao que se passa com as moças, é tudo imaginação de Naves, “devaneios, momentos em que a continuidade dos dias e dos hábitos se interrompe”. Perdidaço no presente nacional, Naves capta poesia densa, ainda que numa vírgula do cotidiano; deixa-se encantar pelas evocações; imagina dignidade num mundo obscuro. Não é pouco.

E é só o começo. As moças cegas o ajudam a pensar dimensões incômodas da vida contemporânea. O Lar delas é contraposto à transparência da Casa dos Artistas, do Big Brother Brasil e de tantas residências “que fazem a delícia do público televisivo mundial”. Nessas casas, nota o escritor, como tudo é devassado, os seus moradores são reduzidos a corpos, a bíceps e glúteos. E o que os corpos fazem o tempo todo é se tatearem, diminuir a distância que os separa. O excesso de tato com que as santistas anônimas compensam a cegueira corresponde ao tato excessivo dos devassados nos BBB.

Naves desdenha a explicação corriqueira para as intimidades hiperexpostas: busca de erotismo e índices de audiência. Nas casas de boneca da TV o mundo se torna doméstico e apreensível, ele diz, e quanto mais complexa a vida contemporânea, mais agradáveis se tornam as explicações caseiras. O fenômeno não se restringe à indústria cultural. Ele começou na cultura dita superior. A arquitetura pós-moderna recuperou a fachada, transformando edifícios em casinhas. As instalações imperam nas artes plásticas, e a maior parte delas não passa de ninhos. O romance, arte que buscava a vida social, foi atropelado por biografias que trombeteiam a intimidade de indivíduos tidos por excepcionais. A alta costura é vista como grande arte, o que domestica a criação artística para torná-la ponta de lança da indústria da moda.

“A calma dos dias” mistura ensaios sobre a cena contemporânea — reality shows, Gisele Bündchen, Michael Jackson — com pequenas ficções, perfis e obituários de artistas e amigos, análises de obras e indagações filosóficas. Nuns textos sobressai o ensaísta de “A forma difícil”, livro que consolidou a sua reputação de grande crítico. Noutros, brilha o ficcionista de “O filantropo”, um escafandrista das fissuras do cotidiano.

Em “A calma dos dias”, o crítico e o ficcionista estão banhados pelo sol negro da melancolia. As artes plásticas sucumbem ao mercado e ao dinheiro, quando não à teorização que oblitera obras e homens. A arte se torna tão rarefeita que o crítico perde o objeto, deixa de ter o que analisar. Já a vida passa cada vez mais rápido. Os achaques se sucedem. O álcool, as drogas, o estudo, o sexo, a amizade, a política, talvez até mesmo o amor, deixam de ter aquele gosto.

O mundo objetivo e a existência subjetiva, como se sabe, se confundem. Difícil é saber quando falta vento social para mover o moinho da arte. Ou então se não há mais obras e indivíduos que captem a mudança de vento. A metáfora do vento e do moinho é de Van Gogh, e serviu de título para o livro anterior de Naves. Em “A calma dos dias”, ela reaparece: “temo ser hoje quase inaudível o rumor que moveu tantos engenhos”. Continua a faltar algo, mas é preciso fazer alo, nem que seja arrumar a mesa.

“Há horas de lutar e horas de se entregar”, dizia Mira Schendel aos amigos pouco antes de morrer. “Ouvi várias vezes essa frase no último mês, e confesso que sem a menor cumplicidade e, talvez, sem a menor compreensão do sentido da decisão de Mira”, relata Naves no livro. O seu livro, obra de um inconformista conformado, é sobre isso: luta e entrega na calma dos dias de moinhos imóveis.

Posted by Patricia Canetti at 10:26 AM

março 5, 2014

Obras antigas são usadas para debater protestos por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Obras antigas são usadas para debater protestos

Crítica de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 4 de março de 2014.

Em '140 caracteres', pouco envolvimento da produção atual com as ruas faz museu recorrer a peças dos anos 1970

Uma questão da mostra é a pouca quantidade de trabalhos contemporâneos que promovem uma reflexão de fato a respeito do brasil

140 caracteres, Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo, SP - 29/01/2014 a 16/03/2014

É muito oportuno --apesar de bastante raro por aqui-- que museus proponham uma reflexão sobre o atual contexto do país.

A mostra "140 caracteres", em cartaz no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), parte das manifestações públicas que ocorreram no país em junho do ano passado para revisitar seu acervo com questões que poderiam surgir desse fenômeno.

A exposição ganha ainda destaque pelo caráter coletivo de sua concepção: foi organizada por 20 integrantes de um laboratório de curadoria do museu, sob a coordenação de Felipe Chaimovich, o diretor da instituição.

O título indica uma das leituras que o grupo deu aos protestos: 140 é uma referência ao limite de caracteres para uma mensagem no Twitter, atribuindo assim às redes sociais um crédito pela iniciativa das mobilizações.

Do título, a mostra conserva ainda o número de obras, trocadilho fácil, mas aceitável.

Contudo, uma das primeiras questões é a baixa quantidade de obras contemporâneas que promovem uma reflexão de fato sobre o país.

RESGATE

A resposta a esse problema pode buscar dois caminhos: ou o museu tem poucas obras que tratam do país nos anos recentes, ou a produção atual parece distante das ruas, sendo que esta última possibilidade parece a mais correta.

Assim, restou à curadoria um exercício de resgate, ao trazer muitas obras dos anos 1970 --que aí sim enfrentavam a ditadura de forma explícita, como em trabalhos em Marcello Nitsche e Rubens Gerchman.

Ou então apresentar trabalhos recentes que ganham atualização após os conflitos, como os vidros quebrados de Iran do Espírito Santo ("Ato Único" 3 e 5) ou o cavalete de vidro com estilhaços de bala de Marcelo Cidade ("Tempo Suspenso de um Estado Provisório").

É um tanto estranho que as máscaras feitas por artistas para os bailes do museu sejam também expostas em referencia aos black blocs, assim como alguns textos de parede um tanto piegas, como "minha pátria é minha língua, verde grito de esperança". Mesmo assim, refletir o contexto a partir de um acervo é exercício necessário.

Posted by Patricia Canetti at 11:59 AM

Sou um porco, diz artista famoso por perturbar rotina de museus por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Sou um porco, diz artista famoso por perturbar rotina de museus

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 27 de fevereiro de 2014.

Tino Sehgal, Pinacoteca do Estado, São Paulo, SP - 23/03/2014 a 04/05/2014

Tino Sehgal é algo entre coreógrafo e escultor. No comando de 40 pessoas zanzando pelo átrio do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, o artista britânico tenta moldar os movimentos espontâneos que vê surgir ao mesmo tempo em que busca impor um roteiro rígido à ação.

É um ensaio para sua primeira mostra no Brasil, reencenando uma obra que já fez na Tate Modern, em Londres.

Em duas semanas, quem entrar no museu carioca vai se ver no meio de um enxame de gente, entre hipsters e senhorinhas, que anda de um lado para o outro fazendo pausas para contar momentos íntimos aos visitantes.

"Vivemos numa sociedade de massas, com uma população maior do que nunca, e ao mesmo tempo marcada pelo individualismo mais extremo", diz Sehgal. "Então pensei em conjugar as duas coisas. Queria um grupo que pudesse mostrar também as individualidades de cada um." E a dele também. Sehgal virou uma estrela da arte contemporânea criando esses híbridos de acontecimento espontâneo com uma técnica teatral firme e arrebatadora.

Na última Bienal de Veneza, venceu o Leão de Ouro com uma ação em que atores cantavam e dançavam na entrada da mostra principal nos Giardini, criando um alvoroço no meio do resto das obras.

"Há elementos decididos de antemão, mas muita coisa surge na hora. Em todo caso, tudo faz parte de um algoritmo que orienta o trabalho."

Dessa mesma forma, algo entre teatro e "happening", ele instalou uma espécie de discoteca à capela na Documenta, em Kassel, na Alemanha. Era uma sala escura em que o público esbarrava, sem nada ver, em cantores e bailarinos que se esbaldavam numa festa improvisada.

"Era importante bloquear a visão ali", diz Sehgal. "Esse é o sentido mais forte da nossa era, mas queria deixar aflorar os outros sentidos, para criar uma conexão mais potente entre as pessoas."

DIVAS FABRICADAS

Sehgal fala muito da busca por elos invisíveis entre desconhecidos, mas evita qualquer contato maior com o resto do mundo.

Na entrevista à Folha, não respondeu boa parte das perguntas. Ficava em silêncio, olhando para o lado ou o teto, para dizer que "não é o papel do artista falar sobre sua obra", arrematando que o que faz não é arte. "Nem acredito em arte, acredito em rituais. Arte é uma noção gerada por museus", diz Sehgal.

"Sou um porco comigo mesmo, mal me conheço. Artistas são pessoas comuns que se deixam seduzir pelo som da própria voz."

E às vezes se deixam ludibriar pelo momento em que a indústria das artes visuais fabrica divas nos mesmos moldes de Hollywood.

Sehgal é até um cara simpático, mas metódico e difícil. Nada pode ser fotografado sem permissão. Seus assistentes monitoram cada passo de jornalistas ao seu redor e as entrevistas são cronometradas. Só viaja de navio, para não adensar a sua pegada de carbono, e às vezes exige isso de sua equipe.

Uma economista que participa de sua performance no Rio até enxerga seus métodos rigorosos como fórmula para o sucesso. "Ele é superjovem e superpremiado", diz Iaci Lomonaco. "É genial essa estratégia dele, até mesmo do ponto de vista econômico."

Depois do Rio, ele virá de ônibus a São Paulo, onde mostra mais três trabalhos na Pinacoteca do Estado. São ações do início da carreira.

Numa delas, bailarinos imitam cenas de beijos famosos das pinturas do museu. Em outra ação, atendentes da bilheteria vão ler manchetes dos jornais aos visitantes.

Sehgal desestabiliza a ordem com momentos imprevisíveis, dos beijos na galeria a guardas de museu que irrompem em danças e cantorias.

É o que chama de "estrutura dialógica" em sua obra, que depende sempre da reação dos espectadores e busca "a sutileza interior" que a arte parece ter perdido.

O jornalista viajou a convite do Centro Cultural Banco do Brasil.

Posted by Patricia Canetti at 11:50 AM

Em livro de ensaios e contos, crítico Rodrigo Naves disseca mundo artístico por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Em livro de ensaios e contos, crítico Rodrigo Naves disseca mundo artístico

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 1 de março de 2014.

Não é a fúria que mete medo. No caso de Rodrigo Naves, 60, é a calma que assusta. Depois de sofrer um aneurisma durante uma cirurgia no coração há dois anos, o crítico de arte finalizou um livro que mistura ensaios, poemas e alguns contos de ficção.

Em "A Calma dos Dias", seu segundo livro de prosa que chega agora às livrarias, Naves ataca em textos breves o que chama de "serenidade e algo de aterrorizante que existe nessa calmaria", como se depois de ver a morte de perto o mundo reaparecesse mais "cristalino", com "uma ausência de topografia".

Naves disseca o cotidiano com um desencanto arguto, das meninas que vê passar nas ruas aos excessos e bobagens da arte contemporânea, que diz ter perdido sua relevância e virado vítima de "uma avalanche teórica".

Tanto que ele afirma ver mais arte no modo de vestir das garotas do que em museus. E desvia o olhar para analisar sujeitos incomuns nos livros de arte —Michael Jackson e Gisele Bündchen.

Na visão de Naves, Jackson foi um "mártir do culto à imagem", enquanto a modelo é uma espécie de Botticelli que saltou para fora dos quadros, "majestosa e inesgotável".

Em entrevista à Folha, Naves comentou os assuntos de seu novo livro. Leia a seguir trechos da conversa.

Folha - Seus textos no livro parecem marcados por um pessimismo muito forte. Tem algo a ver com o medo da morte?
Rodrigo Naves - Da morte eu não tenho medo. Na verdade, tenho medo de sofrer. Eu acho que é uma dimensão mais triste do que pessimista, que vem de uma mudança que eu percebo no cotidiano.

Vejo que tudo ganhou uma planura, uma ausência de topografia, como se você pudesse antever tudo e qualquer coisa. Ou seja, nenhum movimento que pareça prometer mudanças ou transformações nessa ordem, ou ameaçar essa serenidade.

Mas os protestos pelas ruas não são agito suficiente?
É como se as pessoas estivessem reivindicando uma reivindicação. Acho que houve uma certa dissonância entre o barulho que se fez, a grandeza do movimento, e o que movia isso. Há um descontentamento amplo, que é uma coisa que eu sinto, mas que você não sabe dar nome.

Num dos textos, você analisa o modo de vestir das mulheres. A moda é um novo interesse?
Quem não tem certo interesse pelo mundo, pela realidade, não encontra uma forma de ser permeável aos toques, às pessoas, às coisas e tem uma uma relação mais empobrecida com o mundo.

É uma tentativa de entender como essa moda se generalizou, de usar o top de um jeito, a cintura baixa. Quis fazer uma descrição disso tudo esperando ao mesmo tempo que um sentido surgisse dessa própria descrição. É uma relação semelhante à que eu tenho com obras de arte.

Tanto que você diz ver mais arte nessa moda do que em galerias e museus. A arte perdeu seu encanto para você?
Não sou pessimista em relação à arte contemporânea. Mas talvez por excesso de dinheiro e preços exponenciais, o sucesso comercial tenha virado um critério para determinar o que é boa arte. Isso chega a ser aflitivo.

Esse ideia de que arte é vida, tão forte hoje, também faz com que muitas vezes você deixe de olhar a vida para ver obras que falam dela, quando há pessoas na rua fazendo coisas desconcertantes, reveladoras. Estar de olhos abertos é importante.

Suspeito que as pessoas do meio têm uma relação muito teórica com a arte, e é muito difícil a teoria dar conta da obra. Essas avalanches teóricas estão em função de a arte ter perdido a relevância.

Mas quando desvia o olhar e escreve sobre Michael Jackson e Gisele Bündchen, por exemplo, você usa os mesmos raciocínios da crítica de arte. Isso é uma provocação?
É uma provocação e também uma tentativa de entender o que torna a Gisele algo deslumbrante. É criar um padrão para olhar as coisas.

Quando falo que o Michael Jackson é a "Pietà" do pós-modernismo é porque ele levou a noção de imagem às últimas consequências, ele interveio no próprio rosto em mais de 20 cirurgias. Ele é um mártir desse culto à imagem.

Mesmo assim, você vê uma audácia nele que passa ao largo dos artistas brasileiros. O que quer dizer quando afirma que eles "sofrem de Brasil"?
Há certa dificuldade de nossos cidadãos mais virtuosos serem violentos, mais impositivos. O [Alberto da Veiga] Guignard, por exemplo, mais sofria o mundo do que se impunha a ele. Ele sofre de Brasil nessa ideia de que talvez não tenhamos construído uma sociedade estruturada o suficiente para que se possa fazer um movimento forte em direção a uma realização.

Posted by Patricia Canetti at 11:41 AM