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agosto 7, 2013
Eros e civilização por Paula Alzugaray, Istoé
Eros e civilização
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé em 2 de agosto de 2013.
Lia Chaia - Contratempo, Galeria Vermelho, São Paulo, SP - 24/07/2013 a 17/08/2013
A natureza domada pela civilização, e substituída pelo artifício, sempre esteve no espectro de visão da artista paulista Lia Chaia. Em seus trabalhos de escultura, instalação, vídeo, fotografia ou performance, ela frequentemente se refere a elementos naturais que perdem sua organicidade ou a corpos biológicos em desequilíbrio ou mutação. A artista se refere a esse estado de incerteza entre natureza e artifício como um “Contratempo”, termo que intitula sua nova individual na Galeria Vermelho, em São Paulo.
Com a ideia de mutação da matéria, a artista realizou, dez anos atrás, a foto-performance “Folhíngua” (2003), em que sua língua era convertida em folha verde de árvore. Nesta exposição, Lia volta ao tema na série de fotografias “Quadrada” (2013), em que as folhas perdem seus contornos naturais ovalados e ganham formas angulares, quadradas e retangulares. “A natureza continua viva, mas sob nova formatação, indicando o distanciamento da natureza original e a presença de uma outra natureza, bem mais próxima da forma gerada pela crescente racionalização”, sugere Miguel Chaia em texto crítico.
Ainda sob a ótica da mutação genética, em “Mulher Seiva” (2013) a artista desenha a silhueta de um corpo feminino a partir de fitas verdes recortadas em forma do arabesco do símbolo do infinito. O resultado é uma imagem que remete tanto à cadeia de moléculas de DNA quanto a uma trepadeira de plantas. Com essa imagem híbrida entre vegetal e humano, Lia nos transporta às Lianas, aos mitos e aos monstros das pesquisas da artista modernista Maria Martins, atualmente em retrospectiva no MAM SP.
Diferentemente de sua precursora, no entanto, Lia guarda com a natureza uma relação de ordem biopolítica. Vivendo em uma cidade como
São Paulo em pleno terceiro milênio, a jovem artista vivencia e transporta para seu trabalho uma natureza que está longe de seu estado “original”, como aquele encontrado por Maria Martins na Amazônia e em seus mitos ancestrais. Assim, ainda segundo Miguel Chaia, Lia tem como matéria de trabalho uma “segunda natureza”, já impactada pela civilização urbana.
Nesta exposição, isso se traduz em trabalhos fortes e impactantes como “Alambrado” (2013), escultura feita de carpete recortado naforma das telas protetoras de arame, ou “A Queda”, em que folhas secas ganham a cor cinza do asfalto, ao serem esculpidas em carpete.
Com exposição sem curador, museu quer perder fama de salão de festa por Silas Martí, Folha de São Paulo
Com exposição sem curador, museu quer perder fama de salão de festa
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 7 de agosto de 2013.
Betão à Vista, MuBE - Museu Brasileiro da Escultura, São Paulo, SP - 02/08/2013 a 18/08/2013
Quando Paulo Mendes da Rocha projetou o Museu Brasileiro da Escultura, talvez não imaginasse que pouco haveria ali de escultura, nem que o espaço viraria um salão de festas de luxo no Jardim Europa, uma espécie de "museu de aluguel", como é conhecido na cena artística.
Renata Junqueira, uma das diretoras do MuBE, vem tentando mudar esse quadro. Negociou com Mendes da Rocha a retomada de um projeto para construir um anexo do edifício previsto na planta original e até tentou levar o acervo do escultor Franz Weissmann para o museu.
Enquanto aquele anexo nunca saiu do papel e a ideia de trazer as obras de Weissmann foi arquivada por causa de uma briga entre herdeiros, um grupo de artistas agora teve carta branca da direção para fazer uma mostra que dialogasse com o espaço do MuBE e ajudasse a reintegrar o museu ao circuito.
"Não é mais uma dessas exposições de merda nem evento comercial", resume Alberto Simon, artista à frente da mostra "Betão à Vista", forma lusitana de dizer concreto aparente, marca do brutalismo de Mendes da Rocha.
"É para trazer aquele público que frequenta museus, mas nunca vem ao MuBE."
Junqueira, que topou abrir o museu a essa tentativa de arejar o lugar, diz que não vê a mostra como uma crítica. "É um jeito de dar um novo rumo ao espaço", afirma. "Minha intenção é fazer com que o MuBE participe do circuito de modo mais nobre, o que não vinha acontecendo."
Nada na mostra parece revolucionário, mas esse time de artistas, de fato, não costuma nem pisar ali. São nomes da novíssima geração, como Deyson Gilbert e Roberto Winter, além de consagrados, como Paulo Monteiro.
Monteiro talvez seja o único que fez um nome como escultor. Sua intervenção no MuBE agora são peças sutis presas à parede, delicadas estruturas de estanho, cobre, argila, ferro e madeira que se equilibram naquele espaço.
"São obras desmontáveis, e o jeito que são construídas também se relaciona com a arquitetura", diz Monteiro. "Sempre fiz essas esculturas, mas nunca tive a chance de expor aqui. É um museu que ficou apagado, de fora."
Adriano Costa, aliás, faz alusão ao que está do lado de fora ao replicar dentro da mostra só o pedestal de uma escultura de Victor Brecheret que fica no terraço do MuBE.
Na contramão disso, Roberto Winter cria um embate com o concreto aparente dos muros do museu ao instalar uma nova parede, branca, no meio do espaço, isolando parte dele para expor um quadro qualquer, num ataque à arquitetura padrão dos cubos brancos que são os museus e as galerias convencionais.
Talvez aludindo à mudança de rumo, Lucas Simões mostra uma série de imagens derretidas, a película fotográfica descolando do papel como retrato deformado, e ainda em construção, ou reconstrução, como quer o MuBE.
