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agosto 13, 2013
Futuro dos museus está na criatividade e não na tecnologia, dizem especialistas reunidos no Rio por Audrey Furlaneto, O Globo
Futuro dos museus está na criatividade e não na tecnologia, dizem especialistas reunidos no Rio
Matéria de Audrey Furlaneto originalmente publicada no jornal O Globo em 10 de agosto de 2013.
Conselho internacional dedicado a estas instituições realiza conferência na cidade a partir deste sábado
RIO - “Se os brasileiros vão à praia e não aos museus, talvez os museus devam ir à praia.” A imagem criada pelo alemão Hans-Martin Hinz seria apenas poética, não fosse a realidade. No século XXI, diz ele, ainda há museus que agem como se estivessem no século XIX e, “ultrapassados, dispõem toda a sua coleção em redomas de vidro”, transformando a experiência de ir ao museu em algo “pior do que qualquer programa de televisão”.
Hinz está no Rio para a 23ª conferência do Icom, o Conselho Internacional de Museus, órgão parceiro da Unesco que reúne mais de 30 mil profissionais de 137 países numa rede mundial de pesquisa, promoção e preservação do patrimônio cultural. Pela primeira vez no Brasil, a conferência — criada em 1946 e realizada a cada três anos em países distintos — começa neste sábado, na Cidade das Artes, com uma reunião do conselho executivo do Icom.
Estima-se que até o dia de seu encerramento, no próximo sábado, o evento trará à cidade 2.000 profissionais ligados a museus. A programação é extensa e se pretende plural — há desde artistas renomados, como a cubana Tania Bruguera, e diretores de instituições longínquas, como Joanna Mytkowska, do Museu de Arte Moderna de Varsóvia, na Polônia, ao ex-secretário de Desenvolvimento Social de Medellín, na Colômbia, Jorge Melguizo, ou o escritor moçambicano Mia Couto. A ideia é que discorram, cada um à sua maneira, sobre “Museus (memória + criatividade) = mudança social”, tema da conferência.
Com um doutorado em Ciências Naturais no currículo, Hinz foi encarregado pela presidência de seu país de assessorar a criação de novos museus na Alemanha nos anos 1990 e, por mais de dez anos, esteve à frente do Museu Histórico Alemão, em Berlim. Tem os olhos treinados para avaliar projetos museológicos. E sentencia:
— O Brasil não está distante dos padrões internacionais, de forma alguma. O padrão aqui é elevado, sim, mas tudo depende do público-alvo. Há museus em todo lugar e há formas de organização completamente diferentes.
Assim, Hinz desconstrói o pensamento predominante no Brasil de que museus precisam se modernizar tecnicamente para vingar no século XXI. Enquanto o Ibram estima que são necessários R$ 244 milhões para “requalificar” os museus, ele prega que nem toda instituição precisa, por exemplo, de audioguia ou catálogos bilíngues.
— A questão é criatividade. Não é necessário imprimir tudo, por exemplo, porque é caro. Não precisa ter audioguia. Há países que escolheram ter só aplicativos para telefone, porque é mais barato e atrai públicos jovens. O público-alvo não é homogêneo, e não é fácil fazer com que todos os museus tenham o mesmo nível, embora todos tentem fazer seu melhor — afirma. — É claro que os museus nacionais são mais equipados, porque estão esperando público internacional. Mas esse não é o caso de todos. Há museus pequenos na Alemanha que não têm dinheiro para criar catálogos ou áudio em outros idiomas. Se um visitante internacional for até lá, talvez fique desapontado. Mas nos museus nacionais isso é diferente, eles são destinos turísticos.
Na tentativa de falar a língua do século XXI, os museus têm ampliado o uso de tecnologia em suas exposições — de forma um tanto histérica, como avalia o físico espanhol Jorge Wagensberg, que criou e dirigiu o Museu de Ciência de Barcelona, conhecido por transformar a abordagem museológica em ciência. Tido como um dos grandes pensadores de museus na atualidade, Wagensberg dará palestra no Icom na próxima quarta-feira.
— A tecnologia caduca sempre muito rapidamente. As boas ideias, por outro lado, não caducam jamais. É nisso que os museólogos nunca devem economizar: as boas ideias para explicar boas histórias com inteligência e beleza! Um bom museu não se constrói como se faria um livro ou um filme, quer dizer, começando pelo índice. Um bom museu, insisto, se constrói sobre um punhado de ideias brilhantes — defende o físico.
Para ele, as instituições podem ser mais atraentes usando apenas “inteligência e beleza, e não sequestrando os típicos falsos estímulos do show business ou do best-seller”.
— Um estímulo é bom simplesmente quando te incita a continuar na aquisição de conhecimento. Os que se esgotam em si mesmos são outra coisa, talvez pornografia?, e o que faz um bom museu é contar boas histórias usando a realidade em vez de imagens e palavras — completa Wagensberg.
À frente do debate intitulado “O museu e a condição humana: o horizonte sensorial” (nesta segunda-feira), Ulpiano Bezerra de Meneses, professor emérito da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, é crítico do uso de exposições blockbuster para atrair público (“Sou também contra o caráter ‘explosivo’ e avulso desses megaeventos, o que a longo prazo não contribui para implantar o desejável funcionamento do museu”, argumenta) e diz que “fetichizar a tecnologia é transferir para ela aquilo que se deve creditar aos homens e a seus interesses, aspirações, competência, criatividade”.
— Tornar o museu mais atraente não pode ser um alvo em si, mas um recurso para melhor atingir os objetivos a que a instituição se propõe. Seja como for, deve ser evitado a todo custo o risco de infantilizar o público. O museu tem que investir nesse público, para amadurecê-lo, e isso não quer dizer dispensa de esforço e compromissos. Já imaginar que a tecnologia, por si só, é fator de atração inclui sério risco, pois, se ela é uma mediação, pode também converter-se em objetivo. Ela deve servir aos propósitos e compromissos do museu e não, como pode acontecer, servir-se dele — avalia o professor da USP.
De forma poética, o físico Wagensberg resume o que, para ele, é de fato o museu do século XXI:
— Um museu é hoje um valiosíssimo instrumento de troca social que se mede por como ele muda a vida das pessoas — diz o espanhol. — Um visitante tem que sair do museu com “fome”, ou seja, com mais perguntas do que tinha ao entrar.
O mercado em fase retraída por Paulo Carvalho, Continente
O mercado em fase retraída
Matéria de Paulo Carvalho originalmente publicada na revista Continente em 7 de agosto de 2013.
Cancelamento da última edição do SPA das Artes. Orçamentos reduzidos em todos os museus e equipamentos públicos do estado e da prefeitura. Atraso do Salão de Artes Plásticas de Pernambuco. Migração para outros estados de artistas, críticos e curadores. Adiamento do Olinda Arte em Toda Parte. Galerias fechadas ou vazias. Quem observa o campo das artes visuais do Recife, em 2013, encontra uma terra desolada. O observador de hoje pouco consegue encontrar a euforia que se vivia na primeira metade da década passada, quando a cidade parecia pegar o bonde nacional de um mercado tão promissor como complexo.
Esse mercado é complicado porque agencia um conjunto de variáveis interdependentes. Nele, exigem-se harmonia entre a produção artística, o fortalecimento dos espaços de exposição e ambientes de formação de todos os profissionais da cadeia e do público, o despontar de um pensamento crítico e a possibilidade de que a produção encontre compradores, seja no mercado primário (com obras adquiridas diretamente dos artistas ou através de galerias), seja no mercado secundário (em que obras adquiridas por pessoas físicas ou jurídicas são revendidas para pessoas físicas ou jurídicas, principalmente através de leilões).
O próprio estado, com a aquisição de acervo para os museus, colecionadores, grandes empresas ou pessoas que vejam mais significado na aquisição de uma obra de arte que de uma cortina automática representam esse vértice consumidor que, no Recife, é quase nulo, segundo constatou esta reportagem, e insignificante, se comparado ao restante do país.
A dificuldade nas vendas reflete a fragilidade dos outros pontos do sistema. Problemas como poucos museus, ausência de importantes coleções em exposição permanente, carência de catálogos que documentem a produção de artistas consagrados e jovens e facilitem o entendimento crítico dos seus trabalhos, e a última posição para as artes visuais na captação de recursos da principal Lei de Incentivo, a Rouanet, fazem com que espaços de venda flutuem em uma órbita sem sentido.
Moacir dos Anjos, pesquisador e curador vinculado à Fundação Joaquim Nabuco, figura angular para a compreensão crítica da produção de arte contemporânea no país e responsável pela consolidação do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães no cenário nacional, responsabiliza o poder público pelo cenário atual. “A impressão que dá é a de que o campo das artes visuais, de dois anos para cá, não tem a menor importância dentro das políticas públicas. Os equipamentos não têm verba, alguns deles são dirigidos por senhoras da sociedade e, na melhor das hipóteses, por pessoas ligadas à cultura popular. O engraçado é que temos um discurso no campo econômico desenvolvimentista, mas, no campo simbólico, algo profundamente conservador. O que temos hoje é uma polarização entre a riqueza econômica e a pobreza nas artes”, afirma.
Bruna Pedrosa, ex-diretora do Museu Murillo La Greca e, hoje, coordenadora de Artes Visuais da Fundação Joaquim Nabuco, afirma que as leis orçamentárias anuais não foram cumpridas. “O La Greca saiu de uma verba anual pequena, de R$ 120 mil, para uma menor, de R$ 40 mil; depois, para uma irrisória de R$ 18 mil, até não ter nenhum recurso disponível, tendo sobrevivido praticamente pela doação da sociedade de amigos que se formou em torno dele.”
No período de apuração desta reportagem, estavam sem gestores o Murillo La Greca, o Centro de Formação em Artes Visuais, Cefav, e o Museu de Arte Popular.
Leia a matéria na íntegra na edição 152 da Revista Continente
