|
|
fevereiro 27, 2013
Paisagens cariocas são destaque entre primeiras exposições do MAR, G1
Paisagens cariocas são destaque entre primeiras exposições do MAR
Matéria originalmente publicada no G1 Rio em 23 de fevereiro de 2013.
Museu de Arte do Rio será inaugurado na próxima sexta-feira (1º). Quatro mostras serão realizadas simultaneamente em oito salas.
Quatro exposições entrarão em cartaz simultaneamente no Rio de Janeiro, a partir da próxima sexta-feira (1º), por ocasião da inauguração do Museu de Arte do Rio (MAR), na Praça Mauá, Zona Portuária do Rio. Dentre elas, a mostra "Rio de imagens: uma paisagem em construção", sobre as transformações do cenário urbano da cidade ao longo de quatro séculos, promete chamar mais atenção. Ocupando o terceiro andar do pavilhão Palacete Dom João VI, o primeiro no fluxo de visitação proposto pelo museu, a exposição tem curadoria de Carlos Martins e Rafael Cardoso e vai contar com aproximadamente 400 peças.
"A ideia da exposição é despertar essa perspectiva do imaginário apreendido pelos artistas que passaram pela cidade ou que aqui se estabeleceram e mostrar como a paisagem do Rio interfere e interage com cada observador", disse Carlos Martins.
Um dos destaques, segundo o curador, é uma reprodução multimídia que remonta a antiga Avenida Central, a atual Avenida Rio Branco, no Centro. "A recriação foi toda baseada no álbum de fotografias originais de Marc Ferrez. A projeção colorizada vai fazer com que o visitante tenha a sensação de estar percorrendo os quarteirões da avenida."
Além de importantes obras da arte brasileira dos séculos 19 e 20 — entre elas, quadros de Tarsila do Amaral, gravuras de Lasar Segall e aquarelas de Ismael Nery —, a exposição apresenta objetos do cotidiano diretamente influenciados pela paisagem carioca, como objetos de decoração, fotos, desenhos e gravuras.
Outras exposições
No segundo andar, serão exibidas cerca de 140 peças da coleção particular do marchand Jean Boghici. A mostra "O colecionador: ate brasileira e internacional na coleção Boghici" inclui pinturas e esculturas de Di Cavalcanti, Brecheret, Guignard, Vicente do Rego Monteiro, Rubens Gerchman, Antonio Dias, Calder, Kandinsky e outros 70 artistas sob a curadoria de Luciano Migliaccio e Leonel Kaz.
Um piso abaixo, a "Vontade construtiva na Coleção Fadel" reúne aproximadamente 230 peças, todas produzidas por artistas plásticos brasileiros participantes dos movimentos concreto e neoconcreto, que surgiram e se desenvolveram durante as décadas de 1950 e 1960. São destaques obras de Willys de Castro, Hercules Barsotti, Lygia Clark, Franz Weissemen, Ligya Pape, Hélio Oiticica e Aloísio Carvão, entre outros, sob curadoria de Paulo Herkenhoff e Roberto Conduru.
Já "O abrigo e o terreno - Arte de sociedade no Brasil I" se concentra na ocupação do espaço público, com obras de Antonio Dias, Antonio Manuel, Bispo do Rosário e Lygia Clark, além dos coletivos Ocupação Prestes Maia, E-OU, Opavivará, entre outros, “O Abrigo e o Terreno - Arte de Sociedade no Brasil I” tem curadoria de Clarissa Diniz e Paulo Herkenhoff e faz parte do projeto “Arte e Sociedade no Brasil”.
Vale-Cultura para videogames por Piero Locatelli, Carta Capital
Vale-Cultura para videogames
Matéria de Piero Locatelli originalmente publicada na revista Carta Capital em 26 de fevereiro de 2013.
Em março deste ano, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, o MoMA, terá sua primeira exposição sobre videogames. Farão parte da mostra 14 jogos adquiridos pelo museu, produzidos entre 1980 e 2009. Neste mês de fevereiro, a ministra da Cultura Marta Suplicy se mostrava alheia às discussões geradas pela decisão do museu norte-americano. Enquanto a repercussão gira em torno da legitimação do videogame como arte, a ministra afirma: “eu não acho que jogos digitais sejam cultura”. A declaração foi feita em audiência pública na última terça-feira 19 em São Paulo.
No evento, a ministra dizia que, a princípio, o Vale-Cultura não poderia ser usado para a compra de jogos digitais. Promessa de campanha de Dilma Rousseff, o programa dará 50 reais, 45 desses bancados pelo governo, para o trabalhador gastar naquilo que a ministra acredita ser cultura. Para os críticos, o benefício é uma forma de o governo se abster em criar uma diretriz cultural e financiar quem não precisa de mais apoio estatal, como os espetáculos do Cirque du Soleil, filmes do Daniel Filho e musicais de Miguel Falabella.
“O que nós temos acesso não credencia o jogo como cultura. (…) Pode desenvolver raciocínio, pode deixar a criança quieta, pode trazer lazer para o adulto, mas cultura não é,” disse a ministra.
A ministra, portanto, entende como cultura revista de fofoca, mas não videogames. Em carta ao ministério, o presidente da Abragames (Associação Brasileira dos Desenvolvedores de Jogos Digitais), Ale McHaddo, disse que a discussão sobre os jogos eletrônicos no campo artístico é antiga, mas não vê precedentes na fala da ministra. “Confesso que jamais havia ouvido um comentário questionando se jogos eletrônicos são cultura,” escreveu Ale.
Sob uma perspectiva econômica, o faturamento dessa indústria já supera a do cinema em diversos países, como a Inglaterra. Além disso, as inovações da última década permitiram a alguns desenvolvedores questionarem a linguagem dos jogos e testar seus limites. São jogos autorais, vendidos a preços módicos por desenvolvedores independentes, em contraposição aos preços estratosféricos cobrados pelos grandes produtores.
Duas ideias, mesmo ministério. Na mesma semana em que a ministra mostrava o que achava dos jogos digitais, o ministério deu um sinal oposto para os produtores de videogame. Em uma decisão inédita, os desenvolvedores do estúdio gaúcho Swordtales foram autorizados a captar 370 mil reais pela Lei Rouanet para a pós-produção do jogo Toren.
Em seu favor, Marta se disse aberta ao diálogo e pediu para que levassem exemplos ao ministério. Com os inúmeros casos que possam ser apresentados, espera-se que a ministra possa perceber nos jogos algum valor cultural. A própria Marta Suplicy já falou que o Vale-Cultura pode ser usado para comprar até “revista porcaria”. Que deixe, então, os trabalhadores comprarem videogames porcaria se bem entenderem.
Vale-cultura poderá ser gasto com TV por assinatura, diz ministra, por Cristina Tardáguila, O Globo
Vale-cultura poderá ser gasto com TV por assinatura, diz ministra
Matéria de Cristina Tardáguila originalmente publicada no jornal O Globo em 26 de fevereiro de 2013.
RIO - Na semana em que a presidente Dilma Rousseff deve assinar o decreto que regulamenta o vale-cultura — benefício de R$ 50 que poderá ser dado pelas empresas brasileiras aos trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos para consumo de atividades culturais realizadas em todo o território nacional —, a ministra da Cultura, Marta Suplicy, surpreende o setor com uma novidade: o dinheiro do vale poderá ser usado também para o pagamento de mensalidades de TV por assinatura.
Em entrevista ao GLOBO, Marta explica que a regulamentação que Dilma deve assinar hoje em Brasília será um “documento bem genérico” e que o detalhamento operacional relativo ao uso do benefício só virá mesmo nos próximos meses, por meio de portarias que um grupo de trabalho criado no Ministério da Cultura (MinC) redigirá até junho, quando o benefício deve entrar realmente em vigor.
— Trata-se de um produto novo, e nós não queremos engessá-lo logo de cara. Fazendo esse detalhamento por portarias, podemos ir corrigindo pouco a pouco as regras estabelecidas para seu uso — explicou a ministra. — Mas não há dúvidas de que esse benefício só poderá ser usado em estabelecimentos majoritariamente culturais. Então, ele vai funcionar em cinemas, teatros, casas de shows, museus, livrarias, para a compra de revistas e periódicos e para a assinatura de TV a cabo.
Encontros em três cidades
No site oficial do vale-cultura, nascido de um projeto de lei que tramitou no Congresso durante três anos e que foi sancionado pela presidente Dilma em 27 de dezembro do ano passado, informa-se que o benefício de R$ 50 é “parecido ao vale-transporte ou ao vale-refeição”, que “o trabalhador receberá um cartão magnético complementar ao salário” e que ele “poderá utilizar (esse cartão) para entrar em teatros e cinemas, comprar livros e CDs e consumir outros produtos culturais”. A aquisição de pacotes de TV por assinatura não aparece na lista e, até agora, não havia sido mencionada publicamente por nenhum integrante do governo.
Atualmente, Net e Sky, por exemplo, oferecem no Rio de Janeiro e em São Paulo pacotes de TV com cerca de 80 canais por valores que oscilam entre R$ 39,90 e R$ 59,90. Com as portarias que o MinC publicará até junho permitindo que esses valores sejam quitados ou mesmo complementados usando o benefício do vale-cultura, é bem possível que o número de assinantes de TV aumente e a inadimplência diminua.
Para os próximos dias, a ministra tem uma série de encontros com empresários, trabalhadores e produtores culturais. Vai a Brasília, Curitiba e Belo Horizonte. A ideia, diz ela, é colher informações que ajudem a operacionalizar o vale-cultura. Enquanto Marta faz esse périplo, o MinC trabalha no credenciamento de empresas interessadas em operar os futuros cartões pré-pagos.
— Já estamos conversando com operadoras que têm expertise nisso, mas também queremos estimular novos empreendedores, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste — diz a ministra. — A ideia é gerar emprego e credenciar todos que decidirem se habilitar.
Informados sobre a posição da ministra, representantes de setores da cultura se mostraram surpresos.
— Acho essa possibilidade de uso muito ruim — avalia Eduardo Barata, presidente da Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR). — O vale-cultura foi pensado para dar ao cidadão acesso a instrumentos culturais dos quais ele estava excluído. A TV não é um deles.
Sônia Jardim, presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel), segue a mesma linha:
— Se a TV por assinatura for uma alternativa de uso para o vale-cultura, não vai sobrar dinheiro para nenhum outro setor. Pense bem: as TVs a cabo trabalham com mensalidade. O cidadão que assina um pacote de canais contando com o dinheiro do vale-cultura se compromete imediatamente a pagar aquele mesmo valor ao longo de muitos meses. Não vai dispor de dinheiro para nenhum outro bem cultural. Menos ainda para o livro.
Sônia e Barata reconhecem que para o público-alvo do vale-cultura — trabalhadores quem ganham até R$ 3.110 (em valores de hoje) — a TV por assinatura é “um grande chamariz”. Lembram ainda que a expansão das operadoras de TV caminha na direção da conquista desse mesmo grupo.
— Espero que a ministra fique muito atenta, que escute as ponderações da cultura nacional ao redigir as portarias que vão fixar os detalhes operacionais do vale-cultura — diz Barata.
— Entendo que Marta Suplicy esteja muito preocupada em mostrar que não cabe ao governo fazer censura quanto ao uso desse benefício, mas o vale-cultura tem em seu DNA a ideia de acesso a setores de que, em condições normais, alguns brasileiros não poderiam usufruir — ressalta Sônia.
De Nova York, a produtora cultural Paula Lavigne, responsável por shows de Caetano Veloso, pondera que o movimento de Marta talvez seja mesmo fruto de uma necessidade política.
— Se foi preciso que a ministra abrisse essa concessão, o.k. É válido. Mas é uma pena. Eu tinha romantizado um pouco mais (o vale-cultura).
Em miúdos, editores e produtores temem que boa parte dos R$ 11,3 bilhões que o vale-cultura poderia injetar em seus projetos nos próximos anos vá parar nas operadoras de TV por assinatura e esvazie o prometido aumento de poder de fogo do restante da indústria cultural.
A Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas (Feneec), por sua vez, destaca em nota que “acredita que a escolha individual faz parte do processo de formação cultural e que a iniciativa (do vale-cultura) tende a estimular o consumo das artes e cultura de maneira geral”.
A Associação Brasileira de Televisão por Assinatura (ABTA) informou que não sabia dessa posição de Marta. Mas comemorou:
— Trata-se de uma boa notícia. Só 27% das residências do Brasil têm TV paga, um dos índices mais baixos da América Latina — diz Oscar Simões, presidente da ABTA. — Esse uso (do vale) vai atender a uma parcela significativa da população que tem a TV como única fonte de informação e entretenimento.
Para Simões, a TV por assinatura tem uma oferta ampla e serve como uma verdadeira “biblioteca digital”.
— Acho o cinema fascinante, insubstituível, mas e as pessoas que não têm cinema em suas cidades? Isso é para elas — diz.
***
Detalhes:
- Quem tem direito:
Trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos, ou seja, R$ 3.110. Não terão direito ao benefício servidores públicos, estagiários e aposentados.
- Onde usar:
Segundo a ministra, em “estabelecimentos majoritariamente culturais”, como cinemas, teatros, casas de shows, livrarias, museus e na compra de CDs. Agora também poderá ser usado para adquirir pacotes de TV por assinatura.
- Quanto vale:
O benefício, que é pessoal e intransferível, será entregue ao trabalhador num cartão pré-pago semelhante ao vale-transporte e terá valor de face de R$ 50. A empresa poderá descontar até R$ 5 de seus funcionários para conceder-lhes o vale-cultura.
- Como ganham as empresas:
As companhias que aderirem ao vale-cultura poderão abater até 1% de seu imposto de renda.
- Estimativas do governo:
O Ministério da Cultura acredita que o benefício atenderá a cerca de 18,8 milhões de trabalhadores e que injetará R$ 11,3 bilhões na indústria cultural.
- O que falta ainda:
O vale-cultura tramitou no Congresso por três anos e foi sancionado em dezembro. Hoje, a presidente Dilma Rousseff deve assinar um decreto de regulamentação que dará poder aos ministérios para transformar o cartão em realidade. O MinC, que baixará portarias sobre o assunto, acredita que o vale estará funcionando no mês de junho.
