Página inicial

Como atiçar a brasa

 


julho 2021
Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sab
        1 2 3
4 5 6 7 8 9 10
11 12 13 14 15 16 17
18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30 31
Pesquise em
Como atiçar a brasa:
Arquivos:
junho 2021
abril 2021
março 2021
dezembro 2020
outubro 2020
setembro 2020
julho 2020
junho 2020
maio 2020
abril 2020
março 2020
fevereiro 2020
janeiro 2020
novembro 2019
outubro 2019
setembro 2019
agosto 2019
julho 2019
junho 2019
maio 2019
abril 2019
março 2019
fevereiro 2019
janeiro 2019
dezembro 2018
novembro 2018
outubro 2018
setembro 2018
agosto 2018
julho 2018
junho 2018
maio 2018
abril 2018
março 2018
fevereiro 2018
janeiro 2018
dezembro 2017
novembro 2017
outubro 2017
setembro 2017
agosto 2017
julho 2017
junho 2017
maio 2017
abril 2017
março 2017
fevereiro 2017
janeiro 2017
dezembro 2016
novembro 2016
outubro 2016
setembro 2016
agosto 2016
julho 2016
junho 2016
maio 2016
abril 2016
março 2016
fevereiro 2016
janeiro 2016
novembro 2015
outubro 2015
setembro 2015
agosto 2015
julho 2015
junho 2015
maio 2015
abril 2015
março 2015
fevereiro 2015
dezembro 2014
novembro 2014
outubro 2014
setembro 2014
agosto 2014
julho 2014
junho 2014
maio 2014
abril 2014
março 2014
fevereiro 2014
janeiro 2014
dezembro 2013
novembro 2013
outubro 2013
setembro 2013
agosto 2013
julho 2013
junho 2013
maio 2013
abril 2013
março 2013
fevereiro 2013
janeiro 2013
dezembro 2012
novembro 2012
outubro 2012
setembro 2012
agosto 2012
julho 2012
junho 2012
maio 2012
abril 2012
março 2012
fevereiro 2012
janeiro 2012
dezembro 2011
novembro 2011
outubro 2011
setembro 2011
agosto 2011
julho 2011
junho 2011
maio 2011
abril 2011
março 2011
fevereiro 2011
janeiro 2011
dezembro 2010
novembro 2010
outubro 2010
setembro 2010
agosto 2010
julho 2010
junho 2010
maio 2010
abril 2010
março 2010
fevereiro 2010
janeiro 2010
dezembro 2009
novembro 2009
outubro 2009
setembro 2009
agosto 2009
julho 2009
junho 2009
maio 2009
abril 2009
março 2009
fevereiro 2009
janeiro 2009
dezembro 2008
novembro 2008
outubro 2008
setembro 2008
agosto 2008
julho 2008
junho 2008
maio 2008
abril 2008
março 2008
fevereiro 2008
janeiro 2008
dezembro 2007
novembro 2007
outubro 2007
setembro 2007
agosto 2007
julho 2007
junho 2007
maio 2007
abril 2007
março 2007
fevereiro 2007
janeiro 2007
dezembro 2006
novembro 2006
outubro 2006
setembro 2006
agosto 2006
julho 2006
junho 2006
maio 2006
abril 2006
março 2006
fevereiro 2006
janeiro 2006
dezembro 2005
novembro 2005
outubro 2005
setembro 2005
julho 2005
junho 2005
maio 2005
abril 2005
fevereiro 2005
janeiro 2005
dezembro 2004
novembro 2004
outubro 2004
setembro 2004
agosto 2004
julho 2004
junho 2004
maio 2004
As últimas:
 

março 5, 2013

Autorretrato como mestiça por Paula Alzugaray, Istoé

Autorretrato como mestiça

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé em 31 de agosto de 2012.

Chineses e índios nativos brasileiros convivem nos trabalhos da artista carioca Adriana Varejão, que ganha exposição panorâmica no MAM-SP

Adriana Varejão - Histórias às margens, MAM, São Paulo, SP - 04/09/2012 a 16/12/2012

Três autorretratos de Adriana Varejão pontuam a exposição “Histórias às Margens”, no MAM–SP, que traça um panorama de 20 anos de trabalho da artista carioca. Na primeira sala, no óleo sobre tela “A Chinesa” (1992) ela se autorrepresenta como uma mulher oriental, com tatuagens feitas com pincel e com faca; na última sala, Adriana aparece como índia em pintura encomendada pelo curador Adriano Pedrosa especialmente para esta exposição. Em “Testemunha Ocular” (1997), tríptico posicionado na terceira sala da exposição, a artista encarna uma índia, uma mulata e uma mulher portuguesa. Os retratos personificam a mestiçagem presente na obra dessa artista que impressiona e encanta ao trazer o barroco para a cena contemporânea.

“O barroco mineiro é uma arte capaz de absorver qualquer coisa, que se presta à miscigenação. Isso ocorre por questões políticas, ligadas à contrarreforma: é uma arte muito voltada à persuasão”, diz Adriana, que quando começou a pintar, nos anos 1980, descobriu o improvável: a influência da China no barroco de Minas Gerais. Na catedral de Mariana, encontrou um painel pintado em dourado e vermelho com motivos chineses; em Congonhas, descobriu dragões sustentando lustres. Mas foi na Igreja São Francisco de Assis, em Ouro Preto, que encontrou o grande motivo do seu trabalho: uma pintura sobre madeira, à moda de azulejo. Dessa pintura ilusionista, que se fazia passar por azulejaria, Adriana Varejão inventou sua marca inconfundível.

Do barroco, Adriana se apropriou da azulejaria, dos tons sombreados da pintura a óleo, da dramaticidade. Mas, acima de tudo, aprendeu a seduzir. Assim como a arte barroca, sua arte tem um estilo teatral e exuberante, com um apelo visual que muito cedo atraiu a atenção do circuito internacional. Aos 25 anos, participou de uma importante exposição no Stedelijk Museum, em Amsterdã, que apresentava a nova arte contemporânea do Brasil, da Argentina e do Uruguai para a Europa. De lá para cá, participou de dezenas de importantes mostras e bienais internacionais. Até que, em 2011, sua tela “Paredes com Incisões à la Fontana” (2000) foi vendida por R$ 3 milhões em um leilão da Christie’s, em Londres, superando o recorde de Beatriz Milhazes. “Senti mais orgulho de a Tate adquirir minha obra, em 2000”, garante Adriana, que foi a primeira brasileira viva a ter uma obra adquirida pela coleção da Tate Modern, de Londres. “Acho muito interessante que o Brasil seja o único país onde os três recordes de leilão são mulheres. Isso é extremamente raro, o mercado em geral é muito conservador e olha para a pintura feita por homens”, pondera o curador Adriano Pedrosa, referindo-se a Adriana Varejão, Beatriz Milhazes e Tarsila do Amaral.

A obra da coleção da Tate, “Azulejaria Verde em Carne Viva” (2000), está entre as 40 pinturas reunidas no MAM – a maioria delas nunca exposta no Brasil. “Acho que essa é a primeira exposição em que as pessoas no Brasil vão realmente conhecer o meu trabalho, para além dos Azulejões”, diz a artista, referindo-se à obra exibida em caráter permanente no Centro Inhotim, em Minas Gerais. Nesse rico panorama, fica claro que a pintura de Adriana Varejão é composta de uma técnica tão mestiça quanto a cultura brasileira que ela representa em seu trabalho. Misturados à tinta a óleo, há elementos como alumínio, gesso, resina, poliuretano e até agulhas de acupuntura.

“Não sou uma purista. Misturo muito”, afirma a Adriana, que usou óleo e gesso para realizar a tela “Panorama da Guanabara” ao modo da pintura chinesa, retratando um Rio imaginário a partir de seu ateliê, situado ao lado da Vista Chinesa, na Floresta da Tijuca.

Posted by Patricia Canetti at 8:42 PM

março 3, 2013

Museu de Arte do Rio abre as portas na próxima sexta-feira com quatro exposições simultâneas por Audrey Furlaneto, O Globo

Museu de Arte do Rio abre as portas na próxima sexta-feira com quatro exposições simultâneas

Rio de Imagens: Uma Paisagem em Construção
O colecionador: arte brasileira e internacional na Coleção Boghici
Vontade Construtiva na Coleção Fadel
O Abrigo e o Terreno: Arte e Sociedade no Brasil I

Matéria de Audrey Furlaneto originalmente publicada no jornal O Globo em 24 de fevereiro de 2013.

RIO - Um museu, como define a Unesco, deve coletar e conservar bens culturais, organizar mostras, produzir memória, publicar conteúdo e educar. Nas palavras do curador Paulo Herkenhoff, a definição ganha alguma poesia — um museu, para ele, deve “abrigar o imaginário” dos indivíduos. É para esta direção que deve correr o MAR, o Museu de Arte do Rio, do qual Herkenhoff é um dos mentores e que abre as portas na próxima sexta-feira, na Praça Mauá.

Orçado em R$ 76 milhões (R$ 62 milhões da Prefeitura do Rio, que tem a Fundação Roberto Marinho como parceira do projeto), o MAR é um dos pilares da revitalização da Zona Portuária. E tornou-se um dos aparatos culturais mais aguardados do Rio (depois da Cidade das Artes) desde o ano passado, quando sua inauguração foi adiada de junho para setembro, depois para novembro e, enfim, para março. Agora, a abertura terá de atender à expectativa criada: nos dias 1º (para convidados) e 5 (para o público), o museu receberá os visitantes com quatro mostras simultâneas, uma em cada andar do Palacete Dom João VI.

O edifício é um dos três que formam o complexo do MAR. No palacete, de estilo eclético, ficarão as mostras. Ao lado dele, no prédio modernista que abrigava o hospital da Polícia Civil ficará a sede do programa educativo do museu, a chamada Escola do Olhar, com 11 salas de aula. No espaço do extinto terminal rodoviário do Rio, estarão a área técnica do museu e a bilheteria.

Os arquitetos Thiago Bernardes, Paulo Jacobsen e Bernardo Jacobsen desenharam uma cobertura que une os dois edifícios mais altos (o Palacete e a Escola do Olhar) com uma espécie de onda de concreto pairando no topo. A integração dos dois é uma forma de responder a um dos princípios do conceito de museu, o de educar. A Escola do Olhar é tão MAR quanto o Palacete onde estão as exposições de fato. E o público deverá acessar as mostras sempre pelo prédio da escola: lá, subirá de elevador até o último andar, para acessar a passarela que dá acesso ao edifício expositivo. E as mostras, assim, começam a ser vistas de cima para baixo.

— Um museu se configura pelo processo de colecionar, mas todas as pontas devem estar conectadas, da coleção à educação — diz o curador Herkenhoff. — Isso gera a dúvida: trata-se de um museu com uma escola ao lado ou de uma escola com um museu ao lado? É uma pergunta que nunca será respondida, para o bem do visitante.

Nos 13.500 metros quadrados de área construída, o MAR tentará provar que pode educar sem ser chato e atrair público sem ser superficial. As quatro exposições inaugurais contemplam da História da cidade a questões da arte.

Na primeira mostra a que o público terá acesso, “Rio de imagens”, 400 obras foram reunidas pelo curador Carlos Martins a fim de contar a História da cidade. De cartões-postais e cartazes publicitários do Rio do início do século XX a um vídeo que reproduz a Avenida Central, a exposição passa por desenhos e gravuras do Rio, assinados por Lasar Segall, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral, até chegar à arte contemporânea de Marcos Chaves e Thiago Rocha Pitta.

De aleijadinho A oiticica

Um andar abaixo e, portanto, na segunda mostra, é o olhar de um grande colecionador que guia o visitante. Ali, a Coleção Jean Boghici (leia mais na página 3) é mostrada em 136 obras históricas da arte brasileira, que dialogam com artistas estrangeiros. Depois de “O colecionador”, o espectador conhece, no primeiro andar, outro acervo, desta vez o de Sérgio Fadel, em recorte criado por Herkenhoff, que quer cunhar a existência de uma “segunda geração construtivista no país”. Na mostra, convivem 251 obras de Hélio Oiticica, Lygia Clark, Sacilotto, Mira Schendel e até uma escultura de Aleijadinho.

A arte contemporânea fica no térreo, em “O abrigo e o terreno”. Nesta, Herkenhoff dividiu a curadoria com a jovem Clarissa Diniz, para selecionar trabalhos de arte que abordem a questão da moradia. Estão lá obras do grupo Dulcineia Catadora, instalações de Ernesto Neto e até um carro alegórico do coletivo Opavivará!.

Cerca de 90% das exposições serão assinadas pelo próprio curador do Museu de Arte do Rio, que já integrou o corpo curatorial do MoMA, de Nova York, e da Documenta 9, de Kassel, além de ter assinado uma das Bienais de São Paulo mais respeitadas da década de 1990 (conhecida como a Bienal da Antropofagia, de 1998).

O MAR, a princípio, não deve receber exposições produzidas por outras instituições — muito embora já tenha oferta de uma grande mostra de Picasso. Curadores brasileiros, por outro lado, serão convidados a conceber exibições de artistas que conheçam melhor. Uma mostra da paraense Berna Reale, por exemplo, está nos planos e deverá ter outro curador que não Paulo Herkenhoff.

— A ideia é prever as exposições com dois anos de antecedência, como fazem instituições internacionais.

Em 2014, o curador já planeja organizar uma mostra com o tema liberdade, para refletir sobre os 50 anos do golpe de 1964. Em 2016, ano das Olimpíadas, o museu deve abordar o corpo humano.

A menina dos olhos de Herkenhoff, porém, não é a programação, mas a coleção do MAR. Se inicialmente foi pensada como um museu sem acervo, para abrigar coleções particulares do Rio, hoje a instituição segue o caminho oposto: tem uma coleção que chega a 3 mil itens, boa parte fruto de doações.

Os herdeiros da artista franco-americana Louise Bourgeois, por exemplo, doaram uma escultura e um trabalho em papel. O espanhol Santiago Calatrava, arquiteto do futuro Museu do Amanhã, que está sendo erguido ali ao lado, doou 1.200 aquarelas feitas por ele. E o próprio curador passou madrugadas a fio navegando no site de leilões eBay em busca de cartões-postais e outras imagens curiosas do Rio no início do século XX.

— O MAR não é só um museu municipal, mas um museu que vai colecionar — defende Herkenhoff.

Meta ambiciosa

A instituição abre as portas com uma meta ambiciosa: receber 200 mil visitantes por ano, 50% deles estudantes da rede pública. Além da escola e das salas de exposição, o complexo terá um auditório, ainda em obras, café e restaurante no terraço, com vista para toda a Zona Portuária.

Por enquanto, porém, a paisagem pena com um enorme canteiro de obras do projeto Porto Maravilha diante do museu. Buracos, guindastes e tapumes cercam boa parte do complexo.

— O MAR é o primeiro grande equipamento público que entregamos na Zona Portuária — diz o prefeito Eduardo Paes. — Faltava ao Rio um museu com essas características, que permitisse que grandes coleções de arte, como as de Sérgio Fadel e Jean Boghici, chegassem ao público. E a Escola do Olhar é a primeira escola pública de arte do Rio.

A administração do MAR seguirá o mesmo modelo adotado pelo Museu da Língua Portuguesa e pelo Museu do Futebol: a gestão ficará a cargo de uma OS (Organização Social). O Instituto Odeon, criado em 1998 em Minas Gerais e que gere a Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, venceu a licitação e terá R$ 12 milhões por ano para manter o museu. O contrato vale até 2014, podendo ser prorrogado.

— Trata-se de um museu da cidade, e esses R$ 12 milhões têm que trazer um resultado social à altura do que esse dinheiro traria se fosse aplicado em outros serviços dedicados à população — defende Hugo Barreto, secretário-geral da Fundação Roberto Marinho. — Não podemos esperar que o público venha, nós vamos buscá-lo. O MAR deve correr para o Rio.

Posted by Patricia Canetti at 7:33 PM

Entrevista com Paulo Herkenhoff, diretor do Museu de Arte do Rio, por Fabio Cypriano e Marco Aurélio Canônico, Folha de S. Paulo

Entrevista com Paulo Herkenhoff, diretor do Museu de Arte do Rio

Matéria de Fabio Cypriano e Marco Aurélio Canônico originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo em 28 de fevereiro de 2013.

"Não queremos um museu que seja vitrine, não é um museu dos grandes fetiches, dos recordes de aquisição, mas onde as coisas entram porque podem produzir algum sentido. É um museu de produção de pensamento."

Essa é a defesa entusiasmada de Paulo Herkenhoff, diretor cultural do Museu de Arte do Rio (MAR). Ele fala do espaço com a empolgação de alguém prestes a concretizar um sonho. "Prometi a mim mesmo que não trabalharia mais em museus, mas não resisti a esse projeto", confessa.

Leia a íntegra da entrevista com Paulo Herkenhoff, diretor do Museu de Arte do Rio, que abre na próxima sexta-feira (28).

Folha - O Rio precisa de mais um museu?
Paulo Herkenhoff - O Rio precisa de um museu que está a altura da tarefa civilizatória de um museu. A primeira tarefa de um museu é colecionar. Qual museu do Rio está colecionando?

O Museu Nacional de Belas Artes?
Só porque comprou um Portinari? Mas há quanto tempo não comprava?

Mas é preciso construir um novo museu para começar a colecionar?
Uma nova instituição, já que o Belas Artes está como está. Os museus privados têm grande dificuldade de sobrevivência e os públicos estão atrelados à burocracia, ao aparelhamento.

O Ibram (Instituto Brasileiro de Museus) não teve dinheiro para comprar um desenho de Tarsila do Amaral sobre um poema de Oswald de Andrade, mas tinha dinheiro para pagar ônibus para a claque. O Ibram não representa a museologia brasileira, representa uma visão do Estado, personalizada, sobre museus. O que está sendo construído para o acervo do Belas Artes?

A minha pergunta é: arte é necessária? Quando você me pergunta se mais um museu é necessário, eu pergunto: mais uma pintura é necessária? Mais uma fotografia é necessária?

Elas são necessárias porque são da maneira que são, são significativas para a sociedade. Senão, é mais um lixo que vai ser acumulado e vai parar na feira.

Você tem metas para o aumento da coleção?
Eu sou borgeano, freudiano e warburguiano [referente ao historiador da arte alemão Aby Warburg (1866 - 1929)]. Parar de colecionar é conversar com a morte. O que é a pulsão de vida em um coleção é a coleção viva, continuando. Eu sou warburguiano pelas formas transversais. Estou muito interessado em livros de artistas.

Eu escrevi um artigo chamado "Pum e cuspe no museu" para lidar com os pequenos atos, para quem não entende o conceito de "inframince", de Marcel Duchamp, em que ele fala dos pequenos fatos na vida que nos atordoam, que criam diferença, que nos capturam no estranhamento.

Para isso, ele cita como exemplo o roçar da calça de veludo como um som que se dispara e nos dá uma outra percepção do mundo. Se eu não souber diferenciar um "inframince" de um barulho qualquer, eu posso achar que isso é um pum.

Da mesma maneira, se eu não estudar o informe, certos pequenos gestos, eu vou pensar que o escarro, que é origem da noção de informe, é cuspe. Aí, eu não vou entender a obra do porco empalhado do Nelson Leirner. Eu vou achar que é porco, e a obra é arte, assim como posso pensar que é arte, quando é apenas porco.

E, para terminar com Borges, ele dizia que os argentinos tinham direito a Hamlet e ao cosmos.

Você diz que o MAR não é um museu de eventos, você acha que os museus no Brasil são muito preocupados com eventos?
Não sei. Posso dizer que este [o MAR] não é um museu de eventos. É o museu necessário. Há dez anos eu quis fazer um programa de educação para atender 200 mil crianças de rede municipal e me puxaram o tapete. Este projeto aqui era para o Museu de Belas Artes. A ideia de um museu para a rede pública era de 2003.

E por que não aconteceu, quando você era diretor do Museu de Belas Artes?
Porque o dinheiro foi negado. Então qual é missão de um museu no Rio? Primeiro, colecionar. Quais museus do Rio têm missão clara? Acho que o MAM (Museu de Arte Moderna) está construindo uma visão clara, tem um programa de exposições muito importante, um programa de debates, mas não está colecionando. Sem colecionismo não existe ideia de museu.

Qual era a ideia original? É verdade que se pensou em uma Pinacoteca, ou em um museu para guardar o acervo de Roberto Marinho?
Sobre isso você nunca vai ver algo escrito, apenas intriga. Quem disse isso? Intriga é fácil fazer.

Mas Pinacoteca era a ideia original...
Não vamos misturar alhos com bugalhos. Esse é um museu da cidade do Rio para a população do Rio, pensado para a rede pública municipal de ensino. Se for bom para a rede pública, será bom para os cidadãos do Rio, e se for bom para o cidadão do Rio, será bom para os turistas. Se a gente fizer um museu que discuta bem o Rio, vai ser bom para nós e para o Rio. Esse é o primeiro ponto.

Esse museu, inicialmente, foi pensando, não por mim, para abrigar, temporariamente, coleções privadas, mas sem nenhuma conexão com os organizadores do museu. Ou seja, era um museu que parecia museu mas não era. Museu sem coleção é centro cultural. Isso foi entendido. A ideia de chamar Pinacoteca não é minha, mas o nome Museu de Arte do Rio de Janeiro é meu. Pinacoteca é coleção de pinturas, então seria inadequado. Temos que ser lógicos na escolha das palavras.

Quando se incorpora o nome museu, incorpora-se tudo que é da civilização de museus: que forma coleção, que estuda sua coleção, que registra. Nós temos trabalhos já começados a serem feitos com universidades para o estudo da coleção.

Não é um museu que tem um penduricalho de gente, mas que trabalha com muita gente. De uma universidade vêm 12 professores, o que é um trabalho de troca mútua, porque não envolve dinheiro. A universidade quer pesquisar, nós desejamos pesquisadores e é a universidade que define a pauta. Nós não vamos substituir a universidade, mas ser um espaço de reflexão.

Mais: não tem "interior decoration", não tem shopping. Tudo aqui tem sentido. Se você me perguntar sobre qualquer obra que você viu, eu vou lhe explicar porque ela está na coleção, porque ela está na exposição e porque ela está naquela posição na exposição. Eu não prego uma obra na parede sem saber que obra é essa, qual seu sentido histórico, qual é sua relação em uma exposição. Eu não faço decoração de interior e nem defendo consumo.

Estamos em um momento no Brasil que o mercado define as relações com a arte?
Quais são as notícias que mais saem nos jornais? O mercado é necessário, mas é necessário na instância própria do mercado.

Esse museu é um trabalho onde a sociedade civil participa em um eixo entre o Estado e o mercado, cada um em uma posição. Isso se chama esfera pública na teoria habermasiana. Qual é o lugar da arte na esfera pública do Rio? Quais são os museus que estão introduzindo a esfera pública, pensada como tal?

Quando eu digo que nós temos mais de 40 fundos, isso significa que nós temos mais de 40 decisões de apoiarem a constituição de um acervo para o Rio, para o sistema educacional.

Como eu disse, não é cultura do espetáculo. Não há preocupação com recorde. Eu não disse em nenhum momento o valor de uma obra. Eu não falei de raridades.

Eu digo que a incorporação mais importante no MAR é a aquisição de um Aleijadinho, o que não havia em nenhum museu da cidade. É preciso pensar o que significa uma cidade que não tem Aleijadinho e nem o está buscando, em termos da história da arte brasileira e o que ele representa no presente, como ele alimenta o presente em valores simbólicos e para a população afro-brasileira.

Há uma questão essencial no MAR que é a preocupação com o educativo, mas museus, como o MAM nos anos 1960, tiveram uma papel importante para estimular a produção artística. Existe essa preocupação aqui?
Há alguns pontos que sustentam o arco da educação no MAR, entre esses pontos há um projeto de pequenos cursos profissionalizantes para adolescentes das comunidades, sem grandes oportunidades, que é como ensinar fazer moldura, montar uma exposição, ou seja, preparar jovens que possam adquirir uma profissão. Isso já está em marcha.

Depois teremos também seminários de curadoria, coordenados pela Lisette Lagnado. Isso ainda não começou, talvez no segundo semestre, ou mesmo no ano que vem. Mas a ideia é ter seminários, que durem três ou quatro meses. Primeiro as pessoas passam uma semana no Rio, depois viajam e voltam.

Depois nós vamos ter residências de artistas. Já temos autorização para alugar uma casa no Morro da Conceição, só não está sendo trabalhado agora, porque a prioridade é o processo de institucionalização.

O Rio tem uma dificuldade para criar um sistema de massa de arte e educação. Qualquer capital importante, você pega Belém do Pará, por exemplo, eles levam dez mil crianças ao Arte Pará, com monitoria, ônibus, pessoas que ajudam. Isso em Belém do Pará, na Amazônia, um lugar distante, fora do sistema de lei Rouanet.

Você vai a Porto Alegre e há uma tradição histórica. Há 30 anos eu vou a Porto Alegre, com a Evelyn Ioschpe, e há 30 anos já se trabalha lá com arte e educação.

Na Bienal de São Paulo, eu levei 200 mil crianças, um projeto de massa. E isso é muito importante. Temos dois desafios: um é como você traz, não é fácil trazer, custa dinheiro; o outro problema é como você individualiza, lidando com a massa, quais os sistemas de poder que se estabelecem e precisam ser rompidos.

O professor de arte não é o que não sabe, é o que pode. Se você diz que uma curadoria é um saber superior, você diz que o professor, que rala com a criança, não sabe. Claro que ele sabe, inclusive dar a dimensão da incomunicabilidade.

Nesse sentido, o MAM do Rio tem um trabalho importante, o [Guilherme] Vergara, no MAC de Niterói, tem um trabalho importante, a Casa Daros vai ter um papel importantíssimo. Mas cadê os outros museu? Eles não têm recursos.

E o papel dos centros culturais, como o CCBB?
É bom, mas eles têm outra dimensão. Há os centros culturais financiados por empresas, que têm uma necessidade de performatividade importante, ligado ao sistema de marketing. O banco fez 150 anos, tem uma campanha vinculada a crianças, então faz uma exposição de novos artistas. Isso não é o que a gente quer. A gente quer independência. A gente não pretende ter a maior visitação do ano.

Nós pretendemos explorar ao máximo o resultado social do custo financeiro que tem um museu. Quanto custa para a cidade produzir um museu como esse? Esse custo tem que ser defendido a cada centavo, ele tem que produzir uma irradiação correspondente. Eu sei fazer uma exposição bonita, mas fazer uma exposição que realmente signifique algo para pessoas que nunca vieram ao museu é o nosso desafio.

Como receber uma pessoa que cruza esse espaço desconhecido, que para ela é uma barreira social, já que ela nem sabe se está vestida corretamente, ela tem medo de se comportar. Isso tudo tem que ser visto com enorme afetividade.

Mas metade da verba para o funcionamento do museu será buscado no mercado, via Lei Rouanet...
Não uso esse conceito de mercado porque eu não trabalho com produtos. Nunca trabalhei com produtos. Trabalho com livros, curadorias, textos, aulas, visitas mediadas, esse é meu processo.

O mercado é muito importante, mas dentro do MAR há um grupo de empresários que vai trabalhar isso, mas não para desenvolvimento econômico, e sim para desenvolvimento social. E nós seremos avaliados por isso, por instituições como a Fundação Roberto Marinho, que tem a Vera Guimarães, que nos anos 1960 foi assistente do Paulo Freire, e já alfabetizou cinco milhões de crianças.

Como é a estrutura do MAR?
Nós não queremos uma penca de gente aqui, nós queremos abrir espaço para as pessoas. Por isso, a exposição da coleção Fadel, eu estou fazendo junto com o [Roberto] Conduru, que é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A exposição do Rio é feita por um professor universitário e um curador da Pinacoteca de São Paulo e professor da USP. Não se trata de criar um corpo burocrático com funcionários donos de seus espacinhos. Isso é um museu onde o pensamento é vivo. A biblioteca vai começar, em julho, com 5 mil volumes. Você tem ideia de como estão as bibliotecas do Rio? O Museu Nacional de Belas Artes tem comprado livros? Comprar livros não dá resultado político!

Eu não vou mudar o mundo, mas com essa equipe a gente pode transformar essa cidade. Eu vou trazer o [filósofo francês Jacques] Rancière, o [cineasta alemão Harun] Farocki, o [historiador francês] George Didi-Huberman, mais os do Brasil, como o Daniel Lins, especialista em Deleuze, no Ceará, isso vai transformar o Rio.

O Rio ficou à margem, o que se passa de importante no Rio de Janeiro, que realmente produza transformação? Eu sempre salvo o MAM, porque acho que ele faz um trabalho sensacional, mas o MAM não esgota as necessidades do Rio.

Posted by Patricia Canetti at 7:23 PM | Comentários (1)

OPAVIVARÁ! sobre a suspensão da performance na abertura do MAR, Facebook

Post do OPAVIVARÁ! originalmente publicado no Facebook em 2 de março de 2013.

Opa amigos,

É com grande tristeza e preocupação que informamos a todos que nossa ação, que deveria ter se realizado ontem, como parte do evento de inauguração do MAR (Museu de Arte do Rio), foi impedida e censurada pela força da Guarda Municipal.

Nossa saída do barracão em direção ao museu estava prevista para as 17h. Por volta das 16h duas viaturas da Guarda Municipal, com 6 guardas armados com cacetetes, estacionaram em frente ao portão do barracão impedindo nossa saída.

A Guarda nos informou que estava cumprindo uma determinação que partia de um consenso entre a Subprefeitura da Zona Portuária, a CET RIO, a Guarda Municipal, o Comando Militar do Leste e a Segurança da Presidência da República, de que nossa ação representaria um risco à vida da presidente, presente na inauguração do museu.

Em contato direto com a curadoria da instituição, tentamos de diversas maneiras viabilizar a ação buscando um acordo possível com as autoridades.

Enquanto nada se resolvia, demos continuidade à ação dentro do barracão, recebendo amigos, batucando as panelas e discutindo sobre toda a situação.

Às 19h, servimos o jantar no barracão.

Às 20h, recebemos a visita no barracão da curadora do museu Clarissa Diniz e do Capitão da Guarda Municipal Leandro Matieli, dizendo que nossa ação havia sido autorizada.

No entanto, já havia se passado 3 horas do horário previsto.

Estávamos programados para sair com a luz do dia, chegar à praça mauá ao anoitecer e servir o jantar em seguida.

No momento em que a ação foi liberada já era noite, o jantar já havia sido servido, as crianças da bateria estavam extremamente frustradas e cansadas e a chuva havia apertado bastante.

Decidimos então com grande pesar que não sairíamos mais, devido a total inviabilidade e falta de sentido.

Nossa proposta integrava o evento de inauguração do MAR, fomos convidados pela curadoria em abril de 2012.

Com todos os adiamentos da inauguração do museu nosso projeto foi se transformando, mas, em agosto de 2012, definimos nossa proposta com a descrição exata do que pretendíamos fazer e encaminhamos à curadoria, que recebeu a proposta muito positivamente.

Estamos muito abalados, é muito triste ter um projeto de quase um ano impedido por força policial sem nenhum tipo de diálogo prévio.

Estamos muito decepcionados com todas as instâncias de poder que deveriam apoiar e viabilizar o projeto e que no entanto, por simples comodidade, preferiram impedir, proibir e censurar.

É realmente absurda a inoperância e ignorância do estado diante da arte!

Responsabilizamos aqui, por essa ação de censura, a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, a Subprefeitura da Zona Portuária, a CET RIO, a Guarda Municipal, o Comando Militar do Leste, a Segurança da Presidência da República, a CDURP (Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro), a Fundação Roberto Marinho, a curadoria, direção e presidência do MAR.

Aguardamos sinceramente uma retratação dos responsáveis diante deste caso de descumprimento das leis e dos direitos instituídos na constituição brasileira.

Com tristeza,
OPAVIVARÁ!

Posted by Patricia Canetti at 7:17 PM | Comentários (1)