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janeiro 30, 2013
Ministério da Cultura mudará gestão da Cinemateca por Matheus Magenta e Silas Martí, Folha de S. Paulo
Ministério da Cultura mudará gestão da Cinemateca
Matéria de Matheus Magenta e Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo em 26 de janeiro de 2013.
Depois de exonerar Carlos Magalhães do cargo de diretor da Cinemateca Brasileira na semana passada, o novo secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Leopoldo Nunes, iniciou esforços para retomar o controle do órgão responsável pela preservação de 30 mil títulos.
Segundo ele, a secretaria foi "omissa" no controle da Cinemateca, que recebeu nos últimos dez anos cerca de R$ 170 milhões. Do total, R$ 20 milhões foram repassados diretamente pelo ministério e outros R$ 150 milhões foram captados, via renúncia fiscal e convênios com o próprio MinC, pela Sociedade Amigos da Cinemateca, uma organização sem fins lucrativos que dá apoio à gestão do órgão.
AUDITORIA
Auditorias da CGU (Controladoria-Geral da União) sobre os exercícios de 2010 e 2011 da Cinemateca apontam falta de controle do MinC sobre a execução dos recursos, além de problemas na gestão de bens e em licitações.
Após o Carnaval, uma força-tarefa formada por membros do ministério, da Sociedade Amigos da Cinemateca e da CGU irá se debruçar sobre as prestações de contas dos repasses feitos pelo MinC para a ONG.
Desde o mês passado, quando assumiu a secretaria do Audiovisual, Leopoldo Nunes --ex-diretor da Ancine (Agência Nacional do Cinema) e da TV Brasil- sinalizou que fará mudanças na estrutura da Cinemateca, que, segundo ele, sofre uma "crise de crescimento".
A Sociedade Amigos da Cinemateca passou a gerir financeiramente, nos últimos dez anos, projetos pouco ligados às atribuições da instituição.
Esse inchaço se deu porque a ONG pode contratar pessoas e gastar recursos com menos burocracia e mais rapidez que o governo.
Um exemplo é o quadro funcional da Cinemateca: 80% de seus 112 funcionários são contratados pela Sociedade Amigos da Cinemateca em regime de pessoa jurídica.
O plano do novo secretário é esvaziar o poder da ONG e transferir parte dos projetos da Cinemateca --cuja sede fica em São Paulo-- para outras áreas da pasta, como o CTAv (Centro Técnico Audiovisual), no Rio.
INQUIETAÇÃO
As incertezas sobre o novo modelo administrativo e quanto à continuidade de projetos em andamento provocaram inquietação entre gestores, conselheiros e funcionários da Cinemateca.
"Estou preocupado com a autonomia e o futuro da instituição, que atingiu um nível extraordinário e hoje está entre as cinco melhores cinematecas do mundo", afirmou Carlos Augusto Calil, ex-secretário municipal da Cultura de São Paulo e membro do conselho.
Na última quarta-feira, segundo apurou a Folha, funcionários da Cinemateca foram comunicados de que seus cargos seriam extintos após mudanças anunciadas pelo MinC, mas em seguida a diretora interina, Olga Futemma, recuou e lhes informou que o corte de vagas não é certo.
O MinC nega que haverá demissões.
RUMOS
O sucessor de Carlos Magalhães ainda não foi definido. Na próxima segunda, o conselho da Cinemateca irá discutir os rumos da instituição e o nome do novo diretor, que pode sair dessa reunião.
Ao longo da gestão de Carlos Magalhães, entre 2002 e 2013, funcionários e membros do conselho dizem que a Cinemateca ganhou mais visibilidade, verbas e equipamentos modernos, mas que a preservação do acervo acabou em segundo plano, inclusive com redução da equipe.
Procurado pela Folha, Magalhães não quis comentar sua gestão.
Leopoldo Nunes afirma que a preservação e a digitalização do acervo da Cinemateca serão prioritárias na nova gestão da instituição. Ele estabeleceu como meta digitalizar 3.000 obras até o final do ano que vem.
Galeria Moura Marsiaj fecha as portas depois de dois anos em São Paulo por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Galeria Moura Marsiaj fecha as portas depois de dois anos em São Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo em 24 de janeiro de 2013.
Parceria das galerias Mariana Moura, do Recife, e Laura Marsiaj, do Rio, a Moura Marsiaj funcionou por um ano e dez meses em São Paulo e anunciou nesta semana que fechará as portas a partir de fevereiro.
"Percebemos depois de dois anos que era muito puxado morarmos em duas cidades para atender cada uma duas galerias", disse Marsiaj à Folha. "Não tinha como continuar, já que a gente não conseguia se dedicar 100% ao projeto."
A galeria, que funcionava em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, abriu as portas num momento em que várias novas galerias montaram filiais em São Paulo ou ampliaram seus espaços, como a Mendes Wood, nos Jardins, a Baró, a Transversal e a Emma Thomas, na Barra Funda, e a Raquel Arnaud, que se mudou para um espaço maior na Vila Madalena.
Em setembro do ano passado, Mariana Moura, sócia de Marsiaj na galeria paulistana, fechou a casa que levava seu nome no Recife depois de oito anos em atividade. Sua galeria foi uma das pioneiras no cenário nordestino.
Os artistas representados pelas duas em São Paulo deverão ter suas obras vendidas agora pela galeria Laura Marsiaj, que opera em Ipanema, na zona sul do Rio.
Morre mestre Walter Zanini por Angélica de Moraes, revista Select
Morre mestre Walter Zanini
Texto de Angélica de Moraes originalmente publicado na revista Select em 29 de janeiro de 2013.
Perdemos um dos nomes fundamentais para a cultura visual brasileira, para a historiografia e a reflexão teórica da artemídia
Uma das maiores personalidades da cultura brasileira, fundou e foi diretor do MAC-USP, além de devolver o prestígio internacional à Bienal de São Paulo
Este mês de janeiro está pesado de mortes. Agora levou Walter Zanini (1925-2013), nosso querido professor Zanini, um dos nomes fundamentais para a cultura visual brasileira, para a historiografia e a reflexão teórica da artemídia. Rigoroso e objetivo ao escrever, Zanini detestava adjetivos e metáforas. Impossível reprimir, no entanto, a idéia de compará-lo a uma daquelas enormes e frondosas árvores que, ao virem ao chão, deixam uma clareira no seu entorno, difícil de ser repovoada pela floresta. Porque Zanini era como um baobá, árvore rara, imensa, sólida. Alta e generosa na sua sombra, que abrigava muitos. Chega de adjetivos, porém. Vamos aos fatos, como o mestre ensinou.
Historiador e crítico de arte, Zanini fundou e foi primeio diretor do Museu de Arte Contemporânea da USP (1963-1978). Foi no MAC-USP que ele sintonizou o circuito artístico brasileiro com a videoarte e os novos meios, a então denominada arte eletrônica, abrindo espaço também para a livre experimentação artística e para a produção das novas gerações, que exibia na mostras Jovem Arte Contemporânea (JAC) e outras tantas que transformaram o museu em centro de encontro e debate da classe artística.
Zanini foi o nome procurado pela Fundação Bienal para restaurar o prestígio internacional da instituição, fragilizada pelos anos de chumbo da ditadura militar e da censura às obras de arte. Cumprindo à risca o desafio, instituiu e exerceu pela primeira vez no país o conceito de curadoria, fazendo duas bienais antológicas, a 16ª e 17ª edições (1981 e 1983), que inscreveram novamente o evento no calendário mundial de grandes mostras periódicas de arte contemporânea. Criou o conceito de analogia de linguagens para a distribuição das obras no espaço expositivo e desatrelou-a da representação por países, modelo herdado da bienal de Veneza. Tudo isso nessas duas bienais dos anos 1980. Legados tão fortes que alguns, em passado recente, tentaram lhe roubar a primazia dessas atitudes.
Na sua primeira bienal (1981), Zanini trouxe para o âmbito principal das artes visuais as obras realizadas com alguns dos novos meios artísticos da época, como a artexerox, o videotexto e a holografia. Não bastasse isso, foi autor e coordenador da monumental História Geral da Arte no Brasil (Ed. Instituto Walther Moreira Salles, 1983, 2 volumes), o maior esforço historiográfico jamais feito nesse setor e que ocupou equipe de 16 especialistas, entre eles o antropólogo Darcy Ribeiro.
Realizou centenas de exposições e organizou outros tantos catálogos, muitos deles livros de referência incontornável. Sua produção de textos, tanto para as revistas acadêmicas quanto para a imprensa, é extensa e importante, demarcando o exercício de uma crítica baseada em muita pesquisa e método, uma quebra de paradigma na crítica de arte da época, então ainda bastante confinada a conclusões de gabinete e compradrios.
A trajetória desse professor, que conjugava prestígio acadêmico internacional a uma calorosa popularidade entre os alunos, foi bastante singular para a época em que se iniciou. Graduou-se pela Université de Paris VIII em 1956 e obteve doutoramento pela mesma universidade em 1961. Professor titular de História da Arte da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), onde trabalhou até se aposentar, foi antes professor da mesma disciplina na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), onde coordenou uma equipe de professores que incluía nomes como Júlio Plaza e Regina Silveira. Zanini formou gerações de artistas e teóricos que atualmente contribuem de modo decisivo para consolidar a qualidade da produção artística brasileira.
Escreveu diversos livros importantes, entre eles Tendências da Escultura Moderna (Ed. Cultrix, SP, 1971). Foi traduzido para diversos idiomas, especialmente o italiano, o inglês e o francês. Deixa inédito um livro sobre a história da artemídia no Brasil, tarefa que o ocupou obsessivamente até seus últimos dias. Escreveu crítica de arte no jornal O Estado de S. Paulo e para a prestigiosa Leonardo, revista norteamericana de arte e tecnologia.
