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fevereiro 6, 2013
'É importante que São Paulo se assuma como parte do Brasil', diz Juca Ferreira por Matheus Magenta e Anna Virginia Balloussier, Folha de S. Paulo
'É importante que São Paulo se assuma como parte do Brasil', diz Juca Ferreira
Matéria de Matheus Magenta e Anna Virginia Balloussier originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 2 de fevereiro de 2013.
O baiano Juca Ferreira comemora triplo aniversário: fez 64 anos anteontem, um mês à frente da Secretaria da Cultura paulistana ontem e um ano de filiação ao PT hoje. "No dia de Iemanjá", diz.
O ex-ministro da Cultura (2008-2010) chega a São Paulo com a meta de garantir uma "identidade plural e complexa" à "cidade mais negra e nordestina do Brasil".
Cita coluna no site da Folha em que Gilberto Dimenstein discute a importação de "um baiano" para a pasta da Cultura. "Acho que foi brincadeira. A cidade já ultrapassou esse nível de provincianismo contra quem é de fora."
E defende uma abertura a novos segmentos culturais e à periferia. "Parte desta São Paulo do século 21 ou é proibida ou é criminalizada ou é invisível", explica.
Juca assume a pasta com um recorde negativo. Em 2013, terá menos de 1% do orçamento municipal de R$ 42 bilhões (cerca de R$ 370 milhões). A média histórica era de 1,3%.
Depois do MinC, Juca passou os últimos dois anos trabalhando na Espanha, com a mulher e o filho de dois anos, mas diz que já sentia ser a hora de voltar ao país.
Depois de um telefonema do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, ex-colega na Esplanada, topou chefiar a pasta da cidade que "tem importância de ministério".
Seu primeiro programa será o lançamento, na próxima terça-feira, do movimento #existedialogoemsp. "Vi que, em torno da música do Criolo ["Não Existe Amor em SP"], há todo um sentimento de atualização da cidade."
Leia abaixo a íntegra da entrevista.
Folha - Como o sr. avalia a cena cultural de São Paulo?
Juca Ferreira - A cidade já tem a maior noite do mundo e uma cultura contemporânea que não deve a nenhuma cidade no mundo. Mas é preciso incluir e integrar a periferia e segmentos culturais importantes que ainda não têm reconhecimento do poder público.
O que o sr. irá fazer como secretário para promover essa inclusão?
É preciso incluir toda a população da cidade, desenvolver em todo o território serviços culturais, fazer com que esses equipamentos funcionem plenamente, permitir que a gente tenha políticas públicas para a cultura. Por exemplo, nós temos 54 bibliotecas. A gente precisa de uma política de livre leitura, que em parte se realiza dentro das bibliotecas, em parte fora das bibliotecas. As bibliotecas não podem ficar esperando a pessoa chegar e pedir um livro. As bibliotecas têm que promover o hábito da leitura, promover o livro e a leitura. Então, temos que ter um plano municipal do livro e da leitura, a exemplo do plano nacional. Isso, inclusive, permitirá captar recursos, que existem recursos previstos para os municípios que têm plano municipal de livro e leitura. Precisamos ter políticas culturais, não basta ter os equipamentos. Então, para construir essas políticas culturais e para desenvolvê-las, para executá-las vai precisar de recursos. É uma demanda natural, é um processo natural e existe uma expectativa na medida em que fez parte do projeto apresentado na campanha pelo prefeito [Fernando] Haddad: o fortalecimento da cultura na cidade.
Um artigo do colunista da Folha Gilberto Dimenstein discutiu a necessidade de São Paulo importar um baiano como secretário da Cultura.
Aquele artigo teve uma importância para mim porque gerou solidariedade. A cidade já ultrapassou esse nível de provincianismo contra quem é de fora. Só que tem de haver uma atualização da autoimagem de São Paulo. Ela não é monotemática. Pela sua complexidade, inevitavelmente terá de ter uma identidade plural e complexa. Acho que posso contribuir para o sentimento de que São Paulo faz parte do Brasil.
É a maior cidade nordestina do país. Numericamente, São Paulo é a cidade mais negra e mais nordestina do Brasil. Isso é algo que não pode ficar invisível.
E acho que a Virada Cultural tem que ter forró também. Falei com o [ex-ministro da Cultura Gilberto] Gil sobre a importância de São Paulo se assumir como parte do país.
Como ministro da Cultura, o sr. criticava a concentração de recursos da Lei Rouanet em São Paulo e no Rio. Há um conflito agora em pleitear mais recursos para São Paulo?
Isso é um equívoco. Nos oito anos em que eu e Gil fomos ministros, São Paulo teve mais recursos. Pulamos de um orçamento de R$ 287 milhões para R$ 2,3 bilhões em 2010. Então, sem concentrar em São Paulo e no Rio, fomos mais capazes de atender às demandas de São Paulo do que o modelo anterior: mesquinho, restrito e ilegítimo. São Paulo tem que trabalhar por recursos não em detrimento do Brasil, mas junto.
O sr. defende uma fatia mínima do orçamento para Cultura?
Sim. Um percentual mínimo para a cultura garante que o orçamento não seja pequeno. Por coincidência, este ano tem o menor percentual em muitos anos, menos de 1%. A média histórica é 1,3%. Se já era pouco, ficou pior. O prefeito Haddad dá importância à cultura e participarei ativamente da discussão do orçamento para 2014. Acho que 2% seria um percentual bom.
Integrantes do PT criticam o modelo de gestão indireta, via organizações sociais, e a criação de uma fundação para gerir o Theatro Municipal.
Toda instituição pública que tem corpo estável -e o nosso Theatro Municipal tem vários- não pode funcionar no regime da administração direta; senão é inviável.
Sou favorável a fundações de direito público [como a proposta pelo ex-secretário Carlos Augusto Calil]. E, em certas situações, sou favorável à combinação de gestão pública com organizações sociais. Contanto que fique garantida a predominância da administração pública.
Seus antecessores pleiteavam maior participação na gestão do Masp. Qual vai ser a sua política em relação ao Masp?
Sou favorável que os equipamentos, principalmente os mais importantes, tenham um conselho que possibilita exatamente que os gestores de plantão recebam contribuições da sociedade, do setor empresarial, de diversos segmentos da sociedade, do governo, porque a gestão cultural não pode ser um ato isolado. Eu não acredito em política pública feita dentro de gabinete. Política pública de cultura exige necessariamente o diálogo, a participação de vários segmentos culturais e da sociedade na formulação, na execução e na avaliação dessas políticas.
Transições podem ser complicadas ou não. Vide o Gilberto Gil para o sr., vide o sr. para Ana de Holanda no Ministério da Cultura. A herança de seu antecessor Carlos Augusto Calil é bendita ou maldita?
Bendita. A grande diferença que encontro de quando nós chegamos no ministério é que o ministério era um deserto quando nós chegamos. As referências eram pequenas, a não ser referências históricas do Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional], o momento em que a Funarte [Fundação Nacional de Artes], que já tinha sido a grande instituição de promoção da cultura brasileira no plano federal, que foi no período da redemocratização.E quando nós chegamos, esprememos o legado e era pouco, não podia nem ser maldito. Eu nunca usei essa expressão porque, na verdade, era deficiente, eu diria. Aqui, não. Certamente, eu implementarei tudo de bom que eu encontrar, manterei tudo de bom que eu encontrar e assumo a responsabilidade de continuar, avançar, inovar, criar e suprir as ausências também.
O que será da Virada Cultural?
Será criada uma curadoria. Como novidade, teremos uma política de eventos para São Paulo, algo articulado, que não exija que tudo aconteça dentro da Virada. Teremos a Virada e outros eventos grandes, médios e pequenos distribuídos ao longo do ano e no território da cidade.
O Vale Cultura perdeu seu poder de compra. O que dá pra fazer com R$ 50 em SP?
Os R$ 50 dão para dois CDs, para um livro ou para um espetáculo... São Paulo é cara. Até hoje estou morando em hotel porque não consegui encontrar um apartamento.
Exposição de William Kentridge é um dos destaques do ano em Porto Alegre por Francisco Dalcol, Zero Hora
Exposição de William Kentridge é um dos destaques do ano em Porto Alegre
Matéria de Francisco Dalcol originalmente publicada no jornal Zero Hora em 30 de janeiro de 2013.
Com obras que fundem artes visuais e cinema, primeira mostra individual do artista sul-africano no país chega à Fundação Iberê Camargo em março
Com carvão, papel e uma câmera de vídeo, o sul-africano William Kentridge tornou-se referência internacional e construiu uma carreira que inclui passagens pelas mostras mais importantes do mundo. E o principal: com trabalhos que borraram as fronteiras que um dia possam ter existido entre artes visuais e cinema.
Colecionando participações na Bienal de Veneza (Itália), na Documenta de Kassel (Alemanha) e na Bienal de São Paulo, o artista de 57 anos protagonizará uma das mais relevantes mostras do ano em Porto Alegre. William Kentridge: Fortuna revelará o perfil múltiplo do artista que trabalha com videoarte, desenho, escultura, gravura, instalação, teatro, ópera e cinema.
Seus desenhos filmados – ou filmes desenhados – são marcados por uma poética politizada que tem como inspiração as memórias evocadas pelo país do apartheid. Um dos destaques é o "flipbook" (livro animado) De Como não Fui Ministro d'Estado, criado especialmente para a mostra brasileira. O artista faz uma intervenção, desenhando sobre as páginas de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, o que resulta em um vídeo. A curadoria da mostra é de Lilian Tone, que trabalha no departamento de pintura e escultura do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).
de como não fui ministro d'estado - william kentridge from drom fine art on Vimeo.
A primeira grande mostra individual de Kentridge no Brasil é fruto de uma parceria institucional. Está em cartaz no Instituto Moreira Salles, no Rio, chega à Fundação Iberê Camargo (FIC) em 7 de março e depois segue para a Pinacoteca do Estado de São Paulo.
–Em nosso projeto curatorial, até então havíamos trabalhado com exposições exclusivas para a Fundação. Algumas delas depois iam para outros espaços. Desta vez, a união das instituições foi fundamental para trazer uma mostra tão grande e importante como esta do Kentridge – diz Fábio Coutinho, superintendente cultural da FIC.
Também em março, a Fundação abre nova exposição de Iberê Camargo, desta vez com curadoria de um nome internacional, o anglo-brasileiro Michael Asbury, que atua em Londres e já organizou mostras na Tate Modern. A aposta em curadores referenciais no cenário brasileiro resultará ainda em exposições dos artistas Paulo Pasta e Elida Tessler, ambas em junho.
A primeira mostra de arte eletrônica da instituição, programada para setembro, reúne diversos artistas brasileiros. A curadoria é de Solange Farkas, criadora do Festival Internacional de Arte Eletrônica Videobrasil. Em dezembro, será a vez de a Fundação receber uma retrospectiva do emblemático grupo alemão ZERO, fundado nos anos 1950, em Düsseldorf, e voltado à arte cinética. A mostra é uma parceria com Instituto Goethe, Pinacoteca de São Paulo e Museu Oscar Niemeyer.
Outras mostras da Fundação Iberê Camargo
Iberê Camargo
> O anglo-brasileiro Michael Asbury organiza mostra com obras do acervo da FIC e de outras coleções. De 23 de março a 23 de março de 2014.
Paulo Pasta
> O curador Tadeu Chiarelli, atual diretor do MAC-USP, apresenta exposição do pintor, desenhista, ilustrador e professor Paulo Pasta. De 6 de junho a 25 de agosto.
Elida Tessler
> A curadora Glória Ferreira assina a mostra Gramática Intuitiva, com trabalhos da artista e professora gaúcha Elida Tessler. De 6 de junho a 25 de agosto.
Arte eletrônica brasileira
> Solange Farkas organiza a curadoria da primeira mostra coletiva de arte eletrônica no prédio da Fundação Iberê Camargo. De 5 de setembro a 24 de novembro.
Grupo Zero
> Retrospectiva do coletivo alemão ZERO. De 5 de dezembro a 2 de março de 2014.
Museu de Arte Contemporânea, Bienal do Mercosul, Margs e Santander Cultural apresentam projetos para 2013 por Francisco Dalcol, Zero Hora
Museu de Arte Contemporânea, Bienal do Mercosul, Margs e Santander Cultural apresentam projetos para 2013
Matéria de Francisco Dalcol originalmente publicada no jornal Zero Hora em 30 de janeiro de 2013.
Em novembro, o MAC-RS será transferido da Casa de Cultura para nova sede
Museu de Arte Contemporânea – MAC-RS
Uma programação de mostras mensais a partir de março, na Casa de Cultura Mario Quintana, antecipará um grande acontecimento para o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MAC-RS). Em 10 de novembro, a nova sede da instituição será inaugurada com a exposição MAC 21, que apresentará obras de 21 artistas brasileiros. Nomes de projeção internacional como Cildo Meireles, Nelson Leirner, Paulo Bruscky, Regina Silveira e Carlos Vergara são alguns dos que estarão na mostra.
Depois de 20 anos em busca de um espaço adequado para promover exposições, o MAC será transferido da Casa de Cultura para o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFRS), no antigo prédio da Mesbla, no Centro da Capital, onde funciona o campus de Porto Alegre da instituição de ensino. O MAC pretende promover exposições temporárias no térreo e, no mezanino, mostras de acervo – cujas obras ainda permanecerão na reserva técnica da Casa de Cultura. A mostra MAC 21 apresentará mais de 20 trabalhos representativos da arte contemporânea brasileira dos anos 1960 até hoje. Financiada pelos R$ 300 mil do Prêmio Marcantonio Vilaça (edital Funarte/MinC), a aquisição das obras faz parte da política de ampliação do acervo da instituição. O professor, crítico e historiador Paulo Gomes foi encarregado da curadoria do projeto, tendo como objetivo selecionar obras de "representatividade dentro do contexto histórico de produção dos artistas".
Assim, foram compradas produções de artistas de diferentes gerações, incluindo ainda nomes como Elaine Tedesco, Lucia Koch, Gil Vicente, Rosângela Rennó, Maria Lucia Cattani, Alfredo Nicolaiewsky, Jorge Menna Barreto e Rômulo Conceição. Dos 21 artistas, foram adquiridos trabalhos em fotografia, instalação, vídeo, desenho, pintura, escultura, entre outras linguagens e suportes.
– Além de valorizar o acervo do museu, esse projeto possibilitará a ampliação da divulgação pública da arte contemporânea brasileira em nosso Estado – aposta André Venzon, diretor do MAC.
Outras exposições
Fazer e Desfazer a Paisagem
> Em parceria com o Instituto de Artes da UFRGS, a mostra apresentará trabalhos de nomes como Beatriz Rauscher, Bruno Borne, Celeste Wanner, Elaine Tedesco, Eliane Chiron, Lurdi Blauth, Ricardo Cristofaro, Sandra Rey e Shirley Paes Leme. De 2 de março a 7 de abril, na Casa de Cultura.
Joseph Koudelka
> Trabalhos do fotógrafo, que registrou a invasão de Praga em 1968, serão apresentados durante o FestFotoPoA. De 16 de abril a 19 de maio, na Casa de Cultura.
Vera chaves Barcellos
> A artista fará a curadoria de uma mostra que explora o acervo do MACRS. De 22 de agosto a 22 de setembro, na Casa de Cultura.
Jovens artistas
> A curadora Ana Zavadil percorrerá o interior do Estado para montar a mostra Entre – Curadoria de A a Z. De 1º de outubro a 1º de dezembro, na Casa de Cultura Mario Quintana.
Com as reformas previstas no Cais do Porto, a Bienal do Mercosul deixará de receber o público em seu tradicional endereço. Por isso, a aposta desta 9ª edição será explorar diferentes espaços, alguns conhecidos e outros um tanto inusitados. Prevista para começar em 13 de setembro, a mostra de arte contemporânea terá sua atividades distribuídas em espaços como Usina do Gasômetro, Santander Cultural, Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), Fundação Iberê Camargo e Centro Cultural CEEE Erico Verissimo. Uma novidade é a ideia de levar o público à Ilha das Pedras Brancas, mais conhecida como Ilha do Presídio, onde será realizada parte da programação. Localizada no Guaíba, a 2,5 quilômetros de Porto Alegre, abriga ruínas de uma prisão desativada em 1983.
– A Bienal vai descobrir locais. Vamos pensar e explorar a ilha por meio da arte – diz Patrícia Fossati Druck, presidente da 9ª Bienal.
Inspirando-se nos aspectos históricos da relação entre homem e natureza, a curadora mexicana Sofía Hernandez Chong Cuy pretende articular questões envolvendo arte, ciência e tecnologia. A relação dos artistas convidados e a programação ainda serão divulgados.
Santander Cultural
Importantes nomes da arte moderna brasileira, como Ivan Serpa, Manabu Mabe, Tomie Ohtake e Iberê Camargo, serão reunidos na coletiva Narrativas Poéticas, em 21 de maio. A exposição apresentará um recorte da Coleção Santander Brasil, que conta com obras representativas do modernismo, do construtivismo e do abstracionismo brasileiros. Outro destaque será a continuidade do projeto RS Contemporâneo. A iniciativa continuará revelando a nova arte gaúcha. Neste ano, serão novamente três artistas: Nathalia García (em 26 de março, com curadoria de Marcio Pizarro Noronha), Marília Bianchini (em 14 de maio, com curadoria de Luiza Proença) e Túlio Pinto (em 2 de julho, com curadoria de Clarissa Diniz).
Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs)
Explorar o acervo com diferentes abordagens e temáticas continuará sendo o foco do projeto curatorial do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs). O curador-chefe, José Francisco Alves, destaca como principal exposição a que irá abordar relações entre arte e medicina. Ainda sem título, a mostra será aberta em maio.
– A exposição percorrerá um arco histórico entre meados do século 19 e a contemporaneidade. Irá oferecer uma fascinante experiência sobre um tema recorrente na história da arte, passando pelas lições de anatomia, da abordagem da morte, dos estudos radiográficos da obra de arte, das mazelas da doença até a representação do corpo como um retrato da natureza material e espiritual do ser humano – diz.
Em março, o Margs pretende lançar o catálogo da instituição, resultado de um projeto de pesquisa voltado ao estudo das cerca de 2,7 mil obras do acervo. O patrocínio é da Caixa Econômica Federal. Para o decorrer do ano, o museu também busca meios de consertar o sistema de climatização, atualmente danificado tanto nos espaços de exposição quanto no acervo.
Confira a exposição de William Kentridge que a Fundação Iberê Camargo receberá em março
Retrospectiva de Márcia X marca doação do acervo da artista ao MAM por Audrey Furlaneto, O Globo
Retrospectiva de Márcia X marca doação do acervo da artista ao MAM
Matéria de Audrey Furlaneto originalmente publicada no jornal O Globo em 1 de fevereiro de 2013.
Material vinha sendo preservado e catalogado desde a sua morte, em 2005
Público poderá levar peças para casa
RIO - Quando uma geração inteira se voltava para a pintura, Márcia X. correu o risco da performance. A carioca de classe média que estudou em colégio de freira e cresceu cabulando aula para ir ao Museu de Arte Moderna (MAM) não usou pincéis e tinta como seus pares dos anos 1980: atirou cédulas gigantes do alto de edifícios da Avenida Rio Branco, em 1983; invadiu o palco de um concerto de John Cage pilotando um infantil triciclo, em 1985; cobriu-se de leite condensado para falar de excessos, em 2001; deitou-se numa banheira de Coca-Cola, em 2003; e, em 2005, saiu de uma performance para o hospital onde morreria de câncer, aos 45 anos.
Meses depois, ainda sob o choque da morte da artista, seus amigos ajudaram a montar sua última individual no Rio, no Paço Imperial. Agora, oito anos depois, no mesmo MAM em que matava aulas, Márcia X. ganha uma retrospectiva com inauguração neste sábado, dia de sua morte e de Iemanjá, de quem era devota. Às 16h, o museu abre “Arquivo X”, mostra que marca a doação do acervo da artista à instituição.
Desde 2005, sua obra não era mostrada, não só pela dificuldade de se expor o trabalho de uma artista performática que sempre executou as próprias obras, mas também porque seu último marido, o artista Ricardo Ventura, cuidava da organização da grande quantidade de material deixado por ela.
Márcia documentava cada uma das obras: guardava seus registros em caprichados álbuns, etiquetados com informações sobre os trabalhos, e até criava livros-obras com colagens. Depois que venceram um edital para a catalogação do arquivo, Ventura e Beatriz Lemos, que de 2005 a 2007 trabalhou sozinha na organização do material deixado por Márcia, contrataram museólogos e restauradores para completar o trabalho e, enfim, entregar tudo ao MAM.
O corpo como obra
A jovem Beatriz, de 31 anos, agora assina a curadoria de “Arquivo X”. Fez fac-símiles dos livros de colagens da artista, que poderão ser manuseados pelo público. Decidiu, com Ventura, que se criaria uma réplica de um cantinho do colorido ateliê que Márcia teve por muitos anos no Catete. Também separou materiais que serão doados ao público (leia mais no texto ao lado).
“Arquivo X” faz jus ao título — é a exposição mais completa da artista, já que conta com seu arquivo completo e parte de textos em que ela dá pistas de como gostaria de ver a obra exposta. Márcia não usava atores e, embora fizesse projetos das ações, não escreveu instruções para que um outro as executasse. Suas performances ocorriam quase sempre dentro de instalações. No MAM, elas foram montadas ao lado dos vídeos antigos, em que Márcia atua nas performances.
A curadora decidiu não reencenar os trabalhos com atrizes após muito debate com Ricardo Ventura e também depois de ler uma entrevista, de 2001, em que Márcia deixa claro que as ações eram escritas para si mesma. No texto, ela dizia: “É forte a sensação física, interna, como motor da performance, até mesmo porque eu mesma faço as performances em vez de um outro fazer.”
Assim, a célebre “Ação de graças”, em que ela surgia deitada sobre grama com os pés enfiados em dois galos, é exposta no MAM como instalação. Estão lá a grama e os galos, enquanto um vídeo exibe a performance apresentada por ela em 2001, no Sérgio Porto.
Estão lá também registros de ações iniciais, como fotos de “Tricyclage”, a invasão do palco de John Cage, ou o néon vermelho de “Lavou a alma com Coca-Cola” que pairava sobre a banheira de refrigerante onde Márcia mergulhou. Estão lá os 500 terços que, com dedos, ela deu forma de falos em “Desenhando com terços”, de 2000. E estão lá os objetos da série “Fábrica Fallus”, que, nos anos 1990, projetaram a artista como uma das mais importantes de sua geração.
Há vibradores que se “abraçam”, um falo que sai da parede com correntinhas douradas penduradas e uma boneca que balança os quadris e pergunta, com a ironia típica da artista: “Vamos brincar de boneca?”
A exposição também contempla os desenhos de Márcia, pouco conhecidos ou inéditos, como uma série em que, com nanquim, ela desenha banquinhos que, na época, estavam no ateliê para um trabalho do marido, Ricardo Ventura. Eles foram casados por 12 anos e, como ocorreu no primeiro casamento dela, com Alex Hamburguer, criaram trabalhos em dupla.
Entre eles, está “Cadeira careca”, a performance da qual Márcia saiu para ir ao hospital e morrer em 2005. Nela, a artista está deitada, no Palácio Gustavo Capanema, sobre uma chaise longue criada por Le Corbusier. Ventura atua como um barbeiro e, lentamente, raspa a pele que cobre a cadeira em volta do corpo de Márcia. Os dois homenageavam então o arquiteto modernista.
Como criador do Orlândia, espaço numa casa de sua família, em Botafogo, que abrigou exposições, Ventura ofereceu espaço para a arte provocativa de Márcia, muitas vezes rejeitada pelas instituições.
— Ela apresentava projetos e, com frequência, recebia “não” como resposta. Quem a apoiava eram o Paço Imperial e o MAM — conta Ventura.
Entre as rejeições mais célebres da trajetória da artista está a ocorrida no Centro Cultural Banco do Brasil, que, um ano após a morte dela, selecionou uma imagem de “Desenhando com terços” para a coletiva “Erótica”. O trabalho de Márcia foi exposto em alguns dos centros culturais da rede, mas, no Rio, foi censurado.
— Ela não era ingênua. Quando fez o trabalho (com terços em forma de falos), perguntei: “Você tem coragem?” Ela seguiu em frente — lembra.
Prevendo polêmicas, o MAM instalará, nas entradas do museu e da sala da mostra, o seguinte aviso: “A exposição ‘Márcia X — Arquivo X’ não é aconselhável para menores de 18 anos, nem para pessoas que possam se ofender com a utilização de símbolos religiosos dentro de um contexto artístico bastante diverso do que estão acostumados”.
Público pode levar peças para casa
Se “Arquivo X” serve como marco da doação do acervo completo de Márcia X. ao MAM, também será a chance de o público levar para casa trabalhos, objetos e cópias de documentos que, um dia, estiveram no arquivo da artista performática.
Organizada e cuidadosa, ela conservou catálogos e livros de exposições de que participou, além de convites de mostras e postais. Também fez cópias de projetos e documentos, e guardou incontáveis objetos que costumava usar em seus trabalhos, caso das línguas de plástico que foram compradas em excesso por ela para a instalação “Baby beef”, de 1988, em que línguas vermelhas pareciam saltar de uma parede também vermelha.
Tudo isso estará à literalmente disposição do público no museu: amanhã, durante a abertura da mostra — que coincide com a data de morte da artista —, quem quiser poderá levar essa herança para casa.
Até mesmo o chamado “Anel X” criado por Márcia, que no lugar da “pedra preciosa” tinha um ímã redondo, está na lista. A curadora da exposição, Beatriz Lemos, mandou fazer réplicas do objeto, e, assim, o espectador poderá levar, como relíquia da mostra, um “Anel X” para chamar de seu.
