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Como atiçar a brasa

 


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janeiro 26, 2013

A América profunda no Rio de Janeiro, via Casa Daros por Audrey Furlaneto, O Globo

A América profunda no Rio de Janeiro, via Casa Daros

Matéria de Audrey Furlaneto originalmente publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo em 26 de janeiro de 2013

Com abertura marcada para 23 de março, o centro cultural pretende fazer da arte contemporânea latino-americana a porta de entrada para o Brasil conhecer os seus vizinhos

Foram seis anos de obras e a previsão inicial foi inaugurar em 2008

RIO - Agora vai. Inicialmente prometida para 2008, a Casa Daros será finalmente aberta ao público no dia 23 de março, após seis anos de um ambicioso restauro feito por 250 funcionários, que verteram um prédio de 1866 num amplo espaço para arte e educação. Nessa reta final, o movimento é intenso no casarão de 12 mil metros quadrados em Botafogo.

— Isso aqui é uma obra para o povo brasileiro — diz, animado, o curador suíço Hans-Michael Herzog, que tem a pele avermelhada dos europeus no verão carioca, fala pouco, veste Calvin Klein e passou pelo menos 13 anos visitando, em países da América Latina, os ateliês dos 117 artistas que compõem a coleção Daros Latinamerica.

Com sede em Zurique, na Suíça, são essas 1.200 obras de arte contemporânea adquiridas desde 2000 pela colecionadora suíça Ruth Schmidheiny que vão “abastecer” o novo centro cultural carioca, que na abertura mostrará 75 obras de dez artistas colombianos.

Tudo na Casa Daros foi pensado em minúcias. As paredes das 11 salas de exposição, por exemplo, são reversíveis — para se preservar a estrutura do casarão tombado, novas paredes foram erguidas a um metro de distância das antigas, e algumas têm tratamento para garantir condições climáticas adequadas a obras mais delicadas. O piso de peroba se manteve depois de longo tratamento de recuperação (60% dele é o mesmo de quando a casa foi erguida). Já o telhado foi 70% refeito. As peças das exposições vão entrar por uma espécie de elevador que fica camuflado no piso de uma das grandes salas ou por grandes portas, também invisíveis aos olhos do público.

Se a homérica obra nas instalações foi vastamente explorada pela direção da Casa Daros como um indício do trabalho cuidadoso que pretende fazer no Rio, é para o discurso sobre o conteúdo do prédio que agora se voltam Herzog, o cubano Eugenio Valdés Figueroa (diretor de arte e educação) e a brasileira Isabella Rosado Nunes (diretora-geral).

A Casa Daros, diz seu curador, há de servir como “plataforma para o intercâmbio cultural na América Latina”. Embora venha de longe, Herzog diz já ter visitado tantos países latino-americanos a ponto de poder cravar: “O brasileiro não conhece seus vizinhos.”

— Essa já é uma novidade: o público vai ter oferta de exposições e programas de arte latino-americana. Ninguém sabe quem são os artistas da região. Estamos aqui para mostrar conteúdos desconhecidos. Temos obras brasileiras na coleção, mas isso as pessoas já conhecem. Se você mora no Rio e tem interesse em arte, já viu a produção brasileira — afirma o curador, que até 2011 organizou exposições da coleção na sede em Zurique, hoje uma grande reserva técnica fechada ao público.

Segundo ele, a crise internacional e a aparente imunidade do Brasil não são motivos para que a instituição tenha escolhido o Rio. Herzog defende que a mudança de eixo e o foco na arte produzida em regiões emergentes são “efeitos orgânicos da globalização”.

— Os curadores viajam mais, as bienais são cada vez mais internacionais, e é natural que se pense mais na arte da América Latina. Isso é apenas a ponta do iceberg, e a gente quer se ocupar profundamente das questões latino-americanas — completa ele.

Por “profundamente”, leia-se com aulas, oficinas e encontros entre artistas, curadores e estudantes de arte do Brasil e de países latinos. Já no pacote da exposição inaugural da casa, “Cantos cuentos colombianos”, estão previstas conversas dos dez artistas com o público. Na lista, figuras já consagradas no cenário internacional: Doris Salcedo (que, no Brasil, tem obra em Inhotim), Fernando Arias, José Alejandro Restrepo, Juan Manuel Echavarría, María Fernanda Cardoso, Miguel Ángel Rojas, Nadín Ospina, Oscar Muñoz, Oswaldo Macià e Rosemberg Sandoval.

— A gente sabe que está falando de algo novo, que é arte contemporânea, que não tem tanto público. Por isso queremos que a casa seja um ponto de encontro, seja para tomar um café, ler um livro na biblioteca (com 4.000 volumes sobre arte latino-americana), almoçar... — explica a diretora-geral, Isabella Rosado Nunes.

Para ela, a casa terá de responder à questão: como fazer de uma instituição uma potência de comunicação? A solução, Isabella diz acreditar, pode morar num projeto como o da Daros. Lá, os donos do restaurante Miam Miam terão um café e um restaurante.

— Por conta do preço, pensamos nas duas opções: pode-se tanto tomar um café quanto almoçar — diz ela.

Ingressos a R$ 12

O custo para frequentar a casa foi uma preocupação dos diretores, que não querem espantar o público: os ingressos vão custar R$ 12, a entrada será gratuita às quartas-feiras, e grupos de escolas públicas terão livre acesso.

— Adoro ver como as pessoas entram no CCBB e se sentem à vontade. Você vê as pessoas mais diversas visitando exposições, indo ao cinema, tomando café... — comenta Isabella, para lembrar que a Daros também terá cineclube no auditório (a primeira mostra será dedicada ao cinema colombiano).

Para que os funcionários “saibam receber” o público, antes das inaugurações de mostras todos vão passar por um “mergulho” nas exposições. Cada sala terá um “auxiliar de galeria”, funcionário apto a dar informações sobre as obras em português, inglês e espanhol.

Após “Cantos cuentos colombianos”, que fica em cartaz até agosto, a Daros fará uma individual de Julio Le Parc, argentino radicado em Paris, figura central na arte cinética. A ideia é ter duas grandes mostras por ano. Em paralelo, o setor de educação criará exposições complementares — caso de “Para (saber) escutar”, que acompanha o projeto inaugural mostrando o processo de chegada da Daros ao Rio. Segundo o diretor Eugenio Valdés Figueroa, a casa é fincada na ideia de “saber escutar”.

— Estamos trazendo o respeito pela diferença — diz o cubano. — O Brasil já é um conjunto diverso. O continente é isso exponencialmente multiplicado.

Posted by Patricia Canetti at 4:32 PM | Comentários (1)

Destaque na arte contemporânea, Adriana Varejão ganha exposição panorâmica no MAM por Luisa Duarte, O Globo

Destaque na arte contemporânea, Adriana Varejão ganha exposição panorâmica no MAM

Artigo de Luisa Duarte originalmente publicado no Segundo Caderno do jornal O Globo em 16 de janeiro de 2013

Artista foi a primeira brasileira viva a ter um trabalho adquirido por uma instituição de prestígio internacional como a Tate Modern

‘Sou uma operária da pintura’, afirma

Adriana Varejão - Histórias às margens, MAM, Rio de Janeiro, RJ - 17/01/2013 a 10/03/2013

RIO - Ao longo dos últimos anos, a arte contemporânea se tornou um fenômeno no Brasil. Assim, um interesse crescente na produção brasileira vem surgindo de forma notável — produção esta que antes mesmo de ganhar notoriedade aqui já era reconhecida fora do país. Na ponta desta “onda” estão alguns nomes de peso, e um dos que mais chamam a atenção e se torna quase uma grife é o de Adriana Varejão.

A ocupação deste lugar de destaque vem sendo comprovada: em 2011, Adriana se tornou a artista brasileira viva cujo trabalho foi vendido pelo mais alto preço então já pago por uma obra. O quadro “Paredes com incisões à la Fontana” saiu por 1,1 milhão de libras em um leilão na Christie’s (em 2012, o recorde foi quebrado por Beatriz Milhazes, cuja pintura “Meu limão” foi arrematada por US$ 2,1 milhões). Adriana foi, ainda, a primeira brasileira viva a ter um trabalho adquirido por uma instituição de prestígio internacional como a Tate Modern.

Mas é preciso lembrar, em meio ao alarido que seu nome provoca, que a artista de forma alguma é somente um fenômeno midiático e de vendas, mas alguém que vem construindo um dos capítulos mais singulares da cena contemporânea — as subversões realizadas no campo da pintura por Adriana merecem ser estudas em profundidade. Sobre o sucesso, ela mesma o analisa com lucidez:

— Meu foco está na pintura desde o início. É muito bom poder viver bem do próprio trabalho, pois isso reverte a favor da obra. Eu não tenho a urgência da venda da obra. Posso guardar certos trabalhos, ter um acervo em meu ateliê. A pintura é o eixo. Sou uma operária da pintura, sempre fui e sempre serei.

Livros e viagens no processo

Se Adriana se diz pintora, estamos diante de um denso programa artístico desenvolvido desde a década de 1980. É este percurso que poderá ser visto no MAM a partir de quinta-feira, na mostra panorâmica “Adriana Varejão — Histórias às margens”, com curadoria de Adriano Pedrosa. A exposição foi inaugurada ano passado no MAM-SP, tendo pequenas mudanças em sua versão carioca.

O título remete à força da História na obra da artista e ainda à atenção dada às margens, na contramão de um eurocentrismo. O arsenal de referências de Adriana passa pelas histórias do Sul, dos índios, da China, do barroco mineiro, da mestiçagem.

Com 40 trabalhos realizados nos últimos 22 anos, a seleção curatorial foi pensada de maneira a exibir os melhores exemplos de todas as séries que a artista produziu. Há ainda uma primorosa pintura de grande escala feita especialmente para a mostra, “Panorama da Guanabara”.

Visitar a exposição é entrar em contato com um universo em que se cruzam referências. Se a obra é atravessada por forte voltagem visual, sua fonte está nas ideias. Leituras e viagens são partes fundamentais do processo. O tempo gasto no departamento de Medicina de uma universidade em Tóquio para ver a técnica dos irezumis (grandes pedaços de pele inteiramente tatuada cortados de cadáveres e expostos como arte) ou a leitura de autores como Severo Sarduy e Walter Mignolo são tão importantes quanto as horas no ateliê. Da China ao barroco, da azulejaria à iconografia da colonização, da História da arte à religiosa, do corpo e seu erotismo à cerâmica e aos mapas, da tatuagem ao seres aquáticos, vasto é o mundo que lhe interessa.

Tal amálgama de referências faz de sua pintura uma manifestação que está longe de ser aquela voltada somente para si mesma, ou seja, uma pintura que discute o próprio meio.

— Acho maçante quando a pintura só fala dela mesma. Esta discussão já se esgotou. Eu escolhi falar de coisas que estão no mundo — diz Adriana.

Três dimensões

Ao longo do século XX, a pintura ganhou um corpo com três dimensões. A obra do italiano Lucio Fontana é emblemática desta passagem. A pintura de Adriana é herdeira desta superação e nos evoca de forma eloquente este “corpo da pintura”.

O trabalho da artista, desde o início, vem marcado pela presença de dois elementos recorrentes: o azulejo e a carne — uma carne claramente anedótica, teatralizada. A série de trabalhos “Ruínas de charque”, por exemplo, nos revela mais uma vez o encontro destes dois elementos. Mas se azulejo e carne encontram-se presentes em obras que datam desde 1995, nas quais já existia um claro movimento “para fora” — como no caso das “Línguas” e das “Azulejarias em carne viva” — será com as “Ruínas” que, pela primeira vez, as pinturas saem da parede para ganhar o espaço, dialogando com a escultura e a arquitetura.

Tais obras são espécies de esculturas/pinturas em forma de ruínas, revestidas por azulejos. No interior, em contraste com a superfície plana e geometrizada do exterior, encontramos a representação da carne de charque. No lugar do cimento, carne vermelha.

Severo Sarduy apontou a substituição como um dos procedimentos característicos da estética barroca. Esta substituição, dependendo de quais elementos coloque em funcionamento, não opera tão somente uma permutação neutra. Realiza, isso sim, um desvio na significação original e estabelece uma nova. As imagens das ruínas, por sua vez, são a transfiguração de um tempo inacabado.

Tempo e erotismo: dois elementos constantemente ativados por Adriana. A experiência do tempo nas cidades do Novo Mundo é descrita com precisão por Claude Lévi-Strauss (outro autor importante para a artista/pesquisadora) no capítulo dedicado à cidade brasileira de São Paulo de seu livro “Tristes trópicos”. Tal pensamento encontra sua síntese na passagem: “Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína.” Este tempo em que as coisas não se concluem é o da experiência do tempo de um Novo Mundo desprovido de tradição. E será justamente da história dos ganhos desta ausência de que se vale o trabalho de Adriana. Ela realiza um livre jogo com o tempo e a História na sua pintura desde trabalhos iniciais, como “Filho bastardo” e “Passagem de Macau à Vila Rica”.

Se em uma primeira fase temos uma obra mais voltada para uma articulação crítica do passado, hoje nos deparamos com uma visualidade mais depurada, na qual o tema da colonização sai de cena, mas permanecem elementos como o corpo, a história, a teatralizacão do mundo e o erotismo. Uma série mais recente como a das “Saunas” não deixa de evocar o corpo na sua ausência ou nos seus rastros, como no quadro em que somente um chão ensaguentado revela sua passagem.

Esta generosidade da forma encontrada no trabalho de Adriana leva até a longa tradição barroca, da qual sua pintura é uma herdeira contemporânea.

Mas os mais atentos podem se perguntar neste momento: não estávamos justamente falando do fim da tradição? Como então é possível esta artista do século XXI ser uma herdeira de uma longa tradição estética? De que forma ela poderá se relacionar com a tradição barroca hoje? Também aqui Adriana opera uma reinvenção, uma inversão de sinais com a sua herança. Nas suas pinturas testemunhamos uma transmutação do elevado, do excelso, do ouro, dos anjos, de tradicionais obras barrocas, para um universo barroco agora selvagem, voraz, vermelho, erotizado, em carne viva.

“Adriana Varejão — Histórias às Margens” é uma exposição de pintura que revela como esta que é a mais antiga das linguagens artísticas pode ser palco de uma teatralização que subverte o próprio meio e, num gesto antropofágico, devora o mundo à sua volta e o devolve transfigurado, repleto de eloquência visual e verticalidade conceitual.

Posted by Patricia Canetti at 4:23 PM

Waltercio Caldas lidera ranking de arte brasileira por Cassiano Ellek Machado, Folha de S. Paulo

Waltercio Caldas lidera ranking de arte brasileira

Matéria de Cassiano Ellek Machado originalmente publicada no caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 16 de janeiro de 2013.

Levantamento inédito do Itaú Cultural tem carioca como artista com mais mostras nos últimos 25 anos

Pesquisa, que incluiu 19 mil mostras, no Brasil e no exterior, aponta contemporâneos à frente de modernos

No universo tão sem régua e compasso da cultura brasileira, eis que surge um levantamento estatístico revelador da produção artística do último quarto de século.

Numa pesquisa ainda inédita, o Itaú Cultural tabulou os dados de 19 mil exposições da qual participaram artistas brasileiros, no Brasil e no exterior, e chegou a uma lista dos que tiveram mais visibilidade desde 1987.

Um dos artistas mais prestigiados do país, o escultor, desenhista e artista gráfico carioca Waltercio Caldas, 66, foi o primeiro colocado do ranking, com a participação em 314 mostras, entre coletivas e individuais.

Com 14 exposições a menos, outra artista do primeiro time, a gaúcha Regina Silveira, 73, ficou em segundo lugar no ranking, seguida de Vik Muniz (296), Cildo Meireles (291) e Antonio Dias (274).

Entre os top ten da lista, só dois artistas não estão mais em atividade: Iberê Camargo (1914-1994), em sexto, e Hélio Oiticica (1937-1980), o oitavo colocado.

Oiticica chegou a liderar um ranking elaborado anteriormente pelo Itaú Cultural, que levava em conta apenas mostras realizadas entre 2001 e 2010 (período no qual teve obras em 142 exposições).

Os dados evidenciam como o prestígio do artista carioca cresceu na última década, período no qual sua arte foi objeto de grandes mostras em museus importantes como a Tate Modern (Londres) e o The Museum of Fine Arts de Houston (EUA).

O levantamento, que começou a ser feito no ano de fundação do Itaú Cultural, em 1987, ilustra também como artistas contemporâneos batem com larga margem os modernos em visibilidade.

Do grupo do primeiro modernismo, o melhor colocado no ranking é Di Cavalcanti (1897-1976), em 16º, logo à frente de Lasar Segall (1891-1957). Tarsila do Amaral (1886-1973) e Portinari (1903-62) dividem a 28ª colocação.

Dos 118 artistas presentes em mais de cem mostras, os mais jovens são a paulista Sandra Cinto e o carioca José Damasceno, de 44 anos.

A pesquisa "Artistas com maior número de exposições entre 1987 e 2012" começou a ser realizada para alimentar o banco de dados do Itaú Cultural e a "Enciclopédia de Artes Visuais" da instituição, disponível na Internet desde 2001, e que hoje conta com mais de 5.500 verbetes.

Uma equipe de três funcionários, um deles trabalhando exclusivamente na tarefa, realiza a pesquisa de modo ativo, com buscas na imprensa cultural e contatos com as principais instituições.

"Não é um trabalho exaustivo, que busque refletir dados absolutamente precisos, mas acredito que é um conjunto de dados relevante", diz Selma Cristina da Silva, gerente do Centro de Documentação e Referência.

O levantamento também tabulou as atividades dos curadores. O carioca Fernando Cocchiarale, 61, que foi por oito anos diretor do Museu de Arte Moderna do Rio, lidera o ranking, com 68 curadorias. O atual diretor do Museu de Arte Contemporânea da USP, Tadeu Chiarelli, 56, é o segundo colocado.

FRASE
"O número de espaços para expor aumentou significativamente nos últimos anos. E o mercado externo está bem mais aberto para brasileiros. Só fui ter minha primeira mostra fora aos 40. Hoje, artistas de 20 já expõem no exterior." WALTERCIO CALDAS

Veja lista completa dos artistas

Posted by Patricia Canetti at 4:14 PM

janeiro 23, 2013

Um ano após inauguração no antigo prédio do Detran, MAC-USP está vazio por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Um ano após inauguração no antigo prédio do Detran, MAC-USP está vazio

Matéria de Silas Martí, com colaboração de Matheus Magenta, originalmente publicada no caderno Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo, em 22 de janeiro de 2013.

No livro de visitas da mostra que ocupa há um ano o térreo da nova sede do Museu de Arte Contemporânea da USP, alguém escreveu: "Fiquei decepcionado que o museu não existe. Embora divulgado como fato concreto, não passou de uma maquiagem".

Inaugurado em janeiro do ano passado, o MAC, instalado no antigo Detran, reformado pela Secretaria de Estado da Cultura a um custo de R$ 76 milhões, continua como estava no dia da abertura.

Só o térreo está aberto ao público. Lá estão 18 esculturas de artistas consagrados do acervo do museu, como Henry Moore e Maria Martins. São peças de peso, mas parcela ínfima de uma coleção que beira 10 mil obras-primas da arte moderna, todas guardadas numa reserva técnica na Cidade Universitária.

MUSEU DE FACHADA

Não há previsão para que saiam de lá e ocupem o prédio destinado a elas, um espaço dez vezes maior que a sede atual do museu na USP.

Quando o MAC estreou seu novo endereço, aliás, o decreto que transformaria o Detran em museu já fazia cinco anos, e as portas foram abertas três anos depois do previsto por causa de atrasos nas obras.

Já no novo edifício, uma nova novela começou. Desde novembro de 2011, a Secretaria de Estado da Cultura, que reformou o prédio depois cedido à USP, tenta licitar e comprar o sistema de segurança e vigilância interna do museu, mas fracassou em todas as tentativas até agora.

Segundo um levantamento da Folha, foram realizados pelo menos quatro pregões eletrônicos. O último deles, em abril do ano passado, teve o resultado questionado em julho por uma das empresas e espera, desde então, uma solução do impasse.

"Isso está aguardando a decisão da Justiça", diz o atual secretário estadual da Cultura, Marcelo Araujo, sobre a compra desse sistema, que vai custar entre R$ 3 milhões e R$ 9 milhões. "Tirando esse equipamento, o prédio já está todo concluído."

Mas sem as câmeras de segurança e detectores de metal, nada pode ser feito. Tadeu Chiarelli, diretor do MAC, diz que não levará peças do acervo, com obras de Picasso, Modigliani e De Chirico, a um prédio sem segurança.

TUDO PARADO

"Vamos ocupar aquilo que é possível ocupar. Não são os lugares ideais, são os lugares possíveis", afirma Chiarelli. "É óbvio que o museu não correspondeu às expectativas. Tem sido um exercício de paciência muito forte. Está tudo em compasso de espera, parado. Todas as tratativas são muito difíceis, morosas."

Tão morosas que, enquanto o governo tenta resolver o impasse do sistema de segurança, a USP nem começou as licitações que faltam para ocupar o prédio. Um estacionamento de 300 vagas ainda é um grande lamaçal sem previsão de ser construído.

Dentro da universidade, Chiarelli também batalha para conseguir a garantia da reitoria de que os elevadores do prédio vão funcionar. "O grosso da circulação do museu se dará na vertical", diz Chiarelli. "Isso já poderia ter sido feito, mas não foi. Tem uma burocracia difícil."

Enquanto não vem a certeza sobre o fluxo dos elevadores, Chiarelli tem ocupado só o térreo e o mezanino do prédio de oito andares. Segundo ele, em caso de um "sinistro" será mais fácil "salvar" peças que estão ao alcance da mão nesses andares mais baixos.

Nos demais pisos, ainda há trabalho a ser feito. O restaurante que ocupará a cobertura e o café que deverá funcionar no mezanino não foram licitados. Também falta adequar o espaço para receber a loja do museu, que será uma filial da Edusp, a editora da USP.

João Grandino Rodas, reitor da USP, marcou para hoje uma reunião para cobrar de todos os envolvidos uma explicação pelos atrasos. Procurado pela reportagem, ele não quis dar entrevistas.

Posted by Patricia Canetti at 12:08 PM | Comentários (1)

janeiro 22, 2013

Vítima de violência é tema de instalação na Pinacoteca por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Vítima de violência é tema de instalação na Pinacoteca

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo em 11 de dezembro de 2012.

Doris Salcedo - Plegaria Muda, Estação Pinacoteca, São Paulo, SP - 09/12/2012 a 03/03/2013

Em duas salas da Estação Pinacoteca, 120 conjuntos de mesas lembram um cemitério. Cada grupo é composto por duas mesas escuras, uma sobre a outra e, no meio, como uma espécie de recheio, há terra. Graças a ela, uma frágil vegetação cresce nas frestas da mesas.

Trata-se de "Plegaria Muda", instalação da artista colombiana Doris Salcedo, uma das mais prestigiadas de seu país, que já criou obras de impacto na Tate Modern, em Londres, como uma imensa rachadura no piso, em 2008.

A instalação na Pinacoteca, aberta no último sábado e que já circulou por outros cinco museus ao redor do mundo, como no México, na Suécia e em Roma, trata de uma violência urbana que não é desconhecida em São Paulo.

"Quando estive em Los Angeles, há alguns anos, soube de milhares de mortes violentas, especialmente de membros de gangues", diz Salcedo.

Essa experiência trouxe à artista, acostumada a abordar a violência na Colômbia, uma "mudança radical" em sua obra: "Eu sempre abordava a vítima que era pura, 100% vítima; mas, neste caso, encontrei vítimas que também poderiam ser assassinos".

Por isso, as mesas estão dispostas em pares, como a indicar o caráter ambivalente dessas vítimas de "zonas marginais de todas as cidades do mundo".

"Há uma população que não importa a ninguém e ela, como a que vive aqui ao redor [da Estação Pinacoteca], pode até ser composta por contraventores, mas eles também são vítimas, então é preciso ampliar a ideia de vítima."

Para a artista, essas pessoas vivem dentro de um círculo vicioso, "ou mata ou te matam", dentro de um código de ética "estranho à classe média". Com "Plegaria Muda", Salcedo defende que é preciso "assumir que a sociedade deve chorar a todos e a cada um de seus mortos".

Raros são os artistas de renome que, como Salcedo, abordam questões políticas.

Em seu caso, isso se faz de maneira não ilustrativa, mas altamente poética. "Eu me interesso por contar histórias, narrar e representar, o que não se supõe como arte contemporânea, mas faço porque me considero política", diz.

Cada par de mesa, assim, é distinto, para apontar que cada ser humano também é diferente. O tom fúnebre é quebrado apenas pelo verde que cresce pelos buracos.

"Interessa notar que, apesar de tudo, a vida prevalece", conclui Salcedo.

Posted by Patricia Canetti at 12:05 PM

Mostra reforça importância de Maiolino e Nazareth no país por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Mostra reforça importância de Maiolino e Nazareth no país

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo em 17 de janeiro de 2013.

Prêmio MASP Mercedes-Benz de Artes Visuais, MASP, São Paulo, SP - 21/12/2012 a 10/03/2013
Anna Maria Maiolino
Paulo Nazareth

As mostras de Anna Maria Maiolino e Paulo Nazareth, vencedores do Prêmio Masp Mercedes-Benz, em cartaz no Museu de Arte de São Paulo (Masp), não só justificam muito bem a decisão do júri como apontam a importância de ambos no atual cenário das artes visuais.

Maiolino e Nazareth possuem, aliás, muitas convergências em suas poéticas: ambos se autorrepresentam em suas obras, apostando no caráter subjetivo do fazer artístico.

Ambos se apropriam de elementos da cultura brasileira, reforçando a importância do contexto para a produção, e usam do humor como estratégia de comunicação.

O vídeo "Quaquaraquaqua" (1999-2004), de Maiolino, por exemplo, é hilário. Com a canção "Vou Deitar e Rolar", cantada por Elis Regina ao fundo, a artista se mostra fazendo tarefas domésticas, como limpar a casa e cozinhar.

Discutindo questões de gênero, Maiolino debocha de certo universo feminino, sem cair numa militância histérica. Por meio de ironia, a artista realiza uma apurada crítica de costumes.

Essa sutileza, aliás, está presente em muitos trabalhos expostos. A exposição reúne um conjunto significativo de obras de Maiolino desde os anos 1970.

"Monumento à Fome" (1978/2012) segue no mesmo raciocínio. Composto por dois sacos, um de arroz e outro de feijão, amarrados por uma fita negra, o trabalho lembra a miséria no país, sem se utilizar de imagens apelativas.

Ao final, em sua retrospectiva, Maiolino pode ser vista como umas das artistas centrais a pensar a condição brasileira, desde os tempos da ditadura (1964-1985).

Já Nazareth, que venceu o prêmio como jovem artista, comparece com um conjunto de obras também marcado pela ironia.

"Vendo Mi Imagem de Mombre Exótico" (vendo minha imagem de homem exótico), frase que se lê numa placa segurada pelo artista, aponta para a condição que latino-americanos são vistos nos Estados Unidos. A obra faz parte da série "Notícias da América".

Muitas vezes, prêmios são mais uma estratégia de marketing para quem os patrocina do que algo de valor para quem os recebe. Não é o caso do Masp Mercedes-Benz.

Posted by Patricia Canetti at 11:19 AM