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dezembro 12, 2012
Extra Spa reúne cena artística para discutir artes plásticas no Recife por Beatriz Braga, JC- On line
Extra Spa reúne cena artística para discutir artes plásticas no Recife
Matéria de Beatriz Braga originalmente publicada no caderno Cultura do jornal JC On Line em 12 de dezembro de 2012.
Evento traz à tona o desaparecimento do Spa das Artes do calendário da cidade de 2012
Como será o futuro daqui a dez anos? Foi a partir dessa pergunta que vários nomes importantes da classe artística do Recife, em setembro de 2011, se dedicaram a imaginar a cidade em 2021. O ponto de partida era a comemoração da primeira década de existência do SPA das Artes – Semana de Artes Visuais do Recife – um dos eventos mais importantes da área, que fazia aniversário com uma face mais consolidada. A ReviSPA, publicação do evento, vinha com um convite: além da retrospectiva, pensar também as perspectivas. Entre pessimistas e utópicos, ninguém previa, no entanto, que, um ano depois de toda a comemoração, o SPA simplesmente não aconteceria. Nesta quarta (12) e quinta (13), a partir das 19h, a curadora Cristiana Tejo e o artista plástico Bruno Faria promovem o Extra SPA, no Edifício Pernambuco.
Além de debater o desaparecimento do evento, a dupla convida os interessados a um ciclo de debates sobre as artes plásticas de modo geral no Recife, da ponta à raiz do “iceberg”. Durante dois dias, nomes ativos da cena local comandam o ciclo de debates (veja programação abaixo). No final, Cristiana e Bruno produzirão uma carta a ser entregue ao prefeito eleito Geraldo Júlio com as demandas e sugestões discutidas.
O desaparecimento do SPA aparece na mesma leva de sucessivos cortes a eventos culturais do Recife. Ano passado, o investimento no evento foi de R$ 200 mil. Um ano depois, a organização ainda não conseguiu pagar toda a equipe que trabalhou no festival. Como é o caso de Isabelle Santos, funcionária do Museu do Homem do Nordeste e do Museu do Estado, que atuou na produção do festival, e ainda espera a bolsa de R$ 600.
Em 2012, no entanto, a Prefeitura apoiou eventos a exemplo do Shopping Day, destinado a revenda de peças de grife e estilistas locais, com verba de R$ 200 mil, e produziu o Festival Recife de Teatro Nacional, com R$ 800 mil.
Procurada diversas vezes pela reportagem, a Prefeitura optou por se manifestar em nota oficial. “A Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR) informa que está empenhada em solucionar todas as pendências da décima edição do SPA das Artes, realizada no ano passado. Em paralelo a isso, a Gerência Operacional de Artes Visuais e Design da FCCR está desenvolvendo uma pesquisa para a construção de um site na internet com banco de dados das dez edições do SPA das Artes.”.
“A questão é que o descaso com o segmento das artes visuais é tão grande que gerou uma espécie de estado de choque coletivo. Estão todos pasmos com a rapidez do desmonte dos projetos que fomentaram durante tantos anos uma cena artística efervescente e plural. O desaparecimento do SPA é um dos sintomas. Basta olhar para o estado dos museus e dos espaços de formação na cidade para notar a gravidade do problema”, lamenta Cristiana Tejo
Programação:
Quarta, 12:
Tema: Arte e esfera pública: possibilidades e desafios.
Mesa e debate: Cristiana Tejo, Paulo Bruscky, Edson Barris, Felipe Quérette, Schneider Carpeggiani, Yann Beauvais e Olívia Mindêlo.
Quinta, 13
tema: O SPA das Artes em perspectiva.
Mesa e debate: Júlio Cavani, Márcio Almeida, Moacir dos Anjos, Cristiano Lenhardt, Natália Barros, Paulo Meira, Rinaldo Silva e Bruno Faria.
dezembro 11, 2012
Rijksmuseum reabrirá em abril do ano que vem por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Rijksmuseum reabrirá em abril do ano que vem
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 11 de dezembro de 2012.
Fechado por quase dez anos, o Rijksmuseum, maior museu holandês, no centro de Amsterdã, será reaberto em abril do ano que vem depois de reformas que obrigaram a instituição a funcionar em espaço reduzido.
Nesse período, havia longas filas de visitantes que se espremiam para ver "A Ronda da Noite", de Rembrandt, e outras obras-primas de seu cervo, como "Mulher de Azul Lendo uma Carta".
Esse novo Rijksmuseum passará a integrar uma cena que recupera o fôlego na Holanda, onde obras foram paralisadas pela crise econômica que abala a Europa.
Neste ano, foi inaugurada, também com atrasos, a nova ala do Stedelijk, museu de arte contemporânea da capital holandesa, com um anexo que lembra uma enorme banheira, desenho do arquiteto Mels Crouwel.
Além da banheira, outro projeto ambicioso, o Eye, museu dedicado ao cinema, foi aberto neste ano na margem direita do rio Ij em Amsterdã, aposta de urbanistas locais para criar uma "rive droite" holandesa e revitalizar aquela região.
Restauro revela detalhes de obra-prima de Vermeer por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Restauro revela detalhes de obra-prima de Vermeer
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 11 de dezembro de 2012.
Quadro sintetiza aspectos que consagraram artista como mestre holandês
Tela vem a SP em turnê que anuncia reabertura do Rijksmuseum em Amsterdã, em que costuma ficar exposta
É como se ela estivesse nua. Depois de um restauro, a "Mulher de Azul Lendo uma Carta", obra-prima de Johannes Vermeer, perdeu a grossa camada de verniz amarelado que afogava suas cores originais e está exposta no Masp numa mostra só dela.
Vermeer, morto aos 43 anos, em 1675, foi o mestre holandês da pintura de gênero, famoso por cenas banais do cotidiano transpostas para a tela com sofisticação de luz e cor até hoje única.
Numa espécie de turnê para anunciar a reabertura do Rijksmuseum de Amsterdã, fechado para reformas por dez anos, a obra de Vermeer passou pelo Japão e pela China e chega agora a São Paulo -é a primeira vez que um dos 35 quadros de Vermeer é exposto na América do Sul.
"Essa é uma das obras-primas da era dourada da pintura holandesa, que foi o século 17", diz Pieter Roeloffs, curador do Rijksmuseum, à Folha. "É uma das peças mais marcantes da coleção."
Pintada entre 1662 e 1665, "Mulher de Azul Lendo uma Carta" é importante por sintetizar numa só obra aquilo que consagrou Vermeer.
Enquanto Rembrandt, outro mestre holandês, é conhecido por suas telas com grossas camadas de tinta, aplicada em gestos bruscos, Vermeer criou composições planas e depuradas, com rígida organização geométrica, e figuras em cenários íntimos, iluminados sempre da esquerda para a direita, quase fotogramas cinematográficos.
Seus personagens são flagrados no meio da ação sem perder a fulgor das cores. No caso da mulher de azul, menos famosa do que sua "Moça com Brinco de Pérola", que ganhou Hollywood encarnada por Scarlett Johansson, é esse tom de azul que conta.
Vermeer usou lápis-lazúli, pigmento então importado do Afeganistão, para criar os tons rebaixados ou exaltados de azul que aparecem no quadro, dependendo da incidência da luz sobre os objetos.
Ele também pensou nessa luz para construir a profundidade do quadro. Em vez de usar luz e sombra para atingir esse efeito, ele criou variações do mesmo tom, neste caso azul e ocre, para destacar a figura do pano de fundo.
"Ele tenta entender o efeito da luz sobre cada elemento", diz Roeloffs. "É um efeito sublime que surge ao contrapor o rosto da mulher em ocre ao mapa do fundo da tela, também em ocre."
CARTA, MAPA E PÉROLAS
Tanto a carta que a mulher de azul está lendo quanto o mapa ao fundo aludem à era das grandes navegações em que a tela foi pintada. É provável que a personagem esteja lendo uma carta do marido que estaria em alto mar.
Sobre a mesa, um colar de pérolas, que eram então importadas da Ásia, remete às rotas do comércio marítimo.
Detalhes como o brilho da joia e as tachas metálicas nas cadeiras da sala também só se tornaram visíveis depois do restauro feito pelo museu.
"Era difícil ver as cores de verdade. Também havia um buraco na tela, e a pintura foi reconstituída", diz Roeloffs. "Agora, o quadro está o mais próximo possível do que era quando Vermeer o pintou."
dezembro 10, 2012
Morandi iluminado por Nina Gazire, Isto é
Morandi iluminado
Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 7 de dezembro de 2012
Conhecido pelas naturezas-mortas com garrafas, o italiano Giorgio Morandi ganha retrospectiva em Porto Alegre, onde se revela um pintor fascinado pela luz
Durante anos, o italiano Giorgio Morandi (1890-1964) teve na vista da janela de sua casa, localizada na rua Fondazza, em Bolonha, a sua maior inspiração. Foram repetidas as vezes que o pintor retratou a paisagem que dali mirava, mas o que mais o fascinava no cenário era a luz: imanência imprescindível para que o artista criasse sua paleta de cores pastel, que, para além de suas naturezas-mortas com garrafas, se tornou sua marca registrada. E, para que a luz fosse perfeita, Morandi organizava seu ateliê com um rigor espartano e minimalista, posicionando cada móvel e ferramenta de trabalho como um caçador se preparando para capturar uma presa rara. “Morandi era extremamente metódico, para ele a realidade era transcendida pela observação e tal realidade nunca esteve além da aparência das coisas”, explica Lorenza Selleri, curadora da mostra “Giorgio Morandi no Brasil”, em cartaz na Fundação Iberê Camargo, e também a responsável pelo arquivo do Centro de Estudos Giorgio Morandi do Museo Morandi, que cuida do espólio do artista.
Em vida, esse pintor, cujas pinceladas nunca registraram uma figura humana, foi retratado pelos mais célebres fotógrafos, dentre eles seu renomado compatriota, Luigi Ghirri, que fotografou o ateliê logo após sua morte, em 1964. Ampliadas em grandes dimensões, as três fotografias de Ghirri que reproduzem o ambiente de trabalho de Morandi são o ponto final e de suma importância para se compreender a exposição inédita que traz ao País 55 obras do pintor italiano. Do início da carreira do artista, que se associou brevemente ao movimento da pintura metafísica, liderado por Giorgio de Chirico, três naturezas-mortas produzidas entre 1919 e 1921 dão o ponto de partida na mostra, organizada de maneira cronológica. “Dado o percurso do pintor, apesar de suas pinturas buscarem certo abstracionismo da realidade, ele esteve mais próximo de uma pintura existencial do que metafísica”, comenta Lorenza.
A principal evidência do existencialismo de Morandi está nas pinturas realizadas durante o período da Segunda Guerra Mundial. Embora tenha sido um admirador profundo de Pablo Picasso, ao contrário do espanhol que expressou sua revolta no marcante e hiperbólico “Guernica”, Morandi se voltou a paisagens pequenas e intimistas, mas de expressão trêmula e cores tristes. Foi também grande admirador do pintor Paul Cézanne. Mas, diferentemente de outros pintores que deixaram suas cidades, países e lares e migraram para a universal Paris no início do século XX, Morandi só conheceu a capital francesa no final da vida. Talvez por isso seu reconhecimento tenha sido um tanto tardio.
O artista marcou profundamente uma grande geração de pintores brasileiros, entre eles o próprio Iberê Camargo, que, em uma mostra paralela organizada pela Fundação Iberê Camargo, “O ‘Outro’ na Pintura de Iberê Camargo”, se mostra influenciado pela arte de Morandi. Além de um pintor metódico, o artista foi também um exímio gravador. Participou de três Bienais de São Paulo, em 1951, 1953 e 1957, ganhando o Primeiro Prêmio de Gravura na edição de 1953. A mostra em Porto Alegre traz agora 15 gravuras dessa série premiada. Outro destaque é a recriação da Sala Especial que o artista ganhou na Bienal de São Paulo, de 1957, que deu a ele o Grand Prix de Pintura. A exposição traz três pinturas que Morandi apresentaria naquela edição da Bienal, mas cujos empréstimos foram negados pelos proprietários das obras, na ocasião. “Natura Morta” (1931), “Natura Morta” (1955) e “Paesaggio con Strada Bianca” (1941) mostram o artista em fase amadurecida e de estilo estabelecido. “Mesmo tendo lhe dado o prêmio, há 55 anos, os brasileiros terão a oportunidade de ver como a Sala Especial teria ficado e compreender toda a evolução de um dos artistas mais importantes do último século”, finaliza a curadora que também selecionou o documentário “La Polvere di Morandi” para completar essa que é a maior retrospectiva do artista já realizada em território brasileiro.
GIORGIO MORANDI - Giorgio Morandi no Brasil/Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre até 24/2/2013
dezembro 9, 2012
Ex-ministro Juca Ferreira será secretário de Cultura de Haddad por Lucas Neves, Folha de S. Paulo
Ex-ministro Juca Ferreira será secretário de Cultura de Haddad
Matéria de Anna Virginia Balloussier, Matheus Magenta e Lucas Neves originalmente publicada no caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 9 de dezembro de 2012.
O ex-ministro da Cultura Juca Ferreira (2008-10) aceitou neste sábado (8) o convite do prefeito eleito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), para assumir a pasta municipal da Cultura na nova gestão.
Ele deve ser anunciado oficialmente para o cargo na próxima quinta-feira (13) ao lado de outros cinco secretários. O grupo é o último bloco de nomes a ser anunciado por Haddad para o seu secretariado.
Segundo pessoas ligadas ao ex-ministro, o convite foi feito por Haddad há pelo menos cinco dias. Ferreira pediu um tempo para pensar na proposta porque teria sido convidado para assumir a pasta estadual de Cultura da Bahia, na gestão Jaques Wagner (PT).
O convite feito a Juca Ferreira causou surpresa, mas foi bem recebido no meio cultural de São Paulo. Após a eleição de Haddad, os dois nomes mais cotados para assumir a pasta eram os do filósofo e colunista da Folha Vladimir Safatle e o sociólogo Ricardo Musse (ambos participaram da elaboração do programa de governo de Haddad).
O nome de Juca Ferreira para o cargo surgiu durante um encontro, há cerca de dez dias, entre Haddad e entidades que atuam nas áreas da cultura, comunicação e tecnologia.
Na noite deste sábado, a informação de que Juca teria aceitado o convite foi publicada no blog do jornalista Renato Rovai.
Na última sexta (7), Juca Ferreira e Gilberto Gil, também ex-ministro da Cultura, conversaram por telefone durante quase 20 minutos sobre o convite feito por Haddad.
Para Gil, o cargo seria uma boa oportunidade para que Ferreira pudesse dar continuidade a políticas implementadas durante suas gestões à frente do ministério. Antes de se tornar ministro da Cultura, Ferreira foi secretário-executivo do então ministro Gil, entre 2003 e 2008. Com a saída do músico, ficou à frente do ministério até o final de 2010.
No ano seguinte, no governo Dilma Rousseff, foi substituído por Ana de Hollanda (demitida do cargo em setembro passado). Atualmente, o Ministério da Cultura é capitaneado pela petista Marta Suplicy.
Procurado, Juca Ferreira afirmou à Folha que não pode confirmar ou desmentir o convite, e que isso cabe ao prefeito. "Lembra daquela história do cara que sentou na cadeira antes da hora?", disse, rindo, em referência a Fernando Henrique Cardoso, que tirou foto na cadeira de prefeito de São Paulo em 1985, mas perdeu eleição para Jânio Quadros (1917-92).
Atualmente, Juca Ferreira mora na Espanha com a família, onde trabalha na Secretaria Geral Ibero-Americana, órgão da Cúpula Ibero-Americana de chefes de Estado e de governo. Ao todo, a secretaria reúne 22 países, Brasil incluso.
Formas de vida: Jacques Rancière fala sobre estética e política, O Globo
Formas de vida: Jacques Rancière fala sobre estética e política
Entrevista com o filósofo francês Jacques Rancière originalmente publicada no blog Prosa de O Globo em 8 de dezembro de 2012.
Contra a visão da modernidade como um momento em que a arte se fecha sobre si mesma, o filósofo francês Jacques Rancière aponta elementos do projeto modernista que postulam a arte como um espaço livre de hierarquias, “aberto a qualquer um”. Rancière conversou com O GLOBO durante passagem recente pelo Rio, quando participou de um seminário em sua homenagem na UFRJ e lançou três livros, "O espectador emancipado" (Martins Fontes, tradução de Ivone C. Benedetti), "As distâncias do cinema" (Contraponto, tradução de Estela dos Santos Abreu) e "O destino das imagens" (Contraponto, tradução de Monica Costa Netto). Na entrevista, o filósofo diz que a política da arte não está em forjar “explicações do mundo” e sim “laços comunitários”, e sugere que o conceito de “emancipação intelectual”, formulado por um pedagogo revolucionário do século XIX, pode ser útil ao artista contemporâneo.
Em livros e palestras, você tem discutido a necessidade de repensar a noção de “modernidade estética”. Como define essa noção e por que é preciso repensá-la?
Todo meu trabalho tem sido uma crítica à visão dominante da modernidade como um processo de autonomização da arte. No coração dessa visão dominante está a ideia da arte moderna como uma ruptura clara com a representação, um processo no qual cada arte foi criando um mundo autônomo e cada vez mais centrado em sua própria linguagem, por assim dizer, como no caso da pintura abstrata ou da música dodecafônica. Prefiro falar na modernidade artística como uma passagem de um regime representativo da arte a um regime estético da arte. O universo da representação é essencialmente hierárquico, ele funciona por meio de uma seleção que diz que certas coisas pertencem a ele e outras não. Nele, um sujeito pode inclusive definir uma forma artística: no mundo clássico tínhamos a tragédia para os nobres e a comédia para as plateias populares, por exemplo. Meu argumento é que a modernidade estética, ao romper com esse universo representativo hierárquico, oferece uma definição da arte como mundo autônomo mas também, ao mesmo tempo, postula a arte como um espaço desierarquizado, aberto a qualquer um e no qual não há separação rígida entre formas artísticas.
Que elementos do projeto modernista permitem essa interpretação?
Tento recolocar no centro do projeto modernista algo que faz parte dele mas foi contornado e deixado de lado a certa altura do século XX, que foi a tentativa de chegar a uma espécie de interpenetração entre as formas de arte e as formas de vida. Hoje costumamos pensar no modernismo e nas vanguardas como momentos em que a arte tentou se separar da vida. Esse julgamento escanteia elementos fundamentais do próprio projeto modernista, por isso tento evitá-lo. Falei disso em um livro sobre Mallarmé (“A política da sereia”, de 1998). Ele é considerado o poeta modernista por excelência por fazer do poema uma espécie de pensamento da língua sobre ela mesma. Tento argumentar que no coração do trabalho de Mallarmé há uma visão sobre o lugar do poeta na economia simbólica da sociedade e da linguagem, um desejo de devolver à poesia algum tipo de função social. Insisto que para Mallarmé o moderno da poesia tem que ser buscado além da poesia, nos espetáculos considerados populares, nas pantomimas, na dança, na música.
Como essa quebra de hierarquias se manifesta na linguagem do cinema, que tem sido objeto frequente dos seus estudos?
Uma experiência definitiva na minha formação, nos anos 60, foi o movimento da “cinefilia” na França. Foi um momento de grande revisão das hierarquias artísticas. O debate sobre o cinema estava em plena efervescência, alguns viam nele uma vocação para ser a arte moderna por excelência, outros apenas um passatempo para as massas, comparável ao circo ou a uma quermesse. A “cinefilia” francesa dos anos 50 e 60 foi uma espécie de intervenção nesse debate, afirmando, por um lado, que um grande filme não era apenas aquele composto por imagens requintadas e ambições metafísicas, e, por outro lado, que também havia grande arte nos filmes populares. Grande não era só um filme de Antonioni, também podia ser uma comédia de Vincente Minnelli ou um western de Anthony Mann. Historicamente, o cinema se aproveitou dessa ambiguidade para se tornar uma arte que é difícil classificar no espectro estético, e mesmo no seu interior é difícil classificar os filmes numa cadeia de valor. Basta pensar em alguém como Chaplin, que foi ao mesmo tempo um clown popular e o grande ícone da modernidade, mais até do que Mondrian, Kandinsky ou Schoenberg.
Você mencionou a “interpenetração entre formas de arte e formas de vida”. Como essa ideia se liga com outra preocupação central em seu trabalho, a relação entre estética e política? Na sua opinião, o que pode ser uma “arte política” hoje?
Não há uma definição unívoca de “arte política”, porque não estamos mais nesse regime que chamo de “representativo” e, portanto, não se pode tentar antecipar o efeito de uma obra de arte. Há uma noção convencional de “arte política” que denota o desejo, por parte do artista, de expor uma injustiça ou de afirmar a necessidade de reformas na maquinaria social. Mas essa noção faz parte de uma ideologia representativa que supõe a existência de um público homogêneo sobre o qual agiriam as intenções do artista. Hoje vivemos num mundo em que o artista não pode antecipar as consequências do seu trabalho e há diversos modelos de arte política. O mais interessante me parece ser aquele no qual a arte não é apenas um meio para transmitir noções sobre a vida, e sim uma forma de vida ela mesma. Um antecedente disso seria o projeto cinematográfico de Vertov, por exemplo, que não era uma tentativa de representar a realidade comunista, mas sim de se constituir como um laço comunitário. É uma arte que se pensa como capaz de criar, por sua prática, o tecido de novas formas de vida.
Você costuma definir a relação entre estética e política usando o conceito de “partilha do sensível”. Poderia dar um exemplo dessa operação?
O modelo da arte que assume um compromisso político teve em Brecht uma referência. Brecht almejava desestabilizar a percepção do espectador para que, no espaço da obra, ele visse como absurdo aquilo que considerava normal, produzindo assim alguma transformação em seu espírito, que poderia ser canalizada em energia para ações transformadoras. Esse raciocínio é muito problemático, claro. “Desestabilizar a percepção” era um princípio surrealista que Brecht tentou transmutar em pedagogia política. Isso nunca produziu efeitos políticos verificáveis, só produziu uma certa concepção do que uma “arte política” deveria ser. Mas há outro modelo de compromisso político, que está um pouco esgotado mas precisa ser renovado, que concebe o trabalho político do artista como a investigação de determinado aspecto da realidade que está enquadrado, estereotipado ou formatado pelo senso comum, na tentativa de devolvê-lo à realidade sensível. Esse modelo é importante para pensarmos na arte não como uma pedagogia ou explicação do mundo, e sim como uma reconfiguração do mundo sensível. Vejo isso no trabalho do cineasta português Pedro Costa, por exemplo. Em seus filmes com comunidades de imigrantes em Portugal (como “Juventude em marcha” e “O quarto de Vanda”), ele não está interessado apenas em descrever a miséria ou denunciar a exploração, mas sim em tornar sensível esse universo, em restituir a força da experiência e da palavra aos excluídos.
Você trabalhou com o conceito de “partilha do sensível” em seus estudos sobre o realismo literário do século XIX. Como essa ideia de reorganização dos elementos sensíveis se manifesta na literatura?
A pergunta de fundo da arte política é: o que constitui uma comunidade? A grande contribuição do romance realista não foi só representar os pobres, os trabalhadores e as “pequenas vidas”. Foi romper no espaço da obra de arte a cisão que existia entre eles e o resto da sociedade, realizando um trabalho de desierarquização. Afirmar que qualquer vida, qualquer evento pode ser interessante. Por meio de uma técnica formal que abandona a noção de trama tradicional para investir em microeventos, a literatura põe em cena vidas de pessoas quaisquer, oferecendo uma alternância de universos sensíveis. E nisso há algo que não se restringe ao realismo do século XIX. Quando uma escritora como Virginia Woolf, em seu ensaio “Ficção moderna”, denuncia a “tirania da trama”, ela está postulando o romance moderno como uma grande democracia dos eventos. De certa forma esse foi o grande paradoxo e a força do romance do século XX: como subverter a “tirania da trama” e identificar o curso dos eventos sensíveis, colocando em cena essas vidas quaisquer e também as cicatrizes da Justiça e da História?
No livro “O espectador emancipado”, você retoma o conceito de “emancipação intelectual” discutido em uma obra anterior, “O mestre ignorante”, e o aplica ao universo das artes. Como define essa “emancipação”?
Recuperei o conceito de “emancipação intelectual” de um personagem extravagante, o pedagogo francês Joseph Jacotot (1770-1840). Nas primeiras décadas do século XIX, ele defendeu uma ideia que ia contra o modelo de educação que começava a se cristalizar na época: a ideia de que há pessoas ignorantes, que não compreendem as coisas, não têm cultura nem conhecimento, e que por isso precisam de ajuda para progredir ao nível das pessoas cultas. Jacotot dizia que não é nada disso, que a igualdade não é um ponto de chegada e sim um ponto de partida, e que não se deve “instruir” as pessoas para que se tornem iguais, e sim partir do princípio de que elas são iguais por terem, todas elas, suas próprias aptidões e conhecimentos. Era uma ideia radical, muito combatida na época, que julguei importante recuperar.
E qual pode ser o lugar das artes nesse processo de “emancipação”?
Creio que a questão não é tanto o que as artes podem fazer pela emancipação das pessoas, mas sim o que podem fazer para emancipar a si mesmas. Os artistas só poderão contribuir para a emancipação se entenderem que se dirigem a semelhantes, em vez de achar que estão transformando ignorantes em sábios. Isso só é possível se a instituição artística colocar seus princípios em questão permanentemente. Assim como um pedagogo não pode achar que está lidando com aprendizes incapazes, um artista não pode tentar antecipar o que o espectador deve ver ou compreender. Nessa nebulosa confusa que chamamos de arte contemporânea, abraçar a dúvida sobre as capacidades da arte pode ter uma função emancipatória.
Brasileiro Jonathas de Andrade está entre vencedores de prêmio ucraniano, Folha de S. Paulo
Brasileiro Jonathas de Andrade está entre vencedores de prêmio ucraniano
Matéria originalmente publicada no caderno Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo em 7 de dezembro de 2012.
Foram anunciados nesta sexta-feira (7) em Kiev os vencedores do Future Generation Art Prize, uma das mais importantes premiações de jovens artistas no mundo.
A britânica Lynette Yiadom-Boakye venceu o troféu principal do prêmio organizado pelo Pinchuk Art Centre, do colecionador ucraniano Victor Pinchuk.
Jonathas de Andrade, artista alagoano que vive e trabalha no Recife, foi um dos vencedores na categoria de prêmio especial. Ao lado dele estão os libaneses Marwa Arsanios e Rayyane Tabet, a italiana Micol Assael e o turco Ahmet Ögüt.
Além de premiações em dinheiro que vão de US$ 20 mil a US$ 100 mil, os artistas receberão apoio para realizar residências artísticas pelo mundo.
Os vencedores foram eleitos por um júri de peso, do qual participou Carolyn Christov-Bakargiev, curadora da última edição da Documenta, em Kassel, na Alemanha, o curador brasileiro Agnaldo Farias, que esteve à frente da Bienal de São Paulo em 2010, o italiano Massimiliano Gioni, que será o curador da próxima Bienal de Veneza, o suíço Hans Ulrich-Obrist, codiretor da Serpentine, de Londres, Nancy Spector, curadora-chefe da Fundação Guggenheim, entre outros.
Juca Ferrreira será o secretário de Cultura de Haddad por Renato Rovai, Blog do Rovai
Juca Ferrreira será o secretário de Cultura de Haddad
Matéria de Renato Rovai originalmente publicada no Blog do Rovai em 8 de dezembro de 2012.
O ex-ministro Juca Ferreira aceitou o convite do prefeito eleito de São Paulo, Fernando Haddad, e assumirá a pasta da cultura da cidade de São Paulo partir de janeiro.
Juca foi secretário-executivo de Gilberto Gil de 2003 a 2008 e assumiu o ministério nos dois últimos anos. A gestão Juca-Gil é referência internacional pela forma como eles atuaram com o movimento social do setor e também pela implementação do Cultura Viva e a relação com a cultura digital.
Juca foi convidado na quarta-feira e só deu o sim a Haddad na noite de hoje. Ele estava morando em Madrid, Espanha, e trabalhava na secretaria geral Ibero-Americana, órgão da Cúpula Ibero-Americana de chefes de Estado e de governo, que reúne 22 países, Brasil incluso.
Atualmente Juca é filiado ao PT, mas durante todo o tempo que esteve no MinC foi do PV, partido pelo qual teve dois mandatos a vereador em Salvador.
Juca também teria recebido convite de Jacques Wagner para assumir a secretaria de Cultura do Estado da Bahia. As pessoas com as quais se relaciona politicamente avaliaram que o convite de Haddad neste momento da história de São Paulo era irrecusável.
