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janeiro 10, 2013
Gabinete do Desenho traz à tona importante coleção de São Paulo por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Gabinete do Desenho traz à tona importante coleção de São Paulo
Crítica de Fabio Cypriano originalmente publicada no caderno Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo, em 25 de dezembro de 2012.
Gabinete do Desenho, São Paulo, SP:
Da Seção de Arte ao Prêmio Aquisição: a gênese do Gabinete do Desenho - 02/12/2012 a 24/11/2013
desenho esquema esboço bosquejo projeto debuxo ou o desenho como forma de pensamento - 02/12/2012 a 21/04/2013
Recém-inaugurado, o Gabinete do Desenho integra um conjunto de 14 equipamentos espalhados pela cidade, que incluem do Monumento do Ipiranga à Casa Modernista. O conjunto se chama Museu da Cidade de São Paulo e é gerido pela pasta de Cultura do município.
O novo espaço expositivo ocupa a Chácara Lane, uma típica construção da elite paulistana do século 19, construída fora dos limites da então pequena cidade e que servia essencialmente para lazer.
O palacete restaurado recebe a coleção em papel do município, que tem origem na seção de arte da Biblioteca Mário de Andrade, na gestão de Sérgio Milliet, em 1945.
Com obras como o álbum "Jazz", de Matisse e desenhos de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Di Cavalcanti, entre outros, essa iniciativa, anterior à criação do Masp, em 1947, e do Museu de
Arte Moderna de São Paulo, em 1949, revela-se, então, como a primeira coleção modernista da cidade, condição que o Gabinete do Desenho vem sublinhar.
EXPOSIÇÕES
Na abertura, o local recebe duas exposições, ambas organizadas por Agnaldo Farias, incumbido também de criar as diretrizes para a instituição.
A arquitetura das duas mostras ficou a cargo de Marta Bogéa, que respeitou o projeto original da Chácara Lane e criou paredes expositivas que preservam a visão do projeto original da casa.
No primeiro andar, encontra-se "Da Seção de Arte ao Prêmio Aquisição: A Gênese do Gabinete do Desenho".
Trata-se de um apanhado histórico da coleção pública, por meio de 30 obras expostas, além de outras dezenas que podem ser manipuladas em arquivos.
Estão exibidos trabalhos de estrangeiros de renome, como Fernand Léger e Miró, e brasileiros como os modernistas Tarsila e Di Cavalcanti e as contemporâneas Jac Leirner e Carmela Gross.
Já no segundo andar, encontra-se "Desenho Esquema Esboço Bosquejo Projeto Debuxo", investigação mais livre sobre o uso do desenho para além da obra de arte.
É o caso dos estudos para a revista "Daytripper", assinados por Gabriel Bá e Fábio Moon, ou dos desenhos para cenários de "Castelo Rá-Tim-Bum", realizados por Andrés Sandoval, Akira Goto e Joe Ogasawara, sob a supervisão de Vera Hamburguer e Clóvis Bueno.
Entre o convencional e o experimental, as primeiras mostras do Gabinete do Desenho revelam um novo espaço que traz à tona uma importante coleção e revela-se ainda local de prospecção.
GABINETE DO DESENHO
ONDE Chácara Lane (r. da Consolação, 1.024; tel. 0/xx/11/3129-3574)
QUANDO de ter. a dom., das 9h às 17h
QUANTO grátis
AVALIAÇÃO ótimo
Obras clássicas ganham espaço em mercado de contemporâneos caros demais por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Obras clássicas ganham espaço em mercado de contemporâneos caros demais
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no caderno Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo, em 7 de janeiro de 2013.
Em novembro do ano passado, uma tela do século 17, obra do belga Anton van Dyck, foi arrematada num leilão em São Paulo por R$ 2,4 milhões. Senhores ali presentes disputaram lance a lance com compradores que telefonavam na hora --em minutos, a peça estava vendida.
Leia abaixo: Agentes fazem pente fino atrás de obras de arte falsas
Dias antes, em Nova York, a Sotheby's vendeu um quadro de Beatriz Milhazes por R$ 4,3 milhões, o maior valor já pago pela obra de um brasileiro em leilão, quase o dobro do Van Dyck, um dos mestres do barroco flamengo.
Num momento em que obras de artistas contemporâneos atingem preços maiores que os de trabalhos dos grandes mestres, colecionadores têm se voltado para peças mais antigas --um investimento que consideram menos arriscado diante de valores em alta desenfreada.
"Um nome quente hoje na arte contemporânea pode não ser um nome tão quente amanhã", analisa Christopher Apostle, chefe do departamento de velhos mestres da Sotheby's. "Mas sempre haverá interesse por Van Dyck, Ticiano, Rembrandt. Eles têm 300, 400 anos de história."
De olho nessa bagagem, feiras como a Frieze, em Londres, que se consolidou como plataforma de vendas de arte contemporânea, abriu no ano passado um evento paralelo dedicado a arte antiga.
Enquanto isso, a Tefaf, a mais tradicional feira de antiguidades do mundo, que acontece em março em Maastricht, na Holanda, está buscando novos colecionadores em mercados como São Paulo e traçando estratégias para modernizar seus estandes.
"Há uma leva de colecionadores que sintonizaram suas antenas com a arte antiga", diz Ben Janssens, diretor da Tefaf. "Vejo uma mudança de hábitos, pessoas agora estão inclinadas a comprar peças de todos os períodos."
MODA E BOBAGEM
"Hoje todo mundo compra Beatriz Milhazes e Vik Muniz. E, às vezes, você compra porque todo mundo compra", diz o colecionador paulistano Luís Alberto Altílio. "Gosto de uma arte que se expressa num suporte qualificado e que não seja uma bobagem."
Na opinião de Ricardo von Brusky, que vendeu o Van Dyck em sua casa de leilões, existe agora uma espécie de "resgate da arte antiga".
"Quando você não tem cultura, um marchand malandro emplaca o que está na moda", diz Von Brusky. "Gente com berço, bagagem e cultura está voltando a comprar arte antiga e moderna porque são obras consagradas."
Mas, com ou sem berço, colecionadores estão de olho nos preços. "Ao contrário do que muitos pensam, arte antiga e clássica custa menos do que obras contemporâneas", diz Janssens, diretor da Tefaf. "O que se supõe custar milhões não custa milhões, e é isso que está se tornando evidente no mercado agora."
De fato, peças de mestres consagrados do passado têm atingido em leilões valores iguais ou até menores do que trabalhos de artistas vivos.
Na última temporada de vendas em Nova York, uma obra de Di Cavalcanti atingiu preço pouco maior do que uma fotografia de Vik Muniz. Um Van Gogh arrematado há um ano saiu por menos do que uma tela dos anos 1990 do alemão Gerhard Richter.
"Mesmo que sejam mercados diferentes, valores de arte antiga são uma pechincha perto dos preços dos contemporâneos", afirma Apostle, da Sotheby's. "É como caviar e ovos de galinha --os dois são ovos, mas não custam o mesmo por uma questão simples de oferta e demanda."
Agentes fazem pente fino atrás de obras de arte falsas
Um dia antes de a feira receber seus primeiros convidados, um time de 140 especialistas examina cada obra à venda na Tefaf, a mais tradicional feira de antiguidades do mundo, em Maastricht, na Holanda, e retiram em silêncio as peças que julgam não ser autênticas ou de procedência duvidosa.
Muitos desses especialistas, que integram o chamado comitê de análise da feira, também farejaram cada canto da Frieze, em Londres, que agora tem antiguidades e obras clássicas.
Com a valorização do mercado de peças antigas, o exame cuidadoso de obras se tornou uma preocupação constante para evitar fraudes e falsificações.
"Em geral, removemos de 70 a cem objetos de cada feira", conta Henk Van Os, diretor do comitê da Tefaf. "Galeristas podem até reclamar, mas temos de ter muito cuidado com cada peça. É uma questão de honra."
No caso da Tefaf, há 20 grupos diferentes de especialistas que analisam desde cerâmicas e tapeçarias a pinturas antigas e modernas. São estudiosos ligados a museus, universidades e também a algumas galerias.
"Tentamos criar uma maneira nova de olhar para arte antiga, mas também temos um processo rigoroso de avaliação das peças", diz Victoria Siddall, diretora da Frieze Masters, a ala de arte antiga da Frieze. "Colecionadores que vão à feira sabem que aquilo passou por um crivo, então podem confiar no que compram." (SILAS MARTÍ)
Galerias do país apostam cada vez mais em obras caras, efêmeras e invendáveis por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Galerias do país apostam cada vez mais em obras caras, efêmeras e invendáveis
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no caderno Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo, em 2 de janeiro de 2013.
Em 55 segundos, o caos tomou conta da galeria. Motociclistas rodaram a toda velocidade dentro de dois globos da morte presos a estantes cheias de objetos frágeis, de copos de cerveja a vidros de nanquim e tubos de talco.
Leia abaixo: Competição com estrangeiros leva a maior ousadia das galerias
Do lado de fora, Nuno Ramos e Eduardo Climachauska, autores da performance que aconteceu no mês passado na galeria Anita Schwartz, no Rio, dirigiam a equipe de filmagem que penou para registrar cada ângulo do terremoto artificial -uma ação que destruiu em menos de um minuto um trabalho que consumiu meses.
"Foi um Pollock, adorei", disse Ramos, comparando a ação que fez tremer o espaço da Gávea à técnica de pintura do expressionista abstrato norte-americano, que pingava tinta sobre suas telas em gestos bruscos das mãos.
Mas, ao contrário de Pollock, que no final da ação tinha um quadro para vender, o trabalho de Ramos e Climachauska virou ruína. Esse tipo de ação, que investe pesado em obras efêmeras e invendáveis, marcou o cenário das galerias do país no ano que acabou anteontem.
"Tem gente dizendo que eu sou maluca", diz a galerista Anita Schwartz, que investiu R$ 300 mil na performance. "Mas essas ações revelam outro lado do artista. Não é só aquilo que ele vende, mas também aquilo que pensa."
Antes da ação no Rio, Ramos enterrou réplicas em tamanho real das casas onde viveu em enormes poças de lama e barro escavadas no chão de concreto da galeria Celma Albuquerque, em Belo Horizonte, interditando o espaço por meses numa obra que removeu 300 toneladas de entulho da galeria e custou cerca de R$ 400 mil.
"É um projeto que não dá para repetir todo ano, mas a gente encarou porque tem horas que você precisa dar um passo adiante", diz Flávia Albuquerque, diretora da galeria mineira. "Nunca fizemos algo tão dramático."
Em São Paulo, galerias mantiveram esse drama. A Fortes Vilaça ocupou todo o espaço de seu galpão na Barra Funda com uma mega-instalação de Sara Ramo, uma espécie de labirinto de paredes brancas gigantescas.
A Millan deixou Henrique Oliveira transformar seu espaço na Vila Madalena com enormes saliências e reentrân-cias no chão, nas paredes e no teto, como se o prédio derretesse diante do público.
Essa mesma galeria também quebrou o piso do estacionamento para afundar um carro numa cratera de cimento molhado, uma instalação da artista Tatiana Blass.
"São exposições que têm um custo alto", diz Socorro de Andrade Lima, sócia da Millan. "Mas não é uma equação simples e direta. O retorno disso é mostrar que a galeria acredita no trabalho daquele artista. Uma obra sólida só consegue mostrar sua solidez nessas ocasiões."
Sólidas ou não, ações desse tipo se tornaram cada vez mais necessárias para garantir a liquidez de galerias num cenário que se tornou mais competitivo, com a abertura de novas casas que disputam o passe dos nomes de peso.
VIRANDO MUSEU
"Com o boom da arte brasileira, as galerias têm novas demandas, seus espaços precisam ser mais institucionais", diz Ivo Mesquita, diretor da Pinacoteca do Estado. "Galerias estão mais ambiciosas, e o fato de investirem nessas obras complementa o trabalho dos museus."
Mas as casas comerciais, dispostas a despejar dinheiro em ações que aumentam a visibilidade de seus artistas, também acabam expondo a fragilidade dos museus no país, que não conseguem bancar ações tão faraônicas.
"No circuito brasileiro, as galerias estão mais desenvolvidas do que os museus", afirma Marcia Fortes, sócia da Fortes Vilaça, acrescentando que mostras institucionais em galerias não são uma tendência atual. "Isso também faz parte do nosso objetivo e escopo. É representar um artista por inteiro, e não por meros interesses comerciais."
(O jornalista SILAS MARTÍ viajou a convite da galeria Anita Schwartz.)
Competição com estrangeiros leva a maior ousadia das galerias
Investir em obras caras, efêmeras e impossíveis de vender na tentativa de turbinar a carreira de seus artistas deve deixar de ser só uma opção e se tornar em breve quase obrigação para galerias do país que terão de fazer frente à entrada de concorrentes de peso que chegam agora ao mercado nacional.
Enquanto a White Cube, a segunda maior galeria do mundo, abriu no mês passado uma filial em São Paulo, a expectativa é que a norte-americana Gagosian, a casa mais poderosa do planeta, abra um espaço no Rio neste ano, seguida da britânica Alison Jacques, que representa com exclusividade o espólio da artista Lygia Clark.
"Não sinto ainda o impacto da White Cube, mas vejo a consequência de um mercado mais aberto", diz Socorro de Andrade Lima, da galeria Millan. "Com isso, vamos nos reciclando, fazendo mudanças, não só pela competição mas também por demandas dos artistas e da arte."
Luisa Strina, que também investe em mostras de caráter institucional, enxerga esse movimento nos últimos anos como consequência do peso maior que São Paulo vem conquistando no circuito global das artes visuais.
"Tem muitos curadores e instituições de fora vindo para cá", diz a galerista paulistana. "Isso estimula e dá incentivos para o artista. Mesmo que seja difícil vender, a galeria tem a obrigação de fazer esse tipo de mostra."
Obras de arte expostas em praças e ruas ganham destaque em site por Maria Elisa Alves, O Globo
Obras de arte expostas em praças e ruas ganham destaque em site
Matéria de Maria Elisa Alves originalmente publicada no jornal O Globo em 18 de dezembro de 2012.
Museóloga seleciona 61 trabalhos que ocupam espaço público do Rio
RIO — As belezas naturais todo mundo conhece, mas são poucos os cariocas e turistas que prestam atenção em outra faceta do Rio: a de museu a céu aberto. A cidade abriga mais de 500 obras de arte, que, expostas em ruas e praças, nem sempre recebem a atenção que merecem. Com o desafio de corrigir essa injustiça, a Letra e Imagem Editora e Produções pôs nesta terça-feira no ar o site rioartecidade.com.br, que apresenta e detalha 61 trabalhos que ocupam o espaço público.
A seleção dos monumentos, chafarizes, grafites, esculturas e paineis foi feita pela museóloga Mariana Várzea, que, em 2010, já havia feito um inventário de todas as obras de arte espalhadas pelas ruas para escrever um livro.
No site bilíngue (português-inglês), as 61 obras são apresentadas através de fotos, um texto com dados históricos e a minibiografia do artista. Vinte delas são comentadas em vídeos, com depoimentos de artistas, arquitetos e curadores. Waltercio Caldas e Angelo Venosa, por exemplo, comentam seus trabalhos. Além disso, quem acessar o site poderá ver, no serviço de mapeamento do Google maps, a localização de cada obra. Para saber como elas interagem com o entorno, basta ver o Google Streeview, também acessado diretamente no site.
Entre as obras selecionadas estão os Arcos da Lapa, o Chafariz da Praça 15, a escultura de Franz Weissmann no jardim do MAM, a baleia, de Angelo Venosa, no Leme, o pai nel de Burle Marx no Clube de Regatas do Vasco, além, é claro, do Cristo Redentor.
— Transformamos o livro em site. A ideia é percorrer as obras, mostrando a representatividade histórica e de linguagem de cada uma delas — diz Márcia.
A museóloga acredita que, ao ter mais conhecimento sobre as obras de arte que o cercam, os cariocas podem passar a exigir mais qualidade no que é exposto nas ruas.
— Temos que trabalhar melhor a política de ocupação do espaço público. Tem que ser mais criteriosa, mais participativa. As obras deveriam ser aprovadas por um conselho, não há discussão, se instala tudo em praça pública. A representação de personagens da cidade, como o Drummond, também tem que ser trabalhada de forma mais criteriosa, tem que ser feita por artistas consagrados, se discutir se o que a cidade precisa é de realismo — diz.
