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dezembro 6, 2012
Mostra de Gil Vicente encerra ano do Museu Murillo La Greca, NE10
Mostra de Gil Vicente encerra ano do Museu Murillo La Greca
Matéria originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal do NE10 em 5 de dezembro de 2012.
Com visitações até o dia 10 de março, a mostra “Gil Vicente: Estudos e Rabiscos” evidencia as inspirações, técnicas e trajetória de Gil Vicente, no Museu Murillo La Greca, no bairro do Parnamirim. Com curadoria de Bruna Pedrosa, a expo apresenta, por meio das imagens, o universo do artista consagrado, com entrada gratuita.
Ao longo de sua trajetória, que já conta 40 anos, Gil vem se dedicando em registrar o cotidiano, as pessoas, os lugares, os objetos e suas ideias. É o que se vê na mostra é um pouco desse registro, que não acontece de forma cronológica, mas intuitiva, estabelecendo relações entre trabalhos produzidos em diferentes momentos da sua vida.
dezembro 4, 2012
Mostra em NY exibe o método de criação de Henri Matisse por Tonica Chagas, O Estado de S. Paulo
Mostra em NY exibe o método de criação de Henri Matisse
Matéria de Tonica Chagas originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 3 de dezembro de 2012.
'Matisse: In Search of True Painting' prova como a pintura do artista resultava de processo complexo em busca da essência
NOVA YORK - Por ele ser um dos maiores maestros da cor, é surpreendente saber que para Henri Matisse (1869-1954) nunca foi fácil pintar. Ele sempre reavaliou e repintou seus quadros, repetindo composições para comparar efeitos, em busca da "pintura real", como explicou numa carta a Amélie, sua mulher. Matisse: In Search of True Painting, exposição especial que o Metropolitan Museum de NY abre nesta terça-feira, 04, mostra a necessidade dele em progredir, metodicamente, de uma pintura para a outra, criando pares, trios ou séries. Esta maneira de pintar não é exclusiva de Matisse mas, em seu caso, é impressionante. Como sublinha Rebecca Rabinow, organizadora da mostra no Met, o processo de criação não era um meio para ele chegar ao que pretendia, "mas uma dimensão da sua arte tão importante quanto a tela terminada".
Essa dimensão ficou praticamente desconhecida até dezembro de 1945, quando o pintor apresentou seis dos seus quadros mais recentes na inauguração da Galerie Maeght, em Paris, rodeados por ampliações de fotografias tiradas ao longo da evolução deles sobre a tela. Matisse começou a usar esse método mecânico no início da década de 1930, substituindo os duplos, trios ou séries com que trabalhou por cerca de 20 anos. Os óleos sobre tela A França (1939), O Sonho (1940) e Natureza-Morta com Magnólia (1941) estão em destaque numa sala que recria a exposição na Maeght.
O Sonho, que ele descreveu como "um anjo adormecido sobre uma superfície violeta - o violeta mais bonito que já vi", foi uma das pinturas mais estimadas por Matisse e ele se recusou a vendê-la até o fim da vida. As fotos feitas entre janeiro e setembro de 1940, enquanto ele trabalhava no quadro, mostram como este foi radicalmente transformado. No início havia plantas, depois uma natureza-morta sobre a mesa; a certa altura, a folhagem ocupou só uma barra no topo e, no fim, os acréscimos desapareceram, ficando apenas o arranjo simplificado de formas e cores em torno do anjo.
As fotos, que até então só eram conhecidas por alguns poucos colecionadores e marchands, dissiparam a noção de que Matisse pintava espontaneamente, comprovando como sua pintura resultava de um processo complexo. "Neste ponto, acho que ele sentiu ter conseguido tudo o que podia na pintura", diz Rebecca. Então ele parou de pintar e foi "desenhar com tesouras", como dizia, dedicando-se aos recortes de papel que produziu nos últimos anos de vida.
As 49 obras que se sucedem em Matisse: In Search of True Painting, aberta até 17 de março, permitem acompanhar as alternativas que ele buscava para questões de representação, do papel da cor ou sobre o que é uma pintura terminada. Inseguranças, dúvidas e soluções transparecem quando os quadros são vistos em pares e trios, recurso usado desde os primeiros que ele pintou, como Natureza-Morta com Compota e Frutas e Natureza-Morta com Compota, Maçãs e Laranjas, ambos de 1899, que abrem a exposição no Met.
Como treinamento acadêmico ao deixar a carreira de advogado para seguir a de artista, Matisse copiava antigos mestres da pintura que via no Museu do Louvre. Mas também se interessava pela pintura contemporânea exibida nas galerias parisienses e tinha curiosidade particular pela união de forma e cor de Paul Cézanne (1839- 1906) e os efeitos luminosos do pontilhismo de Paul Signac (1863-1935). Entre 1904 e 1905, evocou Cézanne com pinceladas fortes e diagonais de verde e violeta em Natureza-Morta com Porrón I e criou Natureza-Morta com Porrón II em cores vivas e efeitos derivados de Signac. "Mas ele estava mais interessado em transcrever as próprias sensações do que seguir este ou aquele estilo", salienta Rebecca Rabinow.
As duas versões de O Jovem Marinheiro, que ilustram os cartazes da exposição e as capas do livro lançado com ela, são analisadas pela curadora como experimentos de Matisse com a deformação. Ambas foram feitas em 1906 numa vila de pescadores do sudoeste francês e o modelo foi um adolescente que teria posado para o pintor apenas uma vez. Na primeira versão, ele assentou a figura na tela com linhas de lápis finas e repetidas, traçou-as com tinta preta e preencheu os campos com pinceladas de cores vivas; deixou a tela vazia em vários pontos e aplicou tinta fina em outros para enfatizar duas dimensões.
"Isso já era muito avant-garde e chocante para a maioria das pessoas, mas o que mais assustou até mesmo os que sempre o apoiaram foi a deformação e a escolha de cores na segunda versão", aponta Rebecca. A simplificação da forma e o conceito de deformação relacionado a ela intrigavam a vanguarda parisiense no início do século 20 e Matisse "tentava simplificar a forma à essência, como vira na arte das culturas africanas", relaciona a curadora. Van Gogh também seria referência nesta versão, principalmente pela combinação do rosa para o fundo da composição e do verde para a calça do garoto - a mesma de L’Arlésienne, pintada pelo holandês entre 1888-89, que Matisse quis mas não conseguiu adquirir. O colecionador Leo Stein contava que, ao mostrar-lhe as duas versões e perceber sua surpresa diante da segunda, o pintor teria dito que esta era cópia do seu primeiro quadro feita pelo carteiro da vila.
Curadora do Departamento de Arte Moderna e Contemporânea do Met, Rebecca estuda a obra de Matisse há mais de 20 anos. Ao organizar uma exposição sobre o impacto na arte moderna provocado pelo patrocínio da família Stein (Gertrude, seus irmãos Leo e Michael, além de Sarah, mulher do segundo) a artistas no início do século 20, decidiu investigar por que Matisse estava fazendo duplos naquela época. Daí surgiu esta exposição, elogiada como uma das mais instrutivas sobre o pintor francês ao ser exibida no primeiro semestre deste ano no Centre Pompidou, em Paris, e no Statens Museum for Kunst, de Copenhagen.
Coleção Daros vai se instalar no Rio em 2013 por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Coleção Daros vai se instalar no Rio em 2013
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada no caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 4 de dezembro de 2012.
A inauguração da Casa Daros refaz a transferência da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, que transformou a colônia em sede do reino. Considerada uma das melhores coleções de arte contemporânea latino-americana, a Daros, baseada em Zurique, fechou sua sede expositiva, o Daros Museum, com a perspectiva da abertura da sucursal carioca.
"O novo espaço precisa de atenção e por isso achamos melhor dar prioridade a ele", conta a curadora Katrin Steffen.
Coincidentemente, a sede carioca está sendo instalada num edifício neoclássico de 1819, ano em que a corte portuguesa ainda residia no Brasil.
O prédio foi adquirido em 2006 e, desde então, passa por um complexo e esmerado processo de restauração, com projeto inicial do arquiteto Paulo Mendes da Rocha e, desde 2008, sob os cuidados do escritório Ernani Freire.
A Daros organiza exposições itinerantes de alguns de seus 116 artistas representados na coleção com cerca de 1.100 obras. É o caso da mostra do uruguaio Luis Camnitzer, em cartaz em Montevidéu.
Por ano, ela cede cerca de 250 obras a mostras organizadas por outras instituições.
Uruguaio dá forma a questionamentos do mundo da arte em obras interativas por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Uruguaio dá forma a questionamentos do mundo da arte em obras interativas
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada no caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 4 de dezembro de 2012.
O artista uruguaio Luis Camnitzer, 75, um dos precursores da arte conceitual na América Latina, está em cartaz em sua terra natal, no Museu Nacional de Artes Visuais, com a maior retrospectiva sobre sua carreira.
Organizada em 2010, no Daros Museum, em Zurique, na Suíça, pelos curadores Hans-Michael Herzog e Katrin Steffen, a mostra já foi vista em instituições da Colômbia, do México, do Canadá e dos Estados Unidos.
A exposição segue para o Chile e o Paraguai e deve concluir sua intinerância no Rio, na Casa Daros, que inaugura sua filial carioca no dia 23 de março do próximo ano.
A data da retrospectiva no Rio ainda não está definida.
Em cada local, dependendo do espaço, ela se transforma. No Uruguai, reúne 59 obras, a maioria da própria Daros, a grande colecionadora de obras do artista.
Radicado nos Estados Unidos desde 1964, Camnitzer saiu do seu país motivado pelo recrudescimento do regime político, o que, de certo modo, foi importante na transformação de sua poética.
"Em Montevidéu, eu fazia gravuras expressionistas, mas ficava entediado porque sempre sabia o que ia surgir [delas]; então, nos EUA, fui trabalhar com palavras, que se desdobraram em imagens", disse o artista à Folha.
Uma das obras emblemáticas dessa passagem, incluída na mostra em Montevidéu, é a instalação "Living Room" (sala de estar), criada em 1969: em um espaço branco, palavras como mesa ou almofada ocupam as paredes e o chão, levando o visitante a imaginar a sua própria sala de estar.
Fazer com que o espectador complete a obra do próprio artista é uma das principais características da arte conceitual.
QUESTIONAMENTOS
Outra de suas marcas é o questionamento do sistema da arte, o que Camnitzer faz em muitas das obras na mostra ao abordar sua própria assinatura.
Afinal, a assinatura é sempre o que acaba atribuindo valor a uma obra, dando seu atestado de originalidade e de autenticidade.
Camnitzer, em "Autosserviço", permite que o visitante carimbe sua assinatura em folhas com frases como "Uma assinatura é ação, duas assinaturas são transação", criando originais a partir de modelos de reprodução.
"Todo meu trabalho diz respeito ao poder e a como distribuí-lo", resume o artista. A exposição fica em cartaz, em Montevidéu, até 10 de fevereiro de 2013.
O jornalista FABIO CYPRIANO viajou a convite da Casa Daros Rio.
Exposição no MoMA mostrou que op era pop por Cassiano Elek Machado, Folha de S. Paulo
Exposição no MoMA mostrou que op era pop
Matéria de Cassiano Elek Machado originalmente publicada no caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 4 de dezembro de 2012.
Criado em 1929, pouco depois do "crash" da bolsa local, o Museu de Arte Moderna de Nova York só teve sua primeira exposição de grande público em 1965.
Foi "Responsive Eye" (olho receptivo), uma das mostras mais importantes da história da op art. "Dezenas de milhares de pessoas já vieram", diz em tom grave o jornalista Mike Wallace em documentário sobre a exposição feito em 1966 por um estreante Brian de Palma.
O filme, que é exibido na mostra "Buzz", comprova uma das teses de Vik Muniz sobre a arte ótica.
"É uma das artes mais acessíveis. Qualquer um gosta, independentemente de sua formação."
A Bienal de Arte de São Paulo teve algumas comprovações disso.
Na edição de 1996, por exemplo, o predileto do público, com 37% dos votos, foi o venezuelano Jesús Soto. Tanto ele quanto o outro grande pioneiro venezuelano da arte op, Carlos Cruz-Diez, estão representados em "Buzz".
A mostra também traz obras de precursores nacionais (e mundiais) no gênero, como Abraham Palatnik (1928) e Almir Mavigner (1925).
Este último, radicado desde os anos 1950 na Alemanha, foi o único brasileiro a participar de "Responsive Eye", no MoMA.
"São dois gênios da arte brasileira, ainda sem o crédito adequado", diz Vik Muniz.
Arte ótica ganha tributo de Vik Muniz por Cassiano Elek Machado, Folha de S. Paulo
Arte ótica ganha tributo de Vik Muniz
Matéria de Cassiano Elek Machado originalmente publicada no caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 4 de dezembro de 2012.
Artista é curador de "Buzz", que tem peças de modernistas como Duchamp e do contemporâneo Olafur Eliasson
Mostra no Roesler Hotel reúne mais de 70 obras que têm como base o questionamento da percepção visual
Vik Muniz, 51, defende que o humor e a ilusão de ótica são primos de primeiro grau. "Ambos se apoiam numa estrutura lógica que, de repente, desmorona, deixando o interlocutor sem chão", diz o artista paulistano.
Mas a ilusão de ótica leva vantagem. "A piada não tem graça quando contada pela segunda vez. As ilusões de ótica podem ser vistas quantas vezes quisermos e elas continuam funcionando."
Muniz aponta para uma pintura de 1952 de Geraldo de Barros e diz: "Olha aí uma prova concreta disso".
Ele não está de brincadeira. Curador da exposição "Buzz", aberta no sábado (1) para convidados, ele reuniu nela uma seleção impressionante de obras da chamada op art, ou arte ótica.
A mostra, em cartaz no Roesler Hotel, espaço anexo à galeria Nara Roesler, voltado para mostras coletivas de arte internacional, é composta por 74 peças.
Não é uma seleção ortodoxa. O termo op art apareceu pela primeira vez num artigo da revista "Time" em outubro de 1964. E em torno de seu "cercadinho" acabaram ficando alguns artistas que empregaram fenômenos óticos com a finalidade expressa de confundir os processos da percepção. É o caso de pintores como o húngaro Victor Vasarely (1906-1997) e da britânica Bridget Riley, 81.
Trabalhos destes expoentes fazem parte de "Buzz". Mas nesta, que é sua primeira grande curadoria em território brasileiro, depois de mais de 15 delas no exterior, Muniz selecionou pinturas de mais de uma dezena de artistas que não fazem tradicionalmente parte dessa taxonomia. É o caso de pioneiros da arte abstrata geométrica no Brasil como Ivan Serpa e Waldemar Cordeiro.
Ou de mestres da arte moderna como Marcel Duchamp (1887-1968), de quem a mostra "Buzz" exibe uma obra da série Rotorelief, de 1935, emprestada de um museu de Chicago (EUA).
Muniz argumenta que a arte ótica é o único gênero de arte moderna que não teve quebras ao longo da história. Atravessou guerras, modismos e é feita até hoje.
Grandes estrelas da arte contemporânea, como Anish Kapoor e Olafur Eliasson (de quem "Buzz" também exibe uma obra), usam elementos óticos como base de seus trabalhos, lembra Muniz, para quem o "op" também é o primeiro movimento realmente internacional.
Embora não trabalhe especificamente com a abstração, característica comum à maior parte dos selecionados para a exposição, como artista o próprio Muniz gosta de desafiar a percepção visual dos espectadores.
"Toda a base do meu trabalho é perceptual. Minha motivação para fazer arte é o intercâmbio com o observador", afirma. "Sou fascinado pelo 'gimmick', pelo artifício, que vem desde Giotto."
Mostra de galeria com porte de exposição de museu, "Buzz" não é piada. É ilusão de ótica no seu melhor.
dezembro 3, 2012
O avesso da história por Nina Gazire, Isto é
O avesso da história
Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 30 de novembro de 2012
Artur Lescher realiza esqueleto de cúpula nunca construída no edifício da Pinacoteca de São Paulo
No salão central da Pinacoteca do Estado, uma estrutura vazada em forma de cúpula foi instalada de cabeça para baixo, apontando seu cume para o chão e intrigando os visitantes. Concebida pelo artista Artur Lescher para o Projeto Octógono Arte Contemporânea, a instalação “Inabsência” é um convite a uma viagem no tempo. A obra nos leva até o ano de 1905, quando o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo ganhou um novo prédio, hoje ocupado pela Pinacoteca. Projetado pelo renomado arquiteto Ramos de Azevedo, que durante alguns anos também comandaria o Liceu, o edifício deveria corresponder aos ideais de modernidade da recém-criada República brasileira e espelhar a riqueza e o progresso de uma cidade impulsionada pela expansão cafeeira. Realizado em parceria com o arquiteto italiano Domiziano Rossi, o projeto foi concebido em estilo neorrenascentista e, além do pórtico que ainda possui, traria uma enorme cúpula a ser avistada de diferentes pontos da cidade enfatizando a monumentalidade arquitetônica que marcava o estilo da época.
Foi sobre essa história que Lescher se debruçou para descobrir que a cúpula do primeiro projeto jamais fora construída. O prédio permaneceu inacabado, até ser restaurado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha e adaptado para ser um museu, em 1998. Como sinal dos velhos tempos, o que resta é o vazio preenchido por uma imensa claraboia, onde o artista instalou essa espécie de homenagem à ausência. A escultura de Lescher reconstrói parcialmente o elemento arquitetônico, com suas medidas originais de 12 por 14 metros, indicadas no projeto de 1895. Para coroar o caráter paradoxal da ausência desse elemento, o esqueleto feito de madeira e aço ganhou como nome uma palavra resgatada por Lescher: inabsência.
Vik Muniz é o curador de mostra de arte ótica em São Paulo por Audrey Furlaneto, Agência O Globo
Vik Muniz é o curador de mostra de arte ótica em São Paulo
Matéria de Audrey Furlaneto originalmente publicada no yahoo notícias pela Agência O Globo em 1 de dezembro de 2012.
SÃO PAULO - Vik Muniz fez viajarem para São Paulo cerca de 80 trabalhos que vão compor a mostra "Buzz", que a galeria Nara Roesler inaugura hoje no espaço criado recentemente e batizado de Hotel Roesler. Enquanto na sala vizinha a galeria fará a abertura da mostra de fotografias do inglês Isaac Julien, no Hotel o foco é a arte ótica - e, para isso, o agora curador Vik fez vir de Chicago para o Brasil, por exemplo, um trabalho de Marcel Duchamp da década de 1940.
Não que Duchamp tenha sido expoente na arte ótica (longe disso), mas sob os olhos do curador Vik a também chamada op-art tem seus braços estendidos sobre boa parte da História da Arte universal ("Desde a pintura rupestre", defende ele).
Além de Duchamp e outros nomes menos óbvios da arte ótica, como o americano Josef Albers, Vik também reuniu trabalhos de artistas imprescindíveis para o movimento que ganhou força nos 1960, como o venezuelano Carlos Cruz-Diez e os brasileiros Abraham Palatnik e Almir Mavignier.
Convidado para trabalhar como curador da mostra pela galerista Nara Roesler, que o representa há pouco tempo (ele deixou o elenco da galeria Fortes Vilaça recentemente), Vik já assinou outras curadorias mundo afora. Reuniu trabalhos e decidiu recortes em exposições no MoMA e no Metropolitan, em Nova York, e no Museu d'Orsay, em Paris.
- Não existe a pretensão de autoridade nos meus projetos curatoriais, mas sim de curiosidade. Sempre que fiz curadoria foi para aprender coisas que me despertavam interesse. É como uma desculpa para me dedicar a uma pesquisa - diz Vik, que, como parte de seu estudo, recorreu à principal referência de exposição de op-art, a "The responsive eye", realizada em 1965 no MoMA.
Se lá o único brasileiro a expor era então Almir Mavignier, na mostra com curadoria de Vik, Abraham Palatnik é o rei. Dele estão trabalhos mais recentes, como uma longa sequência de papel cartão, tudo alinhado pelo artista de forma a criar volume e movimento. Há também Mavignier, artista que foi responsável, aliás, pela transformação de Palatnik - Mavignier levou o amigo ao Engenho de Dentro e, depois de ter contato com Nise da Silveira, a obra de Palatnik transformou-se radicalmente.
Vik também selecionou trabalhos de Ivan Serpa, Aluísio Carvão, Israel Pedrosa e de contemporâneos, como Angelo Venosa - este, que pouco parece ter relação com a arte ótica, terá exposto na galeria trabalho de 2012, no qual estão sobrepostas camadas de acrílico ora pretas, ora brancas.
Das 80 obras que reuniu para a exposição, apenas cerca de 60 devem ser vistas pelo público, após a "edição" de Vik feita ao longo da semana. E, embora seja numa galeria, a mostra tem ares de institucional, já que grande parte dos trabalhos, muitos cedidos por colecionadores ou instituições, não está à venda.
* Audrey Furlaneto viajou a SP a convite da galeria Nara Roesler
Mostra ilumina obsessões de Morandi por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Mostra ilumina obsessões de Morandi
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 1 de dezembro de 2012.
Retrospectiva do artista italiano, mestre da natureza-morta, reúne mais de 50 de seus trabalhos em Porto Alegre
Exposição na Fundação Iberê Camargo remonta salas do pintor nas edições de 1953 e 1957 da Bienal de São Paulo
Giorgio Morandi no Brasil, Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS - 30/11/2012 a 17/02/2013
Ele era o pintor das garrafas. Isso porque elas não saem do lugar e respondem sempre da mesma forma à incidência da luz. Giorgio Morandi, morto aos 73, em 1964, não gostava da figura humana e fez do retrato dos objetos de seu ateliê o microcosmo de um mundo em que o único pretexto era a pintura.
No teatro das formas que inventou, vasos, copos e garrafas aparecem e reaparecem em telas sucessivas, deslocados às vezes milímetros em relação à posição anterior.
Morandi foi o mestre obsessivo da natureza-morta. Sua obra, de silêncio estarrecedor e vazios que emolduram chaleiras e bules arquetípicos, está agora em retrospectiva na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre.
Num esforço louvável, o museu conseguiu remontar em parte a sala de pinturas que o artista italiano levou à Bienal de São Paulo em 1957, quando venceu o prêmio da mostra como melhor pintor.
Também estão lá 15 das 25 gravuras que Morandi expôs na Bienal de 1953, uma reconstituição exata do momento em que o autor pôde ser apreciado pelo Brasil.
Morandi nunca veio ao país. Mal saía do ateliê. Uma das telas retrata, aliás, a vista que tinha da janela, uma estrada de terra que vira faixa branca entre as casas letárgicas de seu vilarejo perto de Bolonha.
"Do jeito que retrata os objetos, a paisagem tem essa fixidez", diz Lorenza Selleri, uma das curadoras da mostra. "Não há narrativa nas telas, o céu é achatado, sem nuvens. Ele quis as coisas imóveis, como lascas de pedra."
Tanto que, no ateliê, Morandi marcava a lápis a posição de cada objeto sobre a mesa, para evitar que saíssem do lugar, e ficava sempre no mesmo ponto diante do quadro, evitando mudanças de perspectiva. Um método que se aproxima do teatro, com marcações cênicas no palco.
Mas nada acontece nos quadros. Sua busca por formas e cores determinadas também fez com que pintasse o fundo de bacias, tingisse de branco algumas peças de vidro, anulando a função dos objetos em nome de um efeito plástico controlado.
Mesmo as flores que aparecem numa série de quadros são de mentira, pétalas de seda que não definhavam e ganhavam com o tempo uma camada de poeira que Morandi retratava como um revestimento, o pó como verniz.
É fato que no final da vida suas telas se tornaram mais luminosas e depuradas, quase abstratas, embora os mesmos objetos continuem ali.
"Seus detratores o atacavam por pintar só garrafas, e sempre as mesmas garrafas", diz Selleri. "Mas ele dizia que era como música, que sinfonias inteiras são construídas com as mesmas notas."
O jornalista SILAS MARTÍ viajou a convite da Fundação Iberê Camargo.
