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novembro 30, 2012
Paisagens pós-produzidas por Paula Alzugaray, Istoé
Paisagens pós-produzidas
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 23 de novembro de 2012
Em mostra de fotografia do CCSP, três fotógrafos reprogramam imagens pessoais ou apropriadas de outras fontes
Por trás do excelente trabalho pessoal dos três fotógrafos da II Mostra do Programa de Fotografia do Centro Cultural São Paulo há uma boa curadoria. A mostra foi retomada, este ano, em comemoração aos 30 anos da instituição, e projetada pelo atual curador de artes visuais, Marcio Harum, como um espaço para “pensar as particularidades e os limites da linguagem fotográfica”. Nos trabalhos atualmente em exposição, o território de reflexão é a construção da imagem.
O elo que aproxima as obras recentes de Dirnei Prates, Sofia Borges e Marcelo Tinoco é o trabalho com a paisagem. No entanto, nenhum dos fotógrafos tem como matéria-prima a paisagem natural. Seu tema de abordagem é sempre a paisagem cultural. Dirnei Prates tem a paisagem midiática como alvo. Na série “Paisagens Populares”, ele se apropria de imagens veiculadas em jornais. Sua estratégia, porém, é eliminar as figuras de destaque e mirar o terceiro plano da imagem, no qual os personagens se tornam pontos distantes, que se confundem com o grão estourado da impressão gráfica do jornal. O resultado é uma fotografia sem primeiro plano, em que o interesse está no pano de fundo.
Marcelo Tinoco também trabalha com a profundidade de campo, porém, diferentemente de Prates, valoriza por igual todos os planos da imagem. Desafiando as limitações técnicas da fotografia analógica, compõe complexas cenas em que fundo e figura têm o mesmo peso narrativo. Paradoxalmente, ao fazer uso de ferramentas de pós-produção fotográfica, Tinoco constrói imagens que remetem à composição pictórica renascentista ou a um certo “apego ao passado”, como aponta o crítico Mario Gioia, em texto de apresentação da exposição. Essa remissão ao passado – e esse ruído entre tempos tecnológicos – se faz tanto na composição como no tema: na paisagem bucólica do domingo no parque ou na citação da pintura antiga, como em “Para Canaletto” (2012), que reprograma fotografias tiradas pelo próprio Tinoco em Veneza.
A série “Tema”, de Sofia Borges, é composta por paisagens de terceira mão. Os trabalhos consistem em fotografias em preto e branco tiradas de detalhes de pinturas de dioramas do Museu de História Natural de Nova York. Se alguma dúvida surgir acerca da ficção dessa paisagem, ela logo se dissipa com a presença de uma segunda fotografia, em pequeno formato, do processo de construção desse cenário. Assim, como aponta a crítica Luiza Proença em seu texto de apresentação, o trabalho de Sofia Borges é tanto sobre a construção de cada imagem fotográfica quanto sobre a exposição dessas imagens. No modo como organiza essas fotografias nas paredes do espaço expositivo do CCSP, Sofia nos incita realmente a pensar os limites da linguagem, já que situa seu trabalho não simplesmente como fotógrafa, mas como editora de imagens.
novembro 29, 2012
Fundação Iberê Camargo reúne obras de Giorgio Morandi por Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo
Fundação Iberê Camargo reúne obras de Giorgio Morandi
Matéria de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 29 de novembro de 2012.
Mostra apresenta trabalhos que o pintor não pôde exibir na Bienal de 1957, em que foi premiado
Giorgio Morandi no Brasil, Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS - 30/11/2012 a 17/02/2013
A persistência do superintendente cultural da Fundação Iberê Camargo, Fábio Coutinho, que trabalha no projeto há cinco anos, trouxe a Porto Alegre telas que o pintor italiano Giorgio Morandi (1890-1964) havia selecionado para sua sala especial na Bienal de São Paulo de 1957 e que, na época, não puderam vir ao Brasil. São três obras-primas que se juntam a sete outras telas expostas na mostra internacional, 30 pinturas que resumiam sua carreira e lhe garantiram o Grande Prêmio São Paulo, desbancando Chagall e Ben Nicholson. A exposição Giorgio Morandi no Brasil será aberta nesta quinta-feira, 29, para convidados, na Fundação Iberê Camargo, com 40 pinturas e 15 gravuras do pintor, desde os primeiros trabalhos, realizados na década de 1910, aos óleos da fase derradeira, dos anos 1960.
"O projeto inicial era o de reproduzir a sala especial dedicada a Morandi em 1957, mas ele acabou se expandindo e envolvendo cinco instituições italianas que têm obras suas no acervo", conta Fábio Coutinho, que passou os últimos cinco anos em viagens pela Itália para reunir as 55 obras da mostra, exatamente 55 anos depois da última participação de Morandi na Bienal de São Paulo. Ainda vivo, na ocasião, o pintor selecionou três telas, mas o empréstimo não foi possível. Presente desde a primeira edição da mostra internacional, em 1951, quando exibiu dez telas (de 1929 a 1951), Morandi recebeu ainda o prêmio de gravura na segunda (1953), mostrando 25 águas-fortes (dos anos 1910 aos 1930).
Morandi não veio para nenhuma delas. Não por esnobismo, mas por seu temperamento reservado. Embora homenageado com a sala especial na Bienal de 1957, organizada por Rodolfo Pallucchini, ele ditou condições precisas para autorizar a mostra: a de não concorrer a nenhum prêmio e escolher pessoalmente os quadros que seriam expostos. Entre eles estava uma natureza-morta de 1918 pertencente ao crítico e amigo Roberto Longhi. Ele foi um dos três colecionadores que não emprestaram suas telas. O motivo alegado: não poderia passar tanto tempo longe de uma pintura tão familiar. Vendo as obras-primas da exposição de Porto Alegre, que não serão exibidas fora do Rio Grande do Sul, é possível entender a decisão "egoísta" de Longhi. Mais um motivo para visitar a Fundação Iberê Camargo.
novembro 28, 2012
Permanência e Caos por Luisa Duarte, O Globo
Permanência e Caos
Crítica de Luisa Duarte originalmente publicada no Segundo Caderno no jornal O Globo em 26 de novembro de 2012.
A primeira reação é de arrebatamento. Mesmo para aquele que entra na Galeria Anita Schwartz já sabendo um pouco do que vai encontrar, o que se vê gera espanto. A escala, as coisas, a quantidade, a variedade, a natureza do que se encontra exposto, em um mesmo espaço, tudo nos pega em uma alta voltagem. Os sentidos se alargam. Há muito para ver, cheirar, escutar. O que são afinal estas coisas que exaltam nossa percepção? Dois globos da morte com uma moto desligada em cada um, tais globos estão ligados por cabos de aço a quatro imensas estantes que circundam a grande sala de cem metros quadrados e pé direito de mais de sete metros. Nas prateleiras, mais de 1.500 objetos.
Aqui começa a narrativa no espaço pelos artistas Nuno Ramos e Eduardo Climachauska para a mostra “O globo da morte de tudo”. A exposição é resultado de um projeto que vem sendo pensado há dois anos pela dupla a partir do ritual da dádiva, da oferenda, existente em sociedades primitivas. Os objetos ali expostos foram em parte doados por amigos e parentes dos artistas, ora comprados. Os mesmos estão agrupados em quatro categorias que possuem, cada uma, um líquido que as atravessa e simboliza. Cerveja, que contém objetos da vida mais imediata e cotidiana; nanquim, objetos associados à morte; porcelana, uma mistura de taco branco e água, para os objetos ligados ao luxo; e cerâmica e barro diluído, evocando as coisas arcaicas e ancestrais. Estes líquidos e estes objetos se encontram empilhados em prateleiras de vidros planos e finos, formando um frágil equilíbrio, em um forte contraste com a presença agressiva e imponente dos dois imensos globos. Os objetos fazem assim uma espécie de inventário das coisas que nos cercam.
A grandiloquência da instalação é característica da obra de Nuno Ramos, bem como a referência à literatura, ao samba e ao poder da matéria. O imenso repertório presente nas prateleiras mostra a cotidianidade das cervejas que se misturam aos instrumentos musicais, aos troféus e equipamento de esportes, entes que sublinham o poder da vida. Porcelanas, perfumes, colares, o pó branco ao lado de taças de champanhe e laptops trazem uma evocação do luxo. Nanquim, papéis queimados, arquivos de escritores e músicos mortos remetem a morte. Filtros de barro, abridores de lata, arame farpado, atabaques, batedeiras velhas nos levam para o arcaico e ancestral.
Trepidação calculada:
Todos estes mundos que habitam um só espaço, mas estão separados por estantes diferentes, vão, enfim, se misturar. Como na vida, a contaminação se fará imperativa. As pulsões de vida e morte competem a todo momento, precisamos do mais arcaico para sobreviver, desejamos o mais supérfluo para gozar. Em meados de dezembro, profissionais de circo acionarão as motocicletas dentro dos globos da morte. Em uma ação calculada com a ajuda de engenheiros, a dupla de artistas vai assistir ao ruído provocado pelos motores e a trepidação dos globos (que formam o desenho de um oito infinito), assim os objetos despencarão das prateleiras, rumo ao chão. A exposição terá assim dois momentos: o antes e o depois da performance das motos.
Se por um lado há um gesto aí que recai na dessacralização da criação artística, o que mais chama atenção nesta narrativa potente posta por Ramos e Climachauska é o da fusão. Quando as experiências mais intensas da vida ocorrem invariavelmente acontece uma troca. No sexo, no amor, na amizade, no nascimento. Talvez somente a morte interrompa este ciclo incessante. Mas aqui a morte é de outra natureza, vivemos várias pequenas e grandes mortes, em vida. Todo luto nos ensina isso. Em “O globo da morte de tudo” irá ocorrer a contaminação do arcaico, do luxo, da vida e da morte. Aqui se lida com a imprevisibilidade contida no ato de tudo desabar e se misturar, fazendo com que aquilo que está, até agora, separado, editado, catalogado, no seu lugar, se torne prolongamento. Deste caos que vibra surge a convicção de que estamos vivos. Resta a coragem de entrar no globo e revirar tudo, sabendo que deste gesto se desdobra a fusão.
Fusão esta que, no mesmo lance, destrói e constrói, nos lança na morte e nos anuncia novas e insuspeitadas vidas. Aguardemos os nascimentos latentes nos globos da morte de tudo.
novembro 27, 2012
´Quero uma cultura lucrativa’, diz novo secretário municipal por Cristina Tardáguila, O Globo
Quero uma cultura lucrativa’, diz novo secretário municipal
Matéria de Cristina Tardáguila originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Globo em 26 de novembro de 2012.
A menos de um mês de tomar posse na Secretaria, Sérgio Sá Leitão quer levar projetos lucrativos de cinema, TV, música e artes em geral para a RioFilme, que segue presidindo
RIO - A menos de um mês de tomar posse na Secretaria municipal de Cultura, o jornalista Sérgio Sá Leitão recebeu sinal verde do prefeito Eduardo Paes não só para continuar à frente da RioFilme, empresa municipal de distribuição, apoio e fomento ao cinema, subordinada à pasta, como também para transformá-la no mais poderoso ente público financiador de cultura da cidade. Vem aí a “RioFilme 2.0”.
Sá Leitão conta que a empresa que administra desde 2008 deixará de atuar exclusivamente em cinema para, já em 2013, se dedicar a projetos culturais voltados para a TV. A ideia de expansão, que inclui uma possível mudança de nome, ainda precisa passar pela Câmara de Vereadores, mas, se aprovada, dará à secretaria — por meio da RioFilme — a chance de abocanhar parte do filão que foi aberto em setembro com a aprovação da Nova Lei da TV Paga (aquela que hoje obriga canais por assinatura a exibir pelo menos 70 minutos de conteúdo nacional em horário nobre por semana).
Os planos de Sá Leitão vão além. O jornalista, que deve substituir o produtor gaúcho Emilio Kalil à frente da secretaria até meados de dezembro, adianta que, até 2016, a RioFilme terá ao menos outras oito “unidades de negócio”, incentivando projetos de artes cênicas, artes plásticas, música, literatura, games, design, moda e arquitetura. Cada uma terá uma “superintendência própria” na nova RioFilme.
— Na minha secretaria, vamos trabalhar na forma de dois “guichês” — explica, reproduzindo o sinal gráfico das aspas com as mãos. — Um funcionará na RioFilme e cuidará de projetos culturais, reembolsáveis, que visem ao lucro e estejam voltados a um número expressivo de espectadores (ainda a ser definido). O segundo guichê funcionará na própria secretaria de Cultura e ficará responsável por incentivar produções sem ambições comerciais, que tenham cunho exclusivamente artístico ou que sejam encampadas por produtores de primeira viagem.
E o orçamento inicial para fomento nos dois “guichês” será idêntico no ano que vem: R$ 50 milhões para cada um, adianta Sá Leitão.
— Com isso, a RioFilme sai do patamar dos R$ 30 milhões previstos neste ano, e a secretaria, dos R$ 25 milhões destinados a fomento em 2012. Ambas vão para R$ 50 milhões.
Mas, como exigirá dos projetos comerciais apoiados pela RioFilme uma contrapartida financeira (seja em participação na bilheteria ou na venda de anúncios comerciais, por exemplo), Sá Leitão sabe que, em pouco tempo, os valores movimentados pela empresa municipal serão mais robustos do que os da secretaria.
— Não há dúvidas disso — reconhece. — Com o tempo, a RioFilme terá um orçamento maior porque vai contar com a receita dos projetos incentivados. Mas a lógica é clara: é dinheiro da indústria cultural sendo revertido para ela, exatamente como já fazemos hoje com o cinema.
Ao defender o crescimento da RioFilme, que completa 20 anos em 2012, o futuro secretário lança mão de um discurso apoiado na necessidade de desburocratizar a máquina pública.
— Precisamos ganhar agilidade — diz. — Na secretaria, o trâmite para liberação de dinheiro é muito longo. Hoje, entre a hora em que alguém pede apoio e a hora em que efetivamente recebe o dinheiro passam-se de três a nove meses. É uma gestação! Quero uma cultura competitiva no Rio, e esse cenário não condiz com isso.
Vozes críticas a essa transferência de poderes lembram que, com investimentos geridos por uma empresa pública, os critérios de financiamento costumam ficar mais brandos, e os editais deixam de ter o mesmo nível de restrições imposto pelos orgãos tradicionais.
Sá Leitão rebate:
— Isso não procede. A diferença é que a empresa pública pode ter participação direta nas receitas dos projetos investidos. E pode reinvestir em novos projetos, criando um ciclo virtuoso. Na verdade, (nesse cenário) há mais controle. E mais transparência. A RioFilme obedece às mesmas normas e é fiscalizada pelos mesmos órgãos de controle da administração direta. Além disso, obedece também à Lei das Sociedades Anônimas. Tem Conselho de Administração e Conselho Fiscal. Faremos tudo por edital.
Outra mudança na futura gestão da secretaria é que só haverá comissão avaliadora de projetos dentro da própria secretaria. Os projetos que tramitarem pela RioFilme obedecerão a um único critério para obter incentivo: o do desempenho obtido no ano anterior.
— Não haverá mais critérios subjetivos para análise de projetos culturais comerciais. As comissões avaliadoras, compostas por especialistas externos, se restringirão aos projetos tramitados no “guichê” da secretaria — explica. — O apoio a projetos comerciais terá um fomento automático, com base no desempenho que o proponente obteve no ano anterior. Para mim, é o fim do dirigismo cultural, tão criticado. E o prefeito já reafirmou que temos total independência em relação à temática dos projetos.
Em troca de dar apoio financeiro — que pode chegar a 25% do valor do projeto —, a nova RioFilme exigirá que os projetos comerciais cumpram pelo menos dois requisitos. Eles deverão ter empresas cariocas como proponentes majoritários e precisarão investir na cidade duas vezes o valor apoiado.
— A ideia é estimular o mercado: do aluguel de equipamentos à formação de pessoal especializado. Só assim daremos corpo à indústria cultural carioca. Quero que ela seja competitiva como a francesa ou a argentina, por exemplo.
Para dar vazão ao que planeja, Sá Leitão fará lobby na Câmara — onde Paes tem ampla maioria. Quer ver aprovada ainda neste ano a Lei do ISS, que destina 1% do imposto para a cultura. Mas também diz que negociará na própria prefeitura, para onde encaminhou uma solicitação de aumento de pessoal na RioFilme. O futuro secretário alega que mais profissionais são indispensáveis para cumprir o que está previsto no Plano Estratégico do Rio entre 2013 e 2016.
— Com 30 funcionários, conseguimos tocar 116 projetos, mas obviamente a equipe está operando no limite. Agora é preciso crescer para dar conta dos desafios que temos pela frente. Devemos chegar ao patamar de 45 pessoas.
Museu 2.0: a arte de ouvir o público por Audrey Furlaneto, O Globo
Museu 2.0: a arte de ouvir o público
Matéria de Audrey Furlaneto originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Globo em 27 de novembro de 2012.
Para sobreviver no século XXI, instituições precisam aceitar opiniões, dizem estudiosos e curadores de todo o mundo em livro organizado por pesquisador carioca
RIO - No colo da dona, o gato se contorce de prazer com as cócegas no pelo acinzentado. Ela interrompe o carinho e solta um gritinho. E o bichano parece responder, exibindo as patinhas rosadas como se pedisse mais. São poucos segundos, mas são segundos hipnóticos. O Walker Art Center, em Minneapolis, nos Estados Unidos, entendeu o poder de um felino em cena. Organizou um festival em seu jardim só com vídeos de gatos no YouTube. Foi a maior audiência do museu: dez mil visitantes num dia.
Na pequena cidade de Santa Cruz, na Califórnia, um museu convidou o público a expor suas memórias em pequenos jarros de vidro. Lotou o primeiro andar com os potinhos de histórias. Também pediu aos visitantes que mostrassem lá suas próprias coleções — e nada da monotonia dos acervos que se levam a sério demais. A vizinhança do Santa Cruz Museum of Art and History coleciona de caveiras de animais e eletrodomésticos a bandeiras da guerra civil americana. Ao envolver o público na instituição, o museu viu a audiência passar de dez mil pessoas em 2011 para mais de 23 mil em 2012.
— O grande salto de um museu atualmente é saber olhar para o público — diz Luis Marcelo Mendes, há 20 anos pesquisador de cultura e branding, que acaba de organizar num livro pensamentos e relatos de experiências bem-sucedidas em museus mundo afora.
“Reprograme” reúne ensaios de filósofos como Alain de Botton, diretores de museus como Nina Simon (à frente da instituição de Santa Cruz, na Califórnia) e consultores como Robert Jones, tido como o “inventor” da marca Tate Modern, de Londres, e do New Museum, de Nova York. Em todos os textos do livro, que a Ímã Editorial lança no dia 11 de dezembro, é consenso: se quiserem sobreviver, no século XXI, os museus precisam aprender a ouvir o público. Ou, como diz Robert Jones em ensaio que integra o livro, um museu não pode ser pensado como uma catedral, mas como um “bazar de troca”.
Experimentação coletiva
O Internet Cat Video Festival, a mostra dos gatinhos no Walker Art Center, é um bom exemplo da nova forma de pensar (e dessacralizar) as instituições. A diretora do museu, Sarah Schultz, conta que o público podia enviar seus vídeos preferidos e que cerca de dez mil pessoas contribuíram com a “curadoria”.
— Os visitantes vinham de outras cidades, havia muitas famílias, gente vestida com fantasia de gato e milhares de pessoas que simplesmente estavam curiosas e não queriam perder a experiência — lembra Sarah, em entrevista ao GLOBO. — O evento nos mostrou o quanto as pessoas querem ficar juntas em tempo real. Isso é, na verdade, a lição mais importante de todo o nosso trabalho com o open field.
Open field é o jardim vizinho ao museu, há três anos usado para projetos colaborativos entre artistas e a comunidade. Lá, há de aulas de ioga a um clube de desenho, com oficinas semanais em parceria com um artista. O programa, diz a diretora do Walker Art Center, tem estrutura simples e custa pouco — o que confirma uma das teorias defendidas por Luis Marcelo Mendes: os problemas de orçamento não podem servir de esconderijo para diretores e curadores de museus. Em geral, ele diz, a saída está numa ideia simples e criativa, como o festival do YouTube ou os potes de memórias.
— As pessoas desejam experimentação coletiva. Inteligentes são os museus que percebem isso. Vá à fila do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) e você verá que as pessoas quase nunca estão sozinhas. Não se espera quatro horas numa fila sozinho — diz ele, lembrando que a autorização para fotografar pode ser crucial na atração do público. — O barato da mostra do Escher (a mais vista do mundo em 2011, com mais de nove mil pessoas por dia, no CCBB do Rio) era o fato de poder fotografar e compartilhar. Esse é um verbo crucial no museu do futuro.
Um dos consultores do Museu do Amanhã e do Museu de Arte do Rio (MAR), ambos em construção na Zona Portuária da cidade, Mendes lembra experiências como um flashmob no Museu d’Orsay, em Paris. Diante do impedimento de fotografar as obras, um grupo grande de pessoas decidiu fotografar mesmo assim — e todos sacaram seus celulares ao mesmo tempo, deixando a segurança em pânico.
— O museu precisa passar da ideia de autoridade para a ideia de compartilhamento. Ouvir o outro é fundamental — defende, e lança em seguida a questão: — Qual foi a última vez que você foi a um museu no Rio e foi perguntado: “Você gostou da exposição? O que acha que podemos fazer para melhorar?”
Todo o poder ao público
No Brasil, são raros os exemplos de sucesso. Mendes lembra o Museu do Futebol, em São Paulo, onde colecionadores de camisetas dos clubes se reúnem constantemente. “Inteligente", como ele define, o museu poderia simplesmente ignorar, mas “acolhe” as reuniões e ganha mais adesão do público. São de São Paulo também outras experiências positivas segundo ele, como a Pinacoteca e o Museu da Língua Portuguesa. No Rio, ele lamenta, os museus ainda engatinham no relacionamento com o público.
— A programação do MAM (Museu de Arte Moderna) é incrível, o trabalho de curadoria (de Luiz Camillo Osorio) tem sido espetacular, mas ir ao museu ainda é uma experiência ruim. Você precisa lidar com flanelinhas, moradores de rua, há lixo no entorno, o restaurante é caríssimo, o café nem sempre está aberto... — lista ele.
O sentido é um tanto oposto ao de marcas consagradas na cultura mundial, caso do MoMA, em Nova York. Valendo-se de seu próprio prestígio, o museu criou exposições como a “I went to MoMA and...” (“Eu fui ao MoMA e...”), em que o público era convidado a relatar suas experiências no museu. O material foi usado não só para cobrir as paredes internas da instituição, mas também como cartaz publicitário nas ruas da cidade. Menos barata, mas não menos atraente, foi a experiência de levar ao museu, em abril deste ano, o grupo alemão Kraftwerk, pioneiro da música eletrônica, para apresentar seus oito álbuns em sequência.
— Que outra instituição no mundo faz isso? Precisamos entender que há coisas que só o museu pode fazer. Por que 74 mil pessoas vão à ArtRio (em quatro dias) e não vão ao MAM? O que tem ali que não tem no MAM? — pergunta ele, para em seguida responder: — É um tipo de experimentação para o padrão das pessoas.
Outro exemplo de “compreensão do outro” na museologia se deu em Denver, no Colorado, estado americano que tem a criação de gado entre as principais fontes de renda. Seu museu de arte contemporânea percebeu que, para que o público abraçasse a instituição, era preciso “expor” o que o povo de Denver tem em comum: o gosto por carne. Estava criada a ideia da mostra “Art meets beast”, que levou vários “artistas” da carne (açougueiros, cozinheiros...) ao museu para exibir sua “arte” e conversar com o público.
— O museu precisa entender o que é valioso para o outro, e não para si mesmo. No museu do futuro, todo o poder emana do povo.
Artistas questionam gestão anunciada pelo novo secretário, Sérgio Sá Leitão por Luiz Felipe Reis, O Globo
Artistas questionam gestão anunciada pelo novo secretário, Sérgio Sá Leitão
Matéria de Luiz Felipe Reis originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Globo em 27 de novembro de 2012.
É delicado acumular funções tão distintas. Tenho medo de que a pasta se torne uma secretaria do cinema’, diz o presidente da Associação dos Produtores de Teatro do Rio
RIO - Publicada nesta segunda-feira no Segundo Caderno, a reportagem em que o futuro secretário municipal de Cultura, Sérgio Sá Leitão, adianta seu modelo de gestão à frente da pasta gerou repercussão entre a classe artística. Representantes de diversos setores questionaram o “sinal verde” dado pelo prefeito Eduardo Paes para que Sá Leitão acumule a dupla função de presidente da RioFilme e secretário de Cultura. Em outra entrevista concedida ao GLOBO no começo do mês, Sá Leitão argumentava que “não seria uma novidade um secretário acumular funções”. Mas a naturalidade da justificativa não encontra eco.
— Me preocupa ver que o novo secretário é alguém dedicado a um único segmento, o cinema. E com uma visão estritamente mercadológica — diz Eduardo Barata, presidente da Associação dos Produtores de Teatro do Rio (APTR). — É delicado acumular funções tão distintas. Tenho medo de que a pasta se torne uma secretaria do cinema. Vejo que ele pretende colocar todas as outras vertentes artísticas como pequenos tentáculos da RioFilme. Fora isso, é assustador ver um olhar da iniciativa privada, com foco direto na lucratividade, dentro de um posto público. Pode ser um tiro no pé.
Sérgio Sá Leitão anunciou que a sua gestão será dividida em dois “guichês”, o primeiro organizado aos moldes da RioFilme — dedicado a projetos que “visem ao lucro” e estejam voltados a um “número expressivo de espectadores” — e o outro direcionado a manifestações de cunho “exclusivamente artístico” e “sem ambições comerciais”. O diretor teatral Enrique Diaz questiona:
— Quais critérios determinarão até onde um projeto tem ambições exclusivamente artísticas ou comerciais? É preciso ser claro e dialogar com a classe. Sou criador e produtor das minhas peças. Quero criar obras provocadoras e que sejam economicamente viáveis. Em qual guichê vou estar? Não quero ser excluído de nenhum.
Acerca da falta de clareza sobre os critérios, a produtora de cinema Mariza Leão acredita que “quem está inserido no mercado sabe enxergar isso”. Ela vê com bons olhos a divisão de “guichês”:
— O cinema precisa de filmes de todos os gêneros. Como a RioFilme é uma distribuidora, é natural que busque filmes com esperança de retorno. Mas é importante para o cinema ter filmes de reflexão. Ao dividir, isso fica bem resolvido.
Nelson Motta também acha “correto separar projetos que têm funções distintas”:
— A função dos projetos comerciais é gerar lucro. Mas é preciso ter espaço para os experimentais.
O artista plástico Roberto Cabot observa um “erro de conceito” no plano de Leitão:
— Não acredito em cultura lucrativa e não-lucrativa. É preciso entender o que queremos que a cultura seja, e qual o papel dela. É perigoso ter critérios econômicos ditando isso. Se você ficar só no que é rentável, a cultura acaba.
E o fundador do Grupo Tá Na Rua, Amir Haddad, concorda:
— Me dá frio na espinha ver um secretário que busca uma “cultura competitiva” — diz. — Parece que diminui a importância da cultura. É urgente pensar em políticas públicas voltadas para as artes que não são regidas pelas leis de mercado. A arte e a cultura sempre foram públicas, depois é que privatizaram. Um gestor precisa ter essa consciência. (Colaborou Catharina Wrede)
novembro 26, 2012
Marcius Galan vence o Prêmio Pipa por Audrey Furlaneto, O Globo
Marcius Galan vence o Prêmio Pipa
Matéria de Audrey Furlaneto originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Globo em 26 de novembro de 2012.
Artista questionou ‘contrato’ da arte em mostra no MAM
Um dos principais prêmios de arte do país, o Pipa (Prêmio Investidor Profissional de Arte) anuncia hoje o vencedor de sua terceira edição, Marcius Galan. O artista, cujas obras questionam limites físicos e imaginários, foi o escolhido num processo iniciado no início do ano e que atraiu 117 candidatos de todo o país. Pelo prêmio, ele receberá R$ 100 mil e uma residência artística em Londres.
Nascido em 1972, nos Estados Unidos, e trazido pelos pais para Bauru quando tinha 1 ano, Galan é um dos principais nomes de sua geração. Já participou da Bienal de São Paulo, expôs no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio e no de São Paulo e fez várias individuais em galerias mundo afora.
Na exposição dos quatro finalistas do Pipa no MAM (além dele, disputaram a final Thiago Rocha Pitta, Matheus Rocha Pitta e Rodrigo Braga), o artista mostrou “Obra de arte em cinco vias e um contrato”, trabalho que ironiza as próprias regras de participação do prêmio e a mercantilização do mundo da arte.
A obra consiste em cinco folhas impressas que reproduzem uma nota fiscal, em cores variadas, destinada a pessoas e instituições diferentes: o MAM, o patrocinador do prêmio, curadores, público e artista. Junto, um contrato lista cláusulas de uso e comercialização, segundo as quais as obras podem ser doadas separadamente, mas vendidas apenas em conjunto.
O trabalho, enfim, obriga os envolvidos a entrarem num acordo sobre seu fim. Ao GLOBO, o próprio artista definiu a obra como “extremamente burocrática, uma crítica à organização da arte”.
No mesmo MAM, Galan apresentou, em 2010, a exposição “Interseção”. Nela, fazia o som de um lápis sobre uma página tomar o ambiente do museu. Uma de suas obras, “Seção diagonal”, de 2008, pode ser vista em Inhotim, dentro da galeria Mata. Lá, dividiu o ambiente com placas de vidro, alterando, assim, a percepção do espaço que o espectador tem num canto da galeria.
Além do prêmio principal, o Pipa divulgou recentemente os vencedores das demais categorias. Rodrigo Braga venceu o Voto Popular, no qual só concorrem os finalistas, já que quem vota é o público da exposição em cartaz no MAM. Braga expõe atualmente na 30ª Bienal de São Paulo.
Na categoria Pipa Online, Berna Reale foi a vencedora, com 4.500 votos. A paraense costuma fazer performances, o que já lhe rendeu o apelido de “Marina Abramovic do Pará”. Berna, que também é perita criminal, receberá R$ 10 mil pelo Pipa Online.
Vale Cultura suscita perguntas sobre a sua aplicação por Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo
Vale Cultura suscita perguntas sobre a sua aplicação
Matéria de Maria Eugênia de Menezes originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de . Paulo em 26 de noembro de 2012.
Defendido como prioridade pela ministra Marta Suplicy, projeto foi aprovado na Câmara
Defendido pela ministra Marta Suplicy como prioridade de sua gestão, o projeto do Vale Cultura foi aprovado na quarta-feira, 21, no plenário da Câmara dos Deputados. De lá, a matéria segue agora para o Senado e aprovação da presidente Dilma Rousseff.
Lançado com alarde em 2009, ainda durante a gestão do ex-ministro Juca Ferreira, o Vale Cultura concede um benefício de R$ 50 por mês a trabalhadores com renda mensal de até cinco salários mínimos (R$ 3.110). O dinheiro poderá ser gasto na aquisição de bens culturais, tais como livros, filmes e espetáculos de dança, teatro e música.
Ouvidos pelo Estado, produtores culturais e personalidades da área artística foram unânimes em saudar a iniciativa. Foi defendida como meio de democratizar o acesso. E celebrada, por outros, como forma de impulsionar o mercado cultural no País. "Constitui um avanço importante ao colocar na mão do público o poder de escolher o que consumir", opinou Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural.
Não faltam, porém, dúvidas sobre como o mecanismo vai funcionar. "Ainda não está clara a regulamentação das coisas, como vai ser realmente", observou Ivo Mesquita, diretor técnico da Pinacoteca do Estado.
Outro ponto que permanece nebuloso é a maneira como o dinheiro será repassado para os prestadores de serviço. O presidente da Associação dos Produtores Teatrais do Rio, Eduardo Barata, declarou se preocupar com os meios e o prazo em que se dará a reversão para quem está na ponta da cadeia produtiva: "Tudo do Estado costuma envolver uma burocracia infernal. Se o produtor receber o vale e o dinheiro só chegar três ou quatro meses depois, complica".
Também falta definição sobre qual será a forma física do vale. Sabe-se que a intenção é que ele tenha formato de cartão magnético, a ser produzido por entidades credenciadas pelo MinC. As empresas também podem ou não conceder o benefício. E os gastos (até 1%) com o vale poderão ser deduzidos do Imposto de Renda.
Um dos aspectos mais polêmicos da iniciativa é o critério de escolha do consumidor. Em um cenário inflado de opções de entretenimento meramente comercial, blockbusters e fenômenos de cultura de massa, não há garantias sobre como cada beneficiário irá empregar os R$ 50. A princípio, títulos de autoajuda ou ingressos para shows de axé, por exemplo estariam liberados.
"É claro que há riscos", acredita Danilo Miranda, diretor geral do Sesc-SP. "Mas muito mais perigoso e complicado seria querer estabelecer critérios limitativos, definir um censor. Prefiro sempre apostar na liberdade, na perspectiva de que essas questões sejam discutidas abertamente", disse ele.
Uma das promessas da ministra da Cultura é que o vale "irá beneficiar tanto consumidores de cultura quanto seus produtores, que passarão a ter um público maior". Afinal, apesar de seu inegável impacto sobre a produção cultural no Brasil, as leis de incentivo fiscal não foram capazes de criar um mercado suficientemente forte. O que se vê é uma situação de generalizada dependência: tanto dos setores alternativos quanto daqueles que, em teoria, poderiam ser considerados viáveis comercialmente.
A esperança de parcela dos empresários do setor é que o projeto funcione de forma complementar aos mecanismos existentes. "Será um complemento fantástico às leis de incentivo. Há décadas, quando o cinema vivia outra situação política e econômica, grandes bilheterias se faziam exatamente nas áreas mais populares. Isso vai beneficiar muito a produção nacional", defende Mariza Leão, produtora de filmes como De Pernas Pro Ar 1 e 2 e Meu Nome Não É Johnny.
Saron é outro que acredita que a proposta terá impacto que ultrapassa os consumidores. "Acredito que muitas produções e atividades vão começar a surgir para dar conta dessa escala de consumidores."
Sobre o assunto, Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura, falou ao Estado: "O Brasil, com a aprovação do Vale Cultura, dá um passo importante para garantir o acesso à cultura para milhões de pessoas e ampliar o público dos espetáculos de dança, livros, sessões de cinema, teatro. Estaremos, assim, fortalecendo a cultura do país e a economia cultural. O impacto positivo na vida social será imenso. Estamos dessa forma complementando o bom momento que o país vive, crescendo economicamente, fortalecendo nossa democracia e retirando milhões de pessoas da pobreza e permitindo que seja também, um momento de desenvolvimento cultural ao acesso de milhões de brasileiros. Os que contribuíram para este passo estão de parabéns!"/ COLABORARAM CAMILA MOLINA, FLAVIA GUERRA E ROBERTA PENNAFORT
Seminário repõe discussão sobre a produção de Pablo Picasso por Camila Molina, O Estado de S. Paulo
Seminário repõe discussão sobre a produção de Pablo Picasso
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 26 de novembro de 2012.
'Picasso: Outros Critérios' será realizado até quinta-feira, 29, no Teatro da Aliança Francesa
O quadro Les Demoiselles d'Avignon (1907), de Pablo Picasso (1881-1973), não é apenas considerado o "nascimento do cubismo", como também o marco de uma nova forma de relação entre a arte e a sexualidade "sem precedente na história da pintura". A afirmação da professora da Universidade de Ohio (EUA), Lisa Florman, refere-se ao impacto que foi, no início do século passado, a exibição, em Paris, de uma grande tela em que cinco mulheres do bordel da rua Avignon são retratadas frontalmente e por meio de um estilo provocador, em que se misturam figuras e traços de máscaras africanas e ancestrais.
Desde 1907 e até hoje, Les Demoiselles d'Avignon, que pertence ao acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York, é arrebatadora porque "nenhuma outra pintura moderna nos envolve com imediatismo tão brutal", como escreveu o crítico Leo Steinberg em seu ensaio fundamental O Bordel Filosófico (1972), justamente sobre o quadro do artista espanhol. Não apenas a célebre tela, como outros temas da obra do também criador de Guernica (1937) serão revistos agora no seminário Picasso: Outros Critérios, que ocorrerá entre esta segunda-feira, 26, e quinta-feira, 29, no Teatro da Aliança Francesa.
O evento organizado pelo Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da USP e o Centro Universitário Maria Antonia traz "uma geração renovada de críticos e historiadores da arte", como diz a professora Sônia Salzstein, para reexaminar Picasso e questões do modernismo. Especialistas estrangeiros e brasileiros trarão luz e novidade para temas diversos - e contemporâneos - sobre a produção do artista. A historiadora Lisa Florman, que falará na quinta-feira, 29, sobre a tradição e a inovação em Les Demoiselles d'Avignon no seminário, adianta algumas questões sobre Picasso e sua obra nos trechos da entrevista que concedeu ao Estado.
O teórico e professor Meyer Schapiro considera que "o fenômeno mais extraordinário em toda a história da arte nos últimos séculos" foi o fato de Picasso transitar por estilos, como o cubismo e o neoclassicismo, e resolver, simultaneamente, seus problemas como dois "aspectos de sua personalidade". A sra. concorda com essa ideia?
Lisa Florman - Sim, acredito que a heterogeneidade de Picasso é um dos aspectos mais importantes de sua arte, certamente, o mais influente. Quando Picasso começou a pintar, no fim do século 19 e entrou para o século 20, parecia que todos os artistas desenvolviam um estilo próprio (à la Van Gogh ou Gauguin). Picasso mudou essa ideia. Olhando hoje sua trajetória, há uma completa heterogeneidade de estilos e tipos de trabalhos produzidos a partir do legado de Picasso. A única objeção que faço à afirmação de Schapiro é a de que o artista personalizava seus assuntos. "Diferentes motivos inevitavelmente requerem diferentes modos de expressão", Picasso afirmou em 1923 a Marius de Zayas.
Les Demoiselles d'Avignon será o tema de sua palestra em São Paulo. À luz da análise de Leo Steinberg, quais as novas interpretações e teorias essa obra pode ainda provocar?
Lisa Florman - Penso que nenhuma interpretação vai substituir a de Steinberg. Muitos acadêmicos (incluindo Yve-Alain Bois, que vai falar amanhã) completaram a análise de Steinberg. Em minha fala, vou ressaltar a maneira como Les Demoiselles não foi produzida do nada, mas como uma forte interpretação das últimas banhistas pintadas por Cézanne. Acredito que Demoiselles tem muito de inédito a nos mostrar. É o que caracteriza sua importância, a de ainda gerar discussões. Acredito, ainda, que tem havido algumas interpretações terríveis sobre o quadro nos últimos 20 anos, como, por exemplo, a que imaginou que por Picasso ter usado máscaras africanas sobre os rostos das mulheres, elas teriam sido africanas (apesar de seus corpos rosas) e que isso atestava uma atitude sobre a questão racial na França no início do século passado.
A sra. considera Les Demoiselles d'Avignon a principal obra de Pablo Picasso?
Lisa Florman - Sim. Certamente, Guernica teve um tremendo impacto quando exibida, mas provavelmente mais por seu status político. Outros trabalhos (não pinturas) são extremamente influentes também, como Still Life with Chair Caning, sua primeira colagem, e a obra sobre papelão Guitarra, de 1912, que se apresentaram radicalmente diferentes, com uma aproximação construtiva e escultórica. É preciso ressaltar que Picasso trabalhou muitos meios.
É possível traçar algum paralelo entre a revolução que Picasso desencadeou com Les Demoiselles d'Avignon e a atual arte contemporânea? Acredita ser possível ser revolucionário hoje em dia? Vivemos um momento de transição histórica?
Lisa Florman - É uma boa pergunta, penso que só o tempo dirá. Precisamente, por a arte contemporânea ser tão mais heterogênea e o mundo da arte tão maior do que em 1907, penso que é difícil encontrar uma "revolução" comparável. Não consigo imaginar outro feito. É um pouco mais fácil pensar que a invenção de novos meios terão um impacto de longa-duração na produção artística (como foi a invenção da colagem por Picasso).
Uma das palestras vai traçar um paralelo entre a obra de Picasso e do artista contemporâneo Bruce Nauman a partir do tema o corpo e o grotesco. É possível relacionar outro contemporâneo com o artista moderno?
Lisa Florman - Além dessa rica questão sobre o corpo e o grotesco, outros temas podem também ser explorados, como o interesse contemporâneo pela relação física com a obra de arte (o que é um paralelo específico com Demoiselles); o impacto da colagem, incluindo o uso de materiais banais (até os trabalhos de Lygia Clark e Hélio Oiticica podem ser considerados a partir da perspectiva picassiana). Nossa habilidade de ver ecos de seus trabalhos em criadores recentes é uma das medidas de sua importância no presente. Mas alguns historiadores acreditam que Duchamp tenha sido o maior artista moderno e não posso discordar.
Poderia comentar como se deu sua primeira aproximação com a obra de Pablo Picasso?
Lisa Florman - É um pouco constrangedor dizer que não me lembro como se deu meu primeiro encontro com Picasso. Minha mãe se interessava por arte e sempre me levava aos museus. Minha memória mais viva de um "encontro" com o artista data do meu primeiro ano de graduação, quando li o ensaio de Leo Steinberg intitulado The Algerian Women and Picasso at Large, que está em sua coletânea Other Criteria. Qualquer dúvida que tive sobre ser historiadora de arte desapareceu nesse momento: o texto também me ajudou a sedimentar minha convicção de que queria estudar o século 20 e a obra de Picasso acima de tudo.
